O papa e o estrume do diabo: Mauro Santayana

Já disse neste espaço que considero  MAURO SANTAYANA   um dos mais eruditos e competentes jornalistas brasileiros. E também é um pensador dos destinos de nossa cultua e do Brasil. Sabemos que o atual Papa Francisco está sofrendo dura oposição por parte de curiais habituados aos privilégios, de bispos ultra-conservadores e de fiéis,formados na escola dos dois Papas anteriores que colocavama doutrina em primeiro lugar ao invés, como este Papa, o exemplo e a prática libertária do Nazareno,  a conversão pastoral, o encontro direto com as pessoas, o diálogo aberto com o mundo, com a diversidade religiosa e a crítica aberta ao sistema do capital que tanto sofirmento causa a milhões de pessoas.  Combateu os desmandos internos da Igreja e enfrentou a máfia que junto com certos membros da Curia utilizava  o Banco Vaticano para lavagem de dinheiro. É um papa ameaçado de morte. Por isso pede que rezem por ele. Publicamos aqui este texto de SANTAYANA para mostrar, através de um observador leigo, a gravidade da situação em que está envolvido este Pontífice, o primeiro que veio das Igrejas Novas da periferia e que traz para a velha Cristandade européia sangue novo e um horizonte de humanidade e de esperança:Lboff

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O Papa Francisco está sendo amplamente atacado na internet, por ter dito, em cerimônia, em Roma, que “o dinheiro é o estrume do diabo” e que quando se torna um ídolo “ele comanda as escolhas do homem”. Acima e abaixo da cintura, houve de tudo.

De adjetivos como comunista, “argentino”, hipócrita, demagogo e outros aqui impublicáveis, a sugestões de que ele se mude para uma favela, e – a campeã de todas – que distribua para os pobres o dinheiro do Vaticano.

É cedo, historicamente, para que se conheça bem este novo papa, mas, pelo que se tem visto até agora, não se pode duvidar de que daria o dinheiro do Vaticano aos pobres, tivesse poder para isso, não fosse a Igreja que herdou dominada por nababos conservadores colocados lá pelos dois pontífices anteriores, e ele estivesse certo de que essa decisão fosse resolver, definitivamente, a questão da desigualdade e da pobreza em nosso mundo.

Inteligente, o Papa sabe que a raiz da miséria e da injustiça não está na falta de dinheiro mas na falta de vergonha, de certa minoria que possui muito, muitíssimo, em um planeta em que centenas de milhões de pessoas ainda vivem com menos de dois dólares por dia.

E que essa situação se deve, em grande parte, justamente à idolatria cada vez maior pelo dinheiro, o “estrume” do Bezerro de Ouro que estende a sombra de seus cornos sobre a planície nua, os precipícios e falésias do destino humano.

Em nossa época, deixamos de honrar pai e mãe, de praticar a solidariedade com os mais pobres, com os doentes, com os discriminados e os excluídos, para nos entregar ao hedonismo.

Os pais transmitem aos filhos, como primeira lição e maior objetivo na existência, a necessidade não de sentir, ou de compreender o mundo e a trajetória mágica da vida – presente maior que recebemos de Deus quando nascemos – mas, sim, a de ganhar e acumular dinheiro a qualquer preço.

Escolhe-se a escola do filho, não pela abordagem filosófica, humanística, às vezes nem mesmo técnica ou científica, do tipo de ensino, mas pelo objetivo de entrar em uma universidade para fazer um curso que dê grana, com o objetivo de fazer um concurso que dê grana, estabelecendo, no processo, uma “rede” de amigos que têm, ou provavelmente terão grana.

Favorecendo, realimentando, uma cultura voltada para o aprendizado e o compartilhamento de símbolos de status fugazes e vazios, que vão do último tipo de smartphone ao nome do modelo do carro do papai e da roupa e do tênis que se está usando.

O que determina a profissão, o que se quer fazer na vida, é o dinheiro

.Escolhe-se a carreira pública, ou a política, majoritariamente, pelo poder e pelas benesses, mas, principalmente, pelo dinheiro.

Até mesmo na periferia, assalta-se, mata-se, se morre ou se vive – como rezam as letras dosfunks de batalha ou de ostentação – pelo dinheiro.

Para os mais radicais, não basta colocar-se ao lado do capital, apenas como um praticante obtuso e entusiástico dessa insensata e permanente “vida loca”.

É necessário reverenciar aberta e sarcasticamente o egoísmo, antes da solidariedade, a cobiça, antes da construção do espírito, o prazer, antes da sabedoria.

É preciso defender o dindin – surgido para facilitar a simples troca de mercadorias – como símbolo e bandeira de uma ideologia clara, que se baseia na apologia da competição individual desenfreada e grosseira, e de um “vale tudo” desprovido pudor e de caráter, como forma de se alcançar riqueza e glória, disfarçado de eufemismos que possam ir além do capitalismo, como é o caso, do que está mais na moda agora, o da “meritocracia”.

Segundo a crença nascida da deturpação do termo, que atrai, como um imã, cada vez mais brasileiros, alguns merecem, por sua “competência”, viver, se divertir, ganhar dinheiro. Enquanto outros não deveriam sequer ter nascido – já que estão aqui apenas para atrapalhar o andamento da vida e do trânsito. Melhor, claro, se não existissem – ou que o fizessem apenas enquanto ainda se precise – ao custo odioso de quase 30 dólares por dia – de uma faxineira ou de um ajudante de pedreiro.

O capitalismo está se transformando em ideologia. Só falta que alguém coloque o cifrão no lugar da suástica e comece a usá-lo em estandartes, colarinhos e braçadeiras, e que em nome dele se exterminem os mais pobres, ou ao menos os mais desnecessários e incômodos, queimando-os, como polutos cordeiros, em fornos de novos campos de extermínio.

Disputa-se e proclama-se o direito de ter mais, muito mais que o outro, de receber de herança mais que o outro, de legar mais que o outro, de viver mais que o outro, de gastar mais que o outro, e, sobretudo, de ostentar, descaradamente, mais que o outro. Mesmo que, para isso, se tenha de aprender dos pais e ensinar aos filhos, a se acostumar a pisar no outro, da forma mais impiedosa e covarde. Principalmente, quando o outro for mais “fraco”, “diverso” ou pensar de forma diferente de uma matilha malévola e ignara, ressentida antes e depois do sucesso e da fortuna, que se dedica à prática de uma espécie de bullying que durará a vida inteira, até que a sombra do fim se aproxime, para a definitiva pesagem do coração de cada um, como nos lembram os antigos papiros, à sombra de Maat e de Osíris.

A reação conservadora à ascensão de Francisco, depois do aparelhamento, durante os dois papados anteriores, da Igreja Apostólica e Romana por clérigos fascistas, e da renúncia de um papa envolvido indiretamente com vários escândalos, que comandou com crueldade e mão de ferro a “caça às bruxas” ocorrida dentro da Igreja nesse período, se dá também nos púlpitos brasileiros.

Não podendo atacar frontalmente um pontífice que diz que o mundo não é feito, exclusivamente, para os ricos, religiosos que progrediram na carreira nos últimos 20 anos, e que se esqueceram de Jesus no Templo e do Cristo dos mendigos, dos leprosos, dos aleijados, dos injustiçados, proferem seu ódio fazendo política nas missas – o que sempre condenaram nos padres adeptos da Teologia da Libertação – ressuscitando o velho e baboso discurso de triste memória, que ajudou a sustentar o golpismo em 1964.

O ideal dos novos sacerdotes e fiéis do Bezerro de Ouro é o de um futuro sem pobres, não para que diminua a desigualdade e aumente a dignidade humana, mas, sim, a contestação aos seus privilégios.

Em 1996, em um livro profético – “L´Horreur Economique”, “O Horror Econômico” – a jornalista, escritora e ensaísta francesa, Viviane Forrester, morta em 2013, já alertava, na apresentação da obra, para o surgimento desse mundo, dizendo que estamos no limiar de uma nova forma de civilização, na qual apenas uma pequena parte da população terrestre encontrará função e emprego.

“A extinção do trabalho parece um simples eclipse – afirmou então Forrester – quando, na verdade, pela primeira vez na História, o conjunto formado por todos os seres humanos é cada vez menos necessário para o pequeno número de pessoas que manipula a economia e detêm o poder político…

dando a entender que diante do fato de não ser mais “explorável”, a “massa” e quem a compõe só pode temer, e perguntando-se se depois da exploração, virá a exclusão, e, se, depois da exclusão, só restará a eliminação dos mais pobres, no futuro.

O culto ao Bezerro de Ouro, ao dinheiro e ao hedonismo está nos conduzindo para um mundo em que a tecnologia tornará o mais fraco teoricamente desnecessário.

A defesa dessa tese, assim como de outras que são importantes para a implementação paulatina desse processo, será alcançada por meio da implantação de uma espécie de pensamento único, estabelecido pelo consumo de um mesmo conteúdo, produzido e distribuído, majoritariamente, pela mesma matriz capitalista e ocidental, como já ocorre hoje com os filmes, séries e programas e os mesmos canais norte-americanos de tv a cabo, em que apenas o idioma varia, que podem ser vistos com um simples apertar de botão do controle remoto, nos mesmos quartos de hotel – independente do país em que se estiver no momento – em qualquer cidade do mundo.

As notícias virão também das mesmas matrizes, em canais como a CNN, a Fox e a Bloomberg, e das mesmas agências de notícias, e serão distribuídas pelos mesmos grandes grupos de mídia, controlados por um reduzido grupo de famílias, em todo o mundo, forjando o tipo de unanimidade estúpida que já está se tornando endêmica em países nos quais – a exemplo do nosso – impera o analfabetismo político.

E o controle da origem da informação, da sua transmissão, e, sobretudo dos cidadãos, continuará a ser feito, cada vez mais, pelo mesmo MINIVER, o Ministério da Verdade, de que nos falou George Orwell, em seu livro “1984”, estabelecido primariamente pelos Estados Unidos, por meio da internet, a gigantesca rede que já alcança quase a metade das residências do planeta, e de seus mecanismos de monitoração permanente, como a NSA e outras agências de espionagem, seus backbones, satélites, e as grandes empresas norte-americanas da área, e a computação em nuvem, identificando rapidamente qualquer um que possa ameaçar a sobrevivência do Sistema.

O mundo do Bezerro de Ouro será, então – como sonham ardentemente alguns – um mundo perfeito, onde os pobres, os contestadores, os utópicos – sempre que surgirem – serão caçados a pauladas e tratados a chicotadas, e, finalmente, perecerão, contemplando o céu, nos lugares mais altos, para que todos vejam, e sirva de exemplo, como aconteceu com um certo nazareno chamado Jesus Cristo, há vinte séculos.

Mauro Santayana – 02/03/2015

The Common Good was Thrown into Limbo

In the middle of a threatening water and energy crisis in Brazil, current political discussions are obfuscated by the particular interests of each party. There is an attempt at destabilizing the new administration of Dilma Rousseff by the dominant groups, behind which are hiding the large corporations, national and multinational, the corporate media and, surely, the actions of the security forces of the North-American empire. It is not just about the ferocious criticism of the official policies, something even more profound is at play: the desire to dismantle, and, if possible, to eliminate the Labor Party, PT – from the Portuguese name – that represents the interests of the populations that historically have always been neglected. It is very hard for the conservative elites to accept the new historical subject –the organized people and their political expression – because they feel that their privileges are threatened. As the elites are clearly egotistical and have never considered the common good, they strive to remove from the scene the social and political force that can irreversibly change the destiny of Brazil.

We are forgetting that the essence of politics is the common search for the common good. One of the most devastating effects of global capitalism and its ideology, neoliberalism, is the destruction of the goals of the common good and social welfare. We know that civilized societies are built on three fundamental pillars: participation (the citizenry), social cooperation and respect for human rights. Together, they create the common good. But the common good has been thrown into the limbo of preoccupation with politics. It has been replaced by the concepts of profitability, flexibility, adaptability and competitiveness. The freedom of the citizen is replaced by the freedom of the market forces, the common good by the individual good, and cooperation by competition.

Participation, cooperation and human rights guaranteed each person’s existence with dignity. By denying those values, people’s existence is no longer socially guaranteed, nor are their rights assured. As a result, everyone feels compelled to guarantee his or her own: employment, salary, car, family. Individualism, the greatest enemy of social coexistence, rules. Consequently, people are not encouraged to build something in common. The only thing that is left in common is the war of all against all, seeking individual survival.

In this context, who will see to the common good of planet Earth? In a recent article in the magazine Science, (01/15/2015) 18 scientists list the nine Planetary Boundaries, four of which have been already exceeded (climate, integrity of the biosphere, use of the soil, biogeochemical fluxes-phosphorous and nitrogen). The others are in an advanced state of degradation. Just exceeding those four can make the Earth less hospitable for millions of people, and for biodiversity. What world organ is confronting this situation, that destroys the planetary common good?

Who will care for the common interests of more than seven billion people? Neoliberalism is deaf, blind and mute on this fundamental question, as Pope Francis keeps repeating as a ritornello. It would be contrary to neoliberalism to address the common good, because neoliberalism defends political and social concepts that are directly opposed to the common good. Neoliberalism’s basic purpose is: the market has to win and society must loose, because the market will regulate and solve everything. That being so, why should we build things in common? Social well being has lost its legitimacy.

However, the growing impoverishment of the world is the result of the excluding and predatory logic of the present competitive, liberalizing, deregulating and privatizing globalization. The greater the privatization, the more individual interests are legitimated, to the detriment of the general interest. As Thomas Piketty has shown in his book, Capitalism in the XXI Century, with greater privatization, inequalities grow. It is the triumph of killer capitalism. How much social perversity and barbarism can the spirit take? Greece has shown that can not take any more. Greece refuses to accept the diktat of the markets, in her case principally imposed by Merkel’s Germany and Hollande’s France.

In summary: what is the common good? In the infra-structural plane, it is the just access by all to food, health, housing, energy, security and culture. in the humanistic plane, it is acknowledgement, respect and peaceful coexistence. Having been dismantled by competitive globalization, the common good must now be rebuilt. To that end, it is important to give supremacy to cooperation, rather than competition. Without that change, it will be difficult for the human community to stay united and to look forward to a good future.

Now, this reconstruction is the nucleus of the political project of the PT and its ideological allies. Begun correctly, Fome Zero (Zero Hunger) was subsequently transformed through several popular public policies. It attempted to lay a solid foundation: a new social pact starting with the values of cooperation and good will towards all. But the effect has been weak, given our individualist and patrimonial tradition. However, at bottom, there remains this basic humanistic conviction: there is no long range future for a society founded on the lack of justice, equality, fraternity, respect for the basic rights, caring for the natural resources and cooperation. It denies the most basic longing of the human being since its appearance on the evolutionary stage, millions of years ago. Whether we like it or not, even accepting its errors and corruption, the best of the PT articulated and articulates that ancestral longing. Therefore, it can restore itself, renewing and nourishing its strength to summon others. If not the PT, other actors in other times will do so.

Cooperation is strengthened by the cooperation that we must unconditionally offer.

Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

The Common Good was Thrown into Limbo

In the middle of a threatening water and energy crisis in Brazil, current political discussions are obfuscated by the particular interests of each party. There is an attempt at destabilizing the new administration of Dilma Rousseff by the dominant groups, behind which are hiding the large corporations, national and multinational, the corporate media and, surely, the actions of the security forces of the North-American empire. It is not just about the ferocious criticism of the official policies, something even more profound is at play: the desire to dismantle, and, if possible, to eliminate the Labor Party, PT – from the Portuguese name – that represents the interests of the populations that historically have always been neglected. It is very hard for the conservative elites to accept the new historical subject –the organized people and their political expression – because they feel that their privileges are threatened. As the elites are clearly egotistical and have never considered the common good, they strive to remove from the scene the social and political force that can irreversibly change the destiny of Brazil.

We are forgetting that the essence of politics is the common search for the common good. One of the most devastating effects of global capitalism and its ideology, neoliberalism, is the destruction of the goals of the common good and social welfare. We know that civilized societies are built on three fundamental pillars: participation (the citizenry), social cooperation and respect for human rights. Together, they create the common good. But the common good has been thrown into the limbo of preoccupation with politics. It has been replaced by the concepts of profitability, flexibility, adaptability and competitiveness. The freedom of the citizen is replaced by the freedom of the market forces, the common good by the individual good, and cooperation by competition.

Participation, cooperation and human rights guaranteed each person’s existence with dignity. By denying those values, people’s existence is no longer socially guaranteed, nor are their rights assured. As a result, everyone feels compelled to guarantee his or her own: employment, salary, car, family. Individualism, the greatest enemy of social coexistence, rules. Consequently, people are not encouraged to build something in common. The only thing that is left in common is the war of all against all, seeking individual survival.

In this context, who will see to the common good of planet Earth? In a recent article in the magazine Science, (01/15/2015) 18 scientists list the nine Planetary Boundaries, four of which have been already exceeded (climate, integrity of the biosphere, use of the soil, biogeochemical fluxes-phosphorous and nitrogen). The others are in an advanced state of degradation. Just exceeding those four can make the Earth less hospitable for millions of people, and for biodiversity. What world organ is confronting this situation, that destroys the planetary common good?

Who will care for the common interests of more than seven billion people? Neoliberalism is deaf, blind and mute on this fundamental question, as Pope Francis keeps repeating as a ritornello. It would be contrary to neoliberalism to address the common good, because neoliberalism defends political and social concepts that are directly opposed to the common good. Neoliberalism’s basic purpose is: the market has to win and society must loose, because the market will regulate and solve everything. That being so, why should we build things in common? Social well being has lost its legitimacy.

However, the growing impoverishment of the world is the result of the excluding and predatory logic of the present competitive, liberalizing, deregulating and privatizing globalization. The greater the privatization, the more individual interests are legitimated, to the detriment of the general interest. As Thomas Piketty has shown in his book, Capitalism in the XXI Century, with greater privatization, inequalities grow. It is the triumph of killer capitalism. How much social perversity and barbarism can the spirit take? Greece has shown that can not take any more. Greece refuses to accept the diktat of the markets, in her case principally imposed by Merkel’s Germany and Hollande’s France.

In summary: what is the common good? In the infra-structural plane, it is the just access by all to food, health, housing, energy, security and culture. in the humanistic plane, it is acknowledgement, respect and peaceful coexistence. Having been dismantled by competitive globalization, the common good must now be rebuilt. To that end, it is important to give supremacy to cooperation, rather than competition. Without that change, it will be difficult for the human community to stay united and to look forward to a good future.

Now, this reconstruction is the nucleus of the political project of the PT and its ideological allies. Begun correctly, Fome Zero (Zero Hunger) was subsequently transformed through several popular public policies. It attempted to lay a solid foundation: a new social pact starting with the values of cooperation and good will towards all. But the effect has been weak, given our individualist and patrimonial tradition. However, at bottom, there remains this basic humanistic conviction: there is no long range future for a society founded on the lack of justice, equality, fraternity, respect for the basic rights, caring for the natural resources and cooperation. It denies the most basic longing of the human being since its appearance on the evolutionary stage, millions of years ago. Whether we like it or not, even accepting its errors and corruption, the best of the PT articulated and articulates that ancestral longing. Therefore, it can restore itself, renewing and nourishing its strength to summon others. If not the PT, other actors in other times will do so.

Cooperation is strengthened by the cooperation that we must unconditionally offer.
Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Às agressões humanas, a Terra responde com flores

Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base fisico-quimica-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.
Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbro que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a diminuição da espécie humana. Esta resulta ou por incapacidade de se adaptar à nova situação ou por não conseguir mitigar os efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite os seres humanos sobreviventes construírem outro tipo de civilização.

Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano há 480 milhões de anos, que dizimou 80-90% das espécies. Mas por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.
Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta face a um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Grandes efeitos extremos: por um lado estiagens prolongadas associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no sudesde de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.

O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. Se chegarmos a um aumento de dois graus Celsius de calor, a situação é ainda administrável. Caso não não fizermos a lição de casa ao diminuirmos drasticamente a emissão de gases de efeito estufa e não reorientarmos nossa relação para com a natureza na direção da auto-contenção coletiva e de respeito aos limites de suportabilidade de cada ecossistema então preve-se que o clima pode se elevar a quatro e até seis graus Celsius. Aí conheceremos a “tribulação da desolação” para usarmos uma expressão bíblica e grande parte das formas de vida que conhecemos não irão subsistir, inclusive porções da humanidade.

A renomada revista Science de 15 de janeiro de 2015 publicou um trabalho de 18 cientistas sobre os limites planetários (Planetary Bounderies: Guiding human development on a changing Planet). Identificaram nove dimensões fundamentais para a continuidade da vida e de nosso ensaio civilizatório. Vale a pena citá-las: (1) mudanças climáticas; (2) mudança na integridade da biosfera com a erosão da biodiversidadae e a extinção acelerada de espécies;(3) diminuição da camada de ozônio estratosférico que nos protege de raios solares letais;(4) crescente acidificação dos oceanos;(5) desarranjos nos fluxos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e de nitrogênio, fundamentais para a vida);(6) mudanças no uso dos solos como o desmatamento e a desertificação crescente;(7) escassez ameaçadora de água doce;(8)concentração de aerossóis na atmosfera(partículas microscópicas que afetam o clima e os seres vivos); (9) introdução agentes químicos sintéticos, de materiais radioativos e nanomateriais que ameaçam a vida.

Destas nove dimensões, as quatro primeiras já ultrapsssaram seus limites e as demais se encontram em elevado grau de degeneração. Esta sistemática guerra contra Gaia pode levá-la a um colapso como ocorre com as pessoas.
E apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as “belle donne” floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.

Então me dou conta de que a Terra é de fato mãe generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse mas um novo gênesis está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Como asseguram as Escrituras judeo-cristãs:“Deus é o soberano amante da vida”(Sab 11,26). E não permitirá que a vida que penosamente superou caos, venha a desaparecer.

Leonardo Boff é colunista do JBonline, filósofo, teólogo e escritor