Nova Interpretação do Brasil de L.G.de Souza Lima:”A Refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”

Em novembro de 2011 no Palácio Rio Negro em Petrópolis, onde os Presidentes podem passar férias, com significativa acorrência de pessoas e de intelectuais foi lançado o livro de Luiz Gonzaga de Souza Lima, cientista política de largo percurso prático e teórico A Refundação do Brasil:rumo à sociedade biocentrada pela editora RiMa (São Carlos-SP). Trata-se de um intento de uma nova interpretação da formação histórico-social do Brasil com categorias que nos permitem entender seu lugar no processo de globalização e por que se encontra enredado em problemas de difícil mas não impossível superação. O livro, no conjunto das interpretações já clássicas, é extremamente original e elucidador. Merece ser lido e discutido para contribuir no salto que devemos dar para sermos, realmente, uma nação, fundada sobre um novo paradigma biocentrado, quem sabe a primeira grande potência nos trópicos, não potencia militar e imperialista, mas cordial, amiga da vida e ecumênica. O livro pode ser adquirido pelo tel/fax de RiMa (16)3411 1729. Transcrevo aqui o prefácio que escrevi a convite do autor com quem comparto o pão da amizade e o vinho do dialogo na mesa do conhecimento: LB

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Ler é sempre reler e conhecer é sempre interpretar. Esta máxima epistemológica se aplica especialmente a todos os estudos que se empenharam e se empenham em entender o Brasil. Muitas são as releituras e variadas as interpretações. E como a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam, cada ensaio revela o lugar social a partir de onde o intérprete lê e relê o acontecimento-Brasil. Destes vários lugares, nasceram interpretações brilhantes, verdadeiras janelas que descortinam dimensões da vasta paisagem brasileira.

Simplificando a questão, quase de forma reducionista, diria que tudo começou já com a Carta de Pero Vaz de Caminha com sua leitura ingênua, deslumbrada e paradisíaca do mundo novo que encontrou. Mas era a visão a partir das naves de Pedro Álvares Cabral e não da praia dos indígenas.
A leitura critica e refletida, no entanto, ganhou corpo já com Joaquim Nabuco com seus dois textos clássicos O Abolicionismo e Minha Formação. Sua tese básica pode ser resumida no binômio: homens livres, numa sociedade livre e com trabalho livre.

Contribuição inestimável nos deu Gilberto Freyre. Trabalhou a partir da Casa-grande e da Senzala. O eixo articulador é o patriarcado brasileiro que tem no escravo de engenho seu contraponto, patriarcado não apenas entendido como fase fundadora do Brasil mas como força social subjacente às atuais estruturas sociais.

Sérgio Buarque de Holanda, com suas Raízes do Brasil reflete o processo de industrialização nascente, particularmente, no seu ponto mais visível que era São Paulo. Ai surge uma nova classe ambiciosa – os capitães da indústria – que lançará as bases do assim chamado Brasil moderno, embora sempre subalterno e dependente.

Caio Prado Júnior com a sua Formação do Brasil Contemporâneo e A formação Econômica do Brasil representa os interesses, as resistências e lutas da classe operária. Teve o mérito de utilizar as categorias adequadas para esta leitura que são aquelas críticas, elaboradas por Karl Marx. Aquilo que não tinha centralidade nem em Freyre nem em Buarque de Holanda – o proletariado – ganha aqui especial relevância, dando-nos conta das gritantes contradições sociais da realidade brasileira.

Na esteira de Caio Prado Júnior, nos quadros da tradição critica e marxista do processo social, podemos situar Florestan Fernandez com seu A revolução burguesa no Brasil. Trata-se de assinalar as novas relações de poder do capitalismo nascente que ocupará o aparelho de Estado e a partir dele dirigirá o desenvolvimento brasileiro ao redor dos interesses da classe burguesa.

Celso Furtado, o melhor de nossos economistas, tentou em suas muitas obras, mas principalmente na Formação Econômica do Brasil e na Formação Histórica do Brasil, interpretar o pais no contexto da macroeconomia globalizada, sob a hegemonia norte-americana, e sua inserção subordinada, como sócio menor e dependente. Mas sempre sustentou: o “desafio maior é mudar o curso da civilização, deslocar o seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação, entre os povos”(Brasil: a construção interrompida, 2000, 76). Enquanto esta virada não ocorrer na história, a construção do Brasil como nação autônoma será incompleta e o tornará incapaz de ajudar na configuração de um outro tipo de civilização.

Darcy Ribeiro como antropólogo e pensador das culturas deixou-se impactar pela singularidade do povo brasileiro, feito de muitos povos, mas principalmente de três: do índio, do negro e do europeu que se mesclaram e geraram esse fenômeno antropologicamente singular da feliz mestiçagem, característica do povo novo brasileiro. Esta mestiçagem, para Darcy Ribeiro, serviu de base para propor uma refundação do Brasil, a partir dele mesmo e com a vocação de ser a grande potência dos trópicos, entusiasticamente, proclamada como a Roma dos Trópicos, não uma Roma imperial e dominadora, mas uma Roma cordial, da conciliação dos opostos, da convivência sem preconceitos e da abertura ao abraço a todos os povos.

Reconhecendo o valor de todas estas leituras, Luiz Gonzaga de Souza Lima avança uma perspectiva original e de grande força interpretativa com seu texto A Refundação do Brasil: rumo à Sociedade Biocentrada. Sua obra é fruto de uma reflexão detida ao longo de mais de 20 anos, feita a partir do Brasil mesmo e não de um status teórico elaborado fora, nos centros metropolitanos de pensamento.

Seu olhar alcança longe para trás, numa consideração suscinta mas certeira da evolução da humanidade, focando especialmente a Renascença, período que antecede às grandes “descobertas”(invasões e ocupações), feitas pelos europeus, momento em que surgiu o espírito científico, se lançaram as idéias e os sonhos libertários, apesar das obstruções da Igreja e da prepotência dos reis “por direito divino”.

Seu ponto de partida é o fato brutal, perpetrado pelos europeus que se outorgaram o direito de invadir e de se apropriar como senhores do território que aqui encontraram, dominando, dizimando e escravizando as populações originárias e superexplorando a natureza. Não aportaram por estas bandas, das mais esplêndidas do planeta que alguns achavam ser o paraíso terrenal preservado, para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Ela resultou da articulação entre reinos, igrejas e grandes companhias como a das Índias Ocidentais, Orientais, a Holandesa (de Mauricio de Nassau que existiu antes que houvesse o pais Holanda), com navegadores, mercadores, banqueiros, não esquecendo as vanguardas modernas, dotadas de espírito de aventura, de novas idéias e com sonhos de outros mundos por explorar, buscando novos conhecimentos e enriquecimento rápido.

Ocupada a terra, para cá foram trazidas matrizes (cana de açúcar e depois café), tecnologias modernas para a época, capitais e mão de obra totalmente escrava, no início indígena e depois africana. Estes foram incorporados ao trabalho forçado e excluídos dos benefícios sociais, negando-lhes a condição humana, tratados como “peças”, mercadorias a serem compradas no mercado e como carvão a ser consumido nos engenhos de açúcar, exportado para o mundo inteiro. Com razão afirma Souza Lima:” o resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir a economia; no Brasil nasceu o que se pode chamar de ‘formação social empresarial”.

O Estado não existia como fruto de um contrato social com a população. Ele veio de fora e foi imposto de cima para baixo e sua função se destinava a organizar politicamente um território econômico, a serviço da grande empresa Brasil. Aqui tudo virou mercadoria, antes mesmo de Karl Polanyi o tenha denunciado em 1944 com seu clássico A Grande Transformação, segundo a qual o capitalismo mundial realizou uma verdadeira revolução interna: desbancou a política, anulou a ética e transformou tudo em mercadoria, em objeto de lucro, numa completa dominação pela instancia econômica. Mas tudo isso, antes que fosse dominante nos tempos atuais, foi praticado literalmente no século XVI no Brasil.

Aquilo que não era permitido às vanguardas européias de fazer em seus países, como ocupar, sem mais nem menos territórios, escravizar pessoas para a produção, no interesse do lucro, aqui nas ocupações, chamadas colônias, feitorias e capitanias, foi feito sem qualquer entrave. “A formação social empresarial era, na realidade, a modernidade nascendo…um software social moderno in statu nascendi”.

A modernidade no sentido da utilização da razão produtivista, da vontade de acumulação ilimitada e da exploração sistemática da natureza, da criação de vastas populações excluídas e superexploradas nasceu no Brasil e na America Latina. O Brasil, neste sentido, é novo e moderno desde suas origens, observa consequentemente Souza Lima.

A Europa finalmente liberada das instituições medievais decadentes, só pôde fazer a sua revolução, chamada de modernidade, porque foi sustentada pela rapinagem brutal feita nas colônias. Os avanços políticos alcançados, como os direitos humanos, a divisão dos poderes, o sentido mínimo de inclusão social foram vividos nas metrópoles mas totalmente negados nas colônias que continuaram como empresas comerciais, exploradoras, concentradoras e excludentes até para dentro do século XX.

Com a independência política do Brasil, a formação social empresarial não mudou sua natureza. Ela não se transformou numa sociedade nacional plena. Foi sempre e habilmente mantida subalterna e incorporada como sócio menor do grande negócio mundial em concluio com os poderes de aqui.

Todos os impulsos de desenvolvimento ocorridos ao longo de nossa história não conseguiram diluir o caráter dependente e associado que resulta da natureza empresarial de nossa conformação social. A tendência do capital mundial global ainda hoje é tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado, criando obstáculos à formação de uma nação autônoma e reitora de seu projeto nacional. A ela cabe ser a grande fornecedora de produtos in natura, vale dizer, de commodities, para o mercado mundial, sem ou com parca tecnologia e valor agregado. O Brasil foi e é internacionalizado para abastecer as demandas internacionais.

A empresa Brasil é a categoria-chave, segundo Souza Lima, para se entender a formação histórica do Brasil e o lugar que lhe é assinalado na divisão mundial do trabalho e no processo atual de globalização econômica, profundamente perversa, acumuladora e geradora de pobreza e miséria, numa proporção, talvez, jamais alcançada antes na história.

Os principais intérpretes do Brasil se referem à empresa Brasil mas a vêem como um dado inicial e transitório, descurando de sua natureza estrutruturante essencial. Talvez essa desconsideração se derive do fato de que esses autores assumiram, cheios de boa-vontade, categorias de análises válidas para a formação das sociedades capitalistas do centro do sistema mas que aqui são inadequadas para captar a singularidade do processo histórico-social brasileiro. É mérito deste trabalho de Souza Lima, a partir da categoria empresa- Brasil, entender o Brasil de ontem e os impasses pelos quais passe nos dias atuais.

Como vê o autor a superação dos atuais embaraços e a gestação de um outro software social que nos seja adequado, que nos desenhe um futuro diferente e que signifique uma efetiva contribuição à fase planetária da história humana? É nesta parte que Souza Lima se mostra altamente criativo, diria mesmo, entusiasta.

Parte de um dado bem nosso, reconhecido por todos e cheio de promessas: a cultura brasileira. Ela foi elaborada pelos sobreviventes da grande tribulação histórica, pelos escravos e seus descendentes, pelos indígenas que restaram, pelos mamelucos, pelos filhos e filhas da pobreza e da mestiçagem. Gestaram algo singular, não desejado pelos donos do poder que sempre os desprezaram, os consideram jecas-tatu, inferiores, ignorantes e desprezíveis, gente para ser gasta mesmo e, por isso, não reconhecidos em sua humanidade, muito menos como filhos e filhas de Deus.

O que se trata agora é refundar o Brasil como sociedade, “construir, pela primeira vez, uma sociedade humana neste território imenso e belo; é habitá-lo, pela primeira vez, por uma sociedade humana de verdade, o que nunca ocorreu em toda a era moderna, desde que o Brasil foi fundado como uma empresa, a partir da qual todos os humanos, nativos e forasteiros, foram organizados em função dela; fundar uma sociedade é o único objetivo capaz de salvar nosso povo”.

Trata-se de passar do Brasil como Estado economicamente internacionalizado para o Brasil como sociedade biocentrada.

Esta fundação se assenta sobre novas visões, convicções e valores, mas principalmente sobre o reconhecimento da vida como seu principal fundamento. Como afirma belamente: “refundar é construir uma organização social que busque e promova a felicidade, a alegria, a solidariedade, a partilha, a defesa comum, a união na necessidade, o vinculo, o compromisso com a vida de todos”. Se bem repararmos, todas as sociedades humanas, enquanto humanas, ao longo de todos os tempos, se construíram sobre estes valores e não sobre a ganância egoísta e a falta de solidariedade e de compaixão como é predominante hoje em nível mundial.

Ao refundar-se como sociedade humana biocentrada, numa das províncias mais belas e ridentes do planeta, o povo brasileiro deixará para trás a modernidade, apodrecida pela injustiça e pela ganância, como se constata na atual crise generalizada do sistema e da cultura do capital, no coração mesmo dos países centrais e que está conduzindo a humanidade a acercar-se mais e mais de um abismo.

A modernidade entre nós, bem ou mal, nos ajudou a forjar uma infra-estrutura material que nos concede a oportunidade de construir uma biocivilização que ama a vida em todas as suas formas, que convive pacificamente com as diferenças, dotada de incrível capacidade de integrar e de sintetizar, de criar espaços de alegria, de festa, de humor, de espírito lúdico e de religiosidade ecumênica. A felicidade não resulta de coisas e de objetos apropriados, mas do simples viver em sua espontaneidade e na convivência pacífica com tudo o que nos cerca.

É neste contexto que Souza Lima associa a refundação do Brasil às promessas de um mundo novo que deve suceder a este que está, dia a dia, mais se afundando em suas próprias contradições e perversidades, incapaz de projetar qualquer horizonte de esperança para a humanidade. O Brasil poderá ser um nicho gerador de novos sonhos e da possibilidade real de realizá-los em harmonia com a Mãe Terra e com toda a comunidade de vida. Então será a Terra da Boa Esperança no dizer de Ignacy Sachs que tanto estuda e ama o Brasil.

O livro associa análise minuciosa à síntese criadora, os padecimentos da história à esperança de tempos melhores e representa um cântico de amor ao país e à sua gente.
Leonardo Boff
ecoteólogo e escritor

Desarollo sostenible: crítica al modelo estándar

Los documentos oficiales de la ONU así como el borrador actual de Río +20 dedican gran espacio al modelo de desarrollo sostenible: debe ser económicamente viable, socialmente justo y ambientalmente correcto. Es la famosa tripleta llamada Triple Botton Line (la línea de los tres pilares), creada en 1990 por el británico John Elkington, fundador de la ONG SustainAbility. Pero este modelo no resiste una crítica seria.

Desarrollo económicamente viable: En el lenguaje político de los gobiernos de las empresas, desarrollo equivale al producto interior bruto (PIB). ¡Ay de la empresa y del país que no tengan índices positivos de crecimiento anual! Entran en crisis o en recesión con la consiguiente disminución del consumo y generación de desempleo: en el mundo de los negocios, éste consiste en ganar dinero, con la menor inversión posible, con la máxima rentabilidad posible, con la competencia más fuerte y en el menor tiempo posible.

Cuando hablamos aquí de desarrollo no hablamos de cualquier desarrollo sino del que existe realmente, que es el industrialista/capitalista/ consumista. Éste es antropocéntrico, contradictorio y equivocado. Me explico.

Es antropocéntrico porque está centrado solamente en el ser humano, como si no existiese la comunidad de vida (flora y fauna y otros organismos vivos), que también necesitan de la biosfera e igualmente demandan sostenibilidad.

Es contradictorio, pues desarrollo y sostenibilidad obedecen a lógicas contrapuestas. El desarrollo realmente existente es lineal, creciente, explota la naturaleza y privilegia la acumulación privada. Es la economía política de corte capitalista. La categoría sostenibilidad, por el contrario, proviene de las ciencias de la vida y de la ecología, cuya lógica es circular e incluyente. Representa la tendencia de los ecosistemas al equilibrio dinámico, a la interdependencia y a la cooperación de todos con todos. Como se deduce, son lógicas antagónicas: una privilegia al individuo, la otra al colectivo; una promueve la competición, la otra la cooperación; una la evolución del más apto, la otra la evolución de todos interconectados.

Está equivocado, porque alega que la pobreza es la causa de la degradación ecológica. Por tanto, cuanto menos pobreza, más desarrollo sostenible habría y menos degradación, lo cual es una equivocación. Analizando, sin embargo, críticamente las causas reales de la pobreza y de la degradación de la naturaleza, se ve que resultan, no exclusiva, pero principalmente, del tipo de desarrollo practicado. Él es el que produce degradación, porque dilapida la naturaleza, paga bajos salarios y genera así pobreza.

Este desarrollo sostenible es una trampa del sistema imperante: asume los términos de la ecología (sostenibilidad) para vaciarlos. Asume el ideal de la economía (crecimiento) enmascarando la pobreza que el mismo produce.
Socialmente justo: si hay una cosa que el actual desarrollo industrial/capitalista no puede decir de sí mismo es que es socialmente justo. Si lo fuera, no habría 1, 4 miles de millones de hambrientos en el mundo y la mayoría de las naciones en la pobreza. Detengámonos solamente en el caso de Brasil. El Atlas Social de Brasil de 2010 (IPEA) refiere que 5000 familias controlan el 46% del PIB. El gobierno destina anualmente 125.000 millones de reales al sistema financiero para pagar con intereses los préstamos hechos y destina solamente 40.000 millones de reales a los programas sociales que benefician a las grandes mayorías pobres. Todo esto denuncia la falsedad de la retórica de un desarrollo socialmente justo, imposible dentro del actual paradigma económico.

Ambientalmente correcto: el actual tipo de desarrollo se hace llevando a cabo una guerra imparable contra Gaia, arrancando de ella todo lo que le es útil y objeto de lucro, especialmente para aquellas minorías que controlan el proceso. Según el índice Planeta vivo de la ONU (2010) en menos de 40 años la biodiversidad global sufrió una caída del 30%. Solamente desde 1998 hasta ahora ha habido un salto del 35% en las emisiones de gases de efecto invernadero. En vez de hablar de los límites del crecimiento, mejor haríamos en hablar de los límites de agresión a la Tierra.

En conclusión, el modelo patrón de desarrollo que se quiere sostenible es retórico. En él se verifican avances en la producción de bajo carbono, en la utilización de energías alternativas, en el reforzamiento de regiones degradadas y en la creación de mejores eliminaciones de residuos. Pero fijémonos bien: todo esto se hace siempre que no se perjudiquen los lucros ni se debilite la competición. La utilización de la expresión «desarrollo sostenible» tiene un significado político importante: el cambio necesario de paradigma económico, si es que queremos una sostenibilidad real. Dentro del actual, la sostenibilidad es o localizada o inexistente.

Leonardo Boff es auctor de “Sostenibilidad: lo que es y lo que no es” Vozes Petrópolis, Rio 2012.

El destino del capital/dinero

 En los días actuales, gran parte de la economía está regida por el capital financiero, es decir por aquellos papeles y derivados que circulan en el mercado de capitales y que se negocian en las bolsas de todo el mundo. Se trata de un capital virtual que no está en el proceso productivo, éste es el que genera aquello que puede ser consumido. En el financiero reina la especulación, dinero haciendo dinero sin pasar por la producción. Hay un inmenso descompás entre el capital real y el financiero. Nadie sabe exactamente las cifras, pero se calcula que el capital financiero suma 600 billones de dólares mientras que el capital productivo de todos los países suma 63 billones. Lógicamente, llega un momento en el que invirtiendo la frase de Marx en el Manifiesto «todo lo que no es sólido se desvanece en el aire».
 
Fue lo que se cumplió en 2007/2008 con el estallido de la burbuja financiera ligada a los inmuebles en Estados Unidos, que representaba tal volumen de deudas que ningún capital real a través del sistema bancario podía saldar. Había el riesgo de una quiebra en cadena de todo el sistema económico real. Si los estados no hubieran socorrido a los bancos, inyectándoles capital real de los contribuyentes, habríamos presenciado un derrumbe generalizado.
 
Esta crisis no ha sido superada, y probablemente no lo será mientras prevalezca el programa económico, creído por la mayoría de los economistas y por el sistema como un todo, según el cual las crisis económicas se resuelven por medio de mecanismos económicos. La herejía de esta creencia reside en la visión reduccionista de que la economía es todo, lo puede todo y de ella depende el bienestar de un país y de un pueblo. Pero sucede que los valores que sustentan una vida humana con sentido no pasan por la economía. Ésta solamente garantiza su infraestructura. Los valores resultan de otras fuentes y dimensiones. Si no fuera así, la felicidad y el amor se venderían en los en bancos.
 
Este es el trasfondo del libro Reinventando el capital/dinero de Rose María Muraro (Ideas y letras, 2012). Rose es una conocida escritora con más de de 35 libros escritos y una diligente editora con más de 1600 títulos publicados. Trabajamos juntos, en intenso diálogo, durante más de 20 años en la editorial Vozes. Dos temas ocupan siempre su agenda: la cuestión femenina y la cuestión de la cultura tecnológica. Fue ella quien inauguró oficialmente el discurso femenino en Brasil escribiendo un libro con un método innovador: La sexualidad de la mujer brasilera. Después, con su mirada perspicaz, denunció el poder destructivo y hasta suicida de la tecnociencia, especialmente en su libro ¿Queriendo ser Dios? Los avances tecnológicos y el futuro de la humanidad (Vozes 2009).
 
En este libro, Reinventando el capital/dinero, hace la historia del dinero desde la más remota antigüedad siguiendo un esquema esclarecedor: el gana/gana, el gana/pierde, el pierde/pierde, y la necesaria vuelta al gana/gana si queremos salvar nuestra civilización amenazada por la ganancia capitalista.
 
En la Prehistoria dominaba el gana/gana. Prevalecía el intercambio, o sea el trueque de productos. Reinaba una gran solidaridad entre todos. En la Época agraria apareció el dinero/moneda. Los dueños de la tierra producían más, vendían el excedente. El dinero ganado se prestaba con interés. Y con el interés entró el gana/pierde. Fue un bacilo que contaminó todas las transacciones económicas posteriores. En el Período industrial esta lógica se radicalizó pues el capital asumió la hegemonía y estableció los precios y los niveles de intereses compuestos. Como el capital está en pocas manos, creció el pierde/gana. Para que unos pocos ganen, muchos deben perder. Con la globalización, el capital ocupó todos los espacios. Y en su afán de ganar más todavía está devastando la naturaleza. Ahora prevalece el pierde/pierde, pues tanto el dueño del capital como la naturaleza resultan perjudicados. En nuestra Época de la información se ha creado la oportunidad de un gana/gana, pues la naturaleza de la información, especialmente la de Internet, es posibilitar que todos se relacionen con todos.
 
Debido al control del capital, el gana/gana no consigue imponerse, pero su fuerza interna inaugurará una nueva era, quién sabe si hasta con una moneda universal, sugerida por el economista brasileño Gerardo Nogueira de Araújo Filho, cuyo valor no incluirá sólo la economía sino valores como la educación, la igualdad social y de género, el respeto a la naturaleza y otros. Rose apuesta por esta lógica del gana/gana, la única que podrá salvar la naturaleza y a nuestra civilización.

Sostenibilidad: intento de definición holística

Hoy en día hay un conflicto entre las distintas maneras de entender la sostenibilidad. Es clásica la definición del Informe Brundland de la ONU (1987): Desarrollo sostenible es el que atiende las necesidades de las generaciones actuales sin comprometer la capacidad de las generaciones futuras para atender a sus necesidades y aspiraciones. Este concepto es correcto pero tiene dos limitaciones: es antropocéntrico (sólo considera al ser humano) y no dice nada sobre la comunidad de vida (otros seres vivos que también necesitan biosfera y sostenibilidad). Voy a tratar de hacer una formulación lo más integradora y holística posible: 

Sostenibilidad es toda acción destinada a mantener las condiciones energéticas, informacionales, físico-químicas que sustentan a todos los seres, especialmente a la Tierra viva, a la comunidad de vida y a la vida humana, buscando su continuidad, y atender también las necesidades de la generación presente y de las generaciones futuras, de tal forma que el capital natural se mantenga y se enriquezca su capacidad de regeneración, reproducción y ecoevolución.

Expliquemos, rápidamente, los términos de esta visión holística:

Sustentar todas las condiciones necesarias para la generación de los seres: estos sólo existen a partir de la conjugación de las energías, de los elementos físico-químicos e informacionales que, combinados entre sí, dan origen a todo.

Sustentar a todos los seres: aquí se trata de superar radicalmente el antropocentrismo. Todos los seres emergen del proceso evolutivo y gozan de valor intrínseco, independientemente del uso humano.

Sustentar especialmente a la Tierra viva: la Tierra es más que una «cosa» (res extensa), sin inteligencia, o un mero medio de producción. Ella no contiene vida, sino que está viva, se autorregula, se regenera y evoluciona. Si no garantizamos la sostenibilidad de la Tierra viva, llamada Gaia, quitamos la base para todas las demás formas de sostenibilidad.

Sustentar también a la comunidad de vida: no existe el medio ambiente, como algo secundario y periférico. Nosotros no existimos: coexistimos y somos todos interdependientes. Todos los seres vivos son portadores del mismo alfabeto genético básico. Formamos la red de vida, incluyendo los microorganismos. Esta red crea la biomasa y la biodiversidad y es necesaria para la subsistencia de nuestra vida en este planeta.

Sustentar la vida humana: somos un eslabón singular de la red de vida, el ser más complejo de nuestro sistema solar y la punta avanzada del proceso evolutivo por nosotros conocido, pues somos portadores de conciencia, de sensibilidad y de inteligencia. Sentimos que estamos llamados a cuidar y guardar a la Madre Tierra, garantizar la continuidad de la civilización y vigilar también nuestra capacidad destructiva.

Sustentar la continuidad del proceso evolutivo: los seres son conservados y soportados por la Energía de Fondo o la Fuente Originaria de todo Ser. El universo posee un fin en sí mismo, por el simple hecho de existir, de continuar expandiéndose y autocreándose.

Sustentar la atención a las necesidades humanas: lo hacemos a través del uso racional y cuidadoso de los bienes y servicios que el cosmos y la Tierra nos ofrecen sin el cual sucumbiríamos.

Sustentar a nuestra generación y a aquellas que seguirán a la nuestra: la Tierra es suficiente para cada generación siempre que ésta establezca una relación de sinergia y de cooperación con ella y distribuya los bienes y servicios con equidad. El uso de esos bienes debe regirse por la solidaridad generacional. Las futuras generaciones tienen el derecho de heredar una Tierra y una naturaleza preservadas.

La sostenibilidad se mide por la capacidad de conservar el capital natural, permitir que se rehaga y que, incluso a través del genio humano, pueda ser enriquecido para las futuras generaciones. Este concepto ampliado e integrador de sostenibilidad debe servir de criterio para evaluar cuánto hemos progresado o no en el camino de la sostenibilidad y nos debe igualmente servir de inspiración o de idea-generadora para hacer realidad la sostenibilidad en los diferentes campos de la actividad humana. Sin esto, la sostenibilidad es pura retórica sin consecuencias.

Autor del libro Sustentabilidade: o que é e o que não é, que será publicado a finales de enero 2012 por la Editorial Vozes.