A violência: uma contribuição a suas váriasi nterpretações – I. Parte

A violência: uma contribuição a suas váriasi nterpretações- I. Parte

A violência é crescente no mundo, particularmente depois das duas guerras contra o Afeganistão e o Iraque levadas a efeito pelos USA e seus aliados, após o atentado em 2001 às Torres Gêmeas em Nova York. Ela é particularmente forte no Brasil. Os fatos conhecidos de assaltos de rua e em prédios, de sequestros, de extermínio de crianças abandonadas e de chacinas por parte de grupos e até de policiais não podem ser entendidos como episódios. Suas raízes, como veremos, alcançam mais profundas.

O Brasil comparece como um dos países mais violentos do mundo. Só no ano de 2015 foram assassinados 66 mil pessoas, a maioria delas negros e habitantes pobres das periferias. Isso é mais que as vítimas das guerras do Iraque, do Afeganistão e atualmente da Síria.

Uma análise mais cuidadosa mostra uma conexão de tais fatos com a totalidade social. Esta é marcada por um modelo altamente predatório de capitalismo não civilizado, que leva a uma acumulação espantosa de riqueza à custa da degradação da força de trabalho, de falta de justiça social e da devastação da natureza.

O número dos excluídos é cada vez maior especialmente nesta fase atual de grande crise econômica e financeira (2015) associada à crise política, ética e de uma espantosa corrupção que envolve as grandes empreiteiras e empresas como a Petrobrás, a Eletronuclear e outras, além de parte significativa da classe política da Câmara e do Senado.

É um luxo hoje ser explorado pelo sistema do capital, que compra de forma aviltada a força de trabalho, remunerando-a miseravelmente com a pequena vantagem de, por lei, oferecer um mínimo de seguridade social. Apesar das políticas de inclusão dos governos Lula-Dilma há milhões que vivem no mercado informal, fora de qualquer benefício social que lhes tranquilize em relação ao futuro. Tal situação configura, objetivamente, um estado de violência. Mais que atos de violência, têm a ver com estruturas permanentes e continuadas de violência. Vamos analisar-lhes as causas por vários caminhos diferentes. É uma pequena contribuição ao tema tão presente e avassalador da realidade nacional e internacional.

                                                               PRIMEIRA PARTE

Causas Históricas: Um Pecado de Origem, Nosso Passado Escravocrata e Colonial.

O Brasil tem, no seu começo, um pecado original: a violência da conquista e da invasão. Fomos e continuamos a ser, de certa forma, colônia. A estratégia da atual globalização hegemonizada pelos países centrais é recolonizar toda a América Latina, quer dizer, reduzi-la a uma produtora e exportadora de commodities, reservando para si a invenção e a tecnologia, vendida cara para o resto do mundo.

De qualquer forma a colonização implica um ato de extrema violência organizada, sistemática e continuada: é colocar toda uma nação, com sua população, com sua cultura, com tudo o que tem, à depredação do outro. O colonizado assiste ao congelamento de sua história. É obrigado a internalizar o outro e o seu mundo de valores e a sua forma de ver o mundo, de organizar a sociedade e de pensar e venerar a divindade.

Todo poder totalitário cria um contra-poder, seja simbólico, seja real. A aceitação da dominação nunca foi pacífica. Nossa história está cheia de revoltas frustradas, mas nunca totalmente dominadas.

José Honório Rodrigues, em Conciliação e reforma, um desafio histórico-cultural (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965), conta a história brasileira a partir das vítimas. Destrói o mito do brasileiro como pacífico e cordial.

Na história pátria, observa ele, notamos o seguinte paradoxo:

“(…) a maioria dominante – conservadora ou liberal – foi sempre alienada, antiprogressista, antinacional e não contemporânea(…). A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao País, chamou-o de tudo – Jeca-Tatu -, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.16).

         Por outro lado, as maiores construções são fruto da ação popular:

“(…) a unidade linguística e política, a expansão e a integridade territoriais, a homogeneidade cultural, a tolerância racial e religiosa. No povo, não nas elites poderosas, prevaleceu o espírito de conciliação que atenuava os antagonismos raciais e sociais. Se a massa indígena e negra, mestiça e cabocla era nas relações humanas essencialmente conciliadora, era entretanto inconciliável nas relações políticas. Mostraram um rude inconformismo, que gerou grande derramamento de sangue, a ponto de Capistrano de Abreu escrever que no fim do período colonial, o povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado”(p.30).

         A história recente do Brasil está em continuidade com seu passado, sendo que quase sempre escrita apenas pela mão branca.   Nela não falaram – e, se falaram, não foram ouvidos – os negros, os índios, os mulatos, as mulheres e os pobres em geral.

Há ainda um agravante: temos vivido sob o modo de produção escravagista. É a maior violência que uma sociedade pode conhecer: a redução do outro a peça, a escravo, com senhorio de vida e morte sobre ele. Durante praticamente quatro séculos, convivemos com a escravidão. Tivemos apenas um século para desfazer suas perversas consequências. Procura-se desatar um nó que na verdade deve ser cortado, como se corta, de vez, um tumor.

Estudos sobre a escravidão urbana mostram as raízes de alguns hábitos culturais e policialescos ainda hoje existentes. O escravo urbano era alugado para serviços na rua e vigiado pela polícia no lugar do dono; por causa disso, a polícia comumente desconfia até hoje do negro e aplica-lhe violência quando o prende ou detém (cf. Leila Mezan Alegranti, O feitor ausente. Petrópolis: Vozes, 1988; Ronaldo Vainfas, Ideologia e escravidão: os letrados e a sociedade escravista no Brasil colonial. Petrópolis: Vozes, 1986). Importante é a obra de Jacob Gorender; A escravidão reabilitada (São Paulo: Ática, 1990), que critica a moderna produção histórico-social sobre o tema, que pretende mostrar a escravidão em tons mais benevolentes. Ao invés de rebeliões, resistência e acomodação, o regime escravocrata seria equitativo, doce, na linha do patriarcalismo pintado por Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freire. Gorender destrói o imaginário mistificador e reincidente dessa interpretação com dados irrefutáveis.

Na formação de uma sociedade urbana livre, a violência caracteriza o Estado em sua relação para com o movimento operário e sindical. Maus tratos e torturas eram frequentes contra operários e líderes sindicais. Se brasileiros, eram desterrados para lugares longínquos (Ilha Grande, Fernando de Noronha, etc.); se estrangeiros, eram devolvidos aos países de origem.

A sociedade mostra uma contradição absurda: por um lado, não consegue criar emprego para todos; e por outro, prende, por vadiagem, aqueles que encontra na rua e que não conseguem mostrar uma carteira de trabalho assinada. O Estado detém, sabidamente, o uso legítimo da violência. Mas aqui há um uso injusto e perverso que contradiz a legitimidade do Estado como Estado Democrático de Direito, fruto de um pacto social de cidadania que ganhou corpo na Constituição de 1988.

A questão social foi, durante muito tempo, tratada como caso de polícia, e não como caso político. Em alguns lugares, a polícia prende e maltrata quem se enquadra em algum dos seguintes “pês: pobre, preto e prostituta. O grave reside nisto: essa violência histórica, na base da dominação do outro e de sua escravização, formou a subjetividade coletiva de nossas elites. Elas criaram a mentalidade de que o povo nada vale; de que o negro deve ser tratado com violência, porque sempre foi assim; de que, na verdade, não deveria receber nada, nem o salário mínimo, pois historicamente sempre serviu gratuitamente aos senhores. E entendem o salário como ato de generosidade por parte do patrão, e não como expressão de justiça. O mecanismo de violência social reside, primeiramente, nas estruturas mentais da classe dominante.

Resumindo, numa palavra: violenta foi a conquista, violenta foi a relação para com o índio, violenta a relação para com o negro, violenta para com o trabalhador organizado, violenta para com todos os que quiseram mudar esta situação e sempre violente os pobres até os dias atuais.

Causas Culturais da Violência

A cultura hoje dominante foi imposta pelos dominadores históricos do povo brasileiro; por isso é dominante. O eixo estruturador dessa cultura, como foi visto há muito pelos filósofos sociais, é a vontade de poder/dominação. Usou-se a violência dura como forma de manter a dominação; e depois a doce, para garantir a hegemonia. É socialmente aceito o uso da violência nesse tipo de cultura dominante.Importa reconhecer que a permanência do modo de produção capitalista se reproduz e se prolonga graças aqo que criou e globalizou: a cultura do capital com seu produtivismo e consumismo.

Essa dominação obriga a três atitudes: ou ao submetimento para sobreviver, implicando a traição da própria história; ou a resistência, a rebelião e a clandestinidade, com a consequente possibilidade de perseguição, de cárcere, de tortura e de morte; ou o disfarce, o simulacro e o “jeitinho”- sobrevive adaptando-se e, ao mesmo tempo, aproveitando todos os espaços, frestas e contradições da dominação para manter e preservar a própria identidade.

Criou-se uma cultura do medo, hoje dominante; cultura da segurança dos grupos abastados, das grades, do exército paralelo de defesa dos opulentos, causadores do conflito básico da sociedade. E do outro lado, gangues, organizações de assaltantes, crime organizado. Essas duas realidades se implicam dialeticamente.

Há uma cultura da corrupção de colarinho branco. Há o mundo do crime organizado no estrato empresarial. No mercado e dentro do próprio aparelho de Estado. Essa política, para ser efetiva, necessita corromper a imprensa, a justiça, as autoridades de controle e a polícia. É o que foi visto de forma exemplar com o chamado “petrolão”, a corrupção em altíssimo grau na Petrobrás e em praticamente em todas as empresas, com corruptor e corruptores e seus mediadores os doleiros.

Há, também, dialeticamente, um outro tipo de violência, que vem das organizações da criminalidade, baseadas na vontade de enriquecer por meio do crime ou mediante o tráfico de drogas, o jogo e a venda de armas e produtos importados. Esta é movida por propósitos individualistas de enriquecimento rápido e pela busca desenfreada de prazer. Aqui funcionam duas regras básicas: a da força bruta das armas de fogo, cada vez mais potentes e sofisticadas, e a posse de muito dinheiro, com o qual tudo se compra.

Há hoje quadrilhas, nos grandes centros urbanos, que se articulam numa organização central; há hierarquia, e os cabeças devem obediência a comandos mais altos. Ali se decide sobre a vida e a morte dos membros das várias gangues. Vigora uma lógica de submetimento total; caso contrário, funciona o mecanismo da eliminação física. Mata-se para mostrar coragem e disposição; mata-se pelo prazer de matar; mata-se para eliminar um adversário do amigo, e assim dar-lhe um agrado ou fazer-lhe uma surpresa; mata-se por qualquer erro, porque deu “derrame”, deu “volta”, porque criou incômodo no arranjo de poder das quadrilhas. A relação do chefe com os subordinados é de total dominação, respectivamente de dependência. Nas guerras entre quadrilhas, produz-se um verdadeiro extermínio de um e de outro lado. A lógica é a da guerra total. No conjunto da CEHAB, no Rio (com 150 mil habitantes), em 13 anos morreram 722 jovens com idade entre 13 e 25 anos (Cf. Alba Zaluar, A criminalização de drogas e o reencantamento do mal. In: Revista do Rio de Janeiro, UERJ, n. 1, 1993, p. 8-15; aqui, 12).

Causas Políticas Da Violência: A Sociedade de Exclusões

         O tipo de sociedade vigente vem organizada na espoliação violenta da mais-valia do trabalho e na exclusão de grande parte da população. O conflito real é entre o capital e o trabalho, que dá origem a uma espantosa desigualdade social e a uma desenfreada luta de classes, com a dominação permanente dos donos do poder desde o início de nossa história. Essa luta cria violência em todos os campos:

  • no campo econômico, com os baixos salários e a privatização da verba pública;
  • no campo político, mediante a produção de uma cidadania menor, que se expressa pela corrida aos cargos públicos por parte dos partidos que dão sustentação ao governo e se valem de benesses públicas; pelos sindicatos pelegos, cooptados ou desnaturados em sua função; pela guerra no campo por falta de reforma agrária e devido às dificuldades de organização participativa;
  • no campo cultural, pelo desprezo à cultura popular e pela dominação da cultura da mídia de massa sobre a população, influenciada pelos estereótipos da cultura globalizada de origem norte-americana;
  • no campo religioso, pelo não-reconhecimento das religiões populares, afros; pela manipulação dos sentimentos religiosos do povo por líderes que transformam os templos em verdadeiras casas de câmbio ou em programas de televisão que propiciam o fundamentalismo e à guerra religiosa; e ainda pela folclorização da piedade popular;
  • no campo educacional, com a escola negada a milhões de pessoas, o que explica o alto índice de analfabetismo real ou funcional e com os professores desestimulados;
  • no campo sanitário, pela falta de cuidado com a saúde do povo, sem hospitais, postos de saúde, remédios e dentistas apesar da criação do SUS e das UPAS. O Brasil real é feito de doentes e de sobreviventes da grande tribulação que os afeta secularmente.

A modernização conservadora, sob a influência do ajustes estruturais, leva a substituir a preocupação pelo desenvolvimento por aquela da estabilização e do combate à inflação sempre beneficiando o mercado e as grandes fortunas. Segundo dados do IBGE de 2013 são 10% da população que controlam 42% renda nacional. Jessé de Souza fornece-nos o número, exatamente 77.440 pessoas de biblionários que influenciam as políticas oficiais, pressionam o Estado e o Parlamento, constituindo o verdadeiro poder oculto do país (Jessé Souza, A tolice da inteligência brasileira, Leya 2015).

Quando vê seus interesses contrariados, não lhes custa, de tempos em tempo, passar por cima da Constituição e dar um golpe de classe, seja usando a força militar como em 1964, seja como em 2016 o impeachment de uma Presidenta eleita, Dilma Rousseff com mais de 54 milhões de votos, contra a qual, pessoalmente não se pode apontar nenhum crime, usando o Parlamento e o Judiciário.

Pouco considera os custos sociais (congelamento da miséria e a pobreza); cobra a integração econômica no mercado mundial, com descaso pela soberania nacional e popular; impõe um diálogo Norte-Sul, mas exclui da agenda os temas da fome mundial, da dívida externa e seus perversos efeitos sociais e atualmente a grave questão do aquecimento global e a degradação crescente das bases físico-químicas que sustentam a vida.

Todo esse processo tem por efeito prolongar a herança trágica e exclusão de milhões de brasileiros que, para sobreviver, têm de continuamente cometer o ilegal, viver do comércio informal, de pequenos roubos e delitos. Sobre eles caem pesadas punições legais e sociais (cf. Ribeiro, H. A identidade do brasileiro: capado, sangrado e festeiro. Petrópolis: Vozes, 1994).

Causas Psicossociais da Violência: O Desejo de Compensação

As classes dominantes internalizaram dentro de si a convicção de que elas tudo podem. E de que são impunes. O autoritarismo ligado à impunidade e, por isso, à corrupção, que tudo acoberta, é uma das origens da violência, como o viu bem a pesquisadora Alba Zaluar (cf. Estatísticas macabras. In: Jornal do Brasil de 1.9.1994, p. 11).

As classes dominadas internalizaram o caráter violento, injusto e desigual de sua situação. Elas não veem seu direito à segurança realizado; têm de se defender por si mesmas. Usam da violência – que, na verdade, é antiviolência, reação a uma violência anterior – como estratégia de sobrevivência e também como meio político de recuperar o que lhes foi negado ou expropriado. Vingam-se assaltando e destruindo. Esse processo, geralmente, não é conscientizado nem racionalizado pelas classes dominadas, no sentido de ser fruto de uma reflexão anterior. É uma reação da lógica do inconsciente, que busca uma compensação e até uma vingança pelo mal de que foram vítimas. Psicanalistas enfatizaram esse tipo de violência (cf. R. Amoretti (org). Psicanálise e violência. Petrópolis: Vozes, 1992)

Rubem Fonseca retratou bem essa situação no seu livro de contos O cobrador (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979). O personagem é um empobrecido da classe média, também chamado na linguagem comum de “marginal”, por praticar atos ilícitos. Ele entende ser sua missão conquistar à força o que julga ter-lhe sido roubado pela sociedade dominante. Por isso, diz:

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol. Estão me devendo meia, cinema, filé mignon… Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume… Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo” (p. 168, 174, 176, 181).

Aqui há o princípio de um pensamento social construído a partir da criminalidade social. Descobre-se a sociedade de desiguais como causadora da pobreza. Usa-se ainda a força individual, a fim de alcançar a compensação para interesse particular. É uma visão individualista. Por isso, ela não é revolucionária. Na verdade, ela reforça uma visão conservadora, porque, se por um lado questiona a estrutura social iníqua – o que é um problema político -, por outro, não percebe que esta deve ser mudada coletivamente para impedir a perpetuação da injustiça e da desigualdade. O indivíduo busca o seu, pela violência, para se compensar, sem mudar nada no sistema. Um problema político demanda uma solução política, e não meramente individualista.

Político seria organizar grupos marginais no sentido de querer transformar semelhante sociedade mediante processos de conscientização e criação de “organizações orgânicas”, com práticas transformadoras, a partir de um projeto de nova sociedade. Esse discurso apenas apontou em alguns líderes “marginais”, como, há tempos, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ao serem presos após um enfrentamento com policiais, declararam que as favelas precisavam de um Lenin e de um Che Guevara. Numa palavra: de revolucionários para instaurar uma nova sociedade sem favelas. Dias após foram todos mortos.

Mas a burguesia e o Estado temem exatamente esse tipo de raciocínio. Pois este, sim, é revolucionário e os ameaça como um todo. Enquanto ficar individualizada, a violência não mete medo. Pelo contrário, o Estado pode aplicar tranquilamente as leis e punir os marginais. E a burguesia se sente segura em sua ordem que, na verdade, é ordem político-jurídica dentro de uma grande desordem social da qual ela é sua principal causa.

A burguesia gosta de dramatizar a violência pelos jornais, pela TV, mostrando os níveis de perversidade dos crimes e o número de vítimas feitas. Consegue elevar a violência urbana ao nível de problema nacional e, num certo tempo, de segurança nacional.

Na verdade, olhando-se os números, morre muito mais gente em acidentes de tráfego (cerca de 50 mil anualmente), em acidentes de trabalho e em consequência da fome e das doenças da fome do que vítimas de assaltos. Aqueles números não ameaçam os detentores do sistema e a ordem que os beneficia. Tal realidade violenta, que mata a cada minuto, não é dramatizada, e por isso é feita socialmente suportável.

A violência urbana vem dramatizada visando a um efeito político: conseguir a perseguição, a prisão e eventualmente a morte dos criminosos. Dessa forma, a classe dominante consegue fazer esquecer que ela está assentada sobre uma violência originária, provocada por ela mesma. Encontra bodes expiatórios nos criminosos comuns. Daí a importância da vigilância, do controle e da repressão, com aparato e circunstância, sobre as populações periféricas ou “marginais” ao sistema. (cf. L. Moscatelli. Política da repressão: força e poder de uma justiça de classe. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982).

Causas Individuais da Violência: a Agressividade humana

Há também violência por razões subjetivas em pessoas individuais e em grupos. É conhecida uma clássica discussão científica sobre a origem da agressividade humana. Freud, Einstein. Lorenz, Fromm e outros a abordaram explicitamente. Ultimamente, René Girard, como abordaremos com mais detalhe, pretende estabelecer a arqueologia da violência social.

Para Freud, a agressividade é expressão da dramaticidade da vida humana, cujo motor é a luta renhida entre o princípio de vida (eros) e o princípio de morte (thánatos). Sentindo-se ameaçada, a pessoa se antecipa e agride ou eventualmente mata a outra. Para Freud, é impossível aos humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas por leis, pela religião, pela educação e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos (cf. Sobre mais além do princípio do prazer. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 5).

Para Lorenz, a agressividade é um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a razão construiu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializa sua força e assim pode se impor aos demais. E criou-se uma lógica própria da violência. A solução é encontrar substitutivos: voltar à razão dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodomínio crítico do próprio entusiasmo que leva à cegueira e, daí, à eliminação dos outros.

Mas Lorenz reconhece que a guerra somente desaparecerá quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a força bruta (cf. Das sogenannte Böse: Zur Naturgeschichte der Aggression. Viena, 1964).

Essa reflexão nos reconduz ao chão da história. Devemos ser realistas. Da forma como o ser humano está cultural e socialmente estruturado, ele traz consigo consideráveis fatores de violência objetiva. Estes poderão ser minimizados, controlados, mas não totalmente eliminados. E assim chegamos a um ponto radical da análise que importa enfrentar: a raiz originária da violência, a a estrutura do desejo humano articulado para a rivalidade e que gera, assim, conflito e violência. Além disso verificou-se historicamente a ruptura da re-ligação com todas as coisas, tornando-nos inimigos delas e assim passaos a agredi-ls. Analisemos essas perspectivas.

A causa profunda da Violência: A Hipótese no Desejo Mimético

O formulador dessa interpretação é René Girard (1923-), professor de Letras, antropólogo e filósofo francês que vive nos EUA (A violência e o sagrado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982; Des choses cachées depuis la fondation du monde. Paris: Grasset, 1978, e outros). Vamos nos deter com mais detalhe nesta interpretação pois possui alto valor explicativo.  Analisando grandes obras literárias e mitos transculturais, Girard observou o seguinte mecanismo: na raiz de tudo, está a estrutura do desejo humano, coisa que os grandes mestres e pensadores sempre viram (Isaías, Aristóteles, Freud, sábios budistas…). O desejo constitui a grande mola propulsora das transformações e da busca do novo.

Mas há uma particularidade, observa Girard, que escapou à análise, geralmente de cunho privatista e subjetivista: no desejo não há apenas dois termos, o sujeito desejante e o objeto desejado; há sempre o outro, o terceiro, que, segundo Girard, funciona como rival. O rival deseja o mesmo objeto que o outro, não por acaso ou por mera coincidência, mas por uma estrutura de fundo, ligada ao próprio desejo humano. Este é tendencialmente infinito. Deseja-se não somente isto e aquilo, mas a totalidade, tudo. É um projeto aberto ao infinito.

Por isso, o ser humano não sabe concretamente o que deseja. O ser, o todo, a parte? Aristóteles já observava que o objeto do desejo é o ápeiron, o todo indeterminado. Por essa porta, entra Girard ao dizer: o desejo se determina somente a partir do rival. Cada pessoa deixa o vago e ganha configuração concreta. Portanto, o desejo é essencialmente mimético. Eis a palavra-chave de Girard: o desejo mimético (mimesis = imitação). O ser humano desejo o que o outro deseja. Um imita o outro.

O desejo mimético, entretanto, é gerador de conflito, pois os dois desejam o mesmo objeto. Entram em rivalidade. Cada um quer tomar exclusivamente para si o objeto e com isso realizar o seu desejo. Para tal efeito, sente-se obrigado a excluir o outro. Esse conflito se agiganta quando entram grupos que coletivamente desejam. Quanto mais pessoas e grupos desejam o mesmo objeto, mais cresce a rivalidade, mais aumenta o conflito, mais se aguça a violência.

O desejo mimético funciona como um feedback: eu imito meu rival; meu rival me imita. O modelo vai tornar-se o modelo de seu modelo. Então, tudo se torna recíproco. Por que essa reciprocidade? pergunta-se Girard. Ele constata que essa reciprocidade, no bem e no mal, nunca foi devidamente analisada pelos antropólogos que dela se ocupam. A partir dela, surge a seguinte lógica: quanto mais se deseja o mesmo objeto, mais se procura imitar o outro e mais e mais se procura destruir o outro, ou destruir o objeto desejado pelo outro ou por todos os outros.

O auge do mimetismo e, com isso, o auge da violência, é alcançado quando os rivais se unem e criam a unanimidade mimética. Todos se unem contra um só, sobre o qual todos realizam o bouling e descarregam sua violência. Os muitos têm diante de si apenas um rival, que importa abater. Ele será a vítima.

O desejo mimético é, pois, essencialmente vitimatório. Produz vítimas por todos os campos onde se expressa o desejo concorrencial humano.

O processo vitimatório é extremamente fecundo. Para Girard, a produção da vítima funda a sociedade e a cultura. Vejamos as razões dessa surpreendente afirmação.

Quando todos (menos um, feito vítima) se unem para descarregar a violência em cima da vítima, criam uma comunidade. Descarregam toda a violência em cima dela. Disso resulta a paz e a harmonia, vistas como graça alcançada pela própria vítima, que, com sua morte, trouxe tal benefício. A vítima aparece como causa da desordem (todos se unem para eliminá-la) e, ao mesmo tempo, causa do retorno da ordem (porque agora, morta, não ameaça a mais ninguém, e todos desaguaram sobre ela sua violência e assim se apaziguaram).

Girard afirma que a criação da vítima (o bode expiatório) é fundadora da comunidade e da cultura. Todos se unem para punir a vítima. A razão reside nisso: se a violência fosse deixada por si mesma, criar-se-ia uma cadeia ininterrupta de violência e de vingança. Um teria de matar o outro, porque esse outro, matou, e assim indefinidamente, como, aliás, aparece claramente nas tragédias gregas. A criação da vítima faz com que todos descarreguem a violência nela, e assim se constitui a comunidade sem violência autodevoradora.

Os gregos chamavam de phármakos (donde vem a palavra farmácia, loja de produtos curativos e farmacêuticos) às vítimas humanas. Eram pessoas que a sociedade mantinha a expensas do erário e que eram sacrificadas em momentos de crise. Nessa ocasião, eram levadas pelas ruas, em todos os cantos da cidade, para absorver as impurezas do ambiente. Eram pessoas a um tempo desprezíveis e respeitáveis. Desprezíveis porque incorporavam toda a perversidade da comunidade. Respeitáveis porque, mediante a sua sacrificação, alcançar-se-ia o apaziguamento da comunidade. Com sua sacrificação, produzir-se-ia um efeito “farmacêutico”, isto é, curativo. Toda a hostilidade e violência latente da cidade ficava drenada e apaziguada pela vítima.

Inicialmente, sacrificava-se um filho, um deficiente físico, um prisioneiro, um escravo, enfim, alguém da família humana. Depois, substituiu-se a vítima por um animal que guardasse certa analogia com os humanos – o cordeiro ou o bode expiatório em quem se pudesse descarregar toda a vingança. A vítima tem sempre uma função vicária: ela está no lugar de toda a comunidade, que, ao descarregar sobre ela sua violência, chega à paz e à concórdia social.

Com o processo civilizatório, procurou-se substituir a vítima pela lei. Não basta sacrificar de vez em quando. O processo do desejo mimético sempre está ativo. Então surge a lei, que cria o interdito e a proibição, e destarte se rompe a cadeia da violência e da vingança. A lei cumpre a função de ordem social. A comunidade, agora, em vez de matar as pessoas (vítimas), aplica-lhes as leis e as penas da lei. Com isso, a sociedade se apazigua, como outrora, quando matava de verdade. Agora mata simbolicamente, impondo penas, isolando as pessoas em cadeias e, em casos-limite, condenando-as legalmente à morte.

Nessa passagem do sacrifício à lei, cria-se, segundo Girard, o rito. Pelo rito se recorda e se celebra o benefício que a vítima trouxe com sua morte; vale dizer, a paz, o apaziguamento e a coes         ao da comunidade. Por fim, elabora-se o mito, que é a narração plástica e dramática de todo esse processo ritualizado.

Lei, rito e mito, consoante René Girard, estão na base de toda cultura e das instituições que dela derivam. Essas três pilastras visam a fechar a boca da vítima; são construídas pelos que sacrificaram a vítima e a mantêm como vítima.

Hoje não fazemos sacrifícios como outrora. Mas temos também nossas vítimas, dentro de mecanismos sacrificialistas quem sabe até mais perversos. Como tese geral, devemos dizer: onde há instituições, rebrota a violência. As instituições são sistemas auto-reguladores e sacrificiais.   Punem, excluem e até eliminam quem não se ajusta a elas. Elas concretizam leis e normas estruturadas, possuem seus ritos e elaboram um mito justificador de sua fundação.

Especialmente sacrificiais são, na atualidade, o sistema econômico e o mercado. Já Adam Smith, pai da economia política, dizia: toda sociedade civilizada deixa morrer aqueles que não chegam a garantir sua subsistência. Quem está no sistema, no conjunto articulado de leis, normas e instituições, vive; quem não está, é alijado e morre.

A harmonia, portanto, está baseada em algo terrível: deixar morrer aqueles que não entram na harmonia. Então, a ordem instituída produz desordem. E vive como ordem na medida em que exclui todos os que não são capazes de entrar nela e nela se manter. Assim é no mercado auto-regulador: quem é forte no mercado, vive e progride; quem é fraco, é apeado, eliminado e excluído do mercado. Quando, portanto, celebra-se a capacidade auto-reguladora do mercado, significa que se está celebrando sua sacrificialidade. O desemprego é necessário para salvar empresas. Poupar empregados, não demiti-los é ser não-sacrificialista. Mas há um preço: ser ineficaz, ficar economicamente fraco, perder na concorrência e se auto-sacrificar, morrendo empresarialmente.

Nesta mesma lógica, cobrar a dívida externa implica gerar um genocídio inconsciente. Por ter de pagar a dívida externa, um governo vê-se obrigado a reduzir os investimentos sociais – em merendas nas escolas, em saúde pública, em saneamento básico (investimentos sem retorno financeiro, apenas social), em segurança -, o que produz a doença e a morte de muitíssimas pessoas, sobretudo velhos e crianças.

Como, entretanto, argumentam os representantes do sistema financeiro? Seria irresponsável não cobrar a dívida externa. Finalmente, há contratos em jogo e existe uma legislação internacional. Ninguém, na esfera dos negócios, dá nada a ninguém. Logo, cobremo-la. Em outras palavras: seria irresponsável não querermos o genocídio implícito. Permitamo-lo. Bem como os nazistas argumentavam: é irresponsável não matar judeus. Existe a legislação sobre a pureza racial. Portanto, matemo-los. É legal. Mas é justo?

Aqui aparece o mecanismo sacrificialista do sistema econômico atual em sua forma contemporânea, neoliberal e mundializada (cf. F. Hinkelhammert. La lógica de la expulsíon del mercado capitalista y el proyecto de liberación. Costa Rica: Pasos, 1992). Ele sacrifica mais pessoas do que os astecas sacrificaram nas pirâmides ou os cananeus à sua estátua de Moloc. Ocorre que os agentes do mercado não reconhecem tal fato. Mas o níveis de miséria, fome e exclusão dos países empobrecidos o comprova irrefutavelmente, pelos índices dos mesmos organismos do mercado, como o Banco Mundial e o FMI.

Aqui caberia uma palavra sobre a necessidade da planificação ao lado do livre mercado auto-regulador. O mercado se auto-regula à custa de sacrifícios crescentes. É função do Estado, como gerenciador do bem comum, numa perspectiva realista, planificar, a fim de reduzir essa voracidade a níveis suportáveis, particularmente em três áreas: garantindo pleno emprego (tendencialmente), cuidando da distribuição da renda e zelando pela preservação da natureza.

A essência ética da opção socialista democrática reside nisso: em não entregar aos mecanismos pretensamente auto-reguladores do mercado a consecução das metas sociais fundamentais. Pelo socialismo democrático se pretender garantir razoavelmente o princípio da destinação comum dos bens da natureza, inclusive os frutos do trabalho humano, formando o bem comum social e ecológico. A crise de 2007-2008 mostrou a falácia do mercado autoregulador. O colapso do Banco Lehman Brothers que levou a uma crise generalizada econômico-financeira foi superado pela intervenção do Estado que impediu a ruina do sistema do capital.

A teoria de Girard acerca do desejo mimético nos permite entender melhor os mecanismos de reprodução da violência. A violência dos marginalizados e oprimidos é reflexo mimético da violência primeira e modelar das classes dominantes, que impedem a realização do desejo das maiorias. Os oprimidos são violentos porque se encontram, à sua revelia, enquadrados numa sociedade violenta. Eles são feitos vítimas sobre as quais a classe dominante descarrega toda a sua violência e elabora a paz entre os lobos. Sua violência é uma reação a uma violência primeira.

A classe dominante (e é dominante porque usa permanentemente a violência), inventa continuamente bodes expiatórios. Precisa inventá-los para esconder sua própria violência. Ora são os pobres, ora os negros, ora os sem-terra, ora os marxistas, ora os subversivos, ora os golpistas ora a Igreja progressista, ora as esquerdas, ora os refratários à modernização neoliberal e à privatização. Objetivando aniquilar a vítima, pode descarregar sobre ela sua violência, aplicar-lhe as leis, puni-la de mil formas, até pela exclusão sistemática do processo de produção e consumo, como vem ocorrendo atualmente em nível mundial. Mais ainda: cria uma interpretação ideológica da situação de permanente crise do Brasil, no sentido de ela ser consequência da escravidão, da miscigenação, do nosso substrato latino-católico-medieval. Tais álibis visam a ocultar o fato de que é ela a causadora principal (não exclusiva) da herança de exclusão que estigmatiza historicamente nossa realidade social.

Na verdade, se bem olharmos, os únicos que trabalharam de fato, de sol a sol, e construíram quase tudo o que existe neste País foram os negros, um dia escravizados. Hoje eles são difamados como preguiçosos, vadios, refratários a todo tipo de trabalho, só pensando em carnaval e em samba. Trata-se de profunda injustiça e mentira histórica. Mas são recursos do desejo mimético das classes dominantes, criando bodes expiatórios para mascarar a própria violência e ocultar a falta de solidariedade e de sentido de justiça histórica com as quais se reparariam as perversidades perpetradas contra os negros e os pobres na história do Brasil.

Por outro lado, as vítimas coletivas não aceitam essa condenação e procuram se defender dentro do mesmo círculo férreo de violência, agora de antiviolência mimética. O círculo fica sempre vicioso, sem chances de ser virtuoso. Isso implicaria uma revolução nas relações sociais, baseadas não mais no desejo mimético, mas no desejo solidário e comunitário.

Certamente, não é fatal que o terceiro, o rival que também deseja, deseja só para si, com exclusão do outro. Há uma atitude alternativa. Ele pode entrar numa parceria com os outros desejantes. Pode construir a solidariedade e a comunhão ao redor do mesmo objeto desejado. Emergiria então outro tipo de sociedade originária; não violenta, mas solidária; não individualista, mas comunional; não dilacerada, mas integrada.

René Girard entrevê no fenômeno cristão a superação da prática sacrificialista. Jesus inaugura outro desejo mimético (desiderio desideravi…desejei ardentemente comer esta páscoa convosco”, do evangelho de Lucas 22,15), aquele da doação e da auto-entrega. Ao sacrifício que elimina o outro, Jesus apresenta o dom de si, livre, amoroso e total, a ponto de se auto-sacrificar por ele. Essa atitude, que rompe a violência, inaugura uma nova comunhão e uma nova comunidade humana, na qual a colaboração, na qual a colaboração e o amor são a lei e a norma. A competitividade é somente o sentido do melhor e do mais generoso em função de todos.

A causa última da violência sistêmica: a ruptura da re-ligação universal

Temos considerado as várias interpretações da violência de caráter generalizado e, de certa forma, misterioso. Mas temos que chegar à última: a ruptura permanente da re-ligação básica que o ser humano introduziu, alimentou e perpetuou com o conjunto do universo e com seu Criador. É aqui que tem o seu lugar a reflexão teológica que possui séculos de existência e que ocupou as mentes mais brilhantes do pensamento, como um Orígenes, um Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e modernamente Karl Barth e Karl Rahner.

Temos a ver aqui com uma dimensão profundamente misteriosa e trágica da história humana e universal. A tradição judeo-cristã chama a essa frustração fundamental de pecado do mundo e a teologia no seguimento de Santo Agostinho que inventou esta expressão: pecado original ou queda original. O original aqui não não tem nada a ver com as origens históricas deste anti-fenômeno, portanto, ao ontem. Mas ao que é originário no ser humano, ao que afeta seu fundamento e sentido radical de ser, portanto, ao agora de sua condição humana.

Pecado também não pode ser reduzido a uma mera dimensão moral ou a um ato falho do ser humano. Temos a ver com uma atitude globalizadora, portanto, com uma subversão de todas as relações nas quais ele está inserido. Trata-se de uma dimensão ontológica que concerne ao ser humano, entendido como um nó de relações. Esse nó se encontra distorcido e viciado, prejudicando todos os tipos de relação.

Importa enfatizar que o pecado original é uma interpretação de uma experiência fundamental, uma resposta a um enigma desafiante. Por exemplo, existe o esplendor de uma cerejeira em flor no Japão e simultaneamente um tsunami em Fukushima que tudo arrasa. Existe uma Madre Teresa de Calcutá que salva moribundos das ruas e um Hitler que envia seis milhões de judeus para as câmaras de gás. Por que esta contradição? Os filósofos e os teólogos continuam quebrando a cabeça para encontrar uma resposta. E até hoje não a encontraram.

Sem entrar nas muitas possíveis interpretações, assumimos uma, pois ganha mais e mais o consenso dos pensadores religiosos: a imperfeição como momento do processo evolucionário. Numa formulação vinda da matemática mas aplicável a toda a realidade: o teorema de Gödel da implenitude te todas as coisas. Nada está completo e fechado. A equação nunca se fecha totalmente.

Teologicamente falando, Deus não criou o universo pronto uma vez por todas, um acontecimento passado, rotundamente perfeito. Senão deslanchou um processo em aberto e perfectível que fará uma caminhada rumo a formas cada vez mais complexas, sutis e perfeitas. Esperamos que um dia chegará a seu ponto Ômega.

A imperfeição não é um defeito mas uma marca da evolução. Ela não traduz o desígnio último de Deus sobre sua criação, mas um momento dentro de um imenso processo. O paraíso terrestre não significa saudade de uma idade de ouro perdida, mas a promessa de um futuro que ainda virá. A primeira página das Escrituras, na verdade, é a última. Vem no começo como uma espécie de maquete do futuro, para que os leitores/as se encham de esperança acerca do fim bom de toda a criação.

São Paulo via a condição decaída da criação como um submetimendo “à vaidade” (mataiótes), não por causa do ser humano, mas por causa de Deus mesmo. O sentido exegético de “vaidade” aponta para o processo de amadurecimento. A natureza não alcançou ainda sua maturidade. Por isso na fase atual se encontra ainda longe da meta a ser alcançada. Daí que a “criação inteira geme até o presente e sofre dores de parto”( Rm 8,22). O ser humano participa deste processo de amadurecimento, gemendo também (Rm 8, 23).

A criação inteira espera ansiosa pelo pleno amadurecimento dos filhos e filhas de Deus. Pois entre eles e resto da criação vigora uma profunda interdependência e re-ligação Quando isso ocorrer, a criação chega também a sua maturidade, pois, como diz Paulo, “participará da gloriosa liberdade dos filhos e filhas de Deus” (Cf. Rm 8, 20).

Então se realiza o desígnio terminal de Deus. Somente agora Deus poderá proferir a esperada palavra: “e viu que tudo era bom”. Por ora, estas palavras são profecias e promessas para o futuro, porque nem tudo é bom. Bem disse o filósofo Ernst Bloch, o do princípio esperança: “o gênesis está no fim e não no começo”. O atraso do ser humano no seu amadurecimento implica no atraso da criação. Seu avanço implica um avanço da totalidade. Ele pode ser um instrumento de libertação ou de emperramento do processo evolucionário.

É aqui que reside o drama: evolução quando chega ao nível humano, alcança o patamar da consciência e da liberdade. O ser humano foi criado criador. Pode intervir na natureza para o bem, cuidando dela ou para o mal devastando-a. Ele começou, quem sabe, desde o surgimento do homo habilis há 2,7 milhões de anos, quando ele criou o instrumento com o qual intervinha sem respeitar nos ritmos da natureza. No começo podia ser apenas um ato. Mas a repetição criou uma atitude de falta de cuidado. Ao invés de estar junto com as coisas, convivendo, colocou-se acima delas, dominando. E houve um crescendo até aos dias atuais.

Com isso rompeu com a solidariedade natural entre todos os seres. Contradisse o desígnio do Criador que quis o ser humano como con-criador e que por seu gênio completasse a criação imperfeita. Este colocou-se no lugar de Deus. Sentiu-se pela força da inteligência e da vontade um pequeno “deus” e comportar-se como se fora Deus de verdade. Nessa hybris, nessa arrogância se encontra a raiz última da agressividade e da violência.

Esta é a grande ruptura com a natureza e com o Criador que subjaz à estrutura de todas as socidades e hoje, à crise ecológica. O problema está no tipo de ser humano que se forjou na história, mais uma “força geofísica de destruição”(E.Wilson) que um fator de cuidado e preservação. Paul Creutzen, prêmio Nobel de química cunhou a expressão o antropoceno como uma nova era geológica, segundo a qual o ser humano surge como o grande agressor sistemático do sistema-vida e do sistema-Terra.

A cura reside na re-ligação com todas as coisas renunciando a todo tipo de violência. Em seu lugar colocar o seu oposto que é o cuidado e corresponsabilidade para com todas as coisas. Não necessariamente precisa ser mais religioso, mas mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais responsável por sua sustentabilidade e amigo da vida. Ele precisa voltar à Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardião e cuidador. Então será refeito o contrato natural que tira as bases da violência social,  entre os seres humanos e a natureza.

E se ainda se abrir ao Criador, saciará sua sede infinita e colherá como fruto a paz, não mais ameaçada pela violência (fim da primeira parte)

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e professor emérito de ética e filosofia da religião da UERJ e portador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e professor visitante em várias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca.

 

 

Voltar ao primeiro artigo da Constituição

Quando há uma crise generalizada como esta que estamos vivendo e sofrendo sem perspectiva de uma saída que crie consenso, não temos outra alternativa senão voltar à fonte do poder politico, expressão da soberania de um povo. Temos que resgatar todo o valor do primeiro artigo da Constituição, parágrafo único:”Todo poder emana do povo”.

O povo é, pois, o sujeito ultimo do poder. Em momentos em que uma nação se encontra num voo cego e perdeu o rumo de seu destino, este povo deve ser convocado para dizer que tipo de país quer e que tipo de democracia deseja: esta com um presidencialismo de coalizão, feito de negócios e negociatas para garantir uma suficiente base parlamentar ou uma democracia de verdade, na qual os representantes eleitos representam efetivamente os eleitores e não os interesses corporativos e empresariais que lhe garantiram a eleição? Urge avançar mais: precisamos dar forma política à vontade de participação por parte do povo organizado nos destinos do país, mostrada nas jornadas de 2013.

No fundo volta a questão básica: vamos nos alinhar aos que detém o poder mundial (inclusive de matar todo mundo) ou vamos construir o nosso caminho autônomo, soberano e aberto à nova fase planetizada da humanidade?

O primeiro projeto prolonga a história ocorrida até os dias de hoje: desde a Colônia, passando pelo Império e pela República sempre fomos mantidos subalternos. Os ibéricos não vieram para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira. agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Essa lógica perdura até os dias atuais: tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado. Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities sem ou com parca tecnologia e valor agregado, num processo de recolonização.

Lamentavelmente este é o intento do atual governo interino, especialmente do PSDB que claramente se alinha a um severo neoliberalismo que implica diminuição do Estado, ataque aos direitos sociais em favor do mercado e uma inescrupulosa privatização de bens públicos como o pré-sal entre outros.

O projeto alternativo finca suas raízes na cultura brasileira e no aproveitamento de nossa imensa riqueza que nos pode sustentar como nação independente, soberana e aberta a todas as demais nações. Seríamos uma grande potência, não militarista, nos trópicos, com uma economia, entre as maiores do mundo com um mercado interno vigoroso.

Curiosamente, as jornadas de junho de 2013 e posteriormente, mostraram que o povo percebeu os limites da formação social para os negócios. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil. Numa palavra, quer ser uma sociedade de humanos,de cidadãos ativos, coisa diversa da sociedade de negócios. Tal propósito implica refundar o Brasil sobre outras bases.

Mas quem escutou, de verdade,  o clamor das ruas, especialmente, dos jovens? Efetivamente ninguém, pois tudo ficou mais ou mewnos como antes.

O que, na verdade, nos faltou em nossa história, foi uma verdadeira revolução como houve na França, na Itália e em outros países que desse um novo rumo ao Brasil com novos sujeitos de poder. Mas o tempo das revoluções passou. Hoje preferimos falar em processos de transformação, como tentei elaborar junto um cosmólogo canadense, Mark Hathaway em nosso livro O Tao da libertação:explorando a ecologia da transformação (Vozes 2012, livro premiado nos USA com a medalha de ouro em ciência e cosmologia). Mas as transformações atingem o coração do sistema e dão origem a um novo paradigma de exercício de poder visando antes de tudo a preservação das bases ecológicas que sustentam nossa vida, a civilização, a natureza e o planeta Terra, tida como um super Ente vivo. Mas este seria outro tema que que nos levaria longe.

Importa reconhecer que a história nunca é uma continuidade, algo que cresce organicamente de uma para outra coisa. Ela é feita de descontinuidades e rupturas radicais, transformações que derrubam uma ordem e instauram uma nova.

No Brasil, como sempre lamentava Celso Furtado, nunca tivemos essa ruptura. O que predominou em todo o tempo até hoje é a política de conciliação entre os poderosos e as elites que controlam o ter, o saber e o poder.  O povo sempre ficou de fora como incômodo aos acertos feitos por cima e contra ele.

O que está ocorrendo agora com a tentativa de impeachment da Presidenta Dilma Roussef, legitimamente eleita, é de dar continuidade a esta política de conciliação das elites, do capital rentista e financeiro, daqueles 10%, segundo o IBGE de 2013 que controlam 42% da renda nacional, articulados com o judiciário e com a grande mídia conservadora.  Jessé Souza do IPEA os enumera: são 71.440 super ricos que, por trás manejam o Estado e os rumos da economia na perspectiva de seus intersses, absolutamente egoistas, conservadores e anti-populares.

Não lhes importa a perversa desigualdade social, uma das maiores do mundo, que se traduz em favelização de nossas cidades, violência incontrolável, geração de humilhação, preconceito e degradação social por falta de infra-etrutura, de saúde, de escola e de transporte.

Se o Brasil foi fundado como empresa e para continuar como empresa transnacionalizada, é hora de se refundar como sociedade de cidadãos criativos e conscientes de seus valores.

O meu sonho é que a atual crise com o sofrimento que encerra, não seja em vão. Que ela crie as bases para o que Paulo Freire chamaria de “o inédito viável”: nunca mais coalização entre os poucos ricos de costas para as grandes maiorias. Que se busque viabilizar o que prescreve a Constituição em seu terceiro artigo (IV):”promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil online e escritor.

Ningún Papa fue tan lejos en la condena del capitalismo:M.Löwy

Michael Löwy es un sociólogo y filosofo franco-brasilero, profundo conocedor del pensamiento cristiano latinoamericano. Vale la pena oír su voz en esta entrevista dada al Correio da Cidadania de 21/06/2016. He aquí una parte de la entrevista; la completa fué ya publicada en portugués en este blog. lboff

La encíclica Laudato Si ataca frontalmente el sistema capitalista. ¿Qué significa esto viniendo de un Papa?
Bergoglio no es marxista y la palabra “capitalismo” no aparece en la Encíclica. Pero queda muy claro que para él los dramáticos problemas ecológicos de nuestra época resultan de los «engranajes de la actual economía globalizada», engranajes que constituyen un sistema global, «un sistema de relaciones comerciales y de propiedad estructuralmente perverso». ¿Cuáles son para Francisco estas características «estructuralmente perversas»? Ante todo, es un sistema en el cual predominan «los intereses ilimitados de las empresas» y «una discutible racionalidad económica», una racionalidad instrumental que tiene como único objetivo aumentar el lucro. Para el Papa, esta perversidad no es propia de uno u otro país, sino de «un sistema mundial, donde predominan la especulación y el principio de maximización del lucro, y una búsqueda de rentabilidad financiera que tiende a ignorar todo el contexto y los efectos sobre la dignidad humana y el medio ambiente. Así, se manifiesta la íntima relación entre degradación ambiental y degradación humana y ética».

La obsesión del crecimiento ilimitado, el consumismo, la tecnocracia, el dominio absoluto del dinero y la divinización del mercado son otras características perversas del sistema. En su lógica destructiva, todo se reduce al mercado y al «cálculo financiero de costes y beneficios». Pero sabemos que «el medio ambiente es uno de esos bienes que los mecanismos de mercado no son capaces de defender o de promover adecuadamente». El mercado es incapaz de tener en cuenta valores cualitativos, éticos, sociales, humanos o naturales, es decir, «valores que exceden cálculos».

El poder “absoluto” del capital financiero especulativo es un aspecto esencial del sistema, como reveló la reciente crisis bancaria. El comentario de la Encíclica es contundente: «la salvación de los bancos a toda costa, haciendo pagar el precio a la población, confirma el dominio absoluto de las finanzas que no tienen futuro y sólo puede generar nuevas crisis, después de una larga, costosa y aparente cura».

Asociando siempre la cuestión ecológica y la cuestión social, Francisco constata: «la misma lógica que dificulta tomar medidas drásticas para invertir la tendencia al calentamiento global es la que no permite cumplir con el objetivo de erradicar la pobreza». Existe una larga tradición de crítica del capitalismo liberal, o de los “excesos” del capital en la Iglesia Católica, pero ningún Papa fue tan lejos en condenarlo como Francisco.

¿Qué tiene que enseñar la Teología de la Liberación a la izquierda mundial, considerando sus diferentes corrientes de pensamiento?
En primer lugar, ella nos enseña que la religión puede ser otra cosa, diferente del simple “opio del pueblo”. Además, Marx y Engels ya habían previsto la posibilidad de movimientos religiosos con una dinámica anticapitalista. La izquierda debe tratar con respeto las convicciones religiosas y considerar a los militantes cristianos de izquierda como parte esencial del movimiento de emancipación de los oprimidos. La teología de la liberación nos enseña también la importancia de la ética en el proceso de concienciación y la prioridad del trabajo de base, junto a las clases populares, en sus barrios, iglesias, comunidades rurales y escuelas.

¿La iglesia católica en Brasil está alineada con el Papa Francisco?
Buena parte de los obispos de la CNBB está alineada con Francisco. A algunos incluso les gustaría que fuese más lejos. Otros, por el contrario, piensan que está poniendo en peligro la doctrina de la fe y tratan de poner obstáculos a sus propuestas. Pero la Iglesia brasilera, a pesar de sus límites, en particular en lo que concierne al derecho de las mujeres sobre sus cuerpos – divorcio, contracepción, aborto – es una de las más progresistas del mundo católico.

La “Opción Preferencial por el Pobre”, conjunto de ideas y acciones prácticas contrarias a la lógica de acumulación y retención de capital del actual sistema político y económico, si se lleva plenamente a la práctica resultará en confrontaciones violentas. ¿Cómo se posicionaría el Papa en este escenario, según usted?
La Iglesia tradicionalmente busca “evitar” los confrontamientos violentos. Pero en la Conferencia de Medellín de los obispos latinoamericanos, en 1968, fue adoptada una resolución importante que reconoce el derecho de insurrección del pueblo contra tiranías y estructuras opresivas. Como sabemos, algunos miembros del clero llevaron su opción libertaria y su compromiso con la lucha de los pobres hasta las últimas consecuencias, participando en movimientos armados de emancipación

Fue el caso de Camilo Torres en Colombia, que decidió unirse al Ejército de Liberación Nacional y murió en combate en 1966. Pocos años después, un grupo de jóvenes dominicanos dio su apoyo a la ALN, dirigida por Carlos Marighella, en la lucha contra la dictadura militar. Y en la década de 1970, los hermanos Cardenal y varios otros religiosos participaron en el Frente Nacional de Liberación de Nicaragua. Es difícil prever, en el momento actual, qué tipo de “confrontaciones violentas” se darán contra el sistema capitalista, y menos aún cuál será la posición

El indígena, aquel que debe morir

La cuestión indígena es un problema nunca resuelto en las políticas públicas brasileras. Una gran parte fue exterminada desde el tiempo de la colonización y hoy componen solamente el 0,4% de la población, lo que equivale a 817 mil personas que conforman 300 pueblos. Viven muy concentrados en solo 200 municipios de los más de cinco mil que existen en Brasil.

Prácticamente ellos no cuentan. Sólo a partir de 1991 comenzaron a entrar en el censo poblacional efectuado por el IBGE.

La cuestión se ha agudizado este año, como lo ha estado siempre, con el asesinato de Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, un guarani-kaiowá, de 26 años, agente de salud, muerto a tiros en la hacienda Yvu, en Caarapó, a 273 km de Campo Grande en Mato Grosso del Sur. Otros cinco miembros de la comunidad fueron heridos, entre ellos un niño de 12 años. Cerca de 200 camionetas y automóviles rodearon las tiendas de los indígenas que habían hecho una “retomada”, como ellos dicen, de tierras que les pertenecían desde siempre. Llegaron y fueron disparando balas de goma y balas letales.

Los guarani-kaiowá vivían en esa región desde tiempos inmemoriales, pero a partir de 1882 empezaron a ser expulsados para dar lugar a la plantación de yerba-mate.

Posteriormente, el gobierno comenzó a vender las tierras con la intención de crear haciendas para plantaciones de soja y cría de ganado. Los indígenas quedaron recluidos en 8 pequeñas áreas, pero a medida que la población crecía se sentían forzados a salir. Entonces comenzó a ganar fuerza la idea de retomar las tierras que siempre fueron suyas.

Se creó un conflicto peligroso entre los nuevos propietarios que mostraban su documentación de compra y los indígenas que argumentaban ser los dueños originales de aquellas tierras.

Hubo varios enfrentamientos. Especialmente Mato Grosso del Sur fue escenario de varias muertes. A finales de agosto de 2015, Semião Fernandes Vilhalva, de 24 años, fue bárbaramente ejecutado con un tiro en la cabeza.

En 2013, Ambrósio Vilhalba, de 52 años fue asesinado a puñaladas cerca de Dourados.

En 2001 ocurrió algo más grave. El cacique Nísio Gomes de 59 años fue cercado y eliminado por hombres armados al mando de hacendados.

Lo que sucedió en Caarapó es la continuación de los enfrentamientos por tierras que el Gobierno tarda en delimitar. Apenas un tercio de las tierras están delimitadas, otro tercio se encuentran en estudio y el último tercio ni siquiera ha entrado en la agenda todavía.

Pero la decisión de los indígenas es clara: «Nuestro futuro depende de nuestro territorio, de nuestra tierra. Pretendemos hacer cada vez más “retomadas” porque estamos cansados de la demora del gobierno brasilero en delimitar nuestra tierra. Tomamos una posición y decidimos que esa era nuestra única salida», dice Gomes, el líder indígena del área donde está la hacienda Yvu.

Hay una cuestión mal planteada por parte del gobierno que hace compleja la delimitación y es fuente de conflictos permanentes. Por la legislación, los indígenas no integrados son considerados como relativamente incapaces (artículo 8º del Estatuto del Indio). Ellos no tienen derecho de propiedad privada sobre las tierras delimitadas, consideradas colectivas y tuteladas por la FUNAI. Además la Constitución prohíbe la comercialización de estas tierras (art. 231, §4º), considerándolos menores de edad.

Si tuvieran ese derecho, podrían tener otra relación con los latifundistas que, sabiendo que los indígenas no son propietarios, invaden sus tierras para la plantación de soja o la cría de ganado. Más prudente sería considerarlos adultos y entregar títulos de propiedad privada de la tierra a la que los pueblos indígenas tienen derecho y dejarlos organizar-se en las formas de producción que les son peculiares e incorporando las formas modernas.

Esta ausencia de una solución definitiva para esos pueblos originarios, genera en ellos inmenso sufrimiento, inseguridad y hasta desesperación. Hay un número significativo de suicidios. El organismo de la Iglesia católica que trabaja en la cuestión indígena, el CIMI, computó en la última estadística de 2014 un suicidio cada tres días. La mortalidad infantil es altísima. En 2014, 785 niños menores de 5 años murieron por enfermedades evitables. Esto ocurre especialmente entre los xavantes de Mato Grosso.

Esto nos recuerda la denuncia hecha por algunos obispos y misioneros que publicaron en 1972 un impresionante documento: “y-juca-pirama. El indio: aquel que debe morir”.

Guarda permanente actualidad y traduce la situación actual de los pueblos originarios de nuestro país.

*Leonardo Boff es articulista del Jornal do Brasil y escritor.

Traducción de Mª José Gavito Milano