Que mudanças o Papa pode introduzir na Igreja?

Há poucas semanas dei uma entrevista por e-maisl à jornalista Aline Rodrigues Imécio  da  Revista Epoca. Por razões alheias a ela, a revista não foi publicada. Como são muitos que me fazem perguntas semelhantes aquelas que ela me fez, publico-a aqui. Talvez possa interessar a alguns já que o Papa está nestas semanas intencionsalmente peregrinando pelos países mais pobres da América Latina: o Equador, a Bolívia e o Paraguai.

1-) A partir da posse do Papa Francisco assistimos a algumas mudanças no comportamento tradicional de um Papa. Francisco escolheu dormir em um aposento simples na Casa de Santa Marta, utiliza um crucifixo de latão, recusou o carro oficial do Vaticano dentre outros privilégios. O senhor considera que o Papa Francisco pode ser capaz de mudar a imagem da Igreja católica ou pelo menos a imagem que temos do Papa tradicional?

R/ Cabe lembrar que o Papa vem de fora, não vem da velha cristandade européia, agônica e sem futuro pela frente. O modelo de Igreja européia é ter um Papa como uma espécie de faraó ou imperador romano,  com todos os hábitos, paramentos e títulos que herdou dos imperadores romanos, desde  a “mozzeta” (capinha sobre os ombros), símbolo do absoluto poder imperial até a vida nos palácios e os hábitos que os palácios impõem. O bispo de Roma, assim que ele gosta de se chamar que é o título mais antigo, despaganziou a figura do Papado. Não vive no palácio mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Renunciou a todos os símbolos do poder. A famosa “mozzeta” ele a  deu de presente ao secretário para que a levasse para sua casa. Isso decepcionou os europeus em geral e irritou os conservadores, como se o Papa tivesse perdido a dignidade do cargo. O que orienta o Papa é a Tradição de Jesus que é anterior aos evangelhos (estes começaram  ser  escritos 40 anos após execução de Cristo na cruz, chegando até os anos 90 com o evangelho de São João). A Tradição de Jesus que se encontra nas entrelinhas dos quatro evangelhos é o Jesus histórico que suscitou uma grande esperança no povo, pregando o Reino de Deus (crime de lesa majestade porque o único Reino é o de César em Roma), contando estórias cheias de lições, priviligiando os pobres e os considerados pecadores públicos, libertando as pessoas dos formalismos para torná-las livres e disponíveis para o amor incondicional e a inclusão de todos com uma abertura total a Deus, chamado de “Paizinho”(Abba). Pois esses são os parâmetros que regem a conduta do Papa. Ele certamente inaugurará uma nova dinastia de Papas que virão do Terceiro Mundo, onde vivem quase 80% dos cristãos. O Cristianismo hoje é uma religião do Terceiro Mundo, embora sua origem foi do Primeiro Mundo. Essa Igreja do Terceiro Mundo era considerada periférica, mas é a única que demonstra vitalidade, cresce e apresenta-se como uma força moral e política na definição dos destinos da humanidade.

2-) Outra característica bastante presente em Francisco, e que se mostrou ausente em Bento XVI, é a questão do carisma com o público. Ratzinger, por ter um comportamento mais tradicionalista- embora tenha surpreendido com sua renúncia- e fechado não se mostrou um Papa muito próximo aos fiéis, enquanto Francisco faz esforços para que a todo momento esteja perto dos católicos e tentando compreender o que eles esperam da doutrina católica, prova disso foi a proximidade com os brasileiros na última Jornada Mundial, no Rio de Janeiro.  Diante disso, minha pergunta é: o senhor acredita que o fato deste Papa ser mais midiático, estar mais perto do povo, pode fazer com que o catolicismo ganhe mais adeptos ao longo do tempo?

R/ O Papa Francisco deixou claro que não quer saber de proselitismo. Ele quer conquistar as pessoas pela sedução da beleza, da compaixão e do amor sem distinções que se derivam da mensagem de Jesus. Seu primeiro escrito leva esse título:”A alegria do Evangelho”. Em razão disso faz duras críticas à visão doutrinária e dogmática da Igreja que apenas afasta os fiéis e esconde o que há de melhor na prática de Jeus e de sua mensagem: uma mensagem de alegria para todo o povo, como diz o evangelista Lucas.  Evangelho em grego significa “boa notícia”. Para muitos o evangelho e a Igreja se tornaram um pesadelo, tudo menos uma alegria. Ele quer recuperar esse dado originário. Como Cardeal em Buenos Aires já vivia o que mostra hoje: habitava  num pequeno apartamento e não no palácio, fazia sua comida, renunciou ao carro oficial, andava de ônibus ou de metrô e subia as favelas sozinho para se entreter com o povo, entrando nas casas e comendo o que lhe ofereciam. Era a simplicidade completa. Desde jovem, no Colégio Maior havia feito o voto de pobreza, no sentido de dar centralidade aos pobres e viver com os pobres. Por isso escolheu o nome de Francisco para remeter-se a São Francisco de Assis, o poverello e fratello, simples e irmão de todas as criaturas até do lobo de Gubbio.

3-) Existem algumas doutrinas da Igreja Católica que estão bastante ligadas às tradições e que são alvo de muitas críticas. A não aceitação da relação entre homossexuais, o divórcio e o celibato são algumas delas. Porém, o Papa Francisco, desde que assumiu seu pontificado, têm tocado nessas questões. Disse por exemplo, que o celibato pode mudar por não ser um dogma de fé, vem discutindo uma melhor integração dos divorciados na IgrejaCatólica e já disse que  os homossexuais não podem ser julgados ou marginalizados. O senhor acredita que, essas declarações podem sinalizar umtipo de mudança à essas visões mais tradicionalistas da Igreja Católica? Sesim, de que maneira ele poderia fazer isso?

R/  O Papa Francisco recupera na Igreja o bom senso, perdido em grande parte pelo doutrinalismo e tradicionalismo. Essa visão doutrinalesca comete verdadeiros escândalos como se fez na Afria quando o Vaticano exigia que os bispos proibissem a camisinha, em países onde a população está até diminuindo por causa da AIDS. Esta atitude coloca os princípios acima da vida, o que é um erro teológico e uma desumanidade. Este Papa coloca o ser humano no centro, com seus problemas, buscas, desvios e esperanças. A Igreja deve acompanhar a cada grupo. Nas suas palavras “nao deve ter um guarda de alfândega que deixa passar a uns e impede a outros”. A Igreja não deve ser um castelo fehado,mas “uma casa aberta para todos, que permite entrar  a todos, pouco importa seu estado moral ou doutrinal”. Mais ainda: “ela é como um hospital de campanha” que tenta salvar os feridos, pouco importa se não ateus, muçulmanos ou cristãos. Ele se apresenta como um homem plenamente humano, solidário com todos os demais humanos, para além de sua ideologia e religião. Se são humanos, logo são meus irmãos e irmãs, especicalmente, os pobres e os feitos invisíveis na sociedade. Isso pertence à Tradição de Jesus que é antes um modo de viver, mais uma espirtualidade que um conjunto de verdades, espiritualidade feita de valores humanitários de solidariedade, cuidado e amor. Essa é a grande revolução na Igreja e da igreja: deslocar o centro: da Igreja para o mundo e do mundo para os pobres. Isso custa muito aos cardeais e bispos que, vaidosos, se consideram ilegitimamente “príncipes da Igreja”. Estes resistem pois o poder é sempre tentador pelas vantagens pessoiais que confere. O Papa sabe bem distinguir o que é mera disciplina que pode mudar como o celibato, ou a relação com os homoafetivos dos quais disse que “eles trazem qualidades e virtudes que enriquecem a Igreja”. Quando e onde se ouviu isso antes? Está aberto a dar a comunhão aos divorciados porque eles são os que mais precisam e dar uma benção a sua união, pois o amor deles, conta diante de Deus. Como não deve contar para  a Igreja que prega que o nome verdadeiro de Deus é “amor”?

4-) Com as tendências à Reforma da Igreja, o Papa Francisco tem despertado antipatia de alguns membros da Cúria Romana, dizem que a pressãopode ser tamanha, que o ex-porta voz de Bergoglio na Argentina, Guilhermo Marcó, disse que não seria uma novidade que Francisco, assim como Bento XVI, renunciasse. O senhor acredita que às pressões da Cúria Romana a Francisco possam ser tamanhas ao ponto de ele sentir o desejo de renunciar?

R/ Essas pessoas não conhecem quem é Bergoglio ou o Papa Francisco. Ele é terno e fraterno como São Francisco de Assis para tcom todos especialmente com os mais discriminados. Mas é um jesuita. E como tal é um homem de exímia formação, de estratégia e de sabedoria no manejo do poder. Não sem razão mandou diretamente para a prisão o núncio apostólico em Santo Domingo quando se comprovou inequivocamente que era um pedófilo obstinado. Foi chamado a Roma e o Papa logo o encarcerrou. O mesmo fez com aquele alto funcionáro (arcebispo creio) do Banco Vaticano que veio da Suiça com um aviãozinho com cerca de 30 milhões de euros, dinheiro de lavagem dos mafiosos e de alguns cardeais. Do aeroporto foi direto para a prisão. Esse Papa não é de se intimidar. Sofre ameaças de morte, o que já lhe foi comunicado. Ele  sorridentemente respondeu: eu não pedi a Deus que me fizesse Papa. Então que Ele me proteja. E se me matarem, é sinal que Deus me chamou e vou contente para cair em seus braços de Pai amoroso. Aqui se nota a fé profunda, como total despojamento e a determinação deste Papa que conheceu o que foi a bárbara repressão dos militares argentinos.

5-) Dentre as reformas que Francisco pode fazer, o senhor acredita que ele possa dar mais espaço para as mulheres na cúpula da Igreja?

R/ Ele disse várias vezes: não é possível não dar mais espaço às mulheres. Elas são mais da metade da Igreja e têm direito de participar nas decisões sobre o caminho que a Igreja deve tomar. Aventa-se a idéia até de que possa fazer cardeiais a algumas mulheres notáveis por seu engajamento  na Igreja. Cardeal é um título e não precisa a ordenação sacerdotal prévia, como era o Cardeal Richilieu ou o Cardealo Mazarino na França que eram grandes políticos e leigos. E eu acrescentaria um argumento em favor das mulheres. Elas são mais da metade da humanidade e da Igreja. E são as mães e as irmãs da outra metade feita dos homens. Logo a importância delas é fundamental. Finalmente elas nunca trairam Jesus, enquanto os Apóstolos fugiram e Pedro o negou. Foram as primeiras testemunhas do fato maior da fé cristã que é a ressurreição de Jesus. Foram apóstolas dos apóstolos.

6-) No ano passado, o Papa Francisco manifestou interesse em ler o livro do senhor “Igreja: Carisma e Poder”, em que a discussão hierárquica da Igreja é discutida.  Que tipo de mudança o senhor acredita que isto possa representar?

R/ Aquilo que o Papa vem dizendo sobre a Igreja, seus equívocos, as críticas que faz aos conservadores, chamando-os de gente de “quarta-feira de cinzas” , gente “azeda como os vinagre”, tristes como se fossem ao próprio enterro, é muito mais grave do que eu escrevi no livro “Igreja: carisma e poder” em 1982 e ajuzado pela ex-Inquisição em 1984 em Roma. Eu tentei aplicar os princípios da Teologia da Libertação para as relações internas da Igreja. E ai me dei conta como ela, enquanato instituição, é absolutista, autoritária, não respeita os direitos humanos para defender sempre a “santidade da instiuição” (veja a ocultação dos pedófilos enquanto pode até ter que reconhecer que os haviam não somente entre padres, mas também entre bispos e até entre dois cardeais). Se ele tivesse dito naquele tempo seria condenadomuito mais que eu. Agora vivemos em tempos de verdade e de liberdade. Esse Papa ama a transparência, renunciou a excepcionalidade da Igreja como se somente ela é a portadora legítima da mensagem de Jesus. Em ecumenismo já definiu a linha: caminhemos juntos com nossas diferenças mas todos a serviço do povo e do mundo. Esse recíproco reconhecimento e a missão comum como serviço aos demais é o passo que faltava dar e ele, com bom senso apenas, deu.

7-) Por fim, o que  o senhor espera do Papa Francisco e da Igreja Católica para os próximos anos?

R/ Se não o liquidarem (cuidado com os mafiosos que foram na Calábria todos excomungados pelo Papa e eles são vingativos e se associam à gente da Cúria Romana) eu creio que virá uma grande retomada da significação ética, religiosa e política do Cristianismo  que é maior que a Igreja. Já lhe foi sugerido e eu o fiz por carta que convocasse uma Assembléia de todas as Igrejas cristãs para ver como podem enfrentar a globalização que é perversa para os pobres e ao mesmo tempo abre um espaço novo para o encontro dos povos e a possibilidade de entrarem em contacto com a mensgem cristã. Ele nos respondeu que quer fazer isso, mas somente depois de colocar a Igreja internamente em ordem, com a reforma da Cúria, quer dizer, com as instâncis de poder e de condução da Igreja. Isso não é faicl, pois os católicos são uma inteira China, um bilhão e duzentos milhões de fiéis. Como  coordenar essa imensa mole de fiéis? Somente com a decentralização, com um pequeno corpo de peritos em poder religioso que supervisionam as comunidades para manter um mínimo de unidade na diversidade. Para isso aIgreja deve se descodentalizar, se desclericalizar (fazer o celibato optativo), dar mais espaço às mulheres (quem sabe até o acesso ao sacerdócio como fizeram várias igrejas cristãs muito próxima como é a anglicana), se  despatriarcalizar no sentido de só homens terem acesso ao poder religioso e incluir mais os leigos e leigas não na simples participação, coisa que já fazem, mas nas decisões concretas sobre que caminhos tomar neste mundo globalizado. Depois disso viria um encontro com todas as religiões e caminhos espirituais para que juntos mantenham a chama sagrada que arde dentro de cada pessoa que as impulsiona para fazer o bem, amar a verdade e superar todas as divisões e exclusões. Isso seria a glória. E no fundo é isso que todos esperam dos cristãos e das pessoas religiosas e creio que corresponde ao que Jesus, no fundo, queria quando andou entre nós.

 

A encíclica Lodato si’ e os pobres da Terra nas palavras do monge Marcelo Barros

Marcelo Barros é um monge beneditino que fundou uma abadia em Goiás Velho, aberta a todos que quissesem vivenciar a espiritualidade, especialmente, gente do povo. Coordenou a Pastoral da Terra do Estado, trabalhou com indígenas e com a população negra, sendo ele mesmo afrodescendente assumido. Foi assesor de Dom Helder em questões ecumênicas. É também exímio teólogo e escritor. Tudo isso nos credita para publicar o texto que segue.

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“Nos Estados Unidos, congressistas republicanos e seus candidatos à presidência tinham feito pressão para que o Papa não a publicasse sua encíclica sobre a ecologia. Há alguns meses, grandes empresários e donos de mineradoras, espalhadas por todos os continentes, fizeram um retiro espiritual no Vaticano para mostrar ao Papa que as mineradoras são ecológicas e só extraem minérios da Terra. Não a destroem.

Mesmo alguns cardeais norte-americanos, mais ligados aos senhores do mundo do que aos pobres, expressaram seus receios. Tentaram impedir que, ao falar de Ecologia Ambiental, o papa pusesse o dedo na chaga e tocasse na Ecologia Social. No entanto, toda pressão, de dentro da própria Igreja e de fora, foi inútil. A encíclica saiu, poética e profética. Começa por retomar o Cântico das Criaturas de São Francisco para confirmar: “a nossa casa comum é como uma irmã, com a qual compartilhamos a existência e é como uma mãe que nos acolhe nos braços” (n. 1). A partir daí, formula o convite insistente a todos para renovar o diálogo sobre o modo como estamos construindo o futuro do planeta” (n. 14).

No método latino-americano do “ver, julgar, agir e celebrar”, o Papa tratou da Ecologia a partir da realidade social do mundo, da injustiça do sistema econômico excludente dos pobres e da cultura da indiferença que infesta a humanidade. Isso mostra que é importante ler a encíclica Lodato Si’ a partir da realidade do mundo dos pobres, da luta pela defesa da terra, vivida pelos lavradores sem terra e pelos índios, maiores vítimas da injustiça eco-social provocada pelsos que oprimem a Terra e a natureza.

O Brasil é um dos países onde as contradições entre um modelo de desenvolvimento predatório e a responsabilidade com a Terra, nossa casa comum, se manifestam de modo mais forte. Conforme dados divulgados pelo jornalista Washington Novaes, no Brasil, mais de 1,26 milhão de quilômetros quadrados de 1.440 municípios de oito Estados nordestinos e do norte de Minas Gerais já mostram algum nível de desertificação. O processo de degradação do solo é muito forte, juntamente com a perda da cobertura vegetal, da biodiversidade e da capacidade de produção da agropecuária.

Como mostra o Papa em sua encíclica, toda vez que a vulnerabilidade da Terra não é respeitada, os que mais sofrem são os pobres. Nas áreas brasileiras que estão em processo de desertificação, a presença de “pobres e indigentes é superior à proporção em outras regiões do país. Na verdade, Caatinga e Cerrado têm 85% dos pobres no País (Cf. Eco 21, abril de 2015).

Essa realidade afeta a segurança alimentar dos pobres da Terra e o abastecimento doméstico de água. No Ceará, pela falta d’água, pequenos agricultores perderam de 80% a 90% das safras de milho e feijão (Cf. Remabrasil, 6/5).

A leitura da encíclica do Papa Francisco deve nos fazer lembrar dos povos indígenas do Brasil, ameaçados em sua existência como os nossos ecossistemas mais preciosos. Atualmente, o Brasil tem 820 mil índios, uma pequena parcela da população brasileira, mas com a qual temos uma imensa dívida histórica, social e ecológica. E assim como a Terra e toda a natureza, em todas as regiões do Brasil, em um ano, os assassinatos de índios cometidos por madeireiros e grilheiros de terra teve o aumento de 42% (138 casos).

No mesmo período e pelo mesmo motivo, os suicídios de índios adolescentes e jovens atingiu 135 registros, um recorde em três décadas. É a partir dessa realidade que, nós, brasileiros, principalmente cristãos/ãs das diversas Igrejas, somos chamados a ler e interpretar a encíclica do bispo de Roma sobre a ecologia. Ele nos propõe aprofundar uma educação e espiritualidade ecológica (n. 202 ss), ou seja, nos formar para a aliança entre o ser humano e o ambiente (n. 209). Isso não se fará sem uma verdadeira “conversão ecológica” (n. 216).

Um documento dos missionários combonianos do Nordeste afirma: “Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida. Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões”.

Ler a encíclica a partir dos empobrecidos e da realidade do nossos país nos convoca para o que o Papa chama de “Ecologia integral”. Agora, temos de tirar as consequências: a partir das bases, reelaborar uma maneira de viver e expressar a fé que seja libertadora, pluralista (isso é, aberta à colaboração com outras tradições espirituais) e holística, ou seja, baseada em uma justiça eco-social que una o cuidado com a libertação e com a vida dos oprimidos à comunhão efetiva e espiritual ao universo, sacramento de uma presença da qual somos testemunhas e colaboradores. Como diz o cântico de entrada da Missa de Pentecostes: “O Espírito de Deus, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor” ( do livro da Sabedoria 1, 7)”.

Leonardo Boff é colunista semanal do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo

Papa Francisco: zeloso cuidador da Casa Comum

Tempos atrás escrevemos que o Papa Francisco por causa do patrono que lhe inspirou o nome – Francisco de Assis –teria tudo para ser o grande promotor de uma proposta ecológica mundial. Devia ser ele, pois, lamentavelmente faltam-nos líderes com autoridade e com palavras e gestos convincentes que despertem a humanidade, especialmente, as elites dirigentes, para as ameaças que afetam o destino comum da Terra e da Humanidade e para a responsabilidade coletiva e diferenciada de salvaguardá-lo para todos.

Eis que este desiderato se realizou plenamente com a publicação da encíclica “Laudato si’: cuidar da Casa Comum”. Oferece-nos um texto de grande amplitude – a ecologia integral – de rara beleza intelectual e espiritual, unindo o que era tão caro a São Francisco de Assis e também a Francisco de Roma: o comportamento de cuidado para com a irmã e mãe Terra e um amor preferencial para os condenados da Terra.

Esta conexão atravessa todo texto como um fio condutor. Não há verdadeira ecologia, de expressão nenhuma, seja ambiental, social, mental e seja integral, caso não resgate a humanidade humilhada dos milhões de empobrecidos de nossa história, naqueles nos quais a Terra como mãe é mais agredida e ofendida. O Papa Francisco comparece como zeloso cuidador da Casa Comum. Mostra-se extremamente coerente com a marca registrada da Igreja da libertação latino-americana com sua correspondente teologia que é a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social e de sua libertação. O oposto da pobreza não é a riqueza. É a justiça social de proporções estruturais e mundiais. A forma mais adequada para enfrentar esta pobreza é a ecologia integral que articula “tanto o grito da Terra quanto o grito do pobre”(n.49).

A ecologia significa mais que um mero gerenciamento dos bens e serviços escassos da natureza. Ela representa um novo estilo de viver, uma arte nova de habitar diferentemente a Casa Comum de tal forma que todos possam caber nela. Não somente os humanos, o que configuraria o antropocentrismo duramente criticado pela encíclica( nn.115-121), mas todos os seres vivos e inertes, especialmente a grande comunidade de vida que sofre pesada erosão da biodiversidade por causa do predomínio da tecnocracia. Este é um outro nome para identificar o principal causador da crise ecológica globalizada: a fúria produtivista e consumista, digamos nós, numa palavra que o Papa não usa, pelo capitalismo selvagem que visa a acumular de forma ilimitada à custa da devastação da natureza, do empobrecimento das pessoas e do risco de uma mega-catástrofe ecologico-social. Este sistema impõe a todos um comportamento, como enfatiza o Papa que “parece “suicida”(n. 55).

Esta vinculação entre o Grande Pobre (a Terra) e os pobres, como desde cedo o viram os teólogos da libertação, se justifica porque vivemos tempos de extrema urgência: a pisada ecológica da Terra foi já ultrapassada em mais de 30%. A Terra precisa de um ano e meio para repor o que lhe subtraímos pelos nosso consumo durante um ano.
Esta dado nos coloca a questão de nossa sobrevivẽncia coletiva. Temos que mudar se quisermos evitar o abismo. Daí a questão central que a encíclica coloca é: como devemos nos relacionar com a natureza e com a Mãe Terra? A resposta é com o cuidado, a fraternidade universal, o respeito a cada ser pois possui valor intrínseco e com a aceitação da interelação de todos com todos.

Neste particular, Francisco de Roma foi buscar inspiração num exemplo vivo e não teórico, em Francisco Assis. Explicitamente diz:”creio que Francisco seja um exemplo por excelência do cuidado por tudo o que é débil e de uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade”(n.10).

Todos os biógrafos do tempo (Celano, São Boaventura, citados pela encíclica) atestam “o terníssimo afeto que nutria para com todas as criaturas”; “dava-lhe o doce nome de irmãos e irmãs de quem adivinhava os segredos, como quem já gozava da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Libertava passarinhos das gaiolas, cuidava de cada animalzinho ferido e chegava pedir aos jardineiros que deixassem um cantinho livre, sem cultivá-lo, para que as ervas daninhas, ai pudessem crescer, pois todas “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.

O Papa adverte que isso não é “um romanticismo irracional, porque influencia sobre as escolhas que determinam nosso comportamento”(n.11). Se não usarmos a liguagem do encantamento, da fraternidade e da beleza em relação com o mundo, ”os nossos comportamentos serão aqueles do dominador, do consumidor ou do mero desfrutador dos recursos naturais, incapaz de impôr limites a seus intereses imediatos”(n. 11)

Aqui transparece um outro modo-de-estar no mundo, diferente daquele da modernidade tecnocrática. Nesta, o ser humano está sobre as coisas como quem as possui e domina. O modo-de-estar de Francisco é colocar-se junto com elas para conviver como irmãos e irmãs em casa. Ele intuíu misticamente o que hoje sabemos por um dado de ciência: todos somos portadores do mesmo código genético de base; por isso um laço de consanguinidade nos une, fazendo-nos parentes, primos e irmãos e irmãs uns dos outros; daí a importância de nos respeitarmos e de nos amarmos mutuamente e jamais usarmos de violência entre nós e contra os demais seres, nossos irmãos e irmãs. Esse modo de ser nos poderá abrir um caminho de superação da crise ecológica global.

Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo

The Magna Carta of holistc Ecology: cry of the Earth/ cry of the poor

Before engaging in commentary, is worth noting a few features of Pope Francis’ encyclical letter, Laudato sí’.

This is the first time a Pope had discussed ecology as holistic ecology (because it goes beyond the environment) in such a complete form. Great surprise: he develops the theme within a new ecological paradigm, something that no official document of the UN has yet done. He backs up his discourse with the best data from the life and Earth sciences. He reads the data properly (with sensible or cordial intelligence), because he discerns that beneath them lie human dramas and also much suffering on the part of Mother Earth. The present situation is grave, but Pope Francis always finds reasons for hope and a confidence that humans will find viable solutions. He connects with John Paul II and Benedict XVI, the Popes who preceded him, quoting them frequently. And there is something absolutely new: his text is written collegially, because it values the contributions of scores of Episcopal Conferences from around the world, from the Episcopal Conference of the United States to the those of Germany, Brazil, Patagonia-Comahue, and Paraguay. He also welcomes the contributions of other thinkers, such as the Catholics Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri, his Argentinean teacher Juan Carlos Scannone, the Protestant Paul Ricoeur and the Moslem Sufi Ali Al-Khawwas. It is addressed to all of humanity, because we all inhabit the same Common Home (a term the Pope often uses), and we all endure the same threats.

Pope Francis writes not as a Teacher and Doctor of the faith, but as a zealous Pastor who cares for the Common Home and for all the beings, not just the human ones, that inhabit her.

One aspect is worth noting, in that it reveals Pope Francis’ forma mentis (the way he organizes his thinking). It derives from the pastoral and theological experience of the Latin American churches, that in light of the documents of the Latin American Bishops (CELAM) of Medellín (1968), Puebla (1979) and Aparecida (2007), undertook an option for the poor; against poverty and for liberation.

The text and tone of the encyclical are typical of Pope Francis and the accumulated ecological culture, but I notice also that many expressions and forms of speech belong to the thinking and writings principally found in Latin America. The «Common Home», «Mother Earth», the «cry of the Earth and the cry of the poor», «caring», the «interdependence among all beings», the «poor and vulnerable», the «change of paradigm», the «human being as Earth» who feels, thinks, loves and venerates, of the «holistic ecology» and others, are recurrent themes among us.

The structure of the encyclical follows the methodology used by our churches and the theological reflection linked to the practice of liberation, now assumed and consecrated by the Pope: see, judge, act and celebrate.

The Pope starts by revealing his primary inspiration: Saint Francis of Assisi, whom he calls an «example par excellence of caring and of holistic ecology, and who gave special attention to the poorest and abandoned.» (nº 10 y 66).

And then he starts with seeing: «What is happening in our home» (17-61). The Pope says: «it is enough to view reality with sincerity to see that there is great damage to our Common Home» (61). In this section he incorporates the most reliable data related to climate change (20-22), the issue of water (27-31), the erosion of biodiversity (32-42), the deterioration of the quality of human life and degradation of social life (43-47). He denounces the extreme global inequality, that affects all aspects of life (48-52), the poor being the principal victims (48).

In this part there is a phrase that refers us to a reflection done in Latin America: «But now we cannot help but recognize that a true ecological plan always becomes a social plan that must incorporate justice into debates about the environment so as to hear the cry of the Earth as well as the cry of the poor» (49). Then he adds: «the moan of sister Earth joins the wail of the abandoned of the world» (53). This is absolutely coherent, because at the beginning he said that «we are Earth» (2; cf. Gn 2,7), very much in line with the great Indigenous Argentinean singer and poet Atahualpa Yupanqui: «the human being is Earth that walks, feels, thinks and loves».

He condemns the proposal to internationalize the Amazon because it «would only serve multinational economic interests» (38). He makes a proclamation of great ethical value: «it is a very grave inequity to obtain important benefits by forcing the rest of humanity, present and future, to bear the cost, through the extremely high level of environmental degradation» (36).

With sadness he recognizes that: «never before had we mistreated and damaged our Common Home as we have done in the last two centuries» (53). In the face of this human offensive against Mother Earth that many scientists have denounced as inaugurating a new geological era –the antrophocene– he laments the weakness of the powers of this world that, mistakenly, «think that everything can continue as it is» as an excise to «maintain their self-destructive habits» (59) with «behavior that appears suicidal» (55).

Prudently, Pope Francis recognizes the diversity of opinions (nn 60-61) and that «there is not just one unique solution» (60). Even so «it is true that the world system is unsustainable from diverse points of view because we no longer think of the consequences of human action» (61) and we get lost in the construction of means directed at unlimited accumulation at the price of ecological injustice (degradation of the ecosystems) and of social injustice (impoverishment of the populations). Humanity, simply, «has betrayed divine expectations» (61).

The urgent challenge, then, consists of «protecting our Common Home» (13); And to that end we need, quoting Pope John Paul II: «a global ecological conversion» (5); «a culture of caring that pervades the whole society» (231).

Having considered the dimension of seeing, is important now to examine the dimension of judging. Judging is addressed from two viewpoints, scientific and theological.

Let’s examine the scientific. The encyclical devotes the entire third chapter to analyzing «the human roots of the ecological crisis» (101-136). Here the Pope proposes to analyze techno-science without prejudice, acknowledging that it has brought «really valuable things to improve humanity’s quality of life» (103). But this is not the problem. Rather, it became independent, subjugating the economy, politics and nature to the accumulation of material goods (cf. 109). Techno-science begins from a mistaken assumption about the «infinite availability of the planet’s resources» (106), when we know that we have already reached the physical limits of the Earth and that a great part of its goods and services are not renewable. Techno-science has become technocracy, a true dictatorship with its iron logic of domination over everything and everyone (108).

The great illusion, now prevalent, lies in believing that with technocracy all the ecological problems can be solved. This is a misleading idea because it «implies isolating things that are always connected» (111). In reality, «all is related» (117) «all is in relationship» (120), an affirmation that runs throughout the text of the encyclical as a ritornello, for it is a key concept of the new contemporary paradigm. The great limit of technocracy lies in the fact that it «fragments knowledge and loses the meaning of the whole» (110). Worse still is «not recognizing the proper value of each being and even denying the special value of the human being» (n.118).

The intrinsic value of each being, no matter how minuscule, is permanently enshrined in the encyclical (69), as in the Earthcharter. Denying that intrinsic value denies the opportunity for «each being to communicate its message and give glory to God» (33).

The main deviation produced by technocracy is anthropocentrism. It falsely supposes that things have value only to the degree that they are useful to humans, forgetting that their existence has value in and of itself (33). If it is true that everything is related, then «we human beings are together as brothers and sisters and are united with tender affection to brother Sun, sister Moon, brother River and Mother Earth» (92). How can we strive to dominate them, and view them through the narrow scope of domination?

All the «ecological virtues» (88) are lost by the desire for power, seen as the domination of the others and of nature. We are experiencing a painful «loss of the meaning of life and the will to live together» (110). He quotes several times Italo-German theologian Romano Guardini (1885-1968), one of the most read thinkers of the mid XX century, who wrote a book critical of the pretensions of modernity (105 note 83: Das Ende der Neuzeit, The End of the Modern World, 1958).

The other type of judging is theological. The encyclical devotes much space to the «Gospel of Creation» (62-100). In part justifying the contribution of the religions and of Christianity, because since the crisis is global, each one, with its religious capital, must contribute to caring for the Earth, (62). He does not concentrate on doctrine, but on the wisdom present in the different spiritual paths. Christianity prefers to talk of creation rather than nature, because «creation has to do with a project of love from God» (76). He quotes, more than once. a beautiful text from the book of Wisdom (11,24) where it clearly appears that «the creation belongs to the order of love» (77) and that God is “the Lord who loves life” (Sab 11,26).

The text is open to an evolutionary vision of the universe, without using the term. It engages in circumlocution when referring to the universe as «composed of open systems that enter into communion, one with another» (79). He uses the principal texts that link the incarnated and resurrected Christ with the world and with all of the universe, making matter and the entire Earth sacred (83). And in this context, Pope Francis quotes Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955; nº 83 note 53), as the precursor of this cosmic vision.

A consequence of the fact that God-Trinity is a relationship of divine Persons is that all things in relationships are resonant of the divine Trinity (240).

Quoting Bartholomew I of Constantinople, Ecumenical Patriarch of the Orthodox Church, he «recognizes that sins against creation are sins against God» (7). Hence the urgency of a collective ecological conversion to restore the lost harmony.

The encyclical concludes this part with certitude: «the analysis showed the need for a change of course… we must get out of the spiral of self-destruction into which we are now sinking» (163). It is not about reform, but, quoting the Earthcharter, about searching for «a new beginning» (207). The interdependency of everything leads us to think «of a single world with a common project» (164).

Since there are multiple aspects to reality, all intimately related, Pope Francis proposes a holistic ecology that goes beyond the environmental ecology to which we are accustomed, (137). Holistic ecology covers all fields, the environment, economy, social, cultural, and daily life (147-148). The encyclical never forgets the poor whose living links of belonging and solidarity with one another are a testament to their form of human and social ecology, (149).

The third methodological step is to act. In this part, the encyclical touches the great themes of international, national and local politics (164-181). He emphasizes the interdependence of the social and educational with the ecological, and with sadness, confirms the difficulties caused by the predominance of technology, impeding the changes that could restrain the voracity of accumulation and consumption, and inaugurate a new paradigm, (141). He retakes the theme that the economy and politics must serve the common good, and create the conditions for a possible human plenitude (189-198). Again he insists on a dialogue between science and religion, as suggested by the great biologist Edward O. Wilson (cf. the book, Creation: how to save life in the Earth, 2008). All religions «must seek to care for nature and to defend the poor» (201).

Also in the aspect of acting he challenges education to create an «ecological citizenry» (211) and a new life style, based on caring, compassion, shared sobriety, an alliance between humanity and the environment, because they are inextricably linked, the joint responsibility for all that exists and lives, and for our common destiny (203-208).

Finally, the moment to celebrate. The celebration is realized in a context of «ecological conversion» (216) that implies an «ecological spirituality» (216). This spirituality derives not so much from theological doctrines as from the motivation elicited by faith to care for the Common Home and «to nourish a passion for caring for the world» (216). This experience precedes a mysticism that mobilizes people to live an ecological equilibrium, «the interior with itself, the solidarian with the others, the natural with all the living beings and the spiritual with God» (210). That «less is more» and that we can be happy with little then appears to be the truth.

In the context of celebration, «the world is something more than a problem to be resolved, it is a delightful mystery we contemplate with joyful praise» (12).

The tender and fraternal spirit of Saint Francis of Assisi runs through the entire text of the encyclical Laudato sí’. The present situation does not call for an announcement of tragedy, but a challenge, that we may care for our Common Home and for others. There is in the text a lightness, poetry and joy in the Spirit and the indestructible hope that if the threat is great, greater still is the opportunity to solve our ecological problems.

He ends poetically “Beyond the sun” with these words: «Let’s walk singing. May our struggles and concern for this planet not deprive us of the joy of hope» (244).

I would like to end with the final words of the Earthcharter that Pope Francis also quotes (207): «May our times be remembered for awaking a new reverence for life, for the firm resolution to reach sustainability, for accelerating the struggle for justice and peace, and for the joyful celebration of life».
Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU..