Os crimes na Faixa de Gaza mostram a demência da razão e a falta de coração

Leonardo Boff

Em pleno século XXI estamos assistindo àquilo que foi chamada “a era da guera eterna” levada a efeito particularmente pelos Estado Unidos da América em todas as partes onde seu domínio sobre o mundo todo é colocado em xeque. Vivem a ideologia do “Destino Manifesto” de serem “o novo povo de Deus”, para levarem ao mundo a democracia (burguesa), os direitos humanos (individuais,esquecendo os sociais e ecológicos) e o valor supremo do indivíduo (base da acumulação capitalista). Nessa crença sustentam a ferro e fogo a unipolaridade consoante o motto:”um só mundo-um só império”, o deles. Farão guerra para impedir a multipolaridade.

Enquanto estamos escrevendo, está acontecendo um massacre cruel de todo um povo, o palestino da Faixa de Gaza, denunciado como um verdadeiro genocídio, perpetrado  sob o sionista Benjamin Netanyhau, com o incondicional apoio dos USA. Está operando a razão ensandecida  sem nenhum coração e sem sensibilidade humana, exercendo sua lógica fria e sem qualquer escrúpulos  e limites éticos.

Sabemos que a  razão sensível e cordial é mais ancestral que a razão pensante. A primeira surgiu há 125 milhões de anos quando, no processo da evolução, irromperam os mamíferos com o assim chamado cérebro límbico, sede do mundo dos afetos e da cordialidade. A fêmea ao dar à luz se enche de cuidados e de sensibilidade para com a sua cria. Nós seres humanos esquecemos que somos mamíferos racionais, portanto, portadores de sensibilidade, de cuidado, de afeto e de amor. Tal fato pertence ao DNA de nossa natureza. Somente a partir de 7-8 milhões de anos atrás,  formou-se o cérebro neocortical, base do pensamento e da racionalidad conceptual. Apenas nos últimos 100 mil anos emergiu o homo sapiens sapiens do qual somos herdeiros.

Note-se que o mais ancestral não é o  logos, mas   o pathos, a razão emocial, cordial e sensível. Somos seres racionais mas assentado sobre o universo dos afetos,da sensibildade, numa palavra: a mente lança raízes no coração. Neste vivem os grandes valores que nos orientam, como o amor, a empatia, a amizade e a compaixão. Como afirmava um representante da etnia Pueblo do Novo México (USA)  ao grande psicalista C.G.Jung que  os visitou: “vocês são loucos porque presumem que pensam com a cabeça. Nós no entanto pensamos com o coração”. Esta resposta fez o grande psicanalista mudar sua percepção da psiqué humana que ele tanto estudava. Jung entendeu o porquê os europeus conquistaram o mundo pela violência e pelas guerras: porque usaram só a cabeça sem o coração. Haviam perdido a dimensão da sensibilidade e da compaixão. Por isso cometeram o maior hocausto da história. Em menos de 50 anos, consoante a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer (Abya Yala,genocídio dos povos originários das Américas, 2021) elimiram cerca de 61 milhões de habitanes das Américas a (os USA a  partir de 1607). Foi o nosso esquecido Holocausto, o maior da história.

O drama do homem atual é ter perdido a capacidade de sentir o outro como seu semelhante,  de viver um sentimento de pertença à mesma humanidade, coisa que as religiões e as éticas humanitárias sempre ensinaram. O que se opõe à religião não é o ateísmo ou a negação de Deus. O que se opõe, é a incapacidade de ligar-se e religar-se com os diferentes e com a natureza com um laço de afeto e de reconhecimento. Hoje grande número de pessoas estão desenraizadas, desconectadas dos seus semelhantes humanos, da natureza e da Mãe Terra. Na linguagem de Jung recalcaram a dimensão da anima que responde pela expressão da sensibilidade, do cuidado, da relacionalidade com os outros  e com a espiritualidade.

Se não articularmos razão e sensibilidade, mente e coração, dificlmente nos movemos para defender quem está sendo sacrificado e martirizado como as mais de 10500 crianças assassindas e  mais de 1500 esob os escombros dos ataques aéreos e terrestres por parte do exército do insensível e sem coração  Netanyhau.

A mera razão analítico-instrumental não acompanhada da inteligência emocional se torna irracional e insana a ponto de praticar o Holocausto de 6 milhões de judeus pelos nazistas e os 61 milhões de representantes de nossos povos originários.

Uma ciência com consciência, cuidadosa, sensível a tudo o que existe e vive que une mente e coração é pre-condição para evitarmos massacres e o genocídio como estamos assistindo na Faixa de Gaza. Além do mais, garantiremos que não vamos nos devorar mutuamente e salvaguardaremos a vitalidade do planeta Terra. Caso contrário, ele pode continuar, girando ao redor do sol, mas sem nós.

Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra-proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record: Rio de Janeiro 2010; Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes  2022.

Os crimes de guerra em Gaza; a demência da razão e a falta de coração

Leonardo Boff

Em pleno século XXI estamos assistindo àquilo que foi chamada “a era da guera eterna” levada a efeito particularmente pelos Estado Unidos da América em todas as partes onde seu domínio sobre o mundo todo é colocado em xeque. Vivem a ideologia do “Destino Manifesto” de serem “o novo povo de Deus”, para levarem ao mundo a democracia (burguesa), os direitos humanos (individuais,esquecendo os sociais e ecológicos) e o valor supremo do indivíduo (base da acumulação capitalista). Nessa crença sustentam a ferro e fogo a unipolaridade consoante o motto:”um só mundo-um só império”, o deles. Farão guerra para impedir a multipolaridade.

Enquanto estamos escrevendo, está acontecendo um massacre cruel de todo um povo, o palestino da Faixa de Gaza, denunciado como um verdadeiro genocídio, perpetrado  sob o sionista Benjamin Netanyhau, com o incondicional apoio dos USA. Está operando a razão ensandecida  sem nenhum coração e sem sensibilidade humana, exercendo sua lógica fria e sem qualquer escrúpulos  e limites éticos.

Sabemos que a  razão sensível e cordial é mais ancestral que a razão pensante. A primeira surgiu há 125 milhões de anos quando, no processo da evolução, irromperam os mamíferos com o assim chamado cérebro límbico, sede do mundo dos afetos e da cordialidade. A fêmea ao dar à luz se enche de cuidados e de sensibilidade para com a sua cria. Nós seres humanos esquecemos que somos mamíferos racionais, portanto, portadores de sensibilidade, de cuidado, de afeto e de amor. Tal fato pertence ao DNA de nossa natureza. Somente a partir de 7-8 milhões de anos atrás,  formou-se o cérebro neocortical, base do pensamento e da racionalidad conceptual. Apenas nos últimos 100 mil anos emergiu o homo sapiens sapiens do qual somos herdeiros.

Note-se que o mais ancestral não é o  logos, mas   o pathos, a razão emocial, cordial e sensível. Somos seres racionais mas assentado sobre o universo dos afetos,da sensibildade, numa palavra: a mente lança raízes no coração. Neste vivem os grandes valores que nos orientam, como o amor, a empatia, a amizade e a compaixão. Como afirmava um representante da etnia Pueblo do Novo México (USA)  ao grande psicalista C.G.Jung que  os visitou: “vocês são loucos porque presumem que pensam com a cabeça. Nós no entanto pensamos com o coração”. Esta resposta fez o grande psicanalista mudar sua percepção da psiqué humana que ele tanto estudava. Jung entendeu o porquê os europeus conquistaram o mundo pela violência e pelas guerras: porque usaram só a cabeça sem o coração. Haviam perdido a dimensão da sensibilidade e da compaixão. Por isso cometeram o maior hocausto da história. Em menos de 50 anos, consoante a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer (Abya Yala,genocídio dos povos originários das Américas, 2021) elimiram cerca de 61 milhões de habitanes das Américas a (os USA a  partir de 1607). Foi o nosso esquecido Holocausto, o maior da história.

O drama do homem atual é ter perdido a capacidade de sentir o outro como seu semelhante,  de viver um sentimento de pertença à mesma humanidade, coisa que as religiões e as éticas humanitárias sempre ensinaram. O que se opõe à religião não é o ateísmo ou a negação de Deus. O que se opõe, é a incapacidade de ligar-se e religar-se com os diferentes e com a natureza com um laço de afeto e de reconhecimento. Hoje grande número de pessoas estão desenraizadas, desconectadas dos seus semelhantes humanos, da natureza e da Mãe Terra. Na linguagem de Jung recalcaram a dimensão da anima que responde pela expressão da sensibilidade, do cuidado, da relacionalidade com os outros  e com a espiritualidade.

Se não articularmos razão e sensibilidade, mente e coração, dificlmente nos movemos para defender quem está sendo sacrificado e martirizado como as mais de 10500 crianças assassindas e  mais de 1500 esob os escombros dos ataques aéreos e terrestres por parte do exército do insensível e sem coração  Netanyhau.

A mera razão analítico-instrumental não acompanhada da inteligência emocional se torna irracional e insana a ponto de praticar o Holocausto de 6 milhões de judeus pelos nazistas e os 61 milhões de representantes de nossos povos originários.

Uma ciência com consciência, cuidadosa, sensível a tudo o que existe e vive que une mente e coração é pre-condição para evitarmos massacres e o genocídio como estamos assistindo na Faixa de Gaza. Além do mais, garantiremos que não vamos nos devorar mutuamente e salvaguardaremos a vitalidade do planeta Terra. Caso contrário, ele pode continuar, girando ao redor do sol, mas sem nós.

Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra-proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record: Rio de Janeiro 2010; Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes  2022.

O genocídio israelense: suprema expressão do paradigma moderno? 

Vamos direto ao assunto. A retaliação do estado de Israel ao ato de terror de sete de outubro perpetrado pelo Hamas, da Faixa de Gaza, foi profundamente desproporcional. Tinha o direito de autodefesa garantido legalmente. Mas a pretexto de caçar e matar terroristas acionaram seu sofisticado arsenal bélico. Foram destruídos centenas de edifícios, assassinados milhares de inocentes: crianças, mulheres e um sem número de civis. Não se trata de uma guerra, mas de um verdadeiro genocídio e limpeza étnica como foi denunciado pelo secretário da ONU António Guterres. Ele afirmou “que a Faixa de Gaza se transformou num cemitério de crianças”. Hoje já é consenso entre os melhores analistas e notáveis humanistas. 

Nenhum órgão internacional e nenhum país saíram em defesa dos desesperados palestinos, revelando a completa insensibilidade, particularmente da União Europeia, aliada e súcuba dos Estados Unidos da América. Imbuída do espírito do poder/dominação, nada faz, como se pertencesse à guerra, todo tipo de crimes, inclusive o genocídio, como durante séculos o fizeram mundo afora. O presidente Joe Biden declarou apoio incondicional a Israel, o que equivale a dar carta branca para este fazer uma guerra de  autodefesa ilimitada, usando todos os meios. A humanidade está aterrorizada face ao quadro de extermínio e de morte na Faixa de Gaza. 

Estamos face à total irracionalidade e assustadora desumanidade. Por mais que nos custe aceitar, devemos suspeitar, especialmente nós que vivemos do Grande Sul, outrora colonizado e hoje submetido à  uma recolonização, que o presente genocídio estaria inscrito no DNA ocidental moderno e mundializado.
Este perdura já há séculos e é ainda vigente. Por que este questionamento tão duro? 

Sigam o seguinte raciocínio: qual é o sonho maior e a grande utopia que davam e dá ainda sentido ao mundo moderno já há mais de três séculos? Era e continua sendo o desenvolvimento ilimitado, a vontade de poder como dominação sobre os outros, as classes, as terras a conquistar, sobre outras nações, sobre a natureza, a matéria até o último topquark e a própria vida no seu derradeiro gene e sobre toda a natureza nos seus biomas e em sua biodiversidade. A centralidade é ocupada exclusivamente pela razão. Só é aceito o que passar por seus critérios. Mais que o “cogito, ergo sum” (penso, logo sou) de Descartes é o “conquero, ergo sum”(conquisto, logo sou) de Hernan Cortez, conquistador e destruidor do México que expressa a dinâmica da modernidade.  

Os Papas da época: Nicolau V (1447-1455) e Alexandre VI (1492-1503) conferiram legitimação divina ao espírito de dominação dos europeus. Em nome de Deus, concederam às potências coloniais da época, aos reis de Espanha e de Portugal “a faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vender e submeter os pagãos e se apropriar e aplicar para uso e utilidade sua, a reinos, domínios, possessões e bens deles descobertos e a descobrir… pois é obra bem aceita pela divina Majestade que se abatam as nações bárbaras e sejam reduzidas à fé crista” (Paulo Suess, A conquista espiritual da América Espanhola, documentos, Petrópolis: Vozes, 1992, p.227). 

Francis Bacon e René Descartes, entre outros fundadores do paradigma da modernidade, não pensavam outra coisa que os Papas: o ser humano deve ser “mestre e dono da natureza” que não possui propósito nenhum, pois, é apenas uma mera coisa extensa (“res extensa” de Descartes) colocada à nossa disponibilidade. Deve-se “meter a natureza numa cama de força, pressioná-la para que entregue seus segredos; devemos colocá-la a nosso serviço como uma escrava” (Francis Bacon).  

Para que tudo isso? Para nos desenvolvermos e sermos felizes, pretendiam! A ciência e a técnica, a tecnocracia, foram e ainda são os grandes instrumentos do projeto de dominação. Para submeter à dominação, tinham que desqualificar os submetidos e colonizados: estão mais do lado dos animais do que dos humanos, são sub-humanos. Recordemos a famosa discussão do grande Bartolomeu de Las Casas com Sepúlveda, o educador dos  reis espanhóis. Este último sustentava que os povos originários da América Latina não eram humanos e duvidava que possuíssem razão. Algo parecido afirmou o ministro da Defesa israelense, Y. Gallant acerca dos terroristas de Gaza: são “animais-humanos e como tais devem ser tratados”. Os nazistas comparavam os judeus a ratos a serem erradicados. 

O homem ocidental europeu, filho do paradigma do poder/dominação, possui imensa dificuldade de conviver com o diferente. A estratégia costumeira é marginaliza-lo ou incorporá-lo ou eventualmente, eliminá-lo. Nesta visão de mundo deve-se sempre definir quem é amigo e quem é inimigo. A este cabe difamar, combater e liquidar (o jurista de Hitler, Carl Schmitt). Não admira que os europeus cristianizados produzissem as principais guerras no continente ou nas colônias, causando mais de 200 milhões de mortos. Seu cristianismo foi apenas um ornato cultural, nunca uma inspiração do Nazareno para uma relação fraterna e para uma ética humanitária. 

Todos, com razão, se horrorizam com o Holocausto que levou seis milhões de judeus às câmaras de gás dos nazistas. Mas vejamos o pavoroso Holocausto ocorrido na América Latina (Abya-Yala na linguagem dos povos centro-americanos). No espírito de conquista-dominação da América Latina, entre os anos de 1492-1532 e nos USA a partir de 1607, os  colonizadores europeus cometeram o  maior extermínio jamais feito: os mortos por doenças dos brancos ou mortos em guerras, algumas de extermínio total como em Haiti, foram cerca de 61 milhões de representantes dos povos originários: do Caribe (4 milhões), do México (23 milhões), dos Andes (14 milhões), do Brasil (4  milhões) e dos Estados Unidos (16 milhões). É o que comprova a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer,Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas” (Rio de Janeiro: Ed. Bambual, 2021). Este nosso Holocausto, segundo o historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), deslegitima qualquer credibilidade aos europeus e à Igreja  associada ao projeto colonial, de falar em dignidade humana e em seus direitos.  Matou-se com a espada e com a cruz. 

À base deste tipo de dominação surgiu o capitalismo anglo-ssxão hoje mundializado, como modo de produção excludente, sua financeirização atual e sua cultura. É crime contra a natureza e contra a humanidade que 8 pessoas individualmente, segundo relatório da Oxfam Internacional de 2022, possuam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial. Essa absurda acumulação tolera que se deixem anualmente morrer de fome ou de doenças derivadas da fome, milhares e milhares de crianças. 

É neste contexto, penso, que deve se entender o atual genocídio perpetrado pelo Estado sionista de Benjamin Netanyahu. Estaria inscrito no DNA do paradigma ocidental? Depois da última guerra (1939-1945), construíram-se armas de destruição em massa, a ponto de ter-se criado o princípio de autodestruição. A razão tornou-se totalmente irracional. A marcha da irracionalidade está tomando conta do curso do mundo para além do que está ocorrendo entre Israel e a Faixa de Gaza. Com lucidez o Papa Francisco em sua encíclica Como cuidar da Casa Comum (Laudato Si’ de 2015) viu no paradigma tecnocrático dominante, a raiz da atual e ameaçadora crise ecológica mundial (n.101s). 

Qual foi a grande errância do paradigma da vontade de poder-dominação? Foi a de colocar exclusivamente todo o peso e todo o valor na razão instrumental-analítica. Recalcou as demais formas de conhecimento, exercidas pela humanidade: a sensibilidade, o amor, a razão simbólica entre outras. Essa exclusão gestou a ditadura da razão. Irrompeu o racionalismo e a demência da razão. Pois, somente uma razão demente pode devastar a Terra, irmã e Mãe que tudo nos dá, a ponto de ela mostrar seus limites intransponíveis. Pior ainda, a razão enlouquecida criou para si os meios de seu completo extermínio. 

Mas qual foi a errância maior? Foi ter recalcado e eliminado a parte mais ancestral e essencial de nossa realidade. Em nome da objetividade do olhar da razão, eliminou a emoção e o coração. Com isso, deslegitimou a nossa dimensão de sensibilidade, nossa capacidade de afetos. É o coração que sente, ama e estabelece laços de cuidado para com os outros e para com a natureza. Não se ouve o pulsar do coração que identifica valores e funda uma ética cordial e humanitária.  

Bem dizia o Papa Francisco em sua primeira viagem à Lampedusa, para onde chegavam os fugitivos da guerra do Oriente Médio ou de África: “o homem moderno perdeu a capacidade de chorar e de sentir o outro como seu semelhante”. Pelo fato de Netanyahu e seu governo não reconhecerem humanidade nos  terroristas do Hamas, decidiu, praticamente, exterminar estes últimos com os meios letais mais modernos. Não chegamos assim ao extremo do paradigma da modernidade? Ela está propensa a deslanchar uma guerra global na qual a humanidade pode desaparecer e grande parte da natureza. 

Como sair desse impasse? Antes de mais nada, precisamos resgatar os direitos do coração. Não basta o logos (a razão)  precisamos também do pathos (o sentimento). Devemos nos encher de veneração face à grandeur do universo e de respeito diante do mistério de cada ser humano, feito irmão e irmã e companheiro/a de aventura terrenal. Não negamos a razão, necessária para dar conta da complexidade das sociedades contemporâneas. Mas recusamos o despotismo da razão.  Esta deve ser enriquecida pela razão sensível e cordial. Mente e coração unidos podem mutuamente se equilibrar e, destarte, evitar as tragédias das guerras e os genocídios de nossa sangrenta história, particularmente, este que, estarrecidos, estamos vivenciando seja na Terra Santa e, em especial, o genocídio cometido na Faixa de Gaza. Que o céu ouça o choro das crianças que sob os escombros perderam pai, mãe, irmãos e irmãs. Fizeram-se sobreviventes da grande tribulação (cf. Apocalipse 7,14) e nos enchem de compaixão. 

Leonardo Boff escreveu Direitos do coração, São Paulo: Paulus, 2015. 

Solidaridad: en un israelí pulsa un corazón palestino

Leonardo Boff*

Estamos en medio de un conflicto profundamente desproporcionada entre Israel y Hamas, con actos de terrorismo en Israel cometidos por un grupo de Hamas el día 7 de octubre y  la consecuente  represalia por parte del gobierno de Israel, dirigida por el sionista Benjamin Netanyahu, tan violenta que ha sido denunciada como un genocidio. Han matado hasta la fecha (30/10) a 3345 niños y niñas, 2060 mujeres y más de ocho mil civiles heridos. Después de  bombardeos de saturación, que arrasaron los centros principales y cientos de viviendas palestinas, el ejército de Israel inició una peligrosa invasión por tierra de la Franja de Gaza. Como es sabido, en estos casos se produce un número incalculable de víctimas en ambos lados. Hay los que desesperan de su fe en un Dios justo y bueno (“Señor, dónde estás? ¿Por qué permites tanta destrucción?”) y en la propia humanidad, ahora negada rotundamente. Ya no se trata de una guerra sino de verdaderos crímines de guerra y un real genoicídio del pueblo palestino.

Así y todo, seguimos creyendo que puede haber una humanidad sorprendente entre palestinos y judíos. Veamos dos testimonios, uno de un palestino y otro de un israelí. El primero fue relatado por el periodista  español  Ferrán Sale en el El País del 7 de junio de 2001 y del segundo doy testimonio yo mismo. 

Este es el primero: Mazen Julani era un farmacéutico palestino de 32 años, padre de tres hijos, que vivía en la parte árabe de Jerusalén. El día 5 de junio de 2001, cuando estaba tomando café con sus amigos en un bar, fue víctima del disparo fatal de un colono judío. Era una venganza contra el grupo palestino Hamás que cuarenta y cinco minutos antes había matado a muchas personas en una discoteca de Tel Aviv en un atentado perpetrado por un hombre-bomba. El proyectil entró por el cuello de Mazen y le destrozó el cerebro. Llevado inmediatamente al hospital israelí Hadassa llegó ya muerto.   

 El clan de los Julani decidió allí mismo en los corredores del hospital, donar todos los órganos del hijo muerto: el corazón, el hígado, los riñones y el páncreas para   trasplantes a enfermos judíos. El jefe del clan aclaró en nombre de todos que este gesto no tenía ninguna connotación política. Era un gesto estrictamente humanitario.   

Según la religión musulmana, decía,   todos formamos una única familia   humana y somos todos iguales, israelíes y palestinos. No importa a quien van a ser trasplantados los órganos, lo esencial es que ayuden a salvar vidas. Por eso, concluía, los órganos serán destinados a nuestros vecinos israelíes.  

 En efecto, se hizo un trasplante. En el israelí Yigal Cohen late ahora un corazón  palestino, el de Mazen Julani.   

A la mujer de Mazen le fue difícil explicar a su hija de cuatro años la muerte de su padre. Solo le dijo que el padre se había ido de viaje muy lejos y que al volver le traería un bonito regalo. A los que estaban cerca les susurró con los ojos   bañados en lágrimas: dentro de algún  tiempo yo y mis hijos iremos a visitar a Ygal Cohen en la parte israelí de Jerusalén. Él vive con el corazón de mi marido y padre de mis hijos. Será un gran consuelo para nosotros acercar el oído al pecho de Ygal y escuchar el  corazón de aquel que tanto nos amó y que, en cierta forma, aún está latiendo.   

Este gesto generoso demuestra que el paraíso no está totalmente perdido. En medio de un ambiente de muy alta tensión y cargado de odios, como está actualmente,   surge una flor de esperanza y de paz. La convicción de que todos somos   miembros de la misma familia humana alimenta actitudes de perdón, de reconciliación y de solidaridad incondicional. En el fondo, aquí irrumpió el amor que supera los límites de  religión, de raza y de ideología política. Tales virtudes nos hacen creer en una posible cultura de la paz.

En la imaginación de uno de los más perspicaces intérpretes de la cultura brasilera, Gilberto Freyre, nuestro ensayo  civilizatorio, no obstante las muchas contradicciones, consistió en haber  creado un pueblo capaz de convivir con  las positividades de cada cultura y con una enorme potencialidad de hacer frente a los conflictos (Casa Grande y Senzala).   

El segundo es de un israelí y  lo   presencié personalmente en Estocolmo con ocasión de la concesión del título The Rigth Livelihood Award, considerado el Nobel Alternativo de la Paz, a   principios de diciembre de 2001 cuando entre otros, yo mismo fui nominado. Uno de los galardonados   impresionó a todos. Fue el testimonio de un alto oficial israelí, encargado de la represión de los palestinos. En un enfrentamiento fue herido. Un palestino lo socorrió rápidamente llevándolo en su jeep al hospital palestino. Lo acompañó   hasta que se recuperó.   

De vuelta a Israel este oficial creó una ONG de diálogo entre israelíes y   palestinos. Tal iniciativa fue considerada como alta traición, y fue llevado ante un tribunal militar, pues se trataba de establecer un diálogo con el enemigo. Pero acabó siendo perdonado, continuó con su diálogo y fue finalmente premiado  por su persistencia en buscar  la paz entre judíos y palestinos.   

Aquí se muestra, una vez más, la   capacidad humana de socorrer a un   herido, que lo reprimía, como el buen  samaritano de la parábola de Jesús.  Reconoció en él a un ser humano que  necesitaba de ayuda urgente.   

Hemos dicho repetidas veces en   nuestras intervenciones que el amor y la solidaridad pertenecen a la esencia del ser humano y están inscritas en nuestro ADN. Por ser así, no podemos desesperar ante la  crueldad y la   barbarie que estamos presenciando en las guerras actuales. Ellas son también una posibilidad de lo negativo de nuestra “condición humana”.  Pero no podemos dejar  que prevalezcan, de lo contrario nos devoraremos unos a otros.  

Estos dos ejemplos son expresión de   nuestra humanidad en un momento de los más sombríos de nuestra historia actual. Ellos nos actualizan el esperanzar, es decir, la invención de las condiciones reales que garantizan el amor y la solidaridad presentes en cada uno de nosotros. Son las que permiten una convivencia pacifica y que, al cabo, nos salvarán.   

*Leonardo Boff ha escrito “Cultura de paz en un mundo en conflicto” en   Virtudes para otro mundo posible, vol. III, Vozes 2006, 73-131, publicado en español por Sal Terrae.

Traducción de María  José  Gavito Milano