O bispo poeta Pedro Casaldaliga e a tradição da mística poética espanhola

O bispo Pedro Casaldáliga (não gostava do título de Dom) foi transfigurado no dia 8 de agosto de 2020 com 92 anos de idade. Catalão, veio ao Brasil e foi sagrado bispo em 1971 para a Prelazia São Felix do Araguaia-MT. Foi pastor exemplar, profeta corajoso, poeta de grande altura e místico dos olhos abertos. Notabilizou-se por ficar decididamente do lado dos indígenas e peões expulsos de suas terras pelo avanço do latifúndio.Sua Carta Pastoral de 1971”Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social” provocou várias ameaças de morte e de expulsão do país pela ditadura Militar.

Aqui atenho-me apenas a alguns tópicos de  sua poesia e de sua mística que se alinham à grande tradição espanhola de São João da Cruz e de Santa Tereza d’Avila.Alguns estão em espanhol,outros em português.

Viveu a pobreza evangélica em grau extremo:” Não ter nada/não levar nada/não poder nada/e de pessagem,não matar nada/não calar nada./Somente o Evangelho como faca afiada/e o pranto e o riso no olhar/E a mão estendida e apertada/e a vida,a cavalo, dada./E este sol e estes rios e esta terra comprada/com testemunhas da ressurreição já estalada./E mais nada”.

Corajoso diz ao enfrentar os opressores:”Onde tu dizes lei, eu digo Deus./Onde tu dizes paz,justiça,amor/eu digo Deus./Onde tu dizes Deus/eu digo liberdade, justiça,amor”Estes valores são os verdadeiros nomes de Deus. Ameaçado de morte, escreve uma Cantiga à morte:

“Ronda a morte rondeira/ a morte rondeira ronda/já o disse Cristo antes de Lorca. Que me rondarás,morena,/vestida de medo e sombra.Que te rodarei,morena,/vestido de espera e glória. Tu me rondas em silêncio/eu te rondo na canção.Tu me rondas de aguilhão eu te rondo de laurel./Que me rondarás/que te rondarei.Tu para matar/eu para nascer. Que te rondarei/que me rondarás.Tu com guerra e morte/eu com guerra e Paz. Que me rondarás em mim;ou nos pobres de meu Povo/ou nas fomes dos vivos/ou nas contas dos mortos. Me rondarás bala/me rondarás noite/me rondarás asa/me rondarás carro. Me rondarás ponte/me rondarás rio/sequestro, acidente/ tortura, martírio,/temida.Chamada/ vendida/comprada/mentida/sentida/calada/cantada. Que me rondarás/que te rondarei que me rondaremos/todos/eu/e  Ele/ Se com Ele morremos/com Ele viveremos/Com Ele morro vivo/por /Ele vivo morto/Tu nos rondarás/mas nós te pegaremos”.

Mas nada teme:”E chegarei de noite/com o feliz espanto/de ver/por fim/que andei/dia após dia; /sobre a própria palma de Tua Mão”.

Este poema nos remete a São João da Cruz do Cântico Espiritual:

“Por aqui ya no hay camino”./Hasta donde no lo habrá?/Si no tenemos su vino/la chicha no servirá”?

“Legarán a ver el dia/quanto con nosostros van?/Como haremos compañia/si no tenemos ni pan?”

Por donde iréis hasta el cielo/si por la tierra no vais?/Para quién vais al Carmelo/Si subis y no bajáis”?

Sanará viejas feridas/las alcuzas de la ley?/Son banderas o son vidas/las batallas de este Rey”?

“Es le curia o es la calle;/donde grana la misión?/Si dejáis que el Viento calle/ que oiréis en la oración?”

“Si no oís la voz del Viento/qué palabra llevaréis?/Que daréis por sacramento/si no os dais em lo que teneis”?

“Si cedéis ante el imperio/la Esperanza y la Verdad/Quién proclamará el misterio/de la entera Libertad”?

“Si el Señor es Pan y Vino/y el Camino por do vais/Si al andar se hace camino/qué camino esperáis?”

Vivia num “palácio”de madeira de terceira e com extrema simplicidade.Era tão identificado com os indígenas e peões assassinados, que quis se enterrado no “Cemitério do Sertão” onde eles, anônimos, jazem:

“Para descansar/ quero só esta cruz de pau/como chuva e sol;/estes sete palmos e a Ressurreição”.

E assim imaginou o Grande Encontro com o Amado que serviu nos condenados da terra:

“Ao final do caminho me dirá/

E tu, viveste? Amaste?

E eu, sem dizer nada,

Abrirei o coração cheio de nomes”

 

O clamor de sua profecia, a total entrega de Pastor aos mais oprimidos, a poesia que alimentará nossa beleza e sua mística de olhos abertos e das mãos operosas permanecerão como um legado perene às comunidades cristãs, ao nosso país que ele amou e à humanidade inteira.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e velho amigo de Pedro Casaldaliga.

 

 

 

Dentro de um inferno,algo do paraíso não se perdeu

 Se olharmos os cenários mundiais, temos a impressão de que a dimensão de sombra, o impulso de morte e a porção demente tomou conta das mentes e dos corações de muitas pessoas. Particularmente em nosso país, criou-se até o “gabinete do ódio”onde grupos maus maquinam maldades, calúnias, distorções e todo tipo de perversidades contra seus adversários políticos, feitos inimigos que devem ser liquidados senão fisicamente, pelo menos simbolicamente.

Várias janelas do inferno se abriram e  suas labaredas incineraram celebridades, alimentaram as fake news e destroçaram porções do Estado Democrático de Direito e em seu lugar introduziram um Estado sem lei e post-democrático e, no caso do Brasil, em sua cabeça, um chefe de Estado demente, cruel e sem compaixão.

Historiadores nos asseguram que há momentos na história de uma nação ou de um povo nos quais o dia-bólico (o que divide) inunda a consciência coletiva. Tenta afogar o sim-bólico (o que une) no intento de fazer regredir toda uma história aos tempos sombrios, já superados pela civilização. Então surgem ideologias de exclusão, mecanismos de ódio, conflitos e  genocídios de inteiras etnias. Conhecemos a Shoah, fruto do inferno criado pelo nazifascimo de extermínio em massa de judeus e de outros.

Na América Latina por ocasião da invasão/ocupação dos europeus, ocorreu talvez o maior genocídio da história. No México, em  1519 com a chegada de Hernán Cortez,  viviam 22 milhões de aztecas; depois de 70 anos restaram somente 1,2 milhões. Foram católicos anticristãos que perpetraram  extermínios em massa. Os gritos das vítimas clamam ao céu contra a “Destruição das “Índias”(Las Casas)  e têm o direito de reclamar até o juízo final. Nunca se viu algum ato de reconhecimento deste genocídio por parte das potências colonialistas nem se dispuseram a fazer a mínima compensação aos sobreviventes destes massacres.São demasiados desumanos e arrogantes.

Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entre-ajudam.

Narro um fato real que mostra a emergência desse pedaço de paraíso, ainda existente entre nós, lá onde a inimizade  e a violência são diárias.

Essa não é uma história inventada mas real, recolhida por um jornalista espanhol do El Pais no dia sete de junho de 2001. Ocorreu no ontem, mas seu espírito vale para o hoje.

Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos, que vivia na parte árabe de Jerusalém. No dia 5 de junho de 2001 quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima  de um disparo fatal vindo de um colono judeu. Era a vingança contra o grupo palestinense Hamás que, quarenta e cinco minutos antes, havia matado inúmeras pessoas numa discoteca de Tel Aviv mediante um atentado feito por um homem bomba. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense Hadassa chegou já morto.

Mas eis que a  porção adormecida do paraíso em nós foi acordada O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital, entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas para transplantes a doentes judeus. O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.

Segundo a religião muçulmana, dizia, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial e que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.

Com efeito, ocorreu um transplante. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.

A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos  a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora  viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.

Aos que estavam próximo, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas: daqui a algum tempo eu e meus filhos iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém.                                                                                                                                   Ele vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos. Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que  tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós.

Este gesto generoso demonstra que o paraíso não se perdeu totalmente. No meio de um ambiente altamente tenso e carregado de ódios, surgiu um Jardim do Éden, de vida e de reconciliação. A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alignieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas. E eu diria, também o coração da esposa de Mazen Julani  e o nosso.

São tais atitudes que nos fazem crer que o ódio reinante do Brasil e no mundo, as fake news e as difamações não terão futuro. É joio que não será recolhido, como o trigo, no celeiro dos homens nem de Deus. Esse tsunami de ódio e seu promotor maior que desgoverna nosso país, irá descobrir, um dia em que só Deu sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam. Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden.

Leonardo Boff é ecoteólogo, escritor e escreveu “O doloroso parto da Mãe Terra: uma nova etapa da Terra e da Humanidade”,a sair pela Vozes em 2020.

 

Post-covid-19: What cosmology and ethics to incorporate (IV)

The sustainable way of life is brought about by virtuous practices consistent with a sustainable mode of living. There are many virtues in a different possible world. I will be brief because I have already published three volumes with the title, “Virtues for a different possible world” (Sal Terrae 2005-2006). I mention 10 virtues, without detailing their content, because that would take us too far afield.
Virtues of a different possible, and necessary, world
The first virtue is essential caring. I call it essential because according to a philosophic tradition that came from the Romans, passed down through the centuries, which is best expressed by several authors, especially in Heidegger’s central nucleus of Time and Being. Caring, it is seen as the essence of the human being. It ts a precondition for the group of factors necessary for life. Without caring, life would never have arisen, nor could it survive. Some cosmologists, such as Brian Swimme and Stephan Hawking, viewed caring as the essential dynamic of the universe. Had the four fundamental energies lacked the subtle caring to act synergistically, we would not have the world we have. All life is dependent on caring. Because we are biologically imperfect beings, with no specialized organs, without the infinite care of our mothers, we could not have gotten out of our cribs and sought nourishment. We need the caring of others. All that we love, we also care for, and we love all that we care for. With respect to nature, this requires a relationship that is amicable, non aggressive and respectful of her limits.
The second virtue is the awareness of belonging to nature, to the Earth and the universe. We are part of a great Totality that surrounds us. We are the conscious and intelligent part of nature; we are that part of the Earth that feels, thinks, loves and venerates. This feeling of belonging fills us with respect, marvelous amazement and security.
The third virtue is solidarity and cooperation.  We are social beings who not only live, but coexist with others. We know from bio-anthropology that it was the solidarity and cooperation of our anthropoid ancestors that, by searching for food and bringing it for collective consumption, allowed them to rise to the top of the animal kingdom, and inaugurate the human world. Today, with respect to the coronavirus, what can save us is this solidarity and universal cooperation. Solidarity must begin with the least among us and the invisible. Otherwise, it is not universally inclusive.
The fourth virtue is collective responsibility. We discussed its meaning above. It is the moment of consciousness when each member of society understands the good and bad effects of their decisions and acts. The uncontrolled deforestation of the Amazon would be absolutely irresponsible because it would destroy the balance of the rains for vast regions and eliminate the biodiversity that is indispensable for the future of life. We need not mention nuclear war, whose deadly effects would eliminate all life, especially human life.
The fifth virtue is hospitality, as a duty and a right. Immanuel Kant was the first to present hospitality as both a duty and a right in his famous work, “In view of perpetual peace” (1795). Kant understood that the Earth belongs to all, because God did not gift any part of the Earth to anyone. The Earth belongs to all her inhabitants, who are free to go wherever they want. Wherever someone is found, it is everyone’s the duty to offer hospitality, as a sign of common belonging to the Earth; and we all have the right to be welcomed, without distinctions. To Kant, hospitality and respect for human rights would constitute the pillars of a world republic (Weltrepublik). This theme has great topicality, given the number of refugees and widespread discrimination against different groups. Hospitality is perhaps one of the most urgent virtues for the process of globalization, even though it is one of the least commonly practiced.
The sixth virtue is universal coexistence. Coexistence is a primary factor because we are all products of the coexistence of our parents. We are beings of relationships, which is to say, we do not simply live, but we coexist through our lives. We participate in the lives of others, their joys and sadness. However, for many it is difficult to coexist with those who are different, be it in ethnicity, religion, or political ideas. What is important is to be open to the exchange. That which is different always brings us something new that either benefits or challenges us. What we must never do is turn difference into inequality.  We can be humans of many different backgrounds, be it Brazilian, Kechua, Italian, Aymara, Wampanoag, Japanese, Peruvian, Aztec, or Yanomami. Each form is human and has its dignity. Today, through the cybernetic mass media of communications, we open windows onto all people and cultures.  Knowing how to coexist with these differences opens new horizons and brings us into a form of communion with everyone. This coexistence also involves nature. We coexist with the landscape, the jungles, the birds and all other animals. It is not just to see the star filled skies, but to enter into communion with the stars, because we come from them and with them we are part of the great All. In fact, we are part of a community of common destiny with all of creation.
The seventh virtue is unconditional respect.Each being, no matter how small, has value in itself, independent of its usefulness to humans. Albert Schweitzer,the great Swiz physician who went to Gabon, Africa, to care for the lepers, profoundly developed the theme. For Schweitzer, respect is the most important basis of ethics, because it includes welcome, solidarity and love. We must start by respecting ourselves, maintaining dignified attitudes and manners that move others to respect us. It is important to respect all beings of creation, because they have value in themselves. They exist or live and deserve to exist or live. It Is especially valuable to respect all human person, because a human is a carrier of dignity, a sacred being with inalienable rights, regardless of their origin. We owe supreme respect for the sacred and to God, the intimate mystery of all things. We must venerate and bend our knees only before God, because only God deserves that attitude.
The eight virtue is social justice and fundamental equality for all. Justice is more than merely giving to each his or her own. Among humans, justice is love and the minimal respect we owe everyone else. Social justice requires guaranteeing the minimum to all persons, without creating privilege, and equally respecting their rights because we are all human beings and deserve to be humanely treated. Social inequality means social injustice and, theologically, it is an offense to the Creator and His sons and daughters. The major perversity that exists nowadays is perhaps that of leaving millions of people in misery, condemned to die before their time. The violence of social inequality and injustice has been revealed in the age of this coronavirus. While some people can safely live quarantined in their homes or apartments, the great majority of the poor are exposed to infection and often to death.
The ninth virtue is the tireless search for peace. Peace is one of the most longed for conditions, because given the type of society we have built, we live in constant competition, called on to consume and to exalt productivity. Peace does not exist by itself.  Peace is the fruit of values that must be lived out and bring peace as a result. One of the most certain ways of understanding peace comes to us from the Earthcharter, where is said: «Peace is the plenitude that results from correct relationships with one’s own self, with other persons, other cultures, other lives, the Earth and the Great All, of whom we are part» (n.16 f). As can be seen, peace is the result of adequate relationships and the fruit of social justice. Without these relationships and this justice we will only know a truce, but never a permanent peace.
The tenth virtue is the development of the spiritual meaning of life. Human beings have a corporal exterior through which we relate with the world and other people.  We also have a psychical interior where our passions, great dreams and our angels and demons are found in the architecture of desire. We must control our demons and lovingly cultivate our angels.  Only that way can we enjoy the equilibrium necessary for life.
But we also posses a depth, the dimension where the great questions of life reside: who are we? Where do we come from? Where are we going? What can we look for after this terrestrial life? What is the Supreme Energy that sustains the heavens and keeps our Common Home circling the Sun and maintains her always alive so that we may live? This is the spiritual dimension of the human being, with intangible values, such as unconditional love, trust in life, and courage to confront the unavoidable difficulties. We realize that the world is filled of meaning, that things are more than things, that they are messengers and have another invisible side. We intuit that there is a mysterious Presence that impregnates all things. The spiritual and religious traditions have called this Presence by a thousand names, without ever being able to totally decipher it. It is the mystery of the world that is sent to the Abyssal Mystery that makes that everything be what it is. Cultivating this space makes us more human, more humble, and roots us in a transcendent reality that is adequate to our infinite desire.
Conclusion: to simply be human
The conclusion we draw from these long reflections on the coronavirus 19 is: we must simply be humans, vulnerable, humble, connected with each other, part of nature and the conscious and spiritual part of the Earth with the mission of caring for the sacred inheritance we have received, Mother Earth, for us and future generations.
The last phrases of the Earthcharter are inspiring: «That our time be remembered by the awakening of a new reverence to life, by the firm commitment to achieve sustainability and to intensify the struggle for justice and peace, and for the joyful celebration of life».
*Leonardo Boff is an ecotheologian and has written, in three volumes, Virtues for another possible world,  (3 vol.), Sal Terrae, 2005-2006

 

Van Gogh habla del amor necesario

Vivimos actualmente tiempos sombríos de mucho odio, ausencia de fineza y especialmente de falta de amor. La historia no es rectilínea ni la propia evolución del universo lo es. Pasa del orden (cosmos) al desorden (caos), de lo sim-bólico (lo que une) a lo dia-bólico (lo que separa), de las sombras a la luz, de thánatos (las negatividades de la vida) a eros (las excelencias de la vida) y de Cristo al Anti-Cristo.

Tales antítesis no son deformaciones de la realidad, sino la condición de todas las cosas. En el ámbito humano decimos que así es la condition humaine. Es decir, hay momentos en que predomina el orden, la armonía social, la convivencia inclusiva, que representan el eros. En otros predomina el thánatos, la dimensión de muerte, de odio y de desgarro. Obsérvese que las dos realidades vienen siempre juntas y están simultáneamente presentes en todos los momentos y circunstancias.

Actualmente a nivel mundial y nacional estamos viviendo duramente la dimensión de thánatos, de lo dia-bólico, de las sombras. Hay guerras en el mundo, racismo, fundamentalismo produciendo incontables víctimas, ascensión del autoritarismo, del populismo, que son disfraces del despotismo. Como si todo esto no bastase, estamos bajo la invasión de la Covid-19, fruto de la sistemática agresión humana contra la naturaleza (antropoceno) y del contraataque que ella está lanzando contra nosotros, poniendo especialmente al capitalismo y a los países militaristas con su máquina de matar, de rodillas.

Todos los caminos religiosos y espirituales dan centralidad al amor. No necesitamos referirnos a Jesús para quien el amor es todo o al texto de inigualable belleza y verdad de san Pablo en la primera Carta a los Corintios, en el capítulo 13: “el amor nunca acabará… en el presente permanecen estas tres, la fe, la esperanza y el amor, y la más excelente es el amor” (13.8-13).

No me resisto a citar el texto sobre el amor de la Imitación de Cristo, de 1441, el libro más leído en la cristiandad después de la Biblia. Como canto del cisne de mi actividad teológica de más de 50 años, lo retraduje del latín medieval, depurándole como mucho de los dualismos típicos de la época. Leámoslo:

«Gran cosa es el amor. Es un bien verdaderamente inestimable que por si sólo vuelve suave lo que es penoso y soporta sereno toda adversidad. Porque lleva la carga sin sentir el peso, torna lo amargo dulce y sabroso… El amor desea ser libre y sin amarras que le impidan amar con totalidad. Nada más dulce que el amor, nada más fuerte, nada más sublime, nada más profundo, nada más delicioso, nada más perfecto o mejor en el cielo y en la tierra… Quien ama, vuela, corre, vive alegre, se siente liberado de todas las amarras. Da todo a todos y posee todo en todas las cosas, porque más allá de todas las cosas, descansa en el Sumo Bien del cual se derivan y proceden todos los bienes. No mira las dádivas, se eleva por encima de  todos los bienes hasta aquel que los concede. El amor muchas veces no conoce límites pues su fuego interior supera toda medida. Es capaz de todo y realiza cosas que quien no ama no comprende; quien no ama se debilita y acaba cayendo.  El amor vigila siempre y hasta duerme sin dormir… Sólo quien ama comprende el amor» (libro III capítulo 5).

En los momentos dolorosos que estamos viviendo y sufriendo, tenemos que rescatar lo más importante que verdaderamente nos humaniza: el simple amor. Se siente grandemente su falta en todas partes y relaciones. Sin él nada de grande, de memorable y de heroico ha sido construido en la historia. El amor hace que tantos médicos y médicas, enfermeros y enfermeras y todos los que trabajan contra la Covid-19, sacrifiquen sus vidas para salvar vidas, y por eso muchos de ellos acaban cayendo víctimas de la enfermedad.

Ellos nos confirman la excelencia del amor incondicional. Testimonios de las ciencias de la vida, del arte y de la poesía refuerzan lo que proclaman las religiones. Son convincentes las palabras del genial pintor Vincent van Gogh en una carta a su hermano Théo: «Hay que amar para trabajar y volverse un artista, un artista que pretende poner sentimiento en su obra: primero tiene que sentirse a sí mismo y vivir con su corazón… El amor califica nuestro sentimiento de deber y define claramente nuestro papel… el amor es la más poderosa de todas las fuerzas» (Lettres à son frère Théo, Gallimard 1988, 138, 144). A. Artaud que hizo la introducción a las cartas de van Gogh dice de él que rechazó entrar en esta sociedad sin amor: “fue un suicida de la sociedad”.

Consideremos lo que afirman los estudios sobre el proceso cosmogénico y de la nueva biología. Cada vez está más claro que el amor es un dato objetivo de la realidad global y cósmica, un evento bienaventurado del propio ser de las cosas, en las cuales nosotros estamos incluidos.

Ejemplo de eso es lo que escribió James Watson, que con Francis Crick descodificó en 1953 la doble hélice del código genético: «El amor pertenece a la esencia de nuestra humanidad. El amor, ese impulso que nos hace cuidar del otro, fue lo que permitió nuestra supervivencia y éxito en el planeta. Ese impulso, creo, que salvaguardará nuestro futuro… Tan fundamental es el amor para la naturaleza humana que estoy seguro de que la capacidad de amar está inscrita en nuestro DNA. Un san Pablo (que tan excelentemente escribió sobre el amor) secular diría que el amor es la mayor dádiva de nuestros genes a la humanidad». (J. Watson, ADN: el secreto de la vida, Companhia das Letras, São Paulo 2005, p. 433-434).

Los biólogos chilenos Humberto Maturana y Francisco Varela mostraron la presencia cósmica del amor. Dicen que los seres, incluso los más originarios como los topquarks, se relacionan e interactúan entre ellos espontáneamente, por pura gratuidad y alegría de convivir. Tal relación no responde a una necesidad de supervivencia. Se instaura por un impulso de crear lazos nuevos, por la afinidad que emerge espontáneamente y que produce deleite. Es el adviento del amor.

De esta forma, la fuerza del amor atraviesa todos los estadios de la evolución y enlaza a todos los seres dándoles irradiación y belleza.

El amor cósmico realiza lo que la mística ha intuido siempre sobre la gratuidad y la belleza: «la rosa no tiene un por qué. Florece por florecer. Ella no se ocupa de sí misma ni se preocupa de si la admiran o no» (Ángel Silesius). Así el amor, como la flor, ama por amar y florece como fruto de una relación libre, como entre dos personas enamoradas y apasionadas.

Fernando Pessoa expresó bien esta experiencia en los Poemas de Alberto Caieiro: «Si hablo de la Naturaleza no es porque sepa lo que es /sino porque la amo, y la amo por eso,/ porque quien ama nunca sabe lo que ama/ni sabe por qué ama, ni qué es amar/Amar es la eterna inocencia» (Obra poética, Aguilar 1974, p.205).

Por el hecho de ser humanos y autoconscientes, podemos hacer del amor un proyecto personal y civilizatorio: vivirlo conscientemente, crear condiciones para que la amorización se dé entre los seres humanos y con todos los demás seres de la naturaleza, hasta con alguna estrella del universo.

El amor es urgente en Brasil y en el mundo. Con realismo Paulo Freire, tan calumniado por los propulsores del odio y de la ignorancia, nos dejó esta misión: forjar una sociedad donde no sea tan difícil el amor. Educar, decía él, es un acto de amor.

Digámoslo con todas las palabras: el sistema mundial capitalista y neoliberal no ama a las personas. Ama el dinero y los bienes materiales; ama la fuerza de trabajo del obrero, sus músculos, su saber, su producción y su capacidad de consumir. Pero no ama gratuitamente a las personas como personas, portadoras de dignidad y de valor. Lo que nos está salvando en este momento de irrupción de la Covid-19 son exactamente los valores que el capitalismo niega.

Predicar el amor diciendo: «amémonos unos a otros como nos amamos a nosotros mismos», es revolucionario. Es ser anti-cultura dominante y contra el odio imperante.

Hay que hacer del amor aquello que el gran florentino, Dante Alighieri, escribió al final de cada cántico de la Divina Comedia: “el amor que mueve el cielo y todas las estrellas”; y yo añadiría, amor que mueve nuestras vidas, amor que es el nombre sacrosanto del Ser que hace ser todo lo que es, y que es la Energía sagrada que hace latir de amor nuestros corazones.

*Leonardo Boff es ecoteólogo y acaba de escribir: Covid-19: la Madre Tierra contraataca a la humanidad, que saldrá publicado por la editora Vozes.

Traducción de Mª José Gavito Milano