Economia de Francisco:pacto assinado pelo Papa e pelos jovens

Depois de anos de reflexão envolvendo jovens e economistas do mundo inteiro para refletirem sobre um tipo de economia que não mate vidas da natureza e vidas  humanas mas que coloque a VIDA em sua diversidade no centro, considerando especialmente os que menos vida têm, realizou-se em Assis em fins de setembro o grande encontro com representantes vindos de todas as partes do  mundo e com a presença do Papa Francisco. Ao final das trocas e discussões formulou-se um pacto, “A Economia de Francisco” assinado pelo Pontífice e por uma representante de todos os presentes. Publicamos aqui o texto, inspirador, uma verdadeira alternativa ao sistema  imperante perverso e ameaçador do futuro da vida no nosso planeta: Lboff

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“Nós, jovens economistas, empresários, transformadores, chamados aqui a Assis de todas as partes do mundo, conscientes da responsabilidade que pesa sobre nossa geração, nos comprometemos agora, individualmente e todos juntos, a engajar as nossas vidas para que a economia de hoje e de amanhã se torne uma Economia do Evangelho. Portanto:

     .uma economia de paz e não de guerra,

  • uma economia que se opõe à proliferação das armas, especialmente as mais destrutivas,
  • uma economia que cuida da criação e não a depreda,
  • uma economia a serviço da pessoa, da família e a vida, respeitando toda mulher, homem, criança, idoso e sobretudo os mais frágeis e vulneráveis,
  • uma economia onde o cuidado substitui o descarte e a indiferença,
  • uma economia que não deixa ninguém para trás, para construir uma sociedade em que as pedras descartadas pela mentalidade dominante se tornem pedras angulares,
  • uma economia que reconheça e proteja o trabalho digno e seguro para todos, especialmente para as mulheres,
  • uma economia onde a finança seja amiga e aliada da economia real e do trabalho e não contra eles,
  • uma economia que saiba como valorizar e preservar as culturas e tradições dos povos, todas as espécies vivas e os recursos naturais da Terra,
  • uma economia que combate a miséria em todas as suas formas, reduz as desigualdades e sabe dizer, junto com Jesus e Francisco, “bem-aventurados os pobres”,
  • uma economia guiada pela ética da pessoa e aberta à transcendência,
  • uma economia que cria riqueza para todos, que gera alegria e não apenas bem-estar, porque uma felicidade não compartilhada é muito pouco.

 Nós acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque já a estamos construindo. E alguns de nós, em manhãs particularmente luminosas, já vislumbramos o início da terra prometida.

 Assis, 24 de setembro de 2022

Economia de Francisco:pacto assinado pelo Papa e pelos jovens

Depois de anos de reflexão envolvendo jovens e economistas do mundo inteiro para refletirem sobre um tipo de economia que não mate vidas da natureza e vidas  humanas mas que coloque a VIDA em sua diversidade no centro, considerando especialmente os que menos vida têm, realizou-se em Assis em fins de setembro o grande encontro com representantes vindos de todas as partes do  mundo e com a presença do Papa Francisco. Ao final das trocas e discussões formulou-se um pacto, “A Economia de Francisco” assinado pelo Pontífice e por uma representante de todos os presentes. Publicamos aqui o texto, inspirador, uma verdadeira alternativa ao sistema  imperante perverso e ameaçador do futuro da vida no nosso planeta: Lboff

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“Nós, jovens economistas, empresários, transformadores, chamados aqui a Assis de todas as partes do mundo, conscientes da responsabilidade que pesa sobre nossa geração, nos comprometemos agora, individualmente e todos juntos, a engajar as nossas vidas para que a economia de hoje e de amanhã se torne uma Economia do Evangelho. Portanto:

     .uma economia de paz e não de guerra,

  • uma economia que se opõe à proliferação das armas, especialmente as mais destrutivas,
  • uma economia que cuida da criação e não a depreda,
  • uma economia a serviço da pessoa, da família e a vida, respeitando toda mulher, homem, criança, idoso e sobretudo os mais frágeis e vulneráveis,
  • uma economia onde o cuidado substitui o descarte e a indiferença,
  • uma economia que não deixa ninguém para trás, para construir uma sociedade em que as pedras descartadas pela mentalidade dominante se tornem pedras angulares,
  • uma economia que reconheça e proteja o trabalho digno e seguro para todos, especialmente para as mulheres,
  • uma economia onde a finança seja amiga e aliada da economia real e do trabalho e não contra eles,
  • uma economia que saiba como valorizar e preservar as culturas e tradições dos povos, todas as espécies vivas e os recursos naturais da Terra,
  • uma economia que combate a miséria em todas as suas formas, reduz as desigualdades e sabe dizer, junto com Jesus e Francisco, “bem-aventurados os pobres”,
  • uma economia guiada pela ética da pessoa e aberta à transcendência,
  • uma economia que cria riqueza para todos, que gera alegria e não apenas bem-estar, porque uma felicidade não compartilhada é muito pouco.

 Nós acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque já a estamos construindo. E alguns de nós, em manhãs particularmente luminosas, já vislumbramos o início da terra prometida.

 Assis, 24 de setembro de 2022

La crisi brasiliana e i punti d’inflessione della crisi mondiale

Il Brasile deve decidere il 2 ottobre quale futuro vuole per il suo Paese: quello tra civiltà e barbarie, tra modernità e arretratezza, tra la democrazia e un proto-fascismo, rappresentato dall’attuale presidente Jair Bolsonaro? Oppure sostiene il progetto opposto della continuità di rifondazione del Brasile dal basso verso l’alto, dall’interno verso l’esterno, con una democrazia che si apre al sociale, alla società organizzata, in particolare alle centinaia di movimenti sociali le cui lotte, solitamente, s’incentrano in diritti a loro storicamente negati, incarnati nell’ex presidente Lula? In questo secondo progetto, al primo posto c’è l’eliminazione della fame di 33 milioni di brasiliani e di altri 110 milioni con insufficienza alimentare, la creazione di posti di lavoro e politiche sociali in materia di salute, d’istruzione, di sicurezza, di scienza e tecnologia, tra gli altri obiettivi.

È la prima volta nella storia che è in gioco il nostro destino. I sondaggi elettorali indicano che predominerà la razionalità, la coscienza civica, eleggendo Lula, liberando il Paese dall’ondata di odio, di violenza, di fake news e dell’irresponsabilità di fronte alla pandemia che, per il negazionismo oscurantista del presidente Bolsonaro, ha decimato almeno 300mila persone che potrebbero essere tra noi oggi. Questa perversità alleata alle bugie quotidiane e alla totale mancanza di decenza ed etica pubblica non può prevalere. Siamo troppo importanti per noi stessi e per il futuro del mondo, data la nostra ricchezza ecologica, che politicamente ci obbliga a uno sforzo serio per infliggere una sonora sconfitta al primo progetto, di smantellamento della democrazia e delle sue istituzioni democratiche.

Accanto a questa crisi nazionale, si sta verificando un’altra crisi la cui gravità supera di gran lunga la nostra: la crisi ecologico-sociale del sistema-Terra e del sistema-vita. La crisi è globale e colpisce l’ambiente, l’economia, la politica, la società, l’etica, le religioni e il senso stesso del nostro vivere. Potrebbe persino mettere gran parte della vita sulla Terra a serio rischio di estinzione.

Lasciando da parte la pericolosa crisi derivante da una potenziale guerra nucleare promossa dalla Russia e dalle potenze militariste dell’Occidente, che metterebbe a repentaglio la sopravvivenza della nostra specie, mi limito ai tippings points, ai punti sociali d’inflessione o di svolta causati dalla crescita del riscaldamento globale. Il quadro è preoccupante e, in un certo senso, sconfortante. Alla fine di febbraio e nella prima settimana di aprile del corrente anno 2022 sono stati pubblicati tre volumi del Sesto Rapporto dell’Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).

Il rapporto di valutazione 6 (Assesment Report 6) ha rivelato un’accelerazione insospettata del riscaldamento globale. L’Organizzazione Meteorologica Mondiale delle Nazioni Unite ha confermato un tale evento. Ha avvertito che il riscaldamento che s’immaginava dovesse raggiungere + 1,5 gradi Celsius al 2030 è stato frustrato. È stata fatta una proiezione del 50% di probabilità che tale riscaldamento sarebbe stato raggiunto già nell’anno 2026, quindi entro 4 anni. Il clima potrebbe raggiungere i + 2,7 gradi Celsius o più, a seconda delle regioni del pianeta, soprattutto a causa del massiccio afflusso di metano (28 volte più dannoso della CO2) derivante dallo scioglimento dei ghiacci della Groenlandia, delle calotte polari e del permafrost.

La brasiliana Patricia Pinho, autrice principale insieme all’IPCC sui punti di inflessione sociale di questa accelerazione del riscaldamento, afferma nella sua conclusione che “le emissioni di gas serra di origine umana hanno generato impatti negativi espressivi e significativi in ​​tutti i paesi del mondo, conferendo-si davvero come una minaccia per l’umanità” (cfr.IHU del 25 giugno 2022).

Nel suo rapporto, rivela che questo aumento del riscaldamento genera punti di inflessione sociale molto negativi, causando l’erosione del modo di vivere delle popolazioni dipendenti dalle foreste, in particolare le popolazioni indigene, le popolazioni fluviali e la popolazione urbana povera, pregiudicando l’agricoltura sia di sopravvivenza, sia quella dell’agro-business, la diminuzione delle risorse ittiche, oltre all’aumento dei conflitti, delle violenze, delle migrazioni e delle crisi umanitarie.

Questa mutata situazione è poco conosciuta e nemmeno presa in considerazione dai pianificatori dei nuovi governi, siano essi degli Stati o dell’Unione. Strategie minime devono essere sviluppate come, ad esempio, non costruire case sui pendii (si pensi ai disastri di Petrópolis e Angra dos Reis di quest’anno), ma collocare le persone in spazi più pianeggianti che non siano minacciati dalle inondazioni. Insieme al programma Bolsa Família, è necessario aggiungere la Bolsa Floresta, piantare alberi in ogni angolo, insieme all’agricoltura rurale introdurre l’agricoltura urbana in quegli spazi tra gli edifici, il rimboschimento delle strade e la conservazione delle più piccole fonti d’acqua, lá dove sorgono, circondati da piante che ne garantiscano la perennità.

In tutti i modi, dobbiamo prepararci a eventi estremi sempre più frequenti e dannosi, utilizzando sistemi di allerta-prevenzione insieme alla popolazione, usando la scienza e le tecnologie per ridurre gli inevitabili effetti dannosi.

Concludo con l’osservazione di uno scienziato nord-americano, legato al tema del riscaldamento globale: “La nostra generazione deve percorrere un sentiero pieno di pericoli. È come guidare di notte: la scienza è rappresentata dai fari, ma la responsabilità di non uscire di strada è del guidatore, che deve tenere conto anche del fatto che i fari hanno una capacità di illuminazione limitata”. In altre parole, scienza e tecnologia non bastano, dobbiamo assumerci collettivamente la responsabilità del nostro futuro. Speriamo di trovare il modo di garantire la nostra sopravvivenza come specie su questo pianeta che ci ha generato, imparando di nuovo a prendercene cura e a farne la nostra Casa Comune.

Leonardo Boff è un ecoteologo, filosofo e scrittore che ha scritto: La ricerca della misura giusta: il pescatore ambizioso e il pexie incantato, Vozes 2022; Abitare la Terra, Roma 2021.

A crise brasileira e os pontos de inflexão da crise mundial

                                             Leonardo Boff

O Brasil deve decidir no dia 2 de outubro que futuro que ele quer para o seu país: aquele entre a civilização e a barbária, entre a  modernidade e o atraso, entre a democracia e um protofascismo, representado pelo atual presidente Jair Bolsonaro? Ou apoia o projeto contrário da continuidade de refundação do Brasil de baixo para cima, de dentro para fora, com uma democracia que se abre ao social, à sociedade organzada, especialmente dos centenas movimentos sociais cujas lutas, geralmente, se centram em direitos a eles historicamente negados, encarnado no ex-presidente Lula? Neste segundo projeto, está em primeiro lugar a erradicação da fome de 33 milhões de brasileiros e de outros 110 milhões com alguma insuficiência alimentar, a geração de empregos e de políticas sociais de saúde, de educação,de segurança, de ciência e tecnologia, entre outros pautas.

É a primeira vez na história que nosso destino está posto em jogo. As pesquisas eleitorais estão a indicar que predominará a racionalidade, a consciência cívica, elegendo Lula, livrando o país da onda de ódio, de violência, de fake news e da irresponsabilidade face à pandemia que, pelo negacionismo obscurantista do presidente Bolsonaro dizimou pelos menos 300 mil pessoas que poderiam hoje estar entre nós. Esta perversidade aliada à mentiras cotidianas e à completa falta de decência e ética pública não pode prevalecer. Somos demasiadamente importantes para nós mesmos e para o futuro do mundo, dada a nossa riqueza ecológica, que nos obriga politicamente a um sério empenho  para infligir uma fragrosa derrota ao primeiro projeto, de  desmantelamento da democracia e de suas das instituições democráticas.

A par desta crise nacional, está ocorrendo outra crise cuja gravidade excede em muito à nossa: a crise ecológico-social do sistema-Terra e do sistema-vida. A crise é global, afetando o ambiente, a economia, a política, a sociedade,a ética, as religiões e o sentido de nosso próprio viver. Pode até colocar grande parte da vida na Terra em grave risco de extinção.

Abstraindo da perigosa crise  derivada de uma potencial guerra nuclear promovida pela Rússia e pelas potências militaristas do Ocidente, que poria em risco a sobrevivência de nossa espécie, restringo-me aos tippings points aos pontos sociais de inflexão ou de virada provocados pelo crescente aquecimento global. O quadro é preocupante e, de certa forma, desolador. Em final de fevereiro e  na primeira semana de abril do corrente ano de 2022 foram publicados três volumes do Sexto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O relatório de avaliação 6 (Assesment Report 6) revelou uma aceleração insuspeitada do aquecimento global. A Organização Meteorológica Mundial da ONU confirmou tal evento. Advertiu que o aquecimento que se imaginava alcançar até 2030  1,5 graus Celsius, se frustou. Fez-se uma projeção de 50% de chance de que tal aquecimento  seria alcançado já no ano 2026, portanto dentro de 4 anos. O clima poderia chegar até 2,7 graus Celsius ou mais, dependendo das regiões do planeta, especialmente pela entrada maciça de metano, 28  vezes mais danoso que o CO2,resultante do degelo da Groelândia, das calotas polares e do parmafrost.

A brasileira Patrícia Pinho, autora lider sobre os pontos de inflexão sociais desta aceleração do aquecimento junto ao IPCC, assevera em sua conclusão que “as emissões de gases de efeito estufa de origem humana têm gerado impactos adversos expressivos e significantes em todo os países ao redor do mundo, conferindo-se genuinamente como uma ameaça à humanidade”  (cf..IHU de 25 de junho de 2022).

Em seu relatório, revela que esta alta do aquecimento gera pontos de inflexão sociais bastante negativos, provocando erosão do modo de vida das populações dependentes da floresta, sobretudo os povos indígenas, os ribeirinhos e a população urbana pobre, o comprometimento da agricultura seja a de sobrevivência e a do agronegócio, a diminuição dos recursos pesqueiros, além do  aumento dos conflitos, violência, migrações e crises humanitárias.

Esta situação mudada é pouco conhecida e sequer tomada em consideração pelos planejadores dos novos governos seja dos estados seja da União. Estratégias mínimas têm que ser elaboradas, como, por exemplo, não se construir habitações nas encostas (pense-se nos desastres de Petrópolis e de Angra dos Reis deste ano), mas alocar as pessoas  em espaços mais planos e não ameaçados pelas inundação. Junto da Bolsa Família há que se agregar a Bolsa Floresta, plantar árvores em todos os cantos, junto com a agricultura do campo  introduzir a agriculcultura urbana naqueles espaços entre os prédios, a arborização das ruas e a preservação das mínimas fontes de água, lá onde surgirem, cercadas por plantas que lhe garantem a perpetuidade.

De todas as formas, temos que nos preparar para eventos extremos cada vez mais frequentes e nocivos, usando sistemas de alerta-prevenção junto à população, uso de ciência e tecnologia para minorar os efeitos daninhos inevitáveis.

Termino com a observação de um cientista norte-americano, ligado ao tema do aquecimento global:

“Nossa geração deve trilhar um caminho cheio de perigos. É como dirigir à noite: a ciência é representada pelos faróis, mas a responsabilidade de não sair da estrada é do motorista, que também deve levar em consideração o fato de os faróis terem um alcance limitado”. Quer dizer, não bastam a ciência e a técnica, precisamos assumir coletivamente a responsabilidade pelo nosso futuro. Oxlá encontremos meios que garantam nossa sobrevivência como espécie sobre esse planeta que nos gerou e que nós temos que reaprender a cuidar dele e fazê-lo nossa Casa Comum.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofoe escritor e escreveu:A busca da justa medida: o pescador ambicioso e o pexie encantado, Vozes 2022; Habitar a Terra, Vozes 2021.