Eduardo Newton: dedos de juristas devem trazer anéis de tucum

Publicamos este comovente e desafiante texto de Eduardo Newton extraído da Carta Capital de 14 de agosto de 2020. O anel de tucum era o grande símbolo que o bispo Dom Pedro Casaldáliga recebeu dos indígenas que sempre defendeu. Ele está difundido por todos os lados até no estrangeiro como símbolo da defesa dos povos originários, dos pobres e oprimidos e da teologia da libertação. Eu mesmo dando uma palestra quase no polo norte da Suécia em Umeo, encontrei dois suecos que traziam o anel. Perguntados, responderam com orgulho: “nós defendemos os nossos indígenas daqui, os samis e os pobres que existem também em nosso país; estivemos na Amazônia e encontramos indígenas, cuja causa de respeito e de sobrevivência prometemos levá-la pelo mundo afora”. Esse é o grande símbolo do anel de coco de tucum. Não poderiam os juristas, os que defendem os direitos a começar por aqueles dos que não podem sozinhos se socorrer, trazer junto com seu anel de advogado e jurista, este  símbolo de uma causa tão nobre? Fica aqui o desafio. LBoff

Eduardo Newton

14 de agosto de 2020 Carta Capital

Como poucos, D. Pedro Casaldáliga trazia comunhão pela causa dos oprimidos e excluídos do mundo inteiro em seu anel de tucum

No dia 08 de agosto de 2020, Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, dava os seus últimos suspiros. O homem que se insurgiu contra a ganância daqueles que desejavam explorar o campo morreu no mesmo dia em que se anunciava o tétrico número de 100.000 mortos pela Covid-19. Este texto tem como objetivo homenagear o religioso e problematizar como o seu comportamento deveria, sem que implicasse qualquer violação ao caráter laico do Estado, influenciar os juristas verdadeiramente comprometidos com o Texto Constitucional vigente.

O catalão Pedro veio ao Brasil um pouco antes do Ato Institucional nº 05 e conheceu um Brasil profundo, quando então optou por lutar lado a lado de camponeses, indígenas e outras minorias vulnerabilizadas. A partir de seu relato para Ana Helena Tavares, depara-se com a sua condição de testemunha ocular do ocorrido naquelas paisagens do interior do Centro-Oeste:

Casaldáliga conta mais detalhes de sua chegada ao Brasil, comentando o quanto a paisagem mudou de lá para cá: ‘Foram quase sete dias de caminhão de São Paulo até aqui [São Félix do Araguaia]. Porque a estrada estava se abrindo, não tinha estrada. As pontes eram pequenas. Tinha muitos córregos. Agora, quando se faz o caminho de Barra do Garças para cá, não se tem ideia de como era a região. Está tudo desmatado. Os córregos profanados, alguns deles secos já perderam toda a vitalidade. Tinha mata. Se fala do Posto da Mata. Cadê a mata do posto?’”[i]

O religioso recentemente falecido destacou-se pela convicta e resoluta opção pelos pobres, o que se mostrava perfeitamente coerente com a sua inserção dentre os principais pensadores da Teologia da Libertação, que, por parte de Leonardo Boff, recebeu as seguintes considerações que se mostram idôneas a explicar essa escolha pelos vulnerabilizados:

Qual é o sonho da Teologia da Libertação? O de que todos, começando pelos mais pobres e oprimidos, possam se libertar das muitas opressões exteriores e interiores e viver como irmãos e irmãs em justiça, solidariedade, respeitosos da natureza e da Mãe Terra, numa grande comensalidade, desfrutando, com moderação compartida, os bons frutos da grande e generosa Mãe Terra.”[ii]

Muito embora integrasse uma milenar instituição, a Igreja Católica, Dom Pedro Casaldáliga, mesmo tendo sido nomeado bispo, não deixou se levar por ritos ou formalidades sem sentido para os seus companheiros de luta. Uma das maiores provas de sua simplicidade era aferida no uso do anel de tucum. Sobre essa joia desprovida de qualquer valor de troca, mais uma vez se recorre aos ensinamentos de Leonardo Boff:

O anel preto feito de coco de tucum que muitos bispos e até cardeais, teólogos, leigos, agentes de pastoral, cientistas políticos, antropólogos e outros carregam em seus dedos se transformou em sinal distintivo de uma comunhão pela causa dos oprimidos e excluídos do mundo inteiro (indígenas, negros, mulheres, minorias, discriminados por diferentes razões), por sua libertação e por um mundo onde eles possam ser incluídos.”[iii]

Essa modéstia não pode ser confundida com falta de conhecimento ou preparo intelectual. Dom Pedro Casaldáliga era um homem voltado para a práxis, um teórico preocupado com a efetiva fruição do Reino de Deus por todos os homens.

De fato, o já frágil corpo desse bispo descansou no dia 08 de agosto de 2020. A lei da entropia, mais uma vez, se fez presente diante de um ser vivo. Porém, esse desgaste que culminou com a sua morte não se mostrou capaz de apagar a vitalidade das ideais e do exemplo de Dom Pedro Casaldáliga, sendo certo que essa potência foi além do universo religioso.

Com arrimo em outro importante pensador da Teologia da Libertação e já citado neste texto, Leonardo Boff, depara-se com a necessidade de uma ampla participação para que a convivência se efetive:

Três são as pilastras que dão vida à convivência: a participação, a comunhão e a celebração. A participação de todos é essencial. Deve significar que todos os participantes se sentem sujeitos e responsáveis pela comunidade: distribuem entre si tarefas seja no nível da palavra, da celebração, dos serviços religiosos e dos trabalhos concretos decididos pela comunidade, geralmente, em articulação com outros grupos de base (…) Realizam-se parcerias entre os membros e com outros grupos (grupos de direitos humanos, grupos de saúde, de educação, de mulheres, de ecologia, de sem-terra, sem-teto e sindicato). Esta participação, novamente, obriga a buscar convergências e pôr em segundo plano as diferenças religiosas, ideológicas, de classe, entre outras.”[iv]

Além de se espelhar no irrestrito comportamento com os valores da democracia e dos direitos humanos, o meio jurídico tem sim muito o que aprender com Dom Pedro Casaldáliga e esse aprendizado se encontra inserido na necessidade de diálogo que a convivência exige.

Em um país tão desigual, é dever de todo ator jurídico conferir primazia em sua atuação para os mais pobres, repudiando, assim, condutas voltadas para a perpetuação da miséria e pobreza de expressivo contingente populacional. Esse agir não deve ser confundido com uma postura assistencialista, que, na verdade, acaba por não permitir o pleno desenvolvimento do cidadão. Aqui se está a falar na necessidade de se optar pelos pobres e isso como forma de que sejam efetivados os objetivos fundamentais da República. Esses objetivos fundamentais se encontram expressamente previstos no artigo 3º, Constituição da República:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

No que se refere a esses objetivos fundamentais da República, Lenio Luiz Streck e José Luiz Bolzan de Morais apresentam as seguintes considerações sobre o artigo 3º, Carta Magna:

Os objetivos constitucionais fundamentais, como o art. 3º da Constituição, são a expressão das opções ideológicas essenciais sobre as finalidades sociais e econômicas do Estado, cuja realização é obrigatória para os órgãos e agentes estatais e para a sociedade, ou, ao menos, os detentores de poder econômico ou social fora da esfera estatal.”[v]

O vínculo com os objetivos fundamentais há de ser inquebrantável, ainda que essa escolha traga penosas e desagradáveis repercussões ao ator jurídico. É o ônus de uma postura que se mostra em conformidade constitucional e que respeita os pobres.

A chamada liturgia forense permeada por formalismos completamente desnecessários e que somente servem para afastar o jurisdicionado do sistema de justiça deve ser abolida. Em vez de becas, togas e linguagem cifrada, é preciso tornar a realidade forense acessível e o ambiente acolhedor. Palácios de justiça nababescos devem ser repensados para que a hospitalidade se faça também para o real titular do poder.

O glamour dos grandes escritórios ou posições de destaque nas instituições públicas certamente não serão alcançáveis para quem realizar essa verdadeira profissão de fé pelo Texto Constitucional. Mas, isso não é causa de qualquer frustração, pois é necessário compreender que as atividades jurídicas não se sustentam por si só. Elas se encontram inseridas em um projeto de servir uma parcela da população que ainda não sabe o que é a cidadania.

Em uma produção cinematográfica dos anos 1990, O Anel de Tucum, Dom Pedro Casaldáliga indica o simbolismo do seu anel de tucum e indaga o seu interlocutor se, após saber o sentido daquele humilde anel, toparia usá-lo. O pensamento do homenageado nesse texto, tal como afirmado, é marcado pela vitalidade e permite questionar aos juristas deste país se estariam prontos a usar anéis de tucum. Não seria a solução de todos os problemas, mas um passo para uma sociedade mais justa seria dado.

[i] TAVARES, Ana Helena. O problema é ter medo do medo. O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia. Rio de Janeiro: Revan, 2016. p. 92

[ii] BOFF, Leonardo. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018. p. 21.

[iii] BOFF, Leonardo. Virtudes para um outro mundo possível. Volume II: Convivência, respeito e tolerância. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 37.

[iv] BOFF, Leonardo. Virtudes para um outro mundo possível. Volume II: Convivência, respeito e tolerância. Petrópolis: Vozes, 2006. pp.35-36

[v] STRECK, Lenio Luiz & MORAIS, José Luiz Bolzan. Comentários ao artigo 3º. IN: CANOTILHO, J. J. Gomes; MENDES, Gilmar F.; SARLET, Ingo W. & STRECK, Lenio L. (coordenadores). Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 149.

 

 

Francisco de Assis, ícone ecológico de uma relação fraternal com cada ser da natureza

Francisco de Assis, ícone ecológico de uma relação fraternal com cada ser da natureza

Leonardo Boff

O Covid-19 remete a um problema ecológico: a reação da Mãe Terra e da natureza que, como entes vivos, reagiram contra a sistemática agressão que já há séculos sofrem pelo processo produtivista voraz que não respeita os limites de sustentabilidade e destruiu os habitat dos virus. Estes buscam em outros animais ou em nós humanos um novo habitat, de cujas células  se alimentam. É consequência do tipo de civilização técnico-científica que criamos a partir do século XVII que tratava a Terra e a natureza sem propósito e cujo único valor era estarem ao bel-prazer do uso dos seres humanos, para tirarem vantagens de todo tipo, especialmente, econômicas.

Foi abandonada a secular visão da Terra como Magna Mater e Pachamama. Só modernamente com a nova cosmologia e biologia se recuperou a noção da Terra como um Super Ente vivo que se auto-organiza sistemicamente para manter-se vivo e sempre produzir viva, denominada de Gaia.

Hoje com o Covid-19 a concepção da Terra-Gaia e Pachamama dos povos andinos, ganhou relevância. Ela  nos mostra a urgência de refazermos o contrato natural com ela, há muito violado, caso queiramos sustar seu  contra-ataque contra a humanidade.Ela já enviou uma gama de vírus, entre eles o atual Covid-19 que pela primeira vez está  assolando todo  o planeta. Tais vírus, ao lado do aquecimento global e de outros eventos extremos são sinais enviados pela Mãe Terra para refletirmos e mudarmos nossa forma da habitar nela e mudarmos nosso modo destrutivo de produção.

A lição que importa tirar destes sinais  é que devemos voltar a sentimo-nos parte da natureza e não seus donos e que nós humanos somos a porção inteligente da Terra com a missão de cuidarmos dela, como condição de nossa própria sobrevivência.

Para isso precisamos de figuras exemplares que nos mostrem que outra relação amigável e não destrutiva para com a Mãe Terra e para com a natureza é possível. Na verdade, é a única que se revela benéfica para ambas as partes deste contrato natural.

No Ocidente surgiu um cristão de excepcional qualidade humana e religiosa que viveu uma profunda fraternidade universal com todos os seres da natureza: Francisco de Assis (1284-1226).

Em sua encíclica da ecologia integral, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, o Papa Francisco apresenta São Francisco “como o exemplo por excelência pelo cuidado pelo que é frágil, vivida com alegria e autenticidade. É o padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos”(n.10). Diz mais ainda:”Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe…até das ervas silvestres que deviam ter o seu lugar no horto” de cada convento dos frades(n.11.12).

O historiador Lynn White Jr. em 1967 em seu rumoroso artigo “As raízes históricas de nossa crise ecológica” acusava o judeo-cristianismo, por causa de seu viceral antropocentrismo, como o principal fator da crise que nos dias atuais se transformou num clamor. Por outro lado, reconhecia que esse mesmo cristianismo tinha um antídoto na mística cósmica de São Francisco de Assis. Para reforçar a idéia sugeria que fosse proclamado “patrono dos ecologistas”,coisa que o Papa João Paulo II o fez no dia 29 de Novembro de 1979.

Efetivamente, todos os seus biógrafos como Thomas de Celano, São Boaventura, a Legenda Perusina e outras fontes da época, atestam “a amigável união que Francisco estabelecia com todas as criaturas; enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia seu olhar para as estrelas e para o firmamento”.

Dava o doce nome de irmãos e irmãs a cada uma das criaturas, as aves do céu, as flores do campo e até ao feroz lobo de Gubbio. Constituía fraternidade com os mais discriminados como  os hansenianos (leprosos) e com todos as pessoas, como com o sultão Melek el Kamel no Egito com quem teve longos diálogos e mutuamente se admiravam.

No homem de Assis tudo vem cercado de cuidado, simpatia e enternecimento.

O filósofo Max Scheler em seu conhecido estudo sobre “A essência e as formas da simpatia”(1926) dedica-lhe brilhantes e profundas páginas. Assevera que “nunca na história do Ocidente emergiu uma figura com tais forças de simpatia e de emoção universal como encontramos em São Francisco. Nunca mais se pôde conservar a unidade e a inteireza de todos os elementos como em São Francisco, no âmbito da religião, da erótica, da atuação social, da arte e do conhecimento”(1926,p.110). Talvez seja por esta razão que Dante Alignieri o chamou de “sol de Assis” (Paradiso XI,50).

Esta experiência cósmica ganhou uma forma genial no seu “Cantico di Frate Sole”. Ai encontramos uma síntese acabada entre a ecologia interior com a ecologia exterior.

Como o filósofo e teólogo francês, o franciscano Eloi Leclerc (+1977), sobrevivente dos campos de extermínio nazista,   mostrou, que para ele, os elementos exteriores como o sol, a terra, o fogo, a água, o vento e outros não eram  apenas realidades objetivas mas realidades simbólicas, emocionais, verdadeiros arquétipos que dinamizam a psiqué  no sentido de uma síntese entre o exterior e o interior e de uma experiência de unidade com o Todo.

Estes sentimentos, nascidos da razão sensível e da inteligência cordial, são urgentes hoje se quisermos refazer a aliança de sinergia e de benevolência para com a Terra e seus ecossistemas.

Acertadamente ponderou o grande historiador inglês Arnold Toynbee:”Para manter a biosfera habitável por mais dois mil anos, nós e nossos descendentes, teremos de esquecer o exemplo de Pedro Bernardone (pai de São Francisco), grande empresário de tecidos do século XIII e seu bem-estar material e começar a seguir o modelo de seu filho, Francisco, o maior entre todos os homens que já viveram no Ocidente. O exemplo dado por São Francisco é que nós, os ocidentais, deveríamos imitá-lo de todo o coração, porque ele é o único ocidental que pode salvar a Terra”(El Pais,1972,p.10-11).

Hoje São Francisco se tornou o irmão universal que se situa para além das confissões e das culturas. A humanidade pode se orgulhar de ter produzido um filho com tal amor, com tanta ternura e com tão grande cuidado para com todos os seres, por menores que parecessem.

Ele é uma referência espontânea de uma atitude ecológica que se confraterniza com todos os seres, convive amorosamente com eles, os protege contra ameaças e os cuida como irmãos e irmãs. Ele soube descobrir Deus nas coisas. Acolheu com jovialidade as doenças e  as contradições da vida. Chegou a chamar de irmã a própria morte. Estabeleceu uma aliança com as raízes mais profundas da Terra e com grande humildade se unia a todos os seres para cantar louvores, junto com eles e não apenas através deles, como diz em seu Cântico, à beleza e à integridade da criação.

Como arquétipo, Francisco penetrou no inconsciente coletivo da humanidade, no Ocidente e no Oriente e de lá anima as energias benfazejas que se abrem à relação amorosa com todas as criaturas, como se estivéssemos ainda no paraíso terrenal (cf.L.Boff, Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1986).

Ele mostra que não somos condenados a sermos os agressores pertinases da natureza mas o seu anjo bom que protege, cuida e transforma a Terra uma Casa  Comum de todos, da comunidade humana e terrenal. Ele suscita em nós a saudade de uma integração que perdemos por causa da ruptura que estabelecemos com a natureza. Com ele nos convencemos de que, por todos os lados,  há ainda sinais do paraíso terrestre que nunca se perdeu totalmente.

Podemos, com o espírito de São Francisco, o irmão universal, recriá-lo dentro de nosso interior  e irradiá-lo para  o exterior, como lição aprendida do confinamento social forçado.

Leonardo Boff é ecoteólogo,filósofo e escreveu: Francisco de Assis: ternura e vigor, 12.edição, Vozes 2009


Due antropologie in opposizione, presupposte nell’IA

       Leonardo Boff Nell’enciclica Laudato Si’, sulla cura della casa comune (2015), Papa Francesco ha sottoposto a una rigorosa critica la tecno-scienza, per essere una delle cause del degrado della natura. Riguarda il prevalere del paradigma del “dominus” (essere il padrone), imperante in tutta l’era della modernità senza che gli esseri umani si sentissero parte…

A Noite de Deus da paz perpétua

 

Nota prévia: escrevi este texto já há 15 anos. E o havia esquecido totalmente. Nem sei se foi publicado. Talvez no Jornal do Brasil para o qual colaborava. Mas uma amiga que possui, de tempos em tempos, visões de futuro, sombrias mas também esperançadoras descobriu este texto e mo enviou. Ela nutre a firme esperança de que o Covi-19 com as transformações que demanda,  prenuncia um tempo bom para toda a humanidade: o advento do Dia ou da Noite de Deus. Viu este texto meu, perdido, algo profético e antecipatório. Para alimentar a esperança de tantos acabrunhados com o isolamento social  republico-o agora para que possam se permitir um pouco de sonho, de esperança e de um destino de paz para a humanidade e para a Mãe Terra. Oxalá o sonho se transforme em ridente realidade. LB                  

 

C. G. Jung, um dos mestres fundadores do discurso psicanalítico junto com S. Freud, refere-se em suas obras aos grandes sonhos que podem visitar as pessoas. Ai emergem arquétipos ancestrais, carregados de mensagens que podem mudar o estado de consciência e até o destino das pessoas.

A mim me ocorreu um destes grandes sonhos no dia 23 de outubro deste ano de 2005 por volta das quatro da madrugada, em plena crise de artrose que me deixou preso em casa. A noite, de repente, virou dia. Era a noite sem armas, da paz perpétua. No contexto do referendo sobre o uso das armas vale a pena contar esse sonho.

Sonhei que estava na China, reminiscência de uma viagem que fizera com um grupo de teólogos brasileiros e canadenses nos anos 80. Em sonho vi que de uma encosta desciam multidões de chineses. Na China tudo é multidão. Nosso pequeno grupo foi tomado de medo. “Agora eles vêm para nos matar”. Mas na medida em que se aproximavam, escutavam-se vozes cada vez mais fortes: “agora é paz, agora é paz perpétua”.

Eu pensei: “é um truque deles para nos matarem a todos”. Ao contrário, quando se aproximaram, nos cercaram, dançando, abraçando-nos efusivamente e enchendo-nos de presentes. Alguns se estendiam traquilos por sobre a relva e nos convidavam a fazer o mesmo para estarmos todos juntos e à vontade

Começamos a ganhar confiança e também proclamávamos:”agora é paz, é paz perpétua”. Entretanto, um sentimento de estranheza me invadiu. Não conseguia me acostumar à ideia da paz perpétua nem como devia me comportar. A realidade era grande demais: um misto de alegria e de temor.

De repente pensei: “agora virão as bombas atômicas chinesas e nos liquidarão”. Mas o temor logo se desfez quando alguém ligou à televisão e lá não se viam mais violências nem futilidades, apenas a mensagem em todos os canais:”agora é paz, agora é paz.”.

De súbito um chinês se ergueu e disse: “preciso pagar minhas contas”. Mas logo se lembrou: “agora com a paz perpétua ninguém precisa pagar mais nada a ninguém porque todos terão tudo o que precisarem”.

Logo depois, vi uma roda de pessoas segurando alguém que parecia desmaiado. Logo percebi que se tratava do Presidente dos EUA. Da encosta desciam, graves e  solenes, os chefes chineses. Entraram numa sala junto com o Presidente norte-americano, agora refeito.

Pouco depois, abriram-se as portas e os chefes das duas nações proclamavam:”chegou o tempo da paz perpétua, da paz eterna”. Nisso escutei o Presidente norte-americano retrucar: “Teremos paz, mas isso só vale por duas semanas”.

No sonho fiquei profundamente prostrado e pensei:”O capitalismo desaparece com a paz. Ele precisa da guerra para existir”. Mas a certeza da paz era tão forte que todos se harmonizavam e não terminavam de sorrir e de se abraçar.

Era a primeira noite da era de Deus noite da paz perpétua.  Noite sereníssima e iluminada, realização do sonho mais ancestral da humanidade: a paz perpétua, paz sem  fim.

Nisso acordei cheio da graça divina. Apenas as dores dos joelhos me recordavam a diferença entre o sonho e a realidade. Mas no sentimento, o sonho era incomensuravelmente mais real que a realidade. Foi então que me lembrei dos versos místicos de São João da Cruz:

“Oh, noite mais amável que a alvorada. Oh, noite que juntaste o Amado com a amada, amada já no Amado transformada”.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor

 

Papa Francisco: o vírus vem de uma economia doente

Na audiência pública do dia 26 de agosto de 2020, como faz sempre às quartas feiras, o Papa Francisco fez uma fala orientadora para todos que estamos submetidos ao ataque do Covid-19. O Papa foi direto na ferida: este vírus é consequência de uma economia doente. Ela subsiste mediante a exploração das pessoas e da devastação da natureza, coisa que eu mesmo venho insistindo, na contramão da maioria dos analistas das mídias sociais sobre a origem do Covid-19. Consideram o vírus em si, como algo isolado que há que se exterminar, sem analisar o contexto em que se insere e por que foi causado: pelo sistema de produção que avança sobre a natureza buscando riqueza e criando injustiça ecológica e  injustiça social planetária. É um sistema anti-vida. Ou acabamos com ele ou ele vai acabar com a vida na Terra  incluindo a espécie humana como vários notáveis do mundo nos advertem, especialmente biólogos e ecólogos. Dada a clareza didática do discurso do Papa, o publicamos aqui pois é certeiro na análise e nos suscita esperança de que podemos criar uma relação amigável para com a natureza e a Terra, incluindo a todos na justiça, na paz e no amor.Lboff

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Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Diante da pandemia e de suas consequências sociais, muitos correm o risco de perder a esperança. Neste tempo de incertezas e angústias, convido a todos a acolherem o dom da esperança que vem de Cristo. É Ele quem nos ajuda a navegar nas águas tumultuosas da doença, da morte e da injustiça, que não têm a última palavra sobre o nosso destino final.

A pandemia destacou e agravou problemas sociais, especialmente a desigualdade. Alguns podem trabalhar em casa, enquanto para muitos outros isso é impossível. Algumas crianças, apesar das dificuldades, podem continuar recebendo uma educação escolar, enquanto para muitas outras foi interrompida abruptamente. Algumas nações poderosas podem emitir dinheiro para enfrentar a emergência, enquanto para outras isso significaria hipotecar o futuro.

Esses sintomas de desigualdade revelam uma doença social; é um vírus que vem de uma economia doente. Precisamos dizer isso simplesmente: a economia está doente. Ela ficou doente. É o fruto de um crescimento econômico injusto – essa é a doença: o fruto de um crescimento econômico injusto – que ignora os valores humanos fundamentais. No mundo de hoje, poucos riquíssimos possuem mais do que o resto da humanidade.

Repito isso porque nos fará pensar: uns poucos muito ricos, um pequeno grupo, possuem mais que o resto da humanidade. Isso é estatística pura. É uma injustiça que clama ao céu! Ao mesmo tempo, esse modelo econômico é indiferente aos danos infligidos à casa comum. Não cuida da casa comum. Estamos perto de ultrapassar muitos dos limites de nosso maravilhoso planeta, com consequências graves e irreversíveis: da perda da biodiversidade e das mudanças climáticas à elevação do nível do mar e à destruição das florestas tropicais.

A desigualdade social e degradação ambiental caminham juntas e têm a mesma raiz (cf. Enc. Laudato Si’, 101): aquela do pecado de querer possuir, de querer dominar irmãos e irmãs, de querer possuir e dominar a natureza e o próprio Deus. Mas esse não é o desígnio da criação.

“No início, Deus confiou a terra e os seus recursos à gestão comum da humanidade, para cuidar dela” (Catecismo da Igreja Católica, 2402). Deus nos pediu para dominarmos a terra em seu nome (cf. Gn 1,28), cultivando e cuidando dela como um jardim, jardim de todos (cf. Gn 2,15). “Enquanto ‘cultivar’ significa lavrar ou trabalhar […], ‘guardar’ significa proteger [e] preservar” (LS, 67). Mas atenção para não interpretar isso como carta branca para fazer da terra o que se quer. Não. Existe “uma relação de reciprocidade responsável” (ibid.) entre nós e a natureza. Uma relação recíproca responsável entre nós e a natureza. Recebemos da criação e damos algo em troca. “Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo e que necessita para sua própria sobrevivência, mas também tem o dever de protegê-la” (ibid.). Ambas as partes.

De fato, a terra “existe antes de nós e foi nos dada” (ibid.), Foi dada por Deus “a todo o gênero humano” (CIC, 2402). E, portanto, é nosso dever garantir que seus frutos cheguem a todos, não apenas a alguns. E esse é um elemento-chave de nossa relação com os bens terrenos. Como recordaram os padres do Concílio Vaticano II, “o homem, usando estes bens, não deve considerar as coisas externas que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também aos outros” (Const. past. Gaudium et spes, 69). Com efeito, “a posse de um bem torna quem o possui administrador da Providência, para que dê fruto e partilhe os seus frutos com os outros” (CIC, 2404). Somos administradores de bens, não donos. Administradores. “Sim, mas o bem é meu”. É verdade que é seu, mas para administrá-lo, não para tê-lo egoisticamente para você.

Para assegurar que aquilo que possuímos agregue valor à comunidade, “a autoridade política tem o direito e o dever de regular o exercício legítimo do direito de propriedade em função do bem comum” (ibid., 2406) [1]. A “subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens […] é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social” (LS, 93). [2]

Propriedade e dinheiro são ferramentas que podem servir à missão. Mas facilmente os transformamos em fins, individuais ou coletivos. E quando isso acontece, os valores humanos essenciais são afetados. O Homo sapiens se deforma e se torna uma espécie de homo œconomicus – no pior sentido – individualista, calculista e dominador. Esquecemos que, criados à imagem e semelhança de Deus, somos seres sociais, criativos e solidários, com uma imensa capacidade de amar. Muitas vezes nos esquecemos disso. Na verdade, somos os seres mais cooperativos entre todas as espécies e prosperamos em comunidade, como bem se vê na experiência dos santos [3]. Há um ditado espanhol que me inspirou essa frase, e é assim: florecemos en racimo como los santos. Florescemos em comunidade como podemos ver na experiência dos santos.

Quando a obsessão em possuir e dominar exclui milhões de pessoas dos bens primários; quando a desigualdade econômica e tecnológica é tal que dilacera o tecido social; e quando a dependência de um progresso material ilimitado ameaça a casa comum, então não podemos ficar parados, apenas olhando. Não, isso é desolador. Não podemos ficar parados e assistir! Com o olhar fixo em Jesus (cf. Hb 12, 2) e com a certeza de que o seu amor opera através da comunidade dos seus discípulos, devemos todos agir juntos, na esperança de gerar algo diferente e melhor. A esperança cristã, enraizada em Deus, é a nossa âncora. Sustenta a vontade de compartilhar, fortalecendo nossa missão como discípulos de Cristo, que compartilhou tudo conosco.

E isso foi compreendido pelas primeiras comunidades cristãs, que, como nós, viveram tempos difíceis. Conscientes de formar um só coração e uma só alma, eles colocavam todos os seus bens em comum, dando testemunho da graça abundante de Cristo para com eles (cf. At 4, 32-35). Estamos passando por uma crise. A pandemia colocou todos nós em crise.

Mas lembrem-se: não se pode sair de uma crise iguais, saímos melhores ou saímos piores. Essa é nossa opção. Depois da crise, continuaremos com esse sistema econômico de injustiça social e desprezo pelo cuidado com o meio ambiente, com a criação, com a casa comum? Vamos pensar sobre isso. Que as comunidades cristãs do século XXI possam recuperar esta realidade – o cuidado pela criação e a justiça social: caminham juntas –, testemunhando assim a Ressurreição do Senhor. Se cuidarmos dos bens que o Criador nos doa, se colocarmos em comum o que possuímos para que a ninguém falte, então poderemos verdadeiramente inspirar esperança para regenerar um mundo mais saudável e mais justo.

E, por fim, vamos pensar nas crianças. Leiam as estatísticas: quantas crianças, hoje, estão morrendo de fome por uma má distribuição das riquezas, por um sistema econômico como eu disse antes; e quantas crianças, hoje, não têm direito à escola, pelo mesmo motivo. Que seja esta imagem, das crianças necessitadas com fome e falta de educação, que nos ajude a compreender que depois desta crise devemos sair melhores. Obrigado.

Notas:

[1] Cfr. GS, 71; São João Paulo II, Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis, 42 Enc. Centesimus annus, 40,48).

[2] Cf. São João Paulo II, Carta Encíclica Laborem exercens, 19.

[3] “Florecemos en racimo, como los santos”: expressão comum na língua espanhola

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