DESATANIZAR A SATÃ OU O DIABO

Nestes tempos de campanha política e presidencial não é raro um candidato  satanizar seu adversário. Faz-se inclusive uma divisão  esdrúxula entre quem é da parte de Deus e quem é da parte do Diabo ou de Satã.

Esse termo Satã (em hebraico) ou Diabo (em latim) ganhou muitos significados, positivos e negativos, ao longo da história. Isso ocorre em muitas religiões especialmente nas abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo.

No entanto, devemos dizer que ninguém sofreu tantas injustiças e foi tão “satanizado” como o próprio Satã. No inicio não foi assim. Por esta razão é importante fazer brevemente a história de Satã ou do Diabo.

Ele é contado entre os “filhos de Deus” como os demais anjos, como se diz no livro de Jó (1,6). Está na corte celeste. Portanto, é um ser de bondade. Não é a figura má que ganhará mais tarde. Mas recebeu de Deus uma tarefa inusitada e ingrata: deve pôr à prova as pessoas boas como Jó que é “um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado mal”(Jó 1,8). Deve submetê-lo a todo o tipo de provas para ver se, de fato, é aquilo que todos dizem dele:”não há outro igual na terra”(Jo 1,8). Como prova promovida por Satã, ele perde tudo, a família, os bens e os amigos.Mas não perde a fé.

Houve uma grande mutação a partir do século VI aC, quando os judeus viveram no cativeiro babilônico (587aC) na Pérsia. Lá se confrontaram com a doutrina de Zoroastro que estabelecia o confronto entre o “príncipe da luz”com o “príncipe das trevas”. Eles incorporaram esta visão dualista e maniqueísta. Deu-se origem ao Satã como da parte reino das trevas, o “grande acusador” ou “adversário” que induz os seres humanos a atos de maldade. Em seguida, produz-se o confronto entre Deus e Satã. Nos textos judaicos tardios, do século II as, especialmente no livro  de Honoch, elabora-se a saga da revolta de anjos chefiados por Satã, agora chamado de Lúcifer, contra Deus. Narra-se a queda de Lucifer e cerca de um terço dos anjos que aderiram e acabaram expulsos do céu.

Surge então a questão: onde colocá-los se foram expulsos? Ai valeu-se da categoria do inferno: do fogo ardente e de todos os horrores,bem descritos por Dante Alighieri na segunda parte de sua Divina Comédia dedicada ao inferno.

No Primeiro Testamento (o Antigo) quase não se fala do diabo (cf.Cron 21,1;Samuel 24,1). No Segundo Testamento (Novo) aparece em alguns relatos”…serão lançados no fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes”(Mt 8,12;13,42-50;Lc 13,27) ou na parábola do rico epulão e o pobre Lázaro (Lc 16,23-24) ou no Apocalipse (16,10-11).

Essa compreensão foi assumida pelos teólogos antigos, de modo especial por Santo Agostinho. Ele influenciou toda a tradição das Igrejas, a doutrina dos Papas e chegou até hoje.

A categoria do inferno e da condenação eterna foi determinante na conversão dos povos originários na América Latina e de outros lugares de missão, produzindo medo e pânico. Seus antepassados, dizia-se, pelo fato de não terem sido cristãos, estão no inferno. E argumentava-se que se eles não se convertessem e não se deixassem batizar conheceriam o mesmo destino.Isso está em todos os catecismos que foram logo após a conquista elaborados com os quais se pretendia converter astecas, incas, mais e outros. Foi o medo, outrora levou e ainda hoje,leva à conversão de multidões como o mostrou o grande historiador francês Jean Delumeau. É apelando ao Diabo, a Satã que hoje em tempos de ira e ódio social, se procura desqualificar o adversário, não raro, feito inimigo a ser desmoralizado e,eventualmente,liquidado.

Aqui devemos superar todo o fundamentalismo do texto bíblico. Não basta citar textos sobre o inferno, mesmo na boca de Jesus. Devemos saber interpretá-los para não cairmos em contradição com o conceito de Deus e mesmo destruir a boa-nova de Jesus,do Pai cheio de misericórdia, como o pai do filho pródigo que acolhe o filho perdido(Lc 15,11-23).

Em primeiro lugar o ser humano busca uma razão pelo mal no mundo. Tem grande dificuldade de assumir a sua própria responsabilidade. Então transfere-a ao Demônio ou aos demônios.

Em segunfo lugar, o significado dos demônios e do inferno dos horrores representam uma pedagogia do medo para, pelo medo, fazer as pessoas buscarem o caminho do bem. Demônio e inferno, portanto, são criações humanas, um espécie de pedagogia sinistra, como ainda mães fazem às crianças:”Se não se comportar direito, de noite,vem o lobo mau morder seu pé”. O ser humano pode ser o Satã da terra e da sociedade. Ele pode criar o “inferno”aos outros pelo ódio, pela opressão e pelos mecanismos de morte, como infelizmente está ocorrendo em nossa sociedade.

Em terceiro lugar, Satã ou o Diabo é uma criatura de Deus. Dizer que é uma criatura de Deus, significa que, em cada momento, Deus está criando e recriando esta criatura, mesmo no fogo do inferno.Pode Deus que é amor e bondade infinita se propor a isso? Bem diz o livro da Sabedoria:”Sim, tu amas todos os seres e nada detestas do que fizeste; se odiasses alguma coisa não a terias criado; e como poderia subsistir alguma coisa se não a quisesses…a todos poupas porque te pertencem, oh soberano amante da vida”(Sab 11,24-26). O Papa Francisco o disse claramente:”não existe condenação eterna; ela é só para este mundo”.

Em quarto lugar, a grande mensagem de Jesus é a infinita misericórdia de Deus-Abba (paizinho querido) que ama a todos, também os “ingratos e maus” (Lc 6,35). A afirmação do castigo eterno no inferno destrói diretamente a boa-nova de Jesus.Um Deus castigador é incompatível com o Jesus histórico que anunciou a infinita amorosidade de Deus para com todos,também para com os pecadores. O salmo 103 já havia intuído isso:”O  Senhor é compassivo e clemente, lento para a cólera e rico em misericórdia. Não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre.Não nos trata segundo nossos pecados…como pai sente compaixão pelos seus filhos e filhas, assim o Senhor se compadecerá com os que o amam,porque ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó…A misericórdia do Senhor é desde sempre para sempre”(103,8-17). Deus não pode nunca perder nenhuma criatura, por mais perversa que seja. Se ele a perdesse,  mesmo que seja uma só, ele teria fracassado em seu amor. Ora, isso não pode acontecer.

Bem  disse o Papa Francisco que incansavelmente prega a misericórdia:”A misericórdia sempre será maior que qualquer pecado e ninguém poderá pôr limites ao amor do Deus que perdoa”(Misericordiae vultus, 2)

Isso não significa que se entrará no céu de qualquer maneira. Todos passarão pelo juízo e pela clínica de Deus, para lá purificar-se, reconhecer seus pecados, aprender a amar e finalmente entrar no Reino da Trindade. É o purgatório que não é a ante-sala do inferno, mas a ante-sala do céu. Quem está lá se purificando já participa do mundo dos redimidos.

O inferno e os demônios e o principal deles, Satã, são projeções nossas da maldade que existe na história ou que nós mesmos produzimos e das quais não queremos nos resonsabilizar e as projetamos nestas figuras sinistras.

Temos que libertar-nos, finalmente, de tais projeções, para vivermos a alegria da mensagem de salvação universal de Jesus Cristo. Isso deslegitima toda satanização em qualquer situação,especialmente, em política  e nas igrejas pentecostais que usam de forma totalmente exorbitante a figura do demônio e do inferno. Antes assusta os fiéis do que os conforta com o amor e a infinita misericórdia de Deus.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu: Vida para além da morte, Vozes,muitas edições 2021.

Tensão na reta final. E o day after?

Publicamos este texto analítico de Jean Marc, com os vários cenários possíveis face à eleição no dia 30 de outubro e nos tempos subsequentes. Vale estar atentos, pois se trata de nossa sobrevivência como nação civilizada e sem os ódios e mentiras que marcaram o governo atual. LBoff

Jean Marc von der Weid, 13 de outubro de 2022

Não devemos nos deixar levar pela emoção das multidões de vermelho enchendo as ruas e praças. Lembra meu saudoso amigo Sérgio Ricardo: “a praça é do povo, como o céu é do condor…”, cantava ele e o povo vem correspondendo. Porém, não posso deixar de lembrar que, como em muitas eleições que acompanhei desde a de Jânio Quadros em 1960, comício e passeata não ganham eleição. O exemplo mais espetacular de que me lembro foi a derrota do Frente Amplio no Uruguai em 1968, depois de levar um milhão de pessoas a um comício em Montevideo na véspera do pleito. Com um eleitorado que se contava em uns 3 milhões todos os comentaristas, de direita e de esquerda, davam o jogo por jogado. Quando as urnas se abriram o FA obteve 1,3 milhão de votos. Quase todos os seus votos estavam na manifestação.

Manifestações são importantíssimas e Lula deve insistir em promovê-las, mas não podemos descuidar da conquista voto a voto, trabalho miúdo e diário, no corpo a corpo, na mensagem individualizada, com argumentos específicos para cada caso. Só assim o nariz de Lula vai chegar na frente da carantonha de Bolsonaro no Foto Chart final destas eleições. É isso ou a surpresa dos chamados “movimentos subterrâneos”, não detectados pelas pesquisas eleitorais. A decisão vai depender de detalhes, de passos em falso de uma ou de outra campanha.

Bolsonaro deu alguns passos em falso neste segundo turno.

O primeiro foi o insulto aos nordestinos logo depois dos resultados do segundo turno. Ao desqualificar os nordestinos, que ele já havia insultado mais de uma vez ao longo de sua vida política, antes e depois de ser eleito em 2018, Bolsonaro deu o combustível para um incêndio de protestos que se alastraram na região. Mais ainda, sabendo-se que há muitíssimos nordestinos no Sudeste, sem falar nos seus descendentes, o impacto do mau passo pode ser fatal.

O segundo erro foram os insultos à devoção dos católicos, primeiro no “Sírio” de Nazaré (deve ser um santo novo, talvez nascido em Damasco) e agora no dia da padroeira, Nossa Senhora Aparecida. As tentativas de exploração política da fé foram explícitas e, frente ao fracasso em Aparecida, gerou as agressões dos seus falsos romeiros, bêbados, à fiéis e à imprensa. Bolsonaro foi sobriamente, mas decididamente, rechaçado por padres e bispos e pela multidão que lá estava para pedir bençãos. E pela CNBB em nota nacional. Com isso ele deve voltar para o seu público evangélico cativo, que nunca se chocou com um pastor, hoje propagandista de primeira linha do presidente, chutando a imagem da santa em programa televisado anos atrás. Mas mesmo este eleitorado deve estar com a pulga atras da orelha ao ver Bolsonaro fingir devoção à imagem da santa, o que o protestantismo não reconhece. Como dizia o pastor que chutou a estátua da Virgem na TV, aquilo era apenas um pedaço de madeira. Expliquem isso para os romeiros.

Para este público, que promete a ele o dobro de votos do que os dados ao Lula, segundo as pesquisas, seus asseclas andaram dando perigosas pisadas na bola. A seção de horrores explícitos, dignos da imaginação do marquês de Sade, encenada por Damares e pela primeira-dama em uma igreja da Assembleia de Deus em Goiânia, virou um tiro no pé. As denúncias estão demonstradas como mentiras deslavadas pelas próprias declarações de Damares. Ela anunciou ter provas (vídeos) dos horrores sexuais perpetrados com crianças e que ela descreveu com requinte de detalhes escatológicos na presença de crianças. Confrontada com a ausência destas provas no material que o seu ex-ministério entregou, Damares titubeou e acabou balbuciando que tinha “ouvido estas coisas nas ruas”. E os vídeos que ela disse ter visto? Vai pegar processo, sem dúvida, e pode até perder o seu mandato, antes dele começar. Ou perderia se a justiça funcionasse no Brasil. Segundo averiguado pela Globo News, esta história faz parte de um cardápio de mentiras usadas pela extrema direita americana, o grupo QAnon, para atacar todos os seus adversários, e difundido pela direita organizada internacionalmente por Steve Bannon, ex-chefe de campanha de Trump em 2016.

A reação da pastora da igreja usada por Damares e Michelle para seu circo de horrores foi imediata e o vídeo em que ela denuncia a operação da campanha Bolsonaro viralizou. Com um discurso voltado para a fé cristã ela rejeitou o terrorismo “religioso” e a exploração política dos crentes. Quem sabe ela consiga furar a muralha de fanatismo produzida pelos pastores, hoje mais fiéis a Bolsonaro do que ao Cristo. A pressão destes personagens sobre seus rebanhos chegou a um nível próprio de países sob controle de um governo islâmico. Ameaças de exclusão das igrejas e das chamas do inferno estão gerando medo entre as ovelhas que vacilam em se deixar tosquiar por Bolsonaro. Obreiros e obreiras são mobilizados como cabos eleitorais agressivos que visitam os fiéis em suas casas levando a propaganda e fazendo ameaças, até físicas. Pregações inflamadas nos cultos esquecem os temas religiosos para centrar no discurso mentiroso contra Lula, o grande satã, o aborteiro, o amigo dos bandidos, o que vai fechar as igrejas, além de outras barbaridades. Vai ser difícil, com todo este enquadramento, o povo pentecostal se livrar do fanatismo e do medo. Mas acredito que o passo em falso de Damares e a reação da pastora goiana podem gerar um movimento silencioso de reação.

Bolsonaro está nas cordas e as pesquisas continuam dando Lula com 4 a 8 pontos de vantagem em votos válidos. Até a sua empresa de pesquisas de estimação, a Paraná, ainda aponta para vantagem de 3,8% (a menor entre todas as dezenas de pesquisas) para Lula. Mas as pesquisas erraram no primeiro turno, ou não captaram uma virada de última hora a favor de Bolsonaro. Será que a história vai se repetir neste turno? Há um dado das mesmas pesquisas que preocupa muito. A rejeição de Bolsonaro está caindo e a de Lula subindo e agora eles estão empatados no limite da margem de erro, 50 a 46%. Se esta tendencia continuar até o dia 30 eles chegam empatados no quesito rejeição na boca da urna.

Neste caso, tudo vai depender de fatores como a abstenção, o crescimento de Lula no Nordeste e, ponto muito importante, a declarada ofensiva final do bolsonarismo nas seções eleitorais. Bolsonaro está convocando seus fanáticos para comparecerem em massa e permanecerem nos locais até sair o resultado. Para que? A ordem para cercar as seções indica que vai haver intimidação dos eleitores de Lula. A ordem de permanência indica que Bolsonaro vai usar esta massa disponível para provocar tumultos no caso dos dados não o favorecerem. Podemos esperar um dia de votação extremamente tenso em todo o país.

Isto me leva de volta à análise da aplicação da estratégia que eu chamei de “bola ou búlica”, em artigo divulgado meses atrás. Bolsonaro não deixou um momento de excitar suas falanges fanáticas contra o TSE e o STF. Atacou as pesquisas porque não o mostravam em primeiro lugar. Usou as forças armadas, ou melhor, usou o Ministério da Defesa para tentar levantar dúvidas sobre a lisura e segurança das urnas eletrônicas.

Neste momento estamos com uma situação insólita. O TSE engoliu todas as exigências esdrúxulas do Ministro da Defesa e o exército fez uma série de testes paralelos aos já ordinariamente utilizados pelo próprio TSE e por entidades que acompanham o processo eleitoral. Todas as outras entidades envolvidas nos testes de segurança já confirmaram que tudo se passou corretamente, mas o Ministério da Defesa, a pedido de Bolsonaro, declara que só vai apresentar o seu diagnóstico depois do segundo turno. Em off, jornalistas de respeito ouviram generais da ativa e apontaram para um desconforto com a postura do MD, já que as investigações e testes dos militares não teriam encontrado absolutamente nada de imperfeito em todo o processo. Segurar a informação só tem sentido para manter o clima de questionamento da lisura das eleições, para o caso de derrota nas urnas. É um jogo perigosíssimo para Bolsonaro, pois ele terá que questionar os resultados sem poder usar o relatório do MD, a não ser que fabriquem um falso. E isto depois de ter aceitado o resultado do primeiro turno. Será que Bolsonaro confia em sua capacidade de gerar um tal estado de confusão no país que a questão do relatório vai ser um senão, uma interrogação para a história futura?

As ordens de combate da tropa bolsominion vão no sentido de buscar um enfrentamento imediato, no dia e hora da proclamação dos resultados pelo TSE. Mas se os seus eleitores mais fanáticos cumprirem à risca as ordens o que pode acontecer? Ocupar as seções eleitorais não muda o resultado. Pode dar lugar a um movimento de revolta ludista (não é lulista, não, refere-se ao movimento dos artesãos nos inícios da revolução industrial, quebrando as máquinas que substituíam seu trabalho) com a destruição de urnas eletrônicas. Este movimento pode até levar a quebra-quebras nas seções ou no seu entorno. Muito barulho, mas pouco efeito do ponto de vista de ameaças golpistas. Não são estes bandos de vândalos que ameaçarão as instituições.

A pergunta essencial é: o que vão fazer os militares? Para começar, o que vão fazer os generais do Alto Comando do exército? Dias antes do primeiro turno uma matéria da Folha de São Paulo revelou que a maioria dos 16 generais do Alto Comando endossavam o princípio de “quem ganhar, leva”. A matéria foi desmentida pelo MD, enfaticamente, qualificando-a de Fake News. Os generais, como era de se esperar, fingiram-se de mortos. Mas os autores da matéria e o próprio jornal mantiveram suas posições e asseguraram a veracidade do que foi publicado.

Este episódio serviu para desarmar todos os que achávamos que um golpe era algo a se esperar no quadro eleitoral brasileiro. A realização das eleições em primeiro turno e a aceitação dos resultados por Bolsonaro pareceu afastar, definitivamente, o fantasma da ameaça de golpe. Na verdade, a “aceitação” dos resultados não faz parte da estratégia de Bolsonaro. Como ele esperava ganhar no primeiro turno, ele encolheu os ataques e foi pego de surpresa pelos resultados. Adiou o enfrentamento para o segundo turno.

Estes fatos colocam problemas sérios para o após segundo turno. Bolsonaro está arruinando o país para comprar votos. Está chamando os seus fanáticos para constranger eleitores. Está prometendo ataques aos locais de votação para questionar os resultados. Mas ele depende da avaliação do MD para a operação visando a anulação do pleito. A pergunta é: que vai fazer o Alto Comando do exército? Esconder a dita avaliação? Endossar o questionamento dos resultados? Ou, como afirma o artigo da Folha, vai aceitá-lo?

Se a última pergunta for respondida positivamente, Bolsonaro não terá outra opção senão apelar para uma rebelião dos oficiais de nível médio contra os comandos maiores. Este apelo é pouco provável, pelos imensos riscos deste salto no escuro. Ele significa propor uma insurreição que pode levar à sua imediata prisão se os comandos de tropa se mantiverem na obediência devida à hierarquia militar. E se a rebelião tiver apoio, Bolsonaro vai gerar uma crise militar única na nossa história, com risco de uma guerra civil. O desfecho mais provável de uma posição republicana do Alto Comando é Bolsonaro aceitar a derrota e botar a viola no saco e ir comer pão com leite moça no seu condomínio na Barra da Tijuca. E rezar para que a enxurrada de processos pendentes contra ele não chegue a sua conclusão final, que o levaria a ir jogar gamão com Sérgio Cabral em um presidio do Rio de Janeiro.

Estamos diante de duas situações de alto risco. A primeira terá que ser enfrentada por cada um de nós, aceitando bravamente os perigos de ir votar enfrentando a máfia bolsonarista ameaçando-nos fisicamente. A segunda é a decisão do Alto Comando do exército, endossando os atentados bolsonaristas ou tirando o tapete do protoditador.

No interminável rol de riscos de última hora poderemos ver a repetição da jogada político-jurídica operada em Alagoas. A Polícia Federal, com o apoio do STJ, interveio na disputa eleitoral daquele pequeno estado para favorecer Bolsonaro e seus apoiadores locais, Artur Lira como emblema. Como parece estar dando certo, podemos esperar outras operações de mesmo tipo em outros estados, e a reação do STF, como sempre, será depois que os efeitos políticos da ação tenham dado seus resultados.

Tudo indica que estamos por decidir o futuro do país por uma margem muito estreita de votos. Isto é inacreditável para qualquer um que tenha dez mil réis de inteligência, mas este é mundo em que vivemos. O mal está mandando e o bem na defensiva. Lula é, gostemos dele ou não, o último baluarte contra a barbárie nas relações sociais e políticas. O nosso esforço, enquanto brasileiros conscientes, é tentar afastar as trevas que se avolumam e ganhar tempo para redefinirmos que país queremos para nós e nossos filhos e netos. Tempo para reencontrar um espaço de diálogo entre os divergentes. Tempo para encontrar racionalidade na busca de soluções para os nossos imensos problemas sociais, muito agravados pelos quatro anos de promoção da divisão, do ódio, da doença, da miséria e do horror.

As manifestações de rua aquecem os nossos corações, mas esta eleição vai ser decidida no voto dos amigos e parentes iludidos com o monte de mentiras disseminados pela máquina de propaganda de Bolsonaro. O esforço pela vitória da civilização contra a barbárie depende de cada um de nós, na busca de tentar entender as motivações de amigos e parentes que votam no fim do futuro, que se atiram voluntariamente no buraco da destruição.

Vamos sair da bolha e buscar os outros. Escolhamos o caminho da amizade, do amor, da compreensão. Aceitemos as diferenças para tentarmos superá-las. O tempo é curto e a emergência é fatal.

Jean Marc von der Weid

Ex-presidente da UNE (1969/1971)

Fundador da ONF Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 20016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta

“Estamos diante da ameaça de uma extinção e as pessoas nem sequer sabem”:Jeremy Rifkin

24 Abril 2020- IHU

O sociólogo Jeremy Rifkin (Denver, Estados Unidos, 1945), que se define como ativista em favor de uma transformação radical do sistema baseado no petróleo e em outros combustíveis fósseis, há décadas reivindica uma mudança da sociedade industrial para modelos mais sustentáveis. Assessor de governos e corporações de todo o mundo, escreveu mais de vinte livros dedicados a propor fórmulas que garantam nossa sobrevivência no planeta, em equilíbrio com o meio ambiente e também com a nossa própria espécie.

A entrevista é de Juan M. Zafra, publicada por The Conversation, 22-04-2020.

Eis a entrevista.

Qual será o impacto da pandemia da COVID-19 no caminho para a terceira revolução industrial?

A atividade humana gerou essas pandemias porque alteramos o ciclo da água e o ecossistema que mantém o equilíbrio no planeta – Jeremy Rifkin

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Não podemos dizer que isso tenha nos pegado de surpresa. Tudo o que está ocorrendo conosco procede da mudança climática, que vem sendo advertida por pesquisadores e por mim, há tempo. Tivemos outras pandemias, nos últimos anos, e foram lançadas advertências de que algo muito grave poderia ocorrer. A atividade humana gerou essas pandemias porque alteramos o ciclo da água e o ecossistema que mantém o equilíbrio no planeta.

Os desastres naturais – pandemias, incêndios, furacões, inundações… – continuarão porque a temperatura na Terra continua aumentando e porque arruinamos o solo. Há dois fatores que não podemos deixar de considerar: a mudança climática provoca movimentos de população humana e de outras espécies; o segundo é que a vida animal e a humana se aproximam cada dia mais, como consequência da emergência climática e, por isso, seus vírus viajam juntos.

Esta é uma boa oportunidade para extrair lições e atuar em consequência, não acredita?

Nada mais voltará a ser normal. Esta é uma chamada de alarme em todo o planeta. O que cabe agora é construir as infraestruturas que nos permitam viver de uma maneira diferente. Devemos assumir que estamos em uma nova era. Se não fizermos isso, haverá mais pandemias e desastres naturais. Estamos diante da ameaça de uma extinção.

Você trabalha, estará trabalhando nesses dias, com governos e instituições de todo o mundo. Não parece imperar o consenso em relação ao futuro imediato.

A primeira coisa que devemos fazer é ter uma relação diferente com o planeta. Cada comunidade deve se responsabilizar em como estabelecer essa relação em seu âmbito mais próximo. E, sim, temos que empreender a revolução para o Green New Deal global, um modelo digital de zero emissões.

Temos que desenvolver novas atividades, criar novos empregos, para reduzir o risco de novos desastres. A globalização acabou, devemos pensar em termos de ‘glocalização’ – Jeremy Rifkin

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Temos que desenvolver novas atividades, criar novos empregos, para reduzir o risco de novos desastres. A globalização acabou, devemos pensar em termos de glocalização. Esta é a crise de nossa civilização, mas não podemos continuar pensando na globalização como até agora. São necessárias soluções glocais para desenvolver as infraestruturas de energia, comunicações, transportes, logísticas, …

Acredita que durante esta crise, ou até mesmo quando diminuir a tensão, os governos e as empresas tomarão medidas nessa direção?

Não. A Coreia do Sul está combatendo a pandemia com tecnologia. Outros países estão fazendo isso. Contudo, não estamos mudando nosso modo de vida. Necessitamos de uma nova visão, uma visão diferente de futuro, e os líderes nos principais países não têm essa visão. São as novas gerações que, realmente, podem agir.

Você defende uma mudança radical na forma de ser e estar no mundo. Por onde começamos?

Temos que começar com a maneira como organizamos nossa economia, nossa sociedade, nossos governos, mudando a forma de ser neste planeta. A nossa civilização é a dos combustíveis fósseis. Fundamentou-se, durante os últimos 200 anos, na exploração da Terra. O solo havia se mantido intacto até que começamos a escavar os alicerces da terra para o transformar em gás, petróleo e carvão. E pensávamos que a Terra permaneceria sempre ali, intacta.

Criamos uma civilização inteira baseada no uso dos fósseis. Utilizamos tantos recursos que agora estamos recorrendo ao capital da terra, em vez de obter benefícios dela. Estamos usando uma terra e meia, quando só temos uma. Perdemos 60% da superfície do solo do planeta. Desapareceu e demorará milhares de anos para recuperá-lo.

O que diria para aqueles que acreditam que é melhor viver o momento, o aqui e agora, e esperam que no futuro venham outros para consertar isso?

Enfrentamos a sexta extinção e as pessoas nem sequer sabem. Os cientistas dizem que, em oito décadas, metade de todos os habitats e animais da terra vão desaparecer. Esse é o marco em que estamos – Jeremy Rifkin

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Estamos realmente diante de uma mudança climática, mas também a tempo de agir. A mudança climática provocada pelo aquecimento global e as emissões de CO2 altera o ciclo da água da terra. Somos o planeta da água, nosso ecossistema emergiu e evoluiu ao longo de milhares de anos graças à água. O ciclo da água permite viver e se desenvolver.

E aqui está o problema: para cada grau de temperatura que aumenta como consequência das emissões de gases do efeito estufa, a atmosfera absorve 7% a mais de precipitações do solo e este aquecimento as força a cair mais rápidas, mais concentradas e provocando mais catástrofes naturais relacionadas à água. Por exemplo, grandes nevadas no inverno, inundações na primavera por todas as partes do mundo, secas e incêndios em toda a temporada de verão e furacões e tufões no outono, varrendo nossas costas.

As consequências vão se agravando com o tempo.

Enfrentamos a sexta extinção e as pessoas nem sequer sabem. Os cientistas dizem que, em oito décadas, metade de todos os habitats e animais da terra vão desaparecer. Esse é o marco em que estamos, cara a cara com uma extinção em potência da natureza para a qual não estamos preparados.

Qual é a gravidade dessa emergência global? Quanto tempo nos resta?

Não sei. Faço parte desse movimento em favor da mudança, desde os anos 1970, e acredito que passou o tempo que necessitávamos. Nunca voltaremos para onde estávamos, para a boa temperatura, para um clima adequado… A mudança climática estará conosco por milhares e milhares de anos. A pergunta é: como espécie, podemos ser resilientes e nos adaptar a ambientes totalmente diferentes, e que nossos companheiros na terra também possam ter a oportunidade de se adaptar?

Se me pergunta quanto tempo levaremos para mudar para uma economia não poluente, nossos cientistas na cúpula europeia da mudança climática, em 2018, disseram que tínhamos 12 anos. Já é menos o que nos resta para transformar completamente a civilização e começar essa mudança. A Segunda Revolução Industrial, que provocou a mudança climática, está morrendo. E é graças ao baixo custo da energia solar, que é mais rentável que o carvão, o petróleo, o gás e a energia nuclear. Estamos caminhando para uma Terceira Revolução Industrial.

É possível uma mudança de tendência global, sem os Estados Unidos do nosso lado?

A União Europeia e a China se uniram para trabalhar conjuntamente e os Estados Unidos estão avançando porque os estados desenvolvem as infraestruturas necessárias para isso. Não esqueçam que somos uma república federal. O governo federal apenas cria os códigos, as regulamentações, as normas, os incentivos. Na Europa, acontece o mesmo: seus estados-membros criam as infraestruturas. O que acontece nos Estados Unidos é que prestamos muita atenção no senhor Trump, mas, dos 50 estados, 29 desenvolvem planos para o desenvolvimento de energias renováveis e estão integrando a energia solar.

No ano passado, na conferência europeia pela emergência climática, as cidades estadunidenses declararam uma emergência climática e, agora, estão lançando seu Green New Deal. Estão ocorrendo muitas mudanças nos Estados Unidos. Se tivéssemos uma Casa Branca diferente seria genial, mas, mesmo assim, essa Terceira Revolução Industrial está emergindo na União Europeia e na China e começou na Califórnia, no estado de Nova York e em parte do Texas.

Quais são os componentes básicos dessas mudanças tão relevantes, em diferentes regiões do mundo?

A nova Revolução Industrial traz consigo novos meios de comunicação, energia, meios de transporte e logística. A revolução comunicativa é a Internet, assim como foram a imprensa e o telégrafo na Primeira Revolução Industrial, no século XIX, no Reino Unido, ou o telefone, a rádio e a televisão na segunda revolução, no século XX, nos Estados Unidos. Hoje, temos mais de 4 bilhões de pessoas conectadas e logo teremos todos os seres humanos em comunicação pela Internet. O mundo todo agora está conectado.

Em um período como o que vivemos, as tecnologias nos permitem integrar um grande número de pessoas em um novo marco de relações econômicas. A Internet do conhecimento se ajusta com a Internet da energia e com a Internet da mobilidade. Estas três criam a infraestrutura da Terceira Revolução Industrial. Essas três convergirão e se desenvolverão sobre uma infraestrutura de Internet das coisas, que reconfigurará a forma como se administra toda a atividade no século XXI.

As grandes companhias desaparecerão. Algumas delas continuarão, mas terão que trabalhar com pequenas e médias empresas, com quem estarão conectadas pelo mundo todo – Jeremy Rifkin

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Que papel desempenhará os novos agentes econômicos na formação desse novo modelo econômico e social?

Estamos criando uma nova era chamada glocalização. A tecnologia zero emissões desta terceira revolução será tão barata que nos permitirá criar nossas próprias cooperativas e nossos próprios negócios, tanto física como virtualmente. As grandes companhias desaparecerão. Algumas delas continuarão, mas terão que trabalhar com pequenas e médias empresas, com quem estarão conectadas pelo mundo todo.

Essas grandes empresas serão provedoras das redes e trabalharão juntas, em vez de competir entre elas. Na primeira e na segunda revolução, as infraestruturas foram feitas para ser centralizadas, privadas. No entanto, a terceira revolução tem infraestruturas inteligentes para unir o mundo de uma maneira glocal, distribuída, com redes abertas.

De que forma a superpopulação afeta a sustentabilidade do planeta, no modelo industrial?

Somos 7 bilhões de pessoas e chegaremos muito em breve a 9 bilhões. Essa progressão, no entanto, irá acabar. As razões para isso têm a ver com o papel das mulheres e sua relação com a energia. Na antiguidade, as mulheres eram escravas, eram as provedoras de energia, tinham que manter a água e o fogo. A chegada da eletricidade está intimamente relacionada aos movimentos sufragistas na América. Libertou as mulheres jovens, que iam para a escola e podiam continuar sua formação até a universidade. Quando as mulheres se tornaram mais autônomas, livres, mais independentes, houve menos nascimentos.

Você não parece otimista e, no entanto, seus livros são um guia para um futuro sustentável. Temos ou não um futuro melhor à vista?

Todas as minhas esperanças estão depositadas na geração millennial. Os millennials saíram de suas aulas para expressar sua inquietação. Milhares e milhares deles reivindicam a declaração de uma emergência climática e pedem um Green New Deal. O interessante é que este não é como nenhum outro protesto na história, e houve muitos, mas este é diferente: move esperança, é a primeira revolta planetária do ser humano, em toda a história, em que duas gerações se veem como espécies, espécies em perigo. Propõem eliminar todos os limites e fronteiras, os preconceitos, tudo aquilo que nos separa. Começam a se ver como uma espécie em perigo e tentam preservar as outras criaturas do planeta. Esta é provavelmente a transformação mais importante da consciência humana na história.

Brasil: projeto autoritário  versus projeto democrático

Nunca em nossa história corremos um risco tão ameaçador como este que estamos correndo por ocasião das eleições no dia 30 de outubro. Há um projeto de Brasil autoritário, de viés fascista que pode desmantelar nossos bens mais preciosos, os culturais e os naturais como a floresta amazônica e a nossa biodiversidade. É próprio do fascismo manipular e distorcer a religião, a família e a moral, de tal forma que contradizem diretamente os valores pregados por Jesus e queridos por Deus, sempre citado por estas pessoas fanatizadas que o tem nos lábios mas não no coração. Nesse projeto nefasto predomina o ódio,a mentira e a divisão, produzida dentro das famílias e no círculo de amigos. Permitiu a compra de milhares de armas, exalta a tortura e se propõe eliminar opositores.

Apresenta-se um outro, o projeto de Brasil democrático, assumido por uma frente ampla e democrática, que sabendo do risco iminente,uniu partidos, antes opostos, celebridades da ciência, das artes, da religião e lideranças populares. Este projeto de Brasil vem fundado na democracia, nas liberdades,no respeito dos direitos humanos e da natureza. Confere centralidade à vida,começando com os 33 milhões de famintos e cerca de 100 milhões com insuficiência alimentar. Apesar de uma economia neoliberal concentradora e falida, procura criar oportunidades de trabalho, cuidar da saúde, da educação, da cultura, da segurança e do lazer para todos.

Ninguém pode ficar neutro e indiferente à essa ameaça, pois se tornaria cúmplice da tragédia socio-ecológica que pode ocorrer. É uma questão de sobrevivência do país como nação, evitando regredir à pura e simples barbárie.

Confiamos no bom senso dos eleitores e das eleitoras na decisão pelo projeto mais esperançoso.Contamos também com Deus, o “apaixonado amante da vida”como dizem as Escrituras e com a padroeira do Brasil, a negra Nossa Senhora Aparecida.

Nada supera a força intrínseca do amor e do ocuidado de uns para com os outros e para com a Mãe Terra. A capacidade de discernimento e o bom senso de nosso povo os fará  escolher o melhor projeto de Brasil e garantir um futuro promissor para todos, no compromisso pela justiça social, pela paz  e na alegre celebração da vida.

Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo e escritor, membro da Comissão Internacional da Carta da Terra.

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Publico este texto pois é esclarecedor e pode iluminar aqueles que ainda não decidiram de que lado da história querem estar por seu voto. 

      CARTA AOS IRMÃOS PRESBÍTEROS DA IGRJA CATÓLICA

         Meus queridos irmãos presbíteros,

Temos visto o fantasma da fome, violência, autoritarismo, preconceito e exclusão social rondando nosso país de forma preocupante. Mais grave é ver como a política que exalta a tortura, despreza o pobre e zomba da morte tem se mesclado com o fundamentalismo religioso que se diz cristão.

Estamos envoltos em um clima que prenuncia uma mistura dos regimes totalitários do século passado com o moderno regime teocrático e fundamentalista do Talibã. Não devemos minimizar os riscos do atual contexto político, pois os que se omitiram antes de que fatos históricos semelhantes se concretizassem arrependeram-se amargamente por não terem dimensionado corretamente as consequências.

Temos oportunidade de evitar que eventos lamentáveis de nossa história se repitam. Todos os atos já praticados, gestos, discursos e promessas do atual presidente e seu grupo apontam para um regime autoritário e de desprezo com a vida humana e a natureza. Não se trata de especulação. Não fossem os poucos freios jurídicos e institucionais que ainda funcionam na República, já viveríamos sem o pouco de democracia e liberdade que ainda nos resta.

Uma vitória na eleição que se aproxima significaria o referendo ao Governo da Morte e lhe daria o respaldo para seguir em seu projeto de entrega do país à rapina de garimpeiros, exploradores ilegais da natureza, crime organizado e empresários sem ética. Além disso, selaria o destino do povo mais pobre e oprimido, que amarga a fome e a miséria; dos povos originários que estão jogados à sua própria sorte e sob risco de extermínio; de nossos biomas sem a proteção dos órgãos de fiscalização; dos estudantes e professores submetidos à perseguição ao pensamento livre e crítico resultante da ideologização da educação pelo MEC; das minorias que mal começaram a garantir seus direitos na sociedade e que são perseguidas e vilipendiadas publicamente e à luz do dia.

Infelizmente, alguns padres e bispos, que têm poder real e/ou simbólico no catolicismo, estão se pronunciando a favor desse projeto de morte nas redes sociais, inclusive paramentados ou em celebrações litúrgicas. Sabemos que nossa Igreja é santa e pecadora e que já ficou ao lado dos opressores por muito tempo.

Porém, do lado dos que realmente se entregaram ao projeto de “vida em abundância” (Jo 10,10) e de “libertação dos oprimidos” (Lc 4, 18) e de amparo aos famintos e abandonados (Mt 25, 35-46), temos visto poucas manifestações explícitas contra o projeto de morte representado pelo atual Governo. Muito desse silêncio é justificado pelo medo de se “partidarizar” a missão eclesial aceita pelos ministros ordenados.

No entanto, o segundo turno das eleições de 2022 ultrapassou as questões partidárias tradicionais do Brasil. Tanto que temos uma frente ampla ao redor da candidatura do Lula que inclui representantes de todos os governos anteriores e de partidos que fizeram oposição ao seu Governo. Não se trata mais da disputa entre Lula e Bolsonaro, mas de uma frente pela democracia contra os sinais da barbárie, autoritarismo e fundamentalismo religioso já demonstrados pelo Governo que tenta reeleição.

Portanto, não se trata da escolha entre um ou outro candidato, mas sobre o lado da história no qual queremos ficar. A omissão, neste caso, é reforço do lado oposto.

Por essas razões, peço humildemente aos irmãos padres que se manifestem em vídeos, homilias, pronunciamentos e postagens mostrando a contradição entre a mensagem dos evangelhos e a Doutrina Social da Igreja, para fazer contraponto àqueles que se apresentam como representantes da Igreja e fazem apologia ao atual presidente.

O silêncio em situações limites de nossa história pode acabar se tornando omissão. Que o Senhor nos livre do Mal (Mt 6, 13).

Saudações em Cristo,

Maurício Abdalla Professor de filosofia da UFES e membro da Rede Nacional de Assessores do Centro de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP), organismo da CNBB e Coordenador Pedagógico da Escola de Fé e Política da Arquidiocese de Vitória.