The karmic weight of Brazilian history

The grave magnitude of the Brazilian crisis is such that we lack means of explaining it. Trying to go beyond the classic approaches of critical sociology or history, I have invoked the explanatory capacity of the psychoanalytical categories of “light” and “shadow;” generalized as personal or collective anthropological constants. I tried out a possible understanding that comes to us from the theory of chaos, an important chapter of the new cosmology, because from this chaos, in a situation of the highest complexity and relationship interaction, life as we know it arose, including our life. This has proven to be capable of identifying that Powerful and Loving Energy that sustains everything, the Generating Principle of all Beings, and of opening to Him with veneration and respect.

I ask myself what other category in the repository of human wisdom could shed light on the darkness in which we all are now submerged. Then I remembered a telling dialogue between the great British historian Arnold Toynbee and eminent Japanese philosopher Daisaku Ikeda, that took place over several days in London. (cf. Choose life, Elige la vida, Emece. Buenos Aires 2005) Toynbee and Ikeda both believe that karma is real, be it personal or collective. Putting aside the different interpretations that have been given to karma, it seemed to me that this is a category of the highest antiquity, used by Buddhism, Hinduism, Jainism and Spiritualism to explain personal and collective phenomena.

Originally, Karma was a Sanskrit term meaning strength and movement, centered in the word “action” that provokes a corresponding“reaction”. This collective aspect seemed important, because I do not know (I could be wrong) of any conceptual category in the West that explains the historic evolution of entire communities and their institutions in their positive and negative dimensions. Perhaps, given the strong individualism that is typical of the West, the conditions needed to give rise to a sufficiently embracing concept have not yet been present.

Each person is marked by the actions taken in life. This affects not only people, but the whole environment. It is about a sort of ethical current account whose balance is in constant flux, according to the good or bad actions realized; the “debits” and “credits”. Even after death, the person, in Buddhist belief, carries this account into all future rebirths, until the negative ledger diminishes to zero.

Toynbee gives it another twist that is illuminating and seems helpful in understanding our history. History is comprised of inter-related networks, into which each person is inserted, linked to those that preceded the person and those in the present. There is a karmic functioning in the history of a people and its institutions, according to the levels of goodness and justice, or evil and injustice they produced over time. This is a kind of a heritage that remains, impregnating everything. The hypothesis of the many rebirths is not necessary, because the network of connections guarantees the continuity of a people’s destiny (p.384). The karmic realities impregnate institutions, landscapes, shape the people and mark the singular style of a people. This karmic force operates throughout history, marking the facts, be they beneficial or malignant. C.G.Jung somehow noted that in his archetypical psychology.

Let’s apply this karmic law to our situation. It is not hard to recognize that we carry a very heavy karma, derived in great part from the genocide of the Native nations, the super exploitation of the slave work force, the injustices perpetrated against large parts of the Black and Mestizo populations, relegated to the peripheries with families destroyed and corroded by hunger and disease. The Way of the Cross of suffering of those sisters and brothers of ours has more stations than the Way of the Cross of the Son of Man, when He lived and suffered among us. There is no need to mention the other evils.

Both Toynbee and Ikeda agree: “modern society (us included) can only be cured of its karmic charge through a spiritual revolution in the mind and heart” (p.159), along the line of compensatory justice and healing politics with just institutions. Without this minimal justice the karmic charge will not be dissolved. But that alone is not enough. There must be love, solidarity, compassion and a profound humanity for the victims. Love will be the most effective motor because, deep down, “love is the last reality” (p.387). A society that is not capable of effectively loving and of being less perverse will never overcome a history so marked by its karma. This is the challenge of our present crisis.

This is what the masters of humanity teach, such as Jesus of Nazareth, Saint Francis of Assisi, the Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Jr, the Dalai Lama and Pope Francis. Only good karma redeems the reality of the force of evil karma..

If Brazil does not make this karmic reversion, Brazil will keep struggling from crisis to crisis, destroying her own future.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

O eclipse da ética na atualidade

          Entre os dias10-13 de julho de 2018 realizou-se em Belo Horizonte um congresso internacional organizado pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) em torno dos temas: Religião, Ética e Política. As exposições foram de grande atualidade e de qualidade superior. Refiro-me apenas à discussão acerca do Eclipse da Ética que me coube introduzir.

A meu ver dois fatores atingiram o coração da ética: o processo de globalização e a mercantilização da sociedade.

A globalização mostrou os vários tipos de ética, consoante as diferenças culturais. Relativizou-se a ética ocidental, uma entre tantas. As grandes culturas do Oriente e as dos povos originários revelaram que podemos ser éticos de forma muito diferente.

Por exemplo, a cultura maia coloca tudo centrado no coração, ja que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes corações, do Céu e da Terra. O ideal ético é criar em todas as pessoas corações sensíveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a ética do “bien vivir y convivir” dos andinos, assentada no equilíbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.

Tal pluralidade de caminhos éticos teve como consequência, uma relativização generalizada. Sabemos que não é possível viver sem a lei e a ordem, valores da prática ética fundamental; são os pré-requisitos para qualquer civilização em qualquer parte do mundo. O que observamos é que a humanidade está cedendo diante da barbárie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal é o descalabro ético que estamos vendo.

Pouco antes de morrer em 2017 advertia o pensador Sigmund Bauman:”ou a humanidade se dá as mãos para juntos nos salvarmos ou então engrossaremos o cortejo daqueles que caminham rumo ao abismo”. Qual é a ética que nos poderá orientar como humanidade vivendo na Casa Comum?

O segundo grande empecilho é a sociedade de mercado cuja  ética é aquilo que Karl Polaniy chamava já em 1944 de “A Grande Transformação”. É o fenômeno da passagem de uma economia de mercado para uma sociedade puramente de mercado. Tudo se transforma em mercadoria, coisa já prevista por Karl Marx em seu texto A miséria da Filosofia de 1848, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consciência seriam levadas ao mercado; seria “tempo da grande corrupção e da venalidade universal”. Pois vivemos este tempo. A economia especialmente a especulativa dita os rumos da política e da sociedade como um todo. A competição é sua marca registrada e a solidariedade praticamente desapareceu.

O que é o ideal ético deste tipo de sociedade? É a capacidade de acumulação ilimitada e de consumo sem peias, gerando uma grande divisão entre um pequeníssimo grupo que controla grande parte da economia e as maiorias excluídas e mergulhadas na fome e na miséria.   Aqui se revelam traços de barbárie e crueldade como poucas vezes na história.

Precisamos refundar uma ética que se enraíze naquilo que é específico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.

Estimo que que em primeiríssimo lugar é a ética do cuidado que segundo a fabula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em Ser e Tempo constitui o substrato ontológico do ser humano, aquele conjunto de fatores sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos. Pelo fato de o cuidado ser da essência do humano, todos podem vive-lo e dar-lhe formas concretas, consoantes suas culturas.. O cuidado pressupõe uma relação amigável e amorosa para com a realidade, da mão estendida para a solidariedade e não do punho cerrado para a dominação. No centro do cuidado está a vida. A civilização deverá ser bio-centrada.

Outro dado de nossa essência humana é solidariedade e a ética que daí se deriva. Sabemos hoje pelo bio-antropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antropoides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um mínimo de solidariedade, começando pela família. O que foi fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.

Outro caminho ético, ligado à nossa estrita humanidade é a ética da responsabilidade universal, Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou então percorreremos um caminho sem retorno. Somos responsáveis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.

O filosofo Hans Jonas que,por primeiro, elaborou “O Princípio Responsabilidade”, agregou a ele a importância do medo coletivo. Quando este surge e os humanos começam a dar-se conta de que podem conhecer um fim trágico e até de desaparecer como espécie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma ética de sobrevivência. O pressuposto inconsciente é que o valor da vida está acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econômico.

Por fim importa resgatar a ética da justiça para todos. A justiça é o direito mínimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa. Especialmente as instituições devem ser Justas e equitativas para evitar os privilégios e as exclusões sociais que tantas vítimas produzem, particularmente nosso país, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo. Daí se explica o ódio e as discriminações que dilaceram a sociedade, vindos não do povo mas daquelas elites endinheiradas que sempre viveram do privilégio. Atualmente vivemos sob um regime de exceção, no qual tanto a Constituição e as leis são pisoteadas ou mediante o Lawfare (a interpretação distorcida da lei que o juiz pratica para prejudicar o acusado)

A justiça não vale apenas entre os humanos mas também para com a natureza e a Terra que são portadores de direitos e por isso devem ser incluídos em nosso conceito de democracia sócio-ecológica.

Estes são alguns parâmetros mínimos para uma ética, válida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Devemos incorporar uma ética da sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China “uma sociedade moderadamente abastecida”.Isto significa um ideal mínimo e alcançável. Caso contrario poderemos conhecer um armagedon social e ecológico.

Leonardo Boff escreveu: “Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018.

 

O peruano Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação, faz 90 anos

Publicamos aqui esta homenagem, feita de muitas memórias de Frei Betto sobre Gustavo Gutiérrez, o pai da Teologia da Libertação. O texto é belíssimo e comovedor, justa homenagem a quem tanto se dedicou aos pobres, pondo-os no centro da reflexão teológica, como os principais representantes do Cristo crucificado. Eles estão crucificados e sua teologia é um esforço de junto com eles, baixá-los da cruz e torná-los plenamente humanos. O próprio Papa Francisco lhe escreveu uma carta pessoal que publicamos nesse blog, reconhecendo seus méritos e a riqueza que trouxe à Igreja e à humanidade, sempre à luz da fé libertadora. Unimo-nos às palavras de Frei Betto:Lboff

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Gustavo Gutiérrez completou 90 anos no último dia 8 de junho. Nos cinco continentes proliferam livros, teses, artigos e críticas sobre a obra dele, bem como de outros teólogos como Leonardo Boff, Hugo Assmann, João Batista Libânio, Juan Luis Segundo, José Míguez Bonino, Elsa Támez e inúmeros outros, identificados com os princípios e a metodologia da teologia da libertação.

A teologia da libertação ocupa uma posição de prima-dona na teologia atual. Graças às “Instruções” (1984) do Cardeal Ratzinger, tornou-se assunto de interesse até para, nada menos, que a Academia de Ciências da União Soviética, como verifiquei ao visitar o país integrando um grupo de teólogos brasileiros, em junho de 1987.

As duas “Instruções” emitidas pela Congregação para a Doutrina da Fé, e os procedimentos contra o livro Igreja, Carisma e Poder e seu autor, Leonardo Boff, levaram o debate teológico para dentro dos muros sagrados das instituições eclesiásticas, e deram a ele amplo espaço na mídia, nas universidades e nos movimentos políticos.

As obras dos teólogos provocam mais interesse que as personalidades de seus autores. Este viés epistemológico tem suas vantagens: desde que o trabalho seja rigoroso, segundo os critérios de seu campo específico, não há necessidade de perturbar o autor, seguro em sua privacidade conquistada. Entretanto, o divórcio entre autor e obra não tem sido sempre um mero capricho da razão moderna. Algumas vezes tem servido como instrumento ideológico – no sentido primitivo em que Marx usou a expressão “ideologia” – precisamente para encobrir a contradição entre autor e obra. Basta recordar o recente impacto das revelações de que Heidegger colaborou com o regime nazista.

No caso de autores mortos, as biografias são sempre de grande interesse para aqueles que buscam um melhor entendimento do texto, dentro do contexto. Quem hoje lê Althusser com a mesma atenção que suas obras provocaram antes de 15 de novembro de 1980, quando o filósofo marxista estrangulou sua esposa? Em contraste, a morte do teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, num campo de concentração nazista, deu às suas obras um novo caráter, assim como o assassinato do arcebispo Oscar Romero garantiu ampla distribuição de seus sermões.

Embora o alvo principal sejam sempre as obras que produzem, a pessoa dos teólogos da libertação tem sempre suscitado uma polêmica considerável. De qualquer modo, estamos acostumados a viver em situações de conflito – seja a ocupação de terras que levou os irmãos Leonardo e Clodovis Boff à prisão, em Petrópolis, em 4 de março de 1988, sejam as censuras e os castigos impostos pelos que governam nossas Igrejas.

Certo desconforto é criado em alguns setores teológicos do Primeiro Mundo exatamente por esse critério, que confere à teologia da libertação um novo caráter: nela, o discurso teológico não pode ser separado do compromisso pastoral. O teólogo da libertação não é um intelectual de poltrona, confinado em bibliotecas e salas de leitura, dedicado a um rigor acadêmico, protegido de conflitos atuais.

E não se escreve teologia da libertação sem se inserir profundamente, porque o ponto de partida do teólogo da libertação não é sua mente supostamente iluminada, mas a prática pastoral de comunidades cristãs pobres, comprometidas com a causa da libertação popular.

Por essa razão, a teologia da libertação não existe sem vínculo com sua fonte, a prática libertadora de comunidades cristãs oprimidas do Terceiro Mundo. Gramsci nos ajuda a compreender esse novo status da teologia com seu conceito de “intelectual orgânico”, que define a relação do teólogo com o movimento popular. Isso explica por que a teologia da libertação é representativa de grupos populares, através do apoio que recebe de uma imensa rede de Comunidades Eclesiais de Base e um número incontável de mártires e confessores, cuja vida eclesial e profecia são fontes para o pensamento e a produção dos teólogos.

Uma teologia “ilegítima”

Na América Latina, o fato de ser “filho ilegítimo” não afeta necessariamente a imagem social de alguém. Somos todos filhos e filhas de relacionamentos entre espanhóis e ameríndios, portugueses e caboclos, brancos e negros, mestiços e mulatos. Nosso racismo é só para efeito social: ele se dilui no calor dos trópicos, em que sexualidade é poder e festa, barganha e submissão, fantasia e transgressão. Nesta parte do mundo, a família é um conceito tão recente quanto a sua constituição. Para parafrasear Santo Tomás de Aquino, aqui a vida extrapola o pensamento. Nem mesmo a teologia escapa da árvore genealógica de raízes incertas e galhos torcidos. Interrogar a teologia da libertação sobre seus ancestrais legítimos é como perguntar a um indígena mexicano ou a um plantador de café colombiano sobre a verdade histórica por detrás de sua tradição familiar.

Gustavo Gutiérrez pode, com razão, ser considerado o pai da teologia da libertação, pois foi o primeiro a publicar um livro com esse título, em 1971, pela espanhola Ediciones Sígueme. Mas ele mesmo não nega a importância, para seu trabalho, da visita que fez ao Brasil em 1969, quando teve contato com nossas Comunidades Eclesiais de Base e experimentou, de perto, o drama do assassinato – ainda hoje impune – do assessor da juventude de dom Helder Camara, o padre Henrique Pereira Neto, estrangulado e baleado pela ditadura militar brasileira em Recife, em 26 de maio de 1969. Gutiérrez dedicou sua “Teologia da libertação” a ele e ao romancista peruano José María Arguedas. Apesar disso, não é possível negar as raízes europeias provenientes do humanismo integral de Jacques Maritain, do personalismo engajado de Mounier, do evolucionismo progressivo de Teilhard de Chardin, da dogmática social de De Lubac, da teologia do laicado de Congar, da teologia do desenvolvimento de Lebret, da teologia da revolução de Comblin, ou da teologia política de Metz.

O Concílio Vaticano II incentivou as condições para que fosse cortado o cordão umbilical que mantinha a teologia da América Latina dependente do útero da mãe Europa. Ao se iniciar a década de 1960, a revolução cubana, o fracasso da Aliança para o Progresso, a crise do modelo desenvolvimentista e o crescimento de movimentos de esquerda não ligados aos partidos comunistas tradicionais, foram alguns dos fatores que levaram os teólogos latino-americanos a enraizar o pensamento no solo que pisavam. Não que fosse uma questão de procurar por categorias que permitissem uma reinterpretação de fatos sociais e políticos. O motor da teoria era a prática das comunidades populares cristãs, enraizada na luta; conforme transformavam o mundo, também alteravam o modelo da Igreja. Mudança social e eclesiogênesis estão, em última instância, ligadas.

A construção de um projeto político alternativo não deixa a Igreja intocada, como se fosse uma comunidade de anjos pairando acima das contradições que atravessam a trama da sociedade. O elemento novo era a consciência, alcançada na vida em comum das Comunidades Eclesiais de Base, de que a Igreja não é apenas o papa ou os bispos, mas o povo de Deus em marcha na história. E a presença deste povo crente e oprimido nos movimentos sociais da América Latina marcou a fé com um caráter crítico que fez nascer a teologia da libertação.

Um teólogo indígena

Na sétima conferência internacional da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), em Oaxtepec, México, em dezembro de 1986, o teólogo negro norte-americano James Cone se queixou que a teologia da libertação latino-americana era demasiado branca. O estranho é que a seu lado estava Gustavo Gutiérrez, de aparência tipicamente indígena: pele marrom, rosto redondo, baixo e atarracado, com olhos ligeiramente amendoados, revelando sua ascendência quéchua. Em casa, seu pai falava esse idioma do antigo império inca. Porém, mais que a língua e a aparência, Gutiérrez herdou o estilo dos ameríndios andinos. E é isso que surpreende qualquer pessoa que o conheça: ele combina – não sem alguns conflitos – a mente dotada de inteligência rápida e racional, magisterial, que se expressa em uma linguagem construída como as partes de um instrumento de precisão, e uma sensibilidade que desarma todos os modelos da moderna racionalidade.

Nele coexistem o intelectual treinado em Louvain – onde foi colega de Camilo Torres e defendeu uma tese baseada em Freud – e o ameríndio do altiplano peruano. É isto que lhe permite entrar numa sala de aula sem ser notado – como que deslizando sobre seus próprios pés – ou visitar seu amigo Miguel d’Escoto sem que ninguém mais perceba sua presença em Manágua. É como se ele pudesse viajar, não apenas nas estradas acessíveis a viajantes urbanizados, mas também nas trilhas e picadas que só os habitantes da selva conhecem. Esse dom ancestral lhe permite dominar uma nova língua, um novo campo de conhecimento, ou passar através de Nova York, Paris ou Bonn, como um ameríndio se esgueirando entre árvores e folhas, observando sem ser observado, rápido como u m pássaro e discreto como uma lhama.

Esta característica permitiu que ele trabalhasse no rascunho do famoso Documento de Medellín, aprovado pela Conferência Episcopal Latino-americana, em 1968 – um texto que se tornaria fundamental à prática e teoria da Igreja dos pobres na América Latina.

Certa ocasião, Gutiérrez chegou a Roma exatamente quando os bispos peruanos estavam discutindo os trabalhos dele com os mais altos dignitários da Cúria. Quem pode jurar que o texto final, mais favorável a ele que o rascunho original, não tenha sido redigido pela própria pena de Gutiérrez?

Discreto como um capuchinho, ele se movimenta no domínio político dos conflitos teológicos com toda a sutileza de um jesuíta. Embora sua expressão às vezes revele aquela angústia metafísica característica das pessoas para quem a linha estreita que separa a morte da vida é familiar, nunca entra em pânico, e sua aguda intuição é capaz de apresentar soluções imediatas a problemas complicados, como se tivesse meditado durante anos sobre uma questão que acabou de surgir. Consegue ficar sentado durante horas num banco de aeroporto, escrevendo um artigo ou escutando alguém, mordendo nervosamente o tempo todo um palito com seus dentes fortes, ligeiramente separados. Suas respostas são quase sempre ironicamente divertidas, como se estivesse armando uma adivinhação.

Ao ministrar aulas e conferências, segue um padrão rígido tão cuidadosamente montado que dá a impressão de ter ornamentado seu texto. Suas piadas conferem às palavras um sabor todo seu, porque é sempre capaz de manifestar aquela rara virtude que tanto o encanta: o humor. Seu senso de humor lhe permite manter certa distância crítica de qualquer fato. É dele a observação de que os políticos normalmente pensam apenas numa única intenção, quer dizer, na segunda.Não se permite ser traído pela emoção, porque sabe que nada de humano merece ser levado demasiado a sério.

Convivi com Gustavo Gutiérrez em Puebla, em janeiro e fevereiro de 1979, durante a Terceira Conferência Episcopal Latino-americana. Naquela ocasião, o nome dele, do mesmo modo que o de outros teólogos da libertação, havia sido excluído da lista de assessores oficiais. Não tinha acesso direto ao local de encontro dos bispos, mas muitos prelados vinham até ele em busca de ajuda, o que o obrigava a passar noites inteiras elaborando rascunhos e propostas.

Estávamos todos alojados precariamente em dois apartamentos sem mobília, que raramente tinham água e em cujos banheiros faltava luz. Sobrevivíamos com algum maná caído do céu, porque não tínhamos cozinha, e nos restaurantes da cidade seríamos presas fáceis da imprensa internacional, sempre em busca de um teólogo para decifrar a linguagem eclesiástica dos textos, ou para dar uma entrevista exclusiva que confirmasse a natureza rebelde ou herética da teologia da libertação…

Depois de driblar todos os correspondentes estrangeiros durante dias, na tarde do domingo, 4 de fevereiro de 1979, Gutiérrez aceitou a sugestão do Centro Mexicano de Comunicación Social (Cencos) de realizar uma coletiva de imprensa no hotel El Portal. Em seus comentários, ele enfatizou que a teologia da libertação não tinha planejado começar por uma reflexão sobre os pobres. Os próprios pobres, agentes da transformação histórica, iniciaram essa reflexão teológica. O objetivo da teologia da libertação é dar aos pobres o direito de pensar e se expressar teologicamente. Quanto mais os jornalistas o pressionavam para deixar escapar algo que pudesse soar como heresia, tanto mais Gutiérrez se mostrava fiel aos pobres e à Igreja. Ele é mestre em reconciliar (conciliando) polos aparentemente opostos, apresentando sínteses que nos incentivam a reinterpretar a tradição e o mundo à nossa volta.

Encontrei-me com ele em diferentes ocasiões em seu escritório – a “torre” de Rimac, bairro pobre de Lima. Decididamente era um dos escritórios mais desordenados que jamais vi. Espalhados e misturados no chão havia latas de Coca-Cola e livros do cardeal Ratzinger. Também garrafas em cima de documentos papais, fios elétricos desgarrados perambulavam entre papéis empoeirados. Não havia o menor indício de que um espanador tivesse estado lá desde a chegada de Francisco Pizarro ao Peru.

Apesar disso, aquela confusão tinha lógica para ele. Sabia exatamente onde encontrar cada coisa. E em meio àquele monte de papéis ele devorava os livros que recebia. Quando sentia fome, comia alguma refeição comum indefinida, junto com desempregados e subempregados.

Gutiérrez sempre preferiu ler a escrever. Tem seu próprio método de leitura dinâmica, como se uma antena lhe indicasse a qualidade do conteúdo de uma obra. Escrever, para ele, é um ato doloroso. E quando escreve, admitir que alcançou a versão final é um sacrifício. Sempre considera um texto provisório, a ser revisto e melhorado. Por isso, quase todas as suas obras começaram como palestras mimeografadas. É muito provável que seja o autor de mais obras não publicadas, conhecidas só por um pequeno círculo de leitores, do que publicadas. Em geral, sequer assina os textos mimeografados, que incluem uma excelente introdução às ideias de Marx e Engels e de seu relacionamento com o cristianismo.

Em janeiro de 1985, na véspera da visita do Papa João Paulo II a Lima, eu o encontrei na “torre” de Rimac, escrevendo uma série de artigos ligados a esse importante evento eclesial. Enquanto conversávamos, Gutiérrez tentava desembaraçar um longo fio de telefone, que mais parecia uma bola de lã na boca de um gato brincalhão. Ele sempre mantém as mãos ocupadas quando está nervoso, seja torcendo um elástico ou brincando com uma caneta esferográfica. E naquele momento tinha razões mais que suficientes para estar tenso, pois o cardeal Ratzinger anunciara, para setembro, uma resposta à defesa que Leonardo Boff havia feito de seu livro Igreja, Carisma e Poder, contra as críticas de Roma. O Natal tinha passado e a Cúria ainda permanecia em silêncio. A segunda “Instrução” sobre a teologia da libertação, baseada numa consulta aos bispos da América Latina, prometida para novembro ou dezembro, também não tinha aparecido.

Talvez tivesse sido decidido que o papa deveria fazer uma declaração mais oficial sobre a teologia da libertação no local. Nada poderia ser mais oportuno que um pronunciamento durante uma visita à terra natal do pai da teologia da libertação. Gutiérrez temia que o papa dissesse algo que pudesse ser interpretado como uma condenação à sua teologia. Seria desastroso. Apesar disso, estava pronto a deixar a “torre” que o protegia do assédio da imprensa e aparecer no encontro do papa com sacerdotes e leigos na praça. Mais uma vez parecia certo de que, devido às suas raízes indígenas, como pessoa capaz de caminhar à noite na floresta sem despertar a natureza de seu sono, sua presença seria discreta como a garoa que cobre os telhados de Lima antes do amanhecer.

Admiradores e inspiradores

A caminho de Cuba, os irmãos Leonardo e Clodovis Boff e eu passamos por Lima, no fim da tarde de 4 de setembro de 1985. Encontramos Gutiérrez na paróquia operária onde, junto com o padre Jorge, diretor da Pastoral Operária de Lima, o teólogo exercia seu ministério sacerdotal. Insistimos que fosse conosco para Havana, porque Fidel Castro tinha demonstrado grande desejo de encontrá-lo. Gutiérrez foi evasivo, objetando que, naquele mesmo momento, um grupo de bispos peruanos, liderados por dom Durán Enriquez, estava preparando um livro didático criticando seus escritos, o que significava que teria de se concentrar em produzir uma espécie de defesa antecipada.

Algum tempo depois, Gutiérrez confirmou que não tinha ido a Cuba em atenção a um pedido do padre Carlos Manuel de Céspedes, então secretário geral da Conferência Episcopal Cubana, que fora seu colega em Roma. O sacerdote cubano tinha medo que a presença do teólogo peruano em Cuba fosse explorada politicamente.

Na noite seguinte ao nosso encontro em Lima, os irmãos Leonardo e Clodovis Boff, e eu, nos encontramos com Fidel Castro em Havana. Entregamos a ele a carta que o teólogo lhe mandara. Ao terminar, Fidel comentou que acabara de ler “Teologia da Libertação” e se disse impressionado com sua base científica e seu impacto ético. Mencionou especialmente a honestidade com que Gutiérrez trata a questão da luta de classes e a dimensão da pobreza. E acrescentou, com ênfase: “Precisamos distribuir livros como este ao movimento comunista. Nosso povo não sabe nada sobre isso. Para vocês é mais difícil escrever um livro como este, do que para nós produzir um texto sobre marxismo.” Alguns dias depois, Fidel declarou, na presença de dom Pedro Casaldáliga, do Brasil, de visita a Cuba, que “a teologia da libertação é mais importante que o marxismo para a revolução na América Latina”.

Mas quem pensa que a política fala mais alto no coração de Gustavo Gutiérrez está enganado. Ele é acima de tudo um místico. Seus livros mais conhecidos, O Deus da Vida, Sobre Jó: Falar de Deus,a partir do Sofrimento do Inocente e Beber de nosso próprio poço, são fundamentalmente espirituais, visando a alimentar a vida de fé e oração de cristãos comprometidos com a luta popular.

Para Gutiérrez, a teologia é secundária. O essencial é fazer a vontade de Deus na ação libertadora. E sua aguda visão teológica capta a presença do Senhor, solidário lá onde Ele parece estar mais ausente, no sofrimento dos pobres. Esse sofrimento permeia a vida do próprio Gustavo Gutiérrez, pois sua saúde delicada exige cuidados constantes. Mas ele não se queixa. Prefere gritar pelos pobres. Num grande encontro de teólogos progressistas em Louvain, em 1985 ele tinha uma das palestras principais. Ocorre que se instalou grave doença entre os pobres de seu bairro. Escreveu uma pequena carta explicando porquê não podia comparecer. Terminava dizendo: há momentos em que  teólogo deve entender que vale mil vezes mais ficar dos lado dos pobres sofredores do que proferir uma conferência entre doutos.

Certa ocasião, passei um dia inteiro com ele no Curso de Verão, em Lima, ao qual acorriam milhares de militantes de comunidades cristãs de base em busca de fundamentação teológica. Percebi que ele estava triste, embora tivesse apresentado seu curso com a habitual vivacidade. Havia uma sombra naquele rosto que se ilumina, feliz, quando rodeado de pessoas simples, pobres, dedicadas à utopia do Reino. Conversamos, e nem uma palavra de autopiedade saiu de seus lábios. Só mais tarde fiquei sabendo que sua mãe havia morrido naquele dia.

O livro sobre Jó é uma autobiografia disfarçada de Gustavo Gutiérrez. De suas páginas surge a profunda convicção de que toda a teologia da libertação deriva do esforço de dar sentido ao sofrimento humano. Na busca desse sentido, o teólogo sabe que, como diz Clodovis Boff, tudo é político, mas a política não é tudo. A solidariedade com o pobre não se esgota na causa da justiça; ela nos conduz à esfera da gratuidade, onde o despojamento espiritual abre o caminho para a comunhão com Deus.

Assim como na América Latina a vida de fé não pode ser separada das exigências da política, também o projeto revolucionário deveria encontrar na mística cristã o modelo para a formação de novos homens e mulheres. Consequentemente, a teologia da libertação só pode ser acusada de desprezar a dimensão espiritual por alguém que não conheça a longa lista de obras que nasceram da contemplação e das mãos de Segundo Galilea, João Batista Libanio, Elsa Támez, Carlos Mesters, Arturo Paoli, Raúl Vidales, Pablo Richard ou Leonardo Boff.

Os estigmas divinos queimam as entranhas de Gustavo Gutiérrez. É impossível apreender a profundidade total de sua inspiração intelectual, seu papel profético e sua alma mística sem conhecer aqueles três peruanos que estão na raiz de sua genialidade: José Carlos Mariátegui, César Vallejo e, acima de tudo, José María Arguedas.

Do comunista Mariátegui, autor do clássico Siete Ensayos Peruanos, Gutiérrez aprendeu a técnica de canibalismo cultural necessária para latino-americanizar toda a bagagem teórica de seus anos de estudos em Roma, Bélgica, França e Alemanha. Do poeta César Vallejo, autor de Trilce, poesia tão importante para a literatura moderna quanto Ulisses, herdou o lamento nostálgico da criatura sofredora diante do silêncio do Criador: “Meu Deus, se Você tivesse sido humano hoje, Você seria capaz de ser Deus” (Los dados eternos). “Nasci num dia em que Deus estava doente” (Espergesia).

No entanto, a influência maior foi do novelista José María Arguedas, de quem Gutiérrez era amigo, e a quem rende tributo em muitas de suas palestras e escritos. É interessante que ele tenha escolhido, como epígrafe de sua obra Teologia da Libertação, uma página do livro Todas las Sangres deste autor quéchua, especificamente aquela em que o sacristão indígena de Lahuaymarca diz ao sacerdote: “Seu Deus não é o mesmo. Ele faz com que pessoas sofram sem consolo…”

“Será que Deus poderia estar no coração daqueles que dilaceraram o corpo do inocente Mestre Bellido? Será que Deus poderia estar no corpo dos engenheiros que estão matando La Esmeralda? No coração das autoridades que tiraram de seus donos aquele campo de milho onde, em cada colheita, uma virgem costumava brincar com seu filhinho pequeno?”

Em novembro de 1981, encontrei Gustavo Gutiérrez em Manágua. Lá, entre discussões teológicas com os dirigentes sandinistas, numa tentativa de ajudá-los a entender as diferentes posições dos cristãos quanto à revolução, nasceu aquilo que mais tarde se tornaria seu livro sobre Jó. Nele levanta a questão fundamental e pergunta a si mesmo: Como podemos falar sobre Deus no meio de tanta opressão? Se queremos fazer teologia, falar sobre Deus, disse ele, precisamos primeiro ficar em silêncio diante de Deus. Desse silêncio, que envolve os corações dos pobres, nasce a sabedoria. E precisamos repetir com Jó, em meio a tantas cruzes latino-americanas e profunda sede de amor: “Antes eu te conhecia só por ouvir dizer; mas, agora, meus olhos te viram.” Tudo em Gustavo Gutiérrez, sua obra e sua vida, converge para essa visão.

Hoje, Gutiérrez é meu confrade na Ordem Dominicana.

Frei Betto é assessor de movimentos pastorais e sociais, autor de “Fidel e a Religião” (Companhia das Letras), entre outros livros.

Dramatic times are coming with Trump

Humanity faces several threats: the nuclear threat, shortages of drinking water in vasts regions worldwide, increasing global warming, the dramatic consequences of overuse of the natural goods and services indispensable for life (the Earth Schoot Day).
To these threats is added another, no less dangerous one, already noted by several world analysts, such as Nobel Prize Laureates Paul Krugman and Joseph Stiglizt. Italian-Argentinian economist Roberto Savio, co-founder and general director of Inter Press Service (IPS), now emeritus, recently wrote an article that should give us pause. It is titled: Trump came to stay and to change the world (ALAI-America Latina en Movimiento, June 20, 2018).

In that article, Savio asserts that Trump is not the cause of the new world disorder. Rather, Trump is a symptom: a symptom of a time when the civilizing values that gave cohesion to a people and to international relations, are, simply put, annulled. What counts is the narcissistic will of the all powerful head of state. Trump replaced those values with money and business: pure and simple. Money and business definitely are what count. Everything else is a cover for world domination.

America first must be interpreted as being only America, and her world interests, that count. In furtherance thereof, as he foretold in his electoral campaign, Trump has broken commercial treaties with old European allies, pulled out of the Transpacific Alliance, and started a risky trade war with the biggest rival, China, imposing tariffs on products worth billions of dollars, as well as tariffs on steel and other products from other countries such as Brazil.

It is the nature of authoritarian and narcissistic figures to dispense with legislatures. When it is convenient, they go around them without giving reasons. Trump values the invention of «a truth» more than a factual truth itself. The fake news is a resource always present in his tweets. According to Fact Checker, from the time he assumed the Presidency, Trump has said about 3.000 lies. Truth and lies only have value to him to the degree they support his interests. Curiously, he won his principal battles, and has the approval of 44% of the public, and 82% of the Republican Party.

Trump does not tolerate criticism, and surrounds himself with servile advisers who must say «yes» to him, or risk being summarily fired.

If he is re-elected –what is not improbable–, this style of government, and elimination of all ethics, could be irreversible. Let’s not forget that Hitler and Mussolini were also elected and created their own lies, which they sold to their people as «truths». We may be facing a world marked by xenophobia, the exclusion of thousands and thousands of immigrants and refugees, excessive affirmation of nationalism, and rejection of the values of the others.

Such attitudes, transformed into official policies, can be the source of grave conflicts, whose «growth» can even threaten the human species. Nearly 1300 Northamerican psychoanalysts and psychiatrists have identified serious psychological deviations in the personality of Donald Trump.

What would be the destiny of humanity in the hands of a narcissist such as Trump, whose parallel is found only in Nero, who enjoyed seeing the fire that engulfed Rome; with the difference that now it is not about just any fire, but a fire in our whole Common Home. Since he is unpredictable, and can change his position at any time, we wonder, both frightened and terrorized, what will be his next move.

May God, who announced Himself as «the passionate lover of life» (Sabiduria 11,24) save us from the tragedies that may befall us, given the irrationality of someone who sees «only one world and only one empire» (the Northamerican empire).

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher and Member of the Earthcharter Commission