Paulo Guedes nos levará ao fundo do poço: Ivo Lesbaupin

Ivo Lesbaupin de Iser Assessoria é um conhecido deste blog, como sociólogo com excelentes e bem compreensíveis análises de conjutura. Publicamos esta pela sua clareza e por nos chamar a atenção das dramáticas políticas que estão sendo impostas ao país e principalmente aos trabalhadores e aos pobres. Não podemos largar a mão de um e de outro. Temos que resistir por um sentido humanitário, ético e patriótico. Lboff

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Mas ele dizia isso para convencer os parlamentares de que é preciso aprovar a Reforma da Previdência proposta por ele. Se não, afundaremos mais ainda. E ele nada poderá fazer.

Anos atrás li um trabalho de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, onde ele dizia que emprego e desemprego não são resultados fortuitos, imprevisíveis: o país gerará emprego (ou desemprego) dependendo da política econômica que adotar. Claro, tem de se levar em conta o contexto internacional, não há dúvida. Mas o que Stiglitz estava querendo dizer é que políticas de austeridade (ou de ajuste fiscal) produzem desemprego. E políticas anticíclicas, de investimento público, geram emprego.

Nós vimos isto ocorrer no governo FHC: políticas de ajuste fiscal que geraram enorme desemprego e, no período Lula, políticas de investimento público que produziram emprego, mesmo depois da crise internacional de 2008 (houve uma queda em 2009, mas depois retomou).

O país está à míngua?

Desculpem, como disse um sociólogo conhecido anos atrás, o Brasil não é um país pobre, é um país injusto. Temos, o Estado brasileiro tem, muitos recursos. Recolhe uma quantidade enorme de impostos, sobretudo dos pobres e da classe média e transfere a maior parte para os mais ricos.

Exemplo: 350 bilhões de reais, no mínimo, por ano, vão para o 1% mais rico, como pagamento de juros da dívida pública. Por que? Porque temos uma taxa de juros reais entre as mais altas do mundo: estamos em 7º lugar. Se tivéssemos uma taxa de 0% ou menos que zero, como Polônia, Estados Unidos, Japão, Grécia, não gastaríamos esta fortuna (só para os ricos). Quem decide estes juros altos recebidos pelos ricos? O governo. Então, primeira sugestão, ministro: reduza drasticamente a taxa de juros[i].

Assim, poderemos discutir a Reforma da Previdência sem medo de afundar.

A segunda coisa, segundo o economista Eduardo Fagnani, é que o Brasil abre mão de 350 a 400 bilhões por ano, em isenções fiscais. Quem decide isso? O governo. Neste caso, a sua pasta, Sr. Ministro.

Terceira coisa: ir atrás dos sonegadores. 500 bilhões por ano. A Receita Federal sabe quem são os maiores, quanto devem. É só querer cobrar.

E, por favor, taxem os juros e dividendos, que são recebidos apenas pelos mais ricos. A Estônia é o único país do mundo, além do Brasil, que comete esta injustiça (de não taxar os mais ricos). Por que o ministro não cobra do Congresso esta mudança?

Não esqueçamos: a economia de agora está ruim por causa da Dilma. “Errou tudo”. Errou, sim, alguma coisa, mas não tudo.

Errou, por exemplo, ao adotar, no segundo mandato, o ajuste fiscal. O desemprego voltou a crescer por causa disso (estava em 6,8% em 2014).

Mas, depois, a partir de meados de 2016, não foi ela: o governo Temer fez aprovar a PEC do Teto dos Gastos. Traduzindo: obrigou o Estado a reduzir investimentos em saúde e educação públicas – pelos próximos vinte anos -, o que aprofundou a recessão. Votou a Lei da Terceirização e, logo em seguida, a Reforma Trabalhista, que acabou com os direitos trabalhistas. A tal reforma, contrariamente ao que diziam, não gerou emprego, gerou mais desemprego.

O ministro Paulo Guedes interrompeu o ajuste fiscal? Interrompeu a política de austeridade? Não: está aprofundando o ajuste. Traduzindo: impedindo que o Estado invista mais, impedindo o crescimento econômico.

Se o Estado não investe, diria Stiglitz, não vai ter crescimento.

Sua política econômica, ministro, ao dar continuidade ao ajuste fiscal, está nos levando ao fundo do poço. Há cinco meses, só se fala em cortes. Não dos lucros dos banqueiros (que, este ano, já tiveram lucros maiores que no ano passado, no mesmo período). Cortes nas políticas públicas, na educação, na previdência. O desemprego está aumentando, o desalento também. E o governo nada faz para mudar esta direção. Sua única proposta até agora é fazer aprovar a reforma da previdência.

E todos sabemos que esta reforma não vai produzir crescimento. Se for aprovada este ano, só começará a ter efeitos no ano que vem. E, entre os efeitos, não haverá emprego. Haverá menos dinheiro nas mãos de muitas pessoas, que vão perder parte do que já ganhavam. Ou seja: o mercado interno vai ser reduzido, justamente um dos principais fatores da melhora da economia até 2014.

Sua outra proposta de política econômica é “privatizar tudo”. O Sr. quer deixar de receber os 70 bilhões de lucros produzidos por ano pelas nossas maiores empresas estatais e transferi-los para o setor privado. Que governo reclama que faltam recursos e joga fora os recursos que tem?

Ministro, todos sabemos o que deve ser feito para aumentar a receita da Previdência: crescimento econômico, aumento do emprego, aumento dos salários. Já vimos que há recursos para o Estado investir. Se houver emprego, haverá mais trabalhadores formais, mais gente pagando a Previdência. Vai ser muito bom.

Pare de destruir o país, por favor.

[i] Ver https://infinityasset.com.br/blog/wp-content/uploads/2019/05/rankingdejurosreais080519.pdf

ALFABETIZAÇÃO ECOLÓGICA – ESPAÇO DE INICIAÇÃO AMOROSA:W.Boff

Waldemar Boff, estudou nos USA, foi redator de revista e coordena uma ONG:SEOP (Serviço de Educação e Organização Popular) cuja ação se concentra em Petrópolis em em Macaé, junto ao rio Surui,dedicando-se à população pobre e marginalizada. Mantém três creches para famílias pobres, cujas mãe têm que sair para trabalhar. Organizou cooperativas de produção agrícola orgânica e atualmente todo o esforço se reduz a ajudar a matar a fome de pessoas que já não recebem a bolsa família e passam extrema necessidade.Com espírito franciscano ama e cuida da natureza e mais que tudo os mais vulneráveis que são as crianças pobres. Tem trabalhado o tema da educação, educação pela pele, pelo toque para que as pessoas se sintam inseridas em nossa humanidade e em nossa fraternidade. Publicamos este texto pois é o que vive com a sua “gente poverella” na Baixada Fluminense. Lboff

Há uma alfabetização difícil e radical. Ela nos obriga à mudança, a outro aprendizado, à humildade e à reverência: é a alfabetização ecológica. As outras alfabetizações (gráfica, tecnológica e digital) geralmente nos colocam desafios operativos, raramente desafios filosófico-culturais.

A alfabetização ecológica desbanca o antropocentrismo e coloca no centro a admirável história da vida (biocentrismo). Desafia até certo ponto o lógos ordenador para instaurar o éros, como força desorganizadora e reorganizadora.

Ademais, a aventura da vida sobre a terra nos indica o nosso lugar no conjunto e outra forma de nos organizarmos socialmente. Afinal, a vida conseguiu ser sustentável e equilibrada através um sistema flexível de redes, de ciclos, de fluxos, de expansão e equilíbrio dinâmico. Os valores que configuram nossa sociedade (individualismo, racionalismo, oposição, competição, materialismo) causam desigualdades, desequilíbrios, agressões e loucura. O resultado é a perda da alegria de viver e a tirania do desejo insaciável.

A exacerbação da razão e a brutalidade das relações nos levaram à atual deselegância social e à vulnerabilidade dos serviços ambientais. A razão enlouquecida e uma civilização estressada nos aceleram o passo e nos fazem esquecer da necessidade da pausa e do descanso. Com isto sai a paz mansa e entra o desassossego turbulento.

A natureza que te circunda, a paisagem do teu território, é um espaço em que você pode se iniciar ou ser ajudado(a) a se iniciar no observar, no maravilhar-se, no enamoramento, na louvação, na ação de graças e na reverência. É uma liturgia pagã, sadia e radicalmente religiosa, isto é, que religa você ao universo criado.

Na alfabetização ecológica importa inicialmente que você pare, se cale e se deixe tocar pela natureza. Permitir que ela entre na sua vida como um outro diverso, mas da mesma família. Isto pode lhe custar muito, porque as coisas vivas freqüentemente nos são objetos sem alma, para nos servir. Parar, sentar-se, calar, exterior e interiormente, para poder ver, ouvir, sentir e degustar o que a vida tem a nos dizer, a nos ensinar, a nos enlevar é um exercício espiritual.

Quando você descobrir que a natureza é um outro e não simplesmente um amontoado de objetos e coisas vivas entre si relacionadas, quando se der conta de que todas essas “coisas” são sujeitos, portadores de história, subjetividade e destino, então poderás entrar em relação de igualdade, respeito e reciprocidade, não simplesmente em relação utilitária, subalterna e fruidora.

O relacionamento amoroso entre duas pessoas é interativo. Os amantes alternam-se nos papéis. Ora um toma a iniciativa e o outro acolhe, ora o que acolhe retorna oferecendo um presente novo e inesperado. Assim, o diálogo entre amante e amado vai se tecendo por palavras, gestos, olhares, toques, abraços, enlevos e delícias.

Poderia ser parecido o teu relacionamento com a natureza, natura- a vida que vem continuamente nascendo, pulsando e acontecendo, quer a gente sinta ou não.

 Waldemar Boff  é educador popular e coordenador da ONG Serviço de Educacação e Organização Popular (SEOP)

Uma menina nos alerta sobre o futuro sombrio da Casa Comum.

Publicamos aqui o texto completo do discurso que Greta Thunberg proferiu aos deputados das Casas do Parlamento britânico.  O discurso foi publicado por The Guardian, 23-04-2019 e no Brasil pela  IHU de 25/4/19.

O texto dispensa comentários. Pela voz de uma menina de 16 anos fala a inteira  humanidade, preocupada com o futuro que nos está sendo roubado ou com a civilização que pode terminar miseravelmente devido à irresponsabilidade humana de não cuidar da condições que tornam habitável  Casa Comum, a Mãe Terra. Neste espaço do blog abordamos muitas vezes o risco de uma catástrofe ecológico-social de dimensões ameaçadoras para o sistema-Terra e o sistema-Vida. Usamos as fontes científicas mais seguras, até por sermos membros da Iniciativa Internacional da Carta da Terra (2000) que foi um dos primeiro documentos a lançar o alarme ecológico. Talvez sejam as crianças aqueles protagonistas de um novo despertar da humanidade. Se não ouvirmos mais as crianças, nossos filhos e filhas e nossos netos e netas, perderemos a capacidade de nos mobilizarmos para salvar o que podemos e devemos salvar. Devemos fazê-lo pelo menos por amor a nossos familiares para os quais não queremos entregar-lhes uma Casa Comum arruinada e prestes a cair. Lboff.

Eis o texto da menina sueca.

Meu nome é Greta Thunberg. Eu tenho 16 anos. Eu venho da Suécia. E falo em nome das futuras gerações.

Eu sei que muitos de vocês não querem nos ouvir – vocês dizem que somos apenas crianças. Mas estamos apenas repetindo a mensagem da ciência climática unida.

Muitos de vocês parecem preocupados com o fato de estarmos desperdiçando um valioso tempo de aula, mas garanto que voltaremos à escola assim que vocês começarem a ouvir a ciência e a nos dar um futuro. Será que isso é realmente pedir muito?

No ano 2030 eu terei 26 anos. Minha irmãzinha Beata terá 23. Assim como muitos dos seus próprios filhos ou netos. Essa é uma grande idade, foi o que nos disseram. Quando você tem toda a sua vida pela frente. Mas eu não tenho tanta certeza de que será tão boa para nós.

Eu tive a sorte de nascer em um tempo e lugar onde todos nos diziam para sonhar alto; eu poderia me tornar o que quisesse. Eu poderia morar onde quisesse. Pessoas como eu tinham tudo o que precisávamos e muito mais. Coisas com as quais os nossos avós nem podiam sonhar. Tínhamos tudo que poderíamos desejar e, no entanto, agora podemos não ter nada.

Agora, provavelmente nós nem temos mais um futuro.

Porque esse futuro foi vendido para que um pequeno número de pessoas pudesse ganhar quantias inimagináveis de dinheiro. Ele foi roubado de nós todas as vezes que vocês disseram que o céu era o limite e que você só vive uma vez.

Vocês mentiram para nós. Vocês nos deram falsas esperanças. Vocês nos disseram que o futuro era algo para se esperar. E o mais triste é que a maioria das crianças nem sequer têm consciência do destino que nos espera. Nós não vamos entender isso até que seja tarde demais. E, no entanto, nós somos os sortudos. Aqueles que serão mais afetados já estão sofrendo as consequências. Mas as suas vozes não são ouvidas.

O meu microfone está ligado? Vocês podem me ouvir?

Por volta do ano 2030, daqui a 10 anos, 252 dias e 10 horas, estaremos em uma posição onde desencadearemos uma reação em cadeia irreversível para além do controle humano, que provavelmente levará ao fim da nossa civilização como a conhecemos. Ou seja, a menos que, nesse tempo, mudanças permanentes e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade ocorram, incluindo uma redução de emissões de CO2 em pelo menos 50%.

E, por favor, notem que esses cálculos dependem de invenções que ainda não foram inventadas em escala, invenções que deveriam limpar a atmosfera de quantidades astronômicas de dióxido de carbono.

Além disso, esses cálculos não incluem pontos de inflexão imprevisíveis e ciclos de realimentação como o extremamente poderoso gás metano que escapa do permafrost ártico em rápido derretimento.

Esses cálculos científicos também não incluem o aquecimento oculto já aprisionado da poluição atmosférica tóxica. Nem o aspecto da equidade – ou da justiça climática – claramente expressado em todo o Acordo de Paris, que é absolutamente necessário para que isso funcione em escala global.

Também devemos ter em mente que esses são apenas cálculos. Estimativas. Isso significa que esses “pontos de não retorno” podem ocorrer um pouco mais cedo ou mais tarde do que 2030. Ninguém pode ter certeza. No entanto, podemos ter certeza de que eles ocorrerão aproximadamente nesses prazos, porque esses cálculos não são opiniões ou suposições selvagens.

Essas projeções são sustentadas por fatos científicos, concluídos por todas as nações por meio do IPCC. Quase todos os principais órgãos científicos nacionais de todo o mundo apoiam sem reservas o trabalho e as conclusões do IPCC.

Vocês ouviram o que eu acabei de falar? O meu inglês está bom? O microfone está ligado? Porque estou começando a me questionar sobre isso.

Durante os últimos seis meses, eu viajei por toda a Europa durante centenas de horas em trens, carros e ônibus elétricos, repetindo várias e várias vezes essas palavras que mudam a vida. Mas ninguém parece estar falando sobre isso, e nada mudou. De fato, as emissões ainda estão aumentando.

Quando eu viajo para falar em diversos países, sempre me oferecem ajuda para escrever sobre as políticas climáticas específicas em países específicos. Mas isso não é realmente necessário. Porque o problema básico é o mesmo em todos os lugares. E o problema básico é que basicamente nada está sendo feito para deter – ou mesmo retardar – o colapso climático e ecológico, apesar de todas as belas palavras e promessas.

O Reino Unido, no entanto, é muito especial. Não apenas pela sua impressionante dívida histórica de carbono, mas também pela sua atual e muito criativa contabilidade de carbono.

Desde 1990, o Reino Unido alcançou uma redução de 37% em suas emissões territoriais de CO2, de acordo com o Global Carbon Project. E isso soa muito impressionante. Mas esses números não incluem as emissões da aviação, da navegação e aquelas associadas às importações e exportações. Se esses números forem incluídos, a redução é de cerca de 10% desde 1990 – ou uma média de 0,4% ao ano, segundo o Tyndall Manchester.

E a principal razão para essa redução não é uma consequência das políticas climáticas, mas sim uma diretriz da União Europeia de 2001 sobre a qualidade do ar que essencialmente obrigou o Reino Unido a fechar as suas antigas e extremamente poluentes usinas de carvão e a substituí-las por usinas de gás menos poluentes. E mudar de uma fonte de energia desastrosa para outra menos desastrosa, é claro, resultará em uma redução das emissões.

Mas talvez o equívoco mais perigoso sobre a crise climática é que temos que “reduzir” as nossas emissões. Porque isso está longe de ser suficiente. As nossas emissões precisam parar se quisermos ficar abaixo de 1,5-2ºC de aquecimento. A “redução das emissões” é obviamente necessária, mas é apenas o começo de um processo rápido que deve levar a uma parada dentro de algumas décadas, ou menos. E por “parada” eu me refiro a zero líquido – e depois rapidamente para números negativos. Isso exclui a maioria das políticas de hoje.

O fato de estarmos falando de “reduzir” em vez de “parar” as emissões talvez seja a maior força por trás do contínuo “business as usual”. O atual apoio ativo do Reino Unido à nova exploração de combustíveis fósseis – por exemplo, a indústria de fracking de gás de xisto no Reino Unido, a expansão dos seus campos de gás e petróleo do Mar do Norte, a expansão dos aeroportos, assim como a permissão de planejamento de uma nova mina de carvão – ultrapassa o absurdo.

Esse comportamento irresponsável continuado, sem dúvida, será lembrado na história como um dos maiores fracassos da humanidade.

As pessoas sempre dizem a mim e aos outros milhões de grevistas nas escolas que devemos nos orgulhar de nós mesmos pelo que conseguimos. Mas a única coisa que precisamos olhar é para a curva de emissões. E, sinto muito, mas ela ainda está subindo. Essa curva é a única coisa para a qual devemos olhar.

Todas as vezes que tomamos uma decisão, deveríamos nos perguntar: como essa decisão afetará essa curva? Não deveríamos mais medir a nossa riqueza e o nosso sucesso no gráfico que mostra o crescimento econômico, mas sim na curva que mostra as emissões de gases de efeito estufa. Não deveríamos mais simplesmente perguntar: “Temos dinheiro suficiente para continuar com isso?”, mas também: “Já poupamos o suficiente do orçamento de carbono para gastar com isso?”. Esse deveria e deve se tornar o centro da nossa nova moeda.

Muitas pessoas dizem que não temos soluções para a crise climática. E elas têm razão. Porque como poderíamos? Como vocês “solucionam” a maior crise que a humanidade já enfrentou? Como vocês “solucionam” uma guerra? Como vocês “solucionam” uma ida à Lua pela primeira vez? Como vocês “solucionam” a invenção de novas invenções?

A crise climática é tanto a questão mais fácil quanto a mais difícil que já enfrentamos. A mais fácil, porque sabemos o que devemos fazer. Temos que parar as emissões de gases de efeito estufa. A mais difícil, porque a nossa economia atual ainda depende totalmente da queima de combustíveis fósseis e, assim, da destruição dos ecossistemas, a fim de criar um crescimento econômico duradouro.

“Então, exatamente, como solucionamos isso?”, vocês nos perguntam – nós, as crianças das escolas que estão em greve pelo clima.

E nós dizemos: “Ninguém sabe ao certo. Mas temos que parar de queimar combustíveis fósseis e restaurar a natureza e muitas outras coisas que talvez ainda não tenhamos descoberto”.

Então, vocês dizem: “Isso não é uma resposta!”.

Então, nós dizemos: “Temos que começar a tratar a crise como uma crise – e a agir mesmo que não tenhamos todas as soluções”.

“Isso ainda não é uma resposta”, vocês dizem.

Então, começamos a falar sobre a economia circular e a recuperação da natureza e a necessidade de uma transição justa. Então, vocês não entendem sobre o que estamos falando.

Nós dizemos que todas essas soluções necessárias não são conhecidas por ninguém e, portanto, devemos nos unir atrás da ciência e encontrá-las juntos ao longo do caminho. Mas vocês não escutam isso. Porque essas respostas servem para resolver uma crise que a maioria de vocês não entende completamente. Ou não quer entender.

Vocês não ouvem a ciência porque estão interessados apenas em soluções que lhes permitirão seguir em frente como antes. Como agora. E essas respostas não existem mais. Porque vocês não agiram a tempo.

Evitar o colapso do clima exigirá um “pensamento de catedral”. Devemos lançar as fundações enquanto ainda não podemos saber exatamente como construir o teto.

Às vezes, temos simplesmente que encontrar um caminho. No momento em que decidimos realizar alguma coisa, podemos fazer qualquer coisa. E tenho certeza de que, no momento em que começarmos a nos comportar como se estivéssemos em uma emergência, poderemos evitar a catástrofe climática e ecológica. Os humanos são muito adaptáveis: ainda podemos consertar isso. Mas a oportunidade de fazer isso não durará muito tempo. Devemos começar hoje. Não temos mais desculpas.

Nós, crianças, não estamos sacrificando a nossa educação e a nossa infância para que vocês nos digam o que vocês consideram como politicamente possível na sociedade que vocês criaram. Nós não fomos às ruas para vocês tirarem selfies conosco e nos dizerem que vocês realmente admiram o que fazemos.

Nós, crianças, estamos fazendo isso para acordar os adultos. Nós, crianças, estamos fazendo isso para que vocês ponham suas diferenças de lado e comecem a agir como se vocês estivessem em uma crise. Nós, crianças, estamos fazendo isso porque queremos as nossas esperanças e os nossos sonhos de volta.

Eu espero que o meu microfone esteja ligado. Eu espero que todos vocês tenham me ouvido.

 

Já estamos caminhando para uma nova ditadura? R.Kotscho

Ricardo Kotscho é um dos mais brilhantes jornalitas e analistas nacionais, muitas vezes premiados. É de uma crítica serena e sempre bem contextualizada. Nossa democracia está em risco, é a advertência que nos deixa. Por isso publicamos aqui este texto que nos faz entender que rumos o país está tomando com o desmonte de quase tudo o que significa uma democracia cotidiana que funciona com as instituições da sociedade civil. Até o Conselho Nacional das Pessoas Deficientes (Conade), foi desmontqado, sem falar do CONSEA (Copnselho Nacional de Seguridade Alimentar) que ajudava o governo a formular as políticas de alimentação, da agricultura familiar e outras, especialmente para as escolas. O jornalista mantem um site “Balaio do Kotscho” que vale a pena seguir pois traz análises críticas e construtivas do que podemos fazer face ao desmonte de nossas instituições democráticas.  LBoff

Já estamos caminhando para uma nova ditadura? Para o “Mito”, democracia é um estorvo

16/04/2019

Bolsonaro assume posturas de ditador” (Aldo Fornazieri, professor e sociólogo).

Numa só canetada, ao completar 100 dias de governo, o presidente Jair Bolsonaro, também chamado de “Mito”, acabou na semana passada com mais de 700 conselhos da sociedade civil organizada. Não escapou nem o Conade (Conselho Nacional das Pessoas Deficientes).

Entre todas as maluquices e indignidades cometidas até agora pelo governo do capitão de olhos arregalados, o mais grave para mim foi este decreto, um verdadeiro AI-5 redivivo, que acabou com os conselhos criados desde a redemocratização do país.

O mais impressionante nisso é que a demolição deste sustentáculo da democracia participativa não gerou maiores reações da sociedade civil, como se fosse uma coisa normal.

Fornazieri alerta em seu artigo publicado hoje no portal 247 e no Balaio do Kotscho:

“Portador de uma mentalidade ditatorial _ não por acaso elogia ditadores sanguinários, Bolsonaro não se preocupa muito com as avaliações da opinião pública. Os políticos vocacionados às ditaduras tornam-se cada vez mais perigosos à medida crescente de seu isolamento”.

Despencando em todas as pesquisas, volta-se cada vez mais para o núcleo duro do seu eleitorado, os chamados “bolsonaristas de raiz”, a extrema direita brasileira que lhe dava 20% dos votos na campanha presidencial, antes da facada e da prisão de Lula, que decidiram a eleição.

E o que se poderia esperar de quem tem como seus ídolos e modelos políticos figuras abomináveis como Pinochet e Stroessner, um deputado do baixo clero sempre defendeu a ditadura e as torturas do regime militar e tem como guia o coronel Brilhante Ustra e Olavo de Carvalho?

Chegamos a um ponto de esquizofrenia política que já tem muita gente achando que só os generais, liderados pelo vice Mourão, podem salvar o Brasil de uma nova ditadura.

O fim dos conselhos foi um passo emblemático deste governo paramilitar para afrontar o Estado de Direito, o respeito às liberdades individuais e o direito de organização e participação da sociedade num regime democrático.

Para Bolsonaro, as conquistas sociais e civilizatórias dos últimos anos são um apenas um estorvo na sua escalada autoritária, em que só ele quer mandar no pedaço, como se o Brasil fosse uma propriedade privada dele.

Acabar com os radares nas estradas, o liberou geral das armas, as seguidas agressões aos órgãos de defesa do meio ambiente, tudo isso faz parte de uma estratégia ensandecida do “quanto pior, melhor”, que antes era uma arma da oposição, não dos governos.

Acreditando mesmo que é um “Mito”, que cumpre uma missão divina. parece que o presidente joga no caos generalizado para ver o circo pegar fogo e depois surgir como o salvador da pátria.

Ele mesmo falou em Washington que primeiro é preciso destruir para depois começar a construir um novo Brasil.

A destruição já começou, mas ninguém sabre o que virá no lugar dos escombros.

Vida que segue.