Iris Boff: MÃE É ….

Hoje,domingo de maio, é convencionalmente o dia das mães. Todos os dias são dias das mães, pois elas estão presentes na vida e no coração de todas as pessoas. Esse dia é para reconhecer sua existência sem a qual ninguém no mundo existiria. Não há humanidade sem mães. Elas como mulheres são mais da metade da humanidade. E são as irmãs ou as mãe da outra metade, dos homens. Não são, portanto,pouca coisa. Foi dito pela FAO, organismo da ONU que cuida da alimentação do mundo: “Se não dermos mais poder de decisão às mulheres, não garantiremos um futuro da vida. Pois são elas que geram e entendem a vida”. Não se fala de participação pois elas sempre participaram e participaram, mas no patriarcado nunca puderam decidir. Agora que a vida corre risco de ser atacada letalmente com o coronavírus e eventntualmente ser eliminada por nossa irresponsabilidade, recorremos à sua capacidade de decisão, pois elas geram e sabem o que é a sacralidade da vida.Aqui vai um pequeno poema para dizer nas palavras de uma mãe de sete filhos o que é ser Mãe em suas múltiplas facetas, em sua missão irrenunciável no percurso de vida de cada pessoa. L.Boff

                                        MÃE É :                                         

 Mãe tem um endereço certo. É aquele lugar no coração do qual nunca saímos.

Ela é o PARAISO que nunca perdemos.

 A longa história da Humanidade se repete no ventre da Mãe em apenas 9 meses

       Mãe é a MEMÓRIA do mundo.

Carregando uma bomba atômica vital, o ventre da Mãe é capaz de transformar em pouco tempo uma minúscula célula num ser humano perfeito e completo.

       Mãe é o LABORATÓRIO da Vida.

 O ritual que uma Mãe faz ao esperar , preparar, parir, cuidar e educar uma criança faz dela verdadeira SACERDOTIZA.

A devassa, ou prostituta se transforma em Madona de Michelangelo, quando tem uma criança no colo. A maternidade lhe confere uma auréola de luz. Ela vira Nossa Senhora.

       Mãe é sempre uma SANTA.

 A Revolução , pacífica e silenciosa das Consciências, começa no ventre da mulher

       Toda a Mãe é uma GUERREIRA sem armas.

Em meio a exigências, disputas e uma guerra contínua de nervos, A Mãe é o PARTIDO MAIS PACIFISTA do mundo.

Numa cultura machista , o filho bem sucedido carrega o nome do pai e o fracassado é o FILHO DA MÃE.

Bandido, delinqüente, criminoso, tem sempre a causa ganha e o perdão irrestrito para aquela que diz: É MEU FILHO.

O vínculo do casal pode ser provisório, mas o do PAI E DA MÃE é para sempre

A maternidade não é só biológica, ela é também consciente. Primeiro se é mãe das bonecas, sobrinhos, afilhados, mãe da própria mãe. Mãe de uma causa, de um movimento, de uma obra.

       TODA A MULHER É MÃE.

 O cuidado, delicadezas e minúcias , com que uma Mãe toca seu bebê, a magia de suas mãos e o esmero em lidar com fios, tintas, comidas, remédios, roupas, livros, máquinas, tecidos, teclas, volantes, cantando e dançando, rindo e chorando, rezando e xingando, fazem dela uma ARTISTA, FIANDEIRA, FEITICEIRA, BRUXA E XAMÃ.

Em momentos de aflição e catástrofe: “MINHA MÃE “ é a primeira invocação.

Mãe é a portadora das virtudes teologais FÉ , ESPERANÇA E CARIDADE .

Ela é a primeira Religião, a primeira Divindade. Ela é a DEUSA.

MÃE É UMA SÓ.

Iris Boff é educadora, poeta, mãe de sete filhos homens e de inúmeros netos,guerreira ao apoiar e participar de movimentos sociais populares que buscam vida, justiça e libertação.É minha irmã.

 

 

 

Pós-Covid-19: que visão de mundo e que valores desenvolver?

         Pós-Covid-19: que visão de mundo e que valores desenvolver?                                    

Leonardo Boff*

Causa séria preocupação o ataque sistêmico que a natureza mediante um pequeníssimo e invisível vírus está movendo contra a humanidade, levando milhares à morte. Entretanto, fundamental é também a nossa reação frente à pandemia. Que lição ela nos passa? Que visão de mundo e que espécie de valores ela nos leva a desenvolver? Seguramente devemos aprender tudo o que devíamos ter aprendido e não aprendemos. Devíamos ter aprendido que somos parte dela e não os seus “senhores e donos” (Descartes). Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida.

             A erosão da imagem do “pequeno deus na terra”

O mito dos modernos de que nós somos “o pequeno deus” na Terra e que podemos dispor dela ao nosso bel-prazer pois ela é inerte e sem propósito foi desfeito. Um dos pais do método científico moderno Francis Bacon dizia que devemos tratar a natureza como os esbirros da inquisição tratam suas vítimas, torturando-as até que ela entreguem todos os seus segredos       .

Pela tecnociência levamos este método até o extremo alcançando o coração da matéria e da vida. Isso se implementou com um furor inaudito ao ponto de termos destruído a sustentabilidade da natureza e assim do planeta e da vida. Desta forma, rompemos o pacto natural que existe com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos para viver e em contrapartida nós devíamos cuidá-la, preservar seus bens e serviços e dar-lhe descanso para repor tudo o que lhe tiramos para a nossa vida e progresso. Nada disso fizemos.

Por não termos observado o preceito bíblico de “guardar e cuidar do Jardim do Éden(da Terra: Gn 2,15) e ameaçado as bases ecológicas que sustentam toda vida, ela nos contra-atacou com uma arma poderosa,o coronavírus 19. Para enfrentá-lo retornamos ao método da Idade Média que superou suas pandemias mediante o isolamento social rigoroso. Para fazer o povo, amedrontado, sair à rua, na prefeitura de Munique (Marienpltatz) se construiu um engenhoso relógio com dançarinos e cucos para todos acorrerem para apreciá-lo o que é feito até os dias atuais.

A pandemia que é mais que uma crise mas uma exigência de mudança de visão de mundo e de incorporação de novos valores nos coloca esta questão: queremos verdadeiramente evitar que a natureza nos envie vírus ainda mais letais que até podem dizimar a espécie humana? Esta seria uma entre as dez que desaparecem definitivamente a cada dia. Queremos correr esse risco?

             A inconsciência generalizada do fator ecológico

Já em 1962 a bióloga e escritora norte-americana Rachel Carson, autora de “Primavera Silenciosa”(Silient Spring) advertiu:” É pouco provável que as gerações futuras tolerem nossa falta de preocupação prudente pela integridade do mundo natural que sustenta toda a vida…A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida, sem se destruir a si mesma e sem perder o direito de ser chamada de civilização”.

Parece uma profecia da situação que estamos vivendo a nível planetário. Temos a impressão de que a maioria da humanidade e mesmo os líderes políticos não demonstram uma consciência suficiente dos perigos que estamos correndo com o aquecimento global, com a demasiada proximidade de nossas cidades e principalmente do agronegócio massivo da natureza virgem e das florestas sendo desmatadas. Festa forma destruímos os habitats dos milhões de vírus e bactérias que acabam se transferindo para os seres humanos.

É imperioso que abandonemos o velho paradigma da vontade de poder e de dominação sobre tudo (o punho cerrado) na direção de um paradigma do cuidado de tudo o que existe e vive (a mão estendida) e da corresponsabilidade coletiva. Escreveu Eric Hobsbown na última frase de seu livro A era dos extremos (1995):

Uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar. O preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.506).

Isto significa que não podemos voltar simplesmente à situação anterior ao coronavírus.Nem pensar numa volta ao passado pré-iluminismo como quer o atual governo brasileiro e outros de extrema-direita.

            O pós-pandemia: o novo ou a radicalização do antes?

Não são poucos os analistas que prognosticam que o pós-pandemia poderá significar uma radicalização extrema da situação anterior, uma volta ao sistema do capital e ao neoliberalismo, procurando dominar o mundo com o uso da vigilância digital (big data) sobre cada pessoa do planeta, coisa aliás que já está em curso na China e nos USA. Aí entraríamos na era das trevas, com o risco, aventado por Raquel Carson da nossa autodestruição. Daí a exigência de uma radical conversão ecológica, cuja centralidade deverá ser ocupada pela Terra, pela vida e pela civilização humana: uma biocivilização. Caso quisermos sobreviver.

Sigmund Freud respondendo a uma carta de Albert Einstein de 1932 que perguntava se era possível superar a violência e a guerra, deixava aberta a questão. Respondeu ponderando que não podia afirmar qual instinto iria prevalecer: se o instinto de morte (thánatos) ou se o instinto de vida (éros). Eles estão sempre se tensionando sem termos a certeza de quem no final triunfará. Termina resignado:”Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Há uma opinião nada otimista de um dos maiores intelectuais norte-americanos e crítico severo do sistema imperialista, Noham Chomsky. Diz ele:” «O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. Há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e a outra, é claro, pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos condenados”.

Chomsky tem asseverado que o presidente Trump é suficientemente insano para deflagar uma guerra nuclear, sem se importar com o que pode acontecer para toda a humanidade.

Não obstante esta visão dramática do prestigiado linguista e pensador, nossa esperança é que se a humanidade for posta sob grave risco de realmente se autodestruir, o instinto de vida irá prevalecer. Mas à condição de termos construído uma forma diferente de habitar a Casa Comum sobre outras bases que não sejam nem do passado nem do presente.

            Reinventar a humanidade e remodelar a Terra

O coronavírus nos obrigará a nos reinventar como humanidade e remodelar de forma sustentável e includente a única Casa Comum que temos. Se prevalecer o que dominava antes, ainda exacerbado ao extremo, aí sim poderemos nos preparar para o pior. Entretanto, cabe recordar que o sistema-vida passou por várias grandes dizimações (estamos dentro da sexta) mas sempre sobreviveu.

Ela pareceria – me permito uma metáfora singular – uma “praga” que ninguém até hoje conseguiu exterminar. Porque é uma “praga”bendita, ligada ao mistério do cosmogênese e daquela Energia de Fundo, misteriosa e amorosa que preside a todos os processos cósmicos e também os nossos.

De todos os modos, o coronavírus nos mostrou de que não somos “pequenos deuses” que pretendem poder tudo; somos frágeis e limitados; que a acumulação de bens materiais não salva a vida; que a globalização financeira sozinha, nos moldes competitivos do capitalismo, impede de criar, como propõem os chineses “uma comunidade de destino comum para toda a humanidade”; que temos que criar um centro global e plural para gestionar os problemas globais; que a cooperação e a solidariedade de todos com todos e não o individualismo, constituem os valores centrais de uma geosociedade; que se deve reconhecer e respeitar os limites do sistema-Terra que não tolera um projeto de crescimento ilimitado; que devemos cuidar da natureza, como cuidamos de nós mesmos, pois somos parte dela e é ela que nos fornece todos os bens e serviços necessários para a vida; que devemos buscar uma economia circular que realiza os famosos três erres (R): reduzir, reutilizar e reciclar tudo que entrou no processo produtivo; que a economia seja de subsistência digna e universal e não da acumulação de alguns à custa de todos os outros e da natureza; que este tipo de economia da subsistência diminui as necessidades para dar lugar à sobriedade e assim reduzir enormemente as desigualdades sociais; que a nova ordem econômica não se regeria pelo lucro mas por uma racionalidade econômica com sentido social e ecológico;que seria altamente racional e humanitário criar uma renda universal mínima; que a assistência a saúde é um direito humano universal (One World-One Health); que não podemos dispensar, antes favorecer, a ciência e a técnica feitas com consciência e destinadas a servir à vida e não ao mercado; que é importante garantir um Estado regulador do mercado, impulsionador do desenvolvimento necessário e apetrechado para atender demandas coletivas, seja sanitárias seja de calamidades naturais; que devemos incentivar o capital humano-espiritual, sempre ilimitado, fundado no amor, na solidariedade, na busca da justa medida, na fraternidade, na compaixão, no encantamento do mundo e na busca incansável da paz.

Estas são algumas lições, entre outras, que o coronavírus nos permite tirar. Citando a Carta da Terra, um dos documentos oficiais (UNESCO) mais inspiradores para a transformação do nosso modo de ser no planeta Terra,”são necessárias mudanças fundamentais nos nossos valores, instituições e modos de vida…Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos,sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Preâmbulo c).

       Que visão de mundo e que valores incorporar?

Saber e tomar conhecimento dos dados da realidade não é ainda fazer. O que nos move a agir? Que visão de mundo e que valores devemos incorporar? Orienta-nos um importante texto da parte conclusiva da Carta da Terra,de cuja redação também participei.

”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global”(O caminho adiante)

Observemos: não se trata de apenas melhorar o caminho andado. Esse nos levará às crises cíclicas que já conhecemos e eventualmente ao desastre. Mas se trata de “buscar um novo começo”. Vale dizer, somos desafiados a remontar a “Terra, nosso lar, que está viva com uma comunidade de vida única”(CT, Preâmbulo a). Enganoso seria cobrir as feridas da Terra com band-aids, pensando assim curá-la. Temos que revitalizá-la e refaze-la para ser a Casa Comum.

“Isto requer uma mudança de mente”. A mudança de mente significa um novo olhar sobre a Terra assim como a nova cosmologia e biologia a apresentam. Ela é um momento do processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões e anos e a Terra, 4,3 bilhões de anos. Depois do big bang, todos os elementos físico-químicos se forjaram ao longo de uns três bilhões de anos no coração das grandes estrelas vermelhas. Ao explodirem, jogarem para todas as direções estes elementos que formaram as galáxia, as estrela como o Sol, os planetas e a Terra.

Ela é viva com uma vida que irrompeu há 3,8 bilhões de anos, um super-organismo sistêmico que se auto-organiza e continuamente se auto-cria. Num momento avançado de sua complexidade, cerca de 8-10 milhões de anos atrás, uma porção dela começou a sentir, pensar, amar e venerar. Surgiu o ser humano, homem e mulher. Ele é Terra consciente e inteligente, por isso se chama homo, feito de húmus.

Esta visão muda a nossa concepção da Terra. A ONU em 22 de abril de 2009 oficialmente a reconheceu como Mãe Terra, pois tudo gera e nos dá. Por isso a Carta da Terra afirma:”Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade e cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor”(CT 1 e 2). Terra como solo podemos comprar e vender, cavar e fazer tantas coisas. Mãe, no entanto, nós não compramos nem vendemos; nós a amamos e veneramos. Tais atitudes devem ser transferidas para a Terra, nossa Mãe. Essa é a nova mente que importa incorporar.

“Requer uma mudança no coração”. O coração é a dimensão do sentimento profundo, da sensibilidade, do amor, da compaixão e dos valores que orientam nossa vida. Especialmente no coração reside o cuidado que é uma forma amigável e afetuosa de se relacionar com a natureza e os seus seres. Temos a ver com a razão sensível ou cordial, com o cérebro límbico, que emergiu há 220 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos. Todos eles, como o ser humano, têm sentimentos, amor e cuidado para com sua cria. Esse é o pathos, a capacidade de afetar e ser afetado, a dimensão mais profunda do ser humano.

A razão (o logos), a mente da qual nos referimos anteriormente, surgiu há apenas 8-10 milhões de anos com o cérebro neocortical e na forma avançada como homo sapiens (o homem atual) há cerca de cem mil anos. Ele, na modernidade, foi desenvolvido de forma exponencial, dominando nossas sociedades e criando a tecnociência, os grandes instrumentos de dominação e de transformação da face da Terra, inclusive criando uma máquina de morte com armas nucleares e outras que podem pôr fim à vida humana e da natureza.

O excesso da razão, o racionalismo, criou uma espécie de lobotomia: o ser humano tem dificuldade de sentir o outro e o seu sofrimento. Precisamos completar a inteligência racional, necessária para dar conta das necessidades de sobrevivência da nossa vida mas há que completá-la com a inteligência emocional e sensível para sermos mais completos e assumirmos com paixão a defesa da Terra e da vida.

Valem-nos as palavras do Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral “Sobre o cuidado da Casa Comum”: “Devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216) E acrescenta:”Implica ainda a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, mas de formarmos com os outros seres do universo uma esplêndida comunhão universal”(n.220).

Portanto, é o coração que nos leva a ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobre e nos leva a socorrê-los, mudando a forma como nos relacionamos com eles, como produzimos e como consumimos, com esse ideal formulado pelo primeiro ministro chinês XI Jinping: “criar uma sociedade moderadamente abastecida” ou como nós dizemos: uma sociedade com um consumo sóbrio e solidário.

Segue ainda o texto da Carta da Terra: “Requer-se um novo sentido de interdependência global”. A relação de todos com todos e por isso a interdependência global representa uma constante cosmológica. Tudo no universo é relação. Nada e ninguém estão fora da realação. O cosmos é constituído pelo conjunto das redes de relação mais do que do número inumerável dos corpos celestes. É também um axioma da física quântica segundo o qual todos os seres são inter-retro-relacionados. Nós mesmos, seres humanos, somos um rizoma (bulbo com raízes) de relações voltado para todas as relações. Isso implica entender que todos os problemas ecológicos, econômicos, políticos e espirituais têm a ver uns com os outros. Tocando num tocamos na rede toda das relações. A ação que fizermos afeta toda a rede de ações.

Esta compreensão holística supera a atomização dos saberes e fragmentação das atividades humanas. Só salvaremos a vida se nos alinharmos à esta lógica universal que é lógica da natureza com sua esplêndida diversidade. Todos os seres se entre-ajudam, até os mais débeis, pois também estes possuem um valor em si mesmo e comunicam alguma mensagem do universo.

Segue o texto da Carta Terra:” requer-se uma responsabilidade universal”. Responsabilidade significa dar-se conta das consequências de nossas ações, se são benéficas ou maléficas para o conjunto dos seres. Hans Jonas escreveu um livro clássico sobre o “Princípio Responsabilidade”. Ele inclui o princípio de prevenção e o de precaução. Na prevenção podemos calcular os efeitos quando interviermos na natureza. O princípio de precaução não nos permite medir as consequência e por isso não devemos arriscar com certas ações e intervenções porque podem produzir efeitos altamente danosos para a vida.

A responsabilidade deve ser universal, de todos. Não é assim que um grupo ou uma empresa assumam sua responsabilidade socioecológica, protegem o ar e garante a pureza das águas, enquanto outras não cuidam destes efeitos danosos e os consideram simplesmente como exterioridades (coisas que não entram na contabilidade dos negócios). Ou todos assumem uma atitude responsável, por isso universal, e assim praticamos comportamentos ecologicamente benéficos ou então seguiremos acumulando problemas para a vida e o futuro de nossa existência.

Mais ainda diz a Carta da Terra: “desenvolver e aplicar com invenção a visão (de um modo sustentável de vida). Nada de grande neste mundo sem fez sem a invenção do imaginário que projeta novos mundos e novos modos de ser. É aqui o lugar das utopias viáveis. Toda utopia alarga o horizonte e nos torna inventivos. O próprio ser humano emerge como um ser utópico, pois é um projeto infinito e um ser habitado pelo desejo, cuja natureza, segundo os antigos e Freud, é ilimitado. A utopia nos leva de horizonte a horizonte, fazendo-nos sempre caminhar na feliz expressão de Eduardo Galeano.

Para superar o modo costumeiro de habitar a Casa Comum, sem sequer tê-la descoberto (isso ocorreu somente a partir das viagens espaciais), explorando seus ecossistemas, descuidando das florestas, das águas, do ar puro e da fertilidade dos solos e de relações justas e fraternas nas sociedades, precisamos da invenção que nasce de uma utopia ou de um sonho. Toda utopia é, por natureza, irrealizável. Mas existem as utopias viáveis, aquelas que podemos juntos trazer para a realidade. Assim que precisamos sonhar com o planeta como “A Terra da Boa Esperança”(Ignace Sachs) antes de pôr as mãos no seu fazimento. Essa utopia é realizável pela humanidade, quando despertar de seu sono de um mundo de mão a mão e abri-se ao grande sonho possível de outro mundo possível e necessário.

Mais ainda afirma a Carta da Terra:”uma visão de um modo sustentável de vida. Estamos acostumados à expressão que está em todos os documentos oficiais e na boca da ecologia dominante “desenvolvimento sustentável”. Todas as análises sérias têm mostrado que o nosso modo de produzir, distribuir e consumir é insustentável. Vale dizer não consegue manter o equilíbrio entre o que tiramos da natureza e que lhe deixamos para sempre poder se reproduzir e co-evoluir. Nossa voracidade tornou o planeta insustentável, pois se os países ricos quisessem universalizar seu bem-estar à toda a humanidade, precisaríamos, pelo menos, de três Terras iguais a esta, o que é absolutamente impossível.

O atual desenvolvimento que significa crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) revela espantosas desigualdades a ponto de a grande ONG Oxfam no seu informe de 2019 nos revelar que 1% da humanidade possui a metade da riqueza do mundo e que 20% controla 95% desta riqueza (do 1%) enquanto os restantes 80% têm que contentar-se com apenas 5% da riqueza. Tais dados revelam a completa insustentabilidade do mundo em que vivemos.

A Carta da Terra não se rege pela economia mas pela vida. Dai o grande desafio consiste em criar um modo sustentavel de vida e todos os âmbitos, pessoal, familiar, social, nacional e internacional. Para isso se impõem a necessidade de “um novo começo” e não apenas de melhorias, mantendo o sistema desigual.

Por fim, este modo sustentável de vida deve realizar-se no nível local, nacional, regional e global. Evidentemente se trata de um projeto global que deverá se realizado com prazos, na medida em que cresce a consciência ecológica e nos dermos conta de nossa responsabilidade pelo futuro comum Terra e humanidade. Hoje o ponto mais avançado na busca da sustentabilidade se realiza no nível local e regional. Fala-se então do bioregionalismo como a forma realmente viável de concretizar a sustentabilidade. Tomando-se a região como referência, não segundo as divisões arbitrárias ainda persistentes, mas aquelas que a própria natureza fez com os rios, as montanhas, as florestas e outras que configuram um ecossistema regional. Dentro deste quadro pode realizar-se uma autêntica sustentabilidade, incluindo os bens naturais, a cultura e tradições locais, as personalidades que marcaram aquela história, com o favorecimento de pequenas empresas e uma agricultura orgânica, com a participação maior possível, num espírito democrático. Desta forma se propiciará um “bem viver e conviver”(o ideal ecológico andino) suficiente, decente e sustentável com a diminuição das desigualdades.

Esta visão formulada pela Carta da Terra é grandiosa e factível. O que mais precisamos é de boa-vontade, a única virtude que para Kant não possui nenhum defeito e limitação, pois se tiver, deixará de ser boa. Essa boa-vontade impulsionaria as comunidades e, no limite, a inteira humanidade a realmente realizar “um novo começo”.

         Virtudes para um outro mundo possível

Esse modo sustentável de vida se traduz por práticas virtuosas que tornam real o modo sustentável de viver. São muitas as virtudes para um outro mundo possível. Serei breve, pois sobre isso publiquei três volumes com esse mesmo título “Virtudes para um outro mundo possível”(Vozes 2005-2006). Enumero 10 sem detalhar-lhes o conteúdo, o que nos levaria longe.

A primeira é o cuidado essencial. Chamo de essencial pois segundo uma tradição filosófica que nos vem dos romanos, atravessou os séculos e ganhou sua forma maior entre vários autores especialmente no núcleo central de Ser e Tempo de Heidegger. Ai se vê o cuidado como da essência do ser humano. Ele é a pré-condição para o conjunto de fatores que permitem a emergência da vida. Sem o cuidado a vida jamais irromperia e subsistiria. Alguns cosmólogos como Brian Swimme e Stephan Hawking viram no cuidado como a dinâmica mesma do universo. Se as quatro energias fundamentais não tivessem o sutil cuidado de atuarem sinergeticamente, não teríamos o mundo que temos. Todo ser vivo depende do cuidado. Se nós não tivéssemos o infinito cuidado de nossas mães, não saberíamos como deixar o berço e buscar o nosso alimento, dado que somos seres biologicamente carentes, sem nenhum órgão especializado. Precisamos do cuidado de outros. Tudo o que amamos também cuidamos, tudo o que cuidamos também amamos. Face à natureza significa uma relação amigável, não agressiva e respeitosa de seus limites.

A segunda virtude é o sentimento de pertença à natureza, à Terra e ao universo. Somos partes de um grande Todo que nos desborda por todos os lados; somos a parte consciente e inteligente da natureza, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Esse sentimento de pertença nos enche de respeito, de encantamento e de acolhimento.

A terceira virtude é a solidariedade e a cooperação. Somos seres sociais que não apenas vivem mas convivem com outros. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade e a cooperação de nossos ancestrais antropoides que ao buscar o alimento e traze-lo para o consumo coletivo, lhes permitiu deixar para trás a animalidade e inaugurar o mundo humano. Hoje, no caso do caronavírus, o que nos está salvando é a solidariedade e a cooperação de todos com todos. Esta solidariedade deve começar pelos últimos e invisíveis sem o que, ela deixa de ser inclusiva de todos.

A quarta virtude é a responsabilidade coletiva. Já temos exposto o seu sentido acima. É o momento da consciência em que cada um e uma inteira sociedade se dão conta dos efeitos bons ou ruins de suas decisões e atos. Seria absolutamente irresponsável o desmatamento desenfreado da Amazônia pois desequilibraria o regime de chuvas de vastas regiões e eliminaria a biodiversidade indispensável para o futuro da vida. Nem precisamos nos referir a uma guerra nuclear cuja letalidade eliminaria toda a vida especialmente a humana .

A quinta virtude é a hospitalidade como dever e como direito. O primeiro a apresentar a hospitalidade como dever e como direito foi Immanuel Kant no seu famoso texto “Em vista da paz perpétua”(1795). Entendia que a Terra é de todos, pois, Deus não deu título de propriedade de algum pedaço dela a ninguém. Ela pertence a todos os habitantes que podem andar por todas as partes. Ao encontrarem alguém o dever de todos é oferecer a hospitalidade, como sinal de pertença comum à Terra e todos têm o direito de serem acolhidos, sem qualquer distinção. Para ele, junto com o respeito dos direitos humanos constituiriam as pilastras para uma república mundial (Weltrepublik). Esse tema é atualíssimo dado o número de refugiados e as muitas discriminações por vários títulos. Talvez seja uma das virtudes mais urgentes no processo de planetização embora uma das menos vividas.

A sexta virtude é a convivência de todos com todos. A convivência é um dado primário, pois todos viemos da convivência que nossos pais tiveram. Nós somos seres de relação que é o mesmo que dizer, não vivemos simplesmente mas de forma diuturna convivemos. Participamos da vida dos outros, de suas alegrias e angústias. Especialmente custa a muitos a conviver com os diferentes, seja de etnia, de religião, de partido político. O importante é estar aberto à troca. O diferente sempre nos traz algo novo que nos enriquece ou desafia. O que jamais podemos fazer é transformar a diferença numa desigualdade. Podemos ser humanos de muitas formas diferentes, na forma brasileira, italiana, japonesa, yanomami. Mas cada forma é humana e possui a sua dignidade.     Hoje pelos meios de comunicação cibernéticos abrimos janelas para todos os povos e culturas. Saber conviver com essa diferença abre novos horizontes e entramos numa espécie de comunhão com todos. Esta convivência implica também a natureza, conviver com com as paisagens, com as florestas, com os pássaros e animais. Não apenas olhar para o céu estrelado, mas entrar em comunhão com as estrelas, pois delas viemos e formamos um grande Todo. Por fim, formamos uma comunidade de destino comum junto com a totalidade da criação.

A sétima virtude é o respeito incondicional. Cada ser, por menos que seja, possui valor em si mesmo, independentemente do uso humano. Quem desenvolveu o tema em profundidade foi Albert Schweitzer, grande médico suiço que foi ao Gabão na África para atender a hanseniamos. Para ele o respeito é a base mais importante da ética, pois comporta acolhida, solidariedade e amor. Devemos começar com o respeito a nós mesmos, ao manter atitudes e modos dignos que suscitam o respeito dos outros. Importa respeitar todos os seres da criação, pois valem por eles mesmos; existem ou vivem e merecem existir ou viver. Mais que tudo, vale o respeito diante de cada pessoa humana, pois é portadora de dignidade, de sacralidade e de direitos inalienáveis, pouco importa sua procedência. Respeito supremo devemos ao Sagrado e a Deus, o mistério íntimo de todas as coisas. Só diante dele podemos cair de joelhos e reverenciar, pois só a Ele cabe esta atitude.

A oitava virtude é justiça social e igualdade fundamental de todos. A justiça é mais que dar a cada um o que é seu ; entre os humanos, a justiça é o amor o respeito mínimo que devemos devotar aos outros. A justiça social é garantir os mínimos a todas as pessoas, não criar privilégios e respeitar seus direitos em pé de igualdade, pois todos somos humanos e merecemos ser tratados humanamente. Desigualdade social significa injustiça social e, teologicamente, uma ofensa ao Criador e a seus filhos e filhas. Talvez ela seja a maior perversidade hoje existente que deixa milhões na miséria e condenados a morrer antes do tempo. Neste tempo de coronavírus se mostrou a violência da desigualdade social e da injustiça. Enquanto uns podem viver sua quarentena em casas ou apartamentos adequados, a grande maioria pobre é exposta à contaminação e, não raro, à morte.

A nova virtude é a busca incansável da paz. A paz é um dos bens mais ansiados, pois vivemos, por causa do tipo de sociedade que construimos, em permanente concorrência, apelos ao consumo e à exaltação da produtividade. A paz não existe em si, pois, ela é consequência de valores que devem ser vividos anteriormente e que têm como resultado a paz. Uma das mais pertinentes compreensões da paz nos vem da Carta da Terra, na qual se diz: “a paz é a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). Como se depreende, a paz é consequência de relações adequadas e é o fruto da justiça social. Sem estas relações e a justiça só conheceremos tréguas mas nunca uma paz permanente.

A décima virtude é o cultivo do sentido espiritual da vida. O ser humano possui uma exterioridade corporal com a qual nos relacionamos com o mundo e as pessoas; temos uma interioridade psíquica onde se aninham,na estrutura de desejo, nossas paixões, os grandes sonhos e nossos anjos e demônios que devemos controlar estes últimos e cultivar amorosamente os primeiros. Só assim gozaremos de um equilíbrio necessário para a vida.

Mas possuímos também a profundidade, aquela dimensão onde habitam as grandes interrogações da vida: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que podemos esperar depois desta vida terrena? Qual é a Energia Suprema que sustenta o firmamento e conserva nossa Casa Comum ao redor do Sol e a mantém sempre viva para nos permitir viver? É a dimensão espiritual do ser humano feita de valores intangíveis como o amor incondicional, a confiança na vida, a coragem de enfrentar as agruras inevitáveis. Damo-nos conta de que o mundo está repleto de sentidos, que as coisas são mais que coisas, pois são mensagens e possuem um outro lado invisível. Intuímos que há uma Presença misteriosa que perpassa todas as coisas. As tradições religiosas e espirituais chamaram a esta Presença de mil nomes, sem contudo poder decifrá-la totalmente. É o mistério do mundo que remete ao Mistério Abissal que faz ser tudo aquilo que é. Cultivar este espaço nos humaniza, nos torna mais humildes e nos enraíza numa realidade transcendente, adequada ao nosso desejo infinito.

         Conclusão:  ser simplesmente humanos

A conclusão que tiramos destas longas reflexões a propósito do coronavírus 19 é: devemos ser simplesmente humanos, vulneráveis, humildes, ligados uns aos outros, parte da natureza e a porção consciente e espiritual da Terra com a missão de cuidar da herança sagrada que recebemos, a Mãe Terra, para nós e para as futuras gerações.

Inspiradoras são as últimas frases da Carta da Terra:”Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade mediante a intensificação da luta pela justiça e pela paz, na alegre celebração da vida”

*Leonardo Boff é eco-teólogo e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol.) Vozes 2005-2006.

 

 

 

Volver a la “normalidad” es autocondenarse

Cuando pase la pandemia del coronavirus no nos estará permitido volver a la “normalidad” anterior. Sería, en primer lugar, un desprecio a los miles de personas que han muerto asfixiadas por el virus y una falta de solidaridad con sus familiares y amigos. En segundo lugar, sería la demostración de que no hemos aprendido nada de lo que, más que una crisis, es una llamada urgente a cambiar nuestra forma de vivir en nuestra única Casa Común. Se trata de un llamamiento de la propia Tierra viva, ese superorganismo autorregulado del que somos su parte inteligente y consciente.

El sistema actual pone en peligro las bases de la vida

Volver a la anterior configuración del mundo, hegemonizado por el capitalismo neoliberal, incapaz de resolver sus contradicciones internas y cuyo ADN es su voracidad por un crecimiento ilimitado a costa de la sobreexplotación de la naturaleza y la indiferencia ante la pobreza y la miseria de la gran mayoría de la humanidad producida por ella, es olvidar que dicha configuración está sacudiendo los cimientos ecológicos que sostienen toda la vida en el planeta. Volver a la “normalidad” anterior (business as usual) es prolongar una situación que podría significar nuestra propia autodestrucción.

Si no hacemos una “conversión ecológica radical”, en palabras del Papa Francisco, la Tierra viva podrá reaccionar y contraatacar con virus aún más violentos capaces de hacer desaparecer a la especie humana. Esta no es una opinión meramente personal, sino la opinión de muchos biólogos, cosmólogos y ecologistas que están siguiendo sistemáticamente la creciente degradación de los sistemas-vida y del sistema-Tierra. Hace diez años (2010), como resultado de mis investigaciones en cosmología y en el nuevo paradigma ecológico, escribí el libro Cuidar la Tierra-proteger la vida: cómo evitar el fin del mundo (Record). Los pronósticos que adelantaba han sido confirmados plenamente por la situación actual.

El proyecto capitalista y neoliberal ha sido rechazado

Una de las lecciones que hemos aprendido de la pandemia es la siguiente: si se hubieran seguido los ideales del capitalismo neoliberal –competencia, acumulación privada, individualismo, primacía del mercado sobre la vida y minimización del Estado– la mayoría de la humanidad estaría perdida. Lo que nos ha salvado ha sido la cooperación, la interdependencia de todos con todos, la solidaridad y un Estado suficientemente equipado para ofrecer la posibilidad universal de tratamiento del coronavirus, en el caso del Brasil, el Sistema Único de Salud (SUS).

Hemos hecho algunos descubrimientos: necesitamos un contrato social mundial, porque seguimos siendo rehenes del obsoleto soberanismo de cada país. Los problemas mundiales requieren una solución mundial, acordada entre todos los países. Hemos visto el desastre en la Comunidad Europea, en la que cada país tenía su plan sin considerar la necesaria cooperación con otros países. Fue una devastación generalizada en Italia, en España y últimamente en Estados Unidos, donde la medicina está totalmente privatizada.

Otro descubrimiento ha sido la urgencia de un centro plural de gobierno mundial para asegurar a toda la comunidad de vida (no sólo la humana sino la de todos los seres vivos) lo suficiente y decente para vivir. Los bienes y servicios naturales son escasos y muchos de ellos no son renovables. Con ellos debemos satisfacer las demandas básicas del sistema-vida, pensando también en las generaciones futuras. Es el momento oportuno para crear una renta mínima universal para todos, la persistente prédica del valiente y digno político Eduardo Suplicy.

Una comunidad de destino compartido

Los chinos han visto claramente esta exigencia al promover “una comunidad de destino compartido para toda la humanidad”, texto incorporado en el renovado artículo 35 de la Constitución china. Esta vez, o nos salvamos todos, o engrosaremos la procesión de los que se dirigen a la tumba colectiva. Por eso debemos cambiar urgentemente nuestra forma de relacionarnos con la naturaleza y con la Tierra, no como señores, montados sobre ella, dilapidándola, sino como partes conscientes y responsables, poniéndonos junto a ella y a sus pies, cuidadores de toda la vida.

A la famosa TINA (There Is No Alternative), “no hay (otra) alternativa” de la cultura del capital, debemos confrontar otra TINA (There Is a New Alternative), “hay una nueva alternativa”. Si en la primera alternativa la centralidad estaba ocupada por el beneficio, el mercado y la dominación de la naturaleza y de los otros (imperialismo), en esta segunda será la vida en su gran diversidad, también la humana con sus muchas culturas y tradiciones la que organizará la nueva forma de habitar la Casa Común. Eso es imperativo y está dentro de las posibilidades humanas: tenemos la ciencia y la tecnología, tenemos una acumulación fantástica de riqueza monetaria, pero falta a la gran mayoría de la humanidad y, lo que es peor, a los Jefes de Estado la conciencia de esta necesidad y la voluntad política de implementarla. Tal vez, ante el riesgo real de nuestra desaparición como especie, por haber llegado a los límites insoportables para la Tierra, el instinto de supervivencia nos haga sociables, fraternos y todos colaboradores y solidarios unos con otros. El tiempo de la competencia ha pasado. Ahora es el tiempo de la cooperación.

La inauguración de una civilización biocentrada

Creo que inauguraremos una civilización biocentrada, cuidadosa y amiga de la vida, como algunos dicen, “la tierra de la buena esperanza”. Se podrá realizar el “bien vivir y convivir” de los pueblos andinos: la armonía de todos con todos, en la familia, en la sociedad, con los demás seres de la naturaleza, con las aguas, con las montañas y hasta con las estrellas del firmamento.

Como el premio Nobel de economía Joseph Stiglitz ha dicho con razón: “tendremos una ciencia no al servicio del mercado, sino el mercado al servicio de la ciencia”, y yo añadiría, y la ciencia al servicio de la vida.

No saldremos de la pandemia de coronavirus como entramos. Seguramente habrá cambios significativos, tal vez incluso estructurales. El conocido líder indígena, Ailton Krenak, del valle del Río Doce, ha dicho acertadamente: “No sé si saldremos de esta experiencia de la misma manera que entramos. Es como una sacudida para ver lo que realmente importa; el futuro es aquí y ahora, puede que mañana no estemos vivos; ojalá que no volvamos a la normalidad” (O Globo, 01/05/2020, B 6).

Lógicamente, no podemos imaginar que las transformaciones se produzcan de un día a otro. Es comprensible que las fábricas y las cadenas de producción quieran volver a la lógica anterior. Pero ya no serán aceptables. Deberán someterse a un proceso de reconversión en el que todo el aparato de producción industrial y agroindustrial deberá incorporar el factor ecológico como elemento esencial. La responsabilidad social de las empresas no es suficiente. Se impondrá la responsabilidad socio-ecológica.

Se buscarán energías alternativas a las fósiles, menos impactantes para los ecosistemas. Se tendrá más cuidado con la atmósfera, las aguas y los bosques. La protección de la biodiversidad será fundamental para el futuro de la vida y de la alimentación, humana y de toda la comunidad de la vida.

¿Qué tipo de Tierra queremos para el futuro?

Seguramente habrá una gran discusión de ideas sobre qué futuro queremos y qué tipo de Tierra queremos habitar. Cuál será la configuración más adecuada a la fase actual de la Tierra y de la propia humanidad, la fase de planetización y de la percepción cada vez más clara de que no tenemos otra casa común para habitar que ésta. Y que tenemos un destino común, feliz o trágico. Para que sea feliz, debemos cuidarla para que todos podamos caber dentro, incluida la naturaleza.

Existe el riesgo real de polarización de modelos binarios: por un lado los movimientos de integración, de cooperación general y, por otro, la reafirmación de las soberanías nacionales con su proteccionismo. Por un lado el capitalismo “natural” y verde y por otro lado el comunismo reinventado de tercera generación como pronostican Alain Badiou y Slavoy Zizek.

Otros temen un proceso de brutalización radical por parte de los “dueños del poder económico y militar” para asegurar sus privilegios y sus capitales. Sería un despotismo de forma diferente porque se basaría en los medios cibernéticos y en la inteligencia artificial con sus complejos algoritmos, un sistema de vigilancia sobre todas las personas del planeta. La vida social y las libertades estarían permanentemente amenazadas. Pero a todo poder le surgirá siempre un contrapoder. Habría grandes enfrentamientos y conflictos a causa de la exclusión y la miseria de millones de personas que, a pesar de la vigilancia, no se conformarán con las migajas que caen de las mesas de los ricos epulones.

No pocos proponen una glocalización, es decir que el acento se ponga en lo local, en la región con su especificidad geológica, física, ecológica y cultural pero abierta a lo global que involucra a todos. En este biorregionalismo se podría lograr un verdadero desarrollo sostenible, aprovechando los bienes y servicios locales. Prácticamente todo se realizará en la región, con empresas más pequeñas, con una producción agroecológica, sin necesidad de largos transportes que consumen energía y contaminan. La cultura, las artes y las tradiciones serán revividas como una parte importante de la vida social. La gobernanza será participativa, reduciendo las desigualdades y haciendo que la pobreza sea menor, siempre posible, en las sociedades complejas. Es la tesis que el cosmólogo Mark Hathaway y yo defendemos en nuestro libro común El Tao de la Liberación (2010) que fue bien acogida en el ambiente científico y entre los ecologistas hasta el punto de que Fritjof Capra se ofreció a hacer un interesante prefacio.

Otros ven la posibilidad de un ecosocialismo planetario, capaz de lograr lo que el capitalismo, por su esencia competitiva y excluyente, es incapaz de hacer: un contrato social mundial, igualitario e inclusivo, respetuoso de la naturaleza en el que el nosotros (lo comunitario y societario) y no el yo (individualismo) será el eje estructurador de las sociedades y de la comunidad mundial. El ecosocialismo planetario encontró en el franco-brasileño Michael Löwy su más brillante formulador. Tendremos, como reafirma la Carta de la Tierra así como la encíclica del Papa Francisco “sobre el cuidado de la Casa Común”, un modo de vida verdaderamente sostenible y no sólo un desarrollo sostenible.

Al final, pasaremos de una sociedad industrial/consumista a una sociedad de sustentación de toda la vida con un consumo sobrio y solidario; de una cultura de acumulación de bienes materiales a una cultura humanístico-espiritual en la que los bienes intangibles como la solidaridad, la justicia social, la cooperación, los lazos afectivos y no en última instancia la amorosidad y la logique du coeur estarán en sus cimientos.

No sabemos qué tendencia predominará. El ser humano es complejo e indescifrable, se mueve por la benevolencia pero también por la brutalidad. Está completo pero aún no está totalmente (terminado). Aprenderá, a través de errores y aciertos, que la mejor configuración para la coexistencia humana con todos los demás seres de la Madre Tierra debe estar guiada por la lógica del propio universo: este está estructurado, como nos dicen notables cosmólogos y físicos cuánticos, según complejas redes de inter-retro-relaciones. Todo es relación. No existe nada fuera de la relación. Todos se ayudan mutuamente para seguir existiendo y poder co-evolucionar. El propio ser humano es un rizoma (bulbo de raíces) de relaciones en todas las direcciones.

Si se me permite decirlo en términos teológicos: es la imagen y semejanza de la Divinidad que surge como la relación íntima de tres Infinitos, cada uno singular (las singularidades no se suman), Padre, Hijo y Espíritu Santo, que existen eternamente el uno para el otro, con el otro, en el otro y a través del otro, constituyendo un Dios-comunión de amor, de bondad y de belleza infinita.

Tiempos de crisis como el nuestro, de paso de un tipo de mundo a otro, son también tiempos de grandes sueños y utopías. Ellas son las que nos mueven hacia el futuro, incorporando el pasado pero dejando nuestra propia huella en el suelo de la vida. Es fácil pisar la huella dejada por otros, pero ella no nos lleva a ningún camino esperanzador. Debemos hacer nuestra propia huella, marcada por la inagotable esperanza de la victoria de la vida, porque el camino se hace caminando y soñando. Así pues, caminemos.

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito: Cuidar la Tierra-proteger la vida: cómo escapar del fi del mundo, Record, Rio 2010 y Trotta 2011.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Celso Japiassu:O novo velho continente e suas contradições:O outro nome da infâmia

 O novo velho continente e suas contradições: O outro nome da infâmia

Celso Japiassu é um paraibano vivendo no Rio de Janeiro, jornalista, colunista e poeta.Transcrevemos este suscinto e denunciatório artigo, pois nos esclarece o drama dos refugiados,vindos em África, para o Continente europeu.Sofrem terrivelmente e são e foram as principais vítimas do coronavírus nos vários países europeus. Por que emigram para a Europa? O Papa Francisco respondeu aos jornalistas:”eles estão aqui porque antes,nós europeus, estivemos lá e os submetemos, exploramos e roubamos suas riquezas”. A maioria dos europeus os rejeitam e até fecham as fronteiras como a “cristianíssima Polônia”. Esquecem a tragédia humana e ecológica que esses europeus provocaram com sua colonização, com carcterísticas de barbárie. Queremos entender a situação deles, para não engolirmos a versão de certa mídia dominante e xenófoba que os estigmatiza e sermos solidários em sua paixão. Lboff

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Essas migrações forçadas que amedrontam a burguesia do continente são a herança histórica deixada pela ocupação e da infame exploração da África na história moderna pelas potências europeias

Antes da pandemia, era comum ver nas ruas das principais capitais da Europa – e vai voltar a ser vista depois dela – a presença de refugiados africanos a procurar fugir da miséria vendendo bugigangas e produtos falsificados das grandes marcas comerciais preferidas da burguesia internacional. A correr da polícia, servindo a máfias organizadas, alvos de preconceitos e desprezo, são a face mais visível do drama dos imigrantes e refugiados legais ou, na maioria, ilegais. Na sua miséria denunciam outra tragédia maior e mais antiga, a do colonialismo europeu no continente africano. Cruel e desumana, marcada pela ganância e pela violência, a ocupação nos tempos modernos de noventa por cento do território africano pelas potências europeias responde hoje pelas migrações das populações que o colonialismo deixou ao abandono em países devastados.

Essa presença da miséria destoante em países ricos amedronta as classes médias e são pretexto sob medida para a plataforma xenófoba e ultranacionalista dos partidos de direita declaradamente fascistas. Eles têm atingido votação crescente por seus programas que pregam o fechamento de fronteiras e a pretensa defesa de seus países contra o que chamam de invasão estrangeira. Já chegaram ao poder ou estiveram muito perto de consegui-lo, a exemplo da França, Itália, Reino Unido, sem contar com os regimes ultra reacionários já instalados como os da Hungria e da Polônia.

Essas migrações forçadas que amedrontam a burguesia do continente são a herança histórica deixada pela ocupação e da infame exploração da África na história moderna pelas potências europeias.

O Congo

Talvez o melhor exemplo do que foi a colonização da África seja o do Congo Belga. O historiador Tim Stanley, da Universidade de Oxford, resumiu bem:

“Como muitas atividades imperialistas, a colonização belga começou como um mero exercício de pirataria. Mas os níveis atingidos pelo terror nas populações locais, a contribuição da burocracia estatal e as estimativas de mortes fazem com que os eventos do Congo sejam comparáveis às atrocidades do Nazismo e à Grande Fome da Ucrânia, arquitetada por Stalin, por exemplo.”

Foi um genocídio. O vasto território congolês era propriedade pessoal do rei Leopoldo II, que acumulou enorme fortuna explorando a população, vendendo escravos, marfim e borracha. Se não fossem cumpridas as cotas de produção, a punição era assassinato, mutilação e estupros. Não foi atoa que Joseph Conrad usou o Congo de Leopoldo II como cenário do seu romance “O Coração das Trevas”.

Leopoldo II, em quase 50 anos de reinado, nunca visitou o Congo e não era amado pelo seu próprio povo. Quando morreu, em 1909, foi vaiado na passagem do cortejo do seu enterro, embora a história oficial da Bélgica o homenageie como um dirigente empreendedor.

Hoje em dia, a capital Bruxelas conta com cem mil imigrantes africanos morando no bairro de Matonge, a grande maioria vinda da República Democrática do Congo. Correspondem a 10 por cento da população da cidade e procuram fazer algum dinheiro numa rica capital europeia para transferir uma parte para a família na África. Uma realidade que se repete em outros países europeus colonialistas como se fosse uma memória permanente, por vezes incômoda, dos abusos cometidos na África.

Somente de janeiro a maio do ano passado, chegaram à Itália e à Grécia 60 mil refugiados africanos, a maioria vinda através da Nigéria. Enfrentaram a travessia do Mediterrâneo e espalharam-se pelos diversos países europeus. Mais de mil pessoas morreram na travessia, contados apenas os corpos que foram encontrados.

 A exploração da África

Antes dos países modernos da Europa, a África foi território colonizado e explorado por fenícios, gregos, romanos, vândalos, Império Bizantino e pelos árabes. A partir do século XV, com os descobrimentos inaugurados pelos portugueses, foi ocupado numa corrida que durou até meados do século XX pela Bélgica, França, Holanda, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha.

No século XIX a África estava toda fatiada entre aqueles países. Apenas a Libéria e a Etiópia permaneceram independentes. A Etiópia foi ocupada por uns tempos pela Itália, num dos sonhos de grandeza de Benito Mussolini. A partilha do território africano foi feita sem qualquer respeito pelas características étnicas e culturais de cada povo, o que veio a gerar conflitos internos que duram até os dias atuais.

Os movimentos de independência começaram depois da Segunda Guerra, nos anos 1950. Alguns com o uso de violência e guerras declaradas, como foi o caso das colônias portuguesas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique e da guerra de libertação da Argélia contra o domínio francês.

Mas a independência não significou a libertação da África das amarras do capitalismo. Hoje como ontem este vasto continente continua a ser alvo dos predadores das riquezas do seu território. Se antes eram os exércitos dos colonizadores que o subjugavam e exploravam, agora são as grandes empresas multinacionais que corrompem seus governos e se apoderam do que ele tem de petróleo, gás natural, metais preciosos como ouro e diamante, ferro, titânio, platina, madeira e o bem que será motivo de grandes conflitos no futuro próximo: água. Enquanto isto suas populações empreendem uma desesperada fuga da miséria e da fome. São o fantasma que não deixa a Europa esquecer a extrema violência que usou e continua a usar na ocupação e exploração da África.

Fonte: Carta Maior 05/05/2020