Rio+20: die konzeptuellen Unzulänglichkeiten

Es wäre pure Einbildung zu behaupten, Rio +20 sei ein Erfolg gewesen, denn es wurde keine einzige bindende Maßnahme beschlossen, noch wurden Mechanismen geschaffen, um die Erderwärmung unter Kontrolle zu bringen. Keine Entscheidungen wurden getroffen, die sich auf den Zweck der Konferenz bezogen hätten, nämlich die Bedingungen für eine „Zukunft, die wir wollen“ zu schaffen. Die Logik der Regierungen besteht darin, keine Fehler zuzugeben, doch die Fehler existieren durchaus. Angesichts des sich allgemein verschlechternden Zustands aller Leistungen der Ökosysteme bedeutet es, einen Rückschritt zu machen, wenn ein Fortschritt in die richtige Richtung nicht gelingt.

Im Grunde behauptet Rio +20, dass die Lösung der Krise, sofern es sich um eine Wachstumskrise handele, in noch größerem Wachstum bestünde. Dies bedeutet notwendigerweise einen stärkeren Verbrauch der Güter und Leistungen der Natur, wodurch deren Ausbeutung beschleunigt und noch mehr Druck auf die Ökosysteme ausgeübt wird, die bereits an ihre Grenzen gelangt sind. Es sind gerade Daten der Vereinten Nationen, die zeigen, dass es seit Rio 92 zu einem Verlust von 12 % an Artenvielfalt gekommen ist, 3 Millionen Quadratmetern an Wäldern und Urwäldern zerstört wurden, 40 % mehr Treibhausgase produziert wurden und  ca. die Hälfte der Fischreserven erschöpft wurden.

Erstaunlich ist, dass weder das Abschlussdokument noch sein Entwurf auch nur irgendeine Selbstkritik übt. Es wird weder die Frage gestellt, wie wir zur gegenwärtigen Lage kommen konnten, noch wird klar der systemische Charakter der Krise erkannt. Darin liegt die theoretische Schwäche und konzeptuelle Unzulänglichkeit dieser Dokumente im besonderen und anderer offiziellen UN-Dokumente im allgemeinen. Wir wollen im folgenden einige Kritikpunkte anführen:

Diejenigen, die die hergebrachte kulturelle und soziale Struktur fortsetzen wollen, die den Menschen eine Adam-ähnliche Position verleihen, der Natur übergeordnet und als deren Herrscher und Ausbeuter, sind der fundamentale Grund der aktuellen ökologischen Krise. Es gelingt ihnen nicht, den Menschen als Teil der Natur zu verstehen und als verantwortlich für das gemeinsame Geschick aller. Sie haben die Vision der neuen Kosmologie nicht verinnerlicht, die die Erde als etwas Lebendiges betrachtet und den Menschen als den bewussten und intelligenten Teil der Erde selbst, dazu berufen, für sie zu sorgen und Nachhaltigkeit zu gewährleisten. Die Erde wird nur als Warenhaus für Ressourcen betrachtet ohne jegliche Intelligenz oder Sinnhaftigkeit.

Sie übernahmen das Prinzip der „Großen Umformung“ (great transformation, Polanyi), als sie die ethischen Vorstellungen über Bord waren, die Politik ins Abseits stellten und die Ökonomie zum Dreh- und Angelpunkt der gesellschaftlichen Struktur erhoben. Aus unserer Marktwirtschaft wurde eine Marktgesellschaft, indem die reale Wirtschaft von der finanzspekulativen Wirtschaft getrennt wurde und diese über jene bestimmt.

Sie verwechseln Entwicklung mit Wachstum, wobei es sich bei Entwicklung um eine Gesamtheit von Werten und Voraussetzungen handelt, deren der Mensch für seine Existenz bedarf, und Wachstum nichts als Produktion von Konsumgütern beinhaltet. Sie verstehen Nachhaltigkeit als ein Mittel zur Beibehaltung desselben Zustands, der Institutionen, der Unternehmen und anderer Organisationen, ohne deren innere Logik zu verändern oder deren Auswirkungen auf das Ökosystem in Frage zu stellen. Sie sind gefangen in einer anthropozentrischen  Weltsicht, derzufolge alle anderen Lebewesen nur in Bezug auf ihre Verwendung für den Menschen einen Sinn haben. Damit wird die Lebensgemeinschaft ignoriert, die genauso wie wir selbst von Mutter Erde hervorgebracht wurde. Ihr Verhältnis zu den anderen Lebewesen ist davon geprägt, wie nützlich diese für sie sind, und sie erkennen nicht den Wert der anderen Lebewesen an, um dessentwillen wir ihnen Respekt schulden und Rechte zugestehen müssen, vor allem dem Planeten Erde.

Indem sie alles durch die Brille des ökonomischen Wettkampfs betrachten anstelle durch die der Zusammenarbeit, verlieren sie die ethische und spirituelle Dimension in ihren Überlegungen zu Lebensstil und Produktions- und Konsummittel der Gesellschaft. Ohne Ethik oder Spiritualität werden wir aber zu Barbaren, die dem Leiden von Millionen und Abermillionen Hungernder und Not Leidender gleichgültig gegenüberstehen.  Daher herrscht ein radikaler Individualismus, der jedes Land nach seinem eigenen Vorteil streben lässt und diesen über das Gemeinwohl stellt, wodurch Konsens und Annäherungen in der Meinungsvielfalt der UN-Konferenzen verhindert werden. Und so treiben wir zufrieden und irgendwie entfremdet dem Abgrund entgegen, der dem Fehlen von Vernunft, von Weisheit und von transzendentem Lebenssinn entspringt.

Mit diesen konzeptuellen Unzulänglichkeiten werden wir niemals diese uns vernichtende Krise überwinden. Dies war der Schrei der Völkervertreter, die hoffnungsvolle Alternativen vorschlugen. Dem schlimmsten Szenario zufolge wird die Erde zwar weiterhin bestehen, allerdings ohne uns. Möge Gott dies verhindern, denn Gott ist, den jüdisch-christlichen Schriften zufolge, der „höchste Liebhaber des Lebens“,

Übersetzt von Bettina Gold-Hartnack

O impossível pacto entre o lobo e o cordeiro

Post Festum, podemos dizer: o documento final da Rio+20 apresenta um cardápio generoso de sugestões e de propostas, sem nenhuma obrigatoriedade, com uma dose de boa vontade comovedora mas com uma ingenuidade analítica espantosa, diria até, lastimável. Não é uma bússula que aponta para o “futuro que queremos” mas para a direção de um abismo. Tal resultado pífio se tributa à crença quase religiosa de que a solução da atual crise sistêmica se encontra no veneno que a produziu: na economia.

Não se trata da economia num sentido transcendental, como aquela instância, pouco importam os modos, que garante as bases materiais da vida. Mas da economia categorial, aquela realmente existente que, nos últimos tempos, deu um golpe a todas as demais instâncias (à política, à cultura e à ética) e se instalou, soberana, como o único motor que faz andar a sociedade. É a “Grande Transformação” que já em 1944 o economista húngaro-norteamericano Karl Polanyi denunciava vigorosamente. Este tipo de economia cobre todos os espaços da vida, se propõe acumular riqueza a mais não poder, tirando de todos os ecossistemas, até à sua exaustão, tudo o que seja comercializável e consumível, se regendo pela mais feroz competição. Esta lógica desequilibrou todas as relações para com a Terra e entre os seres humanos.

Face a este caos Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, não se cansa de repetir na abertura das Conferências: estamos diante das últimas chances que temos de nos salvar. Enfaticamente em 2011 em Davos diante dos “senhores do dinheiro e da guerra econômica”declarou:”O atual modelo econômico mundial é um pacto de suicídio global”. Albert Jacquard, conhecido geneticista francês, intitulou assim um de seus últimos livros:”A contagem regressiva já começou?”(2009).

Os que decidem não dão a mínima atenção aos alertas da comunidade científica mundial. Nunca se viu tamanha descolagem entre ciência e política e também entre ética e economia como atualmente. Isso me reporta ao comentário cínico de Napoleão depois da batalha de Eylau ao ver milhares de soldados mortos sobre a neve:” Uma noite de Paris compensará tudo isso”. Eles continuam recitando o credo: um pouco mais do mesmo, de economia  e já sairemos da crise. É possível o pacto entre o cordeiro(ecologia) e o lobo(economia)? Tudo indica que é impossível pois o lobo sempre devorará o cordeiro.

Podem agregar quantos adjetivos quiserem a este tipo vigente de economia, sustentável, verde e outros, que não lhe mudarão a natureza. Imaginam que limar os dentes do lobo lhe tira a ferocidade, quando esta reside não nos dentes mas em sua natureza. A natureza desta economia é querer  crescer sempre, a despeito  da devastação do  sitema-natureza e do sistema-vida. Não crescer é prescrever a própria morte. Ocorre que a Terra não aquenta mais esse assalto sistemático a seus bens e serviços. Acresce a isso a injustiça social, tão grave quanto a injustiça ecológica. Um rico médio consome 16 vezes mais que um pobre médio. Um africano tem trinta anos a menos de expectativa de vida que um europeu (Jaquard, 28).

Face a tais crimes como não se indignar e não exigir uma mudança de rumo?  A  Carta da Terra nos oferece uma direção segura :”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal…para alcançarmos um modo sustentável de vida nos níveis local, nacional, regional e global”(final). Mudar a mente implica um novo olhar sobre a Terra não como o “mundo-máquina” mas como  um organismo vivo, a Terra-mãe a quem cabe respeito e cuidado.

Mudar o coração significa superar a ditadura da razão técnico-científica e resgatar a razão sensível onde reside o sentimento profundo, a paixão pela mudança e o amor e o respeito a tudo o que existe e vive. No lugar da concorrência, viver a interdependência global, outro nome para a cooperação e no lugar da indiferença, a responsabilidade universal, quer dizer,  decidir enfrentar juntos o risco global.

Valem as palavras do Nazareno:”Se não vos converterdes, todos perecereis”(Lc 13,5).

Pode a espécie humana desaparecer?

 

A vida na Terra transformou-se atualmente no grande e obscuro objeto do cuidado humano. Damo-nos conta de que nos podemos autodestruir. Não por alguma meteoro rasante, nem por algum cataclismo natural de proporções fantásticas. Mas por causa da irresponsável atividade humana. Segundo o prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, criamos uma nova era geológica, o antropoceno. Por ela o ser humano comparece como a grande ameaça à vida.

Segundo Carl Sagan inventamos o princípio de autodestruição pelas armas de destruição em massa. Agora nos demos conta de que a guerra total conduzida contra Gaia, pode fazer com que ela não nos queira mais sobre a sua superfície. Seríamos expulsos como expulsamos uma célula cancerígena. Devido ao estresse de todos os serviços ecossistêmicos, a Terra vai irrefreavelmente subindo de temperatura que oscilará entre 1,8 e 5 graus Celsius. Com a entrada do metano na atmosfera que é 23 vezes mais agressivo que o dióxido de carbono, pode ocorrer nos próximos decênios, uma “mudança abrupta do clima”(Abrupt Climate Change), da ordem de 4-5 graus Celsius, como o vem advertindo o Comité da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Os efeitos seriam devastadores. Grande parte da biodiversidade poderá desparecer bem como  e milhões e milhões de pessoas que não teriam como encontrar refúgios salvadores.

Em razão destes alarmes, despertamos de um ancestral torpor. Somos responsáveis pela vida ou pela morte em nosso planeta vivo e pelo “futuro que queremos” como o formulou a Rio+20, futuro nosso e de nossa  Casa Comum.

Cabe perguntar :poderia o ser humano desaparecer por ter se tornado uma força geofísica destruidora e por  falta culposa  de sabedoria?

                   Possibilidade real do fim da espécie humana

Nomes notáveis das ciências não excluem esta eventualidade. Stephen Hawking em seu livro O universo  numa casca de noz (Mandarim, São Paulo 2001) reconhece que num futuro ainda distante a população mundial ficará ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. Ela poderá se destruir a si mesma enquanto portadora de vida (p.159).

O prêmio Nobel de Química, Christian de Duve,  em seu conhecido Poeira Vital: a vida como imperativo cósmico (Campus, Rio de Janeiro 1997) atesta que “a evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grande instabilidade; de certa forma nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”(p.355). Antigamenente eram os meteoros rasantes que ameaçavam a Terra; hoje o meteoro rasante se chama ser humano.

Théodore Monod, talvez o último grande naturalista, deixou como testamento um texto de reflexão com esse título: E se a aventura humana vier a fracassar? (Et si l’aventure humaine devait échouer?, Grasset, Paris 2000). Assevera: “somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da espécie humana”(p. 246). E acrescenta:”seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldades”(p. 248)

Se olharmos a crise social mundial e o crescente alarme ecológico – os negadores são cada vez menos – esse cenário de horror não é impensável.

Edward Wilson atesta em seu alarmante livro O futuro da vida (Campus, Rio de Janeiro 2002): “O homem até hoje tem desempenhado o papel de  assassino planetário…a ética da conservação, na forma de tabu, totemismo ou ciência, quase sempre chegou tarde demais; talvez ainda haja tempo para agir”(p.121). E em seu último livro A Criação: como salvar a vida na Terra (Companhia das Letras, SP, 2008) propõe uma sagrada aliança entre religião e ciência como forma evitar a aniquilação da vida.

Anotemos a opinião de outros dois grandes historiadores Arnold Toynbe em sua auto-biografia:”vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade real que pode ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do homem”(Experiências, Vozes, Petrópolis 1970, p. 422). E Eric J. Hobsbawn, em sua conhecida Era dos extremos, concluindo seu livro:”Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro discernível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(Objetiva 1944, p. 562).

Nem preciso citar as previsões sombrias já notórias de James Lovelock (A vingança de Gaia Editora Intrínseca, RJ 2006; Gaia: alerta final, RJ, Intrínseca 2009 cf. Revista Veja, Páginas Amarelas de 25 de outubro de 2006) ou do astrofísico Martin Rees (Hora final, Companhia das Letras, SP 2005) que prevêem o fim da espécie  antes do fim do século. Lovelock é contundente:”até o fim do século 80% da população humana desaparecerá. Os 20% restantes vão viver no Artico e em alguns poucos oasis em outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva….Quase todo o território brasileiro será demasiadamente quente e seco para ser habitado”(Veja op. cit. p. 20). Ultimamente não retratou a tese apenas o tempo de sua realização que não seria tão iminente.

Lógico,  precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico  possui menos de um minuto de existência. Mas com ele, a evolução deu um salto, de inconsciente passou a ser consciente. E com a consciência pode decidir que destino quer para si mesmo. Nesta perspectiva, a situação atual representa antes um desafio que um desastre possível, a travessia para um patamar mais alto e não fatalmente um mergulho na autodestruição. Estaríamos portanto num cenário de crise e não de tragédia.

Mas haverá tempo para tal aprendizado? Tudo parece indicar que o tempo do relógio corre contra nós. Não são poucos os que afirmam que estarímos chegando tarde demais, pois teríamos passado já o ponto de não retorno. Sabemos que a evolução não é linear e conhece frequentes rupturas e saltos para cima como fruto de uma complexidade maior; sabemos também que vigora no universo o caráter indeterminado e flutuante de todas as energias e de  toda a matéria consoante a física quântica de W. Heisenberg e de N. Bohr. Tais fatos nos concedem pensar a emergência de um outro patamar de consciência e de vida humana que pode salvaguardar a biosfera e a vida humana.

Consequências do desaparecimento da espécie humana.

Na hipótese de um eventual desaparecimento de nossa espécie que consequências se derivariam para nós e para o processo da evolução?

Antes de qualquer outra consideração, seria uma catástrofe biológica de incomensurável magnitude. Ter-se-ia perdido o trabalho de pelo menos 3,8 bilhões de anos, data provável do surgimento da vida, e dos últimos 5-7 milhões de anos, data do aparecimento da espécie homo e dos últimos cem mil anos, da irrupção do homo sapiens, trabalho esse, feito pelo inteiro universo com suas energias, informações e  diferentes formas de matéria.

O ser humano, na medida em que podemos constatar sua evolução e observar o universo, é o ser da natureza mais complexo por nós conhecido. Complexo em seu corpo com trinta bilhões de células, continuamente renovadas pelo sistema genético, complexo em seu cérebro de cem bilhões de neurônios em contínua sinapse, complexo em sua  psiqué e em sua consciência, carregadas de informações recolhidas desde o irromper do cosmos com o big bang e enriquecidas com emoções, sonhos, arquétipos, símbolos oriundos das interações da consciênicia consigo mesma e com o ambiente à sua volta,  complexo em seu espírito, capaz de captar o Todo e sentir-se parte dele e de identificar aquele Elo que une e re-une, liga e re-liga todas as coisas fazendo que não sejam caóticas mas ordenadas. Esse Elo confere sentido e significado à existência neste mundo e nos faz suscitar sentimentos  de profunda veneração e respeito face à grandeur do cosmos.

Até hoje não foram identificadas cientificamente e de forma irrefutável outras inteligências no universo. Por enquanto somos como especie homo uma singularidade sem comparação no cosmos. Somos um habitante de uma galáxia média, a Via Láctea, uma entre outras duzentas bilhões, dependemos de uma estrela, o Sol, de quinta grandeza, uma entre outras trezentas bilhões, situado a 27 mil anos luz do centro de nossa galáxia, no braço interior da espiral de Orion, moramos no terceiro planeta do sistema solar, a Terra e agora estamos aqui frente ao computador, refletindo sobre as consequências de nosso provável fim.

Com o nosso desaparecimento, o universo, a história da vida e a história da vida humana perderiam algo inestimável.

Toda a criatividade produzida por esse ser, criado criador, que fez coisas que a evolução por ela mesma jamais faria, como nos pintar uma tela de Portinari ou nos fazer ouvir uma canção de Chico Buarque ou construir um canal de televisão, as construções da cultura seja daquela material, simbólica e espiritual: tudo isso teria desparecido para sempre.

Para sempre ter-se-iam extinguido as grandes produções poéticas, literárias, científicas, sociais, políticas éticas e religiosas da humanidade.

Para sempre ter-se-iam apagado as referências de figuras paradigmáticas de seres humanos entregues ao amor, ao cuidado, à compaixão e à proteção da vida em todas as suas formas como Buda, Chuang-tzu, Moisés, Jesus, Maria de Nazaré, Maomé, Francisco de Assis, Gandhi, Chico Mendes entre tantos e tantas outras. Para sempre teriam sumido também as anti-figuras que macularam o humano e violaram a dignidade da vida em incontáveis guerras e extermínios cujos nomes sequer queremos mencionar.

Para sempre ter-se-ia apagado a decifração da Fonte Originária de todo Ser que permeia toda a realidade e que irrompe em nossa consciência permitindo-nos profunda comunhão com ela, fazendo-nos sentir como um projeto infinito que somente descansa quando mergulhar nesta Fonte feita de ternura e de amor.

             Quem nos substituiria na evolução da vida?

Na hipótese de que o ser humano venha a desparecer como espécie, mesmo assim o princípio de  inteligibilidade e de amorização ficaria preservado. Ele está primeiro no universo e depois em nós, seres humanos. Esse princípio é tão ancestral quanto o universo. Quando, nos primeiríssimos momentos após a grande explosão, quando se formou o campo Higgs e as primeiras partículas elementares, como os quarks e os prótons, então tais partículas começaram a interagir entre si. Fizeram surgir redes de relações e unidades de informação e ordens complexas. Ai se manifestava aquilo que depois se chamará de espírito, aquela capacidade de criar unidades e quadros de ordem e de sentido global. Ao desaparecer de dentro da espécie humana, o espírito  emergiria, um dia, quem sabe em milhões de anos de evolução, em algum ser mais complexo e ordenado.

Théodore Monod, falecido no ano 2000, sugere até um sucessor nosso, já presente na evolução atual: os cefalópodes, isto é, os moluscos como os polvos e as lulas. Alguns deles, possuem um aperfeiçoamento anatômico notável; sua cabeça é dotada de  cápsula cartiginosa, funcionando como crânio; e possuem olhos como os vertebrados. Detém ainda um psiquismo  altamente desenvolvido, até com dupla memória, quando nós possuimos apenas uma (op. cit. p. 247-248).

Evidentemente, eles não sairiam amanhã do mar e entrariam continente adentro ocupando nossas instituições. Precisariam de milhões de anos de evolução. Mas já possuem a base biológica para um salto rumo à consciência e para suportar o espírito.

De todas as formas, urge escolher: ou o ser humano e seu futuro ou os polvos e as lulas vindouras. Somos otimistas: vamos criar juízo, aprender a ser sábios e escolher o ser humano com seus projetos.

Mas importa já agora mostrar amor à vida em sua majestática diversidade, ter com-paixão com todos os que sofrem, realizar rapidamente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incentivam-nos as Escrituras judaico-cristãs: “Escolha a vida e viverás”. Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.

              Como vê a teologia cristã o eventual fim da espécie?

Antes situemos a pergunta em sua tradição histórica, pois não é a primeira vez que os seres humanos se colocam seriamente esta questão.                  Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, faz suscitar mitos de fim do mundo e de destruição da espécie. Usa-se, então, um recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos ou de seres extraterrestres que se comunicam conosco para anunciar mudanças iminentes e para preparar a humanidade. No Novo Testamento esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.

Hoje prolifera vasta literatura esotérica que usa códigos diferentes como passagem a outra onda de vibração e a comunicação com extraterrestres. Mas a mensagem  é idêntica: a viragem é iminente e há que  estar preparado.

Importante é procurar entender esse tipo de linguagem. É linguagem de tempos  de crise, portanto um gênero literário, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer.

Mas há uma diferença entre os antigos e nós hoje. Para os antigos, o fim do mundo estava no seu imaginário e não no processo realmente existente. Para nós está no processo real, pois criamos de fato o  desequilíbrio da Terra e o princípio de autodestruição

E se desaparecermos, como se há de interpretar? Chegou a nossa vez no processo de evolução já que há sempre espécies, desparecendo naturalamente? Que poderá  dizer a reflexão teológica cristã?

Brevemente diria: se o ser humano frustar sua aventura planetária significa, sem dúvida, uma tragédia inominável. Mas não seria uma tragédia absoluta. Essa, ele já a perpetrou um dia. Quando o Filho de Deus assumiu a nossa humanidade, nós  o assassinamos, pregando-o na cruz. Só então se formalizou o pecado original que é um processo histórico de negação da vida e do amor. Maior perversidade que matar a criatura (a espécie humana) é matar o Criador que se fez humano.

Mesmo que a espécie humana se mate a si mesma, ela não consegue matar tudo dela. Só mata o que é. Não pode matar aquilo que ainda não é: as virtualidades escondidas nela e que querem se realizar. E aqui entra a morte em sua  função libertadora. Mais que separar o corpo do espírito, ela separa o tempo da eternidade. Ao morrer, o ser humano deixa o tempo e penetra na eternidade. Caindo as barreiras espácio-temporais, as virtualidades agrilhoadas em sua existência podem desabrochar em sua plenitude. A morte seria uma invenção da vida para que esta pudesse se libertar e  desabrochar plenamente. Só então acabaremos de nascer como seres humanos plenos. Portanto, mesmo com a liquidação criminosa da espécie, o triunfo da espécie não é frustrado. A espécie sái tragicamente do tempo pela morte, morte esta que a liberta de todas as amarras e lhe concede penetrar, plenamente realizado, na eternidade.

Alimentamos otimismo. Assim como o ser humano domesticou outros meios de destruição como o primeiro deles, o fogo, (que originou os mitos de fim do mundo) assim agora domesticará, assim  creio,  os meios que podem destrui-lo. Aqui caberia uma análise das possibilidades dadas pela nanotecnologia (que trabalha com átomos, genes e moléculas) que pode, eventualmente, oferecer meios técnicos para diminuir o aquecimento global e purificar a biosfera dos gases de efeito estufa.

De todas as formas, devemos pensar esta questões, não nos termos da física clássica, mas no quadro da física quântica e da nova cosmologia. Estas partem do fato de que evolução não é linear. Ela acumula energia e dá saltos. Assim tambem nos sugere a visão elaborada por Niels Bohr e por Werner Heisenberg: virtualidades escondidas, vindas do Vácuo Quântico, daqule Oceano indecifrável de Energia que subjaz e pervade o universo, podem irromper e modificar a seta  da evolução.

Pessoalmente recuso-me a pensar que o nosso destino, depois de milhões de anos de evolução, termine assim miseravelmente nas próximas gerações. Haverá uma salto, quem sabe, na direção daquilo que já em 1933 Pierre Teilhard de Chardin anunciava: a irrupção da noosfera, vale dizer, daquele estado de consciência e de relação com a natureza e com os seres humanos entre si que inaugurará uma nova convergência de mentes e corações. Dar-se-ia assim um novo patamar da evolução humana e da história da Terra. O filósofo Ernst Bloch diria: “o verdadeiro gênesis não está no começo mas no fim”.

Nesta perspectiva o cenário atual se apresentaria não  de tragédia mas de crise. A crise acrisola, purifica e faz amadurecer. Ela anuncia um novo começo, uma dor de um parto promissor e não as penas  de um abortamento da aventura  humana. Ainda vamos irradiar.

O que importa dizer é que não acaba o mundo, mas pode  acabar este tipo de mundo insensato que ama a guerra e a devasta a natureza. Vamos inaugurar um mundo humano que ama a vida, desacraliza a violência, tem cuidado e piedade para com todos os seres, realiza a justiça verdadeira, enfim, um mundo que nos permite estarmos no monte das benaventuranças e não no vale de lágrimas. Ou simplesmente: teremos todos aprendido a tratar humanamente a todos os seres humanos e com cuidado, respeito  e compaixão a todos os demais seres. Tudo  que existe, merece existir. Tudo o que vive merece viver. Especialmente nós seres humanos. Destarte nosso fim não seria autodestruição mas um passo a mais rumo a uma autorrealização mais alta.

  Leonardo Boff

Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor, membro da Comissão Inaternacional da Carta da Terra e autor de Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, RJ 2010.

 

The Conceptual Deficiencies of Rio+20

To say that Rio+20 was a success is a fantasy, because not a single binding measure was reached, and neither funds to eradicate poverty, nor mechanisms to control global warming was created. No decisions were taken regarding the purpose of the Conference, which was to create conditions for the «future we want». The logic of the governments is not to admit failures, but failures still exist. Given the general degradation of all the eco-systemic services, failing to make progress is to regress.

Deep down Rio+20 affirmed that if the crisis lies in growth, then the solution is still more growth. This necessarily means greater use of nature’s goods and services, which accelerates their exhaustion, and puts more pressure on the ecosystems, which have already reached their limit. Data by the very UN organs show that since Rio 92 there has been a 12% loss of biodiversity, 3 million square meters of forests and jungles were destroyed, 40% more green house gasses were released, and about half of the world reserves of fish have been depleted.

What is surprising is that neither the final document nor its draft reveal any self criticism. They neither question how we have come to the present situation, nor clearly recognize the systemic character of the crisis. This is the theoretical weakness and conceptual deficiency of this, and in general, other official UN documents. Let’s enumerate some critical points.

Those who continue within the old cultural and social structure that places the human being in an Adam-like position, above nature, as her dominator and exploiter, are the fundamental cause of the present ecological crisis. They fail to understand humans as being part of nature, and responsible for the common destiny. They have not incorporated the vision of the new cosmology that sees the Earth as alive, and the human being as the conscious and intelligent portion of the Earth itself, with the mission of caring for her and guaranteeing sustainability. The Earth is seen only as a warehouse of resources, with neither intelligence nor purpose.

They adopted the «great transformation» (Polanyi), when they annulled ethics, set aside politics, and made the economy the sole axis for structuring all of society. From a market economy we have transitioned to a market society, separating the real economy from the financial speculative economy, with the latter directing the former.

They confuse development with growth, whereas development is the collection of values and conditions that foster the realization of human existence, and growth is the mere production of goods to be commercialized and consumed. They understand sustainability as the means of guaranteeing the continuity and the reproduction of the same, of the institutions, the enterprises and other organizations, without changing their internal logic or questioning their impact on the eco-systemic services. They are hostage to an anthropocentric point of view, according to which all other beings have meaning only to the extent they are ordained for human use, thus ignoring the community of life, also generated, as are we ourselves, by Mother Earth. They have a utilitarian relationship with all beings, denying their intrinsic value, because of which they are due respect, and have rights, especially planet Earth.

Viewing everything through the economic vision of competition rather than cooperation, they abolished the ethical and spiritual dimension from the reflections on lifestyles, and the means by which societies produce and consume. Without ethics or spirituality we turn ourselves into barbarians, insensitive to the suffering of millions and millions of starving and miserable human beings. Therefore, a radical individualism reigns, with each country seeking its own particular good above the global common good, thus precluding consensus and the convergence of the diversities in UN Conferences. And so, content and alienated, we head towards an encounter with the abyss created by our lack of sensible reason, wisdom, and a transcendent sense of existence.

With these conceptual deficiencies, we will never emerge from the crises that destroy us. This was the cry of the Leadership of the Peoples that offered alternatives of hope. In the worst case scenario, the Earth will continue, but without us. May the Divine not let that happen, because God is «the sovereign lover of life», as the Judeo-Christian Scriptures affirm.

See L.Boff & M.Hathaway,The Tao of Liberation– Exploring the Ecology of Transformation, Orbis Books, N.Y. 2010.