Somos Terra que pensa, sente, ama e cuida

Leonardo Boff                                      

         Hoje 22/4 celebra-se o dia da Terra. Ela se transformou atualmente no grande e obscuro objeto da preocupação humana. Damo-nos conta de que podemos ser destruidos. Não por alguma meteoro rasante, nem por algum cataclismo natural de proporções fantásticas. Mas por causa da irresponsável atividade humana especialmente pelo modo de produção capitalista dominante. Três máquinas de morte foram construidas e podem destruir a biosfera: o perigo nuclear, a sistemática agressão aos ecosistemas e a mudança climática.  Em razão deste triplo alarme, despertamos de um ancestral torpor. Somos responsáveis pela vida ou pela morte de nosso planeta vivo. Depende de nós o futuro comum, nosso e de nossa querida casa comum: a Terra que amamos entranhadamente.

Como meio de salvação da Terra é invocada a ecologia. Não apenas no seu sentido palmar e técnico como gerenciamento do recursos naturais, mas como uma visão do mundo alternativa, como um novo paradigma de relacionamento respeitoso e sinergético para com a Terra, tida como um super organismo vivo (Gaia) que se autorregula.

         Mais e mais entendemos que a ecologia se transformou no contexto geral de todos os problemas, da educação, do processo industrial, da urbanização, do direito e da reflexão filosófica e religiosa. A partir da ecologia se está elaborando e impondo um novo estado de consciência na humanidade que se caracteriza por mais benevolência, mais compaixão, mais sensibilidade, mais enternecimento, mais solidariedade,mais cooperação, mais responsabilidade para com a Terra e com  sua preservação.

         A Terra pode e deve ser salva. E será salva. Ela já passou por mais de l5 grandes devastações. E sempre sobreviveu e salvaguardou o princípio da vida. E irá superar também os atuais impasses. Entretanto sob uma condição: de mudarmos de rumo, de senhores e donos para irmãos e irmãs entre nós e com todas as criaturas. Essa nova de ótica implica numa nova ética de responsabilidade partilhada, de cuidado e de sinergia para com a Terra.

O ser humano, nas várias culturas e fases históricas, revelou essa intuição segura: pertencemos à Terra; somos filhos e filhas da Terra;  somos Terra, pois, como se diz no Gênesis, viemos do pó da Terra (Gn 2,7). Daí que homem vem de húmus. Viemos da Terra e voltaremos à Terra. A Terra não está à nossa frente como algo distinto de nós mesmos. Temos a Terra dentro de nós. Somos a própria Terra que na sua evolução chegou ao momento de autorrealização e de auto-consciência.

         Inicialmente não há, pois, distância entre nós e a Terra. Formamos uma mesma realidade complexa, diversa e única.

         Foi o  que testemunharam os vários astronautas, os primeiros a contemplar a Terra de fora da Terra. Disseram-no enfaticamente: daqui da Lua ou a bordo de nossas naves espaciais não notamos diferença entre Terra e humanidade, entre negros e brancos, democratas ou socialistas, ricos e pobres. Humanidade e Terra formamos uma única entidade esplêndida, reluzente, frágil e cheia de vigor. Essa percepção é radicalmente verdadeira.

         Dito em termos da moderna cosmologia: somos formados com as mesmas energias, com os mesmos elementos físico-químicos dentro da mesma rede de conexões de tudo com tudo que atuam há 13,7 bilhões de anos, desde que  o universo, dentro de uma incomensurável instabilidade (big bang= inflação e explosão), emergiu na forma que hoje existe. Conhecendo um pouco esta história do universo e da Terra estamos conhecendo a nós mesmos e a nossa ancestralidade.

         Cinco grandes atos, nos ensinam os cosmólogos, estruturam o teatro universal do qual nós somos coautores.

         O primeiro é o cósmico; irromperam as energias e elementos primordiais que subjazem ao universo.Começou o em processo de expansão; e na medida em que se expandia, se autocriava e se diversificava. Nós estávamos lá nas virtualidades contidas nesse processo.

         O segundo é o químico: no seio das grandes estrelas vermelhas (os primeiros corpos que se densificaram e  se formam  há pelo menos 5 bilhões de anos) formaram-se todos os elementos pesados  que hoje constituem cada um dos seres, como o oxigênio, o carbono, o silício, o nitrogênio etc. Com a explosão destas grandes estrelas (viraram super novas) tais elementos se espalharam por todo o espaço; constituiram as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e os satélites da atual fase do universo. Aqueles elementos químicos circulam por todo o nosso corpo, sangue e cérebro.

          O terceiro ato é o biológico: da matéria que se complexifica e se enrola sobre si mesma, num processo chamado de autopoiese (auto-criação e auto-organização), irrompeu, há 3,8 bilhões de anos, a vida em todas as suas formas; atravessou gravíssimas dizimações mas sempre subsistiu e veio até nós em sua incomensurável diversidade..

         O quarto é o humano, subcapítulo da história da vida. O princípio de complexidade e de auto-criação  encontra nos seres humanos imensas possibilidades de expansão. A vida humana surgiu e floresceu na África cerca de 8-10 milhões de anos atrás.A partir dai, difundiu-se por todos os continentes até conquistar os confins mais remotos da Terra. O humano mostrou grande flexibilidade; adaptou-se a todos os ecosistemas, aos mais gélidos dos pólos aos mais tórridos dos trópicos, no solo, no sub-solo, no ar e fora de nosso Planeta, nas naves espaciais e na Lua.

Por fim, o quinto ato, é o planetário: a humanidade que estava dispersa, está voltando à Casa Comum, ao planeta Terra. Descobre-se como humanidade, com a mesma origem e o mesmo destino de todos os demais seres. Sente-se como a mente consciente da Terra, um sujeito coletivo, para além das culturas singulares e dos estados-nações. Através dos meios de comunicação globais, da interdependência de todos com todos, se está inaugurando uma nova fase de sua evolução, a fase planetária. A partir de  agora a história será a história da espécie homo, da humanidade unificada e interconectada com tudo e com todos.

         Só podemos entender o ser humano-Terra se o conectarmos com todo esse processo universal; nele os elementos materiais e as energias sutis conspiraram para que ele lentamente fosse sendo gestado e, finalmente, pudesse nascer. 

Mas que significa concretamente, além de nossa ancestralidade, a nossa dimensão-Terra? 

Significa, primeiramente, que somos parte e parcela da Terra. Somos produto de sua atividade evolucionária. Temos no corpo, no sangue, no coração, na mente e no espírito elementos-Terra. Dessa constatação resulta a consciência de profunda unidade e identificação com a Terra e com sua imensa diversidade. Não podemos cair na ilusão racionalista e objetivista de que nos situamos diante da Terra como diante de um objeto estranho ou como seus senhores e donos. Num primeiro momento vigora  uma relação sem distância, sem vis-a-vis, sem separação. Somos um com ela.  

         Num segundo momento, podemos pensar a Terra, distanciarmo-nos dela para vê-la melhoor e intervir nela. E então, sim, nos distinguimos dela para  podermos estudá-la e poder atuar nela mais acertadamente. Esse distanciamento não rompe nosso cordão umbilical com ela. Portanto, esse segundo momento não invalida o primeiro.       

Ter esquecido nossa união com a Terra foi o equívoco  do racionalismo em todas as suas formas de expressão. Ele gerou a ruptura com a Mãe-Terra. Deu origem ao antropocentrismo, na ilusão de que, pelo fato de pensarmos a Terra e podermos intervir em seus ciclos, podermos  nos colocar sobre ela para dominá-la e para   dispôr dela a nosso bel prazer. Aqui reside a raiz da atual crise ecológica.

Por sentirmo-nos filhos e filhas da Terra, por sermos a própria Terra pensante e amante, vivemo-la como Mãe. Ela é um princípio generativo. Representa o Feminino  que concebe, gesta, e dá a luz. Emerge assim o arquétipo da Terra como Grande Mãe, Pacha Mama, Tonantzin,Nana e Gaia. Da mesma forma que  tudo gera e reproduz a vida, ela também tudo acolhe e tudo  recolhe  em seu seio. Ao morrer, voltamos à Mãe Terra. Regressamos ao seu útero generoso e fecundo. 

         Sentir que somos Terra nos faz ter os pés no chão. Faz-nos perceber tudo da Terra, seu frio e calor, sua força que  ameaça bem  como sua beleza que encanta. Sentir a chuva na pele, a brisa que refresca, o tufão que avassala. Sentir a respiração que nos entra, os odores que nos embriagam ou nos enfastiam. Sentir a Terra é sentir seus nichos ecológicos, captar o espírito de cada lugar(spiritus loci).  Ser Terra é sentir-se habitante de certa porção de terra. Habitando, nos fazemos  de certa maneira limitados a um lugar, a uma geografia, a um tipo de clima, de regime de chuvas e ventos, de uma maneira de morar e de trabalhar e de fazer história. Configura o nosso enraizamento.

Mas também significa nossa base firme, nosso ponto de contemplação do Todo, nossa plataforma para poder alçar vôo para além desta paisagem e deste pedaço de Terra, rumo ao Todo infinito.

         Por fim, sentir-se Terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade  de outros filhos e filhas da Terra. A Terra não produz apenas a nós seres humanos. Produz a miríade de micro-organismos que compõem 90% de toda a rede da vida, os insetos que constituem a biomassa mais importante da biodiversidade. Produz as águas, a capa verde com a infinita diversidade de plantas, flores e frutos. Produz a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida porque em todos estão presentes os vinte aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas que entram na composição de cada vida. Para todos produz as condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no sub-solo e no ar. Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, no mundo dos irmãos e das irmãs, todos filhos e filhas da grande e generosa Mãe Terra, nosso Lar comum.

         São estes sentimentos de pertença que nutrimos neste dia da Mãe Terra.

Leonardo Boff escreveu O princípio Terra.A volta à Terra como mátria e pátria comum, Vozes 1995:Opção Terra. Record,RJ 2009.

Il silenzio di Dio e la morte degli innocenti: Dio, perché taci?

       Leonardo Boff

Viviamo a livello globale in un mondo tragico, pieno di incertezze, di minacce e di domande per le quali non abbiamo risposte che ci soddisfano. Nessuno può dirci dove stiamo andando: verso il prolungamento dell’attuale modo di abitare la Terra, devastandola in nome di un maggiore arricchimento di pochi. O cambieremo di direzione?

Nel primo caso, la Terra sicuramente non riuscirà a reggere la voracità della società dei consumi (già ora abbiamo bisogno di una Terra e mezza per far fronte agli attuali livelli di consumo dei paesi ricchi) e ci troveremo di fronte a una crisi dopo l’altra, come il Corona-virus e il riscaldamento globale già inarrestabile (ogni anno rilasciamo nell’atmosfera 40 miliardi di tonnellate di gas serra). Potremmo non avere alcuna via d’uscita e andremo incontro al peggio.

Oppure, costretti dalla situazione, recupereremo la ragione sensibile e sensata, in quanto è ormai impazzita, definiremo una nuova direzione più amichevole verso la natura e la Terra, più giusto e partecipativo verso tutti gli esseri umani. Lavoreremo a partire dal territorio, disegnato dalla natura, perché questo possa essere sostenibile e creare una vera partecipazione di tutti. Allora inizierà un nuovo tipo di storia con un futuro per il sistema-vita e per il sistema-Terra.

Avremo tempo, coraggio e saggezza per questa conversione ecologica? L’essere umano è flessibile, è cambiato molto e si è adattato a climi diversi. Inoltre la storia non è lineare. All’improvviso appare l’inaspettato e l’impensabile (un salto verso l’alto nella nostra coscienza) che inaugurerebbe una nuova direzione per la storia.

Nell’attesa soffriamo per i mali che si stanno verificando sulla Terra: sono 17 i luoghi di guerra. Papa Francesco ha detto molte volte che siamo già nella terza guerra mondiale a pezzi. Non è impossibile che possa scoppiare un conflitto nucleare planetario e portare alla perdita dell’intera umanità.

In questo contesto, ci mettiamo nei panni di Giobbe e gridiamo a Dio in mezzo a tante morti di innocenti, di genocidi e di guerre altamente letali.

“Dio, dov’eri in quei momenti terrificanti in cui la furia genocida di Netanyahu decimò 13 mila bambini innocenti e più di 34 mila persone e madri nella Striscia di Gaza? Perché non sei intervenuto se potevi farlo? Più di 500 mila case, ospedali, scuole, università, moschee e chiese sono state rase al suolo. Perché non hai fermato quell’abbraccio omicida? Il tuo Figlio prediletto Gesù, ha saziato circa 5mila persone affamate. Perché permetti che centinaia e centinaia di persone muoiano di sete e di fame?

Dov’è la tua pietà? Non sono anche queste vittime tuoi figli e figlie, soprattutto cari, perché rappresentano tuo Figlio crocifisso”.

Ricordo con dolore le parole di Papa Benedetto XVI quando visitò il campo di sterminio ebraico di Auschwitz-Birkenau:

Quante domande sorgono in questo luogo. Dovera Dio in quei giorni? Perché Egli è rimasto in silenzio? Come ha potuto tollerare questo eccesso di distruzione, questo trionfo del male?

Giobbe aveva ragione nel riconoscere che “Dio è così grande, che non lo comprendiamo” (Giobbe 36,26). Egli può essere e fare ciò che non capiamo, perché siamo limitati. Eppure Giobbe professa ostinatamente la sua fede, dicendo a Dio che, se anche lo avesse ucciso, avrebbe creduto ancora in lui (Giobbe 13,15). Indimenticabile è la testimonianza dell’ebreo prima di essere sterminato nel Ghetto di Varsavia nel 1943. Lasciò scritto su un pezzo di carta posto dentro una bottiglia: “Credo nel Dio d’Israele, anche se Egli ha fatto di tutto per non farmi credere in Lui. Ha nascosto il suo voltoSe, un giorno, qualcuno troverà questo foglietto e lo leggerà, capirà, forse, il sentimento di un ebreo che è morto abbandonato da Dio, il Dio in cui continuo a credere fermamente. .

Non pretendiamo di essere giudici di Dio. Ma possiamo amare il Figlio dell’Uomo nell’Orto degli Ulivi e sulla cima della croce. Gesù, quasi disperato, gridò: «Dio mio, Dio mio, perché mi hai abbandonato?” (Mc 15,34).

I nostri lamenti non sono bestemmie, ma un grido doloroso e insistente a Dio: “Sveglia! Non tollerare più la sofferenza, la disperazione e il genocidio di innocenti. Sveglia, vieni a liberare coloro che hai creato nell’amore. Sveglia e vieni, Signore, per salvarli.

In mezzo a questa malinconia, la nostra speranza prevale, perché attraverso la risurrezione del nostro fratello Gesù di Nazaret, si è anticipata la nostra buona fine. Questo è ciò che ci dà un senso e ci impedisce di disperare di fronte alla drammatica situazione dell’umanità e della Terra.

Leonardo Boff ha scritto Paixão de Cristo-paixão do mundo, Vozes 2012.

(tradotto dal portoghese da Gianni Alioti)

Causas da crise sistêmica:erosão da ética e asfixia da espiritualidade

Leonardo Boff

Seguramente vigora um complexo de causas que sub-jazem à atual crise sistêmica.Ela tomou todo o planeta e nos colocou numa encruzilhada: ou seguimos o caminho inaugurado pela modernidade a partir do século 17/18 com o advento do espírito científico que modificou a face da Terra e trouxe-nos incontáveis benefícios para a vida. Mas ao mesmo tempo deu-se a si mesma os meios de sua autodestruição.Vamos mais longe: a forma como decidimos habitar o planeta e organizar nossas sociedades com custos altíssimos para os ecossistemas e para as relações sociais,brutalmente desiguais, nos fizeram tocar nos limites da Terra. A seguir esse caminho,um abismo aterrador se apresenta à nossa frente. A Terra viva pode não nos querer mais sobre sua superfície por sermos demasiadamente violentos e destrutivos. Podemos sucumbir pelo antropoceno,pelo necroceno,pelo virusceno e por fim pelo piroceno, ocasionados por nós mesmo e também pela reação da própria Terra viva,ferida e vitalmente enfraquecida, que desta forma reage.

Ou então,num momento de aguda consciência face ao possível desaparecimento da espécie, o ser humano dê um salto quântico em seu nível de consciência, cai em si, dá-se conta de que pode realmente chegar ao fim de sua aventura planetária e mudar, forçosamente  e definir um novo rumo.

Certamente não se fará sem uma fenomenal crise que pode levar porções significativas da humanidade, começando pelos mais vulneráveis mas não poupando nem os mais apetrechados.Assim ocorreu em tempos pré-históricos do planeta, nos quais até 70% da carga biótica desapareceu definitivamente.

Qual será o rumo? Estimo que nem sábios, nem cientistas nem mestres espirituais saibam apontar a direção. A humanidade, agora unida pelo medo e pelo pavor,mais do que pelo amor ao futuro, perceberá que poderá ter chegado ao fim do caminho andado. Olhará ao redor e descobrirá uma senda a ser percorrida e construída pelo andar de todos. “Caminante,no hay camino, se hace camino al andar”nos ensinou um poeta desesperado espanhol, fugido da perseguição franquista.De dentro de nossa essência humana teremos que tirar as inspirações e sonhos que nos consolidam o novo caminho.Vale a frase de Einstein: a ideia que criou a crise atual não pode ser a mesma que nos vai sair dela. Temos que sonhar, criar,projetar utopias viáveis e abrir caminhos novos. As ciências da vida nos confirmaram que somos seres de amor, de solidariedade, de cuidado, apesar de uma sombra sempre nos acompanhar e que devemos colocá-la sob vigilância.

Mas antes nos interroguemos: por que chegamos a este ponto crítico global? Aqui mais que um saber científico socorre-nos um pensamento filosofante.

Entre outras causas, considero duas fundamentais: a erosão da ética e a asfixia da espiritualidade.

Recuperemos o sentido clássico de Ethos dos gregos pois nos iluminam ainda hoje. Ethos escrito em maísculo significa a casa humana. Vale dizer, separamos uma parte da natureza, a trabalhamos de forma a ser o espaço de viver bem. A outra forma é o ethos em minúsculo que são as formas como organizamos a casa para que nos sintamos bem nela e possamos dar hospitalidade a quem nos visitar: enfeitar a sala, colocar corretamente as mesas, cuidar da cozinha, alimentar o fogo sempre aceso, manter a dispensa abastecida e os quartos decentemente arrumados.São as virtudes éticas que dão concreção ao Ethos. Mas não só, pertence ao Ethos zelar pelo entorno da casa, do jardim,de estátuas de divindades. Só assim o Ethos (viver bem) ganha forma concreta (ethos).

Hoje o Ethos é a Casa Comum, o planeta Terra. Por séculos alimentou a humanidade. Mas com o advento da ciência e da técnica temos explorados de forma ilimitada e irresponsável seus bens e serviços de forma que hoje ultrapassamos sua capacidade suporte (The Earth Overshoot), a assim chamada Sobrecarga da Terra. Ele é finita e não suporta o projeto da modernidade de um crescimento infinito. O Ethos (viver bem na casa) e o ethos, as formas de organizá-la desestruturou tudo o que é importante para viver bem: poluimos as águas, sobrecarregamos os alimentos com agrotóxicos,envenenamos os solos, contaminamos dos ares a ponto de afetar o sistema da vida natural e da vida humana. Assistimos a erosão geral do Ethos, do ethos e da ética. A Casa Comum deixa de ser comum, e é apropriada por elites que detém terras, poder, dinheiro e a condução da política do mundo. Elas se transformaram no Satã da Terra.

Tão grave quanto à erosão do Ethos, do ethos e da ética em geral é a asfixia da espiritualidade humana. Deixemos claro: espiritualidade não é sinônimo de religiosidade, embora a religiosidade pode potenciar a espiritualidade. A espiritualidade nasce de outra fonte: do profundo do ser humano. A espiritualidade é parte essencial do ser humano, como a corporalidade, a psiqué, a inteligência, a vontade e a afetividade.

Neurolinguístas, os novos biólogos e eminentes cosmólogos como Brian Swimm, Bohm e outros reconhecem que a espiritualidade é da essência humana. Somos naturalmente seres espirituais, mesmo não sendo explicitamente religiosos. Essa porção espiritual em nós se revela pela capacidade de solidariedade, de cooperação, de compaixão, de comunhão e de uma total abertura ao outro, à natureza, ao universo,  numa palavra ao Infinito. A espiritualidade faz o ser humano intuir que por detrás de todas as coisas há uma Energia poderosa e amorosa que tudo sustenta e a mantém aberta a novas formas no processo da evolução. Alguns neurólogos identificaram um fenômeno excepcional. Sempre que se abordam existencialmente o Sagrado, a experiência de pertença a um Todo maior verifica-se numa parte do cérebro forte aceleração dos neurônios. Eles, não os teólogos, o chamaram de “ponto Deus no cérebro”. Como temos órgãos exteriores pelos quais captamos a realidade circundante, temos um órgão interior que é nossa vantagem evolutiva, de perceber Aquele Ser que faz ser todos os seres, aquela Energia misteriosa que penetra todos os seres e os vivifica.

Essa dimensão espiritual de nossa natureza foi sufocada por nossa cultura que venera mais o dinheiro que a natureza, o consumo individual que a repartição, que é mais competitiva que cooperativa, prefere o uso da violência do que o diálogo para resolver conflitos e criou a guerra nuclear e biológica como dissuasão, ameaça e eventual utilização, o que significaria o fim do sistema-vida e do sistema-humano. A violência e as guerras implicam a asfixia da espiritualidade, intrínseca à nossa essência.

Atualmente a eclipse da ética e a negação da espiritualidade humana poderão levar-nos a situações dramática, não excluindo tragicamente a extinção da espécie homo  depois de alguns milhões de anos, amados, nutridos pela Magna Mater que não soubemos retribuir-lhe cuidado, reverência e amor.

Nem por isso desesperamos. O universo guarda surpresas e o ser humano é um projeto infinito, capaz de criar soluções para erros que ele mesmo cometeu.

Leonardo Boff, escreveu com Mark Hathaway, O Tao da Libertação: uma ecologia da transformação, em várias linguas, Vozes 2010 que mereceu a medalha de ouro nos USA em ciência e nova cosmologia.

Das Schweigen Gottes und der Tod der Unschuldigen:Gott, warum schweigst du?

                Leonardo Boff    

Weltweit leben wir in einer tragischen Welt voller Unsicherheiten, Bedrohungen und Fragen, auf die wir keine zufriedenstellenden Antworten haben. Niemand kann uns sagen, wohin wir uns bewegen: in Richtung einer Verlängerung der gegenwärtigen Art und Weise, die Erde zu bewohnen und sie im Namen einer größeren Bereicherung für einige wenige zu zerstören? Oder werden wir unseren Kurs ändern?

Im ersten Fall wird die Erde dem Konsumrausch sicher nicht standhalten (wir brauchen bereits anderthalb Erden, um das derzeitige Konsumniveau der reichen Länder zu erreichen), und wir werden eine Krise nach der anderen bewältigen müssen, wie das Coronavirus und die globale Erwärmung, die bereits unaufhaltsam ist (wir setzen jedes Jahr 40 Milliarden Tonnen Treibhausgase in die Atmosphäre frei). Es gibt vielleicht kein Zurück mehr und wir werden das Schlimmste erleben.

Oder wir werden, gezwungen durch die Situation, unseren sensiblen und vernünftigen Verstand zurückgewinnen, weil er jetzt verrückt geworden ist, und wir werden einen neuen Kurs bestimmen, der freundlicher zu Natur und Erde ist, gerechter und partizipativer für alle Menschen. Wir werden vom Territorium aus arbeiten, das von der Natur geschaffen wurde, weil es nachhaltig sein kann und eine echte Beteiligung aller ermöglicht. Dann wird eine neue Art von Geschichte beginnen, mit einer Zukunft für das Lebenssystem und das Erdsystem.

Werden wir die Zeit, den Mut und die Weisheit für diese ökologische Umstellung haben? Der Mensch ist flexibel, hat sich stark verändert und an verschiedene Klimazonen angepasst. Außerdem ist die Geschichte nicht linear. Plötzlich würde das Unerwartete und Undenkbare (ein Sprung nach oben in unserem Bewusstsein) eine neue Richtung der Geschichte einläuten.

Während wir warten, leiden wir unter den Übeln, die auf der Erde geschehen: Es gibt 17 Orte, an denen Krieg herrscht. Papst Franziskus hat mehrfach gesagt, dass wir uns teilweise bereits in einem dritten Weltkrieg befinden. Es ist nicht ausgeschlossen, dass ein totaler Atomkonflikt ausbricht und zum Verlust der gesamten Menschheit führt.

In diesem Zusammenhang versetzen wir uns in die Lage Hiobs und schreien zu Gott inmitten von so vielen unschuldigen Toten, Völkermorden und tödlichen Kriegen.

“Gott, wo warst du in diesen schrecklichen Momenten, als Netanjahus völkermörderische Wut 13.000 unschuldige Kinder und mehr als 80.000 Menschen und Mütter im Gazastreifen tötete? Warum hast du nicht eingegriffen, wenn du es konntest? Mehr als 500.000 Häuser, Krankenhäuser, Schulen, Universitäten, Moscheen und Kirchen wurden dem Erdboden gleichgemacht. Warum hast du diesen mörderischen Arm nicht gestoppt? Dein lieber Sohn Jesus sättigte etwa fünftausend hungrige Menschen. Warum lässt du zu, dass Hunderte und Aberhunderte von Menschen verdursten und verhungern?

Sind diese Opfer nicht auch deine Töchter und Söhne, die dir besonders am Herzen liegen, weil sie deinen gekreuzigten Sohn repräsentieren?”

Ich erinnere mich mit Schmerz an die Worte von Papst Benedikt XVI. bei seinem Besuch des jüdischen Vernichtungslagers Auschwitz-Birkenau:

“Wo war Gott in jenen Tagen? Warum hat er geschwiegen? Wie kann er diesen Exzess der Zerstörung, diesen Triumph des Bösen dulden?“

Hiob erkannte zu Recht, dassGott zu groß ist, als dass wir ihn erkennen könnten” (Hiob 36,26). Er kann das sein und tun, was wir nicht verstehen, denn wir sind begrenzt. Dennoch bekennt sich Hiob hartnäckig zu seinem Glauben und sagt zu Gott. “Auch wenn du mich tötest, glaube ich an dich” (Hiob 15,13). Unvergessen ist das Zeugnis eines Juden, der 1943 im Warschauer Ghetto ermordet wurde. Er schrieb auf einen kleinen Zettel, den er in eine Flasche steckte: “Ich glaube an den Gott Israels, obwohl er alles getan hat, damit ich nicht an ihn glaube. Er hat sein Gesicht verborgen… Wenn eines Tages jemand diesen Zettel findet und liest, wird er vielleicht das Gefühl eines Juden verstehen, der im Stich gelassen von Gott starb, dem Gott, an den ich immer noch fest glaube.“

Wir haben nicht den Anspruch, Gottes Richter zu sein. Aber wir können wie der Menschensohn auf dem Ölberg und auf der Spitze des Kreuzes, Jesus, fast verzweifelt ausrufen: “Mein Gott, mein Gott, warum hast du mich verlassen” (Markus 15,34).

Unsere Klagen sind keine Blasphemie, sondern ein schmerzlicher und eindringlicher Schrei an Gott: “Wach auf! Dulde nicht länger Leid, Verzweiflung und den Völkermord an Unschuldigen. Wach auf, komm und befreie die, die du in Liebe geschaffen hast. Wach auf und komm, Herr, um sie zu retten.”

Inmitten dieser tiefen Traurigkeit überwiegt unsere Hoffnung, denn durch die Auferstehung unseres Bruders Jesus von Nazareth wurde unser gutes Ende vorweggenommen. Das ist es, was uns Sinn gibt und uns nicht verzweifeln lässt angesichts der dramatischen Situation der Menschheit und der Erde.

Leonardo Boff Autor von: Jesus Christus der Befreier, Dabar/Trotta 2022; Unsere Auferstehung im Tod DABAR/Trotta 2012.