O porquê da violência no ser humano e na sociedade

 Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão, no Oriente Médio e entre nós mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica Sobre o Cuidado da Casa Comum escreveu acertadamente:”Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden.

A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Teólogos, filósofos, cientistas e sábios não encontraram até hoje uma resposta convincente.

Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava meus textos e a Teologia da Libertação em geral a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a possibilidade da superação da lógica da violência.

De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo”(Rio 2005). Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja a totalidade dos objetos. Por ser o desejo indeterminado, o ser humano não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard).

Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possui, o que mais ela quer, é o brinquedo da outra criança. E aí surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Se outras crianças entrarem nesse mimetismo, origina-se um conflito de todos contra todos.

Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda a sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz.

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres e por ai vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si. Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.

Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fiezesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande problema. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural  são as classes dominantes que acumulam para si à custa do empobrecimento dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os empobrecidos mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem  elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência que o empobrecimento implica.

Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. Suscita-se um desejo mimético de se apossar do bem do outro.  Esta lógica perpetua a violência.

Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito gera uma sociedade mais cooperativa que competitiva e uma democracia participativa. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação porque propõe uma educação que não imita o oppressor, mas se faz livre e ensina a não criar bodes expiatórios mas a assumir a tarefa de construir uma sociedade mais igualitária e  inclusiva. Então sim haverá mais paz que violência.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de “A violência da sociedade capitalista e do mercado mundial” e articulista do JB on line

Francesco e i suoi nemici-o Papa Francisco e seus inimigos

A revista MicroMega é um dos principais veículos intalianos do novo pensamento filosófico e político que se propõe discutir as questões atuais num claro enfrentamento com o pensamento único. Dei uma entrevita a uma conhecida jornalista Claudia Fanti, especializada em teologia e religião com particular atenção à América Latina e à África. Atua no semanário Adista, conhecido mundialmente por tratar de forma sistemática os temas religiosos, culturais e políticos atinentes às  Igrejas. Reproduzo a entrevista no nº3/2017 pp.93-204. Lboff

 

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A Wojtyła e Ratzinger rimprovera di aver concepito la Chiesa come una fortezza assediata da ogni lato da nemici da combattere, nonché di aver formato tre generazioni di vescovi, preti e cristiani più preoccupati della dottrina e della sontuosità delle liturgie che del destino di milioni di vittime dell’ingiustizia sociale. Ma l’arrivo sul soglio pontificio di papa Francesco – nonostante tutti quelli che remano contro – ha rappresentato una totale inversione di rotta. Perché per il teologo brasiliano, tra i principali esponenti della teologia della liberazione, Francesco è espressione di un altro progetto di Chiesa e di mondo. Una Chiesa che è casa aperta a tutti e che, in nome degli sfruttati, denuncia le cause del loro sfruttamento.

LEONARDO BOFF

in conversazione con

CLAUDIA FANTI

Molta acqua è passata sotto i ponti da quando Leonardo Boff, padre fondatore della teologia della liberazione e massimo esponente dell’eco- teologia, fu costretto a sedersi, nel 1984, nel posto che fu di Galileo, in quel Sant’Uffizio che oggi prende il nome di Congregazione per la dot- trina della fede, laddove, dopo essere state torturate, le vittime subivano

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MicroMega

il pesante interrogatorio degli inquisitori. Processato da una commissio- ne presieduta dall’allora cardinale Ratzinger per le presunte tesi marxiste contenute nel suo libro Chiesa: carisma e potere 1, Boff era stato allora punito con l’obbligo del silenzio ossequioso, finché, nel 1986, a causa delle pressioni internazionali, la sanzione non era stata parzial- mente revocata. Ma non era, purtroppo, finita lì. Nel 1992, nel momento in cui Giovanni Paolo II lo aveva minacciato di ulteriori provvedimenti disciplinari nel caso avesse preso parte al Summit della Terra, Boff ave- va abbandonato l’Ordine dei francescani e rinunciato al sacerdozio, continuando però infaticabilmente a svolgere la sua attività di teologo della liberazione, scrittore e docente. Insignito nel 2001 del premio Right Livelihood Award, meglio noto come Premio Nobel Alternativo, «per le sue intuizioni ispiratrici sul connubio tra spiritualità umana, giustizia sociale e cura dell’ambiente e per il suo decennale impegno per la causa dei poveri e degli esclusi», il teologo brasiliano ha ottenuto di fatto la sua riabilitazione all’interno della Chiesa grazie a papa Francesco, il quale ha richiesto anche il suo aiuto per elaborare l’enciclica Laudato si’, fino a citare, nel documento, il titolo di uno dei suoi libri più noti, Grido della terra, grido dei poveri 2.

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Hai riconosciuto a papa Francesco il merito di aver trasformato in un patrimonio comune della Chiesa quella teologia della liberazione che, tra persecuzioni e martirî, è stata tante volte data per moribonda (da chi, ovviamente, fremeva per seppellirla). Cos’è che distingue il suo pro- getto di Chiesa rispetto a quello dei suoi predecessori?

Papa Francesco è frutto del brodo di coltura ecclesiale del Conci- lio Vaticano II (1962-1965) e principalmente della sua innovativa ricezione in America Latina, il cui inizio risale alla riunione del Consiglio episcopale latinoamericano (Celam) svoltasi nel 1968 a Medellín, in Colombia. È in questa storica assemblea generale dell’episcopato dell’America Latina, infatti, che i vescovi assunse- ro ufficialmente la tematica della liberazione come alternativa allo sviluppo, inteso, quest’ultimo, come «sviluppo del sottosviluppo». È a partire da qui che prende avvio la teologia della liberazione, il cui marchio di fabbrica è rappresentato dall’opzione per i poveri, contro la povertà e a favore di una liberazione che derivi dalla

1 L. Boff, Chiesa: carisma e potere, Edizioni Borla, Roma 1984. Tutte le note sono redazionali.
2 L. Boff, Grido della terra, grido dei poveri. Per una ecologia cosmica, Cittadella Editrice, Assisi 1996.

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giustizia sociale. Se mancasse tale opzione, infatti, non potrebbe mai esistere una teologia della liberazione. Così come non potrebbe mai esserci un’autentica liberazione se non fossero i poveri stessi, intesi come oppressi, ad assumere nella loro prassi il ruolo di protagonisti. Perché non ci sono dubbi che la Chiesa, i preti, i religiosi, le religiose e i teologi non sono nulla di più che alleati passati per una porta secondaria.

I due papi precedenti, Giovanni Paolo II e Benedetto XVI, sotto cui questa teologia ha sofferto ripetuti attacchi, intendevano la Chiesa come una nave ancorata tranquillamente nel porto, al riparo da ogni pericolo. Il fatto, però, è che una nave non viene costruita per- ché se ne resti sicura in porto, ma affinché solchi gli oceani, sfidan- do le onde più alte. Ed è anche quello che pensa Francesco, vesco- vo di Roma e papa, il quale intende appunto la Chiesa come una nave in mezzo all’oceano, esposta alla violenza dei flutti. Di modo che non chiede a Dio: «Signore, liberaci da onde paurose». Bensì: «Dacci il coraggio di essere più forti di queste».

Per usare un’altra metafora, la Chiesa dei due papi precedenti era come una fortezza circondata da alte mura e assediata da ogni lato da nemici da combattere e da cui difendersi. Una Chiesa in guer- ra con la modernità, con le sue nuove modalità di essere nel mon- do. Una Chiesa, insomma, tutta rivolta al suo interno. Per Bergo- glio, invece, la Chiesa deve essere una casa aperta a tutti. Ancora meglio, deve essere un ospedale da campo in grado di accogliere tutti i feriti, nel corpo e nell’anima, poco importa se musulmani, atei o cristiani. Si tratta di una Chiesa rivolta verso il mondo e verso i molti altri, particolarmente i più vulnerabili. La prima, la Chiesa di papa Wojtyła e di papa Ratzinger, è simile alla Chiesa giudaico-cristiana di Pietro, che ancora non si era liberata dai le- gacci del giudaismo. La seconda, quella di Bergoglio, è la Chiesa di Paolo inviato «ad gentes». Il primo modello può difficilmente risultare significativo per gli uomini e le donne contemporanei che non si sentono compresi dalla Chiesa; il secondo, al contrario, è universale ed ecumemico e può essere apprezzato non solo dai cristiani ma anche dai non cristiani.

A più di 45 anni dalla sua nascita, la teologia della liberazione ha an-cora qualcosa da dire? Incompresa, diffamata, perseguitata e condan- nata dai poteri di questo mondo, cosa ha conservato delle intuizioni originarie e in cosa è cambiata?

La Chiesa si è sempre mostrata preoccupata nei riguardi dei pove- ri. Ma lo ha fatto all’interno di una strategia che consideriamo

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sbagliata, in quanto ha operato per i poveri, ma raramente con i poveri e mai a partire dai poveri. Ha guardato ai poveri, insomma, con lo sguardo dei ricchi. Per questo, ciò a cui si è assistito è stato un forte assistenzialismo e un forte paternalismo. Chi ha deve aiutare chi non ha. È una strategia che ha mantenuto i poveri sempre dipendenti. La teologia della liberazione, invece, ha segui- to un’altra visione e un’altra strategia. Il povero non è mai soltan- to povero. Ma ha una sua cultura e, organizzato e unito ad altri poveri, rappresenta una forza storica in grado di modificare le relazioni sociali. La teologia della liberazione parte, insomma, dal valore del povero. Per questo assume la strategia di lavorare con i poveri e a partire dai poveri. Non ci sarà mai, infatti, una libera- zione per i poveri senza i poveri. Devono essere loro i soggetti della propria liberazione. Mai nella storia della Chiesa i poveri hanno avuto tanta centralità. E questo è il merito della teologia della liberazione.

A partire dagli anni Ottanta del secolo scorso, poi, è apparso chia- ro a molti teologi che la stessa logica che sfrutta l’operaio, le clas- si sociali, le minoranze etniche, calpesta anche la natura e tutto il pianeta Terra. Gridano gli alberi, gridano gli animali, gridano le acque, grida l’intero pianeta sotto l’oppressione di quel processo di industrializzazione che porta a esaurimento i limitati beni e servizi della natura in funzione di un progetto di accumulazione illimitata. Un pianeta limitato come è la Terra non può sostenere un progetto illimitato.

Allora, fintantoché ci saranno poveri che gridano, fintantoché la Terra sarà sistematicamente aggredita, ci saranno cristiani in gra- do di indignarsi, di commuoversi e di schierarsi dalla parte degli oppressi e della Madre Terra devastata. Cristiani che daranno inizio a pratiche di liberazione insieme con gli oppressi ed elabo- reranno una riflessione a partire da tale prassi. Una riflessione che si chiamerà teologia della liberazione. E che, oggi, è diventata un patrimonio della Chiesa universale, la quale si è risvegliata alla responsabilità della salvaguardia di tutto il creato. Una coscienza liberatrice, questa, che si mostra viva e attiva sotto il pontificato di papa Francesco, il quale viene da un tipo di teologia della libera- zione che è stato elaborato in Argentina e che si configura come teologia del popolo oppresso e della negazione della sua cultura. Non dobbiamo mai dimenticare che siamo eredi di un prigioniero politico, perseguitato, catturato, torturato e crocifisso fuori dalla città: Gesù di Nazaret. È lui che ci ha lasciato in eredità il sogno di una liberazione totale, tale da includere la stessa creazione. È

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lui il massimo riferimento della teologia della liberazione. Marx non è mai stato il padre o il padrino di questa teologia. E questo sta risultando chiaro persino in Vaticano, se consideriamo il libro che il prefetto della Congregazione per la dottrina della fede Gerhard Ludwig Müller ha scritto insieme a Gustavo Gutiérrez con il significativo titolo Dalla parte dei poveri. Teologia della libe- razione, teologia della Chiesa 3. Ma bisogna essere chiari: ciò che è importante non è la teologia ma la liberazione concreta degli op- pressi. È la liberazione intesa come un bene del Regno di Dio, il grande sogno del Gesù storico, non la riflessione su questa libera- zione che prende il nome di teologia.

Affiorano in ogni parte del corpo ecclesiale le speranze di una riforma strutturale della Chiesa, riemergendo dal panorama di desolazione la- sciato, come sottolinei tu, dai pontificati di Giovanni Paolo II e di Bene- detto XVI, da quel «ritorno alla grande disciplina» che ha richiuso vio- lentemente le finestre aperte dal Concilio. Non ti sembra però che la di- scontinuità espressa da papa Bergoglio si situi su un piano più simbolico che dottrinario? E, soprattutto, basterà che il papa sia diverso, per rendere diversa la Chiesa?

Non sono le dottrine a occupare il centro delle preoccupazioni del vescovo di Roma in quanto, dal punto di vista teologico, le dottri- ne, in sé, non salvano nessuno. Ciò che salva, come insegnano i Concili, è «la fede informata dall’amore». Una fede senza amore persino i demoni ce l’hanno. Quello che non hanno è l’amore. Chi ha l’amore, ha tutto. Per il vescovo di Roma, la cosa importante è l’incontro con il Cristo vivente e con la sua prassi di amore e di misericordia, di accoglienza verso ogni genere di persone. France- sco recupera così la «tradizione del Gesù storico», che viene prima dell’elaborazione dei Vangeli con le loro varie teologie soggiacen- ti. Così, le categorie della «misericordia», della «gioia», della «belezza», della «cura», della «tenerezza» assumono un’importanza fondamentale. Non è un caso che egli abbia diverse volte invitato a compiere «la rivoluzione della tenerezza». Ed essendo un grande lettore di Fëdor Dostoevskij, sicuramente sarà rimasto colpito dalla celeberrima frase del principe Myškin nell’Idiota: «La bellezza salverà il mondo».

Poiché la struttura della Chiesa è segnata dalla «cefalizzazione», nel senso che tutto è concentrato nel vertice, che è il papa, se questo

3 G. Gutiérrez, G.L. Müller, Dalla parte dei poveri. Teologia della liberazione, teo- logia della Chiesa, Emi, Bologna 2013.

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vertice muta, molte cose sono destinate a cambiare nella Chiesa. Ciò viene percepito in maniera chiara in riferimento ai due papi precedenti, conservatori e dottrinari. È sul loro pontificato che ri- cade la responsabilità della formazione di tre generazioni di vescovi, preti e cristiani che si caratterizzano per la preoccupazione per la dottrina e per la sontuosità delle liturgie, espressione di un cristia- nesimo devozionale e poco attento al destino di milioni e milioni di vittime dell’ingiustizia sociale a livello mondiale. Espressione di una Chiesa, cioè, che non ama parlare dei poveri e della loro liberazione. Papa Francesco, al contrario, rappresentando un diverso tipo vertice, caratterizzato dall’apertura, dalla delicatezza e dal buon umore, sta cambiando l’immagine della Chiesa: una Chiesa vicina al popolo e ai poveri, amorevole, «con l’odore delle pecore». Ma si tratta di un cambiamento per nulla facile dopo tanti anni di assimi- lazione del cristianesimo, ancorato al passato e per nulla contempo- raneo, dei due papi precedenti.

Questo tuttavia dobbiamo riconoscerlo: Francesco è più che un nome. È espressione di un altro progetto di Chiesa e di mondo. Di una Chiesa che, in nome degli sfruttati, denuncia la causa del loro sfruttamento: il sistema che accumula illimitatamente e adora il denaro. Il papa non parla esplicitamente di capitalismo, ma è evi- dente che si riferisce ad esso. Al punto che, lo scorso luglio, du- rante il volo di ritorno dalla Polonia, in occasione della XXXI Giornata mondiale della gioventù, è arrivato a dire, a proposito di terrorismo, che il nemico della vita, il vero terrorismo contro l’u- manità, è dato proprio da questo sistema di accumulazione. E, cosa inedita nella storia del pontificato, per tre volte (due in Vati- cano e una a Santa Cruz de la Sierra in Bolivia) ha convocato i rappresentanti dei movimenti popolari mondiali, per ascoltare dalla loro bocca quali sofferenze vengono loro inflitte e chi sono coloro che le provocano. Si tratta, insomma, di una Chiesa profe- tica che denuncia l’iniquità sociale del mondo di oggi e conferisce centralità alle vittime. Decidendo di alloggiare non nei palazzi pontifici ma alla Casa di Santa Marta e scegliendo di non indossa- re la mozzetta, la mantellina corta che è il simbolo pagano e impe- riale del potere assoluto, Bergoglio esprime una Chiesa spogliata, secondo lo stile del suo patrono, il «poverello» di Assisi, sicura- mente convinto che Cristo non costruirebbe mai la sua Chiesa sulle pietre dei palazzi del Vaticano. E se tornasse a Roma andreb- be certamente ad abitare nelle borgate della periferia.

Quanto al suo progetto di mondo, papa Francesco è colui che maggiormente esorta al dialogo, all’incontro e alla cultura della

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pace e che denuncia con durezza le guerre attuali, da lui conside- rate come l’inizio di una terza guerra mondiale che si combatte a pezzetti. E la sua enciclica Laudato si’ indica come la sua preoccu- pazione principale non sia quella per il destino del cristianesimo, ma quella per l’umanità e la Casa comune. Che è il motivo per cui è rivolta a tutti gli esseri umani e non solo ai cristiani.

La questione che gli sta a cuore è la seguente: come possono il cristianesimo e le Chiese contribuire a salvare la vita e a garantire un futuro di speranza alla nostra civiltà? D’altra parte, bisogna ri- conoscere che nessuna riforma nella Chiesa è possibile se non si comincia dal suo vertice, che è il papa. La riforma è cominciata e
sono sicuro che arriverà al corpo della Chiesa, il vecchio sogno dei riformatori, i quali chiedevano una riforma «in capite et in membris». E dico questo perché ritengo che il vescovo di Roma, Francesco, darà avvio a una nuova genealogia di papi provenienti dalla periferia, dall’Africa, dall’Asia e dall’America Latina, dove vive la maggioranza dei cattolici. La vecchia cristianità europea concentra appena il 25 per cento dei cattolici e oso dire che non possiede più 1 una vitalità che possa consentirle di rappresentare il messaggio di Cristo in un mondo totalmente cambiato, immerso in un processo 9 di «pianetizzazione», e destinato a essere percepito come l’unica
Casa comune, la Terra, sovrasfruttata e ferita. Le Chiese nuove affondano le loro radici nelle culture locali, dialogano con le altre 9 religioni, elaborano le proprie liturgie e i propri modi di fare teologia in dialogo con le sfide legate all’ambiente.

Come interpreti la dura opposizione di alcuni settori al pontificato di Francesco? Una ribellione contro il papa come quella dei quattro cardi- nali guidati da Raymond Leo Burke appare come un fatto quantomeno insolito nella storia della Chiesa 4. Che conseguenze può avere il fatto che un papa venga addirittura accusato di incorrere in errori teologici? Questa opposizione al vescovo di Roma, Francesco, rivela qualco- sa di positivo: le esigenze di riforma connesse a stili di vita più evangelici, più semplici e vicini ai fedeli, danno fastidio a quei gruppi conservatori che sono ostaggio di una Chiesa di prìncipi e di abitudini medievali. Il cardinal Burke ne offre un significativo

4 Si fa riferimento ai quattro cardinali (Raymond Leo Burke, Joachim Meisner, Walter Brandmüller e Carlo Caffarra) che hanno espresso al papa cinque dubbi a proposito dell’ortodossia del documento post-sinodale sulla famiglia Amoris laeti- tia (circa l’accesso dei divorziati risposati all’eucarestia), chiedendogli di fare chia- rezza. Di fronte al silenzio del papa, il cardinal Burke è giunto a ventilare una «correzione formale».

esempio: ama le sontuose forme rinascimentali, gli abiti vistosi, la cappa magna [abito a forma di campana con strascico posteriore lungo alcuni metri], gli anelli d’oro, tutto ciò che Cristo ha critica- to e respinto. È una sorta di Trump della Chiesa cattolica: rude e provocatore. Rivela un tale livello di arroganza da pensare di sot- tomettere il papa a un processo dottrinario pur sapendo che, in base al diritto canonico, nessun papa può essere giudicato. E, per conquistare forza, è arrivato ad allearsi con Steve Bannon, il capo stratega del presidente degli Stati Uniti, cattolico ultraconservato- re (ma divorziato già tre volte) legato a gruppi conservatori della curia che mirano a destabilizzare Francesco. Tuttavia, si tratta, a mio giudizio, di un fenomeno che non avrà maggiori conseguenze: pare che il gruppo stia implodendo, in quanto si è esposto al ridi- colo, non ha un fondamento teologico e, quel che è peggio, è privo di qualunque riferimento al povero di Nazaret e alla tradizio- ne degli apostoli.

La dimensione «religiosa», con i suoi tre pilastri della legge, del tempio e della casta sacerdotale, ha soffocato innumerevoli volte nella storia la radicalità del messaggio evangelico. Eppure il Gesù descritto dai Van- geli non solo non è venuto a fondare una nuova religione, ma ha anche avuto con il potere religioso uno scontro durissimo e alla fine mortale. Come è possibile una tale incomprensione da parte di coloro che pure si professano suoi seguaci?

I Vangeli narrano le tre tentazioni di Gesù, tutte legate al potere, come esplicitato più tardi da Max Weber: la tentazione del potere profetico, quella del potere religioso e quella del potere politico. Il potere profetico è la parola, in grado di trasformare le pietre in pa- ne; il potere religioso è quello legato al tempio e al sacro in relazio- ne a costumi e tradizioni; il potere politico è quello relativo alla dominazione del mondo. Gesù ha superato le tre tentazioni. Pur- troppo, nel corso della sua storia, la Chiesa a queste tre tentazioni ha invece ceduto. È caduta nella tentazione profetica moltiplicando i miracoli e trasformando i propri ministri in soggetti dal potere magico che impongono le mani e impartiscono benedizioni curative anziché farne degli evangelizzatori in grado di inaugurare ciò che nel secondo secolo si chiamava «tertium genus», il terzo genere op- posto ai romani e ai giudei, quello dei cristiani che amavano i nemici, erano al servizio dei poveri e andavano con gioia incontro al martirio. È caduta nella tentazione del tempio creando la «sacra potestas» come asse di articolazione della struttura della Chiesa, con una vera casta sacerdotale, gerarchizzata, piena di privilegi, titoli

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onorifici e palazzi, lontana da un popolo destituito di partecipazio- ne. Quanto al potere politico, questo è ancora rappresentato dallo Stato Pontificio, ultimo residuo del vasto potere detenuto da papi come Innocenzo III, al quale quasi tutta l’Europa, al tempo di san Francesco di Assisi, era sottomessa attraverso diversi patti di vassal- laggio. È assai difficile veder ritratta in queste forme ecclesiastiche di potere la figura del Nazareno, falegname e contadino mediterra- neo, senza potere, povero, perseguitato e crocifisso. Gli è stato pre- ferito il Pantocrator, coronato come un re. Gesù non è venuto a fondare una nuova religione tra le molte che esistevano a quel tempo. Voleva insegnare a vivere, a vivere specialmente quei beni del Regno di Dio che sono l’amore incondizionato, la misericordia, la compassione, l’amore per i poveri e la totale apertura a Dio, chia- mato papà, Abbà, un Padre con caratteristiche di madre.

Una delle più avanzate frontiere teologiche è oggi quella impegnata nel compito di riformulare la fede cristiana in un linguaggio che possa risul- tare ancora significativo per gli uomini e le donne contemporanei. È possibile colmare il fossato che si è aperto tra ciò che accettiamo come verità scientifica e ciò che afferma la dottrina tradizionale della Chiesa? La Chiesa cattolica soffre di una grave lacuna per ciò che riguarda il linguaggio. E ciò si deve al modo in cui si è organizzata: anziché nella forma della comunione e della partecipazione di tutti e di dialogo con la cultura attuale, in quella della subordinazione e dell’obbedienza alle autorità. Non esiste propriamente un proces- so di iniziazione all’esperienza cristiana. Al suo posto, troviamo invece i dogmi, le dottrine e i catechismi. La teologia è ancora, in gran parte, riservata al clero. E i laici, i teologi e le teologhe ven- gono guardati con sospetto dalle autorità ecclesiastiche perché non possono essere controllati. Quello che è emerso è un cristia- nesimo mediocre che ha paura dei saperi moderni ed evita il dia- logo con le varie scienze. La morale cattolica è ancora assai debi- trice di sant’Agostino, il quale non è mai riuscito a superare total- mente il manicheismo da lui professato durante una buona parte della sua vita. È la sua visione etica ad aver preso il posto di quel- la della prassi di Gesù, delle beatitudini e dell’amore incondizionato, specialmente verso quegli invisibili che per Gesù erano il vero prossimo. La Chiesa non ha mai dialogato con Freud, con Wilhelm Reich o con Donald Winnicott e ancora meno con Darwin, Heisenberg/Bohr e con Marx. E, se lo ha fatto, è stato in maniera negativa.

In tal modo, la grandezza del messaggio di Gesù non viene perce- pita dalle persone. Ma, grazie al vescovo di Roma, Francesco, si è

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dato ora inizio a un dialogo con gli intellettuali, con gli atei e con qualunque persona che mostri interesse alla questione del senso della vita e dell’universo, come è avvenuto con il fondatore del quotidiano la Repubblica Eugenio Scalfari. Credo che per superare tale deplorevole situazione sia necessario dare la parola ai laici, agli scienziati, ai letterati, agli intellettuali e a tutti coloro che ab- biano qualcosa da dire. La Chiesa non deve sentirsi detentrice della verità e non ha neppure bisogno di esserlo. Deve, al contra- rio, confidare nello spirito umano, sempre accompagnato dallo spirito di intelligenza e di comprensione. Tutti partecipano della verità. È un atto blasfemo contro lo Spirito Santo immaginare che gli altri, tanto in Oriente quanto in Occidente, abbiano solo pro- dotto errori. Mi vengono in mente gli ispiratori versi del poeta spagnolo Antonio Machado: «La tua verità?/ No, la Verità,/ vieni con me a cercarla./ La tua, tienitela».

Quanto sono ancora plausibili le religioni nel mondo postmoderno?

Ritengo che il fattore religioso sia un dato antropologico del fon- damento utopico dell’essere umano. Oggi, dopo il riflusso della marea critica nei riguardi della religione, possiamo dire che i critici non lo sono stati abbastanza. In fondo, tutti sono incappa- ti in un equivoco. Hanno voluto collocare la religione all’interno della ragione, producendo così ogni tipo di impasse. Perché non si sono resi conto che il luogo della religione non è all’interno della ragione, ma nell’intelligenza cordiale, nell’emozione pro- fonda, nel sentimento oceanico, in quella sfera dell’umano in cui emergono i sogni e le utopie. Lo spiegava bene Blaise Pascal, nel frammento 278 dei suoi Pensées: «Il cuore, e non la ragione, sente Dio». Credere in Dio non è pensare Dio, ma sentire Dio a partire dalla totalità del nostro essere. La religione è la voce di una co- scienza che non può trovare riposo nel mondo così com’è e che ha come progetto quello di trascenderlo. Ricordo un’affermazio- ne di Émile Durkheim nel suo famoso libro Le forme elementari della vita religiosa (1912): «Nella religione c’è quindi qualcosa di eterno, destinato a sopravvivere a tutti i simboli particolari di cui il pensiero religioso si è successivamente circondato». In questo senso, essa è sovratemporale, perché affonda le sue radici nel profondo dell’essere umano, sia nel passato, sia nella modernità, sia nella postmodernità.

Hai dedicato la tua intera vita al servizio della causa della liberazione: quella dei poveri e quella del «grande povero» che è il nostro pianeta

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devastato e ferito. E ora il loro duplice – e congiunto – grido ha trovato accoglienza nella Laudato si’, a cui tu stesso hai collaborato. Dopo più di trent’anni di lavoro diretto ad articolare teologia della liberazione ed ecologia, cosa significa per te il fatto che il papa, citando il titolo di uno dei tuoi libri più conosciuti, abbia evidenziato la necessità di ascoltare il grido dei poveri insieme a quello della Terra?

Concentrandosi non solamente su quella parte della realtà che è la Chiesa, ma sul tutto che è la Casa comune e la specie umana, papa Francesco mostra grande sensibilità per la sofferenza della Terra, della natura e di gran parte dell’umanità impoverita e affa- mata. Così, ha raccolto i dati più affidabili delle scienze e ha elaborato un’enciclica sui problemi ecologici che possono minacciare la vita sulla Terra e il futuro della specie umana. Non è corretto definirla un’enciclica verde, un’enciclica che tratta di ambiente. Perché abbiamo a che fare con un’ecologia integrale che com- prende le quattro grandi tendenze della riflessione ecologica mon- diale: quella ambientale, quella politico-sociale, quella mentale- culturale e quella spirituale. Ed è curioso che il papa utilizzi non soltanto la ragione analitica, ma anche, e principalmente, l’intelli- genza cordiale e sensibile. Solo attraverso questo tipo di intelli- genza, infatti, le persone possono sentire come proprio il dolore della Terra e degli altri fratelli e sorelle. È l’intelligenza cordiale che muove le persone a impegnarsi sul versante della salvaguardia della Terra. Per questo Francesco chiede che si articoli sempre il grido della Terra con il grido dei poveri, citando il titolo del mio libro che ha inaugurato, a metà degli anni Novanta, il dialogo tra la teologia della liberazione e l’ecologia. Un dialogo che ho appro- fondito poi, insieme al cosmologo nordamericano Mark Hatha- way, nel volume Il Tao della liberazione 5, il quale ha ricevuto, nel 2010, negli Stati Uniti, il premio Nautilus Gold Medal in scienza e cosmologia. Se prima quasi nessuno mi prestava ascolto, oggi questo è diventato un discorso generale delle Chiese e di gran parte della società. Per me si è trattato di una mera conseguenza del principio di base della teologia della liberazione: l’opzione per i poveri, contro la loro povertà e per la loro liberazione. È all’interno di questa opzione che occorre collocare il Grande Povero che è la nostra generosa Madre Terra, sovrasfruttata e sofferente, anch’essa bisognosa di liberazione. Con la sua enciclica, secondo vari esperti, come Edgar Morin, il papa si pone all’avanguardia della discussione ecologica mondiale.

5 L. Boff, M. Hathaway, Il Tao della liberazione, Fazi Editore, Roma 2014.

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Nella tua riflessione teologica hai preso enormemente sul serio le tante minacce di distruzione lanciate contro Gaia, il pianeta vivente che è la nostra Casa comune, ma sempre coltivando la speranza che l’evoluzione sia plasmata in modo tale da convergere verso livelli di complessità e di autocoscienza sempre maggiori, annunciando un nuovo inizio per quell’unica entità indivisibile Terra-umanità che gli astronauti per pri- mi hanno colto, con emozione e riverenza, guardando il nostro pianeta azzurro e bianco dallo spazio. Lo scenario attuale, pur così drammatico, autorizza a sperare nell’avvento di una nuova era della Terra?

Penso che ci troviamo alla fine di un’epoca e agli albori di una nuova. Si tratta di una crisi di proporzioni planetarie che sarà destinata a smantellare questo tipo di mondo in cui l’essere umano si è trasformato nel Satana della Terra anziché nel suo angelo custode. Se continuassimo in questa direzione, potremmo andare incontro al peggio. Ma questo sentimento è tipico dei tempi di crisi, quando scompaiono i punti di riferimento e sorgono allora idee apocalittiche, timori di grandi tragedie. Io credo che ci troviamo di fronte non a una tragedia inevitabile, ma a una transizione verso un nuovo modo di abitare la Casa comune. Le sofferenze che proviamo non sono quelle di un moribondo sul letto di morte, ma quelle di un parto da cui emergerà una nuova creatura. Non finirà il mondo, ma solo questo tipo di mondo, il quale è condanato a morire in quanto eccessivamente crudele e nemico della vita. Faccio mie le parole conclusive dell’enciclica Laudato si’ di papa Francesco: «Camminiamo cantando! Che le nostre lotte e la nostra preoccupazione per questo pianeta non ci tolgano la gioia della speranza».

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François Houtart e Miguel d’Escoto: servos dos oprimidos: Frei Betto

Associo-me ao Frei Betto na homenagem de dois grandes amigos comuns que tínhamos e que concluiram, na semana passada, a sua peregrinação por este mundo: o teólogo e sociólogo belga vivendo no Equador, François Hourtart e o ex-chanceler da Nicaragua e ex-presidente da ONU 2008-2009, o padre Miguel d’Escoto. Foram os servos dos oprimidos duante toda a vida. Dele aprendemos a política unida à espiritualidade e a reconhecer a diplomacia como caminho para a paz entre os povos. Sentiremos sua falta, pois estavam sempre presentes em nossos encontros intervindo com judiciosas intervenções. Foram nossos mestres e doutores e sempre permanecerão em nossa memória e em nosso coração:Lboff

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François Houtart transvivenciou no último 6 de junho, no Equador. Tinha 92 anos, e o entusiasmo revolucionário de um jovem de 20. Nosso último encontro foi em março deste ano de 2017, quando fiz uma série de palestras em Quito a convite do presidente Rafael Correa. François me acompanhou todo o tempo. Fomos juntos a Pucahuaico, onde se encontra enterrado o corpo de monsenhor Leônidas Proaño, bispo indígena identificado com a Teologia da Libertação. A capela, aos pés do vulcão Imbabura, estava repleta de índios e gente do povo. Houtart presidiu a celebração eucarística.

No dia seguinte, Rafael Correa nos ofereceu um almoço. Havia sido aluno de François em Lovania, Bélgica, onde durante anos Houtart formou, em Sociologia e Ciências da Religião, alunos oriundos da periferia do mundo, entre os quais o colombiano Camilo Torres e o brasileiro Pedro Ribeiro de Oliveira, que nos relata:

“Em 1975, voltei à Bélgica para iniciar o doutorado. A primeira reunião de trabalho com Houtart, meu orientador, desmontou tudo que eu tinha preparado para a tese sobre catolicismo popular. Disse que ela era insuficiente, porque não trazia uma explicação sociológica. Para aumentar meu espanto, acrescentou: ‘Como você não deve ignorar, só a teoria marxista é realmente explicativa. As outras são apenas descritivas.’ Saí dali atordoado, sem entender como um padre, que havia sido perito no Concílio, tendo colaborado até na redação da Gaudium et Spes, havia se tornado marxista sem deixar a Igreja. Aos poucos fui entendendo: ele fazia oposição ativa à guerra dos EUA contra o Vietnam, e foi assim que descobriu, na teoria da luta de classes, um instrumento teórico capaz de elucidar o que estava em jogo naquela guerra, nos movimentos anticolonialistas da África e da Ásia, e nas ditaduras latino-americanas. O melhor é que me convenceu de uma vez por todas. Na última vez em que participamos juntos de um congresso de Sociologia da Religião, éramos os únicos sociólogos a usar o instrumental marxista para explicar fatos religiosos. Brinquei com ele, pedindo que demorasse bastante a morrer, para eu não ficar sozinho usando Marx para entender a religião…”

François era alto, tinha os olhos muito claros e sorria com facilidade, mesmo ao manifestar, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, pertinentes críticas ao governo brasileiro na presença do presidente Lula. De fala pausada, seu raciocínio científico era didático, pois abandonara a Europa para viver na América Latina e se dedicar aos movimentos sociais de países de nosso continente, da África e da Ásia. Em 2016, assessorou o congresso nacional do MST, em Brasília.

Convivemos em várias ocasiões ao participar de eventos no Brasil, em Cuba, na Nicarágua e na Bolívia. Eu sempre me perguntava como um homem acima dos 80 anos encontrava tanto ânimo para viajar mundo afora, muitas vezes carregando uma pesada mala com livros de sua autoria, sem jamais se queixar de se hospedar em uma tenda indígena no alto dos Andes, em um assentamento do MST no Brasil ou em uma cabana de plantadores de arroz no Vietnam.

Em seus anos de estudo em Roma, François teve como colega um jovem chamado Karol Wojtyla. Contou-me que o seminarista polonês tinha obsessão por aprender idiomas. Aproveitava as férias para se deslocar para as regiões da Europa nas quais lhe fosse ensinada uma nova língua. Certa ocasião, acompanhou Houtart até a Bélgica, interessado em aprimorar seu francês e conhecer o flamengo.

Uma noite, Wojtyla retornou à casa sob forte chuva. Seus sapatos poloneses haviam sido arruinados pela água. François encontrou um seminarista belga que, por calçar o mesmo número do polonês, pode lhe ceder um novo par. Décadas depois, já sacerdote, o doador dos sapatos quis ser recebido pelo papa João Paulo II. A burocracia alegou falta de agenda. Ao encaminhar uma nota ao pontífice, recordando os sapatos, as portas do Vaticano se abriram.

Em 2016, Houtart me convidou ao Equador para um seminário sobre a encíclica socioambiental Louvado Sejas, do papa Francisco. Do trabalho conjunto naqueles dias resultou a publicação, assinada por nós dois, Laudato Si – Cambio Climático y Sistema Económico (Quito, Centro de Publicaciones, Pontifícia Universidad Católica del Ecuador, 2016).

Na viagem que, em março último, fizemos à região andina do Equador, François me narrou sua participação, aos 15 anos, na resistência contra a ocupação nazista na Bélgica. Ele e um amigo decidiram fabricar uma bomba caseira para descarrilar um trem de soldados de Hitler. Não tiveram êxito e o atentado lhe valeu um puxão de orelhas da mãe. Contou-me ainda que tinha mais de dez irmãos. Há uma década, com todos vivos, se reuniram para comemorar os 1.000 anos da soma de suas idades.

Na visita de João Paulo II a Cuba, em janeiro de 1998, Fidel convidou Houtart para assessorá-lo, em companhia de Pedro Ribeiro de Oliveira, do teólogo italiano Giulio Girardi e de mim. Foram dias de intenso trabalho comunitário.

Formação operária
Em 2016, François me remeteu um interessante relato sobre a sua formação, que aqui transcrevo em espanhol:
“Durante mis años de seminário en Malines (Bélgica), participaba en numerosas reuniones de la JOC (Juventud Obrera Católica) en Valonia y en Bruselas, durante las vacaciones. Ahí fue donde descubrí la situación de la clase obrera de esa época (1944-1949). Justo después de la postguerra, el esfuerzo de reconstrucción de Europa estuvo acompañado por una sobre explotación del trabajo, y las condiciones sociales de los jóvenes eran particularmente escandalosas.”

“Los congresos de la JOC regionales y nacionales permitían informarse sobre el marco más general de la situación económica y social. Además, pude visitar diferentes fábricas y minas de carbón. La JOC belga me puso en contacto con el movimiento en Francia, en los Países Bajos, en Inglaterra, en Alemania, en España, y poco a poco la dimensión internacional se convirtió también en una parte importante de mi introducción en el mundo del trabajo.”

“En numerosas ocasiones, me entrevisté con Monseñor Cardijn (fundador de la JOC) y estuve muy impresionado por su combatividad, su insistencia sobre la incompatibilidad entre la injusticia social y la fe Cristiana, y sobre su conocimiento de la vida de los jóvenes trabajadores. Descubrí también el método pedagógico, el no partir de arriba imponiendo un saber, sino de abajo, descubriendo la realidad: ver, juzgar, actuar.”

“Esta experiencia me incitó a pedir, después de mi ordenación sacerdotal, iniciar estudios de Ciencias Sociales y Políticas en la Universidad Católica de Lovaina. Me pasé 3 años ahí, quedándome en permanente contacto con la JOC, siguiendo ciertas secciones, viajando por Europa para encuentros con el movimiento. Mi tesis de licenciatura estuvo dedicada al estudio de las estructuras pastorales de Bruselas, habiendo descubierto, por una parte, su ausencia en los medios obreros, y por otra la identificación de la cultura religiosa cristiana con la cultura burguesa, creando un divorcio con la clase obrera y, particularmente, los jóvenes.”

“Durante el último año de mis estudios en Lovaina, fui el capellán del Hogar de los Jóvenes Trabajadores en Bruselas, un servicio de la JOC para los jóvenes que habían estado confrontados a la Justicia de la Juventud.”

“En el plan europeo, es en Francia donde tuve más contactos, particularmente en la región parisina: St Denis y otros suburbios. Me hice amigo de algunos sacerdotes obreros, e incluso me quedaba a vivir en sus casas.”

“Después de conseguir una beca por estudios para la Universidad de Chicago (1952-1953), con el fin de continuar la Sociología Urbana y la Sociología de la Religión, residí en una parroquia donde trabajaba al capellán de la JOC de la ciudad. Fue también la ocasión de bastantes encuentros con la JOC de los Estados Unidos. Durante las vacaciones de Pascua de 1953, fui a La Habana para asistir a un Congreso de la JOC de América Central y del Caribe, donde estuvo presente Cardijn. Pude tener reuniones con secciones locales y entrevistarme con el capellán nacional de Cuba. Esto me metió en la problemática latinoamericana, que deseaba conocer desde hacía tiempo. Después del congreso acompañé al capellán de la JOC de Haití a Puerto Príncipe, y me pasé una semana en el país en visitas y reuniones con el movimiento haitiano.”

“Luego di clases durante un semestre en la Universidad de Montreal, y también participé en actividades del movimiento. De ahí me trasladé de nuevo a América Latina y durante 6 meses recorrí casi todos los países, desde México hasta Argentina, siempre con la JOC, gracias a los contactos conseguidos durante los congresos internacionales. Fue una gran escuela el descubrir el continente desde abajo. Una vez más, descubrí los abismos entre los ricos y los pobres y la explotación increíble de los jóvenes urbanos y rurales. Fui golpeado por el papel de los sacerdotes apegados al movimiento en la renovación de una Iglesia tan alejada del pueblo y tan próxima a las élites y oligarquías sociales. Eran activos en todos los campos: social, litúrgico, pastoral, bíblico. Una gran parte de estos sacerdotes pertenecían a las órdenes religiosas y bastante de ellos habían estudiado en Europa.”

“Este contacto con América Latina fue el que me hizo iniciar, en 1958, un estudio socio-religioso sobre el conjunto del continente, con equipos en cada país, varias veces con miembros de la JOC. Se terminó en 1962 y fue publicado en unos cuarenta volúmenes, lo que llevó al Consejo Episcopal Latinoamericano pedirme una síntesis en tres lenguas para distribuir en la entrada del Concilio Vaticano II al conjunto de los obispos y a acompañarle como peritus durante los 4 años del trabajo conciliar.”

“El cardenal Cardijn me había pedido entre tanto si aceptaría ser el capellán internacional del movimiento, lo que evidentemente me interesaba mucho, pero mi obispo, el cardenal Van Roey no aprobó esta idea.”

“Después, habiendo trabajado en Asia, durante las vacaciones de la Universidad de Lovaina, donde impartía Sociología de la Religión, me puse en contacto también con la JOC en Sri Lanka, en la India, en Vietnam, en Corea del Sur, en Filipinas. Con mi colega, Geneviève Lemercinier, nos hicimos cargo de un seminario de formación para el análisis social para los militantes de la JOC de Hong Kong. En África del Sur, en pleno apartheid, participé durante 3 días en una reunión nacional con jóvenes trabajadores blancos, negros y mestizos, lo cual en principio estaba prohibido, en un convento de los Padres Oblatos, en Bloemfontein.”

“En cualquier parte, de América Latina, Ásia y África, me he reunido en los años siguientes con antiguos miembros de la JOC, tanto en los sindicatos, como en las ONG de desarrollo, o en el seno de partidos políticos progresistas y también revolucionários, como en Nicarágua o en Bolívia.”

“Las enseñanzas que sacado de la JOC han sido numerosas y fundamentales. En primer lugar, fue el conocimiento del mundo obrero, de sus luchas, de sus organizaciones. Después, fue el método: ver, juzgar, actuar, que da un marco de reflexión muy eficaz para el análisis de las realidades y para la puesta en marcha de una acción que les sea adaptada. Si estudié Sociología y si continué constantemente el trabajo de investigación, era para afinar el “ver” en sociedades muy diferentes y complejas. Esto también me permitió descubrir que se podía leer la sociedad desde arriba, pero también desde abajo, y que la opción del Evangelio era leer el mundo con los ojos de los pobres y de los oprimidos. No existe una ciencia neutra, sobre todo en el marco de las ciencias humanas.”

“La pedagogía de la JOC y su adaptación a un medio específico de jóvenes trabajadores, a menudo a duras penas alfabetizados, me ha enseñado a utilizar un lenguaje sencillo, a estructurar correctamente el raciocinio para que sea comprendido, en una palabra a bajarse del pedestal académico y también de aprender de los que tienen un saber práctico a menudo despreciado por el saber llamado “sabio”.”

“Por fin, es también la JOC que me ha llevado a profundizar la dimensión social del Evangelio, y a comprender que lo que pide el Señor es el amor eficaz. No se trata únicamente de una actitud personal, sino que este amor implica la construcción de una sociedad justa y de seguir el ejemplo de Jesús en su sociedad, donde anunció los valores del Reino de Dios, el amor al prójimo, la justicia, la igualdad, la misericordia, la paz, y combatió todos los poderes opresores, económicos, sociales, políticos e incluso religiosos. No en vano murió (ejecutado) sobre la cruz.” (Quito, 01.03.16)

A transvivenciação
Nidia Arrobo Rodas, que trabalhava com François na Fundação Povo Indígena do Equador, relata os últimos momentos dele:
“Nuestro querido François se fue como vivió, con una serenidad total, entero, lúcido, diáfano, de pie…. En la víspera, luego de un Acto de Denúncia en el IAEN (Instituto de Altos Estudios Nacionales) sobre el genocídio Tamil, cenamos como de costumbre la “sopita” que tanto le gustaba y para él era imprescindible al caer la tarde tomarla en comunión en nuestra mini residencia y, como de costumbre, se fue a dormir… Claro que en su habitación siguió trabajando… No sabemos hasta que hora… Porque hasta las once de la noche aún recibimos sus emails.”

“Al amanecer, intuimos que se ha levantado para ir a la ducha y las fuerzas le faltaron… Se ha puesto la salida de cama, se ha sentado en su sillón relax muy próximo a su cama, y con su mano en el corazón se quedó durmiendo el sueño más profundo de su vida, muy plácidamente, sin hacer ningún ruido, muy calladito.. Un infarto masivo… A las siete y media de la mañana… se despertó en Dios.”

“Precisamente en el mes de abril fuimos al cardiólogo, a instancias mias, porque sentía que se agitaba mucho y como que le faltaba el occígeno… El cardiólogo le pidió hacerse una cirugía de la arteria del corazón, pues se había estrechado, y el marca pasos ya no respondía como hace cuatro años que se lo puso. Le dije: François, la cirugía es inminente… El optó por hacercela en Bélgica por sugerencia del mismo cardiólogo… Pero por más que le insistia, no tomó la decisión de viajar enseguida: ‘Tengo muchos compromisos, tengo que terminar la cátedra Houtart en el mes de junio y me voy’ me dijo. De nuevo le dije que era mucho tiempo de espera… Pero él era dueño absoluto de su voluntad y de sus decisiones… Optó por terminar aquí todo lo previsto y viajar en junio a Bélgica para su cirugía, que deportivamente decía, es algo muy pequeño.”
“Con esto, tenía pasajes comprados y maletas listas, para viajar ayer (9 de junio), pero primero a Bogotá, luego una semana en Cuba, luego una semana en Brasil y llegar a finales de junio a su Bélgica…”

“Yo sabía que él libremente optó por vivir con nosotros, se sentía feliz, vivió feliz… y pienso que en el fondo de su corazón quizó terminar aquí mismo sus días.”

“La última celebración tuvo lugar – a pedido mio – en el IAEN, el propio miércoles, exactamente a las cinco de la tarde, día y hora en la que tenía terminar el programa de su cátedra este año.”

“Estamos desolados… Fuimos felices con su presencia jovial, llena de amistad, finura de espíritu, delicadezas y de detalles increíbles; pero al mismo tiempo sé que él fue feliz en medio de nosotros… Siempre nos lo decía y esto me llena de gozo y gratitud.”

“Sin embargo a él lo sentimos entre nosotros, el está vivo y sigue y seguirá vivo y resucitado en las luchas de liberación de todos los empobrecidos de todo el mundo, y en los dolores de parto con los que gimen los PUEBLOS INDIGENAS y nuestra Pachamama.”

“Como consta en su testamento, lo cremamos… y lo más pronto sus cenizas reposarán junto a las de su madre en su Bélgica natal.”

Miguel D’Escoto
Dois dias depois de Houtart nos deixar, perdi outro amigo, também sacerdote e revolucionário como ele, o padre Miguel D’Escoto, falecido aos 84 anos. Ministro das Relações Exteriores da Nicarágura sandinista entre 1979 a 1990, presidiu a Assembleia Geral da ONU em 2008 e 2009.
Filho de diplomata, D’Escoto nasceu em Los Angeles, em 1933. Fez-se sacerdote pela congregação de Maryknoll e foi um dos fundadores da editora novaiorquina Orbis Books, que em 1977 publicou nos EUA meu livro Cartas da prisão com o título Against principalities and powers.

Foi D’Escoto que recebeu Lula e a mim em Manágua, por ocasião do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, em julho de 1979. Levou-nos à casa de Sérgio Ramirez, então vice-presidente do país, na noite de 19 de julho, quando então conhecemos e conversamos longamente com Fidel Castro.

Em janeiro de 1980, ele veio a São Paulo, em companhia de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, participar do primeiro congresso mundial da Teologia da Libertação. Foi um dos oradores da Noite Sandinista, no TUCA, teatro da Universidade Católica de São Paulo.

No domingo, 29 de novembro de 1981, em Manágua, reencontrei-o em sua casa, que pertencera ao executivo que presidira o Banco Central da Nicarágua à época da ditadura Somoza. Ali se encontravam Daniel Ortega; o secretário-geral da Frente Sandinista de Libertação Nacional, René Nuñez; os padres Gustavo Gutiérrez, Pablo Richard, Fernando Cardenal, Uriel Molina, e o ministro do Bem-Estar Social, padre Edgard Parrales.

D’Escoto acabava de retornar do México e descrevia em detalhes as recentes conversas sobre a América Central entre o presidente López Portillo e o general Alexander Haig, secretário de Estado dos EUA. Na atenção dos convivas, uma indisfarçável satisfação pela eficiência da espionagem sandinista dentro do governo mexicano.

Falamos da conjuntura da Igreja, da campanha internacional contra a Revolução e sobre a Juventude Sandinista, agora aos cuidados de Fernando Cardenal. Preocupava-me o caráter mecanicista do marxismo divulgado entre os jovens sandinistas, mera apologética de antigos manuais russos. Insisti na importância de os sacerdotes no poder – D’Escoto, Parrales e os irmãos Cardenal – explicitarem publicamente sua vida de fé. Temia que projetassem uma imagem mais política que cristã.

No sábado, 16 de novembro de 1984, em Manágua, retornei à casa de D’Escoto. Perguntei-lhe por que não fora à reunião da OEA em Brasília. “Para não valorizar a OEA” – respondeu -, “que continua servindo de instrumento nas mãos dos Estados Unidos, contra a soberania dos povos da América Central.”

Celebramos a eucaristia sob o alpendre de vime do quintal. Lemos e meditamos o evangelho de Mateus 4, 25 ss. D’Escoto desabafou: “Estou com o corpo e a mente cansados, pois já não acompanham o ritmo acelerado que as circunstâncias me impõem. Sonho em desfrutar da solidão, em ter tempo para mim e não ter que ficar sempre atento ao telefone. No entanto, sei que, por enquanto, isso é apenas um sonho. De minha intimidade com Jesus arranco as forças que me sustentam.”

Ao fim da celebração, me disse: “Quero duas coisas de você: leio com muito gosto o último livro de Dom Pedro Casaldáliga. Soube que, em breve, ele irá à Espanha. Peça-lhe que, antes, passe por Nicarágua. E insista com Dom Paulo Evaristo Arns para que venha à posse de Daniel, dia 10 de janeiro próximo.

“Por que você não liga agora para Dom Paulo?” – sugeri.

Tentamos, mas o cardeal de São Paulo não se encontrava em casa.

Onze dias depois dei pessoalmente o recado a Dom Paulo Evaristo Arns. No ano seguinte, Dom Pedro Casaldáliga visitou a Nicarágua.

Em março de 1986, reencontrei-o em Havana, em companhia de Rosario Murillo, atual vice-presidente da Nicarágua e esposa de Daniel Ortega, e de Manuel Piñeiro, chefe do Departamento de América do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. Falamos longamente sobre a situação da Nicarágua e do apoio explícito que os bispos Obando e Vega davam à política agressiva de Reagan. D’Escoto era de opinião que os padres, religiosos e leigos deviam enfrentar corajosamente o arcebispo de Manágua, partindo, se necessário, para a desobediência eclesiástica. Isso lhe valeu, posteriormente, a suspensão, por parte do papa João Paulo II, do exercício de seu sacerdócio, medida revogada pelo papa Francisco.
Em janeiro de 1989, em Havana, nos vimos na comemoração dos 30 anos da Revolução Cubana. Ele se entreteve em longa conversa com Leonardo Boff sobre a teologia da Trindade. “É a base da minha espiritualidade”, ouvi-o dizer. E lamentou a situação de seu país: “O mais duro para o povo da Nicarágua não é a agressão americana, mas a falta de apoio da Igreja.”
Tivemos outros encontros posteriores, como na época em que presidia a Assembleia Geral da ONU, o que o levou a descrer inteiramente da eficácia dessa importante instituição, manipulada pelos interesses da Casa Branca.

Acréscimo meu: junto com vários chefes de Estado do mundo inteiro e de grandes nomes da ciência política e econômica desenhou outra constituição da ONU, cuja sede deveria ser na África, na Nigéria. Os estudos sobre as instituições, sobre os vários departamentos,sobre o sistema financeiro andavam bem adiantados. Ele e eu fomos encarregados de redigir o núcleo teórico da nova ONU. O título que demos foi: Declaração universal sobre o Bem Comum da Terra e da Humanidade. O texto circulou pelo mundo afora e se encontra na internet. O próprio Papa Francisco utilizou este texto para a sua encíclica sobre o Cuidado da Casa Comum. Foi graças às gestões de Miguel d’Escoto enquanto presidente da ONU da 63º sessão em 22 de fevereiro de 2009 que passou a proposta de transformar o dia 22 de abril, dia da Terra, como sendo o Dia da Mãe Terra. Discursou o presidente da Bolívia Evo Morales Ayma e quem escreve estas linhas. Nossa argumentação foi tão convincente que a Assambléia aprovou por unanimidade a proposta. Outras vezes ajudei-o a redigir seus discursos que sempre iniciavam:”Meus irmãos e minhas irmãs”. Um jornal de Nava York observou que esta saudação soava ridícula. Mas d’Escoto respondeu, reafirmando a fraternidade universal e por isso era importante saudar a todos com a doce fórmula “meus irmãos e minhas irmãs”. Visitei-o algumas vezes na Nicaragua, já bastante adoentado e entretivemos longas conversações espirituais, pois era alguém profundamente religioso. O que mais venerava era o Espírito Santo e a Virgem Maria. Ele mesmo editou meu livro sobre o Espírito Santo, todo ilustrado com imagens da arte indígena nicaragüense. Agora junto a Deus continuará a lutar pela confraternização de todos os povos, numa Nações Unidas não mais dominada pelos “donos”do poder mundial, mas pela comunhão entre todos os povos, culturas e religiões (Leonardo Boff).

Com o desaparecimento de François Houtart e Miguel D’Escoto perdem a América Latina, a causa dos pobres e a Teologia da Libertação. Deixam-nos um legado de como viver a fé cristã em um mundo dividido entre poucos biliardários e multidões de miseráveis, e do que significa ser discípulo de Jesus nesse conturbado início do século XXI.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.

UNA NUEVA MODERNIDAD PARA EL BIEN DE TODOS: François Houtart


No dia 6 de junho do corrente ano um grande amigo, amigo dos pobres e dos oprimidos dos Terceiro Mundo, François Houtart faleu em Quito na idade de 92 anos(1925-2017). Sociólogo, teólogo e altermundista criou na Universidade de Lovaina um Centro Tricontimental para estudantes vindos dos três Continente, África, Ásia e América Latina para lá estudarem e fazerem seus doutorados. Viajou pelo mundo todo, fortalecendo os grjupos de base e de resistência, assumiu como poucos a causa dos indígenas.Embora formado em sociologia da religião, percorreu os vários campos do saber, sempre com alta qualidade. Ultimamente se ocupava no estudo das alternativas para a humanidade, especialmente, os passos da transição do velho paradigma da dominação para o paradigma centrado na vida. Aqui no Brasil foi publicado um livro notável dele:Agroecologia: solução para o clima ou saida para a crise do capistalismo,Vozes 2010. Segundo um sociólogo equatoriano, Napoleón Saltos, “na mesma semana, podia estar no Vietnã, depois na Síria para tentar um acordo de paz. Depois, na América Latina, podia passar pelas mesas de diálogo das FARC, falar com o PT sobre a crise no Brasil. Uma conferência na Argentina, um curso na Escola de Formação dos Sem Terra, em uma reunião em Havana”. Assim era vida de François Houtart. Morreu trabalhando. Reproduzimos uma conferencia feita em 2014 em Cuba no contexto da Conferencia internacional: Con todos para el bien de todos.
Ai proferiu uma conferência esclarecedora sobre o tema da nova modernidade que nos ajuda a entender o mundo atual

                     UNA NUEVA MODERNIDAD PARA EL BIEN DE TODOS

La preocupación principal de esta contribución es de proponer algunas hipótesis a propósito del papel de la concepción de la modernidad en el colapso progresivo del sistema capitalista y en la incapacidad del socialismo de construir una verdadera alternativa. Como pensar el futuro y orientar la acción de los movimientos populares? Por eso es necesario recordar brevemente la historia de la construcción del concepto de modernidad.

 

  1. LA MODERNIDAD EN CUESTIÓN: SU COOPTACIÓN POR LA LÓGICA DEL MERCADO[1]

 

  1. Las visiones iniciales

 

La reflexión tomara por base la obra de muchos autores que han reflexionado, desde distintos ángulos, la historia del capitalismo y la modernidad, tales como Max Weber, Fernand Braudel, Walter Benjamin, Michel Baud, Maurice Godelier, Eric Hobsbawn, Immanuel Wallerstein, Jorge Beinstein, Samir Amin y otros.

 

En Europa, el desarrollo de la modernidad siguió al prolongado periodo que medió entre la sociedad medieval y el nacimiento del capitalismo mercantil, entre los siglos XII y XVI. En los siglos XII y XIII se desarrollaron formas de proto-capitalismo, sobre todo en las ciudades del norte de Italia, gracias al incremento de las actividades comerciales con Europa Oriental (los Bogomiles). Como la vida transcurría en sociedades dominadas por culturas religiosas no es extraño que las instituciones y los actores religiosos desempeñaran un papel central en esta evolución.

 

En el siglo XIII, Tomás de Aquino (1225-1274) introdujo la racionalidad aristotélica no solo en el terreno de la teología, sino también en el del pensamiento socioeconómico acerca de la organización política de las sociedades, con lo que creó un vínculo entre la Edad Media y una modernidad que fue rápidamente absorbida por la lógica del mercado. El papel de los grandes pensadores árabes fue determinante en ese momento, ya que eran verdaderos puentes culturales entre las tradiciones filosóficas griegas y la Europa medieval. En centros de transformación económica y social (Boloña y París), Tomás de Aquino fue particularmente sensible a la necesidad de un nuevo enfoque intelectual y una adaptación del pensamiento cristiano. La renovación de la filosofía griega, con su racionalidad rigurosa, era bastante funcional para una transformación del campo económico exigiendo nuevos códigos y una nueva ética. Fue un proceso bastante similar al nacimiento del budismo en las civilizaciones urbanas del Siglo VI antes de nuestra era en Asia.

 

En la perspectiva tomista, haciendo el puente entre una sociedad medieval con referencias religiosas y la racionalidad griega como instrumento de una nueva lectura de las relaciones económicas y sociales, el orden establecido por Dios se basa sobre la propiedad colectiva de la tierra, lo que es de derecho natural. La propiedad privada es legítima y de derecho positivo, a condición de respetar sus funciones sociales. Así se establece la base del capitalismo, pero regulado por la dimensión colectiva.

Sin embargo, la introducción de una nueva lógica mercantil fue al origen de contradicciones sociales que irán acentuándose con el tiempo. Ya Francisco de Asís (1181-1226) y sus seguidores habían reaccionado contra las relaciones sociales surgidas de la consolidación de la burguesía urbana, iniciando una corriente de protestas que tomaron varias formas. A la vez, la legitimación religiosa de las conquistas occidentales, desde las Cruzadas hasta el posterior “descubrimiento” del Nuevo Mundo, e incluso la justificación de la esclavitud africana (para no mencionar el papel de árbitros desempeñado por los papas en la definición de los límites de los territorios imperiales), fortaleció la identificación entre la modernidad (a la que se denominaba civilización) y la expansión económica. El derecho internacional nació como derecho al comercio internacional, justificado por el precepto divino de desarrollar la tierra. Similares argumentos emplearon después los colonos de la América del Norte para exterminar a las poblaciones indígenas.

 

Como efecto de la conquista, la economía de la península ibérica se transformó completamente. Miles de toneladas de plata y de oro entraron en España, provocando una superinflación y la desaparición de la industria linera, que se desarrolló en Inglaterra. A partir del siglo XVI, la necesidad de ovejas para las empresas lineras llevó la burguesía naciente a establecer barreras (enclosures) sobre las tierras comunes (commons), proceso que Carlos Marx llamó la acumulación primitiva del capitalismo y que David Harvey analizó en términos de acumulación por despejo.

 

Se desarrolló también en Inglaterra un pensamiento filosófico nuevo, con Thomas Hobbes (1588-1679) y John Locke (1632-1704). El primero introdujo la idea del contrato social entre individuos, concepto desarrollado en seguida por el segundo. Para Locke, la propiedad privada es el fundamento de la nueva sociedad y es de derecho natural (lo que fue criticado por Immanuel Kant, 1724-1804). El mercado auto-regulado se construye sobre el individuo autónomo y el derecho a poseer. La libertad es la auto-posesión. Es el pacto social entre individuos que constituye la sociedad analizada como contractual. Esta concepción tendrá su influencia sobre Jean Jacques Rousseau (1712-1778).

 

Siguiendo su pensamiento inspirado de la evolución económica, Locke observa también que el dinero se transforma en capital y remplaza el contrato. Por eso, el valor de cambio se transforma en el fundamento de la organización social. Ya aparece la separación entre el ser humano y la naturaleza, concebida como un objeto y reducida a un recurso inagotable. De manera muy clara, una tal visión corresponde a los intereses de la nueva clase en expansión, la burguesía y la visión de la sociedad subordinada a la ley del mercado y establece las bases ideológicas y jurídicas del capitalismo (Álvaro Ramis Olivos, 2014).[2]

 

La figura la más destacada de esta corriente de pensamiento fue evidentemente, en el siglo XVIII, el filósofo moralista escoces Adam Smith (1723-1790). Él había conocido en Francia, los fisiócratas François Quesnay (1694-1774) y Jacques Turgot (1727-1781) y fue también muy cercano de David Hume (1711-1776) en Inglaterra, que continuaba la línea de pensamiento de John Locke. Para Smith, el bienestar humano depende del crecimiento económico. La división del mercado (para reducir los costos) y la acumulación del capital, son las condiciones del desarrollo de la economía. El introdujo también las nociones de valor de uso y de valor de cambio y la idea que el mercado es el mecanismo el más adecuado para la asignación de recursos. El comercio internacional se base sobre la “ventaja absoluta” más tarde nombrada ventaja comparativa.

 

En el continente, la reforma calvinista del siglo XVI fue, por su parte, el resultado de un largo proceso de adaptación de la ética religiosa a las necesidades del nuevo grupo dominante en el centro del continente europeo: la burguesía urbana. Max Weber mostró con claridad la afinidad existente entre la ética protestante y el espíritu del capitalismo, pero no logró descifrar el origen social del fenómeno, es decir su carácter de clase. La posterior secularización del concepto de progreso económico como expresión de la modernidad no cambió su filosofía fundamental. Por el contrario, aumentó su fuerza al abandonar una referencia religiosa considerada pre-moderna y se vio obligado a encontrar una nueva legitimación ideológica.

 

René Descartes (1596 – 1650), matemático y gran conocedor de las ciencias naturales de su época, desarrolló no solamente su discurso sobre el método, sino también la idea que los hombres son los “dueños y señores” de la naturaleza. La aplicación del espíritu científico a la relación con esta última es el centro de la preocupación. Sin embargo, es el Siglo de las Luces (1715 – 1789) que desarrollara esta perspectiva de manera sistemática. La idea de base era la primacía del espíritu científico y la capacidad del hombre de ser orientado por la razón. De ahí el rechazo de la metafísica y su remplazo por la razón experimental. El desarrollo de las ciencias y de las técnicas al servicio del mercado permite a los seres humanos de ser liberados de los ciclos de la naturaleza. Se perdió la visión holística de lo real, identificada como una percepción religiosa y ella fue remplazada por el progreso científico segmentado. Es así que nació el aislamiento de la economía de la sociedad y su capacidad de imponer sus leyes al conjunto social. El progreso técnico empezó a aplicarse en la agricultura y en la industria. (Álfaro Ramis, 2014).

 

Uno de los protagonistas de este tipo de progreso fue Nicolas de Condorcet (1743 – 1794). Gran sabio en varios dominios él tenía sin embargo ideas sociales y afirmaba que el progreso no era posible sin igualdad social. Murió encarcelado por los jacobinos, porque se opuso a la pena de muerte. Biógrafo de Turgot, el fisiocrato, él defendía la idea de un progreso continuo (J. Buzy, 2009).

 

Así todos los elementos para la explicación y la legitimación del capitalismo maduro estaban reunidos: la propiedad privada como derecho natural, el individuo como origen de la sociedad contractual, la naturaleza como recurso inagotable, el valor de cambio como base de la construcción social, la razón al servicio del mercado, el progreso lineal e indefinido. El resultado será la identificación entre el capitalismo y la modernidad.

 

La modernidad se definió entonces como progreso humano, lineal en su orientación, impulsado por la acumulación capitalista, fruto de la laboriosidad de la burguesía y fuente de un avance ininterrumpido. Desde el punto de vista político, el punto de giro que fue al origen del poder de esta clase social, fue la Revolución Francesa. Ella consagró el poder de esta clase social, con sus valores de emancipación del orden medieval, del carácter laico del Estado y de los Derechos Humanos, pero también como actor privilegiado de un progreso económico lineal, ignorando las externalidades (daños ecológicos y sociales) y de tipo sacrificial (millones de personas mueren en función de un bien futuro). Podemos concluir con Bolivar Etcheverría (1941 – 2010) que se desarrolló “un concepto del progreso que amenaza con destruir el objetivo estaba llamado a realizar: la idea del hombre” (Bolivar Etcheverría, 1994).

 

En ese proceso resultó central el papel de la ciencia y de la tecnología. El conocimiento, liberado del abordaje holístico de sociedades previas, fue capaz, al emanciparse gradualmente del ritmo de reproducción de la naturaleza, de avanzar autónomamente en muchos terrenos. Ese fue el inicio de una tremenda expansión científica, absorbida rápidamente por la ley del valor y, como la mayoría de las actividades humanas, instrumentalizada por los intereses de la burguesía capitalista. Sometidas al valor de cambio, la ciencia y la tecnología contribuyeron a la expansión sin frenos del capitalismo, que se identificó con la modernidad y que contribuyó, a su vez, con la desatención a las externalidades típica de la lógica capitalista y resultado de la pérdida de un abordaje holístico de la realidad. Eso contribuyó a hacer de la ciencia “el paradigma de todo conocimiento” y a extinguir un “humanismo auténtico que quería salvar la vida”, como señalara Bolívar Echeverría. De verdad, la autonomía relativa de los fenómenos culturales, una vez desarrollados, hizo que la sumisión de la ciencia no fuera total ni automática. El proceso fue más complejo.

 

La invención y la racionalidad científicas tenían una fuerza propia, pero condicionada por el medio de su emergencia (las condiciones materiales de su desarrollo fueron factores muy importantes) y la utilización de sus resultados como de las técnicas necesarias a su fase operacional fueron dominadas por los intereses económicos. Eso no impide que en la modernidad se hayan promovido valores positivos para la emancipación humana. En sus raíces, ella contenía, como lo hemos dicho, la laicidad del Estado, el rechazo de la esclavitud, la autonomía del pensamiento, el análisis de la sociedad en términos de estructuras, la crítica del poder, y la creación de un “hombre nuevo”. Por eso la crítica de la modernidad no puede caer en una filosofía pos-moderna negativita y debe redefinirse.

 

El desarrollo del capitalismo industrial y financiero fue la expresión más dura de esta lógica, que produjo nunca como antes una cantidad de bienes y servicios, pero que con su alienación del trabajo y sus conquistas coloniales provocó millones de pérdidas de vidas humanas, el agotamiento de la riquezas naturales y el desequilibrio climático que conocemos ahora.

 

 

  1. Las reacciones contra la modernidad dominada por el espíritu del capitalismo

 

La identificación entre modernidad y desarrollo capitalista ha provocado, por supuesto, muchas reacciones, sobre todo a partir del siglo XIX. En Occidente, el socialismo utópico ha sido una de ellas, pero también ha habido muchas otras, no solo en el pensamiento filosófico, sino también en el arte, la arquitectura, el urbanismo e incluso en movimientos sociales (feministas). El propio Carlos Marx (1818-1883) hizo una contribución a un enfoque crítico, sin emplear el concepto de modernidad como un eje de su reflexión. Marx desentraño los mecanismos de la acumulación capitalista basada en la ley del valor y mostró las contradicciones generadas por la ruptura del metabolismo entre la naturaleza y los seres humanos, así como por las relaciones sociales de producción, las manifestaciones concretas de la modernidad capitalista. Sin embargo, en los países socialistas el concepto siguió entendiéndose como un progreso lineal en un planeta inagotable. Es necesario explicar las razones de que ello fuera así, porque sus consecuencias perviven.

 

Se puede establecer como hipótesis, sin entrar en detalles, que las revoluciones socialistas del siglo XX adoptaron de manera acrítica la noción de modernidad, sin tener en cuenta las advertencias de Carlos Marx sobre la ruptura del equilibrio del metabolismo. La Unión Soviética destruyó la naturaleza en gran escala, bajo el pretexto del progreso. China no ve otro modo de desarrollar las fuerzas productivas sino por el pasaje por un proceso de extractivismo intenso y de producción industrial contaminante, por lo menos como una transición hacia el socialismo. Los países progresistas de América latina han querido salir del “atraso” con la misma concepción. El código forestal del Brasil habla de favorecer “la agricultura moderna” y Rafael Correa en Ecuador afirma que la meta es de construir “un capitalismo moderno”. Solamente Hugo Chávez, los últimos años de su mandato, empezó a hablar de “eco-socialismo”.

 

Continuando este rápido panorama de la esfera del pensamiento social y filosófico, cabe citar la contribución de Antonio Gramsci (1891-1927), quien subrayó que la cultura era un elemento central de la construcción social y la transformación de las sociedades. Según Gramsci, la hegemonía de la lógica capitalista no puede explicarse solamente por su poder material: necesita colonizar las mentes. Por tanto, su identificación con el progreso y la modernidad le resulta vital. El enfoque más crítico a la modernidad como parte integral del sistema capitalista ha sido el de la Escuela de Frankfurt, en especial el de Walter Benjamin (1892-1940) y de Max Horkheimer (1895-1973).

 

Para Benjamin, la modernidad es la marcha de la humanidad hacia un progreso externo a sí misma, al que llama “modernidad capitalista”, que se caracteriza por el papel primordial que ocupa en ésta el valor de cambio. De ahí que la recuperación de la modernidad implique la reintroducción del valor de uso (y otras dimensiones de valor). El reto consiste en construir una modernidad no capitalista, “que restaure los reales avances que ha logrado la humanidad en los últimos cinco siglos, y que han sido, a la vez, sometidos a la deformación capitalista, cada día más invasiva” (Carlos Antonio Rojas, 2010).
Max Horkheimer, en su obra Critica de la Razón instrumental (2010), define la modernidad como “era de la razón”. Para él hubo un pasaje entre una concepción objetiva de la razón y una perspectiva subjetiva.” Este predominio de una razón subjetiva o instrumental que devora la razón objetiva en la modernidad, escribe Xavier Giraldo, s.j., en la visión de Horkheimer, desata un conflicto entre naturaleza y razón que atraviesa toda la modernidad, al mismo tiempo que transforma radicalmente el papel y la comprensión del individuo” (Xavier Giraldo, 2010, 179). La consecuencia es el sojuzgamiento de la naturaleza, aun la que hay en el sujeto, en medios que “no transciendan la sociedad industrial” (Ibidem, 180). Se tendría que añadir varios otros análisis, como lo hace Xavier Giraldo, tales como críticas a las posiciones de Max Weber, o citas de las obras de Jürgen Habermas y Alain Touraine. La dimensión sicológica de la modernidad fue estudiada posteriormente por Michel Foucault (1926- 1984) en Francia y Eric Fromm (1900-1980), el siquiatra marxista, en los Estados Unidos. El debate no está concluido.
El movimiento de Mayo del 68, protagonizado fundamentalmente por estudiantes, tuvo lugar en Europa hacia las postrimerías del auge económico del período de posguerra. Este movimiento puso de manifiesto las contradicciones entre un sistema capitalista próspero y los valores culturales de la libertad, la estética y la espiritualidad. En un cierto sentido la influencia del pensamiento de Federico Nietzsche (1844- 1900) se hizo sentir, con la introducción de otros elementos que la racionalidad pura (el sueño, lo dionisiaco). Se extendió a grupos sociales similares de todo el mundo, pero no logró llegar a las raíces de lo que era, de hecho, una “modernidad vulnerada”. Se había despejado el camino en Occidente para el despliegue de la posmodernidad en sus versiones radical y moderada. La primera rechazaba todos los aspectos estructurales de la realidad, y se convirtió en la mejor compañera ideológica del neoliberalismo. La segunda contribuyó de diversas maneras a formular un enfoque crítico sobre la modernidad occidental asociada con la hegemonía global del capitalismo.

3.Las reacciones en la periferia del capitalismo central

En toda la periferia del capitalismo mundial se desarrollaron procesos críticos similares, según las diferentes condiciones de cada lugar, pero fue progresivo. Al principio se produjo una verdadera fascinación con una economía capaz de producir bienes y servicios como nunca antes, lo que creaba nuevas oportunidades para que las élites sociales y gobernantes locales reprodujeran su hegemonía social, e incluso para que se sumaran a ellas algunos individuos inteligentes y dinámicos de los estratos más bajos de la sociedad. Era la modernidad (en la India, el brown sahib), que entre los intelectuales, se vio acompañada por un buen conocimiento de los elementos culturales de la filosofía, el arte y la literatura occidentales. El filósofo ecuatoriano Bolívar Echeverría la ha llamado “la modernidad de lo barroco” (Bolívar Ercheverría, 1999). También tuvo repercusiones en el terreno político, con la adopción de nuevas formaciones políticas, como la de Sun Yatsen (1866-1925) –considerado el padre de la China moderna-, a inicios del siglo XX en ese país. Iniciativas de modernización política y social similares surgieron en casi todos los países asiáticos, como el Congreso Nacional de la India, fundado en fecha tan temprana como 1885; la Liga Awami (1949) en Bangladesh; el Partido Nacional Unido (1946) y el Partido de la Libertad (1951) en Sri Lanka; el Soka Gakkai (1930) en Japón y, tras la independencia, en muchos países africanos.

Pero simultáneamente, la destrucción de estructuras sociales y culturales previas también provocó reacciones. En muchas sociedades se realizaron esfuerzos intelectuales para reconciliar la modernidad occidental con los valores tradiciones. Ese fue el caso de la India, por ejemplo, de Vivekananda (1863-1902) y de Sri Aurobindo (1872-1950). Sin embargo, todos ellos aceptaban implícitamente la superioridad de Occidente. Similar orientación puede encontrarse en las grandes culturas y religiones orientales; en la tradición budista hanayana de Sri Lanka o en las diversas formas de budismo mahayana de China y Vietnam, e incluso en el budismo tántrico del Tíbet. El confucianismo ha sufrido muchas adaptaciones sutiles a la modernidad occidental, hasta el punto de poner en jaque la singularidad del papel de la ética protestante como promotora del espíritu del capitalismo. En el mundo islámico de los países árabes y de Irán, Paquistán e Indonesia, se aprecian tendencias similares.

En otros casos, el énfasis se ha puesto en la capacidad de resistencia de las culturas no occidentales a la penetración de la colonización mental que ha acompañado a la dominación económica y política. Tolstoi (1828-1910) y muchos otros intelectuales rusos, junto a innumerables movimientos religiosos y campesinos, son ejemplos de tal reacción. En la India, Gandhi (1869-1948) promovió un regreso a formas tradicionales de vida y, a la vez, un renacimiento de la ahimsa (respeto por la vida) como un instrumento para la acción política (la no violencia). En África, el concepto de negritud propuesto por Leopold Senghor (1906-2001) para reconstruir la identidad africana era una manifestación de la misma tendencia. Franz Fanon (1925-1961) fue aún más allá con su denuncia de la devastación cultural producida por el colonialismo como resultado de la lógica del capitalismo.

 

En Irán, la obra del filósofo y sociólogo Ali Shariati (1933-1977) abogaba por una nueva lectura del Islam asociada con una crítica al capitalismo. Shariati había sido amigo de Franz Fanon y estaba influenciado por el egipcio Jodat al-Shahhar. Murió muy joven, probablemente asesinado por la policía secreta del sha. El ingeniero sudanés Mahmoud Mohamed Taha (1909-1985) fundó un partido de orientación socialista y propuso una nueva interpretación del Corán Mahmoud Mahomed Taha, 2002). Fue ahorcado en Jartum por sus ideas sociales y religiosas no convencionales. En la India, el filósofo y sociólogo Ashis Nandy (1937-…), inspirado en Rabindranath Tagore, propuso construir un nuevo proyecto social a partir del contexto histórico y cultural del país a fin de promover una liberación colectiva del neoliberalismo opuesta a hindutva (el nacionalismo indio). También en la India, estudiosos marxistas de Kerala (Namboodiripad) y Bengala Occidental (Bagshi) elaboraron posiciones más radicales, aunque en ocasiones menos relacionadas con las raíces culturales históricas del país.

 

En América Latina, el reavivamiento de los pueblos indígenas a fines del siglo XX le planteó un fuerte desafío a la modernidad occidental. Para ellos, ésta había significado quinientos años de opresión y destrucción cultural. Se recuperaron conceptos como los de Sumak Kawzay (quechua) y Suma Qamaña (aymara), que significan buen vivir, para expresar la necesidad de establecer una armonía entre la “madre tierra” y los seres humanos, entre las comunidades y el bienestar personal. La base fundamental de esa visión del mundo es un abordaje holístico de la realidad ante las dramáticas consecuencias de la modernidad capitalista.

 

También en América Latina, la filosofía de la liberación y la teología de la liberación (Enrique Dussel (1998) elaboraron posiciones críticas sobre el sistema capitalista, al que consideraron “periférico” y dependiente en el subcontinente. En fecha más reciente, ello ha conducido a una mayor conciencia sobre las dimensiones ecológicas de la modernidad y su destrucción de ecosistemas y del medio ambiente natural[3].

 

Uno de los filósofos marxistas que mejor ha abordado el tema ha sido el ya mencionado Bolívar Echeverría, quien estudió en Alemania y trabajó en la Universidad Nacional Autónoma de México. Inspirado en Walter Benjamin, habló sobre las “ilusiones de la modernidad” (Bolivar Etcheverría, 1994) debido a su absorción por el capitalismo. El resultado es que la crisis del capitalismo conduce a la crisis de la modernidad. Esta es una realidad global, porque la historia reciente ha consistido en “la modernidad capitalista y ‘europeizante’ del planeta” (Bolivar Etcheverría, 2010, 21)). Ha globalizado “la experiencia del mercado como lugar privilegiado de socialización”. Ello se explica porque el valor de uso, o “la real presencia de las cosas en el mundo […] depende de su existencia como valor económico” (Ibidem, 41).

 

Para Echeverría, el sistema de satisfacción de las necesidades construido por el capitalismo solo puede mantenerse gracias a un sistema de capacidades productivas que lesiona a la sociedad como un todo y agota sus bases naturales. Ese sistema social cínico, orientado por el incremento infinito de los beneficios del capital, no solo es resultado de un modo de producción, sino de toda una civilización (Ibidem, 40). Por tanto, la modernidad capitalista tiene que ser puesta en jaque, tanto intelectualmente como en la práctica, y el Sur es un lugar estratégico para librar esa lucha.

 

Todas esas experiencias que han tenido lugar en el Sur –y podrían añadirse muchas otras- evidencian la necesidad de un nuevo paradigma que se exprese de diversas maneras. Las revoluciones socialistas ocurridas en la periferia del sistema capitalista central han constituido un desafío para el imperialismo colonial y la organización específica de las relaciones sociales de producción de ese sistema económico. Han introducido una respuesta más universal a las necesidades sociales e individuales. Pero no han cambiado, a fondo, el concepto de modernidad como progreso lineal en un planeta supuestamente inagotable. No se han emancipado de una visión históricamente introducida por la lógica del capitalismo. Ahora que esa lógica nos conduce a una crisis fundamental e irreversible, la tarea principal debería ser la de concebir otra manera de desarrollar las fuerzas productivas: una manera que no tenga como base la destrucción ambiental y el sacrificio humano por la supremacía del valor de cambio, sino que responda a las necesidades sociales y a la regeneración de la madre-tierra.

 

Ha llegado el momento de cambiar de perspectivas. En La gran transformación, Karl Polanyi (1886-1964) demostró con suma efectividad que el capitalismo desarticulaba la economía del conjunto de la sociedad y luego imponía su ley (la ley del valor) como la forma básica de organización y funcionamiento de la sociedad. Hay que reinsertar la economía en la sociedad como un todo, incluidas sus relaciones con la naturaleza (Karl Polanyi, 2001). Si de eso se trata el socialismo, entonces, es más que un cambio de las relaciones sociales de producción. Exige un cambio en la visión del mundo. Esto es mucho más que una regulación del sistema capitalista o la adaptación de la lógica del mercado para que responda a nuevas exigencias ecológicas y sociales. Necesitamos un cambio de paradigma, un nuevo acercamiento holístico a la realidad.

 

Es por eso que el neo-keynesianismo, o las propuestas de la Comisión Stiglitz sobre la crisis monetaria y financiera (Joseph Stglitz, 2010), o las soluciones sumamente parciales propuestas por Thomas Piketty, para reducir las distancias sociales sin una lucha de clases (Thomas Picketti, 2014), así como la llamada “economía de mercado social”, son respuestas insatisfactorias. Puede que inspiren algunas medidas para la transición, pero solo a condición de que estén guiadas por otra concepción de la vida colectiva de la humanidad en el planeta, y ello supone una reconstrucción del imaginario entorno a la modernidad.

 

  1. UN PARADIGMA CENTRADO SOBRE LA REPRODUCCIÓN DE LA VIDA

 

La modernidad post-capitalista parte de una visión holística en la cual la reproducción de la vida humana depende de la reproducción de la vida natural. Como se escribe en un libro colectivo (François Houtart et al., 2016) “La modernidad post-capitalista no pretende tomar una posición antropocéntrica sino conectar los ciclos de vida natural con aquellos de la vida de la especie humana a través del tiempo. La economía en la modernidad post-capitalista exige por lo tanto no sólo una nueva vinculación de la economía formal con la sustantiva, sino además la supeditación de la primera a la segunda. Lo anterior implica dirigir la política económica y hacer la contabilidad social desde el punto de vista del contenido. Este nuevo punto de vista implica enfocar las políticas bajo la óptica de la reproducción de la vida concreta, en vez de enfocar la reproducción del dinero como capital”.

 

Por eso se propone el concepto de Bien Común de la Humanidad, como paradigma de vida, lo que fue desarrollado en un libro publicado por el Instituto de Altos Estudios Nacionales de Quito (François Houtart, 2015). Basado sobre los cuatro ejes fundamentales de la vida colectiva en el planeta: relación con la naturaleza, construcción de la base material de la vida, organización colectiva y cultura, esta noción va más allá que la reconquista de los bienes comunes y que el concepto clásico del bien común. Sin embargo los incluye.

 

Para aplicar este paradigma alternativo al del capitalismo, se trata de elaborar su aplicación a los cuatro ejes citados. Como pasar de la explotación de la naturaleza como un recurso natural al respeto de la madre-tierra como fuente de toda vida, física, cultural, espiritual En segundo lugar, ¿como pasar de la prioridad del valor de cambio al predominio del valor de uso? En tercera instancia, como generalizar los procesos democráticos en todas las instituciones y relaciones sociales? Y finalmente como crear la interculturalidad? Propuestas concretas, basadas sobre experiencias existentes, que permiten decir que este paradigma no es una utopía en el sentido de una ilusión. La cuestión de fondo es como definir las transiciones, porque el capitalismo, a pesar de su crisis sistémica, no va desaparecer mañana. Se trata de una lucha social a largo plazo.

 

Dentro de este proceso se inscribe la redefinición de la modernidad, no en el sentido del pos-modernismo contemporáneo en filosofía y en ciencias sociales, sino dentro de una visión holística y una definición de las transiciones. Podemos ahora entrar en más precisiones.

 

  1. Otras relaciones con la naturaleza

 

La afirmación de una nueva concepción de las relaciones con la naturaleza, conlleva muchas consecuencias prácticas. Citaremos algunas de ellas a título de ejemplos, reagrupándolas en tres partes: las prohibiciones o limitaciones, las iniciativas positivas y lo que eso implica para una política de relaciones exteriores.

 

En la primera perspectiva, la aplicación consiste en no aceptar la propiedad privada de lo que se llama ‚los recursos naturales‛, es decir los minerales, las energías fósiles, las selvas. Se trata de un patrimonio común de la humanidad que no puede ser apropiado por individuos y corporaciones, siguiendo la lógica de la economía de mercado capitalista, es decir en función de intereses privados ignorando las externalidades y orientados por la maximización de la ganancia. Un primer paso en una transición consiste en la recuperación de la soberanía de los Estados sobre sus riquezas naturales, pero aún eso no asegura el resultado esperado de una buena relación con la naturaleza. Empresas nacionales actúan a menudo dentro de la misma lógica y en este sentido, la soberanía estatal tendría que integrar la filosofía del respeto en vez de la explotación. La internacionalización de este sector sería el paso ulterior, condicionado sin embargo por una real democratización de las instituciones de esta índole (las Naciones Unidas y sus órganos), que en muchos casos están bajo la influencia de los poderes hegemónicos políticos y económicos. Dentro de esta misma perspectiva la exigencia de introducir los costos ecológicos de toda actividad humana en los cálculos económicos permitiría reducir estos últimos y contrariar la racionalidad instrumental excluyendo las externalidades, que fue unas de las bases del carácter destructivo del capitalismo.

 

Otro aspecto es el rechazo de la mercantilización de los elementos necesarios a la reproducción de la vida, como el agua y las semillas. Son bienes comunes que deben salir de la lógica de la mercancía y entrar en una perspectiva de gestión común según varias modalidades, que no implican necesariamente la estatización, sino el control colectivo. De manera todavía más concreta, este principio implicaría poner fin a los monocultivos que preparan las regiones inhabitables del futuro, en particular en materias de alimentos para el ganado y de agro-combustibles. Una tasa sobre los kilómetros recorridos por los productos industriales o agrícolas permitiría reducir tanto el uso de energía como la contaminación de los mares. Otras medidas similares podrían ser también pensadas. De manera positiva, las reservas de biodiversidad tendrían que de ser extendidas a más territorios.

 

La promoción de la agricultura orgánica haría parte de este proyecto, como el mejoramiento de la agricultura campesina, más eficaz a largo plazo que la agricultura productivista capitalista (Olivier De Schutter, 2011). Exigir una prolongación de la esperanza de vida de todos los productos industriales permitiría un ahorro de materias primas, de energía y una disminución de la producción de gases a efectos invernaderos (Wim Dierckxsens, 2011).

 

Finalmente en el orden de la política internacional, la lucha contra las orientaciones de base de las instituciones financieras que contradicen el principio del respeto de la naturaleza comporta un gran número de capítulos. Se trata del Banco mundial, del Fondo monetario internacional, de los Bancos regionales y también de la regulación de la Banca privada, tan poderosa en este tiempo de financierización de la economía mundial. Las orientaciones de la OMC a favor de la liberalización del comercio mundial, también tienen sus vertientes ecológicas, porque ella se realiza en mayor parte dentro de la ignorancia de las externalidades. Países miembros de esta organización internacional tienen una gran responsabilidad en este sector y alianzas entre naciones ecológicamente conscientes podría influir sobre las decisiones.

 

La promoción de convenciones internacionales es otro sector de gran importancia. Se puede citar a título de ejemplos, las convenciones sobre el clima (COP21 de Paris), la biodiversidad (Conferencias de Bonn y Nagoya), sobre la protección de las aguas (ríos y mares), sobre la pesca, sobre los deshechos (en particular nucleares) y varias otras. El grado de sensibilidad a esta dimensión de los nuevos paradigmas sería a la base de la eficacia internacional de los Estados progresistas y podría figurar a la agenda de su política exterior.

 

Entonces, la redefinición del Bien Común de la Humanidad en función de la relación con la naturaleza es una tarea esencial frente a los daños ecológicos y a sus consecuencias sobre la capacidad regeneradora del planeta como sobre el equilibrio climático. Eso es un hecho nuevo en la consciencia colectiva, pero lejos de haber ya sido compartido por todos los grupos humanos.

 

Las sociedades socialistas no integraron realmente esta dimensión en sus perspectivas y eso se comprueba todavía hoy en el espectacular desarrollo económico de un país como China que se realiza sin dar mucha atención, por lo menos inmediata, a las externalidades. En cambio, un socialismo del siglo XXI tendrá que integrar este elemento como central.

 

  1. La subordinación del valor de cambio al valor de uso

 

El cambio de paradigma en su relación con la economía consiste en privilegiar el valor de uso en vez del valor de cambio, como lo hace el capitalismo. Se habla de valor de uso cuando un bien o un servicio adquieren una utilidad para satisfacer las necesidades de la vida de uno. Ellos adquieren un valor de cambio cuando son el objeto de una transacción.

 

La característica de una economía mercantil es privilegiar el valor de cambio. Para el capitalismo, la forma más desarrollada de la producción mercantil, este último es el único valor‛. Un bien o un servicio que no se convierte en mercancía, no tiene valor, porque no contribuye a la acumulación del capital, fin y motor de la economía (M. Godelier, 1982). En esta perspectiva, el valor de uso es secundario y, como lo escribe István Mészarós, él puede adquirir el derecho a la existencia si se amolda a los imperativos del valor de cambio‛ (2008, 49). Aún se pueden producir bienes sin ninguna utilidad a condición de que sean pagados (la explosión de los gastos militares, por ejemplo, o los elefantes blancos de la cooperación internacional). Se crean necesidades artificiales (por la publicidad) (Wim Dierckxsens, 2011) o también se amplían los servicios financieros en burbujas especulativas. Al contrario, poner el acento sobre el valor de uso hace del mercado un servidor de las necesidades humanas.

 

De verdad, el concepto de necesidades es relativo. Cambia con las circunstancias históricas y el desarrollo de las fuerzas productivas. El principio es que todos los seres humanos tienen el derecho a satisfacer sus necesidades vitales. Es lo que la declaración Universal de los derechos Humanos afirma de manera enfática. Sin embargo, eso no se realiza en el abstracto, sino en circunstancias económicas, sociales y políticas bien determinadas. La relatividad no puede significar desigualdades injustas, los unos teniendo más necesidades que otros en función de su situación de clase, de género o de etnicidad. La satisfacción de las necesidades básicas tiene que ser definida por la comunidad a diversos niveles, dentro de un proceso democrático y por organismos competentes (parlamentos nacionales e internacionales, asambleas representativas). Es lo que se podría llamar el establecimiento de una economía moral, es decir sometida a imperativos éticos que contradicen la predominancia del valor de cambio en tanto que fuente de acumulación del capital y fin de la economía.

 

Eso no es posible sin poner en cuestión la propiedad privada de los principales medios de producción, lo que precisamente permite el ejercicio de un poder de decisión a favor de los detentores o de los gerentes de los bienes de capital y una subordinación del trabajo al capital, real (directamente por el salario) o formal (indirectamente por otros mecanismos, como políticas monetarias, déficits y deudas de los Estados, especulación sobre los precios de los alimentos y de la energía, privatizaciones de los servicios públicos, etc.)[4].

 

Es el control exclusivo del capital sobre el proceso de producción que también es al origen de la degradación del trabajo mismo (Jorge Beinstein, 2009, 21) y de la no valoración del trabajo de las mujeres, esencial, sin embargo, en la reproducción de la vida en todas sus dimensiones. De verdad, la estatización completa como contra-puesta al mercado total no es una solución satisfactoria, como las experiencias socialistas del pasado lo comprobaron. Existen una multitud de formas de control colectivo, desde las cooperativas hasta las asociaciones de ciudadanos. De ahí una definición totalmente diferente de la economía. No se trata más de producir un valor agregado en beneficio de los propietarios de los bienes de producción o del capital financiero, sino de la actividad colectiva destinada a asegurar las bases de la vida física, cultural y espiritual de todos los seres humanos en el planeta.

 

No se puede aceptar una economía mundial y nacional basada sobre la explotación del trabajo para maximizar la tasa de ganancia, ni una producción, de bienes y servicios destinados al 20% de la población mundial que tiene un poder de compra bastante elevado, dejando a los demás excluidos de la repartición, porque no producen un valor agregado y no disponen de ingresos suficientes. Redefinir la economía significa de esta forma, un cambio fundamental. Evidentemente privilegiar el valor de uso, lo que implica un desarrollo de las fuerzas productivas, debe realizarse de acuerdo con el primer fundamento, el respeto a la naturaleza y también con los dos otros que abordaremos más adelante, la a generalización de los procesos democráticos y la interculturalidad. No excluye los intercambios, necesarios también a satisfacer nuevos valores de uso, pero a condición de no crear desequilibrios en el acceso local a valores de uso y de incluir las externalidades en el proceso.

 

Crecimiento y desarrollo no son conceptos equivalentes. Es lo que los economistas neoclásicos y aún neo-keynesianos parecen olvidar. Se impuso la lógica de la acumulación como sola lógica del desarrollo. Una nueva reflexión ha tenido lugar con varias formas de expresión. Una de ella fue de retomar el concepto de los pueblos indígenas de América latina ‚ el buen vivir‛ (Sumak Kawsay) noción mucho más amplia y que implica no solamente lo contrario de un crecimiento como un fin en sí mismo, sino también la armonía con la naturaleza (Dania Quiroga, 2009, 105). Ya en los años 1960, el Club de Roma había propuesto el crecimiento cero, como solución, a lo que ya se percibía como una vía no sostenible.

 

En la Unión soviética de los años cincuenta, se publicó un libro bien original, titulado ‚Comunismo sin Crecimiento‛. La idea fue retomada de manera todavía más radical por Serge Latouche, en Francia, que lanzó, en los 1990, el concepto de Decrecimiento, lo que inspiró una serie de movimientos, principalmente en las clases medias de Europa, para reducir el consumo y respetar el entorno natural. Si el contenido es positivo y si es importante denunciar el mito pretendiendo que el crecimiento resolverá todos los problemas (Serge Latouche, 2010); la noción es bastante eurocéntrica y limitada a las clases del consumo. Parece bastante indecente predicar el decrecimiento a poblaciones africanas o aun a los empobrecidos de las sociedades industrializadas. Un concepto como el del Buen Vivir‛ tiene una connotación positiva y más amplia. En Buthan, bajo la influencia del budismo, es la noción de felicidad que fue adoptada oficialmente como meta política y social. Estos casos son tal vez pequeñas islas dentro del océano del mercado mundial, pero anuncian el desarrollo de una visión crítica del modelo contemporáneo, con una perspectiva netamente holística.

 

Desde un punto de vista negativo siempre, no se puede aceptar la prioridad del capital financiero y por eso se debe abolir los paraísos fiscales en todas sus modalidades, tanto como el secreto bancario, dos instrumentos poderosos de la lucha de clases. También establecer una tasa sobre los flujos financieros internacionales (tasa Tobin) podría reducir el poder del capital financiero. Las ‚deudas odiosas‛ deben ser denunciadas después de audits, como se hizo en el Ecuador. No se puede admitir la especulación sobre los alimentos y la energía. Una tasa sobre los kilómetros recogidos por los bienes industriales o agrícolas permitiría reducir los gastos ecológicos de transporte y el abuso de las ‚ventajas comparativas‛. Alargar la ‚esperanza de vida‛ de los productos industrializados permitiría un gran ahorro de materias primas y de energía disminuiría la ganancia artificial del capital solamente por la rapidez de su rotación (Wim Dierckxsens, 2011).

 

 

Existen dimensiones positivas. Así, privilegiar el valor de uso sobre el valor de cambio significa también redescubrir el territorio. La globalización hizo olvidar la proximidad para favorecer los intercambios globales, ignorando las externalidades y dando la prioridad al capital financiero el más globalizado de los elementos de la economía por su carácter virtual. El territorio como espacio de actividad económica, pero también de responsabilidad política y de intercambio cultural es el lugar de otra racionalidad. No se trata de reducirlo a la pequeña dimensión, sino de reflexionar en términos de multi-dimensionalidad, donde cada elemento, desde la unidad local hasta el globo tiene su función, sin hundir la una en la otra.

 

De allí los conceptos de soberanía alimentaria y de soberanía energética, que significan que los intercambios son sometidos a un principio superior, la satisfacción de las necesidades a la dimensión del territorio. En la perspectiva del capitalismo, la ley del valor impone la prioridad de la mercantilización y por eso se privilegian, por ejemplo, los cultivos de exportación sobre la producción de alimentos para el consumo local. El concepto de seguridad alimentaria no basta, porque puede ser asegurado por intercambios basados sobre la destrucción de las economías locales, la sobre-especialización de ciertos territorios y la globalización del transporte, gran consumidor de energía y contaminador del entorno.

 

En la misma línea la regionalización de las economías a la escala mundial es un paso transicional favorable, para desvincularse de un centro capitalista que transforma el resto del mundo en periferias (aún emergentes). Eso vale para los intercambios, como para el sistema monetario, redibujando así un modelo globalizador. Eso nos lleva a las medidas concretas, que son numerosas y de las cuales daremos solamente algunos ejemplos.

 

Se puede dar muchos otros ejemplos también. La economía social y solidaria se construye sobre otras bases lógicas que las del capitalismo. De verdad está todavía marginal frente a la inmensa concentración del capital oligopólico, pero es posible incentivar varias de sus formas. Lo mismo vale para las cooperativas y el crédito popular. Deben ser protegidas contra su destrucción o su absorción por el sistema dominante. Por su parte, las iniciativas económicas regionales son medios favorables a una trasformación de la lógica económica a condición de no ser simplemente una adaptación del sistema a nuevas técnicas de producción y así servir de instrumento de integración de las economías nacionales en un conjunto capitalista de nivel superior. La restauración de los bienes comunes privatizados por el neo-liberalismo es una vía fundamental en muchos dominios: servicios públicos como el agua, la energía, los trasportes, las comunicaciones, la salud, la educación, la cultura, todo lo que ahora entra en el ‚sistema de necesidades/capacidades‛). Como lo hemos dicho, eso no significa necesariamente la estatización (necesaria en varios casos) sino el establecimiento de muchas formas de control público y ciudadano sobre estas producciones y distribuciones. Redefinir el ‚Bien Común de la Humanidad‛ en función de otra definición de la economía es así una tarea necesaria, frente a la destrucción del patrimonio común, como resultado del olvido de la dimensión colectiva de la producción de la vida y de la exclusividad del individualismo.

 

  1. La generalización de los procesos democraticos

 

Un tercer eje en la revisión de los fundamentos de la vida colectiva, en función del nuevo paradigma del Bien Común de la Humanidad está constituido por una generalización de la democracia, no solamente aplicada al sector político, sino también al sistema económico, en las relaciones entre hombres y mujeres, y en todas las instituciones. En otras palabras, la democracia formal, a menudo utilizada como una manera de establecer una igualdad artificial, reproduciendo de hecho desequilibrios sociales no reconocidos, debe transformarse en la formulación política de la solidaridad. Eso implica, en particular, una revisión del concepto del Estado y una reivindicación de los derechos humanos en todas sus dimensiones, individuales y colectivas. Se trata de hacer de cada ser humano, sin distinción de raza, de sexo, de clase, un sujeto de la construcción social y así de revalorizar la subjetividad (Franz Hinkelammert, 2005). La concepción del Estado es bastante central en este dominio.

 

El modelo de Estado centralizado, borrando todas las diferencias para construir ciudadanos en principio iguales, no basta para llegar a una verdadera democracia. Sin duda fue un paso adelante frente a las estructuras políticas del Antiguo régimen europeo. Hoy día no solamente se debe tener en cuenta las oposiciones de clases que permiten a una o a una coalición de estas, apodarse de los aparatos del Estado para establecer la dominación de sus intereses, sino también las varias nacionalidades que constituyen un territorio y que tienen el derecho de reivindicar sus culturas, sus referencias territoriales, sus instituciones sociales. No se trata de caer en un comunitarismo debilitando el Estado, como en ciertos países europeos de la era neoliberal, ni de regresar a un pasado romántico, como ciertos movimientos político-religiosos, ni de aceptar sin crítica el neo-anarquismo de ciertas protestas legítimas y masivas, ni de caer en la trampa de los poderes económicos (empresas transnacionales o instituciones financieras internacionales) que prefieren negociar con entidades locales de pequeña dimensión. El objetivo es llegar a un equilibrio entre estas diversas dimensiones de la vida colectiva, internacionales, regionales, locales, reconociendo su existencia e instaurando mecanismos de participación.

 

El papel del Estado no puede ser concebido sin tener en cuenta la situación de los grupos sociales los más marginalizados, los campesinos sin tierra, las castas inferiores y los dalits (fuera de castas) ignorados desde hace milenios, los pueblos indígenas de América y los afro-descendientes excluidos desde hace más de 500 años y en estos grupos, las mujeres a menudo doblemente marginalizadas. Procesos jurídicos, aún constitucionales, no bastan para cambiar la situación, aún si son útiles. El racismo y los prejuicios no desaparecen rápidamente en ninguna sociedad. En este sector el factor cultural tiene una importancia grande y puede ser el objeto de iniciativas específicas. Las políticas sociales, de protección contra las agresiones del mercado total y permitiendo la satisfacción de las necesidades de base, constituyen un paso importante de la transición, a condición de no ser solamente asistencialistas y desvinculadas de reformas estructurales. Políticas fiscales juegan un papel central en este dominio para ofrecer soluciones estructurales.

 

La generalización de los procesos democráticos vale también para el diálogo entre las instancias políticas y los movimientos sociales. La organización de instancias de consulta y de diálogo pertenece a la misma concepción, respetando la autonomía mutual. El proyecto de un Consejo de movimientos sociales en la arquitectura general del ALBA es una tentativa original en este sentido. El concepto de sociedad civil a menudo utilizado a este propósito no deja de ser ambiguo, porque ella es también el lugar de las luchas de clases: existen en realidad una sociedad civil de abajo y una de arriba y la utilización no calificada del término, permite muchas veces crear la confusión y presentar soluciones sociales que ignoran las diferencias de clases[5]. Por otra parte, formas de democracia participativa, como se encuentran en varios países latino-americanos entran también la misma lógica de democracia generalizada. Una independencia real de los diversos poderes ejecutivo, legislativo y judicial es una garantía de funcionamiento democrático normal.

 

Un Estado democrático debe ser también laico, es decir sin la intervención de instituciones religiosas mayoritarias o no, en los órganos de poder del Estado. Al mismo tiempo es la base de la libertad religiosa. Eso no significa un Estado laicista, no reconociendo la dimensión pública del factor religioso (la dimensión ética social de la Teología de la Liberación, por ejemplo) ni tampoco, como eso fue el caso en países del ‚socialismo real‛, estableciendo el ateísmo como casi-religión de Estado. Otras instituciones son concernidas por el mismo principio. Nada menos democrático que el sistema económico capitalista, con la concentración del poder de decisión en pocas manos. Lo mismo vale para los medios de comunicación social y se aplica también a todas las instituciones sociales, sindicales, culturales, deportivas, religiosas.

 

Asociada con los procesos democráticos, está evidentemente la noción de no-violencia. Los conflictos tienen resolverse en las comunidades humanas, desde la familia hasta el orden internacional, vía mecanismos no-violentos adecuados, formales o informales, de resolución. Se debe distinguir entre ejercer la fuerza y utilizar la violencia. El concepto de ‚violencia legítima‛ utilizado por el sociólogo alemán Max Weber, es peligroso, porque llega a una justificación fácil, por ejemplo, de guerras recientes, como en Irak, en Afganistán o en Libia. Sin embargo, si la no-violencia es el principio, lo deseable y deseado, la situación real es la de un mundo violento. Las razones son casi siempre la búsqueda de una hegemonía económica o política. En la historia moderna, la reproducción del capitalismo como sistema ha sido un factor prepotente, tanto para la acumulación del capital interno (el complexo militaro-industrial), como para asegurar el predominio de una nación sobre otra, como finalmente por el control de los recursos naturales (petróleo y metales estratégicos).

 

Los argumentos culturales y religiosos han sido generalmente, de manera consciente o no, legitimaciones ideológicas capaces de motivar pueblos y muchedumbres, en conflictos de naturaleza económica o política. Fueron también armas inmateriales de grupos oprimidos buscando la justicia. Así, como las dictaduras, las guerras son el fracaso de la democracia y significan una ruptura de la búsqueda del Bien Común de la Humanidad. Hoy día, con las tecnologías de muerte disponibles, no existen más guerras justas, sino las resistencias populares de los pueblos que se revelan, cuando toda salida democrática ha sido excluida. Solamente un análisis socio-político completo e histórico holístico puede dar cuenta de esta situación.

 

Políticas concretas tanto negativas como positivas resultan de estos principios. Dispositivos para luchar contra el racismo o la discriminación de sexo en varias materias entran en esta orientación. Lo mismo vale para los medios de comunicación de masa, prohibiendo, por ejemplo, su propiedad al capital financiero. Reglas de funcionamiento democrático (igualdad de los sexos, alternancias en los cargos, etc.) podrían constituir condiciones de reconocimiento público (y eventualmente de subsidio) de instituciones no estatales, como partidos políticos, organizaciones sociales, ONG e instituciones culturales y religiosas.

 

Para la política internacional, las aplicaciones son múltiples. Se piensa evidentemente a la ONU, donde varios componentes, a empezar por el Consejo de Seguridad, son muy poco democráticos. Lo mismo vale por los órganos de Bretton Woods, en particular el Banco mundial y el Fondo monetario internacional. Apoyar los esfuerzos en este sentido puede ser una prioridad para los gobiernos de la periferia. El funcionamiento informal, pero con grandes poderes reales, del G8 o aún del G20, deben ser cuestionados. Las Cortes de Justicia para el respeto de los Derechos humanos, que son órganos deseables, tienen ser sometidos a las mismas normas de democracia y nuevos campos de aplicación, como los crimines económicos, las deudas odiosas y los daños a la naturaleza tendrán de ser promovidos.

 

Todas las nuevas instituciones regionales latinoamericanas, como el Banco del Sur, la moneda regional (el Sucre), el Alba serán objetos de una atención particular en el sentido de generalización de la democracia y lo mismo vale para los otros continentes. La destrucción de la democracia por el capitalismo, especialmente en su fase neo-liberal, ha sido tal que las sociedades, a todos los niveles, se organizan en función de las ventajas de una minoría, provocando un grado de desigualdad en el mundo, nunca visto antes en la historia humana. Restablecer un funcionamiento democrático como paradigma universal constituye entonces un pilar del Bien Común de la Humanidad.

 

 

  1. La interculturalidad

 

 

Dar a todos los saberes, todas las culturas, las filosofías, las espiritualidades, la posibilidad de contribuir al Bien Común de la Humanidad, es el objetivo de la revisión de este fundamento cultural. Eso no puede ser el papel exclusivo de la cultura occidental que en realidad está actualmente identificada con la concepción del desarrollo, eliminando o marginalizando todas las otras perspectivas. Se debe descolonizar el imaginario, porque, como lo escribe Orlando Nuñez, “los valores culturales dominantes son los valores de la clase dominante” (Orlando Nuñez, 2015, 436). Eso implica tanto la lectura de la realidad, su interpretación o su anticipación como la ética necesaria a la elaboración del Bien Común de la Humanidad, la dimensión afectiva necesaria a la auto-implicación de los actores y las expresiones estéticas y prácticas. La pluriculturalidad integra, por supuesto, la adopción de las nuevas orientaciones de los tres otros fundamentos, sobre la relación con la naturaleza, la producción de las bases de la vida y la organización democrática generalizada. Ella es también importante para la trasmisión de las ideas y valores en los pueblos. Hablar en el lenguaje de cada uno y expresarse en términos culturalmente comprensibles es una exigencia de la democracia.

 

Sin embargo, no basta la multiculturalidad. Se trata de la promoción de una interculturalidad abierta, es decir de culturas en diálogo, con posibles intercambios. Las culturas no son objetos de museo, sino elementos vivos de una sociedad. Las migraciones internas y externas, vinculadas con el desarrollo de los medios de comunicación, son factores de muchos cambios culturales, evidentemente no todos deseados. Para existir las culturas necesitan bases y medios materiales, como un territorio de referencia (bajo diversas modalidades), medios de educación y de comunicación, expresiones diversas como fiestas, peregrinajes, rituales, agentes religiosos, edificios, etc.

 

Eso nos lleva a los aspectos prácticos, como la organización del Estado pluricultural, lo que en países como Bolivia o el Ecuador se ha traducido en las constituciones por Estados plurinacionales, no sin dificultades de aplicación del concepto en la práctica. La idea central es la obligación del Estado de garantizar las bases de la reproducción cultural de pueblos diferentes y en particular asegurar su defensa contra las agresiones de la modernidad económica y de la hegemonía cultural. Por eso, la educación bilingüe es un instrumento privilegiado. Pero la noción de interculturalidad debe tener también un impacto sobre la educación general, como la enseñanza de la historia y la trasformación de una filosofía educacional orientada por la lógica del mercado. También instancias éticas deben tener la posibilidad de expresarse, como organismos de Defensa de los Derechos humanos, observatorios de diversos tipos, instituciones religiosas.

 

La cultura incluye una dimensión espiritual, propia del ser humano, que lo lleva más allá de lo cotidiano. Este tema es central en un tiempo de crisis de civilización. Existe en el mundo entero una búsqueda de sentido, por la necesidad de redefinir las metas mismas de la vida. La espiritualidad es la fuerza que transciende la materia y da a esta un sentido. Las fuentes de espiritualidad son numerosas y se sitúan siempre al interior de un contexto social y ellas no pueden existir sin una base física y biológica. El ser humano es uno: su espiritualidad presupone la materia y su materialidad no tiene sentido sin el espíritu. Una visión culturalista de la espiritualidad, ignorando la materialidad del ser humano, es decir el cuerpo para el individuo y la realidad económico-política para la sociedad, es una desviación conceptual, llevando al reduccionismo (la cultura como único factor de cambio) o a la alienación (la ignorancia de las estructuras sociales). La espiritualidad, sin o con una referencia a un sobrenatural, da un sentido a la vida humana en el planeta. Su traducción concreta está condicionada por las relaciones sociales de cada sociedad, pero al mismo tiempo ella puede dar una orientación a estas últimas. Un cambio de paradigma no se realizara sin espiritualidad, según múltiples caminos y numerosas expresiones.

 

La visión del mundo, la lectura de la realidad y su análisis, la elaboración de los conocimientos, la ética de la construcción social y política, las expresiones estéticas y la auto-implicación de los actores, son partes esenciales de la elaboración de alternativas al modelo de desarrollo capitalista y de la civilización que este último trasmite. Ellas forman parte de todas las orientaciones nuevas de los fundamentos en función del paradigma alternativo, tanto de la relación con la naturaleza, como de la producción de las bases de la vida y de la redefinición de la economía y finalmente de la manera de concebir la organización colectiva y política de las sociedades. Pueden en sus diversidades contribuir al cambio necesario a la supervivencia de la humanidad y del planeta, a la definición del nuevo paradigma del Bien Común de la Humanidad.

 

Eso es lo esencial de la construcción de una nueva modernidad. Encontramos sus bases en el pensamiento como en las prácticas y debemos continuar a elaborarla como concepto. Sin embargo, se trata también de una praxis, lo que exige que se planteen formas de transición y también interrogarse sobre los actores capaces de llevar estas iniciativas hacia sus traducciones sociales y políticas. Se trata de una tarea esencial en tiempos de reactivación mundial del neo-liberalismo y cuando el modelo neo-desarrollista ha mostrado sus límites.

 

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[1] Este texto fue parcialmente publicado en la revista Casa de las Américas, N° 277 (octubre-diciembre 2014), 12-24.

[2] Se trata de una tesis de doctorado presentada a la Universidad de Valencia y que hemos utilizado para varias de las referencias a autores del pasado.

[3] En particular, la obra del teólogo brasileño Leonardo Boff.

[4] Se estima que el 70 % del trabajo en el mundo es informal, lo que dificulta la organización de los trabajadores por Cuenta propia (CTCP-FNT), afiliada a la Federación Nacional de los trabajadores de Nicaragua (FNT) y a Streetnet Internacional (Orlando Núñez, 2011).

 

[5] En un barrio pobre de Bogotá, había hace algunos años una inscripción sobre una pared “Nosotros también tenemos Derechos Humanos”.