O complô dos USA para derrubar o Papa Francisco

É importante que os católicos, os cristãos e pessoas interessadas em assuntos religiosos saibam da enorme e até perversa campanha articulada por multibilionários estadounidenses, ultraconsrevadores, junto com pessoas de dentro do Vaticano, ocupando altos cargos, interessados em distorcer suas doutrinas, criticar suas práticas pastorais e diretamente difamar a pessoa do Papa Francisco. E há uma razão manifesta para esta campanha (que supomos ter representantes também no  Brasil) porque, pela primeira vez, um Papa se opõe diretamente ao sistema econômico que, no afã de acumular de forma ilimitada, explora nações, manipula mercados, cria milhões de pobres e agride gravemente os ecossistemas, pondo em risco o futuro da vida na Terra. Sua encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) dirigida a toda a humanidade, recebe  grande rejeição destes grupos radicais de direita que se apresentam como piedosos. Frustrados por não conseguirem fazê-lo renunciar (são demasiadamente ingênuos e confiantes em seu poder financeiro), propõem-se a elaborar dossiers detalhados com o auxílio de  agentes da FBI sobre os futuros cardeais, favorecendo o mais que podem aqueles que podem servir a seus interesses e atacando duramente aqueles que talvez prolongarão a agenda do Papa Francisco, submetendo-os a grandes constrangimentos com fake news,inverdade e calúnias. Estes opositores figadais sabem da  reconhecida liderança moral e também ético-política do Papa Francisco sobre a opinião pública mundial e sobre outros chefes de Estado que apreciam sua coragem, sua sinceridade, seu carisma e seu entranhável amor aos pobres e aos imigrados de África e do Oriente Médio, fugindo da fome e das guerras a caminho da Europa. De seu círculo bem próximo viemos saber que o Papa se comporta de forma soberana, dorme como uma pedra das 9,30 da noite às 5,30 da manhã e vive o espírito das bem-aventuranças evangélicas da perseguição e difamação. Confiamos no Espírito que conduz a história. também a Igreja de Deus r nas orações das pessoas de mente pura para que as maquinações maliciosas destes grupos poderosos sejam totalmente frustradas. Elas não vem de Deus mas de um espírito impuro e mau. Lboff

               O complô dos USA para derrubar o Papa Francisco

Jornalista francês denuncia o círculo de interessados em uma conspiração no Vaticano, composto pelo setor de mega milionários ultraconservadores, que usa sua influência e poder econômico para assediar o sumo pontífice

Por Eduardo Febbro

Carta Maior de 17/09/2019 18:45

“Para mim, é uma honra que os norte-americanos me ataquem”, disse o Papa Francisco quando o jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico La Croix em Roma, mostrou a ele o livro-reportagem sobre o complô estadunidense contra o seu papado, durante a viagem de avião que os levou a Moçambique. O título da obra é “Como a América atua para substituir o Papa” (o título original é “Comment l’Amérique veut changer de Pape”).

Os detalhes desse complô e os nomes dos protagonistas e dos grupos envolvidos estão claramente expostos nas páginas do livro, que descrevem, desde o seu início, a mecânica da hostilidade contra o papado atual. O operativo tem até o nome de “Relatório Chapéu Vermelho” (“The Red Hat Report”). Um círculo preciso que move dinheiro e influência e é organizado pelos setores ultraconservadores e de mega milionários dos Estados Unidos. As peças deste jogo de calúnias e poder se encaixam em um complexo quebra-cabeças, que os adversários do pontífice vêm armando nos últimos anos. O golpe começou a ser fomentado em Washington, no ano de 2018. O grupo de ultraconservadores se reuniu na capital norte-americana para fixar duas metas: atingir a figura de Francisco da forma mais destrutiva possível e adiantar sua sucessão, para escolher, entre os atuais cardeais, o mais adequado aos interesses conservadores.

O “Relatório Chapéu Vermelho” foi organizado por um grupo de ex-policiais, ex-membros do FBI (Departamento Federal de Investigações dos Estados Unidos), advogados, operadores políticos, jornalistas e acadêmicos que trabalharam no estudo da vida e das ideias de cada um dos cardeais, com o fim de destruir as carreiras dos que não interessam, ou beneficiar as daqueles que pretendem impor como substituto de Francisco, quando chegue o momento oportuno. E enquanto esse momento não chega, o grupo busca preparar o terreno para o que Senèze chama de “um golpe de Estado contra o Papa Francisco”.

Em uma manhã de 2017, Roma amanheceu coberta com cartazes contra o Papa. Foi o primeiro ato da ofensiva: o segundo, e certamente o mais espetacular, aconteceu em agosto de 2018, quando, pela primeira vez na história do Vaticano, um cardeal tornou pública uma carta exigindo a renúncia de Francisco. O autor foi o monsenhor Carlo Maria Vigamo, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos. O correspondente do La Croix no Vaticano detalha a odisseia maligna deste grupo de poder em sua missão por tirar do caminho um Papa cujas posições contra o neoliberalismo, contra a pena de morte, a favor dos imigrantes e sua inédita defesa do meio ambiente através da encíclica Laudato Sí promove uma corrente contrária à desses empresários. Os conspiradores não têm nada de santos: são adeptos da teologia da prosperidade, possuem empresas ligadas mercado financeiro e de seguros, e estão envolvidos até com a exploração da Amazônia. Francisco é uma pedra em seus sapatos, uma cruz sobre suas ambições.

Segundo Senèze, organizações de caridade como “Os Cavaleiros de Colombo” (que possuem cerca de 100 bilhões de dólares, graças às companhias de seguros que administram), o banqueiro Frank Hanna, a rede de meios de comunicação Eternal World Television Network (EWTN), cujo promotor (o advogado Timothy Busch) também é criador do Instituto Napa, que tem a missão de difundir “uma visão conservadora e favorável à liberdade econômica”, estão entre os membros mais ativos do complô. Mas também há outros, como George Weigel e seu famoso think tank, o Centro de Ética e Política Pública. No diálogo com o jornal argentino Página/12, Senèze fala sobre a trama que, apesar do poder de suas, ainda não foi capaz de derrubar o Papa.

Pergunta: Parece uma história de novela, mas é uma história real. O Papa Francisco foi e é objeto de uma das campanhas mais densas já vistas contra um sumo pontífice.

Nicolas Senèze: O Papa Francisco não serve aos interesses desse grupo de empresários ultraconservadores, e por isso decidiram atacá-lo. Atuam como se fosse o conselho de administração de uma empresa, quando se despede o diretor porque ele não alcançou os objetivos desejados. Essa gente conta com enormes recursos financeiros, e mesmo assim, durante o mandato de Francisco, não conseguiram influenciar sua linha de pensamento. Por isso, começaram a se aproximar de pessoas de dentro da Igreja que também estão contra Francisco. Algumas delas, como o monsenhor Vigamo, chegaram a exigir publicamente sua renúncia. Creio que esse grupo de ultraconservadores superestimaram suas forças. O monsenhor Carlo Maria Vigamo, por exemplo, não calculou a lealdade das pessoas dentro do Vaticano, que não estavam dispostas a trair o Papa, mesmo as que são críticas de Francisco.

Pergunta: A operação que organiza o “Relatório Chapéu Vermelho” tinha dois objetivos, um para agora e outro para o futuro.

Senèze: Efetivamente. Como não puderam derrubar o Papa, tentam agora uma nova estratégia. Francisco tem 84 anos, e podemos pensar que estamos cerca do fim do seu pontificado. O que estão fazendo é preparar o próximo conclave. Para isso, estão investindo muito dinheiro, contratado ex-membros do FBI para preparar dossiê sobre os cardeais que participarão da eleição. O primeiro objetivo é destruir aqueles que têm a intenção de continuar as reformas aplicadas pelo Papa Francisco. Depois, buscar um substituto adequado aos seus interesses. O problema desta meta é que, ao menos até agora, não eles não contam com nenhum candidato verosímil. Não será fácil para eles. Entretanto, podem ir bem no trabalho de arranhar a credibilidade dos candidatos reformistas, e dessa forma, podem levar à eleição de um reformista fraco e manipulável, que ceda a pressão em favor de desmontar as reformas de Francisco. Para isso, contam com muito poder econômico e influência. Creio profundamente que a maioria dos católicos norte-americanos respaldam o Papa Francisco. Mas nos Estados Unidos, a quantidade não basta. O que fala mais alto é o fator dinheiro.

Pergunta: Esses grupos já existiam antes, mas nunca atuaram com tanta força.

Senèze: São empresários com enormes meios à sua disposição. Cada um deles foi criando seu grupo de reflexão dentro da Igreja, sua escola de teologia, sua universidade católica, sua equipe de advogados para defender a liberdade religiosa. É uma nebulosa operação, que funciona mediante uma rede de instituições privadas, e que chegou para dominar o catolicismo norte-americano. São, por exemplo, aqueles que doaram muito dinheiro para ajudar as dioceses estadunidenses que tiveram que pagar enormes indenizações após a revelação dos casos de abuso sexual. Por isso, podem impor uma direção ideológica a essas dioceses. Por exemplo, Tim Busch está presente em todas as etapas dessa montagem. Para proteger poderosos interesses econômicos na Amazônia, esses grupos usam toda a sua força para desviar a atenção e evitar, assim, a promoção de ideias em defesa da ecologia. Trabalham sempre para distrair a atenção dos debates fundamentais. Por exemplo, nos sínodos, buscam impor seus pontos de vista, ou seja, seus interesses.

Pergunta: E como um grupo tão poderoso pode deixar que Francisco fosse eleito Papa?

Senèze: Não perceberam que isso ocorreria, porque a eleição de Francisco foi resultado de uma dinâmica que envolveu outras necessidades: este Papa foi eleito devido à crise no seio da instituição, graças à vontade dos bispos do mundo inteiro de recuperar a após anos de problemas gerados por erros do passado, que levaram, por exemplo, à omissão diante dos casos de abuso sexual. Bergoglio se impôs porque era o mais disposto a reformar essa Igreja. Mas sua ideologia choca com a visão que os católicos ultraconservadores dos Estados Unidos têm sobre qual é o papel da Igreja. Além disso, outro ingrediente próprio do catolicismo estadunidense é o desprezo dos católicos brancos pelos latinos. O setor conhecido pela sigla WASC (“white anglo saxon catholics”, ou “católicos brancos anglo-saxões”) odeia os latinos, os considera pobres fracassados. Os WASC são muito influenciados pela teologia da prosperidade difundida pelos evangélicos.

Pergunta: Donald Trump atua nesse jogo?

Senèze: Não creio que Trump tenha muitas convicções próprias. Ele certamente os escuta, mas quem tem mais proximidade com esse setor é o vice-presidente Mike Pence. As diferenças entre Washington e o Vaticano são muitas: o tema da pena de morte, a postura de Francisco contrária a um liberalismo fora de controle, entre outras. O Papa, é hoje um dos principais opositores aos fundamentos do poder econômico dos Estados Unidos.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli veja também em Carta Maior de 17/9/2019

 

 

 

Después del ascenso de la extrema derecha, ¿qué vendrá?

Hagamos algunas constataciones: se ha consolidado la aldea global; ocupamos prácticamente todo el espacio terrestre y explotamos el capital natural hasta los confines de la materia y de la vida con la automatización, robotización e inteligencia artificial. Verificamos un ascenso atemorizador de la extrema derecha, bien expresada por el ultraneoliberalismo radical y por el fundamentalismo político y religioso. Estamos inmersos en una angustiosa crisis civilizatoria que adquiere cuerpo en las distintas crisis (climática, alimentaria, energética, económico-financiera, ética y espiritual). Inauguramos, según algunos, una nueva era geológica, el antropoceno, en la cual el ser humano aparece como el Satán de la Tierra. En contraposición, está surgiendo otra era geológica, el ecoceno, en la cual la vida y no el crecimiento ilimitado tiene centralidad.

La pregunta que se plantea ahora es: ¿Qué vendrá después del conservadurismo atroz de la derecha? ¿Será más de lo mismo? Eso es muy peligroso, pues podemos ir al encuentro de un Armagedón ecológico-social que ponga en peligro el futuro común de la Tierra y de la Humanidad. Tal tragedia puede ocurrir en cualquier momento si la Inteligencia Artificial Autónoma, por medio de algoritmos locos, desencadena una guerra letal sin que los seres humanos se den cuenta y puedan impedirla.

¿Estamos sin salida, rumbo a un destino sin retorno? Al límite, cuando nos demos cuenta de que podemos desaparecer tendremos que cambiar. Quien sabe, la salida posible será pasar del capital material al capital humano-espiritual. El primero tiene límites y se exaure. El último es infinito e inagotable. No hay límites para aquello cuyos contenidos son: la solidaridad, la cooperación, el amor, la compasión, el cuidado, el espíritu humanitario, valores en si infinitos, pues su realización puede crecer sin cesar. Lo espiritual ha sido escasamente vivenciado por nosotros, pero el miedo a desaparecer y dada la acumulación inmensa de energías positivas, puede irrumpir como la gran alternativa que nos podrá salvar.

La centralidad del capital espiritual reside en la vida en toda su diversidad, en la conectividad de todos con todos, por eso las relaciones son inclusivas, en el amor incondicional, en la compasión, en el cuidado de nuestra Casa Común y en la apertura a la Trascendencia.

No significa que tengamos que excluir la razón instrumental y su expresión en la tecnociencia. Sin ellas no atenderíamos las demandas humanas, pero no tendrían la exclusiva centralidad ni serían ya destructivas. En estas, la razón instrumental-analítica constituía su motor, en el capital espiritual, la razón cordial y sensible. A partir de ella se organizarían la vida social y la producción. En la razón cordial se hospeda el mundo de los valores; de ella se alimentan la vida espiritual, la ética y los grandes sueños y produce las obras del espíritu, mencionadas antes.

Imaginemos el escenario siguiente: si en el tiempo de la desaparición de los dinosaurios, hace cerca de 67 millones de años, hubiese habido un observador hipotético que se preguntase: ¿qué vendrá después de ellos? Probablemente diría: la aparición de especies de dinos aún mayores y más voraces. Se estaría equivocando. Ni siquiera imaginaría que de un pequeño mamífero, nuestro antepasado, que viviría en la copa de los árboles más altos, se alimentaría de flores y de brotes y temblaría de miedo de ser devorado por algún dinosaurio más alto, iba a irrumpir miles de años después, algo absolutamente impensado: un ser de conciencia y de inteligencia – el ser humano – totalmente diferente de los dinosaurios. No fue más de lo mismo. Fue un salto cualitativo nuevo.

De modo semejante creemos que ahora podrá surgir un nuevo estado de conciencia, imbuido del inagotable capital espiritual. Ahora es el mundo de ser más que el de tener, de la cooperación más que de la competición, del bien-vivir-y-convivir más que de vivir bien.

El próximo paso, entonces, sería descubrir lo que está oculto en nosotros: el capital espiritual. Bajo su regencia, podremos comenzar a organizar la sociedad, la producción y lo cotidiano. Entonces la economía estaría al servicio de la vida y la vida penetrada por los valores de la autorrealización, de la amorización y de la alegría de vivir.

Pero esto no ocurre automáticamente. Podemos acoger el capital espiritual o también rechazarlo. Pero, incluso rechazado, se ofrece como una posibilidad siempre presente a ser abrigada. Lo espiritual no se identifica con ninguna religión. Es algo anterior, antropológico, que emerge de las virtualidades de nuestra profundidad arquetípica. Pero la religión puede alimentarlo y fortalecerlo, pues se originó de él.

Estimo que la actual crisis nos abrirá la posibilidad de dar un centro axial al capital espiritual. Dicen por ahí que Buda, Jesús, Francisco de Asís, Gandhi, hermana Dulce y tantos otros maestros, lo habrían anticipado históricamente.

Ellos son los alimentadores de nuestro principio-esperanza de salir de la crisis global que nos asola. Seremos más humanos, integrando nuestras sombras, reconciliados con nosotros mismos, con la MadreTierra y con la Última Realidad.

Entonces seremos más plenamente nosotros mismos, entrelazados por redes de relaciones tiernas y fraternas con todos los seres y entre todos nosotros co-iguales.

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito Saudade de Dios – la fuerza de los pequeños, Vozes 2019.

Traducción de María José Gavito Milano

Depois do ascenso da extrema direita o que virá?

Façamos algumas constatações: consolidou-se a aldeia global; ocupamos praticamente todo o espaço terrestre e exploramos o capital natural até os confins da matéria e da vida com a automação, robotização e inteligência artificial. Verificamos um ascenso atemorizador da extrema direita, bem expressa pelo ultra neoliberalismo radical e pelo fundamentalismo político e religioso. Estamos imersos numa angustiante crise civilizatória que ganha corpo nas várias crises (climática, alimentaria, energética, econômico-financeira, ética e espiritual). Inauguramos, segundo alguns, uma nova era geológica, o antropoceno, na qual o ser humano comparece como o Satã da Terra. Em contraposição, está surgindo uma outra era geológica, o ecoceno na qual a vida e não o crescimento ilimitado possui centralidade.

A pergunta que se coloca agora é: o que virá após o conservadorismo atroz da direita? Será mais do mesmo? Mas isso é muito muito perigoso, pois podemos ir ao encontro de um armargedom ecológico-social pondo em risco o futuro comum da Terra e da Humanidade. Tal tragédia pode ocorrer a qualquer momento se a Inteligência Artificial Autônoma, por algoritmos ensandecidos, deslanchar uma guerra letal, sem que os seres humanos se deem conta e possam previamente impedi-la.

Estamos sem saída, rumando para um destino sem retorno? No limite, quando nos dermos conta de que poderemos desaparecer aí temos que mudar: quem sabe, a saída possível será passar do capital material para o capital humano-espiritual. Aquele tem limites e se exaure. Este último é infinito e inexaurível. Não há limites para aquilo que são seus os conteúdos: a solidariedade, a cooperação, o amor, a compaixão, o cuidado, o espírito humanitário, valores em si infinitos, pois sua realização pode crescer sem cessar. O espiritual foi parcamente vivenciado por nós. Mas o medo de desaparecer e dada a acumulação imensa de energias positivas, ele pode irromper como a grande alternativa que nos poderá salvar.

A centralidade do capital espiritual reside na vida em toda a sua diversidade, na conectitividade de todos com todos e, por isso, as relações são inclusivas, no amor incondicional, na compaixão, no cuidado de nossa Casa Comum e na abertura à Transcendência.

Não significa que tenhamos que dispensar a razão instrumental e sua expressão na tecnociência. Sem elas não atenderíamos as complexas demandas humanas. Mas elas não teriam a exclusiva centralidade nem seriam mais destrutiva. Nestas, a razão instrumental-analítica constituía seu motor, no capital espiritual, a razão cordial e sensível. A partir dela organizar-se-iam a vida social e a produção. Na razão cordial se hospeda o mundo dos valores; dela se alimentam a vida espiritual a ética e os grandes sonhos e produz as obras do espírito, acima referidas.

Imaginemos o seguinte cenário: se no tempo do desaparecimento dos dinossauros, há cerca de 67 milhões de anos, houvesse um observador hipotético que se perguntasse: o que virá depois deles? Provavelmente diria: o aparecimento de espécies de dinos ainda maiores e mais vorazes. Ele estaria enganado. Sequer imaginaria que de um pequeno mamífero,nosso ancestral, vivendo na copa das árvores mais altas, alimentando-se de flores e de brotos e tremendo de medo de ser devorado por algum dinossauro mais alto, iria irromper, milhões de anos depois, algo absolutamente impensado: um ser de consciência e de inteligência – o ser humano – totalmente diferente dos dinossauros. Não foi mais do mesmo. Foi um salto qualitativo novo.

Semelhantemente cremos que agora poderá surgir um novo estado de consciência, imbuído do inexaurível capital espiritual. Agora é o mundo do ser mais que do ter, da cooperação  mais do que da competição, do bem-viver-e-conviver mais do que do viver bem.

O próximo passo, então, seria descobrir o que está oculto em nós: o capital espiritual. Sob sua regência, poderemos começar a organizar a sociedade, a produção e o cotidiano. Então a economia estaria a serviço da vida e a vida penetrada pelos valores da auto-realização, da amorização e da alegria de viver.

Mas isso não ocorre automaticamente. Podemos acolher o capital espiritual ou também recusá-lo. Mas mesmo recusado, ele se oferece como uma possibilidade sempre presente a ser abrigada. O espiritual não se identifica com nenhuma religião. Ele é algo anterior, antropológico, que emerge das virtualidades de nossa profundidade  arquetípica.Mas a religião pode alimentá-lo e fortalecê-lo, pois se originou dele.

Estimo que a atual crise nos abra a possibilidade de dar um centro axial ao capital espiritual. Dizem por aí que Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi, irmã Dulce e tantos outros mestres, o teriam antecipado historicamente.

Eles são os alimentadores de nosso princípio-esperança, de sairmos da crise global que nos assola. Seremos mais humanos, integrando nossas sombras, reconciliados conosco mesmos, com a Mãe Terra e com a Última Realidade.

Então seremos mais plenamente nós mesmos, entrelaçados por redes de relações ternas e fraternas com todos os seres e entre todos nós, co-iguais.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escreveu: Saudade de Deus – a força dos pequenos, Vozes 2019.

 

Elogio aos afrodescendentes no seu dia 20 de novembro

Há um crescendo na discriminação dos pobres, dos LGBT, dos quilombolas,dos indígenas e especialmente dos negros e negras que compõem mais da metade de nossa população. Neste dia 20 de novembro, dia da consciência negra, é dia da consciência para os brancos a fim de que superem a discriminação de seus irmãos e irmãs, acrescentando-lhe sofrimento sobre sofrimento. É um protesto contra o deputado que quebrou no dia 19/11/19 um quadro de um artista nas paredes do Câmara dos Deputados e contra aquele que quebrou a placa em homenagem à Marielle, assassinada há mais de um ano. É meu gesto de pequena solidariedade a estes irmãos e irmãs que têm o mesmo sangue vermelho que o nosso, o mesmo coração que pulsa, o mesmo desejo de amar e ser amado. Lboff

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A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs negros que esteja ainda pendendo de alguma cruz. Foi nesta compreensão que a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-Feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes que valem hoje aos afrodescendente no Brasil:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei? Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei”?

“Eu te fiz sair do Egito, com maná de alimento. Preparei-te bela terra, tu, a cruz para o teu rei”.

Celebrando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. Há muita discriminação na rua, nas mídias digitais sociais contra os afrodescendentes, atingindo escritores, músicos.políticos/as e até atores e atrizes conhecidos e amados pelo público. Quantos jovens negros são executados pela polícia nos morros de nossas cidades?

A Paixão de Cristo continua na paixão do povo afrodescendente. Falta a segunda abolição, da miséria, da fome, do desemprego e da discriminação.

Ouvem-se ecos de seus lamentos por libertação contra um cativeiro ainda imposto:

“Meu irmão branco,  minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me”!

“Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei os ritmos e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste”.

“Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome, do preconceito  e da opressão”.

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me”!

“Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morressem famintas ou que seus cérebros fossem irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre”.

“Eu fui arrancado violentamente de minha Mãe África. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Muitos morreram na  viagem e foram jogados aos peixes. Fui feito coisa, “peça”, escravo e escrava. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. Ajudei a construir quase tudo o que existe neste país, monumentos, palácios e igrejas coloniais. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Ao lado da Casa Grande do senhor, me condenaste a viver na senzala. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se escravo fosse”.

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

“Eu soube resistir, consegui fugir  do capitão do mato que me caçava como a um animai e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, negras, mestiços e até brancos. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza e a discriminação que humilha,  continuem como realidades cotidianas e efetivas”.

“Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus na pele,  no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões e rebaixando-as a simples ritos afro-brasileiros ou a simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia”.

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me”!

“Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre sou preterido em favor de um branco. Porque sou negro ou negra”.

“E quando se pensaram políticas públicas para reparar a infâmia histórica, permitindo-me o que sempre me negaste: estudar e me formar nas universidades e nas escolas técnicas e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. E isso se agravou nos nossos dias atuais, sombrios, cortando ou diminuindo as políticas sociais que nos beneficiavam. Mas esperamos firmemente que a Justiça vai ainda estar do nosso lado e continuar a nos abrir as portas das universidades e das escolas técnicas. Finalmente, ainda assim  somos a maioria nas universidades.

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!””

“Responde-me, por favor”.

“E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos.

É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afrodescendentes, somar forças com eles e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, mestiça, morena, negra, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo,  pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas. Que não seja tão difícil amar e sentirmo-nos irmãos e irmãs, todos filhos e filhas de Olorum e do Altíssimo.

Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas, mas alegres, respondemos às discriminações com amor, com música  com dança e com alegria de viver.

E um dia, que só Deus saberá quando, poderemos dizer, como no Apocalipse,  todos juntos, brancos e afrodescendentes,  sem vingança e sem rancor e cheios de júbilo: “tudo isso passou”. Pois estaremos todos  no reino dos libertos.

Leonardo Boff, texto dedicado à atriz Taís Araújo, afrodescendente, discriminada publicamente e também para Danielle Ferreira, bahiana, militante dos direitos das mulheres afrodescendentes e liderança jovem do PT.