No occidentali, principali responsabili della crisi

Noi occidentali, principali responsabili

Il complesso di crisi che mette in ginocchio l’umanità ci obbliga a fermarci e a fare un bilancio. È il momento filosofante di ogni osservatore critico, se per caso voglia andare al di là dei discorsi convenzionali e autoreferenziali. Perché siamo arrivati all’attuale situazione che obiettivamente minaccia il futuro della vita umana e della nostra opera civilizzatrice?

Rispondiamo senza ulteriori giustificazioni: principale causa di questo percorso sono coloro che negli ultimi secoli hanno detenuto il potere, il sapere, e la ricchezza. Essi si erano proposti di dominare la natura, conquistare il mondo intero, soggiogare i popoli e mettere tutto a servizio dei loro interessi. A questo scopo è stata utilizzata un’arma poderosa: la tecnoscienza. Con l’aiuto della scienza hanno scoperto come funziona la natura e con la tecnica hanno compiuto interventi a pro dell’essere umano, senza badare alle conseguenze.

Questi signori che hanno realizzato questa saga sono stati gli occidentali europei. Noi, latino americani siamo stati aggregati ad essi come un’appendice: l’estremo occidente. Questi occidentali, tuttavia, sono oggi estremamente perplessi. Si domandano sbalorditi: come possiamo stare nell’occhio della crisi, se possediamo il miglior sapere, la migliore democrazia, la migliore coscienza dei diritti, la migliore economia, la migliore tecnica, il miglior cinema, la maggior forza militare e la miglior religione, il cristianesimo?

Ora, queste «conquiste» sono messe in pericolo, perché esse, nonostante il loro valore, innegabilmente non ci forniscono più nessun orizzonte di speranza. Spiacenti, ma il tempo occidentale è scaduto, passato ormai. Per questo ha perso qualsiasi legittimità e forza di convinzione.

Arnold Toynbee, analizzando le grandi civiltà, ha notato una costante storica: tutte le volte che l’arsenale per le sfide non è più sufficiente, le civiltà entrano in crisi, cominciano a corrompersi fino al collasso o finiscono per essere assimilate da un’altra. Questa apporta rinnovato vigore, nuovi sogni e nuovo scopi di vita personali e collettivi. Come verrà? èhi lo sa? Ecco il la questione cruciale.

Quello che aggrava la crisi e la persistente arroganza occidentale. Perfino nel periodo di decadenza, gli occidentali si immaginano ancora come i referenti obbligatori per tutti.

Secondo la Bibbia e secondo i greci questo comportamento costituiva la suprema deviazione, perché le persone si mettevano sullo stesso piano della divinità, stimata come referente supremo e Ultima Realtà. Chiamavano quest’atteggiamento «Hybris», che vuol dire arroganza e eccesso del proprio io.

È stata l’arroganza che ha portato gli Stati Uniti, con ragioni false, in Iraq, poi in Afghanistan e prima ancora in America Latina, sostenendo per molti anni regimi dittatoriali e militari e la vergognosa Operazione Condor per la quale centinaia di leader di vari paesi dell’America Latina furono sequestrati e assassinati.

Con il nuovo presidente Barak Obama ci si aspettava un nuovo indirizzo, più multipolare, più rispettoso delle differenze culturali e compassionevole verso i più vulnerabili. Ameni inganni. Sta portando avanti il progetto imperiale sulla stessa linea del fondamentalista Bush. Non ha cambiato sostanzialmente niente in questa strategia dell’arroganza. Al contrario, ha inaugurato qualcosa di inaudito e perverso: una guerra non dichiarata usando, «droni» aerei senza equipaggio. Guidati elettronicamente a partire dalle fredde base militari nel Texas attaccano, uccidono leader singoli e perfino gruppi interi nel quale si suppone che stiano i terroristi.

Il cristianesimo stesso, nei suoi vari aspetti, si è distanziato dall’ecumenismo e sta assumendo tracce di fondamentalismo. C’è una gara nel mercato religioso per vedere quale delle denominazioni mette insieme più fedeli delle altre.

Assistiamo nella Rio +20 alla stessa arroganza dei potenti, che rifiutano di partecipare e di cercare convergenze minime per alleviare la crisi della terra.

E pensare che, in fondo, cerchiamo la schietta utopia ben espressa da Pablo Milanes e Chico Buarque : «La storia potrebbe essere un’auto allegra, piena di gente contenta”.

Crise terminal de nosso modo de viver?

Leonardo Boff*

Das muitas crises pelas quais a humanidade passou, essa, seguramente, possui uma singularidade. Ela pode significar o fim de nossa existência sobre este planeta ou um salto para um novo patamar de civilização, ecoamigável, justa, compassiva e fraterna. A grande maioria da humanidade e os tomadores de decisões dos povos não se conscientizaram ainda desta nova situação. A Rio+20 foi escandalosamente cega e muda. Não se tomaram decisões. Foram proteladas para 2015.

Não obstante esta atitude insana, alguns fatos estão produzindo um novo estado de consciência na Humanidade. Podem ocasionar mudanças radicais. Eis alguns deles.

O primeiro, é a consciência de que podemos nos auto-destruir. O fim do mundo humano não  precisa ser mais obra divina, mas consequência de atos humanos. Hoje os países militaristas dispõem de uma máquina de morte com armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de destruir, por 25 formas diferentes, toda a espécie humana. Podemos ser não só homicidas e ecocidas mas também biocidas e geocidas.

O segundo, é a descoberta da unidade Terra e Humanidade. É o legado que os astronautas nos deixaram. Eles testemunharam: a partir de  suas naves espaciais se comprova que não há separação entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade. Nós somos a porção da Terra que sente, pensa, ama e cuida. Humanidade e Terra são interdependentes e indivisíveis. Posteriormente, os cientistas demonstraram que a Terra é um sistema biofísico que regula os climas, garante a fertilidade dos solos e rege as corrente marítimas. Chamaram-na de Gaia, a Pacha Mama dos andinos.

O terceiro, são as mudanças climáticas com seus eventos extremos, coisa que os céticos não podem negar. Parte delas pertence à geofísica da Terra, mas a outra, acelerada, é em grande parte, produzida pela atividade humana. A roda já está girando e não há como pará-la. Ao alcançar  dois graus Celsius, o aquecimento será ainda admnistrável. Com a entrada do metano e do nitrato, o clima poderá acercar-se   a quatro e a cinco graus Celsius. Isso tornará grande parte da vida conhecida no planeta impossível. Milhões de seres humanos correriam risco de desaparecer.

O quarto fato é o fim da matriz energética baseada nos produtos fósseis como o petróleo, o gás e o carvão. Temos consciência de que não podemos mais sustentar este tipo de civilização altamente energívora. Precisamos desenvolver fontes alternativas limpas, baseadas na água, no sol, no vento, nas marés e na biomassa. Mas todas juntas são insuficientes para sustentar o nosso tipo de civilização. Forçosamente devemos mudar nossas formas de produção e de locomoção.

O quinto fato é a a tragédia social que afeta grande parte da Humanidade. As três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 3 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade. O  resultado é que 1,2 bilhões de pessoas passam fome e outros tantos vivem na miséria; no Brasil, segundo M. Pochmann, mais ou menos 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados senão expressar uma aterradora desumanidade?

Por fim, o sexto fato, é a consciência de que um outro mundo não é só possível mas necessário. Esta consciência ganhou expressão e visibilidade  nos Fórums Sociais Mundiais e na Cúpula dos Povos como agora durante a Rio+20. A nova ordem nascerá a partir de baixo, da contribuição de todos os povos e culturas e marcará uma nova etapa da Humanidade e da própria Terra. Uma superdemocracia planetária deverá forçosamente surgir que englobará vida, Terra e Humanidade num único destino comum. Ou então vamos ao colapso total.

Há que reconhecer que estamos dentro de um círculo vicioso do qual não sabemos como sair. Devemos produzir para  atender o consumo e criar postos de trabalho. Quanto mais consumimos, mais empobrecemos a natureza. Mas chegará o momento em que ela não aguentará mais. Por outro lado, se pararmos de consumir, fecham-se fábricas, cria-se desemprego, surge fome e miséria e estoura  a convulsão  social. Para onde vamos? Quem o saberá exatamente?

O certo é que assim como está, a sociedade mundial não poderá continuar. A prosseguir por este caminho, nos acercaremos do abismo. O ideal que se impõe é: como produzir o que necessitamos em harmonia com  os limites e os ritmos da natureza, com sentido de distribuição equitativa entre todos e solidários para com nossos filhos e netos que virão. Uma saída possível seria passar  do capital material para o capital humano e espiritual. Nele  ganhariam centralidade o ganha-ganha, a solidariedade, o cuidado que levarão a outras formas de produção  de consumo e de respeito aos limites.

Cada pessoa constitui uma república, dizia Edgar Morin, de 30 bilhões de células que se põem de acordo para manter o equilíbrio do sistema-vida. Como não será possível uma sociedade humana que conta  com apenas 7 bilhões de seres  humanos não pode colocar-se de acordo para viver em paz com a Terra, com todos os povos e com o próprio coração?

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e autor de O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação, Vozes 2012.

publicado no Jornal do Brasil 22/07/2012

 

 

 

Pode a espécie humana desaparecer?

 

A vida na Terra transformou-se atualmente no grande e obscuro objeto do cuidado humano. Damo-nos conta de que nos podemos autodestruir. Não por alguma meteoro rasante, nem por algum cataclismo natural de proporções fantásticas. Mas por causa da irresponsável atividade humana. Segundo o prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, criamos uma nova era geológica, o antropoceno. Por ela o ser humano comparece como a grande ameaça à vida.

Segundo Carl Sagan inventamos o princípio de autodestruição pelas armas de destruição em massa. Agora nos demos conta de que a guerra total conduzida contra Gaia, pode fazer com que ela não nos queira mais sobre a sua superfície. Seríamos expulsos como expulsamos uma célula cancerígena. Devido ao estresse de todos os serviços ecossistêmicos, a Terra vai irrefreavelmente subindo de temperatura que oscilará entre 1,8 e 5 graus Celsius. Com a entrada do metano na atmosfera que é 23 vezes mais agressivo que o dióxido de carbono, pode ocorrer nos próximos decênios, uma “mudança abrupta do clima”(Abrupt Climate Change), da ordem de 4-5 graus Celsius, como o vem advertindo o Comité da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Os efeitos seriam devastadores. Grande parte da biodiversidade poderá desparecer bem como  e milhões e milhões de pessoas que não teriam como encontrar refúgios salvadores.

Em razão destes alarmes, despertamos de um ancestral torpor. Somos responsáveis pela vida ou pela morte em nosso planeta vivo e pelo “futuro que queremos” como o formulou a Rio+20, futuro nosso e de nossa  Casa Comum.

Cabe perguntar :poderia o ser humano desaparecer por ter se tornado uma força geofísica destruidora e por  falta culposa  de sabedoria?

                   Possibilidade real do fim da espécie humana

Nomes notáveis das ciências não excluem esta eventualidade. Stephen Hawking em seu livro O universo  numa casca de noz (Mandarim, São Paulo 2001) reconhece que num futuro ainda distante a população mundial ficará ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. Ela poderá se destruir a si mesma enquanto portadora de vida (p.159).

O prêmio Nobel de Química, Christian de Duve,  em seu conhecido Poeira Vital: a vida como imperativo cósmico (Campus, Rio de Janeiro 1997) atesta que “a evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grande instabilidade; de certa forma nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”(p.355). Antigamenente eram os meteoros rasantes que ameaçavam a Terra; hoje o meteoro rasante se chama ser humano.

Théodore Monod, talvez o último grande naturalista, deixou como testamento um texto de reflexão com esse título: E se a aventura humana vier a fracassar? (Et si l’aventure humaine devait échouer?, Grasset, Paris 2000). Assevera: “somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da espécie humana”(p. 246). E acrescenta:”seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldades”(p. 248)

Se olharmos a crise social mundial e o crescente alarme ecológico – os negadores são cada vez menos – esse cenário de horror não é impensável.

Edward Wilson atesta em seu alarmante livro O futuro da vida (Campus, Rio de Janeiro 2002): “O homem até hoje tem desempenhado o papel de  assassino planetário…a ética da conservação, na forma de tabu, totemismo ou ciência, quase sempre chegou tarde demais; talvez ainda haja tempo para agir”(p.121). E em seu último livro A Criação: como salvar a vida na Terra (Companhia das Letras, SP, 2008) propõe uma sagrada aliança entre religião e ciência como forma evitar a aniquilação da vida.

Anotemos a opinião de outros dois grandes historiadores Arnold Toynbe em sua auto-biografia:”vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade real que pode ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do homem”(Experiências, Vozes, Petrópolis 1970, p. 422). E Eric J. Hobsbawn, em sua conhecida Era dos extremos, concluindo seu livro:”Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro discernível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(Objetiva 1944, p. 562).

Nem preciso citar as previsões sombrias já notórias de James Lovelock (A vingança de Gaia Editora Intrínseca, RJ 2006; Gaia: alerta final, RJ, Intrínseca 2009 cf. Revista Veja, Páginas Amarelas de 25 de outubro de 2006) ou do astrofísico Martin Rees (Hora final, Companhia das Letras, SP 2005) que prevêem o fim da espécie  antes do fim do século. Lovelock é contundente:”até o fim do século 80% da população humana desaparecerá. Os 20% restantes vão viver no Artico e em alguns poucos oasis em outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva….Quase todo o território brasileiro será demasiadamente quente e seco para ser habitado”(Veja op. cit. p. 20). Ultimamente não retratou a tese apenas o tempo de sua realização que não seria tão iminente.

Lógico,  precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico  possui menos de um minuto de existência. Mas com ele, a evolução deu um salto, de inconsciente passou a ser consciente. E com a consciência pode decidir que destino quer para si mesmo. Nesta perspectiva, a situação atual representa antes um desafio que um desastre possível, a travessia para um patamar mais alto e não fatalmente um mergulho na autodestruição. Estaríamos portanto num cenário de crise e não de tragédia.

Mas haverá tempo para tal aprendizado? Tudo parece indicar que o tempo do relógio corre contra nós. Não são poucos os que afirmam que estarímos chegando tarde demais, pois teríamos passado já o ponto de não retorno. Sabemos que a evolução não é linear e conhece frequentes rupturas e saltos para cima como fruto de uma complexidade maior; sabemos também que vigora no universo o caráter indeterminado e flutuante de todas as energias e de  toda a matéria consoante a física quântica de W. Heisenberg e de N. Bohr. Tais fatos nos concedem pensar a emergência de um outro patamar de consciência e de vida humana que pode salvaguardar a biosfera e a vida humana.

Consequências do desaparecimento da espécie humana.

Na hipótese de um eventual desaparecimento de nossa espécie que consequências se derivariam para nós e para o processo da evolução?

Antes de qualquer outra consideração, seria uma catástrofe biológica de incomensurável magnitude. Ter-se-ia perdido o trabalho de pelo menos 3,8 bilhões de anos, data provável do surgimento da vida, e dos últimos 5-7 milhões de anos, data do aparecimento da espécie homo e dos últimos cem mil anos, da irrupção do homo sapiens, trabalho esse, feito pelo inteiro universo com suas energias, informações e  diferentes formas de matéria.

O ser humano, na medida em que podemos constatar sua evolução e observar o universo, é o ser da natureza mais complexo por nós conhecido. Complexo em seu corpo com trinta bilhões de células, continuamente renovadas pelo sistema genético, complexo em seu cérebro de cem bilhões de neurônios em contínua sinapse, complexo em sua  psiqué e em sua consciência, carregadas de informações recolhidas desde o irromper do cosmos com o big bang e enriquecidas com emoções, sonhos, arquétipos, símbolos oriundos das interações da consciênicia consigo mesma e com o ambiente à sua volta,  complexo em seu espírito, capaz de captar o Todo e sentir-se parte dele e de identificar aquele Elo que une e re-une, liga e re-liga todas as coisas fazendo que não sejam caóticas mas ordenadas. Esse Elo confere sentido e significado à existência neste mundo e nos faz suscitar sentimentos  de profunda veneração e respeito face à grandeur do cosmos.

Até hoje não foram identificadas cientificamente e de forma irrefutável outras inteligências no universo. Por enquanto somos como especie homo uma singularidade sem comparação no cosmos. Somos um habitante de uma galáxia média, a Via Láctea, uma entre outras duzentas bilhões, dependemos de uma estrela, o Sol, de quinta grandeza, uma entre outras trezentas bilhões, situado a 27 mil anos luz do centro de nossa galáxia, no braço interior da espiral de Orion, moramos no terceiro planeta do sistema solar, a Terra e agora estamos aqui frente ao computador, refletindo sobre as consequências de nosso provável fim.

Com o nosso desaparecimento, o universo, a história da vida e a história da vida humana perderiam algo inestimável.

Toda a criatividade produzida por esse ser, criado criador, que fez coisas que a evolução por ela mesma jamais faria, como nos pintar uma tela de Portinari ou nos fazer ouvir uma canção de Chico Buarque ou construir um canal de televisão, as construções da cultura seja daquela material, simbólica e espiritual: tudo isso teria desparecido para sempre.

Para sempre ter-se-iam extinguido as grandes produções poéticas, literárias, científicas, sociais, políticas éticas e religiosas da humanidade.

Para sempre ter-se-iam apagado as referências de figuras paradigmáticas de seres humanos entregues ao amor, ao cuidado, à compaixão e à proteção da vida em todas as suas formas como Buda, Chuang-tzu, Moisés, Jesus, Maria de Nazaré, Maomé, Francisco de Assis, Gandhi, Chico Mendes entre tantos e tantas outras. Para sempre teriam sumido também as anti-figuras que macularam o humano e violaram a dignidade da vida em incontáveis guerras e extermínios cujos nomes sequer queremos mencionar.

Para sempre ter-se-ia apagado a decifração da Fonte Originária de todo Ser que permeia toda a realidade e que irrompe em nossa consciência permitindo-nos profunda comunhão com ela, fazendo-nos sentir como um projeto infinito que somente descansa quando mergulhar nesta Fonte feita de ternura e de amor.

             Quem nos substituiria na evolução da vida?

Na hipótese de que o ser humano venha a desparecer como espécie, mesmo assim o princípio de  inteligibilidade e de amorização ficaria preservado. Ele está primeiro no universo e depois em nós, seres humanos. Esse princípio é tão ancestral quanto o universo. Quando, nos primeiríssimos momentos após a grande explosão, quando se formou o campo Higgs e as primeiras partículas elementares, como os quarks e os prótons, então tais partículas começaram a interagir entre si. Fizeram surgir redes de relações e unidades de informação e ordens complexas. Ai se manifestava aquilo que depois se chamará de espírito, aquela capacidade de criar unidades e quadros de ordem e de sentido global. Ao desaparecer de dentro da espécie humana, o espírito  emergiria, um dia, quem sabe em milhões de anos de evolução, em algum ser mais complexo e ordenado.

Théodore Monod, falecido no ano 2000, sugere até um sucessor nosso, já presente na evolução atual: os cefalópodes, isto é, os moluscos como os polvos e as lulas. Alguns deles, possuem um aperfeiçoamento anatômico notável; sua cabeça é dotada de  cápsula cartiginosa, funcionando como crânio; e possuem olhos como os vertebrados. Detém ainda um psiquismo  altamente desenvolvido, até com dupla memória, quando nós possuimos apenas uma (op. cit. p. 247-248).

Evidentemente, eles não sairiam amanhã do mar e entrariam continente adentro ocupando nossas instituições. Precisariam de milhões de anos de evolução. Mas já possuem a base biológica para um salto rumo à consciência e para suportar o espírito.

De todas as formas, urge escolher: ou o ser humano e seu futuro ou os polvos e as lulas vindouras. Somos otimistas: vamos criar juízo, aprender a ser sábios e escolher o ser humano com seus projetos.

Mas importa já agora mostrar amor à vida em sua majestática diversidade, ter com-paixão com todos os que sofrem, realizar rapidamente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incentivam-nos as Escrituras judaico-cristãs: “Escolha a vida e viverás”. Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.

              Como vê a teologia cristã o eventual fim da espécie?

Antes situemos a pergunta em sua tradição histórica, pois não é a primeira vez que os seres humanos se colocam seriamente esta questão.                  Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, faz suscitar mitos de fim do mundo e de destruição da espécie. Usa-se, então, um recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos ou de seres extraterrestres que se comunicam conosco para anunciar mudanças iminentes e para preparar a humanidade. No Novo Testamento esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.

Hoje prolifera vasta literatura esotérica que usa códigos diferentes como passagem a outra onda de vibração e a comunicação com extraterrestres. Mas a mensagem  é idêntica: a viragem é iminente e há que  estar preparado.

Importante é procurar entender esse tipo de linguagem. É linguagem de tempos  de crise, portanto um gênero literário, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer.

Mas há uma diferença entre os antigos e nós hoje. Para os antigos, o fim do mundo estava no seu imaginário e não no processo realmente existente. Para nós está no processo real, pois criamos de fato o  desequilíbrio da Terra e o princípio de autodestruição

E se desaparecermos, como se há de interpretar? Chegou a nossa vez no processo de evolução já que há sempre espécies, desparecendo naturalamente? Que poderá  dizer a reflexão teológica cristã?

Brevemente diria: se o ser humano frustar sua aventura planetária significa, sem dúvida, uma tragédia inominável. Mas não seria uma tragédia absoluta. Essa, ele já a perpetrou um dia. Quando o Filho de Deus assumiu a nossa humanidade, nós  o assassinamos, pregando-o na cruz. Só então se formalizou o pecado original que é um processo histórico de negação da vida e do amor. Maior perversidade que matar a criatura (a espécie humana) é matar o Criador que se fez humano.

Mesmo que a espécie humana se mate a si mesma, ela não consegue matar tudo dela. Só mata o que é. Não pode matar aquilo que ainda não é: as virtualidades escondidas nela e que querem se realizar. E aqui entra a morte em sua  função libertadora. Mais que separar o corpo do espírito, ela separa o tempo da eternidade. Ao morrer, o ser humano deixa o tempo e penetra na eternidade. Caindo as barreiras espácio-temporais, as virtualidades agrilhoadas em sua existência podem desabrochar em sua plenitude. A morte seria uma invenção da vida para que esta pudesse se libertar e  desabrochar plenamente. Só então acabaremos de nascer como seres humanos plenos. Portanto, mesmo com a liquidação criminosa da espécie, o triunfo da espécie não é frustrado. A espécie sái tragicamente do tempo pela morte, morte esta que a liberta de todas as amarras e lhe concede penetrar, plenamente realizado, na eternidade.

Alimentamos otimismo. Assim como o ser humano domesticou outros meios de destruição como o primeiro deles, o fogo, (que originou os mitos de fim do mundo) assim agora domesticará, assim  creio,  os meios que podem destrui-lo. Aqui caberia uma análise das possibilidades dadas pela nanotecnologia (que trabalha com átomos, genes e moléculas) que pode, eventualmente, oferecer meios técnicos para diminuir o aquecimento global e purificar a biosfera dos gases de efeito estufa.

De todas as formas, devemos pensar esta questões, não nos termos da física clássica, mas no quadro da física quântica e da nova cosmologia. Estas partem do fato de que evolução não é linear. Ela acumula energia e dá saltos. Assim tambem nos sugere a visão elaborada por Niels Bohr e por Werner Heisenberg: virtualidades escondidas, vindas do Vácuo Quântico, daqule Oceano indecifrável de Energia que subjaz e pervade o universo, podem irromper e modificar a seta  da evolução.

Pessoalmente recuso-me a pensar que o nosso destino, depois de milhões de anos de evolução, termine assim miseravelmente nas próximas gerações. Haverá uma salto, quem sabe, na direção daquilo que já em 1933 Pierre Teilhard de Chardin anunciava: a irrupção da noosfera, vale dizer, daquele estado de consciência e de relação com a natureza e com os seres humanos entre si que inaugurará uma nova convergência de mentes e corações. Dar-se-ia assim um novo patamar da evolução humana e da história da Terra. O filósofo Ernst Bloch diria: “o verdadeiro gênesis não está no começo mas no fim”.

Nesta perspectiva o cenário atual se apresentaria não  de tragédia mas de crise. A crise acrisola, purifica e faz amadurecer. Ela anuncia um novo começo, uma dor de um parto promissor e não as penas  de um abortamento da aventura  humana. Ainda vamos irradiar.

O que importa dizer é que não acaba o mundo, mas pode  acabar este tipo de mundo insensato que ama a guerra e a devasta a natureza. Vamos inaugurar um mundo humano que ama a vida, desacraliza a violência, tem cuidado e piedade para com todos os seres, realiza a justiça verdadeira, enfim, um mundo que nos permite estarmos no monte das benaventuranças e não no vale de lágrimas. Ou simplesmente: teremos todos aprendido a tratar humanamente a todos os seres humanos e com cuidado, respeito  e compaixão a todos os demais seres. Tudo  que existe, merece existir. Tudo o que vive merece viver. Especialmente nós seres humanos. Destarte nosso fim não seria autodestruição mas um passo a mais rumo a uma autorrealização mais alta.

  Leonardo Boff

Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor, membro da Comissão Inaternacional da Carta da Terra e autor de Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, RJ 2010.

 

O espírito no cosmos, no ser humano e em Deus

 

Vivemos numa época, particularmente, anêmica de espírito. A cultura do consumo afogou o espírito na materialidade opaca. E sem espírito perdemos o que há de melhor em nós: a comunicação livre, a cooperação solidária, a compaixão amorosa, o amor sensível e a sensibilidade cordial pelo outro lado de todas as coisas, de onde nos vem mensagens de beleza, de grandeza, de admiração, de respeito, de veneração e de transcedência.

Neste domingo, dia de Pentecostes, os cristão celebram a irrupção do Espírito sobre amentrontados seguidores de Jesus. Transformou-os em corajos mensageiros de sua mensagem libertadora, alcançando-nos a nós até os dias de hoje. Nesta oportunidade, cabe uma reflexão sobre o espírito em minúsculo e sobre o Espírito em maiúsculo.

O espírito: primeiro no universo depois em nós

Somos, singularmente, portadores de grande energia. É  o espírito em nós. O espírito, na perspectiva da nova cosmologia, é tão ancestral quanto o cosmos. Espírito é aquela capacidade que os seres, mesmo os mais originários, como os hádrions, os topquarks, os prótons e os átomos de se relacionarem, trocarem informações e de criarem redes de inter-retro-conexões, responsáveis pela unidade complexa do todo. É próprio do espírito criar unidades cada vez mais altas e elegantes.

O espírito, primeiramente, está no mundo, somente depois está em nós. Entre o espírito de uma árvore e nós a diferença não é de princípio. Ambos são portadores de espírito. A diferença reside no modo de sua realização. Em nós seres humanos, o espírito aparece como aucoconsciência e liberdade.

Espírito humano é aquele momento da consciência em que ela se sente parte de um todo maior, capta a totalidade e a unidade e se dá conta de que um fio liga e re-liga todas as coisas, fazendo que sejam um cosmos e não um caos. Como se relaciona com o Todo, o espírito em nós nos faz sermos um projeto infinito, uma abertura total, ao outro, ao mundo e a Deus.

A vida, a consciência e o espírito pertencem, portanto, ao quadro geral das coisas, ao universo, mais concretamente, à nossa galáxia, à Via-Láctea, ao sistema solar e ao planeta Terra. Para que tivessem surgido, foi preciso uma calibragem refinadíssima de todos os elementos, especialmente, das assim chamadas constantes da natureza (velocidade da luz, as quatro energias fundamentais, a carga dos elétrons, as radiações atômicas, a curvatura do espaço-tempo entre outras). Se assim não fosse não estaríamos aqui escrevendo sobre isso.

Refiro apenas um dado do último livro do astrofísico e matemático Stephen Hawing “Uma nova história do tempo”(2005):”Se a carga elétrica do elétron tivesse sido ligeiramente diferente, teria rompido o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra a vida não poderia existir”(p.120). A vida pertence,pois, ao quadro geral.

O princípio andrópico fraco e forte

Para conferir alguma compreensão a esta refinada combinação de fatores se criou a expressão “princípio andrópico” (que tem a ver com o homem). Por ele se procura responder a esta pergunta que naturalmente colocamos: por que as coisas são como são? A resposta só pode ser: se fosse diferente nós não estaríamos aqui. Respondendo assim não cairíamos no famoso antropocentrismo que afirma: as coisas só têm sentido quando ordenadas ao ser humano, feito centro de tudo, rei e rainha do universo?

Há esse risco. Por isso os cosmólogos distinguem o princípio andrópico forte e fraco. O forte diz: as condições iniciais e as constantes cosmológicas se organizaram de tal forma que, num dado momento da evolução, a vida e a inteligência deveriam necessariamente surgir. Esta compreensão favoreceria a centralidade do ser humano. O princípio andrópico fraco é mais cauteloso e afirma: as precondições iniciais e cosmológicas se articularam de tal forma que a vida e a inteligência poderiam surgir. Essa formulação deixa aberto o caminho da evolução que demais a mais é regida pelo princípio da indeterminação de Heisenberg e pela autopoiesis de Maturana-Varela.

Mas olhando para trás, nos bilhões de anos, constatamos que de fato assim ocorreu: há 3,8 bilhões de anos surgiu a vida e há uns quatro  milhões de anos, a inteligência. Nisso não vai uma defesa do “desenho inteligente” ou  da mão da Providência divina. Apenas que o universo não é absurdo. Ele vem carregado de propósito. Há uma seta do tempo apontando para frente. Como afirmou o astrofísico e cosmólogo Feeman Dyson:”parece que o universo, de alguma maneira, sabia que um dia nós iríamos chegar” e preparou tudo para que pudéssemos ser acolhidos e fazer o nosso caminho de ascensão no processo evolucionário.

O universo autoconsciente

O grande matemático e físico quântico Amit Goswami, que muito vem ao Brasil,  sustenta a tese de que o universo é autoconsciente (O universo autoconsciente, Record 2002). No ser humano ele conhece uma emergência singular, pela qual o próprio universo através de nós se vê a si mesmo, contempla sua majestática grandeza e chega a uma certa culminância.

Cabe ainda considerar que o cosmos está em gênese, se autoconstruindo e em expansão contínua. Cada ser mostra uma propensão inata a irromper, crescer e irradiar. O ser humano também. Apareceu no cenário quando 99,96% de tudo já estava pronto. Ele é expressão do impulso cósmico para formas mais complexas e altas de existência.

Alguns aventam a idéia: mas não seria tudo puro acaso? O acaso não pode ser excluído, como mostrou Jacques Monod no seu livro  O acaso e a necessidade, o que lhe valeu o prêmio Nobel em biologia. Mas ele não explica tudo. Bioquímicos comprovaram que para os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes à vida pudessem se aproximar, constituir uma cadeia ordenada e formar uma célula viva seriam necessários trilhões e trilhões de anos. Portanto mais tempo do que o universo e a Terra possuem que é de 13,7 bilhões de anos.

Talvez o recurso ao acaso mostre apenas nossa incapacidade de entender ordens superiores e extremamente complexas como a consciência,  a inteligência, o afeto e o  amor. Neste sentido a visão de Pierre Teilhard de Chardin do universo que mais e mais se complexifica e assim permite a emergência da consciência e da percepção de um ponto Ómega da evolução na direção do qual estamos viajando, seja mais adequada para expressar a dinâmica mesma do universo.

Não seria melhor  calarmos reverentes e respeitosos diante do mistério da existência e do sentido do universo?

Depois destas reflexões já estamos habilitados a abordar a dimensão teológica do espírito como  Espírito Criador.

O Espírito Criador e a cosmogênese

Como não podia deixar de ser, Deus também é incluido na dimensão do espírito. E por excelência. Está presente na primeira página da Bíblia quando se narra a criação do céu e da terra. Diz-se que sobre o touwabohu, isto é, sobre o caos, melhor, sobre as águas primitivas “soprava um ruah (um vento, uma energia) impetuoso” (Gn 1,2). Daquele caos tirou todas as ordens: os seres inanimados, os animados e o ser humano. A este, tirado do pó como todos os demais, Deus “soprou-lhe nas narinas o ruah de vida, o espírito, e ele tornou-se um ser vivo”(Gn 2,7). É no capítulo 37 de Ezequiel que irrompe, de forma insuperavelmente plástica, a força vital do espírito. Quando este vem, os ossos ressequidos ganham carne e se transformam em vida.

Também as expressões mais altas do ser humano são atribuidos à presença do espírito nele, como a sabedoria e a fortaleza (Is 11,2), a riqueza de idéias (Jo 32,28), o senso artístico (Ex 28,3), o desejo ardente de ver Deus e o sentimento de culpa e a consequente penitência (Ex 35,21; Jr 51,1; Esd 1,1; Es 26,9; Sl 34,19; Ez 11,19; 18,31).

Deus “tem” espírito

Esta força criadora e vivificadora é eminentemente possuida por Deus. As Escrituras falam com frequência do espírito de Deus (ruah Elohim). Ele é dado a Sansão para ter força portentosa (Jz 14,6; 19,15), aos profestas para terem coragem de denunciar em nome dos pobres da Terra as injustiças que padecem, para enfrentar o rei, os poderosos e anunciar-lhes o juizo de Deus.

Especialmente no judaismo inter-testamentário se esperava para os fins dos tempos a efusão do espírito sobre toda a criatura (Jl 2,28-32; At 2, 17-21). O Messias será “forte no espírito” e virá dotado de todos os dons do espírito (Is 11,1ss).

É neste contexto do judaismo tardio que surge a tendência de personificar o espírito. Ele continua sendo uma qualidade da natureza, do ser humano e de Deus. Mas sua ação na história é tão densa que começa a ganhar autonomia. Assim se diz, por exemplo, que “o espírito exorta, se aflige, grita, se alegra, consola, respousa sobre alguém, purifica, santifica e enche o unverso”. Jamais se pensa nele como criatura, mas algo do mundo de Deus que, quando se manifesta na vida e na história, tudo transforma.

O Espírito é Deus

A compreensão começou a mudar quando se cunhou uma expressão decisivia:”espírito de santidade” ou “espírito santo”. Esta formulação guarda certa ambiguidade, pois pode-se dizer espírito santo para se evitar dizer o nome de Deus (coisa que  os judeus até hoje, por respeito, evitam) como pode-se significar o próprio Deus. “Santo” para a mentalidade hebraica, é o nome por excelência de Deus o que equivale dizer na compreensão grega Deus como  transcendente, distinto de todo e qualquer ser da criação.

Em resumo podemos afirmar: pela palavra espírito (ruah) aplicado a Deus (Deus “tem” espírito, Deus envia o seu espírito, o espírito de Deus) os judeus expressavam a seguinte experiência: Deus não está atado a nada; irrompe onde quer; confunde planos humanos; mostra uma força à qual ninguém pode resistir; revela uma sabedoria que torna estultície todo o nosso saber. Assim Deus se mostrou aos líderes políticos, aos profetas, aos sábios, ao povo, especialmente, em momentos de crise nacional (Jz 6,33; 11, 29; 1 Sam 11,6).

Assim como é dado ao rei para que governe com sabedoria e prudência, no caso o rei Davi (1 Sam 16,13) será dado também ao servo sofredor, destituido de toda pompa e grandiloquência (Is 42,1) Em Is 61,1 se diz explicitamente:”o espírito de Javé está sobre mim porque Javé me ungiu… para anunciar a libertação dos cativos e a boa-nova para os pobres”, texto que Jesus aplicará a si na sua primeira aparição na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 17-21). Por fim, o espírito de Deus não sinaliza apenas sua ação inovadora no mundo, mas aponta para o próprio ser de Deus. O espírito é Deus. E Deus é  Espírito. Como Deus é santo, o Espírito será  o Espírito Santo.

O Espírito Santo penetra tudo, abarca tudo, está para além de qualquer limitação. “Para onde irei para estar longe de teu Espírito? Aonde fugirei para estar longe de tua face? Se eu escalar os céus, ai estás, se me colocar no abismo, também ai estás”(Sl 139,7) Até o mal não está fora de seu alcance. Tudo o que tem a ver com mutação, ruptura, vida e novidade tem a ver com o espírito. O Espírito Santo está tão unido à história que ela de profana se transforma em história santa e sagrada.

O Espírito num mundo sem espírito e em degradação

Hoje sentimos a urgência da irrupção do Espírito Santo como na primeira manhã da criação.  A Carta da Terra, face à crise mundial ecológica, com energias negativas que nos podem arrastar ao abismo, afirma:”Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal…Temos ainda muito que aprender  a partir da busca conjunta por verdade e sabedoria (final).

Cabe ao Espírito iluminar nossa mente e transformar nosso coração. Se fizermos esta conversão dificilmente escaparemos das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e sistema-Terra. Cabe ao Espírito a capaciadade de transformar o caos destrutivo em caos criativo, como operou no primeiro momento do big bang. Ele pode transformar a tragédia possível numa crise acrisoladora que nos permite dar um salto de qualidade rumo a uma nova ordem, mais alta, mais humana, mas cordial, mais amorosa e mais espiritual. O universo, a Terra e cada um de nós somos templos do Espírito. Ele não permitirá que seja desmantelado e destruido.

Importa suplicar ao Espírito: Vem, Espírito Criador! Renove a face da Terra, aqueça nossos corações e rasgue um horizonte de sentido e de esperança para a nossa realidade humana desumanizada.

Leonardo Boff é coteólogo, um dos redatores da Carta da Terra e escritor.