A sickness called fundamentalism

Everything healthy may become ill. Religion, contrary to what critics such as Freud, Marx, Dawkins and others contend, is part of a healthy reality: the search by the human being for the Ultimate Reality, that gives final meaning to history and the universe. That search is legitimate and is found in the oldest expressions of the homo sapiens/demens, but it also has unhealthy expressions. One of them, the most frequent now, is religious fundamentalism, that is also found where a unique form of thinking reigns in politics.

Fundamentalism is not a doctrine in itself, but an attitude and a form of living a doctrine. The fundamentalist attitude appears when the truths of its church or its group are understood as the only legitimate ones, to the exclusion of all others, which are deemed erroneous and therefore to have no right to exist. Those who imagine that their point of view is the only valid one are condemned to be intolerant. This closed attitude leads to contempt, discrimination, and to religious or political violence.

The niche of fundamentalism is historically found in the Northamerican Protestantism of the late XIX century, when modernity emerged not only in technology, but also in democratic forms of political coexistence and the liberalization of customs. In this context a strong reaction arose within the Protestant tradition, loyal to the ideals of the «founding fathers», all derived from the rigors of the Protestant ethic. The term fundamentalism is linked to a collection of books published by Princeton University for Presbyterians under the title, Fundamentals: A Testimony of Truth, 1909-1915.

This collection proposes an antidote to modernization: a rigorous, dogmatic Christianity founded on a literal reading of the Bible, considered infallible and unequivocal in each and every word, because it was considered to be the Word of God. They opposed all exegetic-critical interpretation of the Bible and the application of its message to the present context.

Since then, this fundamentalist tendency has been present in Northamerican society and politics. It gained religious expression in the so-called «electronic Churches», that use modern means of tele-communication, covering the country from coast to coast, and that have similar churches in Brazil and elsewhere in Latin-America. They combat liberal Christians, those who practice a scientific interpretation of the Bible, accept the contemporary feminist and gay movements, and defend the decriminalization of abortion. All that is interpreted by fundamentalists as the work of Satan.

The political side assimilated the religious, marrying it to the political ideology of «manifest destiny», created after the United States confiscated territory from Mexico. According to that ideology, it is the divine destiny of Northamericans to bring to all peoples, clarity, the values of private property, the free market, democracy and rights, as John Adams, the second President of the United States, asserted. According to the popular and political version, Northamericans are «the new chosen people» that will bring everyone to the «Land of Emmanuel, seat of that new and singular Kingdom that will be given to the Saints of the Highest». K. Amstrong, In the Name of God, (En nombre de Dios, Companhia das Letras, São Paulo 2001).

That political-religious amalgam has led to the arrogance and one sided vision of international relations found in Northamerican foreign policy, that is still prevalent under Barack Obama.

We find a similar type of fundamentalism in extremely conservative Catholic groups, that still claim that «there is no salvation outside of the Church». They are eager to convert the greatest number of people possible, to save them from hell. Some evangelical groups, especially in sectors of the charismatic churches with their TV programs, engage in fundamentalist disparagement, particularly with regard to the Afro-Brazilian religions, because they consider their celebrations to be the work of Satan. This results in frequent exorcisms and even invasions of terreiros to «purify them» from the Exu.

Fundamentalism in both Catholic and some evangelical groups is most visible in the moral questions: they are inflexible on the issues of abortion, same sex unions, and women’s struggles for freedom in decision making. They foster true ideological wars in the social networks and the means of mass communication against all who discuss such questions, even though they are part of the agenda of all open societies.

Sadly, we have a candidate to the presidency of Brazil, Marina Silva, who adheres to a type of fundamentalism, namely, Biblicism. She maintains a literal reading of the Bible, as if the solution to all problems could be found there. As Pope Francis put it so well, rather than a warehouse of truths, the Bible is an inspiring source for beneficial human initiatives. The Bible must be held in our brains to illuminate reality, not in front of the eyes, to obscure it.

The Brazilian State is lay and pluralist. It welcomes all religions without adhering to any. According to the Brazilian Constitution, no given religion may impose its points of view on the whole nation. An authority can have religious convictions, but must govern through the laws, not through these convictions. There are four Gospels, not just one. They coexist through the diversity of interpretations they give to the message of Jesus of Nazareth. It is an example of the richness of diversity. God is the eternal coexistence of Three Divine Beings, that through love form one single God. Diversity is fecund.

Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

As eleições atuais à luz da história antipovo

Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira na tensão entre as elites e o povo. Valho-me da uma contribuição de um sério historiador com formação em Roma, em Lovaina e na USP de São Paulo o Pe. José Oscar Beozzo, uma das inteligências mais brilhantes de nosso clero.

Diz Beozzo: “a questão de fundo em nossa sociedade é a do direito dos pequenos à vida sempre ameaçada pela abissal desigualdade de acesso aos meios de vida e pelas exíguas oportunidades abertas às grandes maiorias do andar debaixo.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa sociedade desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de serem movidos: a) a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos de tal modo que não haja terra “livre” e “disponível” para quem trabalha ou para os que eram seus donos originários; b) o predomínio da monocultura; c) a produção voltada para o mercado externo (açúcar, tabaco, algodão, café e hoje soja; d) o regime de trabalho escravo.

A independência de Portugal não alterou nenhum destes pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente, propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre. Isso pôde acontecer em quenas regiões da serra gaúcha e de Santa Catarina, com colonos alemães, italianos, poloneses, hoje um campo mais democratizado.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas e foram matados a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e sobretudo nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a insurreição dos escravos Malês na Bahia, a Balaiada no Maranhão, a Cabanagem na Amazônia, a revolução Praieira em Pernambuco, a Farroupilha no Sul.

A monarquia caiu menos por seus anacronismos do que pela Lei Áurea que lhe retirou o apoio dos barões do café escravocratas e das chamadas classes “produtoras”, como se os produtores não fossem os escravos que trabalhavam.

A revolução de 30, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas/São Paulo, para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno, como as do arroz e charque do Rio Grande do Sul; do voto censitário, para o voto “universal” (menos para os analfabetos, naquela época ainda maioria entre os adultos), do voto exclusivamente masculino para o voto feminino; das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária . Não se conseguiu tocar o domínio incontornável dos proprietários de terra na regulação das relações de trabalho dentro de suas propriedades, o que só vai acontecer depois de 1964.

Getúlio implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de “cooperação” entre capital e trabalho, entre operários e os capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais. Ele criou as bases para o Brasil moderno.

Nesta campanha eleitoral certos meios de comunicação criaram o motto: “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT, para deixar campo livre para instaurar a “ditadura do mercado financeiro”. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes como o Pro-Uni, as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e não dos colégios particulares; as cotas para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária, ainda que muito aquém de tudo o que seria necessário, como sempre nos lembrou Dom Tomás Balduino; a demarcação e homologação em área contínua da terra Yanomami contra a grita de meia dúzia de arrozeiros apoiados pelo coro unânime dos latifundiários e do agronegócio, assim como todos os programas sociais do Bolsa Família, ao Luz para Todos, ao Minha Casa, minha Vida, o Mais Médicos e daí para frente.

Nunca incomodou a estes críticos que o Estado pagasse o estudo de jovens estudantes de famílias ricas que deram a seus filhos boa educação em escolas particulares, o que lhes franqueou o acesso ao ensino gratuito nas universidades públicas aprofundando e consolidando a desigualdade de oportunidades. Esse estudo custa mensalmente ao Estado no caso de cursos como o de Medicina de seis a sete mil reais. Nunca protestaram essas famílias contra essa “bolsa-esmola” dada aos ricos, e que é vista como “direito” devido a seus méritos e não como puro e escandaloso privilégio. São os mesmos que se recusam a ser médicos nos interiores e nas periferias que não dispõem de um médico sequer.

Os que sobem o tom dizendo que tudo no país está errado, em que pese a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais-Médicos, posicionam-se contra as políticas do PT que visam a assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e sobretudo colocar um pouco de freio (insuficiente a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do “mercado”.

É esta a razão do meu voto para outro projeto de país, que atende às demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso, que votei Dilma no primeiro e o farei no segundo turno, respeitando as ponderações e escolhas dos que enxergam um caminho diferente e viável para o momento atual” (jbeozzo@terra.com.br). É esse também o meu pensamento.

 

 

 

 

 

João Pedro Stédile: O fim de um ciclo e a necessidade de avançar

O gaúcho João Pedro Stédile, 60 anos, um dos fundadores e principal dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), é umas lideranças populares mais lúcidas do país. Sempre apoiou o PT mas nunca renunciou à crítica pertinente e por vezes severa. Mas não entrega as conquistas históricas que o povo logrou nos últimos anos, e pela primeira vez na história, às classes dominantes. Por exemplo se pergunta: como é possível conceber um partido que tem 800 mil filiados, mas não tem cursos de formação política, não tem sequer um jornal nacional que oriente o debate e a militância? Vale a pena ler a entrevista que concedeu a Carta Maior de 2/10/2014. Sinto afinidade com suas ideias e propostas, embora daria mais acento à ideia da democracia social, participativa e sem fim: LBoff



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O MST tem se posicionado criticamente em relação ao governo, sobretudo na questão agrária, mas não só. Em quem você vai votar no domingo?

Stédile –Vou votar na Dilma, no Tarso Genro, no Olívio Dutra e nos candidatos a deputado que o MST apoia no Rio Grande do Sul. Eu e a ampla maioria do povo brasileiro queremos, no entanto, mudanças. Mudanças para melhorar as condições de vida do povo. O neodesenvolvimentismo praticado até agora foi importante para barrar o neoliberalismo e gerar uma transição. Resgatou-se o papel do Estado e o crescimento com distribuição da renda. Porém, essa política se esgotou, tanto é que vários setores da burguesia agora estão na oposição. E se esgotou também por conta da conjuntura econômica internacional. O próximo mandato precisa fazer mudanças estruturais, que alterem a política econômica e com ela o superávit primário e a matriz tributária. São requisitos para canalizar recursos necessários aos 10% do PIB na educação, à saúde, moradia, reforma agrária e aos pesados investimentos em transporte público de qualidade, que a população cobra. No campo político, é necessário convocar uma assembleia constituinte. É o único caminho para uma profunda reforma no sistema política. Queremos mudanças também na forma de conduzir a política agrícola e agrária. Se o governo Dilma não tiver forças para caminhar nessa direção teremos quatro anos de instabilidade politica. O povo voltará as ruas.

Por que, em sua opinião, os governos do PT não cumpriram integralmente as agendas e compromissos firmados com os movimentos sociais?



Stédile— Bem, em primeiro lugar, não considero os governos Lula e Dilma do PT, propriamente. Foram governos de composição de classes, em que estavam todas as classes sociais, desde o banqueiro Meireles, até os mais pobres do Bolsa Família. Em termos partidários houve uma coalização com mais de dez partidos, com o eterno peso conservador do PMDB e demais oportunistas. Por outro lado, foram governos que ainda viveram um período histórico de refluxo dos movimentos massas, derrotados política e ideologicamente na década de 80, e que não conseguiram ainda retomar a ofensiva da luta nas ruas. E por fim, o PT como maior partido da esquerda, com toda sua influencia nas massas e nas organizações populares, abdicou de seu papel de organizador político, renunciou ao dever de formador ideológico, resignou-se ao medíocre papel de disputar cargos públicos. Por isso, esclerosou-se ideologicamente. Esperamos que no próximo período haja uma retomada do movimento de massas. As mobilizações de junho já foram um sinal de alerta. E o plebiscito pela Constituinte da reforma política, com quase oito milhões de eleitores participando, outro.

Diante da frente única conservadora –que por um momento parecia levar Marina à vitória contra Dilma– o PT mudou seu discurso. Em SP, em um balanço da campanha, no dia 5 de setembro, Lula disse que era preciso demarcar o campo de classe da eleição. É um sinal de mudança também?

Stédile–A candidatura Dilma teve a sorte de que a burguesia se dividiu: parte a apoia; parte ao Aécio e parte a Marina. Eles não encontraram uma liderança que pudesse expressar a vontade de mudanças da ótica da direita. Nem Aécio, nem Marina expressam isso. As campanhas eleitorais foram sequestradas pelo financiamento das empresas e pela lógica dos marqueiteiros. Isso tirou o povo da disputa real. Pior: tirou a possibilidade de debate real sobre os problemas do país. Virou uma disputa de marqueteiro. As pessoas que estão na rua com propaganda o fazem por DINHEIRO. É emprego, não convicção. É mais uma evidência da crise de participação e representação. Creio que Lula, porém, que ainda é a maior liderança popular que temos, percebeu isso, e foi o grande destaque dos comícios e intervenções nessa campanha, porque fez a leitura da situação da luta de classes, e defendeu a necessidade de uma assembleia constituinte para fazer uma profunda reforma política, que recoloque o povo, a militância e a luta por ideias e projetos no centro da disputa.

O peso da correlação de forças explica, em parte, o engessamento de muitas bandeiras progressistas. Por que em 12 anos de governos progressistas não se conseguiu mudar essa correlação de forças?

Stédile— Por vários fatores conjugados. A derrota de 89, a hegemonia do neoliberalismo e império onipotente dos Estados Unidos, impuseram uma derrota política, econômica e ideológica a toda classe trabalhadora no mundo. Essas derrotas, em geral demoram uma geração para que a classe entenda, amadureça e volte a tomar iniciativa da luta. O processo de desindustrialização de nossa economia, por outro lado, quebrou a espinha da classe operária industrial, que era nosso setor mais organizado, mais forte e mais politizado, no qual Lula e o PT foram gerados. Estamos ainda vivendo uma crise ideológica na esquerda mundial. Falta-nos um projeto claro de transição do capitalismo para o socialismo. Isso tudo dificulta a construção de processos unitários e de programas de curto prazo para as forças populares, que mudem a correlação de forças. E por fim, porque o PT, sendo o maior partido de esquerda, como disse, não conseguiu levar adiante a formação política e a disputa ideológica entre seus militantes e na sociedade. Não se pode conceber que um partido que tenha 800 mil filiados, não tenha cursos de formação política, não tenha sequer um jornal nacional que oriente e debata com a militância política

Em que medida o monólogo conservador da mídia interdita essa mudança na correlação de força

?

Stédile-– A burguesia faz sua parte para manter a hegemonia econômica, política e ideológica na sociedade. Ela não fica esperando por nós. Para isso, controla e opera três instrumentos políticos simultaneamente. Em primeiro lugar, tem o controle absoluto do poder judiciário –basta ver o comportamento do STF no processo AP 470, ou a desfaçatez de juízes que se atribuem um auxílio moradia de 4.600, reais por mês, ao mesmo tempo em que não hesitam em autorizar ações de despejo contra todas ocupações dos que lutam pelo direito à habitação . Em segundo lugar, controla o parlamento, cada vez mais refém das 117 empresas que financiam 90% das campanhas dos candidatos nesse país. Transformaram o parlamento num balcão de negócios e trincheira de ideias conversadoras para a destruição dos direitos conquistados desde 1988, na Constituinte. E por último, controla de forma absoluta os meios de comunicação de massa. A Globo é hoje o principal partido ideológico da burguesia brasileira. É ela que exerce o papel de orientador político e de formação ideológica das massas, com as ideias da burguesia. Por isso é fundamental uma reforma política ampla e profunda, que envolva não só a forma de eleger os candidatos ao governo e ao parlamento.
Mas também o papel do poder do judiciário e a democratização dos meios de comunicação. Sem isso não teremos democracia. Nem a burguesa!

Diante da fragilidade de suas apostas eleitorais, o conservadorismo já faz baldeação para um outro comboio: a tese de que um ‘ajuste doloroso’ na economia será inevitável em 2015, ganhe que ganhar. Trata-se de uma tentativa de desossar um segundo governo Dilma por antecipação?



Stédile — A burguesia usará todas as armas que mencionamos para radicalizar a subordinação do Brasil à economia dos Estados Unidos, vale dizer, aos interesses dos bancos e das corporações internacionais. Querem o país como mero exportador de commodities, minerais, energéticas e agrícolas. Mas isso não gera empregos e nem desenvolve a economia. O pré-sal pode ter um papel, porém setorial. Nós, dos movimentos sociais, lutaremos para que haja mudança efetiva. Isso inclui mudar a política burra do superávit primário para pagar juros a 15 mil famílias, e redirecionar os recursos a investimentos produtivos, educação, saúde e transporte público. Precisamos de uma reforma tributária que inverta a matriz atual, que só penaliza os trabalhadores. O governo deve controlar a taxa de juros, não só a Selic, mas também as taxas impostas pelos bancos ao povo, que paga em média 48% de juros ao ano. E intervir no câmbio, para evitar que a indústria brasileira esfarele. Finalmente, é urgente revogar a lei Kandir. Essa é um absurdo.
 
Bilionárias exportações de commodities minerais, energéticas e agrícolas não pagam imposto no Brasil. Um DINHEIRO que poderia contribuir para investir em serviços públicos é legalmente sonegado à população. A Vale do Rio Doce, por exemplo, exportando bilhões e bilhões de toneladas de ferro e não paga nada de imposto. Somos o maior exportador de soja do mundo. E ninguém paga imposto! Na Argentina, os exportadores de soja pagam 40%. Como se vê, será um período de intensa disputa, em torno dos rumos da política econômica. E se a mudança frustrar o interesse dos trabalhadores, entraremos numa crise política grave.

O que você diria à juventude que hesita em votar em Dilma pelas razões discutidas acima?



Stédile –A juventude tem direito a ser desconfiada e votar em quem quiser. Há motivos para não acreditar até maiores do que para acreditar. Em função da conjuntura histórica exposta aqui, vivemos um período em que a juventude esteve ausente da política, e não pôde participar de nenhuma instituição. Nem na igreja, nem nos sindicatos, nem nos partidos. E muito menos nos governos, que só chamam as lideranças na hora em que a água ferve. Então, a juventude esta desanimada com a política institucional. É saudável. Se estivessem satisfeitos já estariam velhos e conservadores. Mas ela precisa participar da política de outra forma e mais intensa. Agora mesmo no mutirão do plebiscito pela Constituinte da reforma política, a condução do processo foi basicamente da juventude. Não basta, porém. Ela precisa se vincular às organizações da classe trabalhadora, para que juntos possamos construir um programa unitário de mudanças. Protesto é só o começo. Ele não constrói a mudança. A s mudanças virão de um programa unitário, que consiga aglutinar as forças organizadas do povo, da classe trabalhadora, tendo a juventude como participantes ativos. Nas eleições acho que a juventude vai ficar entre abstenção, voto nulo, voto na Dilma e na Luciana Genro. Percebo que a juventude que votou na Marina em 2010 desencantou-se com ela.

No documentário, ‘Em busca da terra sem veneno’, você aponta a necessidade de um aggiornamento da bandeira da reforma agrária. Que reforma agrária responde aos desafios do século XXI?

Stédile— No século passado, a reforma agrária respondia a uma necessidade de democratizar a propriedade da terra. A luta principal, portanto, era contra o latifúndio, em geral improdutivo. De um modo geral, esse programa de reforma clássico ocorreu no âmbito de governos burgueses nacionalistas. No Brasil, nunca conseguimos fazer esse tipo de reforma agrária. O mais próximo disso ocorreu na crise de 64, com a proposta de reforma do Celso Furtado- Goulart. O MST se desenvolveu com base nesse programa, de terra para quem nela trabalha.
 
Infelizmente, ele não se realizou no Brasil. Agora, com o capitalismo financeiro e as corporações transnacionais dominando a agricultura, a disputa não é apenas por terra. A disputa é pelo modelo de produção agrícola. A disputa é pelo destino dos recursos naturais. Precisamos mudar o modelo. Em primeiro lugar, para produzir alimentos sadios a toda sociedade. Comida sem veneno. Ao mesmo tempo, adotar a matriz tecnológica da agroecologia: produzir em equilíbrio com a natureza, sem destruir a biodiversidade que altera o meio ambiente e o clima. E precisamos organizar agroindústrias na forma cooperativa, para processar esses alimentos. Por isso, agora estamos diante de um novo modelo que chamamos de reforma agrária popular.

Essa é uma bandeira que não interessa apenas ao camponês, que antes queria apenas terra para trabalhar. Agora, as mudanças, interessam a todo povo. Interessa a quem não quer adoecer ou morrer de câncer por conta da ingestão de agrotóxico, que tem no Brasil o maior consumidor mundial. Interessa aos que sofrem na cidade, expulsos do campo; e aos que se preocupam com a desordem climática em curso, como o demonstra a falta de água em São Paulo. Esse será o futuro da agricultura, e na verdade, a única possibilidade de sobrevivermos.

Assista ao documentário ‘Em busca da terra sem veneno’

 

 

 

 

 

 

 

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Discussing abortion, for love of life

It is hard to believe that some people defend abortion for abortion’s sake. Abortion involves eliminating life or interfering in a vital process that culminates in human life. Personally I am against abortion because I love life in each of its phases and in all its forms.

But this does not blind me to a macabre reality that must not be ignored and which defies good sense and public authority. Each year nearly 800,000 clandestine abortions are performed in Brazil. Every two days a woman dies, victim of an improperly performed clandestine abortion.

This reality must be confronted, not by the police but with a responsible public health policy and a realistic sensibility. I consider the attitude of those who intransigently defend life in the embryo and do not adopt the same attitude facing the thousands of children abandoned in misery, without food or love, wandering in the streets of our cities, to be hypocritical, (Pharisaic). Life must be loved in all its forms and ages, and not only in its first awakening in the mother’s womb. It behooves the State and all of society to create the conditions so that women generally will not need abortions.

On the steps of the Cathedral of Fortaleza, I myself assisted a famished mother, begging and nursing her child with the blood of her breast. She had the figure of a pelican. Perplexed and filled with compassion, I took her to the house of Cardinal Dom Aloisio Lorscheider, where we gave her all the assistance possible. For such reasons abortions occur, always painful, that profoundly affect the psyche of the mother. I will narrate what Leon Bonaventure, the eminent psychoanalyst of the Jungian school wrote, and which was mentioned in his introduction to a book by another Jungian psychoanalyst, Italian Eva Pattis, titled, Abortion, lost and renewal: paradox in the search of feminine identity, (Aborto, pérdida y renovación: paradoja en la búsqueda de la identidad femenina, Paulus, 2001).

Leon Bonaventure relates, with the subtlety of a fine psychoanalyst for whom spirituality constitutes a source of integration and curing of the wounds of the soul:

«A priest was confessing a woman who had aborted in the past. After listening to the confession, the priest asked her: “What name did you give to your child?” The woman, surprised, remained silent for a long time, because she had not given her child a name.

“So” –said the priest–, “we will give your child a name, and if you agree we will baptize him”. The woman nodded her head in agreement and they symbolically did it.

Afterwards, the priest made some reflections on the mystery of life: “life exists” –he said–, “that comes to the light of day to be lived in the Earth, for 10, 50, or 100 years. Other lives will never see the light of the Sun. In the Catholic Liturgical Calendar, December 28th is the feast of the Holy Innocents, the newly born who gratuitously died when the Divine Child was born in Bethlehem. May that day also be the feast day of your child”.

And he continued, saying: “in the Christian tradition the birth of a child is always a gift from God, a blessing. It was a custom in the past to go to the temple to offer the child to God. It is never too late to offer your child to God”.

The priest ended by saying: “as a human being I cannot judge you. If you sinned against life, the very God of life can reconcile you with life. Go in peace. And live”» (p. 9).

Pope Francis always recommends mercy, understanding and tenderness in the relations between priests and the faithful. That priest lived avant la lettre those profoundly human values that also belong to the witness of the historical Jesus of Nazareth. May those values inspire other priests to have the same humanity.
Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar,
done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.