Jovens brasileiros desconhecem as atrocidades da ditadura: L.Duarte-Plon

Leneide Duarte-Plon é conhecida de nosso blog, uma jornalista brasileira vivendo em Paris, comprometida com os destinos do Brasil e da nossa democracia. Escreve regularmente na Carta Capital. Publicamos aqui este texto para nos lembrar das torturas do Estado militar instaurado em 1964. Criou-se uma organização do esquecimento do que houve de barbaridades no Estado de Terror a ponto de os jovens não saberem nada ou quase nada dos crimes praticados pelos agentes do Estado, Estado este que tem o dever, como Estado, de proteger a vida dos cidadãos. Toda tortura é aviltante, seja praticada por quem quer que seja, por repressores do Estado autoritário seja por resistentes subversivos.Nossa anistia não puniu os que cometeram crimes contra a humanidade, como foi feito na Argentina e no Chile. Mas a verdade tem seu brilho próprio.Ela irá ainda brilhar para que todos possam ver os sombrios tempos que tantos conhecidos nossos, amigos/as parente e outros que não aceitavam o sequestro da  liberdade e imposição da severa censura sobre todas as expressões da liberdade. Sofreram nas câmaras de tortura todos os tipos de violência até a eliminação de todos (menos uma mulher) na Casa da Morte, situada em Petrópolis, finalmente desapropriada para ser um lugar de memória e de reflexões sobre direitos humanos e democracia para que seja verdade: “Tortura nunca mais”. Lboff

17/02/2019

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A política deliberada de organização do esquecimento posta em prática pelos militares para apagar as marcas dos crimes da ditadura foi muito eficaz.

A prova mais recente é a eleição de um ex-militar defensor da tortura e de torturadores notórios, com disseminação de mentiras para formatação de cérebros por whatsapp.

Mas ela vem de longa data, essa organização do esquecimento. Ela vem da anistia, imposta pelos militares, mas dissimulada em negociação. Essa anistia foi implantada para organizar uma amnésia generalizada das futuras gerações.

Estarrecida, ouvi em Paris, este ano, um jovem cineasta brasileiro perguntar:

«Mas eles também torturavam padres durante a ditadura?»

A ditadura brasileira foi a mais eficaz na organização do esquecimento. O povo argentino e o povo chileno puderam instaurar processos e julgar responsáveis por crimes de tortura e desaparecimento forçado, considerados imprescritíveis. Mas a ditadura brasileira instaurou, ao contrário, a amnésia generalizada.

Assim, um ex-torturado pode cruzar na rua com seu torturador. As ruas, praças, avenidas e pontes ainda homenageiam generais que organizaram o terrorismo de Estado e morreram em completa impunidade.

O lançamento em Paris do filme «Le silence des autres», documentário hispano-americano de Almudna Carracedo e Robert Bahar, suscitou matérias sobre a dor dos sobreviventes do franquismo que viram seus pais e mães assassinados e os assassinos anistiados em nome da unidade nacional.

«A Espanha foi convencida a renunciar à sua memória, em nome da democracia. A lei de anistia de 1977 se apresentava como uma medida de reconciliação, mas beneficiava apenas aos partidários da ditadura. Os republicanos já tinham sido punidos, por morte, prisão ou exílio. É preciso entender a cólera de um ex-dirigente estudantil por viver a alguns quarteirões de seu torturador ou o desespero da velhinha que sabe onde está enterrado seu pai, em uma fossa comum, mas nunca conseguiu a autorização de lhe dar uma verdadeira sepultura», escreveu esta semana no jornal «Le Monde» o crítico Thomas Sotinel sobre o filme.

O terrorismo de Estado

Sim, a ditadura brasileira torturou padres e um deles, Tito de Alencar, se suicidou na França em 1974, pois não podia mais viver atormentado dia e noite pelas ameaças de seus torturadores nas horas de sono e de vigília. Clarisse Meireles e eu reconstituímos sua vida no livro «Um homem torturado – Nos passos de frei Tito de Alencar», lançado em 2014 pela Civilização Brasileira.

Outro, padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, um dos assessores do arcebispo dom Helder Câmara, foi sequestrado dia 26 de junho de 1968 pelo Comando de Caça aos Comunistas-CCC, em Recife. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, num matagal da Cidade Universitária, pendurado de cabeça para baixo em uma árvore, com marcas de tortura: espancamente, queimaduras de cigarro, cortes profundos por todo o corpo, castração e ferimento à bala.

Era um recado indireto ao arcebispo de Olinda e Recife. Dom Helder não se acovardou. Denunciou no mundo inteiro a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos políticos do regime militar. Por sua luta pelos direitos humanos foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1970, 1971, 1972 e 1973.

A história de padre Antônio Henrique e de Tito de Alencar e todas as outras atrocidades do terrorismo de Estado implantado durante a ditadura de 1964 devem ser contadas a cada nova geração. Os livros de História são a melhor arma contra a repetição da barbárie, quando não são reescritos pelos que idolatram torturadores.

Mas é necessário reconhecer que a esquerda não fez o necessário trabalho de memória para que as novas gerações conhecessem o terrorismo de Estado da ditadura.

A tentativa desse paradoxal governo militar de viés ditatorial eleito nas urnas de «monitorar» o sínodo dos bispos sobre a Amazônia, que vai se reunir em Roma em outubro, é mais um capítulo da luta pelo controle e neutralização da ala mais progressista e engajada da Igreja Católica, a CNBB, que o capitão-presidente qualificou de «ala podre da igreja».

Este ano ainda, a Igreja Católica pode vir a beatificar Dom Helder Câmara, execrado e censurado pela ditadura, que por quatro anos seguidos se empenhou em uma campanha sórdida de bastidores para que ele não recebesse o Prêmio Nobel da Paz.

Essa história foi levantada por um dossiê da Comissão Dom Helder Câmara da Memória e Verdade de Pernambuco. O dossiê se intitula «Prêmio Nobel da Paz: A atuação da ditadura militar brasileira contra a indicação de Dom Helder Câmara». Comentei em detalhes o assunto em texto a ser publicado na revista Carta Capital.

Será que o Nobel da Paz será influenciado este ano por pressões dos ignaros que dirigem o Brasil, no sentido de impedir a atribuição do prêmio a Lula?

Resposta em outubro de 2019.

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ovens brasileiros desconhecem as atrocidades da ditadura: L.Duarte-Plon

Leneide Duarte-Plon é conhecida de nosso blog, uma jornalista brasileira vivendo em Paris, comprometida com os destinos do Brasil e da nossa democracia. Escreve regularmente na Carta Capital. Publicamos aqui este texto para nos lembrar das torturas do Estado militar instaurado em 1964. Criou-se uma organização do esquecimento do que houve de barbaridades no Estado de Terror a ponto de os jovens não saberem nada ou quase nada dos crimes praticados pelos agentes do Estado, Estado este que tem o dever, como Estado, de proteger a vida dos cidadãos. Toda tortura é aviltante, seja praticada por quem quer que seja, por repressores do Estado autoritário seja por resistentes subversivos.Nossa anistia não puniu os que cometeram crimes contra a humanidade, como foi feito na Argentina e no Chile. Mas a verdade tem seu brilho próprio.Ela irá ainda brilhar para que todos possam ver os sombrios tempos que tantos conhecidos nossos, amigos/as parente e outros que não aceitavam o sequestro da  liberdade e imposição da severa censura sobre todas as expressões da liberdade. Sofreram nas câmaras de tortura todos os tipos de violência até a eliminação de todos (menos uma mulher) na Casa da Morte, situada em Petrópolis, finalmente desapropriada para ser um lugar de memória e de reflexões sobre direitos humanos e democracia para que seja verdade: “Tortura nunca mais”. Lboff

17/02/2019

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A política deliberada de organização do esquecimento posta em prática pelos militares para apagar as marcas dos crimes da ditadura foi muito eficaz.

A prova mais recente é a eleição de um ex-militar defensor da tortura e de torturadores notórios, com disseminação de mentiras para formatação de cérebros por whatsapp.

Mas ela vem de longa data, essa organização do esquecimento. Ela vem da anistia, imposta pelos militares, mas dissimulada em negociação. Essa anistia foi implantada para organizar uma amnésia generalizada das futuras gerações.

Estarrecida, ouvi em Paris, este ano, um jovem cineasta brasileiro perguntar:

«Mas eles também torturavam padres durante a ditadura?»

A ditadura brasileira foi a mais eficaz na organização do esquecimento. O povo argentino e o povo chileno puderam instaurar processos e julgar responsáveis por crimes de tortura e desaparecimento forçado, considerados imprescritíveis. Mas a ditadura brasileira instaurou, ao contrário, a amnésia generalizada.

Assim, um ex-torturado pode cruzar na rua com seu torturador. As ruas, praças, avenidas e pontes ainda homenageiam generais que organizaram o terrorismo de Estado e morreram em completa impunidade.

O lançamento em Paris do filme «Le silence des autres», documentário hispano-americano de Almudna Carracedo e Robert Bahar, suscitou matérias sobre a dor dos sobreviventes do franquismo que viram seus pais e mães assassinados e os assassinos anistiados em nome da unidade nacional.

«A Espanha foi convencida a renunciar à sua memória, em nome da democracia. A lei de anistia de 1977 se apresentava como uma medida de reconciliação, mas beneficiava apenas aos partidários da ditadura. Os republicanos já tinham sido punidos, por morte, prisão ou exílio. É preciso entender a cólera de um ex-dirigente estudantil por viver a alguns quarteirões de seu torturador ou o desespero da velhinha que sabe onde está enterrado seu pai, em uma fossa comum, mas nunca conseguiu a autorização de lhe dar uma verdadeira sepultura», escreveu esta semana no jornal «Le Monde» o crítico Thomas Sotinel sobre o filme.

O terrorismo de Estado

Sim, a ditadura brasileira torturou padres e um deles, Tito de Alencar, se suicidou na França em 1974, pois não podia mais viver atormentado dia e noite pelas ameaças de seus torturadores nas horas de sono e de vigília. Clarisse Meireles e eu reconstituímos sua vida no livro «Um homem torturado – Nos passos de frei Tito de Alencar», lançado em 2014 pela Civilização Brasileira.

Outro, padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, um dos assessores do arcebispo dom Helder Câmara, foi sequestrado dia 26 de junho de 1968 pelo Comando de Caça aos Comunistas-CCC, em Recife. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, num matagal da Cidade Universitária, pendurado de cabeça para baixo em uma árvore, com marcas de tortura: espancamente, queimaduras de cigarro, cortes profundos por todo o corpo, castração e ferimento à bala.

Era um recado indireto ao arcebispo de Olinda e Recife. Dom Helder não se acovardou. Denunciou no mundo inteiro a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos políticos do regime militar. Por sua luta pelos direitos humanos foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1970, 1971, 1972 e 1973.

A história de padre Antônio Henrique e de Tito de Alencar e todas as outras atrocidades do terrorismo de Estado implantado durante a ditadura de 1964 devem ser contadas a cada nova geração. Os livros de História são a melhor arma contra a repetição da barbárie, quando não são reescritos pelos que idolatram torturadores.

Mas é necessário reconhecer que a esquerda não fez o necessário trabalho de memória para que as novas gerações conhecessem o terrorismo de Estado da ditadura.

A tentativa desse paradoxal governo militar de viés ditatorial eleito nas urnas de «monitorar» o sínodo dos bispos sobre a Amazônia, que vai se reunir em Roma em outubro, é mais um capítulo da luta pelo controle e neutralização da ala mais progressista e engajada da Igreja Católica, a CNBB, que o capitão-presidente qualificou de «ala podre da igreja».

Este ano ainda, a Igreja Católica pode vir a beatificar Dom Helder Câmara, execrado e censurado pela ditadura, que por quatro anos seguidos se empenhou em uma campanha sórdida de bastidores para que ele não recebesse o Prêmio Nobel da Paz.

Essa história foi levantada por um dossiê da Comissão Dom Helder Câmara da Memória e Verdade de Pernambuco. O dossiê se intitula «Prêmio Nobel da Paz: A atuação da ditadura militar brasileira contra a indicação de Dom Helder Câmara». Comentei em detalhes o assunto em texto a ser publicado na revista Carta Capital.

Será que o Nobel da Paz será influenciado este ano por pressões dos ignaros que dirigem o Brasil, no sentido de impedir a atribuição do prêmio a Lula?

Resposta em outubro de 2019.

¿Cómo no indignarse ante tan cobarde y bárbaro asesinato?

¿Cómo no indignarse ante tan cobarde y bárbaro asesinato?

Publico este texto de un periodista muy competente y ético, conocido mío desde hace muchos años, Fernando Molica, en su Facebook del 15 de febrero. ¿Cómo no indignarse frente a tanta perversión y voluntad de matar? Si un profeta del Antiguo Testamento, como Amós, estuviese en nuestro medio, seguramente lanzaría la maldición divina sobre el cobarde y frío asesino. ¿Hemos perdido la profecía? ¿Somos incapaces de una acción de protesta? Había mucha gente alrededor que presenciaba el crimen. Sólo una mujer, entre tantos presentes, intentó disuadir al asesino. La callaron. Hay que citar el nombre del asesino: DAVI RICARDO MOREIRA AMÂNCIO, guardia de seguridad del supermercado Extra en Río, y de su víctima: PEDRO GONZAGA. Cuando la maldad es demasiado grande nos sentimos impotentes y las palabras se ahogan en nuestra garganta. Pero tenemos que protestar y reaccionar. Según datos  leídos hace días en varios periódicos (es preciso verificarlo con exactitud) cada 23 minutos es asesinado un negro en nuestro país. El ex presidente Pepe Mujica me decía hace dos años en su chacra: “Hay una diferencia muy grande entre Uruguay y Brasil. Aquí la vida vale y en su país la vida no vale nada; aquí los asesinatos son mucho menos y son castigados; en su país se mata por un par de tenis y la cosa queda así”. Es triste y vergonzoso para nosotros escuchar tal consideración de boca de un viejo y sabio político que quiere mucho a Brasil. Y hay gente que hace públicamente apología de la tortura y de la muerte. Y sabemos quién es. No podemos tolerar más tanta matanza para no atraer la ira de Aquel se presentó “como el apasionado amante de la vida” (Libro de la Sabiduría 11,24) y que está del lado de aquellos que son condenados a morir violentamente antes de tiempo. LBoff

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Las imágenes que muestran el asesinato del joven Pedro Gonzaga a manos de Davi Ricardo Moreira Amâncio, seguridad del supermercado Extra, revelan el absurdo grado de perversidad en el que vivimos. “Ya sería imperdonable si el asesino” por miedo excusable, sorpresa o emoción violenta” (reproduzco las palabras usadas en proyecto presentado por el gobierno federal) hubiera matado al muchacho con un tiro o con un puñetazo. Pero no, cometió el homicidio de forma lenta, pensada, brutal, aun estando delante de decenas de personas. Parecía tener placer al echarse sobre el cuerpo de su víctima mientras le apretaba el cuello. Actuaba de manera tan natural que, mientras mataba, llega a discutir con una mujer que intenta impedir el crimen.

Sus compañeros de trabajo, guardias de seguridad como él, no hicieron nada para evitar el crimen, uno de ellos llegó a tratar de impedir la filmación de la escena. El comportamiento de los otros guardias mostró que la perversidad no es sólo del asesino, está generalizada entre nosotros. Pocas veces he visto tanto absurdo, correspondiente a la hoy clásica expresión de la banalidad del mal acuñada por Hannah Arendt. El tipo mata porque se cree en el deber -más que en el derecho- de matar. Mata, mata, mata es lo que oye todos los días, es el grito que viene de las calles y de los palacios. Tienes que matar, tienes que matar, repite él, y es lo que hace.

Él está del lado de la mayoría, de los que gritan, de los que aplauden las masacres, del lado de aquellos que, en lugar de hacer cumplir la ley, registraron su crimen como algo menor, culposo, no intencional. Es posible que ni siquiera fuera acusado si no hubiera imágenes de su crimen.

A fin de cuentas, la víctima era una más  de aquellas que por su color y por su clase social necesitan probar todo el tiempo que son inocentes, muchas veces las matan antes de lograrlo. Poco después del homicidio ya había la versión, contestada por las imágenes de las cámaras del supermercado, de que el chico habría intentado robar el arma del guardia de seguridad (como si eso justificara su asesinato). Nos estamos transformando en una sociedad de asesinos (añado: un país que mata por perversión, que tiene placer en matar). Todos los que gritan pidiendo muerte son cómplices de este guardia seguridad.

Observación: el sitio de O Globo publicó la noche del viernes que Pedro Gonzaga, el joven muerto, vivía en Barra, era de una familia de clase media y sufría de una dependencia química. Esto sólo refuerza que ninguno de nosotros está libre también de la violencia practicada por agentes de seguridad, públicos o privados. El grito de muerte atrae más muertes, es obvio. FM

Como não se indignar face a tão bárbaro e covarde assassinato?

Publico este texto de um jornalista muito competente e ético,conhecido meu de muitos anos, Fernando Molica em seu Facebook de 15 de fevereiro. Como não se indignar face a tanta perversão e vontade de matar? Se um profeta do Antigo Testamento,como um Amós, estivesse em nosso meio,  seguramente lançaria a maldição divina sobre o covarde e frio assassino. Perdemos a profecia? Somos incapazes de protest-ação? Havia muitos ao redor que assistiam o crime. Só uma mulher, entre tantos presentes, tentou dissuadir o assassino. Foi calada. Precisamos citar o nome do assassino: DAVI RICARDO MOREIRA AMÂNCIO, segurança do supermercado Extra no Rio e de sua vítima PEDRO GONZAGA. Quando a maldade é grande demais ficamos impotentes e as palavras se afogam em nossa garganta. Mas temos que protestar e reagir. Segundo dados, lidos há dias, em vários jornais (cabe verificar exatamente) a cada 23 minutos é assassinado um negro em nosso país. O ex-presidente Pepe Mujica me dizia lá sua chácara, há dois anos:”Há uma diferença muito grande entre o Uruguai e o Brasil. Aqui a vida vale e no seu país a vida não vale nada; aqui os assassinatos são muito menos e são punidos; no seu  país se mata por um par de tênis e  a coisa fica por isso mesmo”. É triste e vergonhoso para nós ouvir tal ponderação de um velho e sábio político que muito ama o Brasil. E há gente que fez publicamente apologia da tortura e da morte.E sabemos quem é. Não podemos mais tolerar tanta matança para não atrairmos a ira  dAquele se apresentou “como o apaixonado amante da vida” (Livro da Sabedoria 11,24) e que  está do lado daqueles  que são condenados a morrer violentamente antes do tempo.LBoff

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As imagens que mostram o assassinato do jovem Pedro Gonzaga por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança do supermercado Extra, revelam o absurdo grau de perversidade em que vivemos. Já seria imperdoável se o assassino “por escusável medo, surpresa ou violenta emoção” (reproduzo as palavras usadas em projeto apresentado pelo governo federal) tivesse matado o rapaz com um tiro, ou com um soco. Mas não, ele cometeu o homicídio de forma lenta, pensada, brutal, mesmo estando diante de dezenas de pessoas. Parece ter prazer ao se deitar sobre o corpo de sua vítima enquanto apertava seu pescoço. Atuava de maneira tão natural que, enquanto matava, chega a discutir com uma mulher que tenta impedir o crime.

Seus colegas de trabalho, seguranças como ele, nada fizeram para evitar o crime – um deles, chegou a tentar impedir a filmagem da cena. O comportamento dos outros seguranças mostrou que perversidade não é apenas do assassino, está generalizada entre nós. Poucas vezes vi tanto absurdo, tão correspondente à hoje clássica expressão banalidade do mal cunhada por Hannah Arendt. O cara mata porque se acha no dever – mais do que no direito – de matar. Mata, mata, mata é o que ouve todos os dias, é o grito que vem das ruas e dos palácios. Tem que matar, tem que matar, é o que ele repete, é o que ele faz.

Ele está do lado da maioria, dos que gritam, dos que aplaudem chacinas, do lado daqueles que, no lugar de fazer cumprir a lei, registraram seu crime como algo menor, culposo, não intencional. É possível que sequer fosse indiciado se não houvesse imagens de seu crime.

Afinal, a vítima era mais uma daquelas que, por sua cor e por sua classe social, precisam provar o tempo todo que são inocentes – muitas vezes, são mortas antes disso. Pouco depois do homicídio já havia a versão, contestada pelas imagens de câmera do supermercado, de que o rapaz teria tentado roubar a arma do segurança (como se isso justificasse seu assassinato). Estamos nos transformando numa sociedade de assassinos (acrescento: um país que mata por perversão, que tem prazer em matar).Todos que gritam pela morte são cúmplices daquele segurança.

Obs: o site de O Globo publicou na noite de sexta-feira  que Pedro Gonzaga, o jovem morto, morava na Barra, era de uma família de classe média e sofria com a dependência química. Isto apenas reforça que nenhum de nós está livre também da violência praticada por agentes de segurança, públicos ou privados. O grito de morte atrai mais mortes, é óbvio. FM

Publicado no Facebook no dia 15/02 na sua página por Fernado Molica.