Die Erde in den Geburtswehen: Kommt der große rettende Sprung?

Es fehlt nur noch wenig, und die Grundlagen, die das Leben auf dem Planeten ökologisch erhalten, könnten zusammenbrechen. Wer von den Staatsoberhäuptern und Großmanagern (CEOs) der Megakonzerne denkt nach und trifft Entscheidungen angesichts einer solchen Grenzsituation unserer gemeinsamen Heimat? Vielleicht sind sie sich der realen Situation bewusst, aber sie räumen ihr keine Bedeutung ein, denn dann müssten sie die Produktionsweise komplett ändern, auf die fabelhaften wirtschaftlichen Gewinne verzichten, ihr Verhältnis zur Natur ändern und sich an einen sparsameren Konsum und mehr Solidarität gewöhnen.

Weil das nicht passiert, verstehen wir die Worte des UN-Generalsekretärs António Guterrez, die er kürzlich in Berlin bei einem Treffen zum Klimawandel sagte: “Wir haben nur eine Wahl: kollektives Handeln oder kollektiver Selbstmord.” Zuvor hatte er in Glasgow anlässlich der COP 26 zum Klimawandel unmissverständlich erklärt: “Entweder wir ändern uns oder wir schaufeln unser eigenes Grab”.

Die vielleicht unmittelbarste Gefahr für die Veränderung der Situation unseres gemeinsamen Hauses ist die alarmierende globale Erwärmung, die sich in jüngster Zeit bestätigt hat. Im Pariser Abkommen von 2015 war vereinbart worden, den Anstieg auf 1,5 Grad Celsius bis 2030 zu begrenzen, um größere Schäden an der Biosphäre zu vermeiden. Mit der massiven Freisetzung von Methan durch das Schmelzen der Polkappen und des Permafrosts (der von Kanada bis an die Grenzen Sibiriens reicht) sind Millionen Tonnen Methan freigesetzt worden. Dies ist 28 mal schädlicher als CO2. Aufgrund dieser Veränderungen räumte die ICPP ein, dass es nicht 2030, sondern 2027 zu einem Temperaturanstieg zwischen 1,5 und 2,7 Grad Celsius kommen wird.

Die extremen Ereignisse, die sich derzeit in Europa, Indien und anderen Ländern ereignen, mit großen Bränden und noch nie dagewesener Hitze, und gleichzeitig die ungewöhnliche Kälte im Süden der Welt, sind Anzeichen dafür, dass die Erde ihr Gleichgewicht verloren hat und nach einem anderen sucht.

Der Vortrag lässt sich folgendermaßen zusammenfassen: Wenn wir diesen Trend fortsetzen, welche Zukunft erwartet uns dann? Könnte die menschliche Spezies ihren Höhepunkt erreicht haben, wie alle Arten zu ihrer Zeit, und dann verschwinden? Oder kann es passieren, dass sie dank des menschlichen Erfindungsreichtums oder der Kräfte des Planeten Erde in Verbindung mit den Energien des Universums einen Qualitätssprung macht und so eine neue Ordnung einleitet, die der menschlichen Spezies Kontinuität verleiht?

Wenn dies geschieht, was wir vorhersagen, wird es viele Natur- und Menschenleben kosten. Vor 67 Millionen Jahren schlug ein fast 10 km langer Meteor in der Karibik ein und zerstörte die Dinosaurier und 75 % aller Lebensformen, aber unsere Vorfahren blieben verschont. Könnte etwas Ähnliches nicht auch mit unserem Planeten Erde geschehen?

Wahrscheinlich kein streifender Meteor, sondern eine andere unermessliche ökologisch-soziale Katastrophe. Wenn wir überleben, wird die Erde den rettenden Sprung gemacht und die lang erwartete Geburt eingeleitet haben. Die Geburtswehen werden vorbei sein, und schließlich werden das Biozän und das Ökozän entstanden sein. Das Leben (bio) und der ökologische Faktor (eco) werden in den Mittelpunkt rücken und unsere Sorge und unser ganzes Herz in Frage stellen. Möge dieses Desiderat eine realisierbare Utopie sein, die es uns erlaubt, auf diesem schönen und lächelnden Planeten weiterzuleben.

Leonardo Boff  ist Theologe und Schriftstller:: Universale Geschwistlichkeit, Vier-Turme-Verlag 2022.

Resgatar a democracia face à ameaça de golpe

 Ouvimos com frequência as ameaças de golpe à democracia por parte do atual presidente. Ele realizou aquilo que Aristóteles chama de kakistocracia: “a democracia dos piores”. Cercou-se de milicianos, colou nos cargos públicos algumas dezenas de militares de espírito autoritário,ligados ainda à revolução empresarial-militar de 1964, fez aliança com os políticos do Centrão que,ao invés de representar os interesses gerais do povo,vivem de privilégios e de propinas e fazem da política uma profissão para o próprio enriquecimento.

Não vi melhor descrição realística de nossa democracia do que esta, de meu colega de estudos, brilhante inteligência, Pedro Demo:

”Em sua Introdução à sociologia (2002) diz enfaticamente:”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333).

Logicamente, há políticos honrados, éticos e organicamente articulados com suas bases e com os movimentos sociais e com o povo em geral. Mas em sua maioria,os políticos traem o clássico ideal de Max Weber, a política como missão em vista do bem comum e não como profissão em vista do bem individual.

Já há decênios estamos discutindo e procurando enriquecer o ideal da democracia: da representativa, passar à democracia participativa e popular, à democracia econômica, à democracia comunitária dos andinos (do bien vivir), à democracia sem fim, à democracia ecológico-social e por fim à uma democracia planetária.

Tudo isso se esfumou face aos ataques frequentes do atual presidente. Este pertence, primeiramente, ao âmbito da psiquiatria e. secundariamente, da política. Temos a ver com alguém que não sabe fazer política, pois trata os adversários como inimigos a serem abatidos (recordemos o que disse na campanha: há que se eliminar 30 mil progressistas). Descaradamente afirma ter sido um erro da revolução de 1964 torturar as pessoas quando deveria tê-las matado, defende torturadores, admira Hitler e Pinochet. Em outras palavras, é alguém psiquiatricamente tomado pela pulsão de morte,o que ficou claro na forma irresponsável com que cuidou do Covid-19.

Ao contrário, a política em regime democrático de direito supõe a diversidade de projetos e de ideias, as divergências que tornam o outro um adversário mas jamais um inimigo. Isso tudo o presidente não conhece. Nem nos refiramos à falta de decoro que a alta dignidade do cargo exige, comportando-se de forma boçal e envergonhando o país quando viaja ao estrangeiro.

Somos obrigados a defender a democracia mínima, a representativa. Temos que recordar o mínimo do mínimo de  toda democracia que é a igualdade à luz da qual nenhum privilégio se justifica. O outro é um cidadão igual a mim, um semelhante com os mesmos direitos e deveres. Essa igualdade básica funda a justiça societária que deve sempre ser efetivada em todas as instituições e que impede ou limita sua concretização. Esse é um desafio imenso, esse da desigualdade, herdeiros que somos de uma sociedade da Casa-Grande e da senzala dos escravizados, caracterizada exatamente por privilégios e negação de todos os direitos aos seus subordinados.

Mesmo assim temos que garantir um estado de direito democrático contra às mais diferentes motivações que o presidente inventa para recusar a segurança das urnas, de não aceitar uma derrota eleitoral, sinalizadas pelas pesquisas, como a Datafolha  à  qual ele contrapõe a imaginosa Datapovo.

A atual eleição representa um verdadeiro plebiscito: que forma de Brasil nós almejamos? Que tipo de presidente queremos? Por todo o desmonte que realizou durante a sua gestão, trata-se do enfrentamento da civilização com a barbárie. Se reeleito conduzirá o país a situações obscuras do passado há muito superadas pela modernidade. É tão obtuso e inimigo do desenvolvimento necessário que combate diretamente a ciência, desmonta a educação e desregulariza a proteção da Amazônia.

A presente situação representa um desafio a todos os candidatos, pouco importa sua filiação partidária: fazer uma declaração clara e pública em defesa da democracia. Diria mais, seria um gesto de patriotismo,colocando a nação acima dos interesses partidários e pessoais, se aqueles candidatos que, pelas pesquisas,claramente, não têm chance de vitória ou de ir ao segundo turno, proclamassem apoio àquele que melhor se situa em termos eleitorais e que mostra com já mostrou resgatar a democracia e atender aos milhões de famintos e outros milhões de deserdados.

Temos que mostrar a nós mesmos e ao mundo que há gente de bem, que são solidários com as vítimas do Covid-19, nomeadamente, o MST, que continuam fazendo cultura e pesquisa. Este será um legado sagrado para que todos nunca esqueçam de que.mesmo em condição adversas,existiu bondade, inteligência, cuidado, solidariedade e refinamento do espírito.

Pessoalmente me é incômodo escrever sobre essa democracia mínima, quando tenho me engajado por uma democracia socioecológica.Face aos riscos que teremos que enfrentar,especialmente, do aquecimento global e seus efeitos danosos, cabe à nossa geração decidir se quer ainda continuar sobre esse planeta ou se tolerará destruir-se  a si mesma e grande parte da biosfera. A Terra,no entanto, continuará mas sem nós.

Leonardo Boff é ecoteólogo,filósofo e escreveu: Cuidar da Terra-proteger a vida:como evitar o fim do mundo, Record 2010; a sair A busca da justa medida: como equilibrar o planeta Terra,pela Vozes.

Nossa última chance de salvar a democracia

Jean Marc von der Weid

Estamos a pouco mais de 15 dias das eleições mais importantes das nossas vidas e, provavelmente, da história do Brasil. O que está em jogo é tão importante que deveria orientar as nossas opções acima de preferencias do passado ou do presente. Os riscos para o futuro do país e do povo são gigantescos e qualquer objeção, mesmo as mais caras a cada um, deveria ser repensada à luz das ameaças a que estamos submetidos.

O que representa a candidatura de Bolsonaro? O que se pode esperar do atual presidente senão a repetição muito piorada da sua performance nos últimos 4 anos? Bolsonaro não é só uma ameaça para o Brasil. Pelo que ele fez ao apoiar seus seguidores na Amazônia, Cerrado e Pantanal, os grileiros de terras, madeireiros ilegais, garimpeiros trabalhando para organizações do narcotráfico e pescadores ilegais, os índices de desmatamento dispararam, acompanhados pela fumaça da nossa biodiversidade em chamas que cobre os céus do norte e centro oeste e se espalham até São Paulo. O Brasil de Bolsonaro tornou-se uma ameaça planetária, um foco de emissões de gases de efeito estufa combinado com a diminuição da capacidade das florestas de capturar carbono da atmosfera. O aquecimento global que ameaça o futuro da humanidade agradece ao presidente, um pária internacional e não só por isso.

Este espaço é pequeno para lembrar todos os malefícios destes anos de descalabro no governo. Ninguém devia esquecer as centenas de milhares de mortes por COVID, ocorridas porque o presidente optou por recomendar cloroquina e combater a vacinação e o uso de máscaras. Com outro presidente não teríamos quase 700 mil mortos e milhões de sequelados. Adotadas as medidas corretas, defendidas até pelo Ministro da Saúde Mandetta, afastado pelo presidente para colocar um pau mandado fardado no seu lugar, os contaminados se contariam em centenas de milhares e não em milhões e os mortos estariam na casa das dezenas de milhares e não das centenas de milhares. Não podemos, também, esquecer os desastres na educação, nas ciências, na cultura, na economia, na segurança pública, nas relações internacionais.

A mais grave consequência do descalabro da gestão Bolsonaro foi o aumento exponencial da fome e da insegurança alimentar no país. São quase 130 milhões passando algum tipo de dificuldade para comer, sendo que 33,1 milhões são famintos, 40 milhões comem menos do que necessitam e outros 50 milhões comem muito mal, com fortes carências nutricionais. No governo de Bolsonaro o número de famintos quase triplicou.

Também não se pode esquecer que este governo, eleito com um discurso contra a corrupção, está mergulhado em uma série de denúncias espetaculares, que só não avançam porque Bolsonaro controla a Procuradoria Geral da República e, em parte, a Polícia Federal. E não é só o governo. Bolsonaro e sua família estão envolvidos e há muito tempo, no desvio de dinheiro público através das “rachadinhas” que permitiram levantar ilicitamente recursos para comprar mais de cem imóveis, sendo que metade com dinheiro vivo. Aqui também as investigações e processos não avançam por intervenção da PGR e a colaboração de juízes nos tribunais superiores.

Além de todos esses horrores, Bolsonaro atacou as instituições da República, enfraquecendo o executivo, corrompendo o Congresso através da sua aliança com o Centrão e o uso do orçamento secreto e atacando o judiciário. Neste último caso, além de atacar de forma permanente o STF e o TSE, o presidente está buscando dominar os tribunais superiores colocando seus aliados em cada posição disponível. Com um novo governo, o presidente está prometendo fazer votar uma ampliação do STF para poder nomear de imediato 5 novos juízes e controlar a corte suprema. Mesmo sem isso, ele terá 4 novos juízes a nomear em seu mandato. Com os dois apaniguados que ele lá já colocou teriamos um STF “terrivelmente bolsonarista”.

Mas o pior risco representado por Bolsonaro está na sua permanente ameaça de golpe, explícita na sua recusa de aceitar os resultados das eleições se ele não for eleito. Ele usa para isso o apoio de um milhão de supostos caçadores, colecionadores de armas e atiradores esportivos, um número multiplicado por três desde que o presidente assumiu o governo. E o que é pior, o número e a potência das armas no poder desta verdadeira milicia, organizada sob a cobertura de clubes de tiro, chega a vários milhões, com munição suficiente para uma guerra prolongada. Bolsonaro usa também a permanente subversão das polícias militares como fator de ameaça aos seus opositores, contando com a sua adesão quando passe a desafiar a Constituição e se recusar a entregar o poder. E para completar o desmantelamento das instituições do Estado, o presidente buscou comprar o apoio das FFAA, dando empregos com salários polpudos para 6 mil oficiais da ativa e da reserva em seu governo e entregando grandes favores em salários, benefícios e aposentadorias para a oficialidade. Bolsonaro excita de forma permanente a politização das FFAA, criando um verdadeiro partido militar com o qual ele conta para subverter a ordem constitucional.

Bolsonaro está fazendo a campanha eleitoral mais ilegal da história brasileira, derramando mais de 100 bilhões de reais em subsídios variados visando comprar votos, na classe média com os preços rebaixados da gasolina e com os mais pobres com o vale gás e o Auxílio Brasil, entre outros. Isto fez com que a previsão de seus votos nas pesquisas eleitorais tenha melhorado, mas não o suficiente para que chegue à vitória. Mas para Bolsonaro isto não importa. Ele já declarou que só vai aceitar os resultados “se as eleições forem limpas” e, para ele, quem decide se elas o são é … ele mesmo.

Estamos ameaçados por uma situação que pode chegar até a uma guerra civil. Ou a conflitos degenerando em repressão sangrenta. Ou ainda atentados e agressões contra os opositores. Certamente por etapas. Lembremos que Bolsonaro já afirmou que o país “precisa de uma guerra civil para mudar”, e que 30 mil mortos seria o mínimo necessário para fazer uma limpeza. Também já ameaçou várias vezes a oposição com a expressão “mandar todo mundo para a ponta da praia”. A ponta da praia era o lugar onde os torturadores desovavam os mortos da oposição à ditadura nos anos 60 e 70. E o grande ídolo de Bolsonaro é o notório torturador e assassino da ditadura, coronel Brilhante Ulstra.

Como evitar esta terrível ameaça? Não basta derrotar eleitoralmente Bolsonaro. Vai ser preciso derrotá-lo por uma larga margem de votos que mostre que o país não o aceita de forma nenhuma. Uma derrota de Bolsonaro por uma diferença de 20 pontos no primeiro turno tornaria muito mais difícil para o golpista arrancar apoio da alta oficialidade das FFAA para a sua desejada virada de mesa. Sem os altos comandos das FFAA é muito improvável que a oficialidade média faça uma sublevação, por mais que Bolsonaro tenha simpatias entre eles. Sem as FFAA, as polícias militares dificilmente se moverão para dar um golpe. E os milicianos dos clubes de tiro, se podem fazer muito estrago localmente, também não tem força para tomar o poder.

Apesar da derrama inacreditável de dinheiro por parte do governo, Bolsonaro está ainda entre 13 e 15 pontos atrás de Lula. Não se trata agora, apenas, de conquistar 5 pontos a mais no primeiro turno, embora isto seja essencial. Para conter os ímpetos golpistas de Bolsonaro seria da maior importância uma manifestação conjunta de todos os candidatos contra as ameaças do presidente aos resultados da eleição assim como todos os partidos que os apoiam deveriam se posicionar no mesmo sentido. Os movimentos da sociedade civil que se manifestaram no 11 de agosto deveriam também condenar estas ameaças de forma contundente.

À luz dos ataques constantes de Ciro à Lula, assim como os menos agressivos da senadora Tebet, esta posição pode parecer uma coisa ilusória. No entanto, o que está em jogo é tão mais importante que as críticas de ambos ao ex-presidente deveriam ser postas em segundo plano. Tenho confiança na responsabilidade política destes dois candidatos, assim como naqueles eleitores que os apoiam.

O que o Brasil precisa neste momento é uma frente de salvação nacional, em defesa da democracia. Não se trata de esquecer as diferenças, mas de adiá-las para outro momento. Com Lula eleito e empossado, não apenas Ciro e Tebet, mas todas as opiniões políticas terão garantido o espaço democrático para se manifestar, inclusive o bolsonarismo. Podemos ter muitas críticas ao Lula, mas não há dúvidas de que ele é um democrata.

Apelo entre angustiado e esperançoso a Ciro, Tebet e seus eleitores. O Brasil precisa muito da ajuda de vocês para afastar de vez o risco Bolsonaro à democracia.

Jean Marc von der Weid

Ex-presidente da UNE (69/71)

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia, (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA (2004/2016)

Militante independente, membro do movimento Geração 68 Sempre na Luta

Onze pistas falsas sobre o clima

MICHAEL LÖWY*

Michael, sociólogo, brasileiro-francês, grande conhecedor da realidade brasileiro também da teologia da libertaçãso, embora vivendo na França como pesquisador no CNRS, com este estudo desfaz lugares comuns e nos leva à racionalidade.Se não mudarmos de paradigma com relação à natureza, não evitaremos os eventos extremos. Esse é o ponto que Michael com razão enfatiza. Há várias propostss, mas certamente,o ecosocialismo por ele proposta   (foi importante no encontro sobre o clima em Copenhagen quando ele junto com outros lançou a proposta e o texto fundador) é o caminho mais promissor.Vale ler este texto por nos tirar as ilusões sobre este grave problema no qual o sistema-vida está sendo gravemene afetado. LBoff

Contestação de lugares-comuns que dificultam o combate à mudança climática

Encontramos um grande número de lugares-comuns nos vários discursos sobre o clima, repetidos mil vezes em todos os matizes, que constituem pistas falsas, que levam, voluntariamente ou não, a ignorar as verdadeiras questões, ou a acreditar em pseudossoluções. Não me refiro aqui aos discursos negacionistas, mas àqueles que se dizem “verdes” ou “sustentáveis”. Estas são afirmações de natureza muito diversa: algumas são verdadeiras manipulações, fake news, mentiras, mistificações; outras são meias-verdades, ou um quarto de verdade. Muitas estão cheias de boa vontade e de boas intenções – e, como sabemos, delas o inferno está cheio. É neste caminho que estamos: se continuarmos com o business as usual – mesmo que pintado de verde – dentro de algumas décadas, nos encontraremos numa situação muito pior do que a maioria dos círculos do inferno descritos por Dante Alighieri na sua Divina Comédia. Os onze exemplos seguintes são apenas alguns desses lugares-comuns a evitar.

 O planeta tem que ser salvo

Isto está por todo lado: em cartazes, na imprensa, em revistas, em declarações de líderes políticos, etc. Na verdade, é um disparate: o planeta Terra não está em perigo! Qualquer que seja o clima, ele continuará girando tranquilamente ao redor do sol durante os próximos milhões de anos. O que está ameaçado pelo aquecimento global são as múltiplas formas de vida neste planeta, incluindo a nossa: a espécie Homo Sapiens.

“Salvar o planeta” dá a falsa impressão de que se trata de algo externo a nós, que se encontra em algum lugar, e que não nos diz respeito diretamente. Não pedimos às pessoas que se preocupem com suas vidas, ou com a vida de seus filhos, mas sim com uma vaga abstração, “o planeta”. Não é surpresa que as pessoas menos politizadas reajam dizendo: eu estou muito ocupado com meus próprios problemas para me preocupar com “o planeta”.

 Façamos algo para salvar o planeta

Este lugar-comum, infinitamente saturado, é uma variante da fórmula anterior. Ele contém uma meia-verdade: todos devem contribuir pessoalmente para evitar a catástrofe. Mas transmite a ilusão de que é suficiente acumular “pequenos gestos” – desligar as luzes, fechar a torneira, etc. – para evitar o pior. Assim, conscientemente ou não, descartamos a necessidade de mudanças estruturais profundas no modo de produção e consumo atual; mudanças que colocam em questão os próprios fundamentos do sistema capitalista, que se baseia num único critério: a maximização do lucro.

 O urso polar está em perigo

É uma imagem que está por todo lado, repetida à saciedade: um pobre urso polar que tenta sobreviver no meio de icebergs à deriva. Certamente, a vida do urso polar – e de muitas outras espécies nas regiões polares – está ameaçada. Esta imagem pode suscitar a compaixão de algumas almas generosas, mas, para a maioria da população, é um assunto que não lhes diz respeito.

Pois bem, o derretimento das calotas polares é uma ameaça não apenas para o bravo urso polar, mas, a longo prazo, para metade, se não mais, da humanidade que vive em grandes cidades à beira-mar. O derretimento das enormes geleiras na Groenlândia e na Antártica pode elevar o nível do mar em algumas dezenas de metros. Mas são necessários apenas alguns metros para que cidades como Veneza, Amsterdã, Londres, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Xangai e Hong Kong fiquem submersas. Claro que isto não acontecerá no ano que vem, mas os cientistas podem observar que o derretimento destas geleiras está acelerando… É impossível prever a rapidez com que isso ocorrerá, pois muitos fatores são difíceis de calcular neste momento.

Ao enfatizarmos unicamente o pobre urso polar, ocultamos o fato de que se trata de um caso aterrador que diz respeito a todos nós…

 Bangladesh corre o risco de sofrer muito com as mudanças climáticas

Trata-se de uma meia-verdade, cheia de boa vontade: o aquecimento global afetará principalmente os países pobres do Sul, que são os menos responsáveis pelas emissões de CO2. É verdade que estes países serão os mais atingidos por catástrofes climáticas, furacões, seca, redução de fontes de água, etc. Mas é falso que os países do Norte não serão afetados, em grande medida, por estes mesmos perigos: não assistimos a terríveis incêndios florestais nos EUA, Canadá, Austrália? As ondas de calor não causaram numerosas vítimas na Europa? Poderíamos multiplicar os exemplos.

Se mantivermos a impressão de que estas ameaças só dizem respeito aos povos do Sul, conseguiremos mobilizar apenas uma minoria de internacionalistas convictos. Contudo, mais cedo ou mais tarde, é o conjunto da humanidade que será confrontado com catástrofes sem precedentes. É necessário explicar aos povos do Norte que esta ameaça também pesa sobre eles, bem diretamente.

 Até o ano 2100 a temperatura poderá subir até 3,5 graus (acima do período pré-industrial)

Esta é uma afirmação que é encontrada lamentavelmente em muitos documentos sérios. Isto me parece ser um duplo erro.

Do ponto de vista científico, sabemos que as mudanças climáticas não são um processo linear: podem sofrer “saltos” e acelerações súbitas. Muitas dimensões do aquecimento se retroalimentam, e as consequências disto são imprevisíveis. Por exemplo: os incêndios florestais emitem enormes quantidades de CO2, que contribuem para o aquecimento, intensificando, assim, os incêndios florestais. Assim, é muito difícil prever o que acontecerá dentro de quatro ou cinco anos, então como é possível prever o que ocorrerá daqui a um século?

De um ponto de vista político: até o final do século, nós todos estaremos mortos, assim como nossos filhos e netos. Como podemos mobilizar a atenção e o engajamento das pessoas por um futuro que não lhes diz respeito, nem de perto nem de longe? Então devemos preocupar-nos com as gerações futuras? Um pensamento nobre, longamente defendido pelo filósofo Hans Jonas: nosso dever moral para com aqueles que ainda não nasceram. Uma pequena minoria de pessoas muito respeitáveis poderia ser tocada por este argumento. Para o comum dos mortais, o que acontecerá em 2100 não é uma questão de grande interesse.

 Em 2050 atingiremos a neutralidade de carbono

Esta promessa da União Europeia e de vários governos na Europa e em outros lugares não corresponde a uma meia-verdade, nem a uma ingênua boa vontade: é pura e simples mistificação. Por duas razões.

Em vez de comprometerem-se agora, imediatamente, com as mudanças urgentes exigidas pela comunidade científica (o IPCC) para os próximos 3 a 4 anos, nossos governantes prometem maravilhas para 2050. Isto é obviamente demasiado tarde. Além disso, como os governos mudam a cada 4 ou 5 anos, que garantia há para estes compromissos fictícios em 30 anos? É uma forma grotesca de justificar a presente inação com uma vaga promessa vinda de longe.

Além disso, a “neutralidade de carbono” não significa uma redução drástica das emissões, bem ao contrário! É um cálculo enganador baseado em offsets, em “mecanismos de compensação”: a empresa XY continua emitindo CO2, mas planta uma floresta na Indonésia, que supostamente absorverá o equivalente a este CO2 – se ela não se incendiar. As ONGs ambientalistas já denunciaram suficientemente a farsa dos offsets, não vou insistir. Mas isto mostra a perfeita mistificação contida na promessa de “neutralidade de carbono”.

 Nosso banco (ou companhia petrolífera, etc.) financia as energias renováveis e participa assim na transição ecológica

Este lugar-comum do green-washing [maquiagem verde] também faz parte da enganação e manipulação. É claro que os bancos e as multinacionais também investem em energias renováveis, mas estudos precisos da ATTAC e de outras ONGs mostraram que se trata de uma pequena – por vezes minúscula – parte de suas operações financeiras: o grosso continua indo para o petróleo, carvão, gás… É uma simples questão de rentabilidade e de competição por frações de mercado.

Todos os governos “razoáveis” – ao contrário de Donald Trump, Jair Bolsonaro e cia. – juram também, em todos os matizes, que estão empenhados na transição ecológica e nas energias renováveis. Mas assim que há um problema com o fornecimento de um combustível fóssil – recentemente o gás –, devido à agressiva política russa – refugiam-se no carvão, reativando centrais elétricas a carvão mineral, ou imploram à (sangrenta) família real da Arábia Saudita para aumentarem a produção de petróleo.

Toda o belo discurso sobre a “transição ecológica” oculta uma verdade desagradável: não é suficiente desenvolver energias renováveis. Antes de tudo, as energias renováveis são intermitentes: o sol nem sempre brilha no Norte da Europa… É verdade que foram feitos progressos técnicos nesta área, mas eles não podem resolver tudo. E, sobretudo, as energias renováveis requerem recursos minerais que correm o risco de se esgotarem. Se o vento e o sol são ilimitados, não é este, de modo algum, o caso para os materiais necessários para sua utilização (lítio, terras raras, etc.). Será portanto necessário considerar uma redução do consumo global de energia, e uma diminuição seletiva: medidas que são inimagináveis no quadro do capitalismo.

 Graças às técnicas de captura e sequestro de carbono evitaremos a catástrofe climática

Este é um argumento cada vez mais utilizado pelos governos, e que encontramos até mesmo em alguns documentos sérios (por exemplo, do IPCC). É a ilusão de uma solução tecnológica milagrosa, que salvaria o clima, sem a necessidade de nada mudar em nosso modo de produção (capitalista) e em nosso modo de vida.

Lamentavelmente, a triste verdade é que estas técnicas miraculosas de captura e sequestro de carbono atmosférico estão longe de ser uma realidade. É certo que foram feitas algumas tentativas, e que alguns projetos estejam em curso aqui e ali, mas no momento não se pode dizer que esta tecnologia seja eficaz e operacional. Ela ainda não resolveu as dificuldades de captura ou de sequestro (em regiões subterrâneas impermeáveis às fugas). E não há qualquer garantia de que poderá fazê-lo no futuro.

 Graças ao automóvel elétrico, reduziremos substancialmente as emissões de gases de efeito estufa

Este é outro exemplo de meia-verdade: é certo que os automóveis elétricos são menos poluentes do que os automóveis a combustão (a gasolina ou diesel), e, portanto, menos prejudiciais para a saúde da população urbana. No entanto, do ponto de vista das mudanças climáticas, seu balanço é muito mais mitigado. Eles emitem menos CO2, mas contribuem para uma situação desastrosa “tudo a eletricidade”. Contudo, na maioria dos países, a eletricidade é produzida com… combustíveis fósseis (carvão ou petróleo). A redução das emissões dos automóveis elétricos é “compensada” pelo aumento das emissões resultantes do maior consumo de eletricidade. Na França, a eletricidade é produzida por energia nuclear, outro impasse. No Brasil, são as megabarragens destruidoras de florestas, e, por conseguinte, responsáveis por um balanço de carbono pouco reluzente.

Se quisermos reduzir drasticamente as emissões, não podemos evitar uma redução significativa da circulação de automóveis privados, por meio da promoção de meios de transporte alternativos: transportes públicos gratuitos, áreas de pedestres, ciclovias. O automóvel elétrico mantém a ilusão de que podemos continuar como antes, mudando de tecnologia.

 É através de mecanismos de mercado, como os impostos sobre o carbono ou os mercados de direitos de emissão, ou ainda aumentando o preço dos combustíveis fósseis, que conseguiremos reduzir as emissões de CO2.

Para os ecologistas sinceros, isto é uma ilusão; na boca dos governantes, é ainda uma mistificação. Os mecanismos de mercado têm demonstrado por todo lado sua perfeita ineficiência na redução dos gases de efeito estufa. Não são apenas medidas antissociais, que buscam fazer as classes populares pagar o preço da “transição ecológica”, são incapazes, sobretudo, de contribuir substancialmente para a limitação das emissões. O fracasso espetacular dos “mercados de carbono” instituídos pelos acordos de Kyoto é a melhor demonstração disso.

Não é com medidas “indiretas”, “incentivadoras”, baseadas na lógica do mercado capitalista que conseguiremos por um freio no poder absoluto dos combustíveis fósseis, que mantêm o sistema funcionando há dois séculos. Para começar, será necessário expropriar os monopólios capitalistas de energia, criar um serviço público de energia, que terá como objetivo a redução drástica da exploração dos combustíveis fósseis.

 As mudanças climáticas são inevitáveis, só podemos adaptar-nos

Este tipo de afirmação fatalista pode ser encontrada nos meios de comunicação e entre os políticos “responsáveis”. Por exemplo, Christophe Bechu, ministro da transição ecológica do novo governo Macron, declarou recentemente: “Já que não podemos evitar o aquecimento global, quaisquer que sejam os nossos esforços, temos que conseguir limitar seus efeitos enquanto nos adaptamos a ele”.

Esta é uma excelente receita para justificar a inação, o imobilismo e o abandono de qualquer “esforço” para tentar evitar o pior. Contudo, os cientistas do IPCC explicaram bem que, embora o aquecimento já tenha de fato começado, ainda é possível evitar ultrapassar a linha vermelha de 1,5 graus – desde que comecemos imediatamente a reduzir de modo significativo as emissões de CO2.

Certamente, temos que tentar adaptar-nos. Mas se as mudanças climáticas se tornarem incontroláveis e acelerarem, a “adaptação” é apenas um engodo. Como “adaptar-se” a temperaturas de 50°C?

Poderíamos multiplicar os exemplos. Todos levam à conclusão de que, se quisermos evitar as mudanças climáticas, devemos mudar o sistema, ou seja, o capitalismo, e substituí-lo por outra forma de produção e consumo. Isto é o que chamamos “ecossocialismo”.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de O que é o ecossocialismo (Cortez).