Como o patriarcado desmantelou o matriarcado,diabolizando a mulher

É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado mediante um processo de diabolização da mulher. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Paris, Editions Indigo-Côtes Femmes,1997).

Segundo estas duas autoras se realizou a uma espécie de processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16) que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstrui-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

Em quarto lugar, destruí-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará”(Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez”(Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal:”porei inimizade entre ti e a mulher…tu lhe ferirás o calcanhar”Gn 3,15)

A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito( Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido:”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará”(Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou um desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Esta mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal.

Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas e teólogas e outras estão fazendo com expressiva criatividade.E há teólogos que se somam a elas.

Leonardo Boff junto com a feminista Rose Marie Muraro escreveu: Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record 2010.

As Escrituras patriarcais falam do feminino

Fundamentalmente importa reconhecer que a tradição espiritual judaico-cristã vem expressa predominantemente no código patriarcal. O Deus do Primeiro Testamento (AT) é vivido como o Deus dos Pais, Abraão, Isaac e Jacó, e não como o Deus de Sara, de Rebeca e de Miriam. No Segundo Testamento (NT), Deus é Pai de um Filho único que se encarnou na virgem Maria, sobre a qual o Espírito Santo estabeleceu uma morada definitiva, coisa que a teologia nunca deu especial atenção, porque significa a assunção de Maria pelo Espírito Santo e desta forma colocando-a do lado do Diivino. Por isso se professa que é Mãe de Deus.

A Igreja que se derivou da herança de Jesus é dirigida exclusivamente por homens que detém todos os meios de produção simbólica. A mulher foi considerada, por séculos, como não-persona jurídica e até hoje é excluída sistematicamente de todas as decisões do poder religioso. A mulher pode ser mãe de um sacerdote, de um bispo e até de um Papa, mas jamais poderá aceder a funções sacerdotais. O homem, na figura de Jesus de Nazaré, foi divinizado, enquanto, a mulher é mantida, segundo a teologia comum, como simples criatura, embora no caso de Maria, seja feita Mãe de Deus.

Apesar de toda esta concentração masculina e patriarcal, há um texto do Gênesis, verdadeiramente, revolucionário, pois afirma a igualdade dos sexos e sua origem divina. Trata-se do relato sacerdotal (Priesterkodex escrito por volta do século VI-V a.C.). Aí o autor afirma de forma contundente: “Deus criou a humanidade (adam em hebraico que significa os filhos e filhas da Terra, derivado de adamah: terra fértil) à sua imagem e semelhança e criou-os homem e mulher”(Gn 1,27).

Como se depreende, aqui se afirma a igualdade fundamental dos sexos. Ambos lançam sua origem em Deus mesmo. Este só pode ser conhecido pela via da mulher e pela via do homem. Qualquer redução deste equilíbrio, distorce nosso acesso a Deus e desnatura nosso conhecimento do ser humano, homem e mulher.

No Segundo Testamento (NT) encontramos em São Paulo a formulação da igual dignidade dos sexos: “não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”(Gl 3,28). Num outro lugar, diz claramente: “em Cristo não há mulher sem homem nem homem sem mulher; como é verdade que a mulher procede do homem, é também verdade que o homem procede da mulher e tudo vem de Deus”(1Cor 11,12).

Além disso, a mulher não deixou de aparecer ativamente nos textos fundadores. Nem poderia ser diferente, pois sendo o feminino estrutural, ele sempre emerge de uma forma ou de outra. Assim na história de Israel surgiram mulheres politicamente ativas como Miriam, Ester, Judite, Débora ou as anti-heroínas como Dalila e Jezabel. Ana, Sara e Rute serão sempre lembradas honrosamente pelo povo. Inigualável é o idílio, numa linguagem altamente erótica, que cerca o amor entre o homem e a mulher no livro do Cântico dos Cânticos.

A partir do século terceiro a. C. a teologia judaica elaborou uma reflexão sobre a graciosidade da criação e da eleição do povo na figura feminina da divina Sofia (Sabedoria; cf. todo o livro da Sabedoria e os primeiros dez capítulos do livro dos Provérbios). Bem o expressou a conhecida teóloga feminista E. S. Fiorenza, “a divina Sofia é o Deus de Israel na figura da deusa”(As origens cristãs a partir da mulher, São Paulo 1992 p. 167).

Mas o que penetrou no imaginário coletivo da humanidade, de forma devastadora, é o relato anti-feminista da criação de Eva (Gn 1,l8-25) e da queda original (Gn 3,1-19: literariamente o texto é tardio, (por volta do ano 1000 ou 900 a.C). Segundo este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua varoa: e os dois serão uma só carne”(Gn 2,23-25). O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher (ish-ishá) e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi interpretada como superioridade masculina.

O relato da queda é mais contundentemente anti-feminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus”(Gn 3,6-7).

O relato quer etiologicamente mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas articula essa ideia de tal forma que trai o antifeminismo da cultura vigente naquele tempo. No fundo interpretará a mulher como sexo fraco, por isso ela caiu e seduziu o homem. Daí a razão de sua submissão histórica, agora teologicamente (ideologicamente) justificada: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará”(Gn 3,16). Eva será para a cultura patriarcal a grande sedutora e a fonte do mal. No próximo artigo veremos como essa narrativa masculinista distorceu uma anterior, feminista, para reforçar a supremacia do homem..

Jesus inaugura outro tipo de relação para com a mulher, o que veremos também proximamente.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 2005.

90 anos de Dom Pedro Casaldáliga: pobreza e libertação

Ao completar,no dia 16 de fevereiro de 2018, 90 anos queremos homenagear a Dom Pedro Casaldáliga, pastor,profeta e poeta com um texto que, a meu ver, constitui o fio condutor de toda a sua vida de cristão e bispo: a relação que estabeleceu entre a pobreza e a libertação. Viveu e testemunhou com riscos de vida tanto a pobreza como a libertação dos mais oprimidos que são os indígenas e os camponeses, expulsos pelo latifúndio em terras de São elix do Araguaia matogrossenso..so.do aldspirar por Dom Pela internet.ço condutor de toda a sua atividade apFelix do Araguaia matogrossense.

A pobreza é um fato que sempre tem desafiado as práticas humanas e todo tipo de interpretação. O pobre concreto nos desafia tanto que a atitude para com ele acaba por definir nossa situação definitiva diante de Deus. Isso o atestam tanto o Livro dos Mortos do Egito quanto a tradição judaico-cristã que culmina no texto de Mateus 25.

Talvez o mérito maior do bispo Dom Pedro Casaldáliga foi ter tomado absolutamente a sério os desafios que os pobres do mundo inteiro, especialmente da América Latina, nos lançam e sua libertação.

Seguramente vivenciou o seguinte processo: antes de qualquer reflexão ou estratégia de ajuda, a primeira reação é de profunda humanidade: deixar-se comover e encher-se de compaixão. Como deixar de atender sua súplica nem entender a linguagem de suas mãos suplicantes? Quando a pobreza aparece como miséria, irrompe em todas as pessoas sensíveis como em Dom Pedro também o sentimento de indignação e de iracúndia sagrada como se nota claramente em seus textos proféticos, especialmente, contra o sistema capitalista e imperial que produz continuamente pobreza e miséria.

O amor e a indignação estão na base das práticas que visam abolir ou minorar a pobreza. Só está efetivamente do lado do pobre quem, antes de tudo, o ama profundamente e não aceita sua situação desumana. E Dom Pedro testemunhou esse amor incondicional.

Mas somos também realistas como nos adverte o livro do Deuteronônio:”Nunca faltarão pobres na terra. Por isso te faço esta recomendação: abre, abre a mão a teu irmão, ao pobre e ao necessitado que estiver na tua terra”(15,11). Da Igreja das origens em Jerusalém se diz como louvor: “Não havia pobres entre eles”(At 4,34) porque colocavam tudo em comum.

Estes sentimentos de compaixão e de indignação fizeram que Dom Pedro deixasse a Espanha, fosse depois à Africa e, por fim, desembarcasse não simplesmente no Brasil, mas no interior do país, onde padecem camponeses e indígenas sob a voracidade do capital nacional e internacional.

  1. Leituras do escândalo da pobreza

Em função de uma compreensão mais adequada da anti-realidade da pobreza convem fazer algumas aclarações. Elas nos ajudarão a qualificar nossa presença efetiva junto aos pobres.Três compreensões de pobre circulam ainda hoje no debate.

A primeira, tradicional, entende o pobre como aquele que não tem. Não tem meios de vida, não tem renda suficiente, não tem casa, numa palavra, não tem haveres. Sobrevive no sub-emprego e com baixos salários. Quem está no sistema imperante os considera como zeros econômicos, óleo queimado, sobrantes. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem. Em nome disso se organizou, por séculos, vasta assistência. E uma política beneficiente mas não participativa. Mantém os pobres dependentes. Não descobriu ainda seu poencial transformador.

A segunda, progressista, descobriu o potencial dos pobres e percebeu que este não é utilizado. Pela educação e pela professionalização é qualificado e potenciado. Assim os pobres são inseridos no processo produtivo. Reforçam o sistema, se fazem consumidores, embora em menor escala e ajudam a perpetuar as relações sociais injustas que continuam produzindo pobres. Atribui-se ao Estado a principal tarefa de criar postos de trabalho para esses pobres sociais. A sociedade moderna, liberal e progressista incorporou esta visão.

A leitura tradicional vê o pobre mas não percebeu seu caráter coletivo. A progressista, descobriu-lhe o caráter coletivo mas não apreendeu seu caráter conflitivo. Analiticamente considerado, o pobre é resultado de mecanismos de exploração que o fazem empobrecido, gerando assim grave conflito social. Mostrar tais mecanismos foi e continua sendo o mérito histórico de Karl Marx. Previamente à integração do pobre no processo produtivo vigente, dever-se-ia fazer uma crítica do tipo de sociedade que sempre produz e reproduz pobres e excluidos.

A terceira posição é a libertadora. Ela afirma: os pobres têm sim potencialidades. Não apenas para engrossarem a força de trabalho e reforçarem o sistema, mas principalmente para o transformarem em sua mecânica e em sua lógica. Os pobres, conscientizados, organizados por eles mesmos e articulados com outros aliados, podem ser construtores de um outro tipo de sociedade. Podem não apenas projetar mas pôr em marcha a construção de uma democracia participativa, econômica e ecológico-social. A universalização e a plenitude desta democracia sem fim se chama socialismo. Esta perspectiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é verdadeiramente libertadora porque faz do oprimido o principal sujeito de sua libertação e o forjador de um projeto alternativo de sociedade.

A teologia da libertação assumiu esta letura de pobre. Traduziu-a pela opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da vida e da liberdade. Fazer-se pobre por amor a eles e em solidariedade para com suas lutas, significa um compromisso contra a pobreza material, econômica, política, cultural e religiosa. O oposto a esta pobreza não é a riqueza, mas a justiça e a equidade.

Esta última perspectiva foi e é testemunhada e praticada por Dom Pedro Casaldáliga em toda a sua atividade pastoral. Com risco de vida, apoiou os camponeses expulsos pelos grandes latifundiários. Junto com as Irmãzinhas de Jesus do Pe. Foucauld, colaborou no resgate biológico dos tapirapés, ameaçados de extinção. Não há movimento social e popular que não tenha sido apoiado por este pastor de excepcional qualidade humana e espiritual.

  1. A outra pobreza: a evangélica e essencial

Há ainda duas dimensões da pobreza que estão presentes na saga de Dom Pedro: a pobreza essencial e a pobreza evangélica.

A pobreza essencial resulta de nossa condição de criaturas. Ela possui, portanto, uma base ontológica, que independe de nossa vontade. Parte do fato de que não nos demos a existência. Existimos dependendo de um prato de comida, de um pouco de água e das condições ecológicas da Terra. Somos pobres neste sentido radical. A Terra não é nossa, nem a criamos. Somos hóspedes nela e passageiros de uma viagem que vai além dela. Mais ainda. Humanamente dependemos de pessoas que nos acolhem e que convivem conosco com os altos e baixos, próprios da condição humana. Somos todos interdependentes. Ninguém vive para si e em si. Estamos sempre enredados numa teia de relações que garantem nossa vida material, psicológica e espiritual. Por isso somos pobres e dependentes uns dos outros.

Acolher esta condition humaine nos torna humildes e humanos. A arrogância e a excessiva auto-afirmação não têm aqui lugar porque não possuem base que as sustenta. Esta situação nos convida a sermos generosos. Se recebemos o ser de outros, devemos também doá-lo aos demais. Esta dependência essencial nos torna também gratos a Deus, ao universo, à Terra e às pessoas que nos aceitam assim como somos. É a pobreza essencial. Esse tipo de pobreza tornou a Dom Pedro um bispo místico, agradecido por todas as coisas.

Existe ainda a pobreza evangélica, proclamada por Jesus como uma das beamaventuranças. Na versão de São Mateus se diz:”bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus”(5,3). Este tipo de pobreza não está diretamente vinculada ao ter ou não ter. Mas a um modo de ser, a uma atitude que poderíamos traduzir por infância espiritual. Pobreza aqui é sinônimo de humildade, desprendimento, vazio interior, renúncia a toda vontade de poder e de auto-afirmação. Implica a capacidade de esvaziar-se para acolher Deus, implica também o reconhecimento da nadidade da criatura diante da riqueza do amor de Deus que se comunica gratuitamente. O oposto à esta pobreza é o orgulho, a fanfarronice, a inflação do eu e o fechamento diante dos outros e de Deus.

Esta pobreza signficou a experiência espiritual do Jesus histórico. Ele não somente era pobre materialmente e assumiu a causa dos pobres, mas também se fez pobre em espírito, pois “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo; apresentando-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte de cruz”(Flp 2,7-9). Esta pobreza é o caminho do evangelho, por isso se chama também de pobreza evangélica, sugerida por São Paulo:”tende os mesmos sentimentos que Cristo teve”(Flp 2,5).

O profeta Sofonias testemunha esta probreza de espírito quando escreve:”Naquele dia, não serás confundida, filha de Sion, por causa de todos os pecados que cometeram contra mim, jactanciosos e arrogantes; não te orgulharás mais no meu santo monte. Deixarei subsistir no meio de ti um povo pobre, humilde e modesto que porá sua confiança no nome do Senhor”(2,11-12).

Esta pobreza evangélica e infância espiritual constituem uma das irradiações mais visíveis e convincentes da personalidade de Dom Pedro Casaldáliga. Ela aparece no seu modo pobre mas sempre limpo de se vestir, na sua linguagem inundada de humor mesmo quando se faz crítico contundente dos desvarios da globalização econômico-financeira e da prepotência neoliberal ou profeticamente denuncia as visões medíocres do governo central da Igreja face aos desafios dos condenados da Terra e das questões que concernem a toda a humanidade. Essa atitude de pobreza se manifesta exemplarmente quando nos encontros com cristãos das bases, geralmente pobres, se coloca no meio deles, escuta atentamente o que dizem, quando se senta aos pés de conferencistas, seja teólogos, sociólogos ou portadores de outro saber qualificado para escutá-los, anotar seus pensamentos e humildemente formular questões. Esta abertura revela um esvaziamento interior que o torna capaz de continuamente aprender e fazer suas sábias ponderações sobre os caminhos da Igreja, da América Latina, do Brasil e do mundo. Vemos esta atitude nos twitters que quase cada dia envia pela internet.

Quando os atuais tempos perturbados tiverem passado, quando as desconfianças e mesquinharias tiverem sido engulidas pela voragem do   tempo, quando olharmos para trás e considerarmos os últimos decênios do século XX e os inícios do século XXI identificaremos uma estrela no céu de nossa fé, rutilante, após ter varado nuvens, suportado obscuridades e vencido tempestades: é a figura simples, pobre, humilde, espiritual e santa de um bispo que, estrangeiro, se fez compatriota, distante se fez próximo e próximo se fez irmão de todos, irmão universal: o nonagenário Dom Pedro Casaldáliga.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor que se deixou fascinar e inspirar por Dom Pedro Casaldáliga

 

In principio era il femminile

Il presente testo vuol essere un piccolo contributo al dibattito sul femminile, profondamente distorto dalla cultura patriarcale dominante. E tanto per cominciare, affermiamo fin da adesso che il femminile è venuto prima. Vediamo come è nato nel processo di sesso-genesi. Varie sono state le tappe.

La vita esisteva sulla Terra già 3,8 miliardi di anni fa. L’antenato comune di tutti i viventi è stato probabilmente un batterio unicellulare senza nucleo che si moltiplicava per divisione interna, a una velocità spaventosa. Questo durò circa un miliardo di anni.

Due miliardi di anni fa, nasceva una cellula con membrana e due nuclei, dentro i quali si trovavano i cromosomi. In questa si identifica l’origine del sesso. Quando avveniva lo scambio di nuclei tra due cellule binucleate, si generava un unico nucleo, con cromosomi appaiati. Prima, erano le cellule che si suddividevano, adesso avviene lo scambio tra due cellule differenti e i loro nuclei. La cellula si riproduce sessualmente a partire dall’incontro con un’altra cellula. Avviene cosi la simbiosi – composizione di differenti elementi – che insieme con la selezione naturale rappresenta la forza più importante dell’evoluzione. Tale fatto ha delle conseguenze filosofiche: la vita è intessuta più di scambi, di cooperazione e simbiosi che di lotta competitiva per la
sopravvivenza.

Nei primi due miliardi di anni, negli oceani, da dove la vita aveva fatto irruzione in terra ferma, non esistevano organi sessuali specifici, ma solo un’esistenza femminile generalizzata che nel grande utero degli oceani, dei laghi e dei fiumi generava vita. In questo senso possiamo dire che il principio femminile è stato primo e originario.

Soltanto quando esseri vivi lasciarono il mare, lentamente nacque il pene, qualcosa di maschile, che toccando la cellula passava ad essa parte del suo DNA, dove stanno i geni.

Circa 370 milioni di anni fa con l’apparizione dei vertebrati (come i rettili) questi misero in essere l’uovo amniotico pieno di nutrienti e consolidarono la vita sulla terra ferma. Con l’apparizione dei mammiferi, circa 125 milioni di anni fa nasceva ormai una sessualità definita in termini di maschio e femmina. E’ qui che compaiono i comportamenti di cura, di amore e difesa della prole. Circa 70 milioni di anni fa apparve il nostro antenato mammifero che viveva tra il fogliame degli alberi, nutrendosi di gemme e fiori. Con la scomparsa dei dinosauri, 67 milioni di anni fa poterono scendere al suolo e svilupparsi fino ai nostri giorni.

C’è anche il sesso genetico-cellulare umano che presenta il quadro seguente: la donna si caratterizza per 22 paia di cromosomi somatici più due cromosomi X (XX). Quello dell’uomo consta pure di 22 paia di cromosomi ma appena un cromosoma X (XY). Da qui si capisce che il sesso base è femminile (XX) essendo che quello maschile (XY) rappresenta una derivazione sua per un unico cromosoma (Y). Pertanto non c’è un sesso assoluto, ma solo uno dominante. In ciascuno di noi uomini e donne “esiste un secondo sesso”.

Ancora. In riferimento al sesso gonadico è importante notare che nelle prime settimane, l’embrione si presenta come androgino, vale a dire che possiede tutte e due le possibilità sessuali, femminile o maschile. A partire dall’ottava settimana, se un cromosoma maschile Y penetra nell’uovo femminile durante la fecondazione, mediante l’ormone androgeno la definizione sessuale sarà maschile.

Se non succede niente, prevale la base comune femminile. In termini di sesso gonadico possiamo dire che il cammino femminile è primordiale. A partire dal femminile avviene la differenziazione, il che non autorizza il fantasioso “principio di Adamo”. La rotta del maschile è una modificazione della matrice femminile, a causa della secrezione dell’androgeno attraverso i testicoli.

In fine esiste il sesso ormonale. Tutte le ghiandole sessuali nell’uomo e nella donna sono governate dall’ipofisi, sessualmente neutra e dall’ipotalamo che è sessuato. Queste ghiandole secernono nell’ uomo e nella donna i due ormoni: androgeno (maschile) e estrogeno (femminile). Sono responsabili per le caratteristiche secondarie della sessualità. La predominanza di uno o dell’altro ormone produrrà una configurazione e un comportamento con caratteristiche femminili o maschili. Se nell’uomo c’è un impregnazione maggiore di estrogeno, avrà alcuni tratti femminili; la stessa cosa succede in riferimento all’androgeno.

È opportuno notare che la sessualità possiede una dimensione ontologica. L’essere umano non possiede sesso. E’ sessuato in tutte le sue dimensioni corporali, mentali e spirituali. Fino all’emersione della sessualità, il mondo è degli stessi e degli identici. Con la sessualità emerge la differenziazione per lo scambio tra differenti.

Sono differenti per poter inter-relazionarsi e stabilire legami di convivenza. E’ quel che avviene con la sessualità umana: ognuno, oltre la forza istintiva che sente dentro di sé, sente pure la necessità di canalizzare tale forza. Vuole amare e essere amato, non per imposizioni ma per libertà. La sessualità sboccia nell’amore, la forza più importante “che muove il cielo e le stelle” (Dante) e anche i nostri cuori. E’ la suprema realizzazione che l’essere umano può desiderare. Ma, attenzione: il femminile è venuto prima, è la base.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato