A Terceira Guerra Mundial: como ficaria o Brasil

26/11/2024  em Site: A Terra é Redonda: Ruben Bauer Naveira

Vivemos tempos perigosos que podem ameaçar o futuro de nossa vida sobre o planeta. Publico este texto pois é esclarecedor sobre o que eventualmente pode ocorrer. Oxalá sejamos poupados desta tragédia. Apertem o botão

              Por RUBEN BAUER NAVEIRA*

A Rússia irá retaliar o uso de mísseis sofisticados da OTAN contra seu território, e os americanos não têm dúvidas quanto a isso.

Recentemente o site A Terra é Redonda, publicou o meu artigo em que delineio várias possíveis trajetórias para o conflito (há muito tempo) em curso entre Estados Unidos e Rússia.

No dia de ontem, segunda-feira 25, a Ucrânia atacou (mais uma vez) a retaguarda russa com mísseis ATACMS de fabricação americana, atingindo o aeroporto militar de Khalino na cidade de Kursk. Fontes ucranianas dizem que o ataque foi bem sucedido (teria sido destruído um sistema de defesa antiaérea S-400 dos russos, um alvo de elevado valor). Já as fontes russas dizem não ter havido danos significativos. Ambas, porém, reconhecem que o ataque aconteceu.

Não apenas sistemas sofisticados como o ATACMS são operados (programados) por militares americanos atuando clandestinamente na Ucrânia, como a identificação, a seleção e o mapeamento das coordenadas espaciais dos possíveis alvos são levados a cabo a partir de ISR (sigla para Intelligence, Surveillance and Reconnaissance) as quais somente têm como ser providas pelos Estados Unidos, especialmente a partir das imagens esquadrinhadas pela sua onipresente malha de satélites.

Também no dia de ontem, a Casa Branca pela primeira vez assumiu oficialmente que a Ucrânia está autorizada a utilizar mísseis ATACMS para ataques a território da Rússia, com a ressalva de que esta autorização vale por enquanto apenas para a província (oblast) de Kursk – como se isso fosse servir de atenuante perante os russos.

Vladimir Putin havia deixado bem claro em seu discurso na quinta-feira, 21, que, se esse tipo de ataque voltasse a ocorrer, instalações militares dos países ocidentais envolvidos (no caso, os Estados Unidos) seriam alvo de retaliação russa.

Ainda que Vladimir Putin pudesse estar em seu íntimo determinado a levar para casa todo e qualquer desaforo até raiar o dia 20 de janeiro a partir de quando passará a se entender com Donald Trump, os americanos não estão dispostos a lhe deixar nenhuma margem de manobra nesse sentido. Naquele meu texto meu publicado anteontem, eu estimei em cinco por cento as possibilidades de algo assim ocorrer. Hoje, porém, já estou achando cinco por cento muito.

Em suma, a Terceira Guerra Mundial começou.

A retaliação russa virá – e os americanos não têm dúvidas quanto a isso. Assim, eles já estão preparados para o “pós-retaliação”, ou seja, para a escalada militar contra os russos. A Rússia, igualmente, também está preparada para esta escalada.

O problema com a escalada é que ela rapidamente conflui para uma guerra nuclear – a menos que, no decorrer do processo, um dos lados consiga “se impor” sobre o outro, manifestando tamanha superioridade militar que leve o outro lado a recuar (na prática, a se render). Essa capacidade de imposição é denominada no jargão militar de “escalation dominance” (“domínio da escalada”). Naturalmente, nem americanos nem russos percebem um no outro tal capacidade, do contrário não cometeriam o desatino de desafiar o oponente.

Contudo, analistas militares como Andrei Martyanov advogam que a Rússia possuiria sim essa capacidade de dominar a escalada – tomara que ele tenha razão, do contrário o conflito culminará em guerra nuclear.

No meu texto de anteontem, tomei por base as palavras de Vladimir Putin em seu discurso do dia 21 para prever que a Rússia em algum ponto da escalada jogará uma bomba nuclear em alguma cidade ucraniana, dando, no entanto, aviso prévio de modo a propiciar a fuga do máximo possível de civis. O propósito seria intimidar os americanos e levá-los a interromper a escalada, na premissa de que eles iriam recear que outras bombas nucleares viessem a exterminar cidadãos americanos, bem como de que, pela óptica dos americanos, os ucranianos não passariam mesmo de bucha de canhão descartável.

Ainda que algo perturbador assim possa fazer sentido (e possa vir a surtir o efeito esperado), isso não seria domínio da escalada (porque os americanos também são capazes de jogar bombas nucleares sobre cidades), seria no máximo uma tentativa de estancar a escalada antes que as coisas fiquem realmente muito feias.

Enfim, a todo mundo no mundo (inclusive aos americanos e russos), restará prender a respiração enquanto acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos.

A respeito do timing para a retaliação russa ao ataque ucraniano/americano de ontem: considero improvável que essa retaliação venha de imediato (tipo hoje, ou amanhã). Ao contrário dos americanos, os russos são mais cerebrais e menos impulsivos. O que está em jogo é o destino do país (Rússia), e a “dosagem” da resposta (nem tão fraca que estimule os americanos a prosseguir escalando, nem tão forte que os obrigue a partir para um tudo-ou-nada) necessita ser muitíssimo bem ponderada, calibrada e planejada.

E se, no final das contas, vier mesmo a guerra nuclear? O mundo vai acabar? Não, o mundo não vai acabar. O que vai acabar com toda certeza é este mundo ao qual estivemos acostumados desde o dia que nascemos. E então precisaremos inventar um novo mundo, e um novo modo de vivermos nele as nossas vidas. Partilhei as minhas reflexões a esse respeito no texto “O Pós-Guerra Nuclear no Brasil”, que lhe convido a acessar.

*Ruben Bauer Naveira é ativista político e pacifista. Autor do livro Uma Nova Utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos (disponível em http://www.brasilutopia.com.br/).


Perché siamo arrivati ​​alla situazione pericolosaattuale?

Leonardo Boff

È un luogo comune affermare che siamo al cuore di una grande crisi di civiltà. Essa non è regionale, ma globale. In verità, questa crisi globale contiene un numero infinito di altre crisi sul piano economico, politico, ideologico, educativo, religioso e persino spirituale. Non sappiamo cosa ci aspetta. Abbiamo sempre più coscienza collettiva che, così com’è, il mondo non può continuare. Il cammino attuale ci sta portando sull’orlo di un precipizio. Dobbiamo cambiare. È attribuita ad Einstein la frase: “il pensiero che ha creato la crisi attuale non può essere lo stesso che ci farà uscire da essa”. Dobbiamo definire un nuovo cammino. Come possiamo costruirlo affinché sia ​​davvero un altro tipo di mondo?

Il fatto inconfutabile è che c’è troppo caos distruttivo senza previsione che possa essere generativo. Ci sono forme di disumanità che ultra-passano tutto ciò che abbiamo vissuto e sofferto nella storia fino al momento attuale. Basta guardare al genocidio che avviene a cielo aperto nella Striscia di Gaza, perpetrato da un primo ministro israeliano, crudele e spietato, Benjamin Netanhyau, sostenuto da un presidente cattolico nord-americano e dalla Unione Europea che tradisce i suoi ideali storici di diritti umani, di libertà e di democrazia. Tutti questi diventano complici dell’atroce crimine contro l’umanità. C’è un’enorme ondata di odio, di disprezzo per la solidarietà, per la scienza, di negazione della verità e per il dominio dell’ignoranza. Questo anti-fenomeno si verifica soprattutto in Occidente.

Solo il fatto che l’1% possieda la ricchezza di più della metà dell’umanità, dimostra quanto sia perverso, profondamente diseguale e ingiusto, lo scenario sociale globale. A ciò si aggiunge l’emergenza ecologica con l’insostenibilità del pianeta Terra, vecchio e con risorse limitate che, di per sé, non sostiene un progetto di crescita illimitata, ossessione delle politiche sociali dei paesi. Questo processo ha esaurito, attraverso l’eccesso di sfruttamento, i biomi terrestri e sta mettendo a rischio i fondamenti naturali che sostengono la nostra vita e la vita della natura (Earth Overshoot). La continuità dell’avventura umana su questo pianeta non è assicurata. Ha scritto bene Papa Francesco nella sua enciclica Fratelli tutti (2020): «Siamo tutti sulla stessa barca; o ci salviamo tutti o nessuno si salva”. Il tutto si riassume con il riscaldamento globale crescente, inaugurando, quella che sembra essere, una nuova fase, più calda e pericolosa nella storia della Terra e dell’umanità.

Perché siamo arrivati ​​all’attuale situazione minacciosa che può mettere a rischio il futuro della vita umana e della natura?

Esistono diverse interpretazioni della situazione critica attuale. Non pretendo di avere una risposta sufficiente. Ma lancio un’ipotesi, frutto di una vita di studi e riflessioni. Stimo che la nostra situazione risalga a più di due milioni di anni fa, quando comparve l’homo habilis, l’essere umano che inventò strumenti di intervento nei cicli della natura. Fino ad allora, il suo rapporto era di interazione, di sintonizzazione con i ritmi naturali e prendendo quello che le sue mani potevano raggiungere. Ora, con l’homo habilis o faber, inizia l’intervento sulla natura: la caccia agli animali e l’abbattimento sistematico degli alberi. Dopo migliaia di anni, l’intervento continuò fino a 10-12 mila anni fa, nel Neolitico, con l’aggressione della natura. Ha interferito con il corso dei fiumi, inaugurando un’agricoltura irrigua e una gestione di intere regioni, che implicava cambiamenti nei rapporti con la natura fino a depredarla. Infine, a partire dall’era dell’industrialismo e del modo di produzione moderno e contemporaneo, attraverso la tecnica, l’automazione e l’intelligenza artificiale, si è giunti alla distruzione della natura. Proiettiamo una nuova era geologica, quella dell’antropocene, del necrocene e del pirocene, in cui l’essere umano appare come il Satana della Terra. Ha trasformato il giardino dell’Eden in un mattatoio, come denunciato dal biologo E. Wilson. Non si è comportato come l’angelo custode del suo habitat, la Madre Terra.

Questo processo storico-sociale ha trovato la sua giustificazione teorica presso i padri fondatori della modernità: Galileo Galilei, Cartesio, Newton, Francis Bacon e altri. Per loro l’essere umano è il “signore e padrone” della natura. Non si sente parte di essa, ma sta fuori e al di sopra di essa. La Terra, fino ad allora considerata la Magna Mater che ci dona tutto, passò ad essere considerata come una cosa inerte (res extensa), senza scopo, al massimo, uno scrigno di risorse devolute all’uso e al piacere dell’essere umano. L’asse portante di questo modo di vedere il mondo è la volontà di potenza, come dominio sugli altri, sui popoli, sulle loro terre (colonizzazione a partire dall’Europa), sulla classe lavoratrice, sulla natura, sulla vita fino all’ultimo gene, sulla materia fino al minimo top-quark. A servizio del dominio fu proiettata la scienza, non solo come conoscenza teorica di come funzionano le cose, ma se ne è presto appropriata la volontà di potenza, convertendola in un’operazione tecnica di trasformazione della realtà. Con essa si è scatenata una vera e propria guerra contro la Terra, senza alcuna possibilità di vittoria, strappandole tutto in funzione del sogno di una crescita illimitata dei beni materiali. La Terra è stata attaccata a tutti i livelli (suolo, aria, acque, foreste ecc.) provocando la devastazione praticamente dei principali biomi, senza misurare gli effetti collaterali. È l’impero della ragione strumentale-analitica e tecnocratica. Non possiamo fare a meno di apprezzare gli immensi benefici che ha portato alla vita umana. Ma allo stesso tempo ha creato il principio dell’autodistruzione con armi letali in grado di spazzare via ogni forma di vita. La ragione è diventata irrazionale e folle.

Oggi siamo arrivati ​​al punto-limite in cui la Terra si mostra gravemente malata. Essendo un Super-organismo vivente, reagisce inviandoci eventi estremi: gravi siccità e forti nevicate, una vasta gamma di virus e batteri, alcuni letali, oltre a tifoni, tornado, inondazioni e terremoti. Non stiamo andando incontro al riscaldamento globale. Ci siamo già dentro. La scienza è arrivata tardi, può solo avvisare del suo arrivo e mitigarne gli effetti dannosi. Questo cambiamento climatico minaccia di fatto la biodiversità e mette a serio rischio il futuro del sistema-vita.

Aggiunge un fatto non trascurabile. Il dispotismo della ragione – il razionalismo – ha represso ciò che di più umano c’è in noi: la nostra capacità di sentire, di amare, di prenderci cura, di vivere la dimensione dei valori come l’amicizia, l’empatia, la compassione e la capacità di rinuncia e di perdono, insomma il mondo delle eccellenze. Tutto ciò veniva visto come un ostacolo alla visione oggettiva della scienza. Abbiamo separato mente e cuore, la ragione intellettuale e la ragione sensibile. Tale rottura ha causato una profonda distorsione dei comportamenti, provocando l’insensibilità di fronte al dramma di milioni e milioni di persone povere e miserabili e alla mancanza di cura della natura e dei suoi beni e servizi.

Se volessimo sintetizzare la crisi di civiltà in una piccola formula, diremmo: essa ha perso la giusta misura, il suo valore, presente in tutte le tradizioni etiche dell’umanità. Tutto è eccessivo, l’assalto alla natura, l’uso della violenza nelle relazioni personali e sociali, le guerre senza alcuna misura di contenimento, l’eccessivo predominio della competizione al prezzo della cooperazione, il consumo eccessivo accanto alla fame da lupi di milioni di persone, senza alcun senso di solidarietà e umanità.

Seguendo questo progetto di civiltà, basato sul dominio del potere, ormai globalizzato, andremo fatalmente incontro ad una tragedia ecologico-sociale al punto da rendere il pianeta Terra inabitabile per noi e per gli organismi viventi. Sarebbe la nostra fine dopo milioni di anni su questo pianeta bello e ridente. Non abbiamo saputo prendercene cura affinché fosse la Casa Comune di tutti gli esseri umani, natura compresa.

Ma poiché il processo cosmogenico e terreno non è lineare, capace di balzi in alto e in avanti, può accadere l’imprevisto, rendendolo probabile attraverso un grande impatto. Ciò trasformerebbe la coscienza collettiva dell’umanità. Come diceva il poeta tedesco Hölderin (+1843): “Dove abita il pericolo, cresce anche ciò che lo salva”. Questo salvataggio significherebbe il necessario cambio di paradigma e garantirebbe così il nostro futuro. Ciò rappresenterebbe un’utopia possibile e realizzabile per l’attuale situazione della Terra e dell’umanità.

Leonardo Boff ha scritto A busca da justa medida (2 vol), Vozes 2002/3; Cuidar da Casa Comum: pistas para evitar o fim do mundo, Vozes 2023.

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

“Pueblo mío blanco: ¿en qué te entristecí? Respóndeme”

Leonardo Boff*

El día 20 de noviembre hemos celebrado el Día de la Conciencia Negra, por primera vez a nivel nacional. Para la oportunidad escribí el presente texto como un homenaje a esta fecha.

La Pasión de Cristo continúa siglo tras siglo en el cuerpo de los negros históricamente crucificados. Jesús agonizará hasta el fin del mundo, mientras uno solo de sus hermanos y hermanas esté todavía colgando de alguna cruz. Con esta convicción, la Iglesia Católica, en la liturgia del Viernes Santo pone en boca de Cristo estas palabras conmovedoras:

Pueblo mío, mi pueblo elegido ¿en qué te entristecí? Dime. ¿Qué más podría haber hecho por ti? ¿en qué te falté? Yo te hice salir de Egipto y te alimenté con maná. Te preparé una tierra hermosa; tú, la cruz para tu rey”.

Al celebrar el Día de la Conciencia nacional nos damos cuenta de que aún no ha sido completamente asumida. Hay mucha discriminación en la calle, en las redes sociales contra los afrobrasileros, alcanzando a muchas personas negras sencillas, trabajadores, jugadores de fútbol y hasta actrices y actores famosos. ¿Cuántos jóvenes negros son ejecutados por la policía en los cerros de nuestras ciudades? En una década, de 2012 a 2022, el 79% de las víctimas de homicidio del sexo masculino eran negras. El estudio divulgado por el Instituto Sou da Paz es atroz: 8 de cada 10 hombres muertos por arma de fuego son negros.

Estos datos nos revelan que la pasión de Cristo continúa en la pasión de este pueblo afrobrasilero. Falta la segunda abolición, de la miseria, del hambre, del desempleo, de la discriminación.

En solidaridad con todos ellos y ellas hice esta pequeña reflexión-poema, inspirada en la liturgia católica del viernes santo:

Hermano mío blanco, hermana mía blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo te inspiré la música cargada de melancolía y el ritmo contagioso. Te enseñé cómo usar el bombo, la cuica y el atabaque. Fui yo quien te mostró el rock y el balanceo de la samba. Y tú tomaste lo que era mío, te hiciste nombre y renombre, acumulaste dinero con tus composiciones y shows y nada me devolviste.

Yo bajé de los cerros, te mostré un mundo de sueños, de una fraternidad sin barreras. Creé mil fantasías multicolores y te preparé la mayor fiesta del mundo: bailé el carnaval para ti. Y tú te alegraste y me aplaudiste de pie. Pero pronto, muy pronto, me olvidaste reenviándome al cerro, a la favela, a la realidad desnuda y cruda del desempleo, del hambre, de la discriminación y de la opresión.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo te di en herencia el plato del día-a-día, el fríjol y el arroz. De las sobras que recibía, hice la feijoada, el vatapá, el efó y el acarajé: la cocina típica de Bahía. Y tú me dejas pasar hambre. Permites que mis niños mueran de hambre o que sus cerebros queden irremediablemente afectados, infantilizándolos para siempre.

Yo fui arrancado violentamente de mi patria africana. Conocí el navío-fantasma de los negreros en el que tantos y tantas murieron y fueron lanzados al mar. Al llegar aquí fui hecho cosa, “pieza”, esclavo y esclava. Fui la madre-negra para tus hijos e hijas. Cultivé los campos, planté el tabaco para el cigarro y la caña para el azúcar. Hice todos los trabajos. Ayudé a construir gran parte de lo que existe en este país, monumentos, palacios e iglesias coloniales en las cuales muchos se revelaron grandes artistas. Y tú me llamas perezoso y me arrestas por vagabundo. Me discriminas debido al color de mi piel y me tratas como si todavía siguiera siendo esclavo.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo supe resistir, conseguí huir y fundar quilombos: sociedades fraternales y sororales, sin esclavos, de gente pobre pero libre, negros, mestizos y blancos pobres. A pesar de los azotes en mi espalda, trasmití la cordialidad y la dulzura al alma brasilera. Y tú me cazaste como a un bicho, arrasaste mis quilombos y todavía hoy impides que la abolición de la miseria que esclaviza y de la discriminación que duele continúen como realidades cotidianas y efectivas.

Yo te mostré lo que significa ser templo vivo de Dios. Y, por eso, cómo sentir a Dios en el cuerpo lleno de axé y celebrarlo en el ritmo, en la danza y en las comidas sagradas. Y tú reprimiste mis religiones llamándolas ritos afrobrasileros o simple folclore. A menudo hiciste de la macumba un caso de policía.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho yo, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Cuando con mucho esfuerzo y sacrificio conseguí ascender un poco en la vida, ganando un salario com mucho sudor, comprando mi casita, educando a mis hijos, cantando mi samba, animando a mi equipo preferido y pudiendo tomar el fin de semana una cervecita con los amigos, tú dices que soy un negro de alma blanca, disminuyendo así el valor de nuestra alma de negros dignos y trabajadores. Y en los concursos, en igualdad de condiciones, casi siempre decides a favor de un blanco. Porque soy negro o negra.

Y cuando se pensaron políticas públicas por un gobierno que cuida del pueblo, para reparar la infamia histórica, permitiéndome lo que siempre me negaste: estudiar y formarme en las universidades y en las escuelas técnicas y así mejorar mi vida y la de mi familia, la mayoría de los tuyos grita: va contra la constitución, es discriminación, es una injusticia social. Pero finalmente la Justicia ahora nos hizo justicia y nos abrió las puertas de las universidades y de las escuelas técnicas.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho yo, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Respóndeme, por favor”.

Y nosotros los blancos, los que disponemos del tener, del saber y del poder, generalmente callamos, avergonzados y cabizbajos. Es hora de escuchar el lamento de estas hermanas y hermanos nuestros afro-descendientes, sumar fuerzas con ellos y ellas y construir juntos una sociedad inclusiva, pluralista, negra, mestiza, fraterna, cordial donde nunca más haya, como todavía sigue habiendo en el campo y en las ciudades, personas que se atreven a esclavizar a otras persoas.

Ojalá podamos gritar: “esclavitud nunca más”. Y enjugando las lágrimas podamos responder a las discriminaciones con amor y comprensión como tantos y tantas afrodescendientes lo hacen. Y un día, que sólo Dios sabrá cuando, podremos decir todos juntos, como en el Apocalipsis, sin venganza y sin rencor: “Todo eso pasó”.

*Leonardo Boff ha escrito entre otros libros Tierra madura: una teología de la vida, Planeta, São Paulo 2023.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 “Meu povo branco: em que te contristei:responde-me?”

                            Leonardo Boff

No dia 20 de novembro temos celebrado o Dia da consciência Negra, pela primeira vez  a nível nacional. Para esta oportunidade escrevi o presente texto como uma homenagem à esta data.

A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos negros historicamente crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs que esteja ainda pendendo de alguma cruz. Nesta convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei?

Eu te fiz sair do Egito, com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, tu, a cruz para o teu rei”.

Celebrando o Dia nacional da Consciência negra, nos damos conta de que ela não foi ainda plenamente assumida. Há muitra discriminação na rua, nas midias sociais contra os afrobrasileiros, atigindo muitas pessoas negras simples, trabalhadores, jogadores de futebol e  até atores e atrizes famosos. Quantos jovens negros são executados pela polícia nos morros de nossas cidades? Em uma década, de 2012 a 2022, 79% das vítimas de homicídio do sexo masculino eram negras. O estudo divulgado pelo Instituto Sou da Paz é estarrecedor: 8 em cada 10 homens mortos por arma de fogo são negros.

Estes dados nos revelam que a paixão de Cristo continua na paixão deste povo afrobrasileiro. Falta a segunda abolição, da miséria, da fome do desemprego e da discriminação.

Em solidariedade a todos eles e elas fiz este pequeno poema-reflexão,inspirada na liturgia católica da sexta-feira santa:

“Meu irmão branco,  minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te mostrei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e shows e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome, da discriminação  e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros no qual tantos e tantos morreram e foram lançados ao mar. Chegando aqui fui feito coisa, “peça”, escravo e escrava. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. Ajudei a construir grande parte do que existe neste país, monumentos, palácios e igrejas coloniais nas quais muitos se revelaram grandes artistas. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse ainda na escravidão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar milhares de quilombos: sociedades fraternais e sororais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, negras, mestiços e brancos pobres. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza e a discriminação que machuca,  continuem como realidades cotidianas e efetivas.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre sou preterido em favor de um branco. Porque sou negro ou negra.

E quando se pensaram políticas públicas por um governo que cuida do povo, para reparar a infâmia histórica, permitindo-me o que sempre me negaste: estudar e me formar nas universidades e nas escolas técnicas e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. Mas finalmente a Justiça agora nos fez justiça e nos abriu as portas das universidades e das escolas técnicas.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

“Responde-me, por favor”.

E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos. É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afrodescendentes, somar forças com eles e elas e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, negra, mestiça, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo no campo e nas cidades pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas.

Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas podemos responder às discriminações com amor e compreensão como tantos e tantas afrodescendentes o fazem. E vamos um dia, que só Deus saberá quando, poderemos dizer todos juntos, como no Apocalipse,  sem vingança e sem rancor:”Tudo isso passou”.

Leonardo Boff escreveu entre outros Terra madura:uma teologia da vida, Planeta, São Paulo 2023.