Dois meses de golpe neoliberal: contra o povo e a democracia: J.P.Stedile

João Pedro Stedile, do Movimento dos Sem Terra, é um bom analista da conjuntura nacional. É polêmico, mas não deixa de fazer análises objetivas, a partir dos Sem Terra. A luta deles é cobrar o que a Constituição prescreve: a reforma agrária que nunca é feita. Por isso ocupam terras para poder morar, trabalhar e tirar o sustento. Não basta distribuir terras, mas levar a democracia para o campo, com tecnologias,sementes, preços, escolas e infra-estrutura que fixe o agricultor no campo.Assim haveria menos favelização de nossas cidades, pois já agora, por nunca ter sido feita reforma agrária, 83% da população vive nas cidades, melhor, nas periferias marginalizadas. Vale apena ouvir o outra lado do contencioso político em andamento para podermos fazer a nossa própria opinião: lboff
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João Pedro Stedile08 de Julho de 2016 às 18:11 em Brasil de Fato
O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá - Créditos: Lula Marques/Agência PT
O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá / Lula Marques/Agência PT

Segundo economistas, os golpistas estão disputando R$ 200 bi do orçamento

O Brasil vive uma grave crise econômica, política, social e ambiental, mas já passamos por crises históricas semelhantes nas décadas de 30, 60 e 80. Todas elas exigiram grandes debates na sociedade, enorme participação política e disputas típicas da luta de classe. Seu desenlace sempre foi lento e só se concretizou em torno de um novo projeto, que conseguisse aglutinar uma base social para o sustentar, ou por meio de ações militares comandadas pelas classes dominantes.

E neste momento? O que está acontecendo?

A classe dominante não tem um projeto de país. O governo Temer/Cunha é apenas uma tentativa de aplicar rapidamente medidas de interesse de uma fração da classe capitalista, que está dividida em três núcleos de direção política.

Um núcleo do poder econômico, que é hegemonizado pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais, quer aplicar a receita neoliberal. Mas é um projeto antinacional e antipopular.

O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá. Ele se move apenas por interesses mesquinhos e individualistas.

Por fim, há um terceiro núcleo, que atua por motivações ideológicas e também tem vínculos internacionais. Esse grupo é composto pela Rede Globo, pelo juiz Sérgio Moro, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, entre eles há divergências e contradições. Pois se movem por interesses próprios, não em torno de um projeto de país.

Na ausência de um projeto e diante do agravamento da crise, resolveram dar um golpe institucional na presidenta Dilma. Tomaram de assalto o governo, com a conivência do Poder Judiciário, para tentar aplicar um programa neoliberal de emergência.

Desde então, todos os dias, o governo golpista toma medidas contra os trabalhadores e seus direitos. Seu objetivo principal é recompor a taxa de lucro e o processo de acumulação concentrada da riqueza no Brasil, a favor dos bancos e das grandes empresas transnacionais. Para isso, estão atacando os direitos dos trabalhadores e os direitos sociais em geral, além de aumentar o desemprego, que é uma forma de rebaixar os salários e dominar a classe trabalhadora.

Estão assaltando os cofres públicos e limitando os gastos sociais para, com isso, destinar os recursos antes reservados para educação, saúde e Previdência para as iniciativas de interesse exclusivo dos capitalistas. Segundo os economistas, os golpistas estão disputando cerca de R$ 200 bilhões do orçamento da União.

Já os R$ 400 bilhões destinados ao pagamento de juros aos bancos são intocáveis. Querem aumentar a idade mínima de aposentadoria para até 70 anos, como defendeu o impostor Temer, mas nenhuma palavra foi dita sobre os R$ 62 bilhões de isenção da Previdência dado às empresas, somente em 2015.

Outra fonte de recursos privados será o patrimônio público. Estão retomando o processo de privatização, começando pelo pré-sal (com a revogação da Lei da partilha, já aprovada na Câmara) e pelo setor elétrico. Estão desmontando os serviços públicos, a ver pelas ameaças às escolas públicas, ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Programa Mais Médicos. Avisaram que nossas terras serão entregues ao capital estrangeiro. Fecharam o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e estão acabando com as políticas para a agricultura familiar e a reforma agrária.

Seus apoiadores nas ruas diziam lutar contra a corrupção. Devem estar envergonhados. Já tiveram três ministros exonerados por conta de denúncias, sem contar outros que estão arrolados em processos de desvios de dinheiro público. Jucá disse claramente que o golpe era apenas para parar a Operação Lava Jato. Cunha renunciou à presidência da Câmara para salvar sua pele e seus dólares. Nunca houve governo envolvido com tantas denúncias de corrupção como este.

Os movimentos populares reunidos na Frente Brasil Popular temos defendido sistematicamente que o primeiro passo é garantir o respeito à democracia. Ou seja, que a presidenta Dilma reassuma o comando do governo, mas que publique logo em seguida uma carta de compromisso com um novo programa, que defenda as necessidades do povo e da soberania nacional.

O segundo passo é a presidenta Dilma reorganizar um ministério em diálogo com a sociedade e aplicar um programa que segure a crise econômica e resolva os problemas do povo.

O terceiro é fazer uma reforma política, para reconstruir e democratizar o sistema eleitoral brasileiro de modo que o povo possa de fato eleger os seus verdadeiros representantes. Como o atual Congresso não quer nem tem moral para aprovar os projetos de reforma política que dormem em suas gavetas, a única saída seria convocar via plebiscito uma assembleia constituinte exclusiva para fazer rapidamente a reforma política, antes das eleições de 2018.

E em quarto lugar, precisamos seguir construindo um novo projeto popular para o Brasil, a partir de um amplo debate de ideias com todos os setores da sociedade brasileira. Embora isso leve tempo, é o único caminho para sairmos verdadeiramente da crise.

Essa estratégia só terá forças se conseguirmos motivar as massas da classe trabalhadora a participar ativamente e se mobilizarem nas ruas. Temos defendido que é necessario organizar grandes mobilizações nacionais da classe trabalhadora, contra o golpe, o desemprego e as medidas que ameaçam a soberania nacional que os golpistas estão tomando.

O ideal é viabilizarmos uma greve geral da classe trabalhadora como forma de protesto e de alterar a atual correlação de forças.

As Frente Brasil Popular e Povo sem Medo acordaram também realizar uma grande mobilização no dia 5 de agosto no Rio de Janeiro e em outras capitais do país durante a abertura das Olimpíadas.

O desfecho dessa crise, é ainda uma icógnita, mas a luta será prolongada e árdua.

* O conceito de “lumpen-burguesia” surge pela primeira vez no final dos anos 1950 através de alguns textos de “Ernest Germain”, pseudônimo de Ernest Mandel, ao se referir à burguesia brasileira, que o autor considerava uma classe semicolonial, “atrasada”, não completamente “burguesa”

O golpe visto de fora: Emir Sader

Emir Sader é um conhecido sociólogo e cientista político, profundamente comprometido com as transformações de nosso país na linha das políticas sociais em favor das grandes maiorias, no sentido de diminuir a perversa desigualdade social. É professor na UERJ, na USP  e um dos fundadores do Forum Social Mundial. É muito solicitado internacionalmente. Publicamos seu texto para aprofundar a discussão política que está havendo no paísLboff

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No começo da crise, a mídia internacional simplesmente reproduzia o que dizia a imprensa brasileira. Era uma espécie de continuidade da operação de desconstrução da imagem do Brasil de Lula, iniciada com as manifestações de 2013.

Por ela, o Brasil deixava de ser o país que combatia radicalmente a fome e a desigualdade para ser o país da corrupção. O país deixava de ter modelo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda factível e virtuoso para ser um país inviável economicamente e caótico. Comandavam essa operação alguns dos órgãos conservadores de maios peso na formação da opinião pública internacional, entre eles The Economist, Wall Street Journal, El País, Financial Times.

Era preciso destruir a imagem do Brasil como modelo internacionalmente reconhecido de alternativa ao neoliberalismo. A imagem de Lula como o mais importante líder político no combate à fome, como “o cara”, deveria ser substituída pela de um líder de um projeto falido e sua imagem esquecida.

A crise, segundo grande parte da mídia internacional, no seu início, era uma continuidade da interpretação dela simplesmente como um estágio final da esgotamento dos governos do PT, corroído por sua própria corrupção. Era a versão da mídia brasileira reproduzida mecanicamente fora do Brasil.

Quando a crise se tornou aguda, os principais meios de comunicação de todo o mundo mandaram seus correspondentes para acompanhar seu desenlace, conforme anunciada pela mídia. Ao chegar, logo se deram conta que se tratava exatamente do contrário: são os corruptos, com Eduardo Cunha e Michel Temer à cabeça, os que tratam de derrubar uma presidenta honesta, que não havia cometido nenhum crime de responsabilidade que permitisse a aplicação do impeachment e que se trata efetivamente de um golpe político dos setores mais conservadores do país, para bloquear um modelo vitorioso quatro vezes nas urnas e cuja imagem é o prestígio vigente do próprio Lula, sobre quem nenhuma acusação de corrupção foi comprovada.

Gerou-se então uma impressionante unanimidade internacional, maior do que em qualquer outro momento, inclusive durante a ditadura militar, de condenação do golpe e de ilegitimidade do governo que surge daí. Mesmos os órgãos mais neoliberais, que se entusiasmam com os planos privatizadores de Henrique Meirelles, se dão conta da fragilidade política do governo e de como ele está composto por um bando dos políticos mais corruptos do Brasil.

*Sociólogo

Fonte: Brasil 247

Nenhum Papa foi tão longe na condenação ao capitalismo:Michael Löwy

 

 

Michael Loevy é conhecdo neste blog. É um conhecido filósofo e sociólogo da religião, franco-brasileiro. Deu uma entrevista no dia 21 de junho ultimo no Correio da Cidadania. Vale ouvir uma voz que vem de fora e com autoridade: Lboff

Eis a entrevista.

Quem é Papa Francisco? O que pretende?

Gostaria, antes de responder sua pergunta, de homenagear a memória do fundador do Correio da Cidadania, meu querido amigo e companheiro de lutas Plínio de Arruda Sampaio, um cristão socialista comprometido com a luta do povo brasileiro por sua emancipação, um adversário intransigente da ditadura militar, do latifúndio, do imperialismo e do perverso sistema capitalista. Sua vida foi um exemplo de coerência ética e política, de dignidade e de coragem.

Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, não era considerado um homem de esquerda. Seu comportamento durante a ditadura militar argentina é um exemplo de “pecado por omissão”: não apoiou e tampouco se opôs ao regime. Não é, portanto, surpreendente que tenha sido eleito Pontifex Maximum pelo mesmo conclave que havia eleito Ratzinger – Bento XVI – pouco tempo antes.

Entretanto, apenas eleito, surpreendeu por uma sucessão de iniciativas corajosas, a começar pela visita à Lampedusa, para denunciar o tratamento dado pela Europa aos refugiados (muçulmanos em sua maioria). Em relação à teologia da libertação, sua atitude é radicalmente distinta da dos dois pontífices anteriores: Gustavo Gutierrez foi convidado ao Vaticano e o processo de canonização de Monsenhor Romero, aberto. Se lemos atentamente as Encíclicas de Bergoglio, percebe-se a influência de uma corrente importante do catolicismo da Argentina: a teologia da libertação não-marxista, representada por pensadores como Juan Carlos Scannone.

Obviamente, ele pretende levar a sério o compromisso da Igreja com os pobres, suprimir os vínculos dos bancos do Vaticano com a máfia e tentar reduzir o poder conservador da Cúria Romana. Será que conseguirá? Sua tentativa de elaborar uma concepção um pouco mais aberta da família e da sexualidade foi diluída pelo Sínodo dos Cardeais… Há muitas resistências. Parece que os setores mais reacionários da Igreja têm uma prece especial sobre Bergoglio: “Nosso Pai que está no Céu, ilumine-o ou… Elimine-o”.

A encíclica Laudato Si ataca frontalmente o sistema capitalista. O que isto significa vindo de um Papa?

Bergoglio não é marxista e a palavra “capitalismo” não aparece na Encíclica. Mas fica muito claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época resultam das “engrenagens da atual economia globalizada”, engrenagens que constituem um sistema global, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

Quais são, para Francisco, estas características “estruturalmente perversas”? Antes de tudo, é um sistema no qual predominam “os interesses ilimitados das empresas” e “uma discutível racionalidade econômica”, uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo aumentar o lucro. Para o Papa, esta perversidade não é própria de um país ou outro, mas de “um sistema mundial, onde predominam a especulação e o princípio de maximização do lucro, e uma busca de rentabilidade financeira que tende a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim, se manifesta a íntima relação entre degradação ambiental e degradação humana e ética”.

A obsessão do crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, o domínio absoluto da finança e a divinização do mercado são outras características perversas do sistema. Em sua lógica destrutiva, tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro de custos e benefícios”. Mas sabemos que “o meio ambiente é um desses bens que os mecanismos de mercado não são capazes de defender ou de promover adequadamente”. O mercado é incapaz de levar em conta valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, isto é, “valores que excedem cálculos”.

O poder “absoluto” do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como revelou a recente crise bancária. O comentário da Encíclica é contundente: “a salvação dos bancos a todo custo, fazendo a população pagar o preço, confirma o domínio absoluto das finanças que não têm futuro e só pode gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura”.

Sempre associando a questão ecológica e a questão social, Francisco constata: “a mesma lógica que dificulta tomar medidas drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a que não permite cumprir com o objetivo de erradicar a pobreza”. Existe uma longa tradição de crítica do capitalismo liberal, ou dos “excessos ” do capital na Igreja Católica. Mas nenhum Papa foi tão longe nesta condenação como Francisco.

Em 12 de fevereiro, Papa Francisco e o e o Patriarca Kirill, encontraram-se em nome de suas igrejas quase 1.000 anos após o cisma, em Cuba, e assinaram um documento que contém este texto: O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do Novo Mundo e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes. Um Novo Mundo na visão dos dois líderes religiosos é um mundo socialista?

Francamente, não atribuo tanta importância a este encontro, que tem mais a ver com a diplomacia das relações inter-religosas do que com a revolução cubana… O “Novo Mundo” de que falam não é o “mundo socialista”, mas simplesmente o continente americano, designado há séculos como “Novo Mundo”. O conceito de “socialismo” não faz parte do vocabulário de nenhum do dois líderes religiosos.

O que a Teologia da Libertação tem a ensinar para a esquerda mundial, considerando suas diferentes correntes de pensamento?

Em primeiro lugar, ela nos ensina que a religião pode ser outra coisa, diferente de simples “ópio do povo”. Aliás, Marxe Engels já haviam previsto a possibilidade de movimentos religiosos com uma dinâmica anticapitalista. A esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base, junto às classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Uma unidade política de caráter anticapitalista e anti-imperialista entre as grandes religiões monoteístas (Cristã, Judaica e Islã) é possível no ponto de vista de alguns teólogos e mais, fundamental para superar o capitalismo em escala global. O que pensa sobre isso? É possível superar o capitalismo sem esta unidade?

Não acredito em unidade anticapitalista das “grandes religiões monoteístas”… O que pode existir é uma convergência ecumênica entre correntes progressistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, ecologicamente conscientes, em todas as religiões, não só as três que menciona. Por exemplo, o budismo, o hinduísmo, religiões africanas, umbanda, candomblé, religiões indígenas das Américas etc. Já existem redes progressistas, como a Associação de Teólogos do Terceiro Mundo, que é ecumênica. Não sei se superar o capitalismo sem esta convergência é possível ou não, mas ela é uma contribuição importante para a conscientização de amplas camadas populares.

A igreja católica no Brasil está alinhada ao Papa Francisco?

Boa parte dos bispos da CNBB está alinhada com Francisco. Alguns até gostariam que ele fosse mais longe. Outros, pelo contrário, acham que ele está colocando em perigo a doutrina da fé e tentam colocar obstáculos para suas propostas. Mas a Igreja brasileira, apesar de seus limites, em particular no que concerne ao direito das mulheres sobre seu corpo – divórcio, contracepção, aborto – é uma das mais progressistas do mundo católico.

Objetivamente, Papa Francisco tem condições de criar uma unidade internacional de caráter progressista para enfrentamento ao capitalismo?

Não! Nem objetivamente, nem subjetivamente. O Papa não se coloca tarefas deste tipo! Para enfrentar o capitalismo necessitamos da unidade internacional dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos indígenas, dos explorados e oprimidos, que são a esmagadora maioria da humanidade. O Papa poderá, eventualmente, contribuir para uma tomada de consciência social e ecológica de um amplo setor dos fieis católicos. Já é muito!

A “Opção Preferencial pelo Pobre”, conjunto de ideias e ações práticas contrárias à lógica da acumulação e retenção de capital do atual sistema político e econômico, se colocadas plenamente em prática resultará em confrontos violentos. Como se posicionará o Papa neste cenário, em sua avaliação?

A Igreja, tradicionalmente, busca “evitar” os confrontos violentos. Mas na Conferência de Medellín dos bispos latino-americanos, em 1968, foi adotada uma resolução importante que reconhece o direito de insurreição do povo contra tiranias e estruturas opressivas. Como sabemos, alguns membros do clero levaram sua opção libertária e seu compromisso com a luta dos pobres até as últimas consequências, participando de movimentos armados de emancipação.

Foi o caso de Camilo Torres na Colômbia, que resolveu aderir ao Exército de Libertação Nacional e foi morto em combate em 1966. Poucos anos depois, um grupo de jovens dominicanos deu seu apoio à ALN, dirigida por Carlos Marighella, no combate contra a ditadura militar. E nos anos 1970, os irmãos Cardenal e vários outros religiosos participaram da Frente Nacional de Libertação da Nicarágua. É difícil prever, no momento atual, que tipo de “confrontos violentos” se darão contra o sistema capitalista, e menos ainda qual será a posição do Papa Franciscofrente a uma situação deste tipo.

Mudando de assunto, mas para não deixar escapar a oportunidade, como você enxerga o atual momento político brasileiro? Que desfecho gostaria que a crise política, econômica, social e ética tivesse?

Vejo a conjuntura brasileira atual com muita preocupação. Tenho muitas críticas ao governo de Dilma Rousseff, fez demasiadas concessões ao capital financeiro, aos bancos, aos latifundiários e tomou várias medidas opostas aos interesses das classes populares. Por outro lado, não posso deixar de manifestar um repúdio categórico à aprovação do processo de impeachment que afastou a presidente, um verdadeiro golpe de Estado pseudo-legal.

É uma verdadeira farsa tragicômica o que acaba de se passar no Congresso: uma quadrilha de gângsteres políticos, comprometida com os escândalos de corrupção, derruba a presidenta democraticamente eleita – um dos poucos políticos não acusados de corrupção, – por supostas “irregularidades administrativas”. Tudo isso em nome de “Deus”, da “Pátria”, da “Família”, se escondendo atrás da bandeira nacional. Sem falar nos adeptos da ditadura militar e dos métodos de tortura do coronel Ustra. Uma vergonha!

É triste ver como o Partido dos Trabalhadores, que em sua origem tinha uma grande coerência ética e política, acabou sendo envolvido no escândalo da Petrobras. Mas ele está longe de ser o único! É absurdo pretender, como o faz a média conservadora, que o PT tem o monopólio da corrupção: os principais dirigentes da oposição, a começar pelo famigerado Eduardo Cunha – e dezenas de outros, do PSDB, do PMDB, do PP etc. – estão comprometidos com o “assunto”.

Minha esperança é que a Frente Brasil Popular, que inclui partidos de esquerda e movimentos sociais, consiga seus objetivos: ao mesmo tempo impedir o golpe e obrigar o governo de Dilma a romper com as políticas neoliberais. Só uma ampla mobilização do povo brasileiro, dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos negros, de todos os explorados e oprimidos, poderá por um fim à tentativa da oligarquia reacionária de tomar o poder e acabar com a democracia no Brasil.

Minhas simpatias vão ao Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), um dos poucos a não estar comprometido com Lava Jatos e outras ignomínias; ele é, a meu ver, o digno herdeiro do que de melhor havia no PT das origens, quando ainda se propunha a acabar com o grande inimigo dos trabalhadores e da democracia: o sistema capitalista.

Moniz Bandeira denuncia apoio dos EUA a golpe no Brasil

Moniz Bandeira é considerado no meio dos expertos, o nosso melhor observador e comentarista de políica internacional e dos vínculos existentes entre os poderes deste mundo globalizado na disputa pela hegemonia mundial. Depois que foram publicados os documentos da presença norte-americana no golpe militar de 1964 não podemos mais ser ingênuos. O Brasil é grande demais para passar desapercebido pelos interesses políticos, econômicos e estratégicos das grande potências. Não nos é mais permitido ser incautos, pensando que nossa crise política e a tentativa de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff sejam assunto meramente doméstico. Não é. Aqui estão em jogo interesses geopolíticos, especialmente, com a presença da potência que concorre abertamente com os USA que é a China. Sua presença em nosso Continente e especialmente no Brasil é cada vez maior. Ela é o carro-chefe dos BRICS, articulação de países, da qual o Brasil faz parte. É preocupante o fato de os USA já terem firmado acordo com o novo governo argentino de Macri, de colocar duas bases militares importantes naquele país, uma delas nos limites do Brasil, exatamente, na borda do maior aquífero do mundo que é o de Guarani. Aduzo esse novo fator, além dos nossos próprios internos, para compor o quadro de nossa leitura da realidade brasileira. Seria leviano considerar que tudo isso seja  fruto de espírito conspiratório. Não o é.  Os dados seguros e já tornados públicos, comprovam semelhante estratégia, posta em prática em 1964: Lboff

O cientista político e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira alertou nesta terça-feira (14/06) que por trás do processo golpista no Brasil, que levou à ascensão do presidente interino Michel Temer no lugar da presidenta legítima Dilma Rousseff, há poderosos interesses dos Estados Unidos, para ampliar sua presença econômica e geopolítica na América do Sul.


Moniz Bandeira

“Esse golpe deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os EUA tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina. O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil”, afirmou Moniz Bandeira, em entrevista concedida por e-mail ao PT na Câmara.

Moniz, que é autor de mais de 20 obras, entre elas A Segunda Guerra Fria — Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos (2013, Civilização Brasileira) e está lançando agora A Desordem Internacional, entende que o processo golpista no Brasil recebeu apoio dos EUA e de outros setores estrangeiros com interesse nas riquezas do País.

Ele criticou também setores da burocracia do Estado (como Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal e Judiciário) por atuarem para solapar a democracia brasileira, prejudicar empresas nacionais e abrir caminho para a consolidação de interesses estrangeiros no País, em especial dos EUA.

“Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato. Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007”, disse.

Leia a entrevista completa:

Link: http://www.brasilalemanha.com.br/novo_site/noticia/ponto-de-vista-moniz-bandeira-denuncia-apoio-dos-eua-a-golpe-no-brasil/8012

Como o senhor avalia o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

O fato de que o presidente interino Michel Temer e seus acólitos, nomeados ministros, atuarem como definitivos, mudando toda a política da presidenta Dilma Roussefff, evidencia nitidamente a farsa montada para encobrir o golpe de Estado, um golpe frio contra a democracia, desfechado sob o manto de impeachment.

Esse golpe, entretanto, deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os Estados Unidos tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina.

O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil.

Onde seriam implantadas tais bases?

Uma seria em Ushuaia, na província da Terra do Fogo, cujos limites se estendem até a Antártida; a outra na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), antiga ambição de Washington, a título de combater o terrorismo e o narcotráfico. Mas o grande interesse, inter alia, é, provavelmente, o Aquífero Guarani, o maior manancial subterrâneo de água doce do mundo, com um total de 200.000 km2, um manancial transfronteiriço, que abrange o Brasil (840.000l Km²), Paraguai (58.500 Km²), Uruguai (58.500 Km²) e Argentina (255.000 Km²).

Aí os grandes bancos dos Estados Unidos e da Europa — Citigroup, UBS, Deutsche Bank, Credit Suisse, Macquarie Bank, Barclays Bank, the Blackstone Group, Allianz, e HSBC Bank e outros –compraram vastas extensões de terra.

A eleição de Maurício Macri significa que a Argentina vai voltar ao tempo em que o ex-presidente Carlos Menem, com a doutrina do “realismo periférico”, desejava manter “relações carnais” com os Estados Unidos?

Os EUA estão a buscar a recuperação de sua hegemonia na América do Sul, hegemonia que começaram a perder com o fracasso das políticas neoliberais na década de 1990. Com a eleição de Maurício Macri, na Argentina, conseguiram grande vitória.

E, na Venezuela, o Estado encontra-se na iminência do colapso, devido à conjugação de desastrosas políticas dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro com a queda do preço do petróleo e as operações para a mudança de regime, implementadas pela CIA, USAID, NED e ONGs financiadas por essas e outras entidades.

A implantação de bases militares em Ushuaia e na Tríplice Fronteira, além de ferir a soberania da Argentina, significa séria ameaça à segurança nacional não só do Brasil como dos demais países da região.

Os EUA possuem bases na Colômbia e alguns contingentes militares no Peru, a ostentarem sua presença nos Andes e no Pacifico Ocidental. E com as bases na Argentina completariam um cerco virtual da região, ao norte e ao sul, ao lado do Pacífico e do Atlântico.

Que implicações teria o estabelecimento de tais bases na Argentina?

Quaisquer que sejam as mais diversas justificativas, inclusive científicas, a presença militar dos EUA na Argentina implicaria maior infiltração da OTAN, na América do Sul, penetrada já, sorrateiramente, pela Grã-Bretanha no arquipélago das Malvinas, e anularia de facto e definitivamente a resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que, em 1986, estabeleceu o Atlântico Sul como Zona de Paz e Cooperação (ZPCAS).

E o Brasil jamais aceitou que a OTAN estendesse ao Atlântico Sul sua área de influência e atuação.

Em 2011, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, o então ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim (do PMDB, o mesmo partido do presidente provisório Temer), atacou a estratégia de ampliar a área de ingerência da OTAN ao Atlântico Sul, afirmando que nem o Brasil nem a América do Sul podem aceitar que os Estados Unidos “se arvorem” o direito de intervir em “qualquer teatro de operação” sob “os mais variados pretextos”, com a OTAN “a servir de instrumento para o avanço dos interesses de seu membro exponencial, os Estados Unidos da América, e, subsidiariamente, dos aliados europeus”.

Mas estabelecer uma base militar na região da Antártida não é uma antiga pretensão dos EUA?

Sim. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial esse é um objetivo estratégico do Pentágono a fim de dominar a entrada no Atlântico Sul. E, possivelmente, tal pretensão agora ainda mais se acentuou devido ao fato de que a China, que está a construir em Paraje de Quintuco, na província de Neuquén, coração da Patagônia, a mais moderna estação interplanetária e a primeira fora de seu próprio território, com poderosa antena de 35 metros para pesquisas do “espaço profundo”, como parte do Programa Nacional de Exploração da Lua e Marte.

A previsão é de que comece a operar em fins de 2016. Mas a fim de recuperar a hegemonia sobre toda a América do Sul, na disputa cada vez mais acirrada com a China era necessário controlar, sobretudo, o Brasil, e acabar o Mercosul, a Unasul e outros órgãos criados juntamente com a Argentina, seu principal sócio e parceiro estratégico, a envolver os demais países da América do Sul.

A derrubada da presidente Dilma Rousseff poderia permitir a Washington colocar um preposto para substituí-la.

A mudança na situação econômica e política tanto da Argentina como do Brasil afigura-se, entretanto, muito difícil para os EUA. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, com investimentos previstos superiores a US$54 bilhões, e o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil.

O Brasil, ao desenvolver uma política exterior com maior autonomia, fora da órbita de Washington, e de não intervenção nos países vizinhos e de integração da América do Sul, conforme a Constituição de 1988, constituía um obstáculo aos desígnios hegemônicos dos EUA, que pretendem impor a todos os países da América tratados de livre comércio similares aos firmados com as repúblicas do Pacífico.

Os EUA não se conformam com o fato de o Brasil integrar o bloco conhecido como BRICs e seja um dos membros do banco em Shangai, que visa a concorrer com o FMI e o Banco Mundial.

Como o senhor vê a degradação da democracia no Brasil, com a atuação de setores da burocracia do Estado (Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário) que agem de modo a rasgar a Constituição, achicanando o país?

A campanha contra a corrupção, nos termos em que o procurador-geral Rodrigo Janot e o juiz Sérgio Moro executam, visou, objetivamente, a desmoralizar a Petrobras e as grandes construtoras nacionais, tanto que nem sequer as empresas estrangeiras foram investigadas, e elas estão, de certo, envolvidas também na corrupção de políticos brasileiros.

Ao mesmo tempo se criou o clima para o golpe frio contra o governo da presidente Dilma Rousseff, adensado pelas demonstrações de junho de 2013 e as vaias contra ela na Copa do Mundo.

A estratégia inspirou-se no manual do professor Gene Sharp, intitulado Da Ditadura à Democracia, para treinamento de agitadores, ativistas, em universidades americanas e até mesmo nas embaixadas dos Estados Unidos, para liderar ONGs, entre as quais Estudantes pela Liberdade e o Movimento Brasil Livre, financiadas com recursos dos bilionários David e Charles Koch, sustentáculo do Tea Party, bem como pelos bilionários Warren Buffett e Jorge Paulo Lemann, proprietários dos grupos Heinz Ketchup, Budweiser e Burger King, e sócios de Verônica Allende Serra, filha do ex-governador de São Paulo José Serra, na sorveteria Diletto.

Outras ONGs são sustentadas pelo especulador George Soros, que igualmente financiou a campanha “Venha para as ruas”.

Os pedidos de prisão de próceres do PMDB e do presidente do Senado, encaminhados pelo procurador-geral da República, podem desestabilizar o Estado brasileiro?

Os motivos alegados, que vazaram para a mídia, não justificariam medida tão radical, a atingir toda linha sucessória do governo brasileiro.

O objetivo do PGR poderia ser de promoção pessoal, porém tanto ele como o juiz Sérgio Moro atuam, praticamente, para desmoralizar ainda mais todo o Estado brasileiro, como se estivessem a serviço de interesses estrangeiros.

E não só desmoralizar o Estado brasileiro. Vão muito mais longe nos seus objetivos antinacionais.

As suspeitas levantadas contra a fábrica de submarinos, onde se constrói, inclusive, o submarino nuclear, todos com transferência para o Brasil de tecnologia francesa, permitem perceber o intuito de desmontar o programa de rearmamento das Forças Armadas, reiniciado pelo presidente Lula e continuado pela presidente Dilma Rousseff.

E é muito possível que, em seguida, o alvo seja a fabricação de jatos, com transferência de tecnologia da Suécia, o que os EUA não fazem, como no caso do submarino nuclear.

É preciso lembrar que, desde o governo de Collor de Melo e, principalmente, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi virtualmente desarmado, o Exército nem recursos tinha para alimentar os recrutas e foi desmantelada a indústria bélica, que o governo do general Ernesto Geisel havia incentivado, após romper o Acordo Militar com os Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1970.

O senhor julga que os Estados Unidos estiveram por trás da campanha para derrubar o governo da presidente Dilma Rousseff?

Há fortes indícios de que o capital financeiro internacional, isto é, de que Wall Street e Washington nutriram a crise política e institucional, aguçando feroz luta de classes no Brasil.

Ocorreu algo similar ao que o presidente Getúlio Vargas denunciou na carta-testamento, antes de suicidar-se, em 24 de agosto de 1954: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de liberdade e garantia do trabalho”.

Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato.

Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007.

No ano seguinte, em 2008, passou um mês num programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos.

A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, passou informação sobre o doleiro Alberto Yousseff a um delegado da Polícia Federal e ao juiz Sérgio Moro, de Curitiba, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros).

Não sem motivo o juiz Sérgio Moro foi eleito como um dos dez homens mais influentes do mundo pela revista Time.

Ele dirigiu a Operação Lava-Jato, coadjuvado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como um reality show, sem qualquer discrição, vazando seletivamente informações para a mídia, com base em delações obtidas sob ameaças e coerção, e prisões ilegais, com o fito de macular e incriminar, sobretudo, o ex-presidente Lula. E a campanha continua.

Aonde vai?

Vai longe. Visa a atingir todo o Brasil como Nação.

E daí que se prenuncia uma campanha contra a indústria bélica, a começar contra a construção dos submarinos, com tecnologia transferida da França, o único país que concordou em fazê-lo, e vai chegar à construção dos jatos, com tecnologia da Suécia e outras indústrias.

Essas iniciativas dos presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff afetaram e afetam os interesses dos Estados Unidos, cuja economia se sustenta, largamente, com a exportação de armamentos.

Apesar de toda a pressão de Washington, o Brasil não comprou os jatos F/A-18 Super Hornets da Boeing, o que contribuiu, juntamente com o cancelamento das encomendas pela Coréia do Sul, para que ela tivesse de fechar sua planta em Long Beach, na Califórnia.

A decisão da presidente Dilma Rousseff de optar pelos jatos da Suécia representou duro golpe na divisão de defesa da Boeing, com a perda de um negócio no valor US$4,5 bilhões.

Esse e outros fatores concorreram para a armação do golpe no Brasil.

E qual a perspectiva?

É sombria. O governo interino de Michel Temer não tem legitimidade, é impopular e, ao que tudo indica, não há de perdurar até 2018. É fraco. Não contenta a gregos e troianos.

E, ainda que o presidente interino Michel Temer não consiga o voto de 54 senadores para efetivar o impeachment, será muito difícil a presidenta Dilma Rousseff governar com um Congresso, em grande parte corrompido, e o STF comprometido pela desavergonhada atuação, abertamente político-partidária, de certos ministros.

Novas eleições, portanto, creio que só as Forças Armadas, cujo comando do Exército, Marinha e Aeronáutica até agora está imune e isento, podem organizar e presidir o processo.

Também só elas podem impedir que o Estado brasileiro seja desmantelado, em meio a esse clima de inquisição, criado e mantido no País, em colaboração com a mídia corporativa, por elementos do Judiciário, como se estivessem acima de qualquer suspeita. E não estão. Não são deuses no Olimpo.