“O Papa Francisco é um dos nossos”: entrevista em alemão de L.Boff

Passando em final de novembro por Berlim em razão de um congresso cientiifico, dei uma entrevista a Joachim Frank publicada por Kölner Stadt Anzeiger, 25-12-2016. A tradução é de Walter O. Schlupp. Esta entrevista foi replicada em muitos meios de vários países encontrando ampla aceitação pela liberdade que tomei na fala e pela forma direta como respondi as perguntas. Passados já muitos anos e ouvindo as críticas que o Papa Francisco fez a cardeais, bispos, padres e teólogos com expressões fortes e irônicas (“alguns têm cara de vinagre; se mostram tristes como se fossem ao próprio enterro; parece que vivem sempre na sexta-feira santa” entre outras) e relendo meu livro Igreja: carisma e poder no qual fazia também críticas ao lado excessivamente forte do momento do poder em detrimento do carisma na Igreja (o que me levou ao “silêncio obseq1uioso” que me foi imposto mas que não significou nenhuma excomunhão) esse meu livro,comparado com as palavras do Papa, me parece até um texto de piedade. Como mudam os tempos e desta vez para muito melhor. Aqui vai a entrevista como foi dada originalmente em alemão que ainda lembro dos meus tempos de estudos em Munique no final dos anos 60 do século passado. Lboff

Eis a entrevista.

Sr. Boff, o senhor gosta de canções de Natal?

O que o senhor acha? (cantarolando): “Noi – te fe – liz, noi – te fe – liz …” Em toda família que celebra o Natal a gente canta isso. No Brasil isso também é tradição, como entre vocês na Alemanha.

O senhor não acha que essa espécie de Natal cafona e comercializado?

Isso varia de um país para o outro. É claro que o Natal virou um grande negócio. Mesmo assim continua a alegria do convívio com a família, e para muitas pessoas também é um momento de fé. E do jeito que eu vivenciei o Natal na Alemanha, é uma festa do coração, um clima muito especial, maravilhoso.

Como é que uma fé que no Natal fala de “Deus da paz” combina com a falta de paz que estamos experimentando por toda a parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “A verdadeira Gênese está não no começo, mas no final, e ela só começa quando a sociedade e a existência se tornam radicais. na justiça e na verdade.” A alegria do Natal está nesta promessa: a Terra e as pessoas não estão condenadas a continuar sempre desse jeito como experimentamos, com todas as guerras, violência e fundamentalismo. Na fé não se promete que agora tudo estará bem. E, apesar de todos os enganos, descaminhos e reveses, vamos ao encontro de um final bom. O verdadeiro significado do Natal não está no fato de “Deus se ter tornado gente”, mas que ele veio para nos dizer: “Vocês pertencem a mim, e quando vocês morrerem, estarão sendo chamados  para casa.”

O Natal significa que Deus vem para nos buscar?

Sim. Encarnação significa que algo de nós já é divino, eternizado. O divino está em nós mesmos. Em Jesus isto se mostrou da forma mais nítida. Mas está presente em todas as pessoas. Na perspectiva evolutiva, Deus não vem de fora para o mundo, e sim surge de dentro do mundo. Jesus é o aparecimento do divino na evolução – embora não o único. O divino também aparece em Buda, em Mahatma Gandhi e em outras grandes personagens de fé.

Isto não parece muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média entendeu Cristo como parte da criação – não só como redentor de culpa e pecado, que vem de cima e de fora para o mundo. Encarnação, sim, também é redenção. Mas sobretudo e em primeiro lugar é uma exaltação, uma divinização da criação. E mais uma coisa é importante no Natal. Deus aparece em forma de criança. Não como velho grisalho e barbudo …

Como o senhor …

Bem, se for o caso, pareço mais com Karl Marx. Para mim o importante é o seguinte: quando, no entardecer de nossa vida, tivermos que nos responsabilizar perante o juiz divino, estaremos diante de uma criança. Mas uma criança não condena ninguém. Criança quer brincar e estar junto com outras. É preciso enfatizar esse aspecto da fé que é profundamente libertador.

O senhor é um dos mais eminentes representantes da teologia da libertação e, a bem dizer, acabou sendo rehabilitado pelo papa Francisco. Seria essa também uma reabilitação pessoal sua, depois de décadas de disputas com o Papa João Paulo II e seu principal guardião da fé, Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI?

Francisco é um dos nossos. Ele transformou a teologia da libertação num bem comum da igreja. E ele a ampliou. Quem hoje fala dos pobres também precisa falar da Terra, porque é o grande pobre e também esta está sendo depredada e violada. “Ouvir o clamor dos pobres” significa ouvir o clamor dos animais, das matas, de toda a criação torturada. A Terra inteira está gritando. Portanto, diz o papa, citando o título de um livro meu, hoje precisamos ouvir o grito dos pobres e ao mesmo tempo o da Terra. Ambos precisam ser libertos. Faz bastente tempo em que me ocupei intensivamente com essa ampliação da teologia da libertação. Esta também é a grande novidade em “Laudato si” …

… que é a “eco-encíclica’“ do Papa, de 2015. Quanto de Leonardo Boff se encontra em Jorge Mario Bergoglio?

A encíclica é do Papa. Mas ele consultou muitos especialistas.

Ele leu os seus livros?

Mais do que isso. Ele me solicitou material para a “Laudato si”. Eu o aconselhei e enviei algumas coisas que tinha escrito. Isso ele também utilizou. Certas pessoas me disseram que durante a leitura teriam pensado: “Ora, isso é Boff!” Aliás, o Papa Francisco me disse: “Não mande a papelada diretamente para mim.”

E porque não?

Ele disse: “Senão os sottosegretari [funcionários da administração do Vaticano; a red.] interceptam o material e não o receberei. Manda de preferência para o embaixador argentino, com quem tenho bons contatos. Então com certeza vou receber.” É preciso saber que o atual embaixador no Vaticano é um velho conhecido do Papa, do seu tempo em Buenos Aires. Tomaram mate juntos muitas vezes. Um dia antes da publicação da Encíclica o Papa ainda mandou ele ligar para mim para expressar seu agradecimento pela minha colaboração.

Mas um encontro pessoal com o Papa ainda está em aberto?

Ele buscou a conciliação com os principais representantes da teologia da libertação, com Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Arturo Paoli e também comigo. Com referência ao Papa Bento respectivamente Joseph Ratzinger eu disse “Mas o outro ainda está vivo!” Ele não aceitou. “Não”, disse ele, “il Papa sono io” – “o Papa sou eu.” Portanto não deveríamos deixar de ir. Por aí se vê a coragem e a postura resoluta dele.

Por que sua visita ainda não deu certo?

Eu tinha um convite e até já tinha aterrissado em Roma. Só que justamente nesse dia, imediatamente antes do início do Sínodo sobre a Família em 2015, 13 cardeais, entre eles o cardeal alemão Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, estavam ensaiando a rebelião contra o Papa com uma carta a ele dirigida, a qual, porém – olha só, quem diria! – também acabou publicada no jornal de Sandro Magister, famoso opositor do Papa Francisco. O Papa ficou furioso e me disse: “Boff, não tenho tempo. Antes do sínodo preciso acalmar as coisas. Vamos nos ver numa outra ocasião.”

Isso de acalmar as coisas também não deu muito certo, ou?

O Papa está sentindo a força do vento contrário vindo das próprias fileiras, principalmente dos Estados Unidos. Esse Cardeal Burke, Leo Burke, que agora, junto com o Cardeal Emérito Meisner de vocês, já escreveu uma carta de novo; ele é o Donald Trump da Igreja Católica. (ri) Só que, diferentemente do Trump, Burke agora está neutralizado na cúria. Graças a Deus. Essa gente realmente acredita que precisa corrigir o Papa. É como se estivessem acima do Papa. Isso é fora do comum, para não dizer inaudito na história da igreja. Pode-se criticar o Papa, discutir com ele. Isso também fiz bastante. Mas cardeais acusarem o Papa publicamente de espalhar erros teológicos e até heresias já é demais, penso eu. É uma afronta que o papa não pode permitir. O papa não pode ser condenado, isso é doutrina da igreja.

Ante todo esse entusiasmo pelo Papa, como é que ficam as reformas da igreja, que tantos católicos esperavam de Francisco, mas onde na prática ainda não aconteceu muita coisa?

Sabe de uma coisa, no quanto eu o entendo, o principal interesse dele nem é mais a igreja, muito menos o que se faz dentro da igreja, e sim a sobrevivência da humanidade, o futuro da Terra. Ambas correm perigo e é preciso perguntar se o cristianismo consegue trazer uma contribuição para superar essa enorme crise na qual a humanidade corre o risco de sucumbir.É o sentido da encíclica Laudato Si dirigida não aos cristãos mas a toda a humanidade.

Francisco preocupa-se com o meio ambiente enquanto a igreja ruma de frente contra a parede?

Acredito que para ele há uma hierarquia de problemas. Se a Terra for à breca, todos os outros problemas também estarão resolvidos. Mas quanto às questões intra-eclesiásticas, vamos ver! Faz pouco tempo o Cardeal Walter Kasper, confidente do Papa, disse que meio logo haveria grandes surpresas.

O que o Senhor espera?

Quem sabe? Talvez o diaconato da mulher. Ou a possibilidade de padres casados voltarem a ser engajados no cuidado pastoral [Seelsorge]. Este é um pedido expresso dos bispos brasileiros ao Papa, principalmente do seu amigo emérito Cardeal brasileiro Cláudio Hummes. Ouvi dizer que o Papa gostaria de atender esse pedido, inicialmente numa fase experimental no Brasil. Este país com seus 140 milhões de católicos precisaria de pelo menos 100 mil padres. Mas só há 18.000. Sob ponto de vista institucional isso é uma catástrofe. Não admira que os fiéis migram aos milhares para os evangelicais e pentecostais, que preenchem o vácuo de recursos humanos. Ora, se os muitos milhares de padres casados pudessem voltar a exercer seu ministério, este seria o primeiro passo para melhorar a situação e ao mesmo tempo um impulso para a igreja católica soltar as algemas do celibato obrigatório.

Caso o Papa tomasse essa decisão, o senhor como ex-padre franciscano voltaria a assumir funções sacerdotais?

Eu pessoalmente não preciso de uma decisão dessas. Para mim ela nada mudaria, porque até hoje faço aquilo que sempre fiz: batizo, faço sepultamentos, e quando chego a uma comunidade que não tem padre, também celebro a missa junto com as pessoas.

Seria muito “alemão” perguntar: é lícito o senhor fazer isso?

Até agora nenhum bispo que eu conheço jamais o criticou ou proibiu. Os bispos até ficam contentes e me dizem: “O povo tem direito à eucaristia. Portanto continue assim!” Meu mestre teológico, o cardeal Paulo Evaristo Arns, falecido faz poucos dias, por exemplo, tinha abertura nesse sentido. Ele chegava ao ponto de, quando via padres casados sentados no banco durante a missa, chamá-los para junto ao altar e com eles celebrar a eucaristia. Isso ele fez e me disse muitas vezes: “Você continua sendo padre e assim permanecerá!”

2016: el año en que intentaron matar la esperanza del pueblo brasilero

La situación social, política y económica de Brasil merecería una reflexión seria sobre el intento perverso de matar la esperanza del pueblo brasilero, promovido por una banda (ese es el nombre) de políticos, en su gran mayoría corruptos o acusados de tal, que de forma desvergonzada se pusieron al servicio de los verdaderos forjadores del golpe perpetrado contra la Presidenta Dilma Rousseff: la vieja oligarquía del dinero y del privilegio que jamás aceptó que alguien del piso de abajo llegase a ser Presidente de Brasil y que incluyese socialmente a millones de los hijos e hijas de la pobreza.

Obviamente hay políticos valerosos y éticos, así como empresarios de la nueva generación, progresistas, que piensan en Brasil y en su pueblo. Pero estos todavía no han conseguido acumular fuerza suficiente para dar otro rumbo a la política y un sentido social al Estado vigente, de cariz neoliberal y patrimonialista.

Al referirse a la corrupción todos piensan en Lava Jato y en Petrobrás. Pero olvidan o les es negada intencionalmente por los medios de comunicación conservadores y legitimadores del establishment, otra corrupción mucho peor, revelada exactamente el día de Navidad en el que junto con el nacimiento de Cristo se narra la matanza de niños inocentes por el rey Herodes, actualizada hoy por los corruptos que dilapidan el país.

Wagner Rosario, secretario del Ministerio de la Transparencia, nos revela que en los últimos trece años los esquemas de corrupción, fraudes y desvíos de recursos de la Unión, destinados a los Estados, municipios y ONGs y dirigidos a pequeños municipios con bajo Índice de Desarrollo Humano, pueden superar un millón de veces el robo en la Petrobrás descubierto en la operación Lava Jato. Son 4 mil millones camuflados que pueden transformarse, en un estudio econométrico, en un billón de reales. Las áreas más afectadas son la salud (merienda) y la educación (abandono de las escuelas).

Dice el Secretario: «yo llamo a eso asesinato de la esperanza. Cuando se retira la merienda a un niño, se quita la posibilidad de crecimiento de aquel municipio a mediano y largo plazo. Se está matando a toda una generación»( O Estado de São Paulo 25/12/2016).

La nación precisa saber de esta matanza y no dejarse engañar por los que ocultan, controlan y deforman las informaciones porque son anti-sistémicas.

Pero no se puede vivir solo de las desgracias que mancharon gran parte del año 2016. Volvámonos hacia aquello que nos permite vivir y soñar: la esperanza.

Para entender la esperanza tenemos que superar el modo común de ver la realidad. Pensamos que la realidad es lo que está ahí, dado y hecho. Olvidamos que lo dado es siempre hecho y no es todo lo real. Lo real es mayor. Pertenece también a lo real lo potencial, lo que aún no es pero puede llegar a ser. Ese lado potencial se expresa mediante la utopía, los sueños, las proyecciones de un mundo mejor. Es el campo donde florece la esperanza. Tener esperanza es creer que ese potencial puede transformarse en real, no automáticamente, sino por la práctica humana. Por lo tanto, la utopía que alimenta la esperanza no se antagoniza con la realidad. Ella revela su lado potencial, lo abscóndito que quiere salir afuera para hacer historia.

Hago mío el lema del gran científico, físico cuántico y reconocido pacifista Carl Friedrich von Weizsäcker, cuya sociedad fundada por él me honró a finales de noviembre en Berlín con un premio por el intento de unir el grito de la Tierra con el grito del pobre: «no anuncio optimismo, sino esperanza».

La esperanza es un bien escaso hoy en todo el mundo y especialmente en Brasil. Los que cambiaron ilegítimamente los rumbos del país, imponiendo un ultraliberalismo, están asesinando la esperanza del pueblo brasilero. Las medidas tomadas castigan principalmente a las grandes mayorías que ven las conquistas sociales históricas literalmente desmontadas.

Aquí nos socorre el filósofo alemán Ernst Bloch que introdujo el “principio esperanza”. Esta, la esperanza, es más que una virtud entre otras. Es un motor que tenemos dentro de nosotros que alimenta todas las demás virtudes y nos lanza hacia delante, suscitando nuevos sueños de una sociedad mejor.

Esta esperanza va a proporcionar las energías para que la población afectada pueda resistir, salir a las calles, protestar y exigir cambios que hagan bien al país, comenzando por los que más necesitan.
Como la mayoría es cristiana son oportunas las palabras del sabio Riobaldo de Guimarães Rosa: «Con Dios existiendo, todo da esperanza, el mundo se soluciona… Teniendo a Dios es menos grave descuidarse un poquito, pues al final todo sale bien. Pero si no se tiene a Dios, entonces no hay licencia para cosa alguna».

Tener fe es tener saudades de Dios. Tener esperanza es saber que Él está a nuestro lado, aunque invisible, haciéndonos esperar contra toda esperanza.

*Leonardo Boff es articulista del JB online y escribió Teología del cautiverio y de la Liberación, Paulinas 1978.

Traducción Mª José Gavito Milano

2016:o ano em que se tentou matar a esperança do povo brasileiro

         A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal, que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpretado contra a Presidenta Diloma Rousseff: a velha oligarquia do dinheiro e do privilégio que jamais aceitou que alguém do andar de baixo chegasse a ser Presidente do Brasil e fizesse a inclusão social de milhões dos filhos e filhas da pobreza.

         Obviamente há politicos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração, progressitas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à politica e um sentido social ao Estado vigente, de cariz neoliberal e patrimonialista.

         Ao se referir à corrupção todos pensam logo no Lava Jato e na Petrobrás. Mas esquecem ou lhes é negada, intencionalmente pela mídia conservadora e legitimadora do establishment, a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal que junto com o nascimento de Cristo se narra a matança de meninos inocentes pelo rei Herodes, hoje atualizado pelos corruptos que delapidam o país (O Estado de São Paulo 25/12/2016).

         Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que nos últimos treze anos esquemas de corrupção, de fraudes e desvios de recursos da União, repassados aos Estados, municípios e ONGs e direcionados a pequenos municípios com baixo Indice de Desenvolvimento Humano podem superar um milhão de vezes o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato. São 4 bilhões mas camuflados que podem se transformar, num estudo econométrico, em um trilhão de reais. As áreas mais afetadas são a saúde (merenda) e a educação (abandono das escolas).

       Diz o Secretário: “A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”.

         A nação precisa saber desta matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são anti-sistêmicas.

         Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

         Para entender a esperança precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pensamos que a realidade é o que está aí, dado e feito. Esquecemos que o dado é sempre feito e não é todo o real. O real é maior. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana. Portanto, a utopia que alimenta a esperança não se antagoniza com a realidade. Ela revela seu lado potencial, o abscôndito que quer vir para fora e fazer história.

         Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker cuja sociedade fundada por ele me honrou em final de novembro em Berlim com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre:”não anuncio otimismo, mas esperança”.

         Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e especialmente no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

         Aqui nos socorre o filósofo alemão (Ernst Bloch) que introduziu o “princípio esperança”. Esta, a esperança, é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

        Esta esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resisitir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

         Como a maioria é cristã valem as palavras do sábio Riobaldo de Guimarães Rosa:”Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve…Tendo Deus é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim, dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

         Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está ao nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu Teologia da libertação e do cativeiro, Vozes 2014.

Natale in tempo di Erode

Il Natale di quest’anno sarà diverso dagli altri Natali. In generale è la festa della fratellanza e delle famiglie. Per i cristiani è la celebrazione della nascita del Santo Bambino che è venuto a prendere la nostra umanità e a renderla migliore.

Quel contesto, tuttavia, si intromise la terribile figura di Erode il Grande (73 aC – 4 aC) che rimase legato alla uccisione di bambini innocenti. Geloso del suo potere, sentì che era nato nel suo regno, la Giudea, un bambino-re. E ordinò l’uccisione di tutti i bambini sotto i due anni. Allora si èsentita una delle parole più sofferte di tutta la Bibbia: ” Un grido è stato udito in Rama, un pianto e un lamento grande: Rachele piange i suoi figli e non vuole essere consolata, perché non sono più ” (Mt 2,18) .

Questa storia dell’assassinio di innocenti continua ancora in altro modo. Le politiche ultra capitalistiche imposte dal governo brasiliano attuale, portando via i diritti, abbassando i salari, tagliando le prestazioni sociali come la sanità, l’istruzione, la sicurezza, le pensioni e il congelamento per 20 anni della possibilità di sviluppo, hanno provocato una strage perversa e lenta di innocenti della grande maggioranza povera del nostro paese.

Ai legislatori non sono sconosciute le conseguenze letali della decisione di considerare il mercato più importante delle persone. Nel giro di pochi anni avremo una classe di super-ricchi (oggi sono 1.440 in base alle IPEA, quindi, lo 0,05% della popolazione), una classe media impaurita di perdere il proprio status e milioni di poveri ed emarginati che dalla povertà sono passati alla miseria. Questo significa la fame nei bambini, che muoiono di malnutrizione e malattie completamente prevenibili, persone anziane, che non ricevono i loro medicinali o l’accesso alla sanità pubblica, condannati a morire prematuramente. Questo massacro ha dei responsabili: molti dei legislatori attuali della così detta “Politica Economica della morte” non possono essere assolti dalla la colpa di essere l’attuale Erode del popolo brasiliano.

Le élite del denaro e dei privilegi sono tornate. Supportate da parlamentari corrotti, di nuovo avversi al popolo e sordi alle grida della strada, attraverso una coalizione di forze formata da giudici, pubblici ministeri, polizia militare e da parte della polizia giudiziaria e dei mezzi di comunicazione reazionari, non senza il sostegno della potenza imperiale interessata alla nostra ricchezza, hanno forzato le dimissioni della presidente Rousseff. Il motore reale del golpe è stato il capitale finanziario, le banche e coloro che vivono di rendita (non toccati dalle politiche di aggiustamenti fiscali).

Giustamente denuncia il politologo Jesse Souza: il Brasile è il palcoscenico di una controversia tra due progetti: il sogno di una nazione grande e fiorente per la maggioranza e la realtà di una élite predatoria che vuole drenare il lavoro di tutti e saccheggiare le ricchezze del paese per le tasche di mezza dozzina di persone. La élite del denaro comanda, per il semplice fatto di essere in grado di “comprare” tutte le altre élites (FSP 16/04/2016).

La tristezza sta nel notare che questo processo di espropriazione è una conseguenza della politica di accordi dei signori del denaro tra di loro e con i governi, che nasce sin dal tempo della colonizzazione e della indipendenza. Lula-Dilma non sono riusciti o non hanno saputo come superare l’astuzia di questa minoranza al potere che con il pretesto della governabilità cerca la riconciliazione tra loro e con i governanti, concedendo alcuni benefici al popolo al prezzo di mantenere incontaminata la natura del proprio processo di accumulazione di ricchezza a livelli elevatissimi.

Lo storico Jose Honorio Rodrigues, che ha studiato a fondo la conciliazione di classe, sempre alle spalle del popolo, dice giustamente: la direzione nazionale, nelle generazioni che si sono succedute, è sempre stata elitaria e personalistica … L’arte di rubare è nobile e antica, praticata da quelle minoranze e non dal popolo. Il popolo non ruba, ma subisce il furto … Il popolo è amichevole, l’oligarchia è crudele e spietata …; il successo nella storia del Brasile viene dal suo popolo mentrei suoi leader sono la grande delusione (Conciliação e Reforma no Brasil, 1965. pp.114 119).

Stiamo vivendo una ripetizione di questa malefica tradizione, che non riusciremo mai a modificare senza rafforzare un anti-potere, che sorga dal basso, in grado di abbattere questa élite corrotta e stabilire un altro tipo di Stato, con un’altra politica per la repubblica, dove il bene comune si sostituisca a quello particolare e aziendale.

Il Natale di quest’anno è un Natale sotto il segno di Erode. Tuttavia, riteniamo che il Santo Bambinoè il Messia liberatore e la Stella è un segno favorevole venuto a mostrarci cammini migliori.

* Leonardo Boff ha scritto: Natale: il sole della speranza, Mar de Ideias, Rio del 2007.