O criminoso rompimento da barragem da Vale em Brumadinho e o o trauma das crianças

Publico este texto comovente de uma universitária Marina Paula Oliveira, atingida pelo criminoso rompimento da barragem da mineradora VALE S.A.Largou seus estudos para junto com o bispo Dom Vicente Ferreira e outras colaboradoras acompanhar o drama dos atingidos da barragem, suscitando esperança, organização e coragem para cobrar os direitos diminuídos ou até alguns negados aos atingidos pela tragédia. O mundo inteiro acompanhou a extensão do drama ocorrido em Brumadinho, não longe de Belo Horizonte, no qual 172 pessoas ficaram soterradas sob montanhas de lava. Poucos ouviram o choro e o clamor das crianças que perderam seus pais, suas mães, seus parentes. Toda região foi danificada com materiais pesados e tóxicos, a natureza foi devastada e os rios contaminados. Aqui temos o relato direto da universitária Marina, inteligente, cheia de ideais em sua vida e na sua carreira universitária. Ouviu o clamor dos desamparados e desesparados que subia ao céu. Largou tudo e se associou ao trabalho do bispo Dom Vicente, grande pastor,poeta e cantador, além de destemido crítico dos abusos ocorridos e da displicência da VALE em atender aos reclamos dos atingidos por seus direitos, por suas casas, por suas terras,por sua dignidade. É uma jovem e brilhante mas totalmente entregue a esse trabalho humanitário,não sem uma carga de espiritualidade, diria de mística que enxuga lágrimas,consola as pessoas e lhes mantém viva a esperança de que a justiça  se fará e o direito triunfará. Eu lá estive e dou meu testemunho com a inesquecível imagem dos 172 balões em memória dos 172 desaparecidos,  balões nos quais estava escrito:”Dói demais o jeito que vocês foram embora”.  LBoff

 

O criminoso rompimento da barragem da Vale em Brumadinho e o o trauma das crianças.

Marina Paula Oliveira

Já transcorreu um ano e seis meses do rompimento criminoso da barragem da mineradora VALE S.A. em Brumadinho-MG.

Como não  falar dos traumas das crianças atingidas? Contam-se mais de 100 órfãos de pai ou de mãe ou de ambos. São filhos e sobrinhos de agricultores que costumavam brincar no aspersor que irrigava as plantações que hoje estão debaixo da lama.

São crianças que antes jogavam bola, descalças, na rua e que hoje não o podem  mais fazê-lo devido ao fluxo de caminhões, envolvidos nas obras de contenção de danos, carregando rejeitos tóxicos em suas rodas e levando a lama para ambientes, antes considerados seguros.

São crianças traumatizadas que tiveram que correr com toda a pressa da lama. Crianças com medo de ficar em suas casas, mas que também têm medo de sair delas.

“Tia, aqui tem barragem?” “Na Bahia tem barragem? A minha vó mora lá”, “Tia, quando a lama chegar aqui, vai destruir tudo, não vai?”.

Essas são algumas das perguntas que se escutam por aqui. As palavras morrem na garganta porque não tenho como responder.

Ainda sem mencionar crianças, filhas e filhos de lideranças que tiveram suas vidas completamente impactadas, através de infindáveis reuniões que seus pais tiveram que participar e, por fim, dar sua adesão para trilhar a longa e infindável caminhada pela luta por justiça, dignidade, memória das vítimas e reparação integral das perdas e dos danos. Não sobra muito tempo pra as crianças brincarem quando o pai e a mãe estão sempre ocupados, tentando resgatar direitos que lhes foram  violentamente sequestrados.

Nunca consigo esquecer e sempre me vêm lágrimas aos olhos quando lembro da celebração, em janeiro, por ocasião da memória de um ano do desastre criminoso, com a presença de parentes de desaparecidos e de seus filhos e filhas pequenos, lançando ao ar 172 balões em memória dos 172 desaparecidos, com a inscrição: “dói demais o jeito que vocês foram embora”. Alguém precisa ser muito insensível e desumano para não conter as lágrimas e também mostrar

 

 

indignação.

São já 14 crianças que tentaram suicídio. Crianças de 10 anos tomam medicamentos anti-depressivos. E são apenas crianças. Quantas crianças não podem mais brincar na rua de suas casas porque suas pequenas comunidades foram ocupadas por centenas de pessoas estranhas, trabalhadores, voluntários, entre outros. O ambiente que antes era familiar, hoje se caracteriza por um sentimento de insegurança e de estranhamento, sem nada entender.

Há crianças indígenas que antes brincavam livremente no rio Paraopeba e que hoje não têm permissão de entrar nas suas águas, sequer tocá-las em razão do alto grau de contaminação de metais pesados ainda desconhecidos pelas comunidades.

“Tia, o rio já curou?”, “Hoje  se pode nadar?”.

Muitas mães reclamam do crescimento das doenças e problemas respiratórios de seus filhos, em consequência do aumento da poeira tóxica em suas comunidades.

Crianças que se sentem culpadas por brincar pois comentam entre si: “a cidade toda está triste, né tia?”.

É inimaginável o sofrimento das mães quando suas filhas perguntam: “em que dia o papai vai voltar”? Quem pode lhes responder? A avós receiam ter que explicar para seus netos que seu pai ou sua mãe estão entre os “desaparecidos”.

Muitas crianças até hoje desenham helicópteros sobrevoando seus bairros que carregavam corpos ou parte deles. Um dia desses, uma criança comentou: “meu pai, pobrezinho, morreu na lama”. O que isso significa para a cabeça dessa criança? Há alguma explicação para isso?

Será que as crianças esquecem? Por aqui, o caminho mais óbvio parece ser o de criar bolhas para essas crianças, bolhas como se sua infância não tivesse sido arrancada por vis interesses econômicos. Talvez elas nunca irão compreender essa maldade.

O sofrimento infantil, por sua vez, parece estar escancarado: “Bombeiro, obrigada por encontrar o corpo de meu pai; ele nunca mais voltara”.

Uma geração inteira está por toda vida marcada pelas consequências da mineração predatória, que continua colocando o lucro acima da vida.

Quem se propõe a  falar com estas crianças atingidas  cujas almas foram destroçadas por essa mineração cruel que sacrifica vidas no altar da ganância por lucro?

Ai me lembrei de uma frase de Dostoiewsky que ouvi certa vez:”todos os avanços da ciência não valem o choro de uma criança.”

Sinto-me impotente mas profundamente solidária com elas. Por isso as abraço e as beijo para que se sintam acolhidas. E se deem conta de que o dom mais precioso que existe, foi poupado, a vida delas, que deve continuar e ser feliz.

Marina Paula Oliveira é universitária, atingida pela barragem e coordenadora de Projetos da Arquidiocese de Belo Horizonte

 

 

 

 

 

 

 

Van Goog fala do amor necessário

Vivemos atualmente tempos sombrios de muito ódio, ausência de refinamento e  especialmente falta de amor.

A história não é retilínea nem a própria evolução do universo. Passa-se da ordem (cosmos) para a desordem (caos),  do sim-bólico (o que une)  para do dia-bólico (o que separa), das sombras para a luz, do thánatos (as negatividades da vida) para o eros (as excelências da vida) e do Cristo para o Anti-Cristo.

Tais antíteses não são deformações da realidade, mas a condição de todas as coisas pelo simples fato de que não somos Deus, mas  criaturas sempre limitadas.Somos ontologicamente,não moralmente, seres decadentes.

Nesse sentido há momentos de predominância da ordem, da harmonia social, da convivência inclusiva que representam o eros.Em outros, predomina o thánatos, a dimensão de morte, de ódio e de dilaceração.

Observe-se que os dois momentos sempre vêm juntos e estão simultaneamente presentes, em proporções diferentes, em todos os momentos e circunstâncias.

Atualmente em nível mundial e nacional vivemos pesadamente a dimensão do thánatos, do dia-bólico e da sombra. Há guerras no mundo, racismo, fundamentalismo fazendo incontáveis vítimas, ascensão entre nós do autoritarismo e do populismo, que são disfarces do despotismo. Como se tudo isso não bastasse estamos sob a intrusão do Covid-19, fruto da sistemática agressão humana contra a natureza (antropoceno) e do contra-ataque que ela nos está movendo, pondo de joelhos e impotentes o capitalismo e os países militaristas com sua máquina de matar a todos.

Todos os caminhos religiosos e espirituais conferem centralidade ao amor. Nem precisamos referir-nos a Jesus para quem o amor é tudo ou  ao texto de incomparável beleza e verdade de São Paulo na primeira Carta aos Coríntios, no capítulo 13:”o amor nunca acabará..no presente permanecem estas três: a fé, a esperança e o amor, porém a mais excelente é o amor (13.8.13).

Cito um texto pouco conhecido de Thomas Kempis sobre o amor, da “Imitação de Cristo”, de 1441, o livro mais lido na cristandade depois da Bíblia. Como canto de cisne de minha atividade teológica por mais de 50 anos, o retraduzi do latim medieval, superando-lhe, contudo, os dualismos típicos da época.Ei-lo:

“Grande coisa é o amor. É um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é penoso e suporta sereno toda a adversidade. Porque leva a carga sem sentir o peso, torna o amargo doce e saboroso…O amor deseja ser livre e isento de amarras que lhe impedem amar com inteireza. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais profundo, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra…Quem ama, voa, corre, vive alegre, sente-se libertado de todas as amarras. Dá tudo para todos e possui tudo em todas as coisas, porque para além de todas as coisas, descansa no Sumo Bem do qual se derivam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até Àquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites pois seu fogo interior supera toda a medida.De tudo é capaz e realiza coisas que quem não ama não compreende, quem não ama se enfraquece e acaba caindo. O  amor vigia sempre e até dorme sem dormir…Só quem ama compreende o amor”(livro III capítulo 5)

Em momentos dolorosos em que vivemos e sofremos, precisamos resgatar o mais importante e que verdadeiramente nos humaniza: o simples amor. Quase todos nos sentimos carentes dele. Mas sem ele nada de grande, de memorável e de heroico foi construído na história. É o amor que faz com que tantos médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras e todos os que trabalham contra o Covid-19, sacrifiquem suas vidas para salvar vidas, sendo que muitos deles por isso são vitimados. Eles nos confirmam a excelência do amor incondicional.

Testemunhos das ciências da vida, da arte e da poesia corroboram com o que proclamam as religiões.

Comoventes são as palavras do genial pintor Vincent van Goog, em carta ao seu irmão Théo:”É preciso amar para trabalhar e para se tornar um artista, um artista que procura colocar sentimento em sua obra: é preciso primeiro sentir-se a si próprio e viver com  seu coração..É o amor que qualifica nosso sentimento de dever e define claramente nosso papel… o amor é a mais poderosa de todas as forças”(Lettres à son frère Théo, Galimard 1988, 138, 144). A. Artaud que fez a introdução às cartas de van Goog diz que ele se recusou a entrar nessa sociedade fria, indiferente e sem amor: “ele foi um suicida da sociedade”.

Consideremos o que testemunham os estudos sobre o processo cosmogênico e da nova biologia. Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global e cósmica, um evento bem-aventurado do próprio ser das coisas, nas quais nós estamos incluídos.

Exemplo disso é o que escreveu James Watson que junto com Francis Crick descoficou em 1953 a dupla hélice do código genético:

O amor pertence à essência de nossa humanidade. O amor, esse impulso que nos faz ter cuidado com o outro foi o que permitiu a nossa sobrevivência e sucesso no planeta. É esse impulso, creio, que  salvaguardará nosso futuro…Tão fundamental é o amor à natureza humana que estou certo de que a capacidade  de amar está inscrita em nosso DNA; um São Paulo  secular diria que o amor é a maior dádiva de nossos genes à humanidade”(J.Watson, DNA: o segredo da vida,Companhia das Letras, São Paulo 2005 p. 433-434).

Os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela mostraram a presença cósmica do amor. Os seres, mesmo os mais originários como os topquarks, dizem eles, se relacionam e interagem entre eles espontaneamente, por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade de sobrevivência. Ela se instaura por um impulso de criar laços novos, pela afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o advento do amor.

Desta forma, a força do amor atravessa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes irradiação e beleza.

O amor universal realiza o que a mística sempre intuiu acerca da gratuidade da beleza:“a rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida dela mesma nem se preocupa se a admiram ou não”(Angelus Silesius). Assim o amor, como a flor, ama por amar e floresce como fruto de uma relação livre, como entre duas pessoas enamoradas e apaixonadas.

Bem expressou esta experiência Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caieiro:”Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,/Mas porque a amo,  e amo-a por isso,/Porque quem ama nunca sabe o que ama/Nem sabe porque ama, nem o que é amar/Amar é a eterna inocência”(Obra poética,Aguilar 1974,p.205)

Pelo fato de sermos humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criar condições para que a amorização aconteça entre os seres humanos e com todos os demais seres da natureza,até com alguma estrela do universo.

O amor é urgente no Brasil e no mundo. Com realismo nos deixou Paulo Freire, tão caluniado pelos propulsores do ódio e da ignorância, esta missão: forjar uma sociedade onde não seja tão difícil o amor. Educar, dizia ele, é um ato de amor.

Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial capitalista e neoliberal não ama as pessoas. Ele ama o dinheiro e os bens materiais; ele ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção e sua capacidade de consumir. Mas ele não ama gratuitamente as pessoas como pessoas, portadoras de dignidade e de valor .O que nos está salvando neste momento de intrusão do Covid-19 são exatamente os valores que o capitalismo nega.

Pregar o amor e dizer: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos”, é revolucionário. É ser anti-cultura dominante e contra o ódio imperante.

Há de se fazer do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, escreveu no final de cada cântico da Divina Comédia: “o amor que move o céu e todas as estrelas”; e eu acrescentaria, amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto do Ser que faz ser tudo o que é e que é a
Energia sagrada que faz pulsar de amor os nossos corações.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escreveu:”Covid-19:a Mãe Terra contra-ataca a humanidade“, a sair pela Vpzes em breve.

 

O princípio da auto-destruição e o combate ao Covid-19

Depois que se lançaram duas bombas atômicas primárias sobre as cidades de Hieroshima e Nagasakiem 1945, a humanidade criou para si um pesadelo do qual não consegue mais se libertar. Ao contrário, ele se transformou numa realidade ameaçadora de nossa vida sobre este planeta e a destruição de grande parte do sistema-vida.

Criaram-se armas nucleares muito mais destrutivas, químicas e biológicas que podem destruir nossa civilização e afetar profundamente a Terra viva. Pior ainda, projetamos a inteligência artificial autônoma. Com seu algoritmo que combina bilhões de informações, recolhidas de todos os países e de cada pessoa, até da pasta de dente que uso, pode tomar decisões sem que nós saibamos. Pode eventualmente, numa combinação enlouquecida penetrar nos arsenais das armas nucleares ou de igual ou maior potência letal e deslanchar uma guerra de grande destruição até de toda vida. É o princípio da auto-destruição. Vale dizer, está nas mãos do ser humano pôr fim à vida visível que conhecemos (ela é só 5% as 95% são vidas microscópicas invisíveis). Assenhoreamo-nos da morte. E ela pode ocorrer a qualquer momento. E agora em razão da inteligência artificial autônoma, escapa até de nossas decisões.

Ja se criou uma expressão para nomear esta fase nova da história humana, uma verdadeira era geológica: o antropoceno, vale dizer, o ser humano como a grande ameaça ao sistema-vida e ao sistema-Terra.

O ser humano é o grande satã da Terra, aquele que pode dizimar,como um anti-cristo, a si mesmo e os outros, seus semelhantes, além de liquidar com as bases que sustentam a vida.

A intensidade do processo letal é de tal ordem que já se fala da era do necroceno. Quer dizer, a era da produção em massa da morte. Já estamos dentro da sexta extinção em massa. Agora é acelerada de forma irrefreável, dada a vontade de dominação da natureza e de seus mecanismos, da agressão direta à vida e à Gaia, a Terra viva, em função de um crescimento ilimitado, de uma acumulação absurda bens materiais a ponto de criar a Sobrecarga da Terra (The  Earth Overshoot).

Em outras palavras, chegamos a um ponto em que a Terra não consegue repor os bens e serviços naturais que lhe foram sequestrados e começa a mostrar um avançado processo de degeneração através dos tsunamis, tufões, como recentemente no Sul do Brasil, degelo das calotas polares e do parmafrost, as secas prolongadas e as nevascas aterradoras e o surgimento de bactérias e vírus de difícil controle. Alguns deles como o Covid-19 que está levando  à morte milhões de pessoas.

Tais eventos são reações e até represálias da Terra face à guerra secular que conduzimos contra ela em todas as suas frentes. Essa morte em massa ocorre na natureza, com milhares de espécies vivas que desaparecem definitivamente, ano após ano, e também nas sociedades humanas com milhões que padecem fome, sede e toda sorte de doenças mortais.

Cresce mais e mais a percepção geral de que a situação da humanidade não é sustentável. A continuar nessa lógica perversa, vai construindo um caminho na direção da própria sepultura.

Demos um exemplo: no Brasil vivemos sob a ditadura da economia ultra neoliberal com uma política de extrema direita, violenta e cruel para com as grandes maiorias pobres Perplexos, assistimos as maldades que foram feitas, anulando direitos dos trabalhadores e internacionalizando riquezas nacionais que sustentam nossa soberania como povo.

Os que deram o golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff em 2016 aceitam a recolonização do país, feito vassalo da potência dominante, os USA, condenado a ser apenas um exportador de commodities e um aliado menor e subalterno do projeto imperial.

O que se está fazendo na Europa contra os refugiados, rejeitando sua presença na Itália e na Inglaterra e pior ainda na Hungria e na catolicíssima Polônia, alcança níveis de desumanidade extremamente cruel. As medidas do Presidente norte-americano Trump arrancando os filhos de seus pais imigrantes e colocando-os em jaulas, denota barbárie e ausência de qualquer senso humanitário.

Já se disse, “nenhum ser humano é uma ilha… por isso não perguntem por quem os sinos dobram. Eles dobram por cada um, por cada uma, por toda a humanidade”.E como dobram face aos milhares de brasileiros ceifados pelo Covid-19 pela incúria,impiedade e desprezo de nosso presidente.

Se grandes são as trevas que se abatem sobre nossos espíritos, maiores ainda são as nossas ânsias por luz. Não deixemos que essa demência acima referida detenha a última palavra.

A palavra maior e última que clama em nós e nos une a toda a humanidade é por solidariedade e por com-paixão pelas vítimas, especialmente nesse tempo atroz sob o Covid-19,  é por paz e sensatez nas relações entre as pessoas,livres do ódio, dos fake news que envenenaram a atmosfera social.

As tragédias dão-nos a dimensão da inumanidade de que somos capazes. Mas também deixam vir à tona o verdadeiramente humano que habita em nós, para além das diferenças étnicas, ideológicas e religiosas. Esse humano em nós faz com que juntos nos cuidemos, juntos nos solidarizemos, juntos choremos, juntos nos enxuguemos as lágrimas, juntos oremos, juntos busquemos a justiça social mundial, juntos construamos a paz e juntos renunciemos à vingança e todo tipo de violência e guerra.

A sabedoria dos povos e a voz de nosso coração nos testemunham:Não será o descaso de nosso Presidente face às milhares de mortes pelo Coronavírus que nos fará desanimar e exigir a sua interdição por não saber governar e cuidar da vida de seu povo. Não é um Estado que se fez terrorista como os Estados Unidos sob o Presidente norte-americano Bush e continuado até Trump que irá vencer terrorismo. Nem é ódio aos imigrantes latinos difundido por Trump que trará a paz.  É o diálogo incansável, a negociação aberta e o acordo justo que tiram as bases de qualquer terrorismo e fundam a paz.

As tragédias que nos atingiram no mais fundo de nossos corações, particularmente a pandemia viral que afetou todo o planeta, nos convidam a repensarmos os fundamentos da convivência humana na nova fase, a planetária, e como cuidar da Casa Comum, a Terra como o pede o Papa Francisco em sua encíclica  “sobre o cuidado da Casa Comum”(2015).Temos que reaprender a sermos humanos, porque já naturalizamos as desumanidades, particularmente perpetradas contra os pobres, os negros, os indígenas, os quilombolas, as mulheres, os LGBT e outros.

O tempo é urgente. Desta vez não haverá um plano B, capaz de salvar-nos. Temos que nos salvar todos, pois formamos uma comunidade de destino Terra-Humanidade.

Para isso precisamos abolir a palavra inimigo, tão presente no debate político em nosso país que não reconhece a legitimidade do adversário e logo o transforma em inimigo que cabe difamar e destruir. É o medo que cria o inimigo. Exorcizamos o medo quando fazemos do distante um próximo e do próximo, um irmão e uma irmã.

Afastamos o medo e o inimigo quando começamos a dialogar, a nos conhecer, a nos aceitar, a nos respeitar, a aprender uns dos outros, a  nos amar, enfim, numa palavra, a nos cuidar; cuidar nas nossas doenças, agora sob a intrusão perigosa do coronavírs, cuidar de nossas formas de convívio na paz, na solidariedade e na justiça; cuidar de nosso meio ambiente para que seja um ambiente inteiro, sem destruir os habitats dos vírus que nos vêm dos animais ou dos arborovírus que se situam nas florestas e que fazem uma devastadora intrusão na humanidade, um ambiente este no qual seja possível o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser; cuidar de nossa querida e generosa Mãe Terra.

Se nos cuidamos como a irmãos e a irmãs, desaparecem as causas do medo. Ninguém precisa ameaçar ninguém. Podemos caminhar à noite por nossas ruas sem medo de sermos assaltados e roubados e até mortos.

Esse cuidado será somente efetivo se vier acolitado pela justiça necessária, pelo atendimento às necessidades básicas dos mais vulneráveis, se o Estado se fizer presente com saúde (a importância que o SUS mostrou face ao Covid-19), com escolas, com segurança e com espaços de convivência, de cultura e de lazer.

Só assim gozaremos de uma paz possível de ser alcançada quando houver um mínimo de boa vontade geral e um sentido de solidariedade e de benquerença nas relações humanas. Esse é o desejo inarredável da maioria dos humanos. É essa lição que a intrusão do Covid-19 nos está dando e que temos que incorporá-la nos nossos hábitos no pos pós-coronavírus.

Leonardo Boff é ecoteólogo,filósofo e escreveu:”A Mãe Terra contra-ataca a humanidade: advertências do Covid-19″ a sair brevemente pela Vozes.

tangerinas do meu jardim.

 

Covid-19: un attacco della Terra contro di noi

Fino ad oggi, la preoccupazione per Covid-19 si è concentrata sulla medicina, sulla tecnica e su tutto quello che evita la contaminazione degli operatori sanitari. Si cerca urgentemente un vaccino efficace. Nella società, l’isolamento sociale ed evitare l’affollamento delle persone. Tutto questo è fondamentale. Tuttavia, non possiamo considerare il coronavirus come un fatto isolato. Deve essere visto nel contesto che ha permesso la sua apparizione.

Il virus è venuto dalla natura. Ebbene, come dice papa Francesco nella sua enciclica “sulla cura della Casa comune”: “Non abbiamo mai maltrattato e ferito la nostra Casa comune come negli ultimi due secoli” (n. 53). È stato il processo industriale a ferirla: il socialismo reale (fin quando è esistito) e soprattutto il sistema capitalistico ormai globalizzato. Questo è il Satana della Terra che la sta devastando e che la sta portando ad ogni tipo di squilibrio.

È il principale (non l’unico) responsabile delle varie minacce al sistema-vita e al sistema-Terra: dal possibile olocausto nucleare, al riscaldamento globale, alla carenza di acqua potabile, all’erosione della biodiversità. Faccio eco alle parole del noto geografo americano David Harley: “COVID-19 è la vendetta della natura per più di quarant’anni di maltrattamenti e abusi per mano di un estrattivismo neoliberale violento e non regolamentato”.

Isabelle Stengers, chimica e filosofa della scienza che ha lavorato a lungo in collaborazione con il premio Nobel Ilya Prigogine, sostiene la tesi che sottoscrivo anch’io: “il coronavirus sarebbe un’intrusione della Terra-Gaia nelle nostre società, una risposta all’antropocene”.

Sapevamo di altre intrusioni: la peste nera (la peste bubbonica) che proveniva dall’Eurasia ha decimato un totale stimato di 75-200 milioni di persone. In Europa, tra il 1346 e il 1353, causò la morte di gran parte della sua popolazione, che passò da 475 a 350 milioni di abitanti. Ci sono voluti 200 anni per riprendersi. È stata la più devastante mai conosciuta nella storia. Anche l’influenza spagnola è stata notevole. Originaria probabilmente negli Stati Uniti, tra il 1918-1920 ha contagiato 500 milioni di persone e causato 50 milioni di morti, tra cui il presidente eletto di Brasile Rodrigues Alves nel 1919.

Ora, per la prima volta, un virus ha attaccato l’intero pianeta, causando migliaia di morti senza poterlo fermare a causa della sua rapida diffusione, poiché viviamo in una cultura globalizzata con un grande movimento di persone che viaggiano in tutti i continenti e possono essere portatori dell’epidemia.

La Terra ha già perso il suo equilibrio e ne sta cercando uno nuovo. E questo nuovo potrebbe significare la devastazione di parti importanti della biosfera e di una parte significativa della specie umana.

Questo accadrà, anche se non sappiamo nè quando né come, dicono biologi famosi. Se arriva il temuto NBO (The Next Big One), il prossimo grande virus devastante, potrebbe, secondo il ricercatore dell’USP Prof. Eduardo Massad, portare alla morte circa due miliardi di persone, riducendo l’aspettativa di vita generale da 72 a 58 anni. Altri temono addirittura la fine della specie umana.

Il fatto è che siamo già dentro la sesta estinzione di massa. Secondo alcuni scienziati, abbiamo inaugurato una nuova era geologica, quella dell’antropocene e della sua espressione più dannosa, il necrocene. L’attività umana (antropocene) è responsabile della produzione in massa della morte (necrocene) degli esseri viventi.

I diversi centri scientifici che monitorano sistematicamente lo stato della Terra confermano che, anno dopo anno, i principali elementi che perpetuano la vita (acqua, suolo, aria pulita, semi, fertilità, clima e altro) si stanno deteriorando giorno dopo giorno. Quando finirà tutto questo?

Il giorno di superamento della Terra (The Earth Overshoot day) si è verificato il 29 luglio 2019. Ciò significa che in quella data tutte le risorse naturali disponibili e rinnovabili per quell’anno erano state già consumate. La Terra è andata in rosso, con un assegno scoperto.

Come fermare questo esaurimento delle risorse? Se insistiamo nel mantenere il livello di consumo attuale, soprattutto il consumo dispendioso, dobbiamo esercitare più violenza contro la Terra, costringendola a darci ciò che non ha più o non può più sostituire.

La reazione della Terra si è manifestata mediante eventi estremi, come la flortissima tempesta di vento di Santa Catarina alla fine di giugno (in Brasile) e mediante gli attacchi di diversi tipi di virus conosciuti: zika, chicungunya, ebola, Sars, l’attuale coronavirus e altri. Dobbiamo anche includere la crescita della violenza sociale, poiché la Terra e l’umanità costituiscono un’unica entità relazionale.

O cambiamo il nostro rapporto con la Terra viva e con la natura o dovremo fare i conti con nuovi e più potenti virus che potrebbero annientare milioni di vite umane. Il nostro amore per la vita, la saggezza umana dei popoli e il bisogno di cura non sono mai stato così urgenti.

*Leonardo Boff è ecoteologo e scrittore. Ha scritto il libro O Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade, che sarà pubblicato dalla Editora Vozes quest’anno.

Traduzione di Mª José Gavito e Stefano ToppiLeia mais »