Boaventura de Souza Santos no Tate Modern de Londres

O Tate Modern é um museu de arte moderna de Londres, onde além de exposições de quadros, se exibem filmes e se fazem concorridas conferências com pessoas de notório saber. Desta vez foi escolhido foi Boaventura de Souza Santos, professor em Coimbra e em Austin (USA), tido como um dos melhores analistas do atual processo de globalização, de seus impasses e de suas oportunidades. É uma honra para os que pensam num outro mundo possível e necessário saber que ele foi escolhido para propor alternativas à crise atual que permitam a salvaguarda de nosso planeta e a continuidade de nossa civilização: LBoff

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS NA TATE MODERN

Boaventura de Sousa Santos foi um dos intelectuais mundiais escolhido pela Tate Modern de Londres para organizar uma sessão sobre espaços de transformação no âmbito do projecto Topology. Boaventura intitulou a sua sessão “Espaços de Transformação: as Epistemologias do Sul” e convidou para o acompanharem Suely Rolnik (artista, Brasil), Shiv Vishvanathan (sociólogo, Índia) e Sarat Maharaj (curador, África do Sul). A sessão terá lugar na Tate Modern no próximo dia 28 de Abril das 14.00h às 16.30h.

A sessão pode ser visitada em http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/talks-and-lectures/spaces-transformation-epistemologies-south

Plataforma para as esquerdas: à cultura do medo do neoliberalismo propor a cultura da esperança

BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, professor em Coimbra e em Austin (USA) é um dos que melhor pensa o processo de globalização a partir do Grande Sul.Conta-se entre os fundadores do Forum Social Mundial onde é uma das vozes mais ouvidas pela pertinência e originalidade do seu pensamento que advem do fato de pensar a partir das alternativas negadas pelo sistema imperante e que contem sementes para um outro mundo possivel e necessário.Sempre tem desafiado as esquerdas para superarem as armadilhas que o neoliberlismo lhes prepara e assim ocupá-las com falsos problemas e começarem a apresentar algo realmente novo que poderá configurar uma saida bem sucedida à atual crise sistêmica. LBoff
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Por que é que a actual crise do capitalismo fortalece quem a causou?
Por que é que a racionalidade da “solução” da crise assenta nas previsões que faz e não nas consequências que quase sempre as desmentem?

Por que é que está ser tão fácil ao Estado trocar o bem-estar dos cidadãos pelo bem-estar dos bancos? Por que é que a grande maioria dos cidadãos assiste ao seu empobrecimento como se fosse inevitável e ao enriquecimento escandaloso de poucos como se fosse necessário para a sua situação não piorar ainda mais? Por que é que a estabilidade dos mercados financeiros só é possível à custa da instabilidade da vida da grande maioria da população?

Por que é que os capitalistas individualmente são, em geral, gente de bem e o capitalismo, no seu todo, é amoral? Porque é que o crescimento
económico é hoje a panaceia para todos os males da economia e da
sociedade sem que se pergunte se os custos sociais e ambientais são ou não sustentáveis? Porque é que Malcom X estava cheio de razão quando
advertiu: “se não tiverdes cuidado, os jornais convencer-vos-ão de que a
culpa dos problemas sociais é dos oprimidos, e não de quem os oprime”?

Por que é que as críticas que as esquerdas fazem ao neoliberalismo entram nos noticiários com a mesma rapidez e irrelevância com que saem? Por que é que as alternativas escasseiam no momento em que são mais necessárias?

Estas questões devem estar na agenda de reflexão política das
esquerdas sob pena de, a prazo, serem remetidas ao museu das felicidades
passadas. Isso não seria grave se esse facto não significasse, como
significa, o fim da felicidade futura das classes populares. A reflexão deve começar por aí: o neoliberalismo é, antes de tudo, uma cultura de medo, de sofrimento e de morte para as grandes maiorias; não se combate com eficácia se não se lhe opuser uma cultura de esperança, de felicidade e de vida. A dificuldade que as esquerdas têm em assumirem-se como portadoras desta outra cultura decorre de terem caído durante demasiado tempo na armadilha com que as direitas sempre se mantiveram no poder: reduzir a realidade ao que existe, por mais injusta e cruel que seja, para que a esperança das maiorias pareça irreal.

O medo na espera mata a esperança na felicidade. Contra esta armadilha é preciso partir da ideia de que a realidade é a soma do que existe e de tudo o que nela é emergente como possibilidade e como luta pela sua concretização. Se não souberem detectar as emergências, as esquerdas submergem ou vão para o museu, o que dá no mesmo.

Este é o novo ponto de partida das esquerdas, a nova base comum
que lhes permitirá depois divergirem fraternalmente nas respostas que
derem às perguntas que formulei. Uma vez ampliada a realidade sobre que
se deve actuar politicamente, as propostas das esquerdas devem ser
credivelmente percebidas pelas grandes maiorias como prova de que é
possível lutar contra a suposta fatalidade do medo, do sofrimento e da
morte em nome do direito à esperança, à felicidade e à vida.

Essa luta deve ser conduzida por três palavras-guia: democratizar, desmercantilizar, descolonizar. Democratizar a própria democracia, já que a actual se deixou sequestrar por poderes anti-democráticos. É preciso tornar evidente que uma decisão democraticamente tomada não pode ser destruída no dia seguinte por uma agência de rating ou por uma baixa de cotação nas bolsas (como pode vir a acontecer proximamente em França). Desmercantilizar significa mostrar que usamos, produzimos e trocamos mercadorias mas que não somos mercadorias nem aceitamos relacionar-nos com os outros e com a natureza como se fossem apenas mercadorias.

Somos cidadãos antes de sermos empreendedores ou consumidores e para o sermos é imperativo que nem tudo se compre e nem tudo se venda, que haja bens públicos e benscomuns como a água, a saúde, a educação. Descolonizar significa erradicar das relações sociais a autorização para dominar os outros sob o pretexto de que são inferiores: porque são mulheres, porque têm uma cor de pele diferente, ou porque pertencem a uma religião estranha.

Fonte: Visão 5/4/2012

Liberation and the new Cosmology

Some time ago, the U.S. Museum of Natural History conducted a survey among biologists, asking if they believed that we are in the middle of a mass extinction. 70% replied that yes, we are. The renown cosmologist Brian Swimme, who, with Thomas Berry, authored one of the most brilliant narratives on the history of the universe, The Universe Story, 1992, was asked what could we do, and he replied: «for some time now the universe has been doing its part to stop the disaster; but we must do our part. And we will do it through the awakening of a new cosmological consciousness, that is, if we adjust our behavior to the logic of the universe. But we are not yet doing enough.»

What does this reply mean? It points towards a new consciousness that assumes collective responsibility for the protection of our common house and caring for our civilization. To adjust our behavior to the logic of the universe means to answer the calls that arise from what is called the «cosmogenic principle». It is this principle that structures the expansion and generation of the universe, with all its inert and living beings. It manifests itself through three characteristics: difference/complexity, subjectivity/internalizing, and interdependency/communion.

In simpler terms: the more the universe expands, the more complex it becomes; when it becomes more complex, it acquires more internalizing and subjectivity, (each being has its own way of relating and of making its history). And the more internalizing and subjectivity the universe acquires, the more all beings enter into communion with each other, and reinforce their interdependency in the context of their belonging to a great Whole. Berry and Swimme comment: «if there had been no complexity (differentiation), the universe would have perished as a homogenous mass; if there had been no subjectivity, the universe would have become an inert and dead expanse; if there had been no communion, the universe would have been transformed into a number of isolated events.»

We, the liberation theologians, over 40 years of reflection, have tried to explore the economic, social, anthropologic and spiritual dimensions of liberation, as an answer to specific forms of oppression. In the context of the generalized ecologic crisis we are seeking to incorporate this cosmologic vision. This has forced us to break away from the conventional paradigm in which we organized our thinking, which is still linked to a mechanical and static cosmology. The new cosmology sees the universe differently, as an incommensurable process of evolution/expansion/creation that involves all that happens within it, including consciousness and society.

In cosmologic principle terminology, personal liberation means to free oneself from limitations, so as to experience a communion with all beings and with the universe, a phenomenon the Buddhists call «illumination» (satori), and the experience of no-duality that Saint Francis lived, in the sense of an open brotherhood and sisterhood with all beings. In social terms, liberation in light of the cosmogenic principle is the creation of a society without oppression, where diversities are valued and expanded (diversities of gender, cultures and spiritual ways). This means leaving behind the culture of the official thinking of the only approved politics, economy, and theology. This is the principal means of oppression and homogenization.

Liberation also requires a deepening of internalization. Internalization is no longer satisfied by the mere consumption of material goods; it asks for values linked to creativity, to the arts, meditation and the communion with Mother Earth and the universe. Liberation results from the forces of the «relational matrix», especially with those who suffer injustices and are excluded. This matrix makes us feel like members of the community of life, and sons and daughters of Mother Earth, who through us feels, loves, cares and is concerned for the common future.

Finally, liberation in a cosmologic perspective demands a new awareness of universal interdependency and responsibility. We are called upon to reinvent our species, as we have done in the past, during the different crises humanity has experienced. It is urgent now because we do not have much time and we must face up to challenges of the present crisis of the Earth.

A ressurreição como insurreição

Há uma questão da existência social do ser humano que atormenta o espírito e para a qual a ressurreição do Crucificado pode trazer um raio de luz: que sentido tem a morte violenta dos que tombaram pela causa da justiça e da liberdade? Que futuro têm aqueles proletários, camponeses, índios, sequestrados, torturados, assassinados pelos órgãos de segurança dos regimes despóticos e totalitários, como os nossos da América Latina, em fim, os anônimos que historicamente foram trucidados por reivindicarem seus direitos e a liberdade para si e para toda uma sociedade?

Geralmente a história é contada pelos que triunfaram e na perspectiva de seus interesses. A nossa, a brasileira, foi escrita pela mão branca. Só com o historiador mulato Capistrano de Abreu apareceu a mão negra e mulata. O sofrimento dos vencidos quem o honrará? Seus gritos caninos que sobem ao céus quem os escutará?

A ressurreição de Jesus pode nos oferecer alguma resposta. Pois, quem ressuscitou foi um destes derrotados e crucificados, Jesus, feito servo sofredor e condenado à vergonha da crucificação.

Quem ressuscitou não foi um César no auge de sua glória, nem um general no apogeu de seu poderio militar, nem um sábio na culminância de sua fama, nem um sumo-sacerdote com perfume de santidade. Quem ressuscitou foi um Crucificado, executado fora dos muros da cidade, como lembra a Carta aos Hebreus, quer dizer, na maior exclusão e infâmia social.

Mas foi ele que herdou as primícias da vida nova. Pois a ressurreição não é a reanimação de um cadáver como aquele de Lázaro. A ressurreição é a floração plena de todas as virtualidades latentes dentro de cada ser humano. Ela revela o sentido terminal da vida: a irradiação suprema do “homo absconditus” (o humano escondido) que agora se faz o “homo revelatus”(o humano revelado).

A ressurreição de Jesus mostrou que Deus tomou o partido dos vencidos. O algoz não triunfa sobre sua vítima. Deus ressuscitou a vítima e com isso não defraudou nossa sede por um mundo finalmente justo e fraterno que coloca a vida no centro e não o lucro e os interesses dos poderosos. Só ressuscitando os vencidos, fazemos justiça a eles e lhes devolvemos a vida roubada, vida agora transfigurada. Sem essa reconciliação com o passado perverso, a história permaneceria um enigma e até um absurdo.

Os injustamente executados voltarão, com a bandeira branca da vida. O verdadeiro sentido da ressurreição se mostra como insurreição contra as injustiças deste mundo que condena o justo e dá razão ao criminoso.

Agora pode começar uma nova história, com um horizonte aberto para um futuro promissor para a vida, para a sociedade e para a Terra. Dizem historiadores que o mundo antigo não conhecia o sorriso. Mostrava a gargalhada do deus Baco ou o riso maldoso do deus Pan. O sorriso, comentam, foi introduzido pelo Cristianismo por causa da alegria da Ressurreição. Só pode sorrir verdadeiramente quando se exorcizou o medo e se sabe que a grande palavra final é vida e não morte. O sorriso, portanto, é filho da Ressurreição que celebra a vitória da vida sobre a morte, testemunha o encantamento sobre a frustração e proclama o amor incondicional sobre a indiferença e o ódio.

Este fato é religioso é somente acessível mediante a ruptura da fé. Admitindo que a ressurreição realmente aconteceu intra-historicamente, então seu significado transcende o campo religioso. Ganha uma dimensão existencial, social e cósmica. Na expressão de Teilhard de Chardin, a ressurreição configura um “tremendous” de dimensões evolucionárias, pois representa uma revolução dentro da evolução.

Se o Cristianismo tem algo singular a testemunhar, então é isso: a ressurreição como uma antecipação do fim bom do universo e a irrupção dentro da história ainda em curso do “novissimus Adam” como São Paulo chama a Cristo: o “Adão novíssimo”. Portanto, não é a saudade de um passado mas a celebração de um presente.

Depois disso, cabe apenas se alegrar, festejar, ir pelos campos para abençoar os solos e as semeaduras como o faz ainda hoje Igreja Ortodoxa na manhã de Páscoa.Entoemos, pois, o Aleluia da vida nova que se manifestou dentro do velho mundo.

Leonardo Boff é autor A nossa ressurreição na morte (Vozes).