Igreja é ‘radicalmente contra’ o uso de armas, avisa o teólogo Altmeyer

Fernando Altmeyer  da PUC-SP é um dos teólogos leigos mais comprometidos com os meios populares. Possui excelente formação acadêmica daqui e da Europa. Foi assessor do Card. Dom Paulo Evaristo. Possui refinado humor e grande jovialidade mesmo no meio dos conflitos sociais que sempre apoia. Onde aparece, desanuvia o ambiente carregado. É bem articulado com os meios sociais e representa com racionalidade, auto-crítica e amorosidade os problemas internos da Igreja. Este entrevista revela bem seu caráter, sua transparência e leveza mesmo quando diz as verdades mais duras. Publicamos este artigo tirado de O Estado de São Paulo de 31/12/2018 para criar luz sobre o tema perigoso e polêmico do atual Presidente Bolsonaro, de entregar nas mãos das pessoas armas sempre mortíferas. Isso não pode ser. Num país que tem um dos números mais altos de assassinatos do mundo, em geral por armas de fogo: Lboff
 

FERNANDO ALTEMEYER JUNIOR. FOTO SILVANA GARZARO/ESTADÃO

A Igreja Católica repele as campanhas em favor das armas, trava uma batalha em favor dos refugiados, tem o dever de zelar pela pluralidade de opiniões e desempenha a função de arrancar os crucificados da cruz, proclama o teólogo Fernando Altemeyer Junior, chefe do Departamento de Ciência da Religião da PUC São Paulo. Mas algumas dessas missões, alerta o estudioso, não são nada fáceis, pois sopram “contra o vento neoliberal”.

Num País em que a posse e o porte de armas agitaram a disputa eleitoral e dividiram a sociedade – e com o novo presidente, que assume hoje, reforçando suas promessas a respeito, anteontem – Altemeyer avisa: “As igrejas são radicalmente contra o uso de armas. Isso é da Bíblia. ‘Armas deverão ser transformadas em enxadas’, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo”. Nesta entrevista à repórter Paula Reverbel, o teólogo critica os que defendem o fascismo em nome do cristianismo: “Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos”. A seguir, trechos da conversa.

O tema da Campanha da Fraternidade 2018 da CNBB, “superação da violência”, continua valendo em 2019?
Sim, vai continuar. É uma tradição de 50 anos de campanhas da fraternidade – que, paradoxalmente, nasceu justo em 1964. O ano que começa amanhã é uma continuidade, só que em chave positiva. O tema é “Fraternidade e Políticas Públicas” – os 40 dias da quaresma serão dedicados a pensar a mudança das atitudes negativas. O lema para 2019 é inspirado pelo profeta Isaías, capítulo 1, versículo 27: “Serás libertado pelo direito e pela justiça”. Então, teremos um tema de peso numa situação política cheia de incógnitas. É positivo, a CNBB está certíssima.

O ano que agora acaba foi marcado por atos de violência e polarização. Qual o papel da Igreja antes tais conflitos?
O de ficar do lado dos perdedores, sempre. Para o cristianismo, tudo passa por um lugar: a cruz. Só do lado do crucificado é que a Igreja pode estar. Obviamente, não para aplaudir a crucificação, porque isso seria patético e de mau gosto. Ela tem que ajudar a arrancar os crucificados da cruz. Cada geração tem de fazer tudo de novo. Quem está na cruz? Ah, jovens com HIV? Ah, indígenas? A situação do povo negro, as periferias – ali é o lugar da Igreja, fazendo seu papel de colaboradora de ressurreição.

Em 2015, a CNBB criticou o projeto em tramitação no Congresso que muda o Estatuto do Desarmamento. Como vê isso?
As igrejas são radicalmente contra todo uso de armas. Isso é da Bíblia. “As armas deverão ser transformadas em enxadas”, já pregavam os profetas mais ou menos 700 anos antes de Cristo. Jesus fala a Pedro: “Enfia tua espada na bainha, quem usar da espada morrerá pela espada”. O papa Francisco agora deixou claro que essa indústria de armas norte-americana que financia o (Donald) Trump – e agora a brasileira, que financia o (Jair) Bolsonaro – é anticristã. A Igreja não tem nada a dizer quanto às armas senão um gigantesco “não”. As armas geram morte, geram um lucro que é cheio de sangue, produzem mal-estar no Oriente Médio, estão massacrando o povo na Síria. Elas têm produzido em nosso País um verdadeiro genocídio. Nas periferias de São Paulo, 30 jovens são assassinados a cada fim de semana.

Há dois anos, o papa Francisco autorizou que todos os padres, não só os bispos, se tornassem aptos a perdoar médicos e pacientes que praticassem aborto. Qual sua avaliação desse gesto?
Essa é uma decisão do Francisco de universalizar um preceito que todo bispo já podia oferecer aos padres no passado. Então, não é inédita, mas é global. Tem a ideia chave do Francisco de não punir as mulheres depois de viver o drama da perda de um filho, normalmente por pressão do homem que não assume o papel de pai. Então, penalizar ainda mais – com uma sentença canônica e simbólica do inferno da excomunhão – parece demais para o papa Francisco. Ele tem como chave de todo o seu papado a ação da misericórdia.

O senhor é entusiástico a respeito do papa.
Apesar dos trambolhões que com os quais ele se depara – especialmente intraeclesiásticos, por causa da pedofilia e do controle da máquina do Estado do Vaticano –, ele tem sido exemplar. A nomeação dos cardeais – pessoas do mundo inteiro – tem uma dimensão pastoral mais próxima do povo. Em termos de solidariedade e ação junto às religiões, é genial. Tenho amigos que são sheiks islâmicos e dizem que esse é o papa dos islâmicos. E tenho também dois grandes amigos rabinos, aqui em São Paulo, que afirmam que Francisco é o não judeu mais querido do judaísmo. Então, como um homem conseguiu essa sintonia? Porque ele abriu os braços. Temos algo a fazer em comum na diferença, sem precisar fazer amálgama.

Qual o marco do trabalho dele?
A batalha em favor dos refugiados. Ele acabou de lançar um manifesto pró-ONU na questão dos imigrantes e está recebendo um bombardeio de críticas dos fascistas, da direita húngara, da direita austríaca, alemã, norte-americana. A convenção da ONU propõe a acolhida dos refugiados, que é uma questão de humanidade. Essa é talvez a coisa mais importante dele… mas é a mais difícil, porque ele está falando contra o vento neoliberal.

‘O PERÍODO INTOLERANTE
DA IGREJA SÓ LEVOU
AO DESASTRE’

O cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, vê a corrupção como forma de violência que promove a miséria. Concorda?
E ela é, sem dúvida. Os corruptos são os que assaltam o Estado brasileiro e, ao assumir o encargo democrático de representação, enchem as bolsas com o dinheiro público. O dinheiro do hospital, do raios-x, da criança, da escola. Acho que Dom Sérgio acertou na mosca.

O senhor já criticou a Igreja Católica por ela até hoje não considerar a obra de Freud.
E pensar que em 2019 faz 80 anos que faleceu Freud. Já estava na hora de ouvir o Sigmund… É fundamental que a gente possa penetrar na psique humana e incluir no debate das igrejas, com lucidez, a questão da sexualidade. Ela não é um pecado. É uma possibilidade erótica de viver bem. Claro que ela pode ser pornográfica, pode ser tanatológica, levar à morte, isso Freud também demonstra. Se a gente pudesse debater isso de forma mais aberta com as juventudes, com as famílias, nós seríamos mais maduros, mais íntegros, mais felizes. Ao manter essa questão em um quarto escuro, a gente fica recalcado. Esse recalque nos está fazendo mal. Afinal, o que é o Natal? É o dia em que celebramos que Deus se fez corpo humano. O corpo de uma criança, um corpo sexuado, com memória, com desejo. Não caiu a ficha, nem de Freud, nem de (Carl) Jung, nem de (Alfred) Adler, nem dos grandes psicanalistas. A Igreja teria tudo pra fazer isso, Jesus viveu sua sexualidade de forma bela, Maria viveu sua sexualidade de forma completa.

O senhor já ressaltou que, embora se ensine que o cristianismo não se coaduna com o comunismo, também não se coaduna com o fascismo. Pode detalhar?
Sim, porque ele ainda é mais radicalmente inumano do que o regime soviético comunista, que perseguiu duramente a Igreja. Mas, o que é esta oposição? É que o fascismo nega a dignidade humana, assim, como o comunismo nega a liberdade humana. De fato, a Igreja é anticomunista. Mas o pensamento católico é também anticapitalista. O problema é que uma parte dos que estão defendendo o fascismo na Europa e no Brasil se dizem cristãos. É um paradoxo. Acham que ser fascista é ser cristão. Ser fascista é ficar do lado de Pôncio Pilatos, é anticristão total.

Acredita que o papa Francisco está atuando bem na questão da pedofilia na Igreja?
Na situação chilena, que foi a mais próxima e evidente, a destituição de inúmeros bispos – e até o pedido de demissão coletivo – foi um gesto inédito na Igreja. Francisco tirou do estado clerical uma série de padres famosos que eram os maiores criminosos. E chamou todos os presidentes das conferências de bispos – são 120 – para tratar, em fevereiro, de uma ação conjunta contra a pedofilia. Esse é um gesto forte, inédito, porque é uma ação preventiva de todos os episcopados. Acho que ele está agindo com força. Mas falta muito por fazer. A questão é muito profunda e ela atingiu, por exemplo, na Austrália, 30% do clero.

Como que o senhor vê a destruição dos terreiros de umbanda nos últimos anos?
Como um absurdo. Tem um belo texto de um dos maiores biblistas brasileiros, Carlos Mesters. É um conto que diz que um dia Jesus resolveu visitar um terreiro. Gostou tanto que falou: “Acho que não vou sair mais daqui não, o povo aqui é tão bonito, dança tão bem.” Se as pessoas compreendessem a beleza do candomblé, a força da umbanda, nunca os destruiriam. Fariam alianças, pactos, soma. É religião de paz, de festa, de cuidado. É uma coisa dramática que católicos mal orientados ataquem os terreiros. Felizmente há gente como a pastora Lusmarina (Campos), que organizou uma coleta na Igreja Luterana pra recompor um terreiro que tinha sido destruído no Rio.

Com políticos falando de fé, acha que a laicidade do Estado está em xeque?
Certamente. O Estado se mostra laico quando mantém a defesa de todas as religiões. Se alguém se apropria do Estado e diz que a sua religião vai governar – a ministra (Damares Alves) acabou de falar isso –, é uma escolha infeliz, porque o País é plural. Temos dezenas de identidades religiosas. Essas declarações são intolerantes, caem no exclusivismo. Essa fase na Igreja Católica só levou ao desastre. A frase em latim é extra ecclesiam nulla salus – “fora da Igreja não há salvação”. Em nome disso se fez guerra santa, que não tinha nada de santa, se fez inquisição, barbárie. A História nos mostrou que é um mau caminho.

2019: um voo cego rumo ao incerto?

Os últimos anos foram muito atormentados em nosso país. Aconteceu um discutível impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, acusações sérias de corrupção a seu successor, o Presidente Temer, a obra devastadora do Lava-Jato com aplicação rigorosa da lawfare e a prisão de Lula, o maior líder popular, por um julgamento claramente sem parcialidade e desprovido de provas materiais, criticado pelos mais conceituados juristas nacionais e estrangeiros.

Clamorosa foi a campanha presidencial marcada pela utilização maciça das mídias sociais com milhões de falsas notícias, mentiras e calúnias vindas de todos os lados. Numa orquestração de forças ainda a ser deslindada, elegeu-se Jair Bolsonaro, um ex-capitão do exército, de extrema direita, fundamentalista religioso e explicitamente homofóbico. Suas falas violentas, se concretizadas, poderão pôr em risco a democracia e o pacto social, custosamente, costurado pela Constituição de 1988. Nunca se viu em nosso pais a irrupção do ódio, da raiva, dos termos de baixíssimo calão, numa palavra, da dimensão obscura e perversa da cordialidade brasileira, segundo Sérgio Buarque de Holanda.

Num Estado de Direito Democrático, uma vitória eleitoral deve ser aceita por todos, por mais críticos que devamos ser das posições políticas assumidas.

O candidato vencedor não propôs nenhum projeto global para o Brasil. Logo revelou-se realmente despreparado para assumir a maior responsabilidade sobre o destino de um país continental e complexo como o nosso. Descarregou-se deste fardo, passando-o a seus ministros, muitos deles militares. Alguns, civis, revelam um obscurantismo intelectual palmar de causar espanto até aos estrangeiros.

Tudo parece indicar que estamos num voo cego rumo ao incerto. Tudo pode acontecer.

Que postura tomar? Antes de mais nada fazer uma opção comprometida e patriótica pelo Brasil. Ele é o todo, os partidos, vencedores ou vencidos, são apenas partes. Devemos todos construir o todo para todos.

Face ao Brasil necessitamos esquecer querelas do passado e olhar para frente e para longe. Devemos nos sentir como peixes de piracema. Mesmo nadando contra a correnteza, avançaremos como eles para produzir vida. Como dizia J. F. Kennedy no seu discurso inaugural em 1963:”nenhum desafio está para além da capacidade criadora do ser humano”.

Para sermos criadores, importa cultivar a esperança, como princípio que vai além da virtude, no sentido que a prisioneira Dilma Roussseff deu:”Na prisão se espera muito. Esperar necessariamente significa ter esperança. Se você perde a esperança, o medo a toma. Eu aprendi a esperar”. Por isso se tornou a pessoa honrada e  resistente que testemunhamos.

Temos que incorporar uma esperança afetiva e efetiva de que o atual governo, com todas as limitações que possui e que não são poucas, saia do voo cego e encontre o rumo da diminuição da injustiça social (as clamorosas desigualdades) mediante políticas que beneficiem o país a partir dos que mais precisam e que não podem se defender por si próprios. O dever ético primeiro de um Governo é garantir a vida dos cidadãos, em seguida as finanças, o mercado, a educação, a cultura e a segurança, tudo a serviço da vida.

Uma população empobrecida e doente jamais rasgará um caminho para o desenvolvimento humano e social. Neste contexto cabe recordar as palavras do livro do Eclesiástico:”E assassino do próximo quem lhe rouba os meios de subsistência; derrama sangue quem priva o assalariado de seu salário”(34,26-27). Alguns do governo pretendem afetar os salários e outros direitos.

Caso ocorrer grave lesão aos direitos fundamentais e ao regime democrático, cabe a formação de uma frente ampla e supra-partidária para resistir e obrigar a uma inflexão na direção do justo e do correto.

Como teólogo, me apropio para 2019 do ideal de um colega também teólogo leigo: Edward Neves de Belo Horizonte:”cultivar as seguintes posturas do Jesus histórico: (1) nutrir-se da intimidade amorosa de Deus; (2) pautar-se pelo sonho de Jesus, de um Reino de vida, de amor e de justiça; (3) agir movido por compaixão; (4) colocar-se a serviço da dignidade de cada pessoa especialmente do excluído;(5) libertar-se das tentações do ter,do poder e do puro prazer para amar com maior profundidade e gratuidade”.

A todos faço votos de um ano de felicidade possível em nosso contexto concreto. Spes contra spem

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: “Reflexões de um velho teólogo e pensador”, Vozes 2018.

 

2019: um voo cego rumo ao incerto?

 

 

 

 

Os últimos anos foram muito atormentados em nosso país. Aconteceu um discutível impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, acusações sérias de corrupção a seu successor, o Presidente Temer, a obra devastadora do Lava-Jato com aplicação rigorosa da lawfare e a prisão de Lula, o maior líder popular, por um julgamento claramente sem parcialidade e desprovido de provas materiais, criticado pelos mais conceituados juristas nacionais e estrangeiros.

Clamorosa foi a campanha presidencial marcada pela utilização maciça das mídias sociais com milhões de falsas notícias, mentiras e calúnias vindas de todos os lados. Numa orquestração de forças ainda a ser deslindada, elegeu-se Jair Bolsonaro, um ex-capitão do exército, de extrema direita, fundamentalista religioso e explicitamente homofóbico. Suas falas violentas, se concretizadas, poderão pôr em risco a democracia e o pacto social, custosamente, costurado pela Constituição de 1988. Nunca se viu em nosso pais a irrupção do ódio, da raiva, dos termos de baixíssimo calão, numa palavra, da dimensão obscura e perversa da cordialidade brasileira, segundo Sérgio Buarque de Holanda.

Num Estado de Direito Democrático, uma vitória eleitoral deve ser aceita por todos, por mais críticos que devamos ser das posições políticas assumidas.

O candidato vencedor não propôs nenhum projeto global para o Brasil. Logo revelou-se realmente despreparado para assumir a maior responsabilidade sobre o destino de um país continental e complexo como o nosso. Descarregou-se deste fardo, passando-o a seus ministros, muitos deles militares. Alguns, civis, revelam um obscurantismo intelectual palmar de causar espanto até aos estrangeiros.

Tudo parece indicar que estamos num voo cego rumo ao incerto. Tudo pode acontecer.

Que postura tomar? Antes de mais nada fazer uma opção comprometida e patriótica pelo Brasil. Ele é o todo, os partidos, vencedores ou vencidos, são apenas partes. Devemos todos construir o todo para todos.

Face ao Brasil necessitamos esquecer querelas do passado e olhar para frente e para longe. Devemos nos sentir como peixes de piracema. Mesmo nadando contra a correnteza, avançaremos como eles para produzir vida. Como dizia J. F. Kennedy no seu discurso inaugural em 1963:”nenhum desafio está para além da capacidade criadora do ser humano”.

Para sermos criadores, importa cultivar a esperança, como princípio que vai além da virtude, no sentido que a prisioneira Dilma Roussseff deu:”Na prisão se espera muito. Esperar necessariamente significa ter esperança. Se você perde a esperança, o medo a toma. Eu aprendi a esperar”. Por isso se tornou a pessoa honrada e  resistente que testemunhamos.

Temos que incorporar uma esperança afetiva e efetiva de que o atual governo, com todas as limitações que possui e que não são poucas, saia do voo cego e encontre o rumo da diminuição da injustiça social (as clamorosas desigualdades) mediante políticas que beneficiem o país a partir dos que mais precisam e que não podem se defender por si próprios. O dever ético primeiro de um Governo é garantir a vida dos cidadãos, em seguida as finanças, o mercado, a educação, a cultura e a segurança, tudo a serviço da vida.

Uma população empobrecida e doente jamais rasgará um caminho para o desenvolvimento humano e social. Neste contexto cabe recordar as palavras do livro do Eclesiástico:”E assassino do próximo quem lhe rouba os meios de subsistência; derrama sangue quem priva o assalariado de seu salário”(34,26-27). Alguns do governo pretendem afetar os salários e outros direitos.

Caso ocorrer grave lesão aos direitos fundamentais e ao regime democrático, cabe a formação de uma frente ampla e supra-partidária para resistir e obrigar a uma inflexão na direção do justo e do correto.

Como teólogo, me apropio para 2019 do ideal de um colega também teólogo leigo: Edward Neves de Belo Horizonte:”cultivar as seguintes posturas do Jesus histórico: (1) nutrir-se da intimidade amorosa de Deus; (2) pautar-se pelo sonho de Jesus, de um Reino de vida, de amor e de justiça; (3) agir movido por compaixão; (4) colocar-se a serviço da dignidade de cada pessoa especialmente do excluído;(5) libertar-se das tentações do ter,do poder e do puro prazer para amar com maior profundidade e gratuidade”.

A todos faço votos de um ano de felicidade possível em nosso contexto concreto. Spes contra spem

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: “Reflexões de um velho teólogo e pensador”, Vozes 2018.

Entre la perversa cordialidad brasilera y el caos destructivo: un balance del 2018

Dicen notables cosmólogos que todo comenzó con un inmenso caos, el big bang. Materia y antimateria chocaron. Sobró una ínfima porción de materia que dio origen al actual universo. El caos fue generativo. Este año hemos conocido también un gran caos en todas las instancias. Irrumpió el lado perverso de la cordialidad brasilera. Según Sergio Buarque de Holanda (Raizes do Brasil, 5.capitulo) “la enemistad bien puede ser tan cordial como la amistad, ya que una y otra nacen del corazón” (p.107). En las elecciones de 2018, el lado perverso de la cordialidad ocupó la escena: mucho odio, difamaciones, millones de fake news, hasta la puñalada dada al candidato Bolsonaro que acabó elegido presidente del país. Ese caos fue sólo destructivo, todavía no mostró ser generativo. Y debe serlo para que no entremos en un callejón sin salida.
Nunca en nuestra historia republicana habíamos tenido un presidente de extrema-derecha, homófobo, misógino, enemigo declarado de los homoafectivos y quilombolas, amenazador de las reservas indígenas, promotor de la venta generalizada de armas, y teniendo como símbolo de campaña los dedos en forma de arma.

Descendiente de italianos Sin Tierra, llegados a Brasil a finales del siglo XIX, pretende criminalizar al Movimiento de los Sin Terra y de los Sin Techo como terroristas. Asuntos tan sensibles como la corrupción, el anti-PT, el rescate de los valores tradicionales de la familia (aunque Bolsonaro va ya por su tercer casamiento) y la lucha contra el aborto, fueron temas que propulsaron su campaña. Algunas iglesias neopentecostales fueron aliados fundamentales suyos, máquinas de falsas noticias.

El elegido se muestra ignorante de los principales problemas nacionales y mundiales. Tiene una lectura de cuartel, fijada en los tiempos de la dictadura militar, hasta el punto de declarar héroe a un famoso torturador Brilhante Ustra. Ha escogido ministros que van a contra-corriente de la historia, negacionistas del calentamiento global, con ideas extrañas, como lo son el de Relaciones Exteriores, el de Educación y el de Medio Ambiente. Se ha alineado subalternamente a la política del presidente Trump, entrando en conflicto con aliados históricos. 7

Dice introducir una nueva política que de nuevo no tiene nada. Como dice un joven filósofo, Raphael Alvarenga, que bien articula filosofía con política: “La novedad consiste en la combinación monstruosa de necropolítica, lawfare, fundamentalismo religioso y ultraliberalismo económico”.

El neoliberalismo económico generalizado en todo el mundo, ha alcanzado aquí una forma todavía más radical, poniendo nuestros “commons” como el petróleo a la venta en el mercado internacional y privatizando otros bienes públicos.

El pacto social creado por la Constitución de 1988 ha sido roto, primero con el discutible impeachment de la presidenta Dilma Roussef, y después con el cambio de las leyes laborales, con la negación de la presunción universal de inocencia, con las arbitrariedades de la PF, del MPF y no en último lugar, con el comportamiento confuso y poco digno del STF, ya muy indulgente o excesivamente severo, o sometido al control militar por la presencia de un general, asesor del Presidente de la Casa. Vivimos de hecho en un Estado de excepción, posdemocrático y sin ley, como lo denunció en dos libros, con ese título, el juez de derecho del Tribunal de Justicia de Rio de Janeiro, Rubens R.R. Casara. Boaventura de Souza Santos, conocido sociólogo portugués, afirma más perentoriamente: “El sistema jurídico y judicial creado para garantizar el orden jurisdiccional es, en este momento, un factor jurídico de desorden; es una perversión peligrosa… El STF es una guerra social e institucional”.

El propósito de los que han llegado al poder con sus aliados es destruir al PT y a su líder Lula, preso político y rehén, borrar de la memoria popular las políticas sociales que beneficiaron a millones de pobres y permitieron a miles de destituidos el acceso a la universidad.
Ha habido corrupción en el PT como en casi todos los partidos. Un juez de primera instancia, Sérgio Moro, perseguidor, fue entrenado en los USA para aplicar el lawfare (deformación la ley para condenar al acusado). Fue de una parcialidad palmaria, denunciada por los juristas nacionales e internacionales más serios.

Pero no seamos ingenuos: la evasión fiscal anual de más de 500 mil millones de reales, es siete veces mayor que la corrupción política, revela el Sindicato Nacional de los Procuradores de Hacienda Nacional. Si se cobrase, solo con ella se evitaría la reforma de la Seguridad Social. Pero la oligarquía brasilera, atrasada y anti-pueblo, esconde el hecho y la prensa, cómplice, se calla.

¿

Qué podemos esperar? Es una incógnita. Por amor al país y a los condenados de la Tierra, las grandes mayorías engañadas y decepcionadas, deseamos que el caos actual sea generativo y la cordialidad signifique bienquerencia, para que la sociedad, ya muy injusta, no sea tan malvada.

Leonardo Boff es filósofo y teólogo y ha escrito Brasil: concluir la refundación o prolongar la dependencia, Vozes 2018.

Traducción de Mª José Gavito Milano