Leonardo Boff: 80 anos de fecundidade:Maria Clara Bingemer

Conheci Leonardo Boff primeiramente através de seus escritos. Quando comecei a estudar Teologia na PUC-Rio, em 1975, tive como leitura para os cursos textos e livros seus. Pouco a pouco sua produção teológica constante e ininterrupta ia sendo por mim lida e apreciada, seja por indicação dos professores, seja por iniciativa própria. Ajudaram-me muito e a muitos e muitas que conheciam seus livros dos anos 1970: Vida para além da morte, Minima Sacramentalia. E evidentemente, Jesus Cristo Libertador.

Graças ao comum e saudoso amigo João Batista Libanio SJ, tive a oportunidade de conhecê-lo mais de perto na década de 1980. Comecei a participar de reuniões por ele organizadas, nas quais conheci e convivi com pessoas do calibre de Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino e tantos outros. A liderança incontestável, porém, era de Leonardo, que a partir da Editora Vozes dirigia revistas, organizava coleções, trazia a público o melhor da teologia que a América Latina produzia naqueles anos

Participei do período em que ele teve dificuldades com a Comissão da Doutrina da Fé, no Vaticano. E qual não foi minha surpresa quando, ao mesmo tempo em que me inteirava da triste notícia do “silêncio obsequioso” que lhe era imposto, recebi um telefonema seu pedindo-me para substituí-lo em Petrópolis ministrando o curso de Trindade.

E assim aconteceu. Subia entusiasmada a serra toda semana para dar aula. Turma ótima de alunos vigorosos e interessados, a maioria franciscanos. Mas havia também alguns cristãos leigos. Após a aula, tínhamos conversas profundas e enriquecedoras, que não esqueço.

Esse catarinense, vindo de um sul brasileiro bem marcado pelo machismo, sempre acreditou nas mulheres e em seu potencial na teologia. Em 1986, como diretor da REB, publicou um número inteiro da revista só com artigos de mulheres teólogas latino-americanas. Creio haver sido a primeira publicação desse gênero no continente. E foi um grande apoio para nós, que começávamos apenas a tecer nossa rede e a acreditar em nós mesmas.

Em maio de 1989, defendi minha tese de doutorado em teologia na Universidade Gregoriana de Roma. Entre os muitos brasileiros – estudantes e professores – que assistiram a minha defesa havia dois muito ilustres: Dom Marcelo Carvalheira (então bispo responsável pelo setor Leigos na CNBB) e Leonardo Boff. Estando em Roma na ocasião, se fez presente com seu apoio e amizade. Jamais esquecerei sua presença naquele dia tão importante para mim.

Dos anos 1990 em diante, já não como frade franciscano, lançou-se como pioneiro no tema que seria a grande novidade do pensamento social e da teologia na virada do milênio: a ecologia. Hoje, vejo que seu fascínio pela criação e o cosmos já se encontravam latentes em sua espiritualidade franciscana. Apesar de não mais pertencer à Ordem dos Frades Menores, o carisma de Francisco de Assis, com seu amor universal por todas as criaturas, continuava selado em sua vida e seu coração. Acadêmico respeitado e convidado no mundo inteiro, continuava produzindo incessantemente e trazendo novas contribuições para a sociedade. E assim segue até hoje.

O advento do Papa Francisco, com a vital renovação que trouxe para a Igreja, encontrou um Leonardo atento e ativo. E quando celebramos seu 80º aniversário, continuamos todos saboreando os frutos de seu ministério teológico e intelectual. Constato com imensa alegria o interesse de alunos meus que estudam sua obra. E posso testemunhar a luminosa influência que este sábio octogenário tem sobre as novas gerações que não foram maleficamente captadas pela razão cínica e ainda desejam horizontes mais largos.

Subi a serra mais uma vez para comemorar seus 80 anos. Em uma bela e carinhosa festa organizada com carinho por sua família, seus editores e seus amigos e irmãos franciscanos, tocava música, ressoavam as palavras e celebrava-se a vida. Talvez o presente maior tenha sido a carta pessoal e fraterna escrita ao aniversariante pelo Papa Francisco. Nela, o Pontífice expressa o agradecimento e o reconhecimento por toda uma vida a serviço da justiça e da inteligência, da fé e do amor.

Felizes oitenta, caríssimo amigo. É bonito ver você continuando a dar frutos, desafiando o kronos e habitando plenamente o kairos, tempo de Deus. Que Ele continue a abençoá-lo e a fazer de sua vida um verdadeiro milagre de fecundidade!

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

ESPERANÇA: INDIGNAÇÃO E CORAGEM

               

                      ESPERANÇA: INDIGNAÇÃO E CORAGEM

Vivemos no Brasil nos últimos dois anos dois grandes golpes: o primeiro, o impeachment e a deposição de Dilma Rousseff e neste ano de 2018 a ascensão da extrema-direita com a eleição de Jair Bolosonário a presidente do Brasil.

Não foi Bolsonaro que ganhou. Foi o PT que perdeu e com ele o Brasil.

1.Vivemos tempos sombrios e incertos

Vivemos tempos sombrios e incertos. Internacionalmente somos motivo de vergonha e de escárnio. Não sabemos sequer que futuro nos espera. A estrutura de governo que até agora se montou, particularmente no Ministério das Relações Exteriores e no da Educação nos desenham um quadro perturbador. No lugar da partidização dos cargos do Estado está ocorrendo uma militarização de seus principais postos.

Os militares não precisaram dar um golpe. O ex-capitão Bolsonaro os chamou para dentro do Governo. Como estamos sem horizonte, ficamos perplexos e muitos tomados de desesperança.

2.. Resgate da utopia e das utopias minimalistas

Num contexto assim, antes de falar de esperança, temos que resgatar a dimensão da utopia. A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é feito e dado, o que está aí palpável. Mas por aquilo que ainda pode ser feito e dado, portanto por aquilo que é potencial e viável não é ainda visível.

A utopia nasce deste transfundo de potencialidades presentes na história, em cada povo e em cada pessoa. O renomado filósofo alemão Ernst Bloch introduziu a expressão principio-esperança. Ele é mais que a virtude da esperança; emerge como uma fonte geradora de sonhos e de ações. O princípio esperança representa o inesgotável potencial da existência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações de nossa condição humana, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar. E dizer sim a formas novas ou alternativas de organização social ou de plasmação de qualquer projeto. O não é fruto de um sim prévio e anterior.

Hoje podemos afirmar que as grandes utopias, as utopias maximalistas, do iluminismo (dar cultura letrada a todos), do socialismo (fazer que o nós prevaleça sobre o eu) e também do capitalismo (o eu prevalecer sobre o nós) entraram numa profunda crise. Nunca realizaram o que prometiam: nem todos participam da cultura letrada, a maioria não assistiu a distribuição equitativa e justa dos bens e a riqueza foi somente de pequenos grupos e não das maiorias. Mais ainda: todas estas utopias degradaram a Casa Comum pela super-exploração, e produziram um mar de pobreza, de injustiça social e de sofrimento evitável no lugar de benefícios para todos.

Somos obrigados a nos volver paras utopias minimalistas, aqueles que, não podendo mudar o mundo, podem, no entanto, melhorá-lo.

As utopias minimalistas são aquelas que foram implementadas pelos governos Lula-Dilma e seus aliados com base popular que agora pelo governo de ultra-direita seguramente serão desmontadas.

A nível das grandes maiorias são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria suficiente para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução destas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar que a nação supere relações de ódio e de exclusão,que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma outra utopia seria possível.

3.Resgatar a força política da esperança

A vitória de Bolsonaro é fruto de uma imensa e bem tramada fraude: suscitando o anti-petismo, colocando a corrupção endêmica no país, como se fosse coisa só do PT, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista e atrasada, ligada a um tipo de família moralista e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os quilombolas, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando milhões milhões de fake news, caluniando e difamando o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.

Por trás do triunfo da extrema-direita atuaram forças do Império, particularmente, da CIA como o mostraram váios analistas da área inernacional, as classes dos endinheirados, herdeiros da Casa Grande, no sentido de preservar seus privilégios, parte do Ministério Público, do grupo ligado ao Lava-Jato, parte do STF e com expressiva força a imprensa empresarial conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.

A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. Todas elas estão contaminadas pela corrupção e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política. A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro juiz federal de primeira instância Sérgio Moro que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre se moveu não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado) e pelo impulso de raiva e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento que recebeu nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.

Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. A vitória fraudulenta de Bolsonaro (por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportâveis (mais de 62 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candadidato e agora presidente Bolsonaro soube alimentar durante a campanha. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.

Este cenário adverso ao direito e a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime de exceção, num tempo de pós-democracia ( juiz no Rio, Rubens Casara). Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história. Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender das contradições e a sair mais maduros, experimentados e seguros para rasgar um novo caminho mais justo, democrático, popular e includente para o Brasil.

Referimo-nos ao princípio esperança já citado anteriormene, que é aquele impulso que nos habita a sempre nos mover, projetar sonhos e utopias e dos fracassos nos permitir tirar sábias lições e nos tornar mais fortes na resiliência, na resistência e na luta.

  1. As duas formosas irmãs da esperança

A  Santo Agostinho (353-450 da era cristã), talvez o maior gênio cristão e africano de Hipona, hoje Argélia, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “a esperança tem duas belas e queridas filhas: a indignação e a coragem; a indignação para recusar as coisas como estão aí; e a coragem, para mudá-las”.

Nesta fase de nossa história, devemos evocar, em  primeiro lugar, a filha-indignação contra o que o futuro governo de Bolsonaro está e ainda irá perpetrar criminosamente contra o povo, contra os indígenas, contra os negros, contra os quilombolas, contra a população do campo, contra as mulheres, contra os sem-teto, e os sem-terra (MST) criminalizando-os como terroristas, os trabalhadores e contra os idosos, tirando-lhes direitos e rebaixando milhões que da pobreza estão passando para a miséria.

Nem escapa a autonomia nacional, pois o governo ofendendo nossa soberania, está permitindo vender terras nacionais a estrangeiros e mostrando um humilhante alinhamento à estratégia direitista e militarista do governo norteamericano de Trump.

Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar a filha-indignação e de não lhe dar paz. Deve denunciar, resistir e pressionar o mais que puder para mudar dos rumos da política.

A filha-coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos que poderão ser calorosos. É ela que nos manterá animados, nos sustentará na luta e poderá nos levar a mudanças substantivas. É imperioso voltar às bases populares, de onde nasceu o PT, criar escolas de formação política, passar de beneficiarios de projetos governamentais de inclusão a cidadãos ativos que se organizam, elaboram pressões, saem às ruas e apresentam projetos alternativos aos oficiais que deem centralidade aos mais pobres e vulneráveis e se decidam por um outro tipo de democracia participativa e ecológica.

Lembremo-nos do conselho de Dom Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”: “Não devemos aceitar as derrotas sem antes dar todas as batalhas”.

Há um dado que devemos sempre tomar em conta: é evocar o primeiro artigo da constituição que reza: ”todo o poder emana do povo”. Governantes, deputados e senadores são apenas delegados do povo. Quando estes atraiçoam e não representam mais os interesses gerais mas os do mercado voraz, e de grandes grupos corporativos nacionais e internacionais que só conhecem a competição e desconhecem ao que é mais humano em nos que é a colaboração e solidariedade, o povo tem direito de reclamar por um empeachment e buscar formas legais de afastá-lo de poder.

As duas belas filhas da esperança poderão fazer  sua a frase do escritor argelino-francês Albert Camus, autor do famoso romance A Peste: ”Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim, morava um verão invencível”.

O povo brasileiro, em seu momento, assim esperamos, fará sentir dentro de si este verão invencível, fruto de uma rebelde esperança. Será o resgate da democracia contra a impostura do governo Bolsonaro e de seus seguidores e um pilar para refundação de nosso país sobre outros valores e sobre bases mais humanitárias e participativas.

A esperança não é apenas um princípio, quer dizer, um dado da essência humana. Ela é também uma virtude cristã, junto com a fé e o amor. A esperança, de certa forma, está na base da vida. Podemos perder a fé e contuamos a viver. Podemos perder o amor de nossa vida e nos ralizarmos num outro. Mas quando perdemos a esperança, estamos a um passo do suicídio porque a vida perdeu sentido e o futuro não possui mais nenhum horizonte com uma luz orientadora. Dominam as trevas.

  1. A esperança no Novo Testamento

Curiosamente, os Evangelhos nunca falam de esperança. Logicamente, havia no povo eleito, a esperança pela vinda do Messias libertador. Ela ocorre uma vez na espístola de São João (1 Jo, 3,3), 4 vezes na epístola aos Hebreus e 3 vezes na primeira epístola de São Pedro. Mas é uma virtude muito presente nos Atos dos Apóstolos (7 vezes) e frequetemente nas cartas de São Paulo. Bem escreve na Epístola aos Romanos que Abraão teve “uma esperança contra toda esperança, de ser pai de muitas nações”(4,18). Numa outra passagem diz que “a esperança nunca engana pois o amor está em nossos corações”(5,5).

Cristo nos salvou. Mas peregrinamos no mundo longe de Deus. Por isso afirma São Paulo: “é na esperança que somos salvos”(Rom 8,24). Aos Efésios fala que num certo tempo “vivíamos sem esperança e sem Deus”(2,12) e agora pelo sangue de Cristo pertencemos ao Messias.

Embora não se use frequentemente a palavra esperança, a realidade da esperança para os cristãos foi, é e será Jesus Cristo vivo, morto e ressuscitado. Por ele Deus mostrou   que a promessa de salvação e de libertação da criação e da humanidade nunca desvaneceu. Nele, pela ressurreição, estamos seguros de que a esprança jamais nos defraudará e que por ela se antecipou o fim bom da criação, do destino humano e do universo.

Devemos somar as energias da esperança, daquela que está sempre presente em nosso ser com aquela que é uma virtude cristã. Ambas se dão as mãos. Elas nos enriquecem com as energias para suportar as aflições do tempo presente mas muito mais nos dão a coragem para enfretá-las e inaugurar um novo caminho.

Talvez nunca em nossa história temos precisado tanto das duas formas de esperança como agora, pois os tempos são maus e somos governados por forças poderosas do ódio, da exclusão, da falsidade, da violência e da mentira.

Que o Espírito que é esperança dos pobres não nos deixe desanimar mas nos acompanhe com sua Energia divina para sermos fiéis ao sonho de Jesus. Ele veio para nos ensinar a viver os bens do Reino: do amor, da justiça,da compaixão com os pobres, do perdão e da total confiança no poder de Deus, “apaixonado amante da vida”(Sb 11,2 6).

(Palestra dada no dia 2 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte a um numeroso grupo de políticos que assumem a fé cristã como fonte de ética e de inspiração para os ideais democráticos, grupo este organizado pelo ex-deputado Durval Angelo de Andrade e atualmente membro do Tribunal de Contas do Governo de Minas Gerais)

Leonardo Boff, teólogo e assessor de movimentos sociais.

“LaChiesa è dei mistici non del potere”:entrevista de L.Boff ao La Repubblica de Roma

 

                          “LaChiesaè dei mistici non del potere”

Intervista di PAOLO RODARI a Leonardo Boff 26/11/2018

L aconsidera il suo“canto Ldel cigno”, la traduzione che Leonardo Boff, ex frate francescano ed ex presbitero brasiliano,

Il noto esponente della Teologia della liberazione, fa de l’Imitazione di Cristo di Tommaso da Kempis. A uno dei testi più meditati dopo il Vangelo e ritraducendo partendo dall’edizione della Tipografia poliglotta Vaticana, Boff aggiunge, «nel tramonto della vita», un quinto libro sulla sequela di Gesù.

Freud, Jung e Heidegger lessero Tommaso da Kempis riflettendo sul tema dello svuotamento di sé contro ogni attaccamento al proprio io. Di questo c’è bisogno oggi?

R/«Èun tema centrale e rappresenta l’atteggiamento diGesùche,“pur essendo di natura divina”, ha spogliato séstessoper essere uguale anoi. Questarinuncia all’attaccamento al proprio io è la prima virtù del buddismo e anche del cammino spirituale cristiano. Ed è il tema centrale del più grande dei mistici dell’Occidente, Meister Eckhart, con il suo Abgeschiedenheit,la pratica del distacco. Psicologi come Freud e filosofi come Heidegger hanno compreso tale esigenza di Tommaso da Kempis. Il distacco è il primo passo per il vero processo di individuazione e di identità personale. Èciò che ci assicura il dono più grande dopo l’amore, che èla libertà interiore».

Lei scrive che seguire Gesù significa assumere la sua causa, correre i suoi rischi ed eventualmente accettare il suo stesso tragico destino. Cosa significa?

R/«È una realtà testimoniata dalla Chiesa della liberazione dell’America Latina sotto i regimi militari in vari Paesi.Èquesto tipo di Chiesa a prendere sul serio l’opzione per i poveri, la quale ha prodotto e produce anche oggi tanti martiri, tra i laici e le laiche, i preti e vescovi come Oscar Romero in El Salvador e Angelelli in Argentina».

La Chiesa sembra in alcune sue parti legata a una visione imperialista/costantiniana,
immersa nella storia e votata alla conquista del potere. E Francesco a volte appare come una meteora in un mondo che fatica a tenere il suo passo. Cosa pensa?

R/«Credo sinceramente che la Chiesa-istituzione, cioè la Chiesa come società gerarchica, non si senta parte del popolo di Dio come richiedeva il Concilio Vaticano II, ma al di fuori e al di sopra di esso. Organizzandosi non attorno al più antico concetto di communio , di comunione tra tutti, ma attorno al potere sacro (sacra potestas), escludente perché concentrato solo in alcune mani. Questo tipo di Chiesa è caduta nelle tre tentazioni affrontate e superate da Gesù: quella del potere religioso di riformare il mondo a partire dal tempio; la tentazione del potere profetico di trasformare le pietre in pane, ela tentazione del potere politico, dominare su tutti i popoli. Restano attuali le parole pronunciate dal cattolico Lord Acton in riferimento ai potenti papi del Rinascimento: “Il potere tende a corrompere e il potere assoluto corrompe in modo assoluto”. E ancora più pertinente è quanto affermava Hobbes riguardo al potere, che, diceva, si sostiene solo sul “desiderio incessante di avere sempre più potere”. Tutte parole che si sono concretizzate nella storia della Chiesa, attraverso una concentrazione enorme di potere unicamente nelle mani del clero, con esclusione in particolare delle donne. È stato necessario un papa proveniente dalla fine del mondo, che ha scelto il nome Francesco, archetipo della povertà e della rinuncia a ogni potere, per mostrare come la gerarchia della Chiesa debba orientarsi in base al servizio (ierodulia )enon alpotere sacro (ierarchia )».

Lei subì un certo ostracismo da Roma?

R/«Non ho conservato alcun rancore per la punizione che mi è stata inflitta del silentium obsequiosum. Sapevo che la teologia del potere sacro operante nella testa dei responsabili dell’ex Sant’Uffizio avrebberesoinevitabile lamia condanna. Mi sentivo nel vero e avevol’appoggio della Conferenza dei vescovi del Brasile. Per questo accettai tranquillo l’imposizione del “silenzio ossequioso”, poi sospeso da Giovanni Paolo II».

Papa Bergoglio riceve diverse critiche da settori conservatori

 

della Chiesa. Perché?

R/«Credocheiconservatori fossero abituati a un papa faraone, con
titoli esimboli del potere ereditati dagli imperatori pagani. Poi all’improvviso arriva un papa al di fuori del quadro tradizionale, che si spoglia di tutto questo apparato profano che allontana i fedeli e asseconda la vanità clericale. Non accettano un papa che non provenga dal loro vecchio e moribondo cristianesimo. Francesco porta l’atmosfera nuova di Chiese che non sono più lo specchio di quelle europee, ma Chiese-fonti, con la loro teologia, la loro pastorale rivolta specialmente ai più poveri, la loro liturgia e il loro modo di rendere lode a Dio».

Si sente sempre un figlio della Chiesa?

 

R/Si uin figlio della Chiesa di Cristo.«Neltramonto della vita -compirò 80 anni adicembre – non mi preoccupo del passato ma rivolgo i miei occhi all’eternità. Unire il mio nome, quello di un theologus peregrinus,aquello diTommaso da Kempis è per me l’onore più grande. “Ne è valsa la pena?”, si domandava Fernando Pessoa,il più grande poeta portoghese. Faccio mia la sua stessarisposta: “Tutto vale la pena sel’anima non è piccola”. Possodire che, con la grazia di Dio, ho cercato di fare in modo che la mia anima non fossepiccola».

Il libro Imitazione di Cristo e sequela di Gesù
di Leonardo Boff (Gabrielli Editori
trad. di Claudia Fanti, pagg. 253, euro 19)

La rinuncia all’attaccamento al proprio io è la prima virtù del buddismo e del cammino spirituale cristiano

“Francesco è odiato dai clericali di un culto moribondo
che vorrebbero un papa faraone”.

Parla il grande teologo della liberazione Leonardo Boff

 

 

The perverse dimension of Brazilian “cordiality”

 

On 10/31/2014 I published an article in JB online on the meaning of calling the Brazilian a “cordial man”. I am publishing it again, modified, due to its burning timeliness. In the last two years, we have seen an unprecedented wave of hate and discrimination, particularly during the Presidential electoral campaign. There have been insults, slanders, millions of instances of “fake news” and all kinds of filthy language. This displayed the perverse side of the so-called “cordial” nature of the Brazilian people.

Calling a Brazilian a “cordial man” comes from the writer Ribeiro Couto. Sergio Buarque de Holanda popularized the expression, in his well known 1936 book: “Roots of Brasil”, where he devoted the entire Chapter V to it. But he clarifies, contrary to Cassiano Ricardo, who understood “cordiality” as goodness and affable treatment, that deep down, “our ordinary form of social coexistence is just the opposite of affable treatment” (from the 1989 21ª edition, p.107).

Sergio Buarque understands cordiality in the strict etymological sense: the term derives from “heart” (corazon). Brazilians act more from the heart than from reason. Both hate and love come from the heart. The author says it well: “enmity can easily be as cordial as friendship, because both are born from the heart” (p.107). I would say that the Brazilian is more sentimental than cordial, which seems to me more appropriate.

I write this in an attempt to understand the “cordial” feelings that had erupted in the 2018 Presidential campaign. On one side there have been declarations, enthusiastic to the point of fanaticism, and on the other, declarations of fascism, profound hatred and vulgar expressions. It confirmed what Buarque de Holanda wrote: the lack of loving treatment in our social coexistence.

Anyone who has followed the social media must have noticed the very low levels of education, the lack of mutual respect and even the absence of the democratic sense of coexistence with differences. This lack of respect was also seen in the TV programs of the political parties.

To better understand our “cordiality” we must mention the two inheritances that weigh on our citizenry: colonization and slavery. Colonization left us with a feeling of submission, having been forced to adopt the political forms, language, religion and habits of the Portuguese colonizer. La Casa Grande and La Senzala were created as a result. As Gilberto Freyre well demonstrated, it is not just about exterior social institutions: They were internalized in a form of a perverse dualism: On one side was the lord who owns everything and on the other, the servant or server who has little and submits. A social hierarchical structure was also created that is seen in the division between rich and poor. That this structure subsists in the brains of important oligarchs and has been turned into a code for understanding reality, clearly appears in the way people treat each other in the social networks.

Another very perverse tradition was slavery, which was well described by Jesse Souza in his book: “The backwards elite: from slavery to the Lava-Jato” (2018). It is worth remembering that in the years 1817 and 1818, more than half of the population of Brazil consisted of slaves (50.6%). Today nearly 60% has some blood of Afro-descendant slaves in its veins. They are discriminated against, and pushed to the peripheries, humiliated to the point of losing their own self esteem.

Slavery was internalized in the form of discrimination and prejudice against the Blacks, who always had to serve, because previously, the slaves did everything for free, and it is believed that things should continue that way. This is how domestic workers or the haciendas laborers are often treated. A high class madame once said: “the poor already have the family necessities, yet they believe that they have even more rights”. That is the mentality of La Casa Grande.

These two traditions subsist in the Brazilian collective unconsciousness, not so much in terms of class conflict (that also exists) but in terms of conflict regarding social status. It is said that Blacks are lazy, even though we know that they built almost everything in our historical cities. Is also said that Northerners are ignorant, when in truth they are a very creative people, sharp and hard workers. From the Northeast come great writers, poets, and actors; but prejudice pushes them into inferiority.

All these contradictions of our “cordiality” appeared in the tweets, facebook pages and other social media. We are excessively contradictory beings.

I add an argument from an anthropological-philosophical order, in order to understand the emergence of loving and hating in this Presidential electoral campaign. It speaks to the ambiguity of the human condition. Each of us has both the light and shadow dimension, the sim-bolical (that unites) and dia-bolical (that divides). The moderns say that we are simultaneously demented and sapient (Morin), that is, people of rationality and goodness and at the same time of irrationality and evil.

This is not a defect of creation, but a characteristic of the condition humaine. Each of us must know how to balance these two forces, and give primacy to the dimension of light over dark, and to the sapient dimension over the demented.

We must neither laugh nor cry, but try to understand, as Spinoza would say. But understanding is not enough. It is urgent that we practice civilized forms of “cordiality” where the will to cooperate, looking towards the common good, predominates; where minorities are respected and differing political options are welcomed. Brazil needs to unify so that together we can face the grave internal problems, in a project undertaken by all. Only that way will the Brazil that was called “The Land of Good Hope” (Ignacy Sachs) be reborn.

The President elect will not bring national reconciliation, because he, by his style, is a divider, and creator of a social atmosphere of violence and discrimination.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher,Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.