Cuidar do próprio corpo e dos corpos dos outros em tempo do coronavírus

Nesses tempos dramáticos sob o ataque do coronavírus sobre nossas vidas, sobre nossos corpos, nada mais oportuno que fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o que é o nosso corpo e como devemos, agora mais do antes, cuidar dele e dos corpos dos outros.

Para isso, importa, enriquecermos nossa compreensão de corpo, porque aquela herdada dos gregos e ainda vigente na cultura dominante, entende o corpo como uma parte do ser humano ao lado da outra que é a alma. Comprende-se comumente o ser humano como um composto de corpo e alma. Ao morrer, o corpo é devolvido à Terra enquanto a alma é translada para a eternidade, feliz ou infeliz conforme a qualidade de vida que tenha vivido. Tentemos enriquecer nossa compreensão de corpo à luz da nova antropologia.

A unidade complexa corpo-espírito

Tanto a antropologia bíblica quanto a antropologia contemporânea (e há muita afinidade entre elas) nos apresentam uma concepção de corpo mais complexa e holística. Segundo ela, o corpo não é algo que temos mas algo que somos. Falamos então de homem-corpo, todo inteiro mergulhado no mundo e relacionado em todas as direções.

O ser humano apresenta-se primeiramente como corpo. Corpo vivo e não um cadáver, uma realidade bio-psico-energético-cultural, dotada de um sistema perceptivo, cognitivo, afetivo, valorativo, informacional e espiritual.

Ele é feito dos materiais cósmicos que se formaram desde o início do processo da cosmogênese há 13,7 bilhões de anos, da biogênese, há 3,8 bilhões de anos e da antropogênese há 7-8 milhões de anos, portador de 400 trilhões de células, continuamente renovadas por um sistema genético que se formou ao largo de 3,8 bilhões de anos(é a idade da vida), habitado por um quatrilhão de micróbios (Collins, A linguagem da vida, p.200), munido de três níveis do único cérebro com 50 a 100 bilhões de neurônios. O mais ancestral é o reptiliano, surgido há 250 milhões de anos, responde por nossas reações instintivas, como o abrir e fechar os olhos, as batidas do coração e outras, ao redor do qual se formou o cérebro límbico, há 125 milhões de anos, que explica nossa afetividade, o amor e cuidado e, por fim, completado pelo cérebro neo-cortical que irrompeu há cerca de 5-8 milhões de anos, com o qual organizamos conceptualmente o mundo e nos abrimos à totalidade do real.

A corporalidade é uma dimensão da sujeito humano concreto. Isto quer dizer: na realidade, nunca encontramos um espírito puro mas sempre em todo o lugar um espírito encarnado. Pertence ao espírito sua corporalidade e com isso sua permanente relação com todas as coisas. Como homem-corpo emergimos qual nó de relações universais, a partir de nosso estar-no-mundo-com-os-outros.

Este estar-no-mundo-com-os-outros não é uma dimensão geográfica, nem acidental mas essencial. Quer dizer, em cada momento e em sua totalidade o ser humano é corporal e simultaneamente em sua totalidade é espiritual. Somos um corpo espiritualizado como somos também um espírito corporizado. Esta unidade complexa do ser humano não pode ser nunca olvidada.

Desta forma os atos espirituais mais sublimes ou os voos mais altos da criação artística ou da mística vem marcados pela corporalidade. Como os mais comezinhos atos corporais como comer, lavar-se, dirigir um carro, vem penetrados de espírito.. O corpo é o espírito se realizando dentro da matéria. E o espírito é a transfiguração da matéria.

Neste sentido, podemos dizer que o espírito é visível. Quando olhamos, por exemplo, um rosto não vemos apenas os olhos, a boca, o nariz e o jogo dos músculos. Surpreedemos também alegria ou angústia, resignação ou confiança, brilho ou abatimento. O que se vê, pois, é um corpo vivificado e penetrado de espírito. De forma semelhante, o espírito não se esconde atrás do corpo. Na expressão facial, no olhar, no falar, no modo de estar presente e mesmo no silêncio se revela toda a profunidade do espírito.

               As forças de autoafirmação e de integração

Por outro lado, importa entender que, biologicamente, somos seres carentes. Não somos dotados de nenhum órgão especializado que nos garantisse a sobrevivência ou nos defendesse dos riscos, como ocorre com os animais. Um patinho nasce e já sai nadando. O ser humano, não, ele precisa aprender. Alguns biólogos chegam a dizer que somos “um animal doente” um “faux pas”, uma “passagem” (Übergang) para outra coisa mais alta ou complexa, por isso nunca somos fixados, somos inteiros mas ainda não completos, sempre por fazer.

Tal verificação tem como consequência que precisamos continuamente garantir a nossa existência, mediante o trabalho e a inteligente intervenção na natureza. Deste esforço, nasce a cultura que organiza de forma mais estável as condições infra-estruturais e também humano-espirituais para vivermos humanamente melhor e mais cômodos.

Acresce ainda outro dado, presente também em todos os seres do universo, mas que no nível humano ganha especial relevância, especialmente com referência ao cuidado. Vigoram duas forças em cada ser e em nós. A primeira é a força da auto-afirmação, a segunda a força da integração. Elas atuam sempre juntas num equilíbrio difícil e sempre dinâmico.

Pela força da auto-afirmação cada ser, no caso, o ser humano,  se centra em si mesmo e seu instinto é conservar-se, defendendo-se contra todo tipo de ameaça contra sua integridade e sua vida. Defende-se ao ser ameaçado de morte. Ninguém aceita simplesmente morrer. Luta para continuar a viver, a desenvolver-se e a se expandir. Essa força explica a persistência e a subsistência de cada indivíduo.

Precisamos neste ponto superar totalmente o darwinismo social segundo o qual somente os mais bem dotados triunfam e permanecem. Essa é uma meia verdade que está na contramão do processo evolucionário. A lei básica da universo é a relação de todos com todos e a cooperação entre todos para que possam existir e continuar a evoluir. Este processo não privilegia só os mais bem dotados. Se assim fora, os dinossauros estariam ainda entre nós. O sentido da evolução é permitir que todos os seres, também os mais vulneráveis, expressem dimensões da realidade e virtualidades latentes dentro do universo em evolução. Repetimos: esse é o valor da interdependência de todos com todos e da solidariedade cósmica. Todos se entre-ajudam para coexistir e co-evoluir. Os fracos também merecem viver e tem algo a nos dizer. Observem que num pequeno buraco do asfalto nasce uma plantinha. É um milagre da vida e nos dá uma mensagem da força da vida.

Pela força da integração o indivíduo se descobre   integrado numa rede de relações, sem as quais, sozinho como indivíduo não viveria nem sobreviveria. Todos os seres são interconectados e vivem uns pelos outros, com os outros e para os outros. O indivíduo se integra, pois, naturalmente, num todo maior, na família, na comunidade e na sociedade. Mesmo que o indivíduo morra, o todo garante que a espécie continue, permitindo que outros representantes venham nos suceder.

Sabedoria humana é reconhecer que chega certo momento na vida no qual a pessoa deve se despedir, agradecida, para deixar o lugar, até fisicamente, a outros que virão.

O universo, os reinos, as espécies e também os seres humanos se equilibram entre estas duas forças, a da auto-afirmação do indivíduo e a da integração num todo maior. Mas esse processo não é linear e sereno. Ele é tenso e dinâmico. O equilíbrio das forças nunca é um dado, mas um feito a ser alcançado a todo o momento.

É aqui que entra o cuidado. Se não cuidarmos pode prevalecer ou a auto-afirmação do indivíduo à custa de uma insuficiente integração no todo e então predomina o eu, o individualismo, o autoritarismo e a violência ou pode prevalecer a integração, o nós a preço do enfraquecimento e até anulação do eu, do indivíduo e então ganha a partida o coletivismo e o achatamento das individualidades. O cuidado aqui se traduz na justa medida e na autocontenção para não privilegiar nenhuma destas forças.

Efetivamente, na história social humana, surgiram sistemas que ora privilegiam o eu, o indivíduo, seu desempenho e a propriedade privada como é o caso do sistema capitalista ou ora prevalece o nós, o coletivo e a propriedade social como é o caso do socialismo real. A exacerbação de uma destas forças em detrimento da outra leva a desequilíbrios, a devastações e a tragédias. O cuidado desaparece para dar lugar à vontade de poder e até da brutalidade.

Para equilibrar estas duas forças se projetou a democracia que procura incluir e articular e eu com o nós, onde cada indivíduo pode participar e com outros criar o nós social. Dessa convivência do eu com o nós nem sempre fácil, nasce a busca do bem comum. Democracia é participação de todos, na família, na comunidade, nas organizações e na forma de organizar o Estado. É um valor universal a ser sempre vivido e alimentado.

Qual é o desafio que se dirige ao ser humano? É o cuidado de buscar o equilíbrio construido conscientemente e fazer desta busca um um propósito e uma atitude de base. Portador de consciência e de liberdade, o ser humano possui esta missão que o distingue dos demais seres. Só ele pode ser um ser ético, um ser que cuida se responsabiliza por si (eu) e pelo destino dos outros (nós). Ele pode ser hostil à vida, oprimir e devastar. Pode ser também o anjo bom, guardador e protetor de todo o criado. Depende de seu empenho em cuidar ou deixar que forças obscuras e incontroláveis assumam o curso da vida.

Por causa da liberdade, ele não está submetido à fatalidade do dinamismo das coisas. Ele pode intervir e salvar o mais fraco, impedir que uma espécie desapareça ou criar condições que diminuam o sofrimento, como é o caso no momento atual.

No lugar da lei do mais bem dotado e forte,  propõe-se a lei do cuidado do menos dotado e mais fraco. Só o ser humano pode fazer isso. Por isso ele foi constituído como guardião dos seres, o jardineiro que cuida e guarda o Jardim do Éden (Terra). Ele emerge como o cuidador das criaturas que mais precisam de condições de vida e de inserção no todo. Desta forma assegura um futuro para o maior número de pessoas e de representantes de outras espécies. Esse é o desafio para o nosso país e para toda a Terra assolada pelo Covid-19.

             Os desafios do cuidado pelo próprio corpo

Depois desta longa introdução surge a pergunta: como cuidar de nosso próprio corpo? Esse ponto é fundamental neste momento em que devemos acolher o isolamento social para nos proteger do coronavírus.

Antes de mais nada, impõe-se um esforço de manter nossa integridade e unidade complexa. Devemos assumir nosso enraizamento no mundo, com suas relações de família, de trabalho, de profissão e de empenho pela sobrevivência. E fazê-lo com inteireza, sabendo que somos a parte consciente e inteligente do todo, capaz de valorizar cada iniciativa, desde aquela que diz respeito à higiene do corpo, até o trabalho mais sofisticado da inteligência.

Nesse momento é dever proteger-se com a máscara quando saímos de casa e lavar continuamente as mãos com sabão ou com álcoo-gel. O homem-corpo é essa unidade complexa e exige todos estes cuidados, especialmente nesse momento dramático de nossa vida.

Faz-se mister de opor-se conscientemente aos dualismos que a cultura persiste em manter, por um lado o “corpo”, desvinculado do espírito e por outro do “espírito” desmaterializado de seu corpo. O marketing explora esta dualidade, apresentando o corpo não como a totalidade do humano, mas sua parcialização, seus rostos, seus seios, seus músculos, suas mãos, seus pés, enfim, suas partes.

Principais vítimas desta retaliação são as mulheres, embora não sejam as únicas, pois a visão machista se refugiou no mundo mediatico da propaganda usando partes da mulher: o rosto, seus olhos, seus seios, seu sexo e outras partes, continuando perversamente a fazer da mulher um “objeto de cama e mesa”. Devemos nos opor a esta deformação cultural.

Importa também recusar o mero “culto do corpo” pelo sem número de academias e outras formas de trabalho sobre a dimensão física como se o homem-corpo fosse uma máquina destituída de espírito, buscando performances musculares que não conhecem limites. Com isso não queremos desmerecer os benefícios que representam as academias. Afirmando positivamente isso, cabe enfatizar a alimentação equilibrada e sadia, as vantagens inegáveis dos exercícios de ginástica, as massagens que revigoram o corpo e fazem fluir as energias vitais, particularmente, as ginásticas orientais, entre elas a capacidade de o yoga de fortalecer a harmonia corpo-mente.

O vestuário merece uma consideração especial. Ele não possui apenas uma função utilitária ao nos proteger das intempéries e de encobrir o que na nossa cultura (diferente da dos indígenas) são as partes sexuais. Ele pertence ao cuidado do corpo, pois o vestuário representa uma linguagem, uma forma de revelar-se no cenário da vida. É importante cuidar que o vestuário seja expressão de um modo de ser e mostre o perfil humano e estético da pessoa.

Constitui uma demonstração de anemia de espírito as belezas construidas por mil meios para ser aquilo que a vida não quis que as pessoas fossem. Há uma beleza própria de cada idade, um charme que nasce do trabalho que a vida e o espírito fizeram na expressão “corporal” do ser humano. Não há fotoshops que substituam a beleza rude de um rosto de um trabalhador, talhado pela dureza da vida, pelos traços faciais moldados pelo sofrimento e pela luta. Elas ganham uma expressão de grande força e energia. Falam da vida real e não artificial e construida. As fotos trabalhadas dos ícones da beleza convencional são todos parecidos, e mal disfarçam a artificialidade da figura construída pelo marketing.

Todos estes artificialismos de nossa cultura mais ligada ao mercado que às necessidades reais da vida, levam a não cultivar o cuidado próprio de cada fase da vida, com sua beleza e irradiação singular mas também com as marcas de uma vida vivida que deixou estampada no rosto e no corpo as lutas, os sofrimentos, as superações. Tais marcas são condecorações e criam uma beleza iniqualável e uma irradiação específica, ao invés de engessar-se num tipo de perfil de um passado já vivido.

Positivamente cuidamos do corpo regressando para onde, por séculos. nos havíamos exilado: para a natureza e para uma relação benigna para com o todo da Terra. Isso significa estabelecer uma relação de biofilia,  de amor e de sensibilização para com os animais, as flores, rosas e plantas, os climas, as águas, com as paisagens, com a Terra. Quando a Terra vem mostrada a partir do espaço exterior com essas belas imagens do globo terrestre transmitidas pelos grandes telescópios ou pelas naves espaciais irrompe em nós um sentido de reverência, de respeito e de amor pela nossa Casa Comum, a nossa Grande Mãe de cujo útero todos viemos. Sentimo-nos humildes quando contemplamos a Terra como um pálido ponto azul, a última foto dela tirada antes de deixar o sistema solar e penetrar no infinito do espaço sideral.

Talvez o desafio maior para o homem-corpo consiste em lograr um equilíbrio entre a autoafirmação, sem cair na arrogância e no rebaixamento dos outros, e entre a integração no todo maior, da família, da comunidade, do grupo de trabalho e da sociedade, sem deixar-se massificar e cair no adesismo acrítico.

A busca deste equilíbrio não se resolve uma vez por todas, mas deve ser assumido diuturnamente, pois, ele nos é cobrado a cada momento. E cada situação, por mais estranha que possa parecer, é suficientemente boa para encontrarmos o balanço adequado entre as duas forças que nos podem dilacerar ou nos podem unificar e dar leveza à nossa existência.

O cuidado em nossa inserção no estar-no-mundo-com-outros envolve nossa dieta: o que comemos e bebemos. Fazer do comer mais que um processo de nutrição mas um rito de comunhão com os frutos da generosidade da Terra. Assim cada refeição é uma celebração da vida. Saber escolher os produtos, os produzidos organicamente ou os menos quimicalizados. Aqui entra o cuidado como amorosidade para consigo mesmo que se traduz numa vida saudável e como precaução contra eventuais enfermidades que nos podem advir pelo ar contaminado, pelas águas maltratadas, pela geral intoxicação do ambiente.

O homem-corpo deve deixar transparecer essa harmonia interior e exterior, como membro da grande comunidade terrenal e biótica.

          O cuidado pelo corpo dos outros, dos pobres, da Terra

A maioria dos corpos humanos são enfermos, emagrecidos e deformados por demasiadas carências. Há uma humanidade-corpo faminta, sedenta, desesperada no espírito pelo excesso de trabalho explorado e pela humilhação de serem tratados como carvão a ser consumido no processo produitivo, na expressão do antropólogo Darcy Ribeiro.

Cuidado para com os corpos dos empobrecidos e condenados da Terra é não negá-los e desprezá-los como ocorre na nossa tradição escravagista. Mas considerá-los como co-iguais com os mesma dignidade e direitos. Socialmente é lutar por políticas públicas, como foram feitas pelos projetos sociais da “Fome Zero”, “Luz para Todos”, “Minha Casa, minha Vida” com a agricultura ecológica e familiar e outros, como as cozinhas comunitárias, como as UPAS e outras iniciativas que organizam a solidariedade social para que todos possam ver realizado seu direito à comensalidade, a poder comer o suficiente e decente de cada dia.

Permito-me dar um exemplo:No nosso Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, desenvolvemos um projeto “Pão e Beleza”, dando à população de rua uma boa refeição diária (cerca de 300 pessoas: o momento do Pão) e em seguida o momento da Beleza que é a conquista de sua dignidade, a começar pelo nome (pois a maioria tem apelidos), fazendo círculos de discussão sobre seus próprios problemas, acompanhá-los quando doentes à assistência médica ou psicológica e ver como reintegrá-los na sociedade com algum trabalho. A perspectiva continua sendo cuidar do ser humano integral, corpo-espirito, através do Pão necessário e do Espírito cultivado.

Importante em termos de uma pedagogia libertadora é contribuir para que as próprios carentes, como sujeitos, se organizem e com sua pressão garantam as bases que sustentam a vida. Mas não apenas saciar a fome de Pão, sempre necessária e saciável, mas também sua fome de Beleza, insaciável, de reconhecimento, de respeito, de comunhão, de Transcendência, sempre aberta a um desenvolvimento ilimitado.

Cuidar do corpo social é uma missão política que exige uma crítica severa contra um sistema de relações que trata as pessoas como coisas e lhes negam o acesso aos commons aos bens comuns que  todos os seres humanos têm direito, como o alimento, a água, um pedaço de chão, o tratamento do esgoto e do lixo, a saúde, a moradia, a cultura e a segurança.

Na verdade, aqui se imporia uma verdadeira revolução humanitária. Mas não basta querê-la. Precisam-se das condições histórico-sociais que a viabilizem e a tornem vitoriosa. É a utopia mínima a ser realizada até por um mínimo senso ético.

Hoje mais que em outras épocas, urge cuidar do corpo da Mãe Terra, marcado por chagas que não se fecham. Há devastações inimagináveis no reino animal, vegetal nos solos subsolos e nos mares. Já externei a opinião de que possivelmente o coronavírus seja uma reação da Mãe Terra, um  contra-ataque à sistemática violência que continuamente sofre.

Ou cuidamos do corpo da Mãe Terra ou corremos o risco de não haver mais lugar para nós ou ela não nos querer mais sobre seu solo. Cuidar do corpo da Terra é cuidar dos dejetos, da limpeza geral das ruas, praças, das águas do ar, dos transportes, interessar-se por tudo o que diz respeito sobre seu estado do planeta, acompanhando pelos meios de comunicação como está sendo tratado, agredido ou curado.

Por fim, seja-nos permitido recordar a mensagem cristã que, pela encarnação do Filho de Deus, santificou a matéria e também a eternizou. A ressurreição do homem das dores, chagado e crucificado vem confirmar que o fim dos caminhos de Deus não é um “espírito” sem a matéria, mas o homem-corpo transfigurado, que realizou todas as potencialidades nele escondidas e elevado ao mais alto grau de sua evolução humana e divina.

É o supremo cuidado que Deus mostrou para com o homem-corpo, ressuscitando-o como homem novo, “o novíssimo Adão”como o chama São Paulo e enfim, assumindo-o para dentro de sua própria realidade infinita e eterna

Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu O destino do homem e do mundo, Vozes,muitas edições 2012.

 

 

 

 

 

 

La pascua en un prolongado viernes santo

¿Cómo celebrar la pascua, la victoria de la vida sobre la muerte, y más aún, la irrupción del hombre nuevo, en el contexto de un viernes santo de pasión, dolor y muerte, que no sabemos cuándo termina, bajo el ataque del coronavirus sin distinción a toda la humanidad?

Apesadumbrados, incluso en esta pandemia es apropiado celebrar la pascua con una reservada alegría. No es sólo una fiesta cristiana, responde a una de las más antiguas utopías humanas: la irrupción del hombre nuevo.

En todas las culturas conocidas, desde la antigua epopeya mesopotámica de Gilgamés, pasando por el mito griego de Pandora, hasta la utopía de la Tierra sin Males de los Tupí-Guaraní, existe la percepción de que el ser humano tal como lo conocemos debe ser superado. No está listo. Aún no ha acabado de nacer. El verdadero hombre está latente en los dinamismos de la cosmogénesis y la antropogénesis. Aparece como un proyecto infinito, portador de innumerables potencialidades que forcejean por irrumpir. Intuye que sólo será plenamente hombre, el hombre nuevo, entonces, cuando tales potencialidades se realicen plenamente.

Todos sus esfuerzos, por grandes que sean, se topan con una barrera insuperable: la muerte. Incluso la persona más vieja llegará un día en que también morirá. Alcanzar una inmortalidad biológica, conservando las actuales condiciones espacio-temporales, como algunos proponen, sería un verdadero infierno: buscar realizar el infinito dentro de sí y encontrar sólo finitos que nunca lo sacian. Siempre está a la espera. Tal vez el espíritu mataría al cuerpo para realizar lo infinito de su deseo.

Pero he aquí que un hombre se levanta en Galilea, Jesús de Nazaret, y proclama: “El tiempo de espera ha terminado. Se acerca el nuevo orden que va a ser introducido por Dios. Revolucionad vuestra forma de pensar y de actuar. Creed esta buena noticia” (cf. Mc 1,15; Mt 4,17).

Conocemos la trágica saga del profético Predicador: “Vino a los suyos y los suyos no le recibieron” (Jn 1,11). Él que “pasó por el mundo haciendo el bien” (Hch 10,39) fue rechazado y terminó clavado en la cruz.

Pero he aquí que tres días después, las mujeres fueron muy de madrugada al sepulcro y oyeron una voz: “¿Por qué buscáis entre los muertos al que está vivo? Jesús no está aquí. Ha resucitado” (Lc 24,5; Mc 16,6).

Este es el hecho nuevo y siempre esperado: la buena noticia se ha hecho realidad. De un muerto surgió un resucitado, un ser nuevo. Este es el significado de la Pascua, la fiesta central del cristianismo. Sus seguidores pronto entendieron que el Resucitado era la realización del sueño ancestral de la humanidad: la espera ha terminado. Ahora es el tiempo de la vida plena sin muerte. Liberado del espacio y del tiempo y de los condicionamientos humanos, el Resucitado aparece, desaparece, se hace presente con los caminantes de Emaús, se presenta en la playa y come con los apóstoles y se le reconoce al partir el pan.

Los Apóstoles no saben cómo definirlo. San Pablo, el mayor genio del pensamiento cristiano, eligió la palabra correcta: “Él es el novísimo Adán” (1Cor 15,45). El Adán no sometido ya a la muerte, el que dejó atrás al viejo Adán mortal.

Como si se burlara, provoca San Pablo: “Oh, muerte, ¿dónde está tu victoria? ¿Dónde está el aguijón con el que asustabas a los hombres? La muerte ha sido tragada por la victoria de Cristo” (1Cor 15,55). Y lo define como “un cuerpo espiritual” (1Cor 15,44), es decir, es concreto y reconocible como cuerpo humano, pero de una manera diferente, con las cualidades del espíritu. El espíritu tiene una dimensión cósmica. Está en el cuerpo, pero también en las estrellas más distantes y en el corazón de Dios. Lo espiritual también se entiende como la forma de ser propia del Espíritu Santo. Está en todo, mueve todas las cosas y llena el universo.

Un antiguo texto, de los años 50, del Evangelio de Santo Tomás dice bellamente: “Levanta la piedra y estoy debajo de ella; parte la leña y estoy dentro de ella, porque estaré con vosotros todos los días hasta la plenitud de los tiempos”. Levantar una piedra requiere fuerza, cortar leña requiere esfuerzo. Incluso ahí está el Resucitado, en las cosas más cotidianas.

En sus epístolas, especialmente a los Efesios y a los Colosenses, San Pablo desarrolla una verdadera cristología cósmica. Él “es todo en todas las cosas” (Col 3,12); “la cabeza del cosmos” (Ef 1,10). En el lenguaje de la cosmología moderna, el paleontólogo y pensador Pierre Teilhard de Chardin dirá lo mismo en el siglo XX.

Tenemos que entender la resurrección correctamente. No es la reanimación de un cadáver, como el de Lázaro que volvió a ser lo que era antes y terminó muriendo. La resurrección es la plena realización de todas las potencialidades escondidas dentro de la realidad humana. La muerte ya no ejerce dominio sobre él. Es efectivamente el nacimiento terminal del ser humano, como si hubiera llegado a la culminación del proceso evolutivo o lo hubiera anticipado. En la fuerte expresión de Teilhard de Chardin, el Resucitado explosionó e implosionó en Dios.

La pascua es la inauguración del hombre nuevo, plenamente realizado. Es aplicable para todos los seres humanos. Por lo tanto, tal bendito evento no es exclusivo de Jesús. San Pablo nos asegura que participamos de esta resurrección: “Él es la primicia (la anticipación) de los que mueren” (1Cor 5,20), “el primero entre muchos hermanos y hermanas” (Rm 8,29).

A la luz de esta fiesta pascual podemos decir que la alternativa cristiana no es la vida o la muerte sino ésta: la vida o la resurrección. Afirmamos y reafirmamos con alegría: no vivimos para morir, sino para resucitar.

Leonardo Boff es teólogo y ha escrito: La resurrección de Cristo y nuestra resurrección en la muerte, Vozes, muchas ediciones, 2012, Trotta 2010.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Venerdì Santo: Gesù è ancora crocifisso nei crocifissi della storia

In questo tempo del coronavirus che sta causando paura e portando morte a molte persone in tutto il mondo, la celebrazione del Venerdì Santo assume un speciale significato. C’è Qualcuno che ha anche sofferto e, in mezzo a dolori terribili, è stato crocifisso, Gesù di Nazareth. Sappiamo che tra tutti coloro che soffrono si stabilisce un misterioso legame di solidarietà. Il Crocifisso, sebbene attraverso la risurrezione è stato fatto l’uomo nuovo e il Cristo cosmico, continua, proprio per questa ragione, a soffrire e ad essere crocifisso in solidarietà con tutti i crocifissi della storia. Così sarà oggi e fino alla fine dei tempi.

Gesù non è morto perché tutti dobbiamo morire. Fu assassinato a seguito di un doppio processo giudiziario, uno da parte dell’autorità politica romana e l’altro dall’autorità religiosa ebraica. La sua condanna era dovuta al suo messaggio del Regno di Dio, che implicava una rivoluzione assoluta in tutte le relazioni, alla sua nuova immagine di Dio come “Padre” (Abba) pieno di misericordia, alla libertà che predicava e viveva di fronte alle dottrine e le tradizioni che pesavano sulle spalle delle persone, al suo amore incondizionato, in particolare verso i poveri per i quali aveva compassione ed i malati che curava e, infine, per presentarsi come il Figlio di Dio. Questi atteggiamenti hanno rotto con lo status quo politico-religioso dell’epoca. Hanno deciso di eliminarlo.

Né morì semplicemente perché Dio lo voleva, il che sarebbe in contraddizione con l’immagine amorevole di Dio che ha annunciato. Ciò che Dio voleva, questo sì, era la sua fedeltà al messaggio del Regno e a Lui, sebbene ciò implicasse la morte. La morte è stata il risultato di questa fedeltà di Gesù a suo Padre e alla sua causa, il Regno, fedeltà che è uno dei più grandi valori di una persona.

Quelli che lo hanno crocifisso non potevano definire il senso di questa condanna. Lo stesso Crocifisso ha definito il suo significato: un’espressione di amore estremo e di donazione senza riserve per raggiungere la riconciliazione e il perdono per tutti coloro che lo hanno crocifisso e la solidarietà con tutti coloro che sono stati crocifissi nella storia, in particolare quelli che sono crocifissi innocentemente. È la via della liberazione e della salvezza umana e divina.

Affinché quella morte fosse davvero la morte, come l’ultima solitudine umana, attraversò la tentazione più terribile che chiunque potesse attraversare: la tentazione della disperazione. Ciò è evidente nel suo grido sulla croce. Lo scontro ora non è con le autorità che lo hanno condannato. È con suo Padre.

Il Padre con il quale ha vissuto una profonda intimità filiale, il Padre che aveva annunciato come misericordioso e con la bontà di una Madre, il Padre, il cui progetto, il Regno, aveva proclamato e anticipato nella sua prassi liberatrice, questo Padre ora, nel momento supremo della croce, sembra averlo abbandonato. Gesù attraversa l’inferno dell’assenza di Dio.

Verso le tre del pomeriggio, poco prima del momento finale, Gesù grida a gran voce: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Mio Dio, mio Dio, perché mi hai abbandonato?” Gesù è sull’orlo della disperazione. Dal più profondo vuoto del suo spirito, sorgono domande terrificanti che costituiscono la più terribile tentazione, peggio delle tre di Satana nel deserto.

La mia lealtà al Padre era assurda? La lotta per il Regno, la grande causa di Dio, non aveva senso? Sono stati vani i pericoli che correvo, le persecuzioni subite, il degradante processo capitale a cui sono stato sottoposto e la crocifissione che sto soffrendo?

Gesù è nudo, indifeso, totalmente vuoto davanti al Padre che tace. Questo silenzio rivela tutto il suo mistero. Gesù non ha nulla a cui aggrapparsi.

Per i criteri umani, ha completamente fallito. La sua certezza interiore svanì. Ma anche se il terreno scompare sotto i suoi piedi, continua a fidarsi del Padre. Poi grida a gran voce: “Mio Dio, mio Dio!” Nel pieno della disperazione, Gesù si concede al Mistero davvero senza nome. Sarà la sua unica speranza e sicurezza. Non ha più alcun sostegno in se stesso, solo in Dio. L’assoluta speranza di Gesù è comprensibile solo assumendo la sua assoluta disperazione.

La grandezza di Gesù fu sopportare e superare questa terribile tentazione. Ma questa tentazione gli procurò un totale spogliarsi di se stesso, un essere nudo e un vuoto assoluto. Solo in questo modo la morte è davvero completa, nelle parole del Credo, una “discesa all’inferno” dell’esistenza, senza nessuno che ci accompagni. D’ora in poi, nessuno sarà solo nella morte. Lui sarà con noi perché ha sperimentato la solitudine di questo “inferno” del Credo.

Le ultime parole di Gesù mostrano la sua consegna, non rassegnata ma libera: “Padre, nelle tue mani consegno il mio spirito” (Lc 23,46). “Tutto è compiuto” (Gv 19:30) “E con un forte grido, Gesù spirò” (Mc 15:37).

Questo vuoto totale è il presupposto per la pienezza totale. Il vuoto richiede di essere riempito. Questo è avvenuto attraverso la sua resurrezione. È la risposta del Padre alla fedeltà del Figlio, a colui che ha passato per questo mondo “facendo del bene” (At 10,39), guarendo alcuni e resuscitando altri. Questa resurrezione non è la rianimazione di un cadavere, come quella di Lazzaro, ma l’irruzione dell’uomo nuovo (novissimus Adam: 2Cor 15,45), le cui latenti virtualità implosero ed esplosero in piena realizzazione e fioritura.

Ora il Crocifisso è il Risorto, presente in tutte le cose, il Cristo cosmico delle epistole di San Paolo e di Teilhard de Chardin. Ma la sua resurrezione non è ancora completa. Mentre i suoi fratelli e le sue sorelle rimangono crocifissi, la pienezza della risurrezione è in corso e ha ancora un futuro. Come insegna San Paolo, “lui è il primo tra tanti fratelli e sorelle” (Rm 8,29; 2 Cor 15,20). Perciò, con la sua presenza di Risorto, accompagna la Via Crucis dei dolori delle sue sorelle e fratelli umiliati e offesi.

Viene crocifisso nei milioni di persone che ogni giorno soffrono la fame nelle favelas, dove sono sottoposti a condizioni di vita e di lavoro disumane. Crocifisso in quelli in terapia intensiva che stanno combattendo, senza aria, contro il coronavirus. Crocifisso in chi è emarginato nelle campagne e nelle città, in quelli discriminati per essere neri, indigeni, fuggiti dalle schiavitù, poveri e di un diverso orientamento e sessuale.

Continua a essere crocifisso in quelli perseguitati per la loro sete di giustizia, in coloro che rischiano la vita in difesa della dignità umana, in particolare quella degli invisibili. Crocifisso in tutti coloro che combattono, senza successo immediato, contro i sistemi che succhiano il sangue degli operai, dilapidano la natura e producono profonde ferite nel corpo di Madre Terra. Non ci sono abbastanza stazioni su questa via dolorosa per descrivere tutti i modi in cui il Crocifisso/Risorto continua a essere perseguitato, imprigionato, torturato e condannato.

Ma nessuno di loro è solo. Gesù cammina, soffre e resuscita in tutti questi suoi compagni di tribolazione e di speranza. Ogni vittoria della giustizia, della solidarietà e dell’amore sono beni del Regno che si sta già realizzando nella storia, un Regno di cui saranno i primi eredi.

*Leonardo Boff, teologo, ha scritto: Pasione de Cristo – pasione del mundo, Vozes 2007,Trotta 2002.

Traduzione di M. Gavito e S. Toppi

A páscoa numa sexta-feira santa prolongada

Como celebrar a páscoa, a vitória da vida sobre a morte, mais ainda, a irrupção do homem novo, no contexto de uma sexta-feira santa de paixão, dor e morte, que não sabemos quando acaba, sob o ataque do coronavírus, indistintamente, à toda a humanidade?

Pesarosos, mesmo dentro desta pandemia, cabe celebrar a páscoa com reservada alegria. Ela não é apenas uma festa cristã mas responde a uma das mais ancestrais utopias humanas: a irrupção do homem novo.

Sempre houve em todas as culturas conhecidas, desde a antiga epopeia mesopotâmica de Gilgamés, passando pelo mito grego de Pandora e chegando à utopia da Terra sem Males dos tupi-guarani, a percepção de que o ser humano assim como o conhecemos deve ser ser superado. Ele não está pronto. Ainda não acabou de nascer. O verdadeiro homem está latente dentro dos dinamismos da cosmogênese e da antropogênese. Comparece como um projeto infinito, portador de potencialidades incontáveis que forcejam por irromper. Intui que só será plenamente homem, então, o homem novo, quando tais potencialidades se realizarem em plenitude.

Todos os seus esforços, por maiores que sejam, esbarraram numa barreira intransponível: a morte. Mesmo o mais velho, chega o dia em que também vai morrer. Alcançar uma imortalidade biológica, conservadas as atuais condições espacio-temporais, como alguns propõem, seria um verdadeiro inferno: buscar realizar o infinito dentro de si e encontrar apenas finitos que nunca o saciam. Sempre está na espera. Talvez o espírito mataria o corpo para poder realizar o infinito de seu desejo.

Mas eis que um homem se levanta na Galileia, Jesus de Nazaré e proclama: “O tempo da espera se esgotou. Aproximou-se a nova ordem a se introduzida por Deus. Revolucionai-vos em vosso modo de pensar e de agir. Crede nessa alvissareira notícia”(cf. Mc 1,15: Mt 4,17).

Conhecemos a saga trágica do profético Pregador:”veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1.11). Ele que “passou pelo mundo fazendo o bem”(At 10,39) foi rejeitado e acabou pregado na cruz.

Mas eis que três dias após, mulheres foram, bem de madrugada, ao sepulcro e ouviram uma voz:”Por que procurais entre os mortos, quem está vivo? Jesus não está aqui. Ressuscitou”(Lc 24,5;Mc 16,6).

Eis o fato novo e sempre esperado:a alvissareira notícia se realizou. De um morto emergiu um ressuscitado, um ser novo. É o sentido da páscoa, a festa central do Cristianismo. Seus seguidores logo entenderam que o Ressuscitado era a realização do sonho ancestral da humanidade: acabou a espera. Agora é o tempo da vida plena sem a morte. Liberto do espaço e do tempo e dos condicionamentos humanos o Ressuscitado aparece, desaparece, está presente com os andantes de Emaus,se apresenta na praia e come com os apóstolos e é reconhecido ao partir o pão.

Os Apóstolos não sabem como defini-lo. São Paulo, o maior gênio do pensamento cristão, escolheu a palavra certa: “Ele é o Adão novíssimo”(1 Cor 15,45). O Adão não mais submetido à morte mas aquele que deixou para trás o velho Adão mortal.

Como que zombando, provoca São Paulo:”Ó morte,onde está a tua vitória? Onde está o espantalho com o qual amedrontavas os homens? A morte foi tragada pela vitória de Cristo (1Cor 15,55). Define-o como sendo “um corpo espiritual” (1 Cor 15,44), vale dizer, é concreto e reconhecível como o corpo humano, mas de forma diferente, com as qualidades do espírito. O espírito possui uma dimensão cósmica. Está no corpo,mas também nas estrelas mais distantes e no coração de Deus. O espiritual é entendido também como a maneira de ser própria do Espírito Santo. Ele está em tudo,move todas as coisas e enche o universo.

Um texto antigo, dos anos 50, do evangelho de São Tomé, diz belamente:”levante a pedra e eu estou debaixo dela, rache a lenha e eu estou dentro dela, pois estarei convosco todos os dias até a plenitude dos tempos”. Levantar uma pedra exige força, cortar lenha demanda esforço. Mesmo ai, está o Ressuscitado, nas coisas mais comezinhas do cotidiano.

Em suas epístolas, especialmente aos Efésios e aos Colossenses, São Paulo desenvolve uma verdadeira cristologia cósmica. Ele “é tudo em todas as coisas”(Col 3,12); “a cabeça de todas as coisas” (Ef 1,10). O  mesmo dirá, no século XX, na linguagem da moderna cosmologia, o palentólogo e pensador Pierre Teilhard de Chardin.

Devemos compreender corretamente a ressurreição. Não se trata da reanimação de um cadáver, como aquele de Lázaro que voltou ao que era antes e acabou morrendo. Ressurreição é a realização plena de todas as potencialidades abscoditas dentro da realidade humana. A morte não possui nenhum domínio mais sobre ele. Efetivamente é o nascimento terminal do ser humano, como se ele tivesse chegado na culminância do processo evolutivo ou o tivesse antecipado. Na forte expressão de Teilhard de Chardin, o Ressuscitado explodiu e implodiu para dentro de Deus.

A páscoa é a inauguração do homem novo, plenamente realizado. Vale para todos os humanos. Portanto, tal evento bem-aventurado não é exclusivo de Jesus. São Paulo nos assegura que nós participamos desta ressurreição:”ele é as primícias (a antecipação) dos que morrem” (1Cor 5,20), “o primeiro entre muitos irmãos e irmãs”(Rom 8,29).

À luz desta festa pascal podemos dizer que a alternativa cristã é esta: ou a vida ou a ressurreição. Alegremente afirmamos e reafirmamos: não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar

Leonardo Boff é teólogo e escreveu A ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição na morte, Vozes,muitas edição 2012.