22 de abril: Dia da Mãe Terra

No dia 22 de abril de 2009 realizou-se a 63ºAssembleia da Onu, cujo objeto de discussão era se convinha chamar a Terra de Mãe Terra. Caso fosse aprovada a ideia, o dia 22 de abril não seria mais simplesmente o Dia da Terra, como a patir de vários anos se havia introduzido, mas o Dia da Mãe Terra. O Presidente da Bolívia Evo Morales Ayma, em nome das nações indígenas, fez o  discurso mais de ordem política, provocando grande aplauso da platéia. A mim coube a tarefa de fazer a fundamentação filosófica-ecológica desta proposta. O discurso recebeu ampla acolhida de forma que, por unanimidade, se tomou a resolução de celebrar sempre o dia 22 de abril como o Dia da Mâe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: como cuidar da Casa Comum assumiu esta expressão Mãe Terra. Publico aqui o discurso proferido nesta 63º Assembleia Geral da Onu de  22/04/2009 para reforçar esta compreensão verdadeiramente revolucionária, pois transforma nossa visão da Terra, como mãe e correspondenteemente os comportamentos face a ela. Eis o texto do discurso feito aos 192 representantes dos povos que compõem a Assembleia da ONU. É excusado dizer que os dados correspondem àquela data, pois hoje são outros com uma natueza muito mais grave.

***********************

No de 2000 a Carta da Terra nos fazia esta severa advertência:: «Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro…A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Teerra e cuidarnos uns dos outros ou arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

Se a crise econômico-financeira é preocupante, a crise da insustentabilidade da Terra se apresenta ameaçadora. Os cientistas que acompanham o estado da Terra, especialmente a Global Foot Print Network têm falado do Earth Overshoot Day, do dia em que foram ultrapassados os limites da Terra. E isso ocorreu exatamente no dia 23 de setembro de de 2008, uma semana após o estouro da crise econômico-financeira nos EUA. A Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento necessitamos mais de uma Terra para atender a nossa subsistência.

Como garantir a sustentabilidade da Terra já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentária, a energética e a climática? Agora já não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos devemos nos salvar juntos.

Como asseverou recentemente com muita propriedade o Secretário Geral desta Casa, Ban Ki-Moon: ”não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial”. O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade do planeta Terra. É decisivo superar a crise financeira, porém o imprescindível e essencial é: como vamos salvar a Casa Comum e a Humanidade que é parte dela? Esta é a razão para termos adotado a resolução sobre o Dia Internacional da Mãe Terra que, a partir de agora, se celebrará no dia 22 de abril de cada ano.

Dado o agravamento da situação ambiental, especialmente do aquecimento global, temos que atuar juntos e rápido. Não temos tempo a perder nem nos é permitido errar. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar mas sem nós.

Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e dos demais membros da comunidade de vida, quero agradecer a esta 63º Assembleia Geral da ONU por haver sabiamente aprovado esta resolução.

Neste contexto, me permito fazer uma breve apresentação do fundamento que sustenta a ideia da Terra como nossa Mãe.

Desde da mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama.

Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal.

Durante séculos e séculos prevaleceu esta visão até a emergência recente do espírito científico no século XVI. A partir de então, a Terra já não é mais considerada como Mãe, senão como uma realidade sem espírito, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. A mãe-natureza que devia ser respeitada se transformou em natureza-selvagem que deve ser dominada. A Terra se viu convertida num baú cheio de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano.

Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suporte do sistema-Terra nem dos bens e serviços naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão.

A preocupação principal era e é: como ganhar mais no tempo mais rápido possível e com um investimento menor? A realização histórica deste propósito fez surgir um arquipélago de riqueza rodeado por um mar de miséria.

O PNUD de 2007-2008 o confirma: os 20% mais ricos do mundo absorvem 82,4% de todas as riquezas da Terra enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Estes dados provam que uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam pilhagem da natureza e grande injustiça social.

Entretanto, a partir dos tardios anos 70 do século passado se tem imposto a constatação de que um planeta pequeno, velho e limitado como a Terra já não pode suportar um projeto ilimitado. Faz-se urgente outro modelo que tenha como eixo a Terra, a vida e o bem viver planetário no quadro de um espírito de colaboração, de responsabilidade coletiva e de cuidado.

Agora a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com a Terra, com os seres humanos, como o universo e com a Última Realidade, distribuindo equitativamente os benefícios entre todos e alimentando solidariedade para com as gerações presentes e futuras? Como viver mais com menos?

Foi neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não é mais a percepção dos antigos mas uma constatação empírica e científica. Foi mérito dos cientistas e sábios como Vladimir Vernadsky, James Lovelock, Lynn Margulis e José Lutzenberger nos anos 70 do século passado, ter demostrado que a Terra é um superorganismo vivo que se autoregula. Ela articula permanentemente o físico, o químico e o biológico de forma tão sutil e equilibrada que, sob a luz do sol, propicia a produção e a manutenção de todas as formas de vida. Por milhões de anos o nível do oxigênio, essencial para a vida, se mantem em 21%, o nitrogênio, decisivo para o crescimento, em 79% e o nível de sal dos oceanos em 3,4%. E assim todos os elementos necessários para a vida. Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra mesma é viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva.

Que toda a Terra está cheia de vida no-lo comprova o conhecido biólogo Edward O. Wilson. Escreve ele: ”Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes”. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda.

A Terra existe já há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Com razão nas línguas ocidentais homo/homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de adamah, terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui.

A visão dos astronautas confirma a simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais testemunhavam de forma comovedora: ”daqui, contemplando este resplandecente planeta azul-branco, não se percebe nenhuma diferença entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade”. Mais que como povos, nações e etnias devemos nos entender como criaturas da Terra, como filho e filhas da Mãe comum.

Entretanto, olhando a Terra mais de perto, nos damos conta de que ela se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vive sistematicamente agredida. Quase a metade de seus filhos e filhas padecem fome e sede e são condenados a morrer antes do tempo. A cada quatro segundos, consoante dados da própria ONU, morre uma pessoa estritamente de fome.

Por isso, são expressões de amor à Mãe Terra, as políticas sociais de muitos países, como por exemplo, de meu pais, o Brasil, sob o governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, particularmente o programa Fome Zero e Bolsa Família Em seis anos se devolveu vida e dignidade a 50 milhões de pessoas que antes viviam na pobreza e na fome.

Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la. Para esta tarefa gigantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO a apresentou “como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável”. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong e Steven Rockfeller e eu mesmo entre otros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra, possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembleia Geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra junto com a declaração sobre a dignidade da pessoa humana.

Mas cabe fazer uma advertência. Para sentir a Terra como Mãe não é suficiente a razão dominante que é funcional e instrumental. Necessitamos enriquecê-la com a razão sensível, emocional e cordial, pois ai se enraíza o sentimento profundo, se elaboram os valores, se cultivam o cuidado essencial, a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiães e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe.

Para terminar permito-me fazer uma sugestão: que se coloque na cúpula interna da Assembleia uma destas imagens belíssimas e plásticas da Terra vista a partir de fora da Terra. Suspensa no transfundo negro do universo, ela evoca em nós sentimentos de reverência e de mútua pertença. Ao contemplá-la, tomamos consciência de que ai está o nosso Lar Comum.

Pediria ainda que fosse aprovada uma recomendação de que no dia 22 de abril, dia Internacional da Mãe Terra, se fizesse um momento de silêncio em todos os lugares públicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos parlamentos para que nossos corações entrem em sintonia com o coração de nossa Mãe Terra.

Concluo. Tal como está, a Terra não pode continuar. É urgente que mudemos nossas mentes e nossos corações, nosso modo de produção e nosso padrão de consumo, caso quisermos ter um futuro de esperança. A solução para a Terra não cai do céu. Ela será o resultado de uma coalizão de forças em torno a uma consciência ecológica integral, uns valores éticos multiculturais, uns fins humanísticos e um novo sentido de ser. Só assim honraremos nossa Casa Comum, a Terra, nossa grande generosa Mãe.

Muito obrigado.

Prof. Dr.Dr.Leonardo Boff

Representante do Brasil na Assembleia da ONU  e  membro da Comissão da Carta da Terra.

Discurso proferido no dia 22 de Abril de 2009 na 63º Assembleia Geral da ONU.

 

 

A perda de capilaridade social e a desafeição dos católicos:Pedro Ribeiro de Oliveira

A perda de capilariddade social e a desafeição dos católicos. Desafios da Igreja no Brasil em tempos de Papa Francisco. Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira

Pedro Ribeiro de Oliveira é um de nossos melhores sociólogos da religião, formado na conhecida escola de pensamento do eminente cientista social e sociólogo da religião da universidade de Louvain, na Bélgica. Este mestre formou dezenas de especialistas na área, vindos da Africa, da Ásia e da América Latina. Ele mesmo trabalhou por longos períodos nesses continentes. Vários cientistas sociais e sociólogos da religião brasileiros foram seus alunos. Pedro Ribeiro de Oliveira é leigo, engajando na articulação Fé e Política e um arguto analista da situação da Igreja e do cristianismo em geral no Brasil. E o faz como cabe a um cientista fazê-lo: com objetividade, serenidade e equilíbrio nos juízos. Não é sem razão que  Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) requisita com frequência sua assessoria. Publicamos este texto pois ajudará a muitos interessados no caminho da Igreja no Brasil sob o pontificado do bispo de Roma, o Papa Francisco a terem uma avaliação bem fundada e equilibrada. Publicamos a entrevista dada à e  Patricia Fachin em 21 Abril 2017 e publicada pela IHU-on line:Lboff

 *****************************
 “Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos”, diz o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Contudo, pontua, depois da publicação de três documentos pontifícios de “grande impacto”, “é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil”.

Um exemplo dessa modificação, segundo o sociólogo, pode ser visto “na posição política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pedro Ribeiro de Oliveira sugere uma “refundação” das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs para alavancar o projeto de uma Igreja em saída e comenta a atuação do laicato na instituição. “O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus”, avalia. Para ele, “muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres)” e, portanto, “movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele”.


Pedro Oliveira na Unisinos, em 2012 (Foto: Acervo IHU)

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por quais razões o senhor afirma que a Igreja perdeu a “capilaridade social” que teve à época da ditadura?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Para explicar a capilaridade social, uso a comparação com as raízes da árvore: elas penetram no solo, absorvem a umidade e a fazem chegar até o alto da copa. Nas raízes reside o segredo do vigor da planta: à medida que elas perdem a capilaridade, a árvore seca. A Igreja católica teve grande capilaridade social até meados do século passado, quando as associações piedosas – Apostolado da Oração, Congregação Mariana, Liga Católica, Vicentinos, Irmandades etc. – congregavam grande quantidade de fiéis. A modernização esvaziou aquelas associações, mas a Igreja recuperou a capilaridade social por meio das dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base – CEBs presentes nas zonas rurais e periferias urbanas. Dinamizadas pelas Pastorais Sociais – como a Pastoral da Terra, Operária, Indigenista, da Juventude e outras – elas penetravam o tecido social brasileiro e funcionavam como artérias de ligação entre as bases populares e os dirigentes eclesiásticos. Se uma liderança de CEB sofria ameaças por sua luta em defesa dos Direitos Humanos, logo essa informação chegava ao conhecimento da CNBB, que se mobilizava em sua defesa. No sentido inverso, quando a CNBB propunha uma campanha em favor dos pobres ou da ordem democrática, podia contar com a mobilização de toda a rede de comunidades espalhadas pelo País para pressionar o governo militar, o Congresso e a sociedade.

A perda dessa capilaridade social deveu-se à orientação imprimida à Igreja pelos pontificados de S. João Paulo II e de Bento XVI, no sentido de conter o avanço das reformas decorrentes do Concílio Vaticano II. Eles implementaram o projeto de restauração identitária, que fez a Igreja refluir para o campo propriamente religioso e perder muito da sua incidência nas lutas de transformação social.

IHU On-Line – Como o senhor caracteriza esse projeto de restauração identitária? Ele ainda se mantém na Igreja, direcionada pela CNBB, diante da atual conjuntura nacional?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Esse conceito refere-se a um conjunto de medidas que reforçam a centralidade romana em detrimento da presença diversificada no mundo. As medidas mais importantes foram: (i) nomeação de bispos alinhados a essa orientação centralizadora para as dioceses mais importantes, (ii) a adoção do Código de Direito Canônico, reformado pela Cúria, como norma pastoral para todas as dioceses, (iii) a adoção do Catecismo da Igreja como norma doutrinal, (iv) o retorno do modelo de seminário exclusivo para a formação do clero, (v) normas litúrgicas para coibir inovações posteriores ao Concílio e (vi) apoio a Movimentos Religiosos de santificação pessoal.

Essas medidas são verdadeiramente estratégicas, porque configuram uma instituição eclesiástica monolítica: centralizada no Papa e nos padres (paróquias), retira a autonomia do bispo (tanto na sua diocese quanto nas Conferências episcopais) e privilegia leigas e leigos interessados apenas em sua salvação. É certo que a renúncia de Bento XVI tirou a força do projeto de restauração identitária, mas aquelas medidas enrijeceram de tal forma a Igreja católica, que acabaram por impedir não só a renovação iniciada durante o Concílio Vaticano II como também as propostas pastorais de Francisco.

IHU On-Line – O papa Francisco tem insistido no discurso de que a Igreja deve ser pastoral e uma “Igreja em saída”. Na prática, o que isso significa?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sua proposta é clara como um cristal bem lapidado: se a missão da Igreja é levar ao mundo todo a Boa-notícia do Reinado de Deus, seu movimento deve ser para fora dos templos e sacristias. O espaço principal de atuação do Povo de Deus é o lugar onde vivem as pessoas, independentemente de sua confissão religiosa. Os cristãos e cristãs devem anunciar com alegria o Evangelho e colaborar com o projeto de construção do Reino de Deus na história. Francisco é enfático: antes correr o risco de se sujar por ter ido às praças e ruas, do que definhar por não sair da sacristia. Em suma, trata-se de juntar-se aos movimentos sociais, respeitando sua laicidade, para que “não haja família sem casa, camponês sem terra, trabalhador sem direitos”. É o que ensina e faz o Papa.

Infelizmente, o projeto de colocar a Igreja em saída tem sido interpretado de maneira a perder seu caráter inovador. Tomo como exemplos dessa deturpação os eventos religiosos de massa destinados a encher as ruas e praças de católicos, ou o padre que leva o confessionário para a praia alegando que assim a Igreja vai onde estão os turistas. É um pouco ridículo, mas assim é…

IHU On-Line – Como essas propostas de Francisco têm repercutido na Igreja brasileira? Quais são as estruturas sociais e eclesiais que potencializam ou inibem uma Igreja em movimento?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O setor eclesial mais afinado com a proposta de Igreja em saída é o de quem se identifica com as CEBs e Pastorais Sociais. Nele estão bispos, padres, religiosas, leigos e leigas. Esse setor tem certa influência na Igreja devido a sua capilaridade social, embora seja numericamente pequeno. Mas está havendo mudança. Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos. Passados dois anos e três documentos pontifícios de grande impacto, é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil. Constato, por exemplo, a mudança na posição política da CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada.

Tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato

Não sei avaliar exatamente a correlação de forças entre os setores identificados com o projeto de Igreja em saída e os setores identificados com a restauração identitária, mas tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato. Ainda não vejo igual avanço entre os padres, que parecem se contentar ao ver igrejas cheias, ainda que seja para “missas de cura e libertação”. É claro que na sociedade a figura e a mensagem de Francisco têm grande aceitação, mas isso pouco representa em termos de força transformadora na Igreja católica. Nessa conjuntura, ainda não são muitos os bispos e padres que ousam seguir o exemplo de Francisco na construção de uma “Igreja pobre para os pobres”. É preciso mais criatividade de quem apoia o projeto de Francisco para desempatar esse jogo…

IHU On-Line – Quais são os potenciais de ressurgimento das CEBs no atual contexto?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Prefiro falar de refundação das CEBs, porque em sua maioria elas perderam o antigo vigor, mas não morreram. Prova disso é a preparação do 14º Encontro Intereclesial, previsto para janeiro de 2018, em todas as regiões do país. Realisticamente, temos que considerar o nítido envelhecimento de seus membros e a sua perda de prestígio na Igreja, porque as celebrações das CEBs não enchem igreja como os cultos de louvor, cura e libertação.

Refundar as CEBs significa retomar e atualizar a intuição teológica que lhes deu origem, ou seja: (i) celebração dominical na comunidade local conduzida por seus animadores e animadoras, (ii) incentivo à leitura bíblica na ótica do oprimido (como faz o CEBI, por exemplo), (iii) coordenação pastoral colegiada, desde as bases comunitárias até os organismos paroquiais e diocesanos, e (iv) articulação com Pastorais sociais que façam a mediação entre o campo eclesial e o sócio-político. Uma refundação assim está em total sintonia com o projeto de Francisco, mas requer ousadia do bispo para governar a diocese segundo o Evangelho, sem deixar-se prender pelas proibições do Direito Canônico.

IHU On-Line – O papa tem estimulado a participação dos leigos na Igreja e tem chamado atenção para que eles não sejam clericais. Como os leigos têm atuado no Brasil? Que avaliação faz do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB? Eles são muito clericais? Qual é a origem desse clericalismo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus. Parecem ainda acreditar que são os representantes de Cristo, como se Ele não tivesse ressuscitado e precisasse de mediadores para se fazer presente na história humana. Daí o clericalismo, tão criticado por Francisco. Lembro que ser contra o clericalismo não é negar a importância do presbítero e do bispo como agentes da unidade eclesial, mas sim opor-se aos privilégios que cercam os clérigos como se fossem dotados de poderes divinos.

É claro que muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres). Clericalismo e conservadorismo caminham de braços dados. Movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele.

A Igreja católica do Brasil somente retomará o rumo libertador depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos

Se a Igreja quer mesmo ser Povo de Deus atuante na história humana, tem que suprimir o clericalismo. Francisco tem dito isso, mas sabe que não é fácil passar do ideal à prática. Penso que uma medida eficiente para promover essa mudança é fechar os seminários e colocar os vocacionados na pastoral, oferecendo-lhes a formação na ação. Esse modelo foi implementado por D. Helder Câmara, quando arcebispo de Olinda e Recife. Os vocacionados viviam como qualquer jovem leigo, sendo acompanhados por professores e professoras que ensinavam a Teologia a partir da reflexão sobre sua experiência de vida, utilizando para isso os sábados e os períodos de férias. Com um custo muito inferior ao dos atuais seminários – que são viveiros do clericalismo – a Igreja poderá formar presbíteros, diáconos e diaconisas seguindo o método “ver, julgar, agir e celebrar”. E assim formar agentes da unidade eclesial para as necessidades do mundo atual.

IHU On-Line – Como avalia os quatro anos do pontificado de Francisco? Quais diria que são as três questões mais positivas do pontificado e os seus três desafios?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Ele retomou a proposta de aggiornamento de João XXIII atualizando-a e fundamentando-a com a Teologia do Concílio Vaticano II. A isso chama de projeto de Igreja em saída. Mas a oposição clerical adotou a estratégia da inércia: fazer de conta que as normas dadas por João Paulo II e Bento XVI ainda estão em vigor.

Penso que o projeto de Francisco só conseguirá avançar sob duas condições. A primeira é fazer seu sucessor na mesma linha pastoral. Por isso está dando formato mais universalista ao colégio de cardeais. A segunda condição é conquistar o apoio efetivo das bases da Igreja. Esta condição é mais complicada, porque depende de bispos com ousadia para substituir as velhas estruturas curiais e paroquiais por estruturas participativas, padres que abandonem o clericalismo e leigos e leigas com coragem e competência para assumir sua missão na Igreja e no Mundo. Francisco dá exemplo de liberdade e criatividade, mas ainda tem sido pouco seguido.

Não sei definir quais seriam as questões mais e menos positivas de seu pontificado. Mas com certeza seu maior desafio é o de convencer a Igreja católica que o mundo está em estado de guerra: guerras localizadas, étnicas, contra a droga ou o terrorismo, mas todas mortíferas, dentro do quadro maior da guerra da espécie humana contra a Terra, nossa casa comum. Francisco já abordou esse tema por várias vezes, mas ainda não conseguiu convencer as bases da Igreja que não basta falar de paz nos corações enquanto a violência está solta pelo mundo, produzindo miséria, refugiados, mutilações e mortes. De Roma ele percebe a realidade global, mas as Igrejas locais continuam olhando para dentro delas mesmas e, no máximo, o que ocorre na sua vizinhança. Imagino o grau de angústia do Papa!

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sim. Não creio que de um momento para o outro a Igreja católica do Brasil retome o rumo libertador que a caracterizou nas décadas de 1970 e 80. Acredito que isso só acontecerá depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos.

Per evitare un nuovo imminente colpo di Stato

L’eminente giurista Fabio Konder Comparato, in un’ intervista a Carta Capital del 12 aprile 2017, calcolava che a fronte della perdita dei valori morali dei dirigenti politici e della corruzione ambientale “è ben possibile un ulteriore intervento estralegale, per impedire che tutto questo continui; non è un’ipotesi cervellotica immaginare un nuovo colpo di Stato.

Gli attori di questo nuovo golpe sarebbero, secondo Comparato, gl’impresari (minoranza ricca) e i proprietari da un lato e dall’altro i componenti principali dell’establishment statale. Questi ultimi, deduco,sarebbero dipendenti del Ministero Pubblico, dell’OAB e aggiungerei anche della Polizia Federale, e alcuni ministri del STF.

Il mio timore è che i gruppi sopra citati utilizzino la stessa strategia che andò in vigore nel 1964: le oligarchie usarono il potere militare per fare un golpe di classe come è stato dimostrato in modo irrefutabile da René Dreifuss: nella sua tesi di Glasgow: “A conquista do Estado, açao politica, poder e golpe di classe” (Vozes 1981, 841 p.p.): “o que houve no Brasil não foi un golpe militar, mas um golpe di classe com uso da força militar” (p. 397).

La baraonda totale dell’attuale politica, corrosa dalla corruzione da cima a fondo, smascherata dalle delazioni della Odebrecht (e ne verranno altre) rende la durata dell’attuale governo altamente problematica.

L’illegittimità del presidente e di gran parte dei parlamentari delle due camere sotto accusa per delitti gravi, rende vergognosa la rapidità del ritmo impressa ai cambiamenti, chiaramente anti-popolari e perfino anticostituzionali.

Questo golpe può scattare a qualsiasi istante, dato che gl’impresari stessi si sentono danneggiati in prima persona, considerando i ritmi tradizionali di alta accumulazione.

Resta da sapere se i militari accetterebbero o no questo compito così problematico. Il fatto è che essi si sentono guardiani della Repubblica, perché sono stati loro a mettere fine alla monarchia. In momenti così gravi come quello attuale, potrebbero sentirsi spinti, sia pure obtorto collo, ad assumersi questa responsabilità nazionale.

Se questo succedesse, probabilmente un triumvirato di generali

assumerebbe il potere, chiuderebbe il parlamento, farebbe arrestare i principali politici accusati di corruzione, non risparmiando, ma solo lasciando un posto privilegiato al presidente Temer, obbligherebbe ad andare in pensione Gilmar Mendes il più parziale dei ministri del STF, obbligherebbe alla rinuncia governatori implicati nella corruzione e instaurerebbe un regime “purga” dei corrotti e dei loro alleati e impresari corruttori, e avrebbe certamente l’appoggio della stampa conservatrice che sempre ha scommesso su un golpe. Questo non è contraddittorio con la politica degli organi di sicurezza degli USA, specialmente sotto Donald Trump, e che sarebbe in servizio “full spectrum dominance”. Quello che verrebbe dopo sarebbe una incognita, perché il potere è uno dei archetipi più tentatori della psiche umana. I militari potrebbero non volere più lasciare il potere assunto.

Un’altra possibilità sempre dentro ai confini della democrazia, sarebbe la convocazione in questo stesso anno di elezioni generali perché il soggetto fonte del potere è il popolo che, mentre sceglie i suoi politici conferisce loro la legittimità. La Lava Jato continuerebbe a sfornare dati, per riempire i tribunali di processi, in tutti i gradi dell’operazione giudiziaria.

Altra strada sarebbe l’annullamento, da parte del TSE, della candidatura Dilma-Temer, seguita da una elezione indiretta, in Parlamento, di un nuovo Presidente. Non sappiamo che forza potrebbe avere lui una volta eletto in forma indiretta, con una base parlamentare largamente corrotta e implicata in vari processi criminali.

Una terza via più radicale sarebbe ispirata dalla Commissione per la Verità e Riconciliazione del Sudafrica, coordinata dal vescovo Desmond Tutu, che qui presento come possibile. Lì si trattava di conoscere la verità su alcuni delitti commessi contro la popolazione nera, per decine d’anni, senza escludere delitti commessi dai neri stessi.

Le colonne portanti del processo erano tre: la verità, la responsabilizzazione e la giustizia restaurativa e curativa. Tutto avveniva all’ombra di un valore culturale comune lo Ubuntu che significa: “io posso essere io soltanto attraverso te”.

Questo valore conferiva e conferisce coesione alla società del Sudafrica, perché con slancio supera l’individualismo tipico della nostra società occidentale.

La verità aveva una dimensione fattuale : conoscere i fatti come sono avvenuti. Un’altra dimensione era personale: come la persona soggettivamente aveva coscienza del delitto commesso. La terza era sociale: come la società interpretava e discuteva la gravità dei crimini. Infine, la verità restaurativa e curativa: la riprovazione morale del passato e disposizione a costruire una nuova memoria.

La amnistia era concessa a coloro che riconoscevano pubblicamente la responsabilità dei crimini commessi.

La pubblica confessione delle loro azioni era la grande punizione morale. E’ l’amnistia attraverso la verità che possiede una funzione restaurativa e curativa: rifare il tessuto sociale e disporsi a non commettere gli stessi delitti all’ombra del motto: ”perché non si dimentichi e che mai più avvenga”. Per i crimini contro l’umanità c’era la punizione legale opportuna e non scattava l’amnistia.

Si discuteva pertanto e ancora oggi si discute: se la legge non punisce quelli che l’hanno trasgredita, non perde valore la nozione stessa di imperio della legge, base di uno Stato di diritto?

Qui, in vista dell’Ubuntu, di mantenere la coesione e di non lasciare piaghe aperte, siamo arrivati a un compromesso pragmatico tra dimensione politica e dimensione del principio.

Logicamente esiste un ordine legale necessario senza il quale la società diventa caotica. Ma essa riposa sopra un ordine etico e assiologico. Questo è stato invocato. Ciò implica andare al di là del discorso giuridico e politico e entrare nel campo antropologico profondo, dei valori che danno un senso trascendente alla vita personale e sociale. Si tratta di un atto di fiducia nell’essere umano nel senso che è riscattabile. E’ stato quello che ha dimostrato Hannah Arendt a Gerusalemme in occasione del processo e condanna di Eichmann, sterminatore di ebrei sotto il regime nazista. Lei spiegò il valore del perdono non propriamente come valore religioso, ma come capacità umana di poter liberarsi dalla dipendenza dal passato e inaugurare una nuova pagina della storia collettiva.

Tali procedimenti si potrebbero applicare al caso brasiliano. Marcello Odebrecht e suo padre Emilio Odebrecht hanno riaffermato che praticamente tutti i politici (con l’eccezione di persone conosciute per la loro integrità etica) furono eletti attraverso la “caixa 2”. La “caixa 2” è descritta come crimine nell’articolo 350 del codice elettorale e dall’articolo 317 del codice penale. E’ quanto ha ripetuto molte volte il presidente del STF .

Di fatto però, siccome la corruzione si è generalizzata e ha infiltrato la grande maggioranza dei partiti si potrebbe applicare un’amnistia nel quadro della Commissione della Verità e della Riconciliazione del Sudafrica. Tutti coloro che si sono avvalsi della “caixa 2” verrebbero pubblicati, confesserebbero il loro delitto e manifesterebbero il proposito di non più ricorrere a questo espediente per farsi eleggere. La rivelazione dei loro nomi e la loro confessione pubblica sarebbe un’autentica punizione morale.

Una cosa pertanto sono le mazzette provenienti da imprese e legate alla promessa di far loro pervenire vantaggi legali e altra cosa la corruzione che consiste nello sviare denaro pubblico, a milioni e milioni, al punto di portare al fallimento uno Stato come quello di Rio de Janeiro. Qui si tratta direttamente di crimini che devono essere adeguatamente giudicati e puniti e soprattutto di recuperare per le casse dello Stato il denaro rubato. In questo ambito sono avvenuti crimini di lesa-umanità come i trecento milioni deviati dalla sanità do Rio de Janeiro, fatto che ovviamente ha danneggiato migliaia di persone portandone molte a morte. Per costoro occorrono pene più severe. Questo cammino sarebbe altamente umanitario, rafforzerebbe la nostra democrazia che è sempre stata a bassa intensità e porterebbe un’atmosfera morale e etica nel cielo della politica, come ricerca comune del bene comune.

L’attuale crisi della politica brasiliana che copre di incertezza qualsiasi futuro di speranza ci obbliga a pensare e a cercare uscite possibili che evitino convulsioni sociali foriere di conseguenze inprevedibili. E’ il senso di questa nostra riflessione.

*Leonardo Boff ex Professore di etica della UERJ e dr. H. in scienze politiche all’università di Torino, titolo concesso da Norberto Bobbio.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato.

Globalisierung oder Planetisierung?

Es gibt aktuell einen starken Widerstand gegenüber dem Prozess der Globalisierung, der durch Donald Trump verstärkt wird, der mit Macht die Idee des „Die Vereinigten Staaten zuerst“ oder besser „Nur die Vereinigten Staaten“ vorantrieb. Trump unterstützt den Krieg gegen globale Unternehmen zugunsten derer, die nur innerhalb der USA arbeiten.

Es ist wichtig zu verstehen, dass es sich hierbei um einen Kampf gegen die gigantischen finanzökonomischen Konglomerate handelt, die einen großen Teil des weltweiten Reichtums in den Händen einer sehr kleinen Anzahl von Personen kontrollieren. Joseph Stiglitz, dem Nobelpreisträger von 2001 für Ökonomie, zufolge haben wir 1 % Multimillionäre, die 99 % abhängiger oder verarmter Personen gegenüber steht.

Diese Art von Globalisierung trägt einen finanzökonomischen Charakterzug, der an Dinosaurier erinnert, Edgar Morin zufolge die Eisenzeit der Globalisierung. Doch Globalisierung ist mehr als nur Ökonomie. Es geht um einen irreversiblen Prozess, einen neuen Entwicklungsstatus der Erde, der zu dem Zeitpunkt begann, als wir sie vom Blick von außen entdeckten, als die Astronauten sie uns von ihrem Raumschiff aus zeigten. Da wurde klar, dass Erde und Menschheit eine einzigartige komplexe Einheit bilden.

Der Augenzeugenbericht des nordamerikanischen Astronauten John W. Young auf der fünften Reise zum Mond am 16. April 1972 ist eindrucksvoll: „Da unten ist die Erde, der blaue und weiße Planet, unglaublich schön, strahlend, die Heimat der Menschheit. Von hier aus gesehen würde der Mond in meine Handfläche passen. Aus dieser Perspektive gibt es weder Weiße noch Schwarze auf der Erde, keine Trennung zwischen Ost und West, Kommunisten und Kapitalisten, Nord und Süd. Gemeinsam bilden wir eine einzige Erde. Wir müssen lernen, diesen Planeten zu lieben, dessen Teil wir sind.“

Aus dieser Erfahrung werden die Worte von Pierre Teilhard de Chardin von 1933 prophetisch und provokativ: „Das Zeitalter der Nationen ist vorüber. Wenn wir nicht sterben wollen, ist dies der Augenblick, die alten Vorurteile über Bord zu werfen und die Erde zu bilden. Die Erde wird ihrer selbst bewusst sein durch kein anderes Mittel als durch eine Krise aus Konversion und Transformation.“ Diese Krise ist in unsere Köpfe eingedrungen: Jetzt sind wir für das einzige Gemeinsame Heim, das wir besitzen, verantwortlich. Und wir haben die Mittel unserer eigenen Selbstzerstörung erfunden, was unsere Verantwortung für den ganzen Planeten nur noch verstärkt.

Wenn wir genauer hinsehen, entstand dieses Bewusstsein früh im 16. Jahrhundert, genau genommen im Jahr 1521 als Ferdinand Magellan zum ersten Mal den Globus umrundete und bewies damit empirisch, dass die Erde rund ist und dass wir überall hin kommen können, unabhängig davon, an welchem Ort wir uns befinden.

Die Globalisierung nahm mit der Verwestlichung der Welt Form an. Europa begann das koloniale und imperialistische Abenteuer von Eroberung und Beherrschung aller entdeckten und noch zu entdeckenden Länder, indem es sie den Interessen Europas zu Diensten mache, wie der Wille zur Macht zeigte, den man gut übersetzen kann mit dem Willen zu unbegrenzter Bereicherung, der Durchsetzung der Weißen Kultur, seiner politischen Institutionen und seiner christlichen Religion.

Aus der Sichtweise der Opfer dieser Entwicklung wurde dieses Abenteuer gewalttätig durchgeführt, was zu großen Vernichtungen von Völkern, Ethnien und der Umwelt führte. Dieses Abenteuer war ein Trauma und eine Tragödie für die Mehrheit der Völker, und dessen Konsequenzen sind noch heute zu spüren, selbst unter denen, die die Kolonialmacht stellten, die Sklaverei einführten und zur Unterwefung unter die großen imperialistischen Mächte zwangen.

Wir müssen nun die positive und essentielle Bedeutung des Begriffs Planetisierung sicherstellen, ein Wort, das besser ist als „Globalisierung“ wegen seinen ökonomischen Konnotationen. Am 22. April 2009 machten die Vereinten Nationen die Nomenklatur Mutter Erde offiziell, um ihr die Konnotation etwas Lebendigen zu verleihen, das respektiert werden und verehrt werden muss wie eine Mutter. Papst Franziskus benutzte den Ausdruck Gemeinsames Haus, um die tiefe Verbundenheit der Menschen herauszustreichen, die den gemeinsamen Platz bewohnen.

Dieser Moment ist ein Schritt nach vorn im Prozess der Geo-Genese. Wir können nicht zurückgehen mit einem verringerten Bewusstsein und uns abschotten wie Donald Trump vorgibt, innerhalb unserer nationalen Grenzen. Wir müssen uns selbst für diesen neuen Schritt vorbereiten, den die Erde gegeben hat, dieser lebendige Super-Organismus, gemäß der Gaia-These. Wir sind das Momentum von Bewusstsein und Intelligenz auf der Erde. Wir sind die Erde, die fühlt, denkt, liebt, Achtsamkeit pflegt und verehrt. Wir sind die einzigen Wesen der Natur, deren ethische Mission darin besteht, sich um dieses geheiligte Erbe zu kümmern, zu sichern, dass es ein bewohnbarer Ort für uns alle bleibt und für die ganze Gemeinschaft der Lebewesen.

Wir sind noch nicht aufgestanden, um diesem Ruf der Erde zu folgen. Daher müssen wir jetzt aufwachen und diese edle Berufung annehmen, an dieser Planetisierung mitzuwirken.

Leonardo Boff
07.04.2017