Desafios para os próximos tempos: Ivo Lesbaupin

 Ivo Lesbaupin é um conhecido sociólogo, com doutorado na França e sempre inserido nos movimentos sociais. Esta análise publicada em 10 de janeiro de 2019, é pertinente face ao que estamos vendo e  vivendo. Objetivo, crítico mas também com indicações práticas para a resistência e o avanço na sociedade brasileira, submetida a um governo claramente de ultra-direita e fundamentalista de cariz religioso e com projetos governamentais que ferem direitos e ameaça os mais vulneráveis. Este texto serve para a reflexão e como preparação de como devemos nos comportar daqui para frente. LBoff

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Um novo governo se instala em Brasília e a partir das medidas já anunciadas pode-se conhecer sua real linha política. Tomar consciência das ameaças que elas trazem para os setores empobrecidos ou vulneráveis do nosso povo, é condição fundamental para elaborarmos uma política que os defenda.

Os primeiros atingidos foram os povos indígenas e os quilombolas. Dentre as novas medidas, o Ministério da Agricultura – que está nas mãos do agronegócio – é quem passa a ter o poder de demarcar terras indígenas e delimitar comunidades quilombolas. Enquanto isso, o órgão que deveria defendê-los – a FUNAI – foi esvaziado, ao ser transferido do Ministério da Justiça para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Na prática, o direito dos povos indígenas e quilombolas a suas terras está suspenso. Mais: o novo secretário especial de Assuntos Fundiários, Luiz Nabhan Garcia, ex-líder da UDR (União Democrática Ruralista), promete rever as demarcações feitas nos últimos dez anos. O novo governo quer livrar-se dos limites que impedem a continuação da destruição do meio ambiente, particularmente na Amazônia.

Além disso, não tem qualquer apreço pelos direitos dos trabalhadores. Ele pretende aprofundar a Reforma Trabalhista aprovada em 2017, reforma esta que nos fez retroceder aos anos 1930-40, quando foram introduzidas leis em defesa dos trabalhadores, especialmente a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criada em 1943. Voltamos 70 anos atrás, a um período em que o trabalhador dependia do beneplácito do patrão para ter alguma coisa, porque não tinha direitos. A extinção do Ministério do Trabalho deixa os trabalhadores entregues à própria sorte. Ainda não se sabe como ficará a fiscalização do trabalho escravo, feita por esse Ministério, que libertou 50 mil pessoas em condições análogas à escravidão entre 2003 e 2016.

Foi extinto também o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), órgão criado no governo Itamar Franco em 1993, extinto durante o governo FHC e recriado pelo governo Lula em 2003. Instância de participação da sociedade civil junto com membros do governo na discussão das políticas públicas para a alimentação, propôs medidas que alcançaram grande sucesso.

O novo governo afirma que vai reduzir o Estado e adotar a política de “austeridade”. Isso significa que as políticas sociais – saúde, educação, assistência social, transporte, entre outras – sofrerão novos cortes. Elas vêm sendo cortadas desde 2015, com o ajuste fiscal iniciado por Dilma, e mais ainda pelo governo Temer e sua política de teto dos gastos, que por 20 anos reduzirá os recursos para saúde, educação e assistência. Temer promoveu uma redução drástica de recursos nas políticas sociais, mas não para os banqueiros e rentistas: graças à taxa de juros, que é uma das mais altas do mundo, o Brasil pagou 500 bilhões de reais de juros da dívida pública em 2015, 400 bilhões em 2016 e o mesmo em 2017. Isto equivale a 3 vezes o que gastou com saúde e 4 vezes o que gastou com educação. São recursos públicos, destinados aos mais ricos do país, aos que têm dinheiro investido em títulos da dívida pública. Se a taxa de juros no Brasil fosse baixa, semelhante à de vários outros países, haveria dinheiro suficiente para saúde, educação, previdência, cultura e muitas outras coisas.

Portanto, quando o governo Bolsonaro fala de “redução do tamanho do Estado”, está falando de gastar menos com a grande maioria da população, mas continuar pagando o que paga aos mais ricos, garantindo para estes o “Estado máximo”.

O novo governo quer estabelecer o controle sobre organizações não governamentais (ONGs), apesar de a Constituição garantir a liberdade de associação e de expressão. Essa medida enfraqueceria quem defende os direitos dos povos indígenas e das comunidades quilombolas e facilitaria o uso de seus territórios para a mineração e o agronegócio. Por isso ele quer calar sua voz.

O novo governo não aceita críticas, só quer aprovação. Por isso, até agora optou pela hostilidade aos meios de comunicação (exceto os que o apoiam incondicionalmente). Qualquer que seja nossa avaliação crítica da imprensa brasileira (que é, até hoje, um oligopólio), não há democracia sem imprensa livre. Se não se pode fazer crítica aos que exercem o poder – Executivo, Legislativo, Judiciário – e se não se pode investigar sua prática, não há liberdade.

Enfim, a extinção das Secretarias responsáveis por políticas de proteção a grupos que sofrem discriminação – como negros e LGBTI – indica que livrar-se do “politicamente correto” equivale a retirar direitos destas pessoas. Dezenas de casos de agressão como o assassinato de Moa do Katendê, em Salvador, e a execução da vereadora Marielle Franco – negra, favelada, homossexual, defensora dos direitos humanos – foram tratados com desdém pelos apoiadores do candidato, numa demonstração de quase-aprovação ao assassinato.

Concluindo

As políticas anunciadas nestes primeiros dias expressam ataques ao que mais valorizamos: os direitos humanos, os direitos trabalhistas, dos povos indígenas, dos quilombolas, à igualdade racial, à dignidade da população LGBTI.

Diante disso, precisamos nos manter unidos – “ninguém larga a mão de ninguém” – denunciar as ameaças de violação à Constituição, resistir – para impedir retrocessos – e exigir.

Neste sentido, precisamos reforçar a articulação entre pessoas, entre entidades, reforçar as redes. Articulação física: grupos, associações, etc. E virtual: estreitar a comunicação entre nós e tornar visível para o mundo o que está acontecendo aqui. (Sem ingenuidade: devemos estar atentos às iniciativas de controle/vigilância que querem exercer sobre a nossa liberdade de opinião e de expressão).

Acompanhar atentamente e monitorar o respeito às garantias democráticas, aos direitos humanos. Precisamos reagir imediatamente a qualquer ameaça ou violação de direito. Devemos reforçar as medidas de segurança e solidariedade para proteger os grupos sociais vulneráveis.

Devemos organizar debates, rodas de conversa, seminários, publicações, textos e vídeos sobre estas temáticas: democracia, riscos para a democracia, direitos humanos, meio ambiente, ecologia, Amazônia, história da ditadura, as Igrejas e a ditadura, totalitarismo, fascismo, nazismo, “1984” (George Orwell), “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) – obras críticas aos regimes autoritários.

Organizar uma frente ampla em defesa da democracia, organizar “Comitês de Defesa da Democracia”, “Núcleos pela Democracia” ou coisa semelhante: o que for melhor, mais viável, mais prático.

Denunciar, resistir, defender, sim. Mas temos de ir além: lutar pela sociedade justa e sustentável que queremos, não ficar limitados pela pauta deste governo (desgoverno), organizarmo-nos para ir adiante, construir um outro Brasil possível, um outro mundo possível. Os 89 milhões de eleitores que não votaram nele esperam isso de nós (e muitos dos 58 milhões que votaram nele vão ser animados por nós, quando perceberem o desastre que estamos vivendo).

Ivo Lesbaupin é doutor em sociologia pela Universidade de Toulouse-le-Mirail, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro.
É autor e organizador de diversos livros, entre os quais: Para evitar o desastre: Como construir a sociedade do bem viver (2017).

Contro il nuovo governo di ultra-destra san Giorgio ci aiuti

Contro il nuovo governo di ultra-destra, furioso e persecutore, che già tocca i diritti fondamentali dei cittadini, in particolare i salari e le persone di un diverso orientamento sessuale, dobbiamo unire le nostre forze di resistenza e di critica, per l’imperativo etico di salvaguardare la democrazia e i beni comuni, che appartengono al popolo brasiliano.

Oltre a questo sforzo civico, abbiamo bisogno dell’aiuto del santo preferito dai cariocas, San Giorgio. La sua storia leggendaria può darci coraggio e forza.

Un terribile drago minacciava una piccola città nel Nord Africa. Richiedeva vite umane scelte a sorte. Un giorno, la sorte cadde sulla figlia del re. Questa con l’abito di sposa andò incontro alla morte. Ecco che San Giorgio irruppe con il suo cavallo bianco e la sua lunga lancia. Ferisce il drago e lo doma. Lega la sua bocca con la cintura della principessa e lo guida, docile come un agnello, fino al centro della città.

Dobbiamo interpretare questa leggenda in quanto può migliorare la nostra consapevolezza di chi siamo veramente. Seguo qui le riflessioni sulla psicologia analitica di Jung, soprattutto del suo allievo preferito, Erik Neumann (vedi la “Storia della origini della coscienza”, Astrolabio 1978). Secondo lui, il drago spaventoso e il cavaliere eroico sono due dimensioni dello stesso essere umano. Il drago in noi è il nostro inconscio, la nostra oscura ancestralità, le nostre ombre, la nostra rabbia e odio. Da questo sottofondo, la coscienza, l’indipendenza dell’ego e la nostra capacità di amare e vivere insieme, rappresentati da San Giorgio, irrompono nella luce. Ecco perché in alcune iconografie, in particolare in Catalogna (il suo patrono), appare il drago che circonda tutto il corpo del cavaliere San Giorgio, così come in quella del brasiliano Rogério Fernandes.

Noi siamo questa contraddizione vivente: abbiamo dentro di noi la parte di San Giorgio e la parte del drago. La sfida della vita che ci accompagna sempre e non ha mai una fine definitiva è San Giorgio, che tiene sottomesso il drago. Non si tratta di ucciderlo, ma di domarlo e placarne la sua ferocia.

La gente sente il bisogno di un guerriero santo e vittorioso, come mostra il teleromanzo “Salve Jorge”, la cui sceneggiatura è stata fatta da una grande devota del santo, Malga di Paolo. San Giorgio salva le donne prostitute contro il drago del traffico internazionale di donne.

Quello che abbiamo visto ultimamente in Brasile e soprattutto durante la campagna elettorale e ora, purtroppo, nell’attuale governo è l’irruzione del drago. Qui è stato liberato ed ha espresso ogni tipo di violenza verbale e persino fisica contro omofobi, indigeni, avversari e donne. Come ho scritto in questo sito, è l’emergenza della dimensione perversa della nostra “cordialità” che, secondo Sergio Buarque de Holanda, può manifestarsi anche come odio e inimicizia. Era ed è sempre presente in noi. Ma nella condizione psico-sociale-politica che si è creata potrebbe uscire dall’oscurità e manifestarsi in modo distruttivo.

Di fronte al drago che è apparso, cosa faremo? Dobbiamo svegliare San Giorgio in noi. Ha sempre sconfitto il drago. Useremo le armi che loro non possono usare. Risponderemo alla discriminazione includendo tutti senza distinzione. All’odio diffuso contro gli avversari, risponderemo con amore e compassione. Alla creazione di capri espiatori, risponderemo con la difesa degli innocenti emarginati e ingiustamente condannati. Alle menzogne e alle visioni fantasiose che vogliono portarci nel Medioevo risponderemo con la forza dei fatti e affermeremo il senso della contemporaneità.

È importante vincere il male con il bene. Non rispondere con i metodi e le ideologie sbrigative che presentano, con la pretesa di non avere ideologia. Quello che la maggior parte dei membri del partito e molti ministri hanno davvero è una strana ideologia tale da far sorridere le persone di tanta superficialità, antiquata e ridicola.

In questo sforzo, facciamo nostra la preghiera popolare: “Camminerò vestito e armato con le armi di San Giorgio in modo che i miei nemici, avendo i piedi non mi raggiungano, avendo le mani, non mi prendano e avendo gli occhi non mi vedano … Possano i miei nemici essere umili e sottomessi a Te. Amen”.

*Leonardo Boff è teologo e coordinatore della traduzione della opera completa di C.G.Jung presso alla edittrice Vozes.

Traduzione di S. Toppi & M. Gavito.

A estupidez social e ambiental condena toda a vida: Eduardo Gudynas

Eduardo Gudynas, uruguaio, é um dos grandes ecólogos mundiais. Está entre os primeiros a formular uma ecologia social.Este artigo é um balanço de 2018 sobre os dramas ecologicosocias que se aproximam, se não mudarmos a nossa relação para com a Mãe Terra -tema central da encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum – e para com a natureza em geral. Bem afirmou um dos maiores cosmólogos vivos e também grande ecogoista Brian Swimme:”Os poderes determinantes de nossas formas culturais manifestam uma preocupação mínima pela situação catastrófica diante de nós.O remédio seria um golpe que significaria a escolha entre a morte ou o abandono de nosso modo  vicioso de viver.O golpe que nos aguarda não é simplesmente do humano; é um golpe dos biossistemas da Terra. O golpe, na verdade, seria da própria Terra”(The universe story,1999,292). Essa advertência De Swimme é grave pois o atual Presidente e alguns ministros dão prova do que Gudynas constata: a estupidez social e ambiental que pode levar não só o Brasil mas a inteira humanidade a uma situação de alto risco e de proporções  imponderáveis. LBoff

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A estupidez social e ambiental condena toda a vida: Eduardo Gudynas

Revista ihu on-line   08/01/2019

No artigo a seguir Eduardo Gudynas faz um balanço de 2018 e também uma reflexão sobre a situação continental e mundial, em parte recordando a teoria crítica de Frankfurt. Gudynas é analista no Centro Latino Americano de Ecologia Social (CLAES), de Montevidéu.

O texto foi publicado por www.ambiental.net, 26-12-2018, e enviado para o IHU pelo autor. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

Há circunstâncias nas quais parece que a esperança some e ficamos presos em uma estagnação onde “tudo o que vive está sob condenação”. Essa foi a dura advertência que há mais de meio século escreveram Max Horkheimer e Theodor Adorno nas últimas linhas de sua “Dialética do Iluminismo” (1). No contexto da segunda guerra mundial e da revelação do holocausto, os dois filósofos alertaram que essa humanidade que abraçou a ciência e a razão, ao contrário de suas aspirações, caminhava até a barbárie e a destruição.

Os aspectos centrais dessa questão persistem na atualidade e merecem ser analisados ao finalizar o ano de 2018. Somos testemunhas de uma crise social e ambiental em todas as escalas, desde a planetária, passando à continental e chegando em cada país. A pobreza está de volta em cada esquina, e pode ser vista claramente nas grandes cidades (2). Estamos atravessados por uma fratura cultural que faz com que aqueles que vivem de um lado muitas vezes não possam compreender o castelhano dos que estão do outro lado. Comemos alimentos cheios de química, bebemos águas muitas vezes contaminadas, e respiramos um ar tóxico.

Estamos imersos em um mar de impactos, uns pequenos outros maiores, mas quase todos persistentes e repetidos. A situação é tão dramática que parece que os que hoje são os mais jovens podem perder anos de esperança de vida devido à contaminação (3). A riqueza ecológica latino-americana desaparece diante de nossos olhos; calcula-se uma perda aproximada de 89% nas populações de espécies na América Latina nas últimas cinco décadas, o que é o pior registro para todo o planeta (4).

Nas comunidades campesinas e indígenas estas degradações são particularmente dolorosas, já que elas estão localizadas no centro da articulação entre a sociedade e a natureza, e sofrem simultaneamente com todos esses problemas.

Nenhuma destas questões são desconhecidas. Tudo foi analisado, medido, experimentado, contabilizado e descrito. Sabemos disso. Está explicado em castelhano, inglês e muitos outros idiomas; em milhares de artigos, livros e vídeos. Cada semana se somam novos relatórios que reafirmam a gravidade da situação social e ambiental. Mas toda essa acumulação de informação científica e os alertas das organizações civis que se especializam nesses temas, continuam sendo insuficientes ou incapazes para uma mudança substantiva nos caminhos de nossa civilização. É difícil sustentar a esperança sob estas circunstâncias.

O congelamento da esperança, na análise de Horkheimer e Adorno, estava enquadrado na estupidez. Recordemos que essa palavra alude, em castelhano, a uma “estupidez notável” em compreender as coisas, e isto é justamente o que acontece. Apesar de ter toda a evidência em mãos sobre as severíssimas consequências do que está acontecendo, os governos, as empresas e boa parte da sociedade parecem não compreender, como se não temessem o que os rodeia, e persistem em manter estilos de vida que reproduzem a deterioração.

Este componente da estupidez já não pode ser negado graças aos delírios que observamos com Donald Trump nos Estados Unidos, dizendo entre outras coisas que a mudança climática não existe ou que é uma invenção dos chineses. Isso continua mais evidente nas declarações de Jair Bolsonaro e membros de sua equipe no Brasil. Mas sendo sinceros, já temos outros exemplos dessas tolices em praticamente todos os países, onde sempre é possível encontrar declarações infelizes de presidentes, ministros, empresários ou acadêmicos que desnudam sua ignorância sobre os problemas ambientais ou a crise social. Neles se mistura a estupidez com a ignorância, mas tampouco é raro que a mentira que busca alguma vantagem seja disfarçada de tolice. De um modo ou outro, a estupidez já não se dissimula.

Navegamos na estranha condição onde são milhões os que se divertem em ver quem é mais estúpido, se os Trumps ou os Bolsonaros em cada um de nossos países. Enquanto isso a crise avança, sem pausa. Denunciamos ou festejamos o estúpido, mas com ele ficamos imóveis e em alguma medida nós também fazemos o papel de bobo. Por mais que se coloquem os vídeos das besteiras no Facebook ou se encaminhem aos amigos no WhatsApp, nada disso garante solucionar os problemas, nem está servindo para evitar votar em outro estúpido na próxima eleição.

Sob essa imobilidade, os problemas sociais e ambientais continuam acumulando. Diferente das avaliações econômicas, o início do próximo ano não implica reiniciar do zero os indicadores ou a contabilidade, mas, por exemplo, o desmatamento deste ano se soma ao dos anos passados, os atrasos educativos são agregados entre si, e desta maneira, cada impacto social ou ambiental se acumula sobre os anteriores. Como são tantos e sua acumulação já se aproxima a dois séculos, a atual discussão científica agora aponta para a possibilidade de um colapso ecológico em escala planetária em um futuro próximo (5). Se justificam então as falas de Horkheimer e Adorno de que tanta estupidez termina em condenar a tudo o que está vivo.

É evidente que o vizinho da esquina não tem que ser um especialista em políticas sociais, nem a vizinha da próxima quadra ser expert em conservação da biodiversidade. Todos eles de uma ou outra maneira esperam, e em muitos casos confiam, que exista uma liderança política para enfrentar estes temas. Nesse esquema ideal são os políticos, como legisladores ou ministros, que devem promover mudanças nas políticas e na gestão, articular-se com os saberes de acadêmicos e atuar sobre o mundo empresarial. Devemos aceitar que essa estrutura não funciona por muitos e diversos fatores, sem deixar de reconhecer que há uma derrota da política em vários países (ainda que de tipo diferente, possivelmente os casos mais extremos ao finalizar 2018 se encontrem sobretudo na Nicarágua e na Venezuela).

A estupidez em entender a problemática socioambiental assola não só os políticos profissionais como também boa parte do empresariado e inclusive a academia. Estamos diante de uma estupidez sistêmica, já que ao estar tão disseminada termina arrastando quase todos. Inclusive quem aparenta ser inteligente e sagaz pode terminar em conflitos políticos que levam a resoluções erradas na gestão governamental, como alertava Rick Lewis, editor da revista “Filosofia Agora” (6). Inclusive onde realmente prevalecem os tolos, serão aproveitados para que sobre eles se enfoque a atenção, enquanto que os que não têm nada de estúpidos controlam a economia e a política escondidos nas penumbras.

A estupidez contribuiu ao giro que converteu a razão em uma antirrazão, para seguir com a lógica de Horkheimer e Adorno, e que em seus tempos descreviam como uma luta no alto pelo poder fascista enquanto que o resto devia se adaptar a qualquer custo à injustiça para sobreviver. Se poderá argumentar que aquele diagnóstico da dupla de filósofos era adequado para um mundo imerso em uma guerra mundial, mas não seria de todo aplicável à atualidade. Mas vale a pena se perguntar se aquele contexto é realmente muito diferente do que aconteceu neste jovem século XXI.

A paralisia da estupidez sistêmica atual também combina com outro significado da palavra “estúpido”, um pouco mais antigo, e que invoca o ficar aturdido, paralisado. 2018 é encerrado em um atordoamento generalizado em múltiplos campos e temas; o último deles ocorreu com o encontro governamental de mudança climática, onde não se conseguiu nenhum acordo concreto e efetivo, e ao contrário, se repetiu todo tipo de bobagens.

Sem dúvida há muitas resistências e conflitos, e eles têm uma enorme importância em salvaguardar comunidades ou naturezas. São, além disso, exemplos de alternativas possíveis. Mas apesar deles, neste ano como nos anteriores, a situação se agravou um pouco mais. Se somam às circunstâncias das quais já não é possível um retorno, como ocorre com o assassinato de jovens em bairros populares, o mercúrio acumulado no corpo das crianças amazônicas, ou a extinção de uma espécie em uma selva tropical. Não existe reparação, compensação ou remediação possível para a morte, seja a da natureza como a dos humanos, não podem ser separadas uma da outra. Quando morre a Natureza também morre parte de nossa essência como humanos. Estamos tão aturdidos ou somos tão tolos que não nos damos conta disso. É tempo de reagir.

Notas:

  1. Dialética do iluminismo, M. Horkheimer y T.W. Adorno, Sudamericana, Buenos Aires, (1944) 1987.
  2. A pobreza em número absoluto de latino-americanos vem crescendo desde um mínimo recente em 2014, com 168 milhões de pessoas, a 187 milhões em 2017; em porcentagem da população passou de 28,5% a 30,7% no mesmo período; Panorama Social da América Latina 2017, CEPAL, Santiago.
  3. Air pollution reduces global life expectancy by nearly two years, 20 de novembro de 2018, Phys.org,
  4. Calculado para 1040 populações de 689 espécies (mamíferos, aves, anfíbios, repteis e peixes); é o pior indicador em todo o mundo; Living planet report 2018: aiming higher, Zoological Society London y WWF, Gland.
  5. Por exemplo Trajectories of the Earth system in the Anthropocene, W. Steffen e colab., Proceedings National Academy Sciences 115 (33): 8252-8259.
  6. The world’s biggest problem is stupidity, R. Lewis, Telegraph, 15 de dezembro de 2011

Ante el nuevo gobierno de ultra derecha que San Jorge nos socorra

Ante el nuevo gobierno de ultraderecha, furioso y perseguidor, que está tocando ya derechos fundamentales de los ciudadanos, especialmente los salarios, y de los de otra condición sexual, necesitamos unir nuestras fuerzas de resistencia y de crítica, por un imperativo ético, de salvaguardia de la democracia y de los commons que pertenecen al pueblo brasileño.

Además de este esfuerzo cívico, necesitamos la ayuda del santo preferido de los cariocas, que es San Jorge. Su historia legendaria nos puede dar ánimo y fortaleza.

Un dragón terrible amenazaba una pequeña ciudad del Norte de África. Exigía vidas humanas escogidas por sorteo. Cierto día, la suerte cayó sobre la hija del rey. Vestida de novia fue al encuentro de la muerte. Y he aquí que aparece San Jorge con su caballo blanco y su larga lanza. Hiere al dragón y lo domina. Le amarra la boca con el cinturón de la princesa y lo conduce, manso como un cordero, hasta el centro de la ciudad.

Necesitamos interpretar esta leyenda pues puede mejorar nuestra conciencia sobre lo que somos realmente. Sigo aquí las reflexiones de la psicología analítica de C. G. Jung y especialmente de su discípulo preferido Erik Neumann (cf. A história da origem da consciência, Cultrix 1990). Según él, el dragón que atemorizaba y el caballero heroico son dos dimensiones del mismo ser humano. El dragón en nosotros es nuestro inconsciente, nuestra ancestralidad oscura, nuestras sombras, nuestras rabias y odios. De este trasfondo irrumpieron hacia la luz la conciencia, la independencia del ego y nuestra capacidad de amar y de convivir humanamente, representados por San Jorge. Por eso en algunas iconografías, especialmente en una de Cataluña (es su patrono), así como en la del brasileiro Rogério Fernandes, el dragón aparece envolviendo todo el cuerpo del caballero San Jorge.

Somos esta contradicción viva: tenemos la parte San Jorge y la parte dragón dentro de nosotros. El desafío de la vida que siempre nos acompaña y nunca tiene un fin definitivo es que San Jorge mantenga sometido al dragón. No se trata de matarlo sino de domesticarlo y quitarle la ferocidad.

El pueblo siente la necesidad de un santo guerrero y vencedor, como se mostró en la novela “Salve Jorge” cuyo script fue hecho por una gran devota del santo, Malga di Paulo. San Jorge salva a las mujeres prostituidas contra el dragón del tráfico internacional de mujeres.

Lo que hemos estado presenciando últimamente en Brasil, especialmente durante la campaña electoral, y ahora, infelizmente, en el actual gobierno es la irrupción del dragón. Él amenazaba a todos y cobraba sacrificios. Aquí él actuó sin ataduras y se expresó mediante todo tipo de violencia verbal e incluso física contra homoafectivos, indígenas, opositores y mujeres. Como ya escribimos en este lugar, es la emergencia de la dimensión perversa de nuestra “cordialidad” que, según Sérgio Buarque de Holanda, puede manifestarse también mediante el odio y la enemistad. Ella estaba y está siempre presente dentro de nosotros. Pero en la condición psico-social-política que se ha creado puede salir de la oscuridad y manifestarse destructivamente.

Delante del dragón que ganó visibilidad ¿qué vamos a hacer? Tenemos que despertar al San Jorge que está dentro de nosotros. Él venció siempre al dragón. Vamos a usar las armas que ellos no pueden usar. A las discriminaciones responderemos con la inclusión de todos indistintamente. Al odio diseminado contra opositores, responderemos con amorosidad y compasión. A la creación de chivos expiatorios, responderemos con la defensa de los inocentemente marginados e injustamente condenados. A las mentiras y a las visones fantasiosas que nos quieren llevar a la Edad Media, responderemos con la fuerza de los hechos y haciendo valer el sentido de la contemporaneidad.

Hay que vencer el mal con el bien. No reenvidar con los métodos e ideologías esdrújulas que se presentan pretendiendo no tener ideología. Lo que en verdad más tienen los miembros del partido y varios ministros es una extraña ideología de hacer sonreír de tan baja, anticuada y ridícula.

En este afán, hacemos nuestra la oración popular: “Andaré vestido y armado con las armas de San Jorge para que mis enemigos, teniendo pies no me alcancen, teniendo manos, no me agarren y teniendo ojos no me vean… Que mis enemigos sean humildes y sumisos a Vos. Amén”.

*Leonardo Boff es teólogo y coordinador de la traducción de la obra completa de C.G.Jung en la editorial Vozes.

Traducción de Mª José Gavito Milano