Aos 89 anos, morre o Irmão Antônio Cechin, o profeta dos catadores

O Irmão Antônio Cechin é uma referência no Brasil, especialmente n Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. Há muitos anos o conheço e visitei o trabalho que fazia com os catadores de materiais recicláveis na cidade de Porto Alegre, cujo centro se encontrava numa das ilhas do Guaiba. Participou como fundador dos principais movimentos sociais e era grande animador das Comunidades Eclesiais de Base. De sólida formação acadêmica, estudou em Paria e trabalhou por anos em Roma. Mas fez uma decidida opção pelos pobres. Durante o regime militar foi preso por duas vezes e na última barbaramente torturado, especialmente fazendo experiências na cabeça. Refeito, continuou o seu trabalho junto com sua irmã Mathilde até o fim. Ainda nos dias 4,5,6 no novembro estivemos juntos num encontro com o grupo Emaus em Correias, Petrópolis. Já víamos os limites de sua saúde. Era uma pessoa de virtudes eminentes. Não tenho dúvidas de que era um santo: tomado pela paixão por Cristo e pela paixão pelos pobres, catadores e papeleiros. Se triste é a partida do amigo deste mundo, alegre é a chegado ao Reino dos justos junto a Deus. Pois é lá que seguramente está junto com os milhares que ajudou ao longo da vida. Lboff

Aos 89 anos, morre o Irmão Antônio Cechin, o profeta dos catadores

Comprometido com a causa dos catadores e carroceiros, irmão marista critica governo, movimento tradicionalista e conservadorismo na Igreja Católica | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O fundador da CPT-RS (Comissão Pastoral da Terra do Rio Grande do Sul), Antônio Cechin, morreu aos 89 anos nesta quarta-feira (16). Nascido em Santa Maria/RS, no dia no dia 17 de junho de 1927, ele foi Irmão Marista, militante dos movimentos sociais. Também foi fundador da Pastoral da Ecologia, da ONG Caminho das Águas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), criador da Romaria da Terra e da Romaria das Águas, idealizador da missa em honra a Sepé Tiaraju. Ele estava internado no Hospital São Lucas da PUCRS, onde se recuperava de uma fratura na bacia.

O velório de Antônio Cechin foi realizado nesta quarta (16), às 13h, na Capela dos Maristas em Viamão, próximo ao Posto da Polícia Rodoviária Federal na RS 040.

Em janeiro de 2013, o Irmão concedeu uma entrevista ao Sul21,  que mantem plena atualidade.Reprisada em Sul 21 de 16/11/2016

Rachel Duarte

Apaixonado pelos pobres e dedicado integralmente a fazer o bem por meio do empoderamento dos cidadãos, sem assistencialismo. Em longa entrevista ao Sul21, o irmão marista Antônio Cechin falou sobre as atividades que influenciaram uma geração de militantes no Rio Grande do Sul e no Brasil. A conversa foi no apartamento onde vive com a irmã Matilde, uma fiel companheira de lutas, na mesma sala de onde, em duas oportunidades, foi retirado por agentes da ditadura militar e levado para a tortura no DOPS. “Ainda bem que esta entrevista não está acontecendo naquela época, em que nada poderia ser dito”, disse no começo da conversa.

Reticente em conceder a entrevista a princípio, Irmão Cechin acabou concordando em seguida, dizendo estar falando “em nome do bem dos catadores”. Conhecido nacionalmente como uma espécie de profeta da ecologia, devido ao pioneirismo com as unidades de reciclagem no país, ele fala que “geralmente os que defendem os pobres não são ouvidos” pela grande imprensa. Desde a água da torneira fornecida à reportagem, até as vezes em que parou a conversa para atendimentos de catadores envolvidos no projeto Ecoprofetas, que administra com apoio da Petrobras, Irmão Cechin se mostrou um homem humilde e devoto, além de profundamente dedicado aos movimentos populares.

Um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), criador da Romaria da Terra e da Romaria das Águas e idealizador da missa em honra a Sepé Tiaraju, ele contou sobre a incompreensão de sua própria congregação quanto a sua filosofia religiosa. “Nós temos na Igreja a última monarquia do mundo. O Papa como o único Deus da verdade absoluta, que não divide o poder. Esta igreja não é a que existe na América Latina”, disse.

Atualmente, Irmão Cechin luta pela recuperação dos 18 galpões de reciclagem que construiu com apoio da Igreja durante os governos do PT em Porto Alegre. Ele denuncia um suposto descaso da atual gestão municipal e responsabiliza também a “burguesia despolitizada”, que não possui consciência ambiental para respeitar os catadores ou começar, em suas próprias casas, as mudanças pelo meio ambiente saudável. “Não só o governo, é toda a sociedade que não tem consciência. Há um preconceito das pessoas com os catadores, principalmente das que moram perto das unidades de reciclagem, que se isolam com muros e grades como se estas pessoas fossem lixo”.

“Carroceiros e carrinheiros são ecoprofetas. São responsáveis por 70% da reciclagem do lixo em Porto Alegre”

Sul21 – A luta pela preservação do meio ambiente é uma de suas principais causas. Sua atuação foi pioneira para o surgimento da reciclagem no estado, contribuindo para a organização da atividade dos catadores. Como o senhor começou este trabalho?
Irmão Cechin – Eu comecei a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEB). Fizemos a primeira unidade de reciclagem na Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre. Existia uma mulher que liderava 30 carroceiros em Canoas e pediu apoio das comunidades eclesiais de base para combater o prefeito filhote da ditadura da época (Carlos Loureiro Giacomazzi). Fizemos passeatas e ocupações em frente à prefeitura até o lixão de Canoas ser reaberto. Depois disso, constatamos que também existiam catadores em Porto Alegre. Foi então que começamos, com trabalhadores da Vila Lupicínio Rodrigues e Vila Planetário. Por iniciativa do governo Olívio Dutra, eles foram reassentados e constituídos como carrinheiros e catadores. O sonho deles sempre foi conquistar o Centro, que é a região com lixo de maior qualidade. Nós passamos a empoderar este povo e ocupar também o Centro. Agora, temos um abandono desta atividade em Porto Alegre. Um exemplo é na Rua Paraíba, na vila encostada na Avenida Castelo Branco. Esta vila já incendiou algumas vezes. Por intervenção do governo Olívio, os ocupantes, dos quais existem 80 catadores, tiveram direito de ocupar o lugar para se organizar como unidade de reciclagem. A verba foi transferida ao município no último ano da gestão de João Verle (PT) e o projeto executado pelo prefeito José Fogaça (PMDB). A situação do local é de extremo abandono atualmente, assim como nas demais 16 unidades que construímos em Porto Alegre. Com o apoio dos governos do PT e da Igreja, foram criadas 18 unidades de reciclagem na cidade. Agora, com o projeto da Petrobras que estou executando (Ecoprofetas), estou conseguindo recuperar alguns.

“Esta lei das carroças é para acabar com tração animal e humana, exatamente a atividade de catação que ainda existe em Porto Alegre”

Sul21 – Qual é o problema dos catadores na vila da Rua Paraíba exatamente?
Irmão Cechin – Este local onde fica a vila, na Rua Paraíba, foi tomado pela Prefeitura, que ergueu o prédio de máquinas do DMLU. Agora, ganhamos na Justiça, por decisão do Ministério Público do RS, a devolução daquele galpão de reciclagem. Ele foi construído por nós com R$ 100 mil conseguidos da Igreja há 15 anos. Nos roubaram (o galpão). Agora, com o Ministério Público do RS, estamos recebendo de volta. Existe uma área específica de atuação no Ministério Público para o Meio Ambiente, que se transformou em uma mina de ouro para nós que trabalhamos com ecologia porque o dinheiro das multas das empresas, por decisão judicial do MP, é destinado diretamente às entidades que trabalham pelo meio ambiente. Por exemplo, com recursos que ganhamos de uma multa contra a CGTE em Gravataí, a empresa depositará por dois anos aluguel para trabalharmos com lixo eletrônico. Vamos inaugurar este projeto esta semana, em um prédio de três andares na Rua Voluntários da Pátria. Vou aproveitar o MP-RS e vou desafiar a Igreja e o governo para tentar resolver o problema desta vila na Rua Paraíba.

Sul21 – Porto Alegre tem duas situações que envolvem diretamente a atividade dos catadores: a terceirização do serviço de coleta seletiva do lixo e o programa de Inclusão Produtiva de Condutores de Veículo de Tração Animal (VTAs) e de Veículos de Tração Humana (VTHs) – o que, segundo acusam os críticos, seria uma maquiagem para a aplicação da Lei das Carroças até 2016. Qual a sua opinião sobre essas questões?
Irmão Cechin – Esta Lei das Carroças é desta administração. O vice-prefeito é o autor da lei (Sebastião Melo). É algo contra a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, criada pelo governo Lula e que prevê que a catação tem que ser feita diretamente pelos catadores. Porém, a única catação que se fazia em Porto Alegre e que vem reduzindo é feita pelos carrinheiros e carroceiros. Esta lei municipal é para acabar com tração animal e humana, exatamente a atividade de catação que ainda existe em Porto Alegre. Eu até tenho um projeto em desenvolvimento na Engenharia da PUC de um carrinho que não seja mais com tração humana, mas não sai do papel nunca. Na prática, a única diferença é que carroceiros têm um meio de transporte melhor do que o carrinho de mão dos carrinheiros; na verdade, ambos são fundamentais para a saúde da sociedade. Estes ecoprofetas são responsáveis por 70% da reciclagem do lixo da cidade. As coletas feitas pelo poder público não representam 15%.

“Quando vejo essas campanhas sobre educação, me contorço de raiva. Esta burguesia não sabe nem separar o lixo em casa e quer falar em educação!”

Sul21 – Na sua opinião, essas decisões da Prefeitura, que podem levar ao fim da atividade do catador, são fruto de uma visão política ou falta de consciência ambiental?
Irmão Cechin – Não só o governo, é toda a sociedade que não tem consciência. O Brasil é o segundo país do mundo em produção de lixo. As atividades dos catadores são vitais para a saúde do meio ambiente. Aqui o governo criou uns contêineres que todos acham uma maravilha, mas está misturando o lixo seco com o orgânico e acabando com a matéria-prima dos recicladores. Por outro lado, quando vejo essas campanhas institucionais sobre a educação eu me contorço de raiva. Esta burguesia não sabe nem separar o lixo em casa e quer falar em educação! Recentemente eu conheci um projeto implantado em São Paulo e no Rio de Janeiro um pouco antes da Rio+20, o “Pimp My Carroça”. Eles foram em direção a uma centena de carroceiros. Um mutirão de carpinteiros ajudou a consertar as carroças, artistas decoraram com grafite, ofereceram serviços de higiene para os trabalhadores. Me comoveu tanto ver isso que pensei: quem dera que, ao invés da Lei das Carroças, Porto Alegre pudesse ter feito isso. Há um preconceito das pessoas com os catadores, principalmente das que moram perto das unidades de reciclagem ,que se isolam com muros e grades como se estas pessoas fossem lixo.“Tudo que se faz na vida tem dimensão política. Jesus foi perseguido e morreu como um político, com P maiúsculo” |

– Como o senhor começou esta trajetória a frente de tantas causas?
Irmão Cecchin – Eu sou irmão marista. Religioso. Somos 15 irmãos de uma família de origem italiana. Moro com uma delas, a Matilde. Meu primeiro envolvimento como professor de movimentos populares foi no primeiro movimento de juventude religiosa do país, o JEC (Juventude Estudantil Católica) que até hoje não teve paralelo dentro da Igreja. Na época, a Igreja Católica se dividia entre hierarquia e laicado, e Pio XI pensou que seria necessário entregar aos leigos uma missão dentro desta hierarquia, uma militância. Em 1955 eu fui designado pelo bispo auxiliar de Porto Alegre, Dom Edmundo Kuntz, a ir ao convento dos monges beneditinos, no Rio de Janeiro. Foi então que comecei a trabalhar com o método conhecido hoje como Teologia da Libertação: ver, julgar e agir. Isso foi minha entrada para um trabalho com jovens, no Colégio Rosário onde eu já era professor. Começamos a descobrir as diferenças de capacidade de aprendizagem dos alunos, introduzimos a primeira feira do livro na cidade, feita em consignação com livrarias e também desenvolvemos a Semana do Estudante. Primeiro em colégios católicos e depois nas escolas leigas. Foi ao conhecer o marxismo, por meio da chilena Martha Harnecker, que passamos a propagar entre todos os estudantes latino-americanos da Igreja lições desta filosofia, deste instrumento global de análise da realidade. Fomos pioneiros em fazer trabalhos nas periferias.

Sul21 – Foi este conceito que o levou a ser perseguido pela ditadura militar?
Irmão Cechin – Enquanto irmão marista, eu já trabalhava ligado a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos) como catequista, evangelizador e criador de Comunidades Eclesiais de Base. Quando estourou a ditadura militar, todos os que trabalhavam na periferia foram considerados comunistas, comedores de criancinhas. Na verdade, só utilizávamos o instrumento global de análise. Na nossa linha religiosa só existe um lado: o que leva para Jesus Cristo, filho de Deus, e que é também o lado dos pobres. Jesus foi perseguido e morreu como um político, com P maiúsculo. Tudo que se faz na vida tem dimensão política. Se ele não fosse político ele teria morrido na cama, aos 85 anos de idade. Ele morreu aos 33 anos, pregado na cruz, por causa da mensagem que trazia. Eu, Leonardo Boff, Frei Beto e tantos outros que ergueram a Teologia da Libertação acabamos perseguidos pelos militares. As fichas catequéticas foram consideradas de conteúdo altamente subversivo pelo órgão fiscalizador da época. O ministro da Educação, Jarbas Passarinho foi em rede nacional na Semana da Revolução, em abril de 1979, falar contra o material que utilizávamos nos colégios. Surgiu uma grande polêmica no país. Nos desfizemos de tudo que tínhamos, mas passamos a ser perseguidos.

“Este gauchismo de hoje não apresenta militância em nenhum sentido para mudar alguma coisa. O pai patrão, típico da grande fazenda, é o cúmulo da blasfêmia”

Sul21 – O senhor foi preso por duas vezes e sofreu tortura no DOPS.
Irmão Cechin – Me levaram daqui para o DOPS. Fui preso duas vezes, em 1969 e 1972. Nesta mesma mesa eu recebi um pastor norte-americano chamado John Wright, protestante que reuniu jovens católicos. A segunda prisão foi por causa dele. Não foram longas as minhas estadas na prisão. A primeira durou dois dias e na segunda foram dez dias. A segunda realmente foi tortura e tive que ser levado direto para o hospital. Eles queriam saber nomes de clandestinos que a polícia andava caçando. Os estudantes católicos, vendo que as ferramentas estudantis, universitárias e operárias viravam pelegas, resolveram se organizar. A ditadura militar trancou sindicatos e movimentos populares e a Igreja foi a única instituição onde eles não puderam intervir ou colocar seus aliados. Então os militantes e movimentos se refugiaram nos movimentos católicos.

Preso e torturado pela ditadura militar, Irmão Cecchin não sabe se irá depor à Comissão Nacional da Verdade: “Não estou torcendo muito”

Sul21 – A Comissão Nacional da Verdade pode esclarecer a verdade sobre a prisão ou mesmo fazer a reparação do que ocorreu?
Irmão Cechin – Não sei. Não sei se vou ser interrogado. Não estou torcendo muito (para que aconteça). Demoro alguns dias a voltar ao normal quando tenho que puxar esta parte da minha memória.

Sul21 – O senhor confia na Comissão da Verdade como possibilidade de recontar a história do país?
Irmão Cechin – Algumas coisas já estão sendo reveladas. Assim que a Comissão começou a funcionar já se divulgou a morte de um jovem padre que foi morto no JUC por vingança contra Dom Helder. Como não podiam matar o bispo, se vingaram no melhor padre de sua arquidiocese. Já localizaram aqui no Rio Grande do Sul um prédio na Rua Santo Antonio, onde se praticava tortura. As coisas vão aparecendo. E, apesar de eu ter dito que a juventude católica daquela época não foi substituída, hoje temos uma juventude que está se organizando, o Levante da Juventude, que é muito interessante. Eles começaram no ano passado a fazer os escrachos. A juventude está se politizando.

Sul21 – Qual foi a contribuição do que o senhor chama de ‘farroupilhismo’ para a ditadura militar? 
Irmão Cechin – O manifesto antitradicionalista, elaborado por um grupo de missioneiros que não aceitam essa situação, aponta as falhas deste movimento que não tem nada de tradicionalista. É um gauchismo inventado por Barbosa Lessa, Paixão Côrtes e outros dois jovens do Colégio Júlio de Castilhos em 1948 que, com saudade do interior das fazendas, começaram com este gauchismo aqui em Porto Alegre. É um gauchismo que não vem na linha do povo guarani, que criou o chimarrão, por exemplo: é de origem açoriana. Os guaranis na Missão Jesuíticas dos Sete Povos foram considerados por Voltaire – um dos ilustres intelectuais da Revolução Francesa – em seu romance Candido, como o maior triunfo da humanidade. Um povo de economia eminentemente solidária, sem moedas, apenas na convivência por trocas. Para acabarem com esta experiência, algo completamente diferente do capitalismo trazido de Portugal, os reis da Espanha e Portugal se mancomunaram para um novo Tratado de Tordesilhas e para acabar com as missões aqui. Esta é a fonte da história do RS. E este grande triunfo da humanidade, que nos jogou para história global e influenciou as missões jesuíticas da Argentina e Paraguai, que em 1975 foram proclamadas patrimônio da humanidade pela ONU, não é nem lembrado pela juventude de hoje. Este gauchismo de hoje, dentro dos CTGs, não apresenta militância em nenhum sentido para mudar alguma coisa. Para o gaúcho machista, Deus não pode existir porque não pode haver ninguém acima dele, nem mesmo Deus pode humilhá-lo. O pai patrão, típico da grande fazenda, é o cúmulo da blasfêmia.

“Lula firmou a classe trabalhadora no poder. Porém, tanto ele quanto Dilma têm o governo, mas não têm o poder. O poder está no dinheiro”

Sul21 – O senhor falou há pouco sobre a Teologia da Libertação, que é um movimento que acaba tendo certa oposição por parte de setores mais tradicionais da Igreja…

Irmão Cechin – O que queremos é o retorno do cristianismo às suas origens. A crise moral da Igreja, com a pedofilia de padres, está diminuindo o interesse nas vocações. Está diminuindo a entrada de pessoas no conventos, e as vocações são mais de linha conservadora, que atuam na linha verticalista da religião. É só “eu e Deus”, um cristianismo individual. Ao passo que a Teologia da Libertação, complementada pelo método Paulo Freire, é eminentemente comunitária. Ela cria comunidades, o que foi o grande projeto de Jesus Cristo, com o povo unido trabalhando e transformando a realidade.

Sul21 – O senhor defende que há uma divisão na igreja católica e crítica o conservadorismo da instituição.
Irmão Cechin – Nós temos na Igreja a última monarquia do mundo. O Papa como o único Deus da verdade absoluta, que não divide o poder. Esta igreja não é a que existe na América Latina. A partir de Dom Helder, que criou a CNBB, e do Papa João XXIII, que proclamou a liberdade de consciência, surgiu o modelo da Igreja da Libertação, onde tudo é em comunidade e por meio de debate totalmente livre. Se não há liberdade, não há cristianismo.

Sul21 – O senhor auxiliou na fundação do MST. Como vê o trabalho deste movimento hoje e da Comissão Pastoral da Terra na luta pela reforma agrária no país?
Irmão Cechin – O MST surgiu com o padre Arnildo Fritzen, de Ronda Alta, em 1979. Também foi fruto do trabalho das comunidades eclesiais de base no RS. João Pedro Stedile (líder e um dos fundadores do MST) me conheceu quando ele foi assessor da Comissão Pastoral da Terra e decidimos fundar o MST. Depois de duas ocupações organizadas pelas comunidades eclesiais de base de Ronda Alta, Arnildo Fritzen foi até a Emater negociar para os colonos serem assessorados no plantio das novas propriedades. No dia 7 de setembro de 1979, em São Gabriel fizemos a primeira ocupação do que veio a ser o futuro MST, na chamada fazenda Macari. O MST ficou debaixo das asas da igreja até 1984, nas comunidades eclesiais de base. Em Cascavel (PR), em 1989, realizaram um encontro nacional e se criou o movimento organizado como é hoje, sem a dependência da Igreja. Não tem como falar do MST sem falar de São Sepé Tiaraju. João Pedro Stedile é mais devoto do que eu, mas escrevi o texto São Sepé Tiarajú rogai por nós porque fiquei intrigado com este santo que a igreja não reconhecia, mas que o povo canonizou. Quando completou 250 anos de martírio de São Sepé Tiaraju, conseguimos por meio do deputado Sérgio Goergen (PT), integrante do MST, um Projeto de Lei para tornar Sepé Tiaraju herói guarani-missioneiro-riograndense. Foi aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O deputado federal Marco Maia (ex-presidente da Câmara Federal) e o senador Paulo Paim também o fizeram no Congresso Nacional. Sepé Tiaraju passou a ser herói brasileiro. Colocamos o nome dele no panteão da pátria, ao lado de Tiradentes. Aqui no RS nem se noticiou o fato.“Considero que eles (MST) são ainda o movimento de realização da reforma agrária no país. Eles têm uma linha política, mas mantêm a independência” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O MST mudou?
Irmão Cechin – Fala-se em divisão interna. Eu não acredito nisso. Considero que eles são ainda o movimento de realização da reforma agrária no país. Eles têm, obviamente, uma linha política, mas mesmo diante dos governos Lula e Dilma adotaram independência. Eles fazem a estratégia do “bate e assopra”. É uma luta inteligente, não rompendo com os governos de esquerda. Governos de esquerda dentro do possível. Eu interpreto o Lula, que me conheceu no seu último ano de governo, como um animal político. Ele deu uma virada no Brasil. Nas comunidades de base e nos movimentos populares não se acreditava que um operário seria presidente da República. Todos votavam na hora da eleição na classe dominante. Lula conseguiu e firmou a classe trabalhadora no poder. Porém, tanto ele quanto Dilma têm o governo, mas não têm o poder. O poder está no dinheiro.

” Eu costumo dizer que os mesmos que oprimem o povo pobre são os que oprimem a natureza. Mas depois dos governos populares na América Latina, as pessoas estão buscando o bem viver”

Sul21 – Hoje, os conflitos por disputa de terra são o principal problema não enfrentado pelos governos de esquerda. Como o senhor vê esta realidade?
Irmão Cechin – Eles dominam o país. Hoje eles estão com tudo. O negócio da soja, os agrotóxicos, enfim. Todo nosso alimento está envenenado. Os presidentes da República estão tendo câncer e não estão enxergando isso, veja o (presidente da Venezuela, Hugo) Chávez, o Lula. Isto é por causa do veneno. Eu costumo dizer que os mesmos que oprimem o povo pobre são os que oprimem a natureza, que já não aguenta mais. Porém, acredito que cada vez mais a humanidade amadurece para a retomada de uma vida simples. Depois desta retomada dos governos populares na América Latina, por exemplo, principalmente pela atuação do governo do índio Evo Morales (Bolívia), todos estão buscando o bem viver. Aqui em Porto Alegre realizaremos em fevereiro mais uma edição do Caminho de São Sepé Tiaraju. Realizamos este roteiro desde 2006, mobilizando jovens, índios, todos em nome desse sentido ecológico. Este ano repetiremos o roteiro com bicicletas e com a presença do primeiro ativista de bicicleta eleito vereador de Porto Alegre, o Marcelo Sgarbossa (PT). Será um roteiro ciclístico de 300 km, de Rio Pardo a São Gabriel. É uma pedalada nas comunidades de base do campo, e temos o objetivo de reforçar esse sentido ecológico.

Irmão Cecchin quer transformar a Vila Paraíba em “oitavo povo das Missões”: “A gente sempre sonha” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Aos 85 anos, existe alguma frente ou alguma coisa que o senhor ainda não fez dentro da sua missão?
Irmão Cechin – A gente sempre sonha. Quero transformar aquela vila (Rua Paraíba) no oitavo povo das Missões Jesuíticas. Vou restaurar aquele lugar e vou colocar na frente da unidade de reciclagem a frase dos índios guaranis tupãbaê – “aqui, se trabalha para Deus”. Essa mística das Missões é maravilhosa. Tudo isso que o Fórum Social Mundial está dizendo hoje, já diziam os jesuítas e os guaranis no interior do RS há 300 anos. Mas meu próximo projeto, claro, é atender a bicicletada de São Sepé, que acontece no dia 7 de fevereiro.

Sul21 – Uma curiosidade: o senhor anda de bicicleta?
Irmão Cechin – Não me deixam andar de bicicleta mais, mas eu andaria. Já andei muito de bicicleta. Acompanharei o roteiro de carro. Nossa intenção sempre foi fazer o Caminho de São Sepé Tiaraju a pé, nos moldes do Caminho de Santiago, mas quando fizemos de bicicleta caiu no gosto da juventude. Eles vão numa alegria só!

Reflexão para o dia de finados: a passagem pela clínica de Deus

               A passagem pela clínica de Deus

                      Entrevista a João Vitor Santos
                             IHU n. 493 1/11/2016
A morte é um acabar de nascer. Como dizia José Marti: ‘morrer é fechar os olhos para ver melhor’, ver Deus e as realidades bem-aventuradas que desde sempre Ele nos preparou”. É assim que o teólogo Leonardo Boff apresenta seu entendimento sobre a morte.
“A vida se estrutura dentro de duas linhas: numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte.
Na outra, a vida começa a morrer, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer”, explica. Nessa sua perspectiva, está incrustado o conceito de ressurreição. “No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, àplena realização de suas potencialidades”.
Assim, o teólogo se propõe a olhar a experiência do Cristo para ampliar o entendimento sobre a morte.
“Como todos os humanos, ele temeu a morte porque amava esta vida”, pontua. “Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome”, completa, ao lembrar que a resposta à en- trega foi a ressurreição. O teólogo ainda recupera a história de São Francisco de Assis para falar da cosmologia da morte. Lembra que o frei não toma a morte como algo sinistro, “mas uma irmã que nos conduz aonosso destino derradeiro e benaventurado”. Para Francisco, “morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra”. Foi, segundo Boff, por isso que ele pediu que o colocassem nu sobre a terra, num “arquetípico de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra”.
Na entrevista a seguir, concedida por e- -mail à IHU On-Line, Boff ainda lembra como a atual vida moderna, presa ao material, tende a entender a morte como perda, uma desgraça. O que, para ele, é uma pers- pectiva reducionista diante da potência de vida que há na humanidade. Por isso, pro- voca: “precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida”.
Leonardo Boff é teólogo. Sobre o tema da morte, escreveu dois livros publicados pela Editora Vozes: Vida para além da morte (1973) e A ressurreição de Cristo – a nossa ressurreição na morte (1974), além de artigos para congressos de médicos e psicanalistas. Durante 22 anos, foi professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e, posteriormente, professor de Ética e de Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Sua bi-bliografia é composta por cerca de 100 livros que tratam de temas ligados à teologia, à mística, espiritualidade, filosofia, ética e ecologia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A morte pode ser entendida como um fim da vida?
Leonardo Boff – Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitu- la: “Vida depois da morte”, mas “Vida para além da morte”. A vida se estrutura dentro de duas linhas:
Numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte. Na outra, a vida começa a morrer,no momento mesmo em que nascemos, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer.
No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades, ao irromper para dentro de Deus. Mas não de qualquer jeito, pois somos imperfeitos e pecadores. Passaremos pela clínica de Deus na qual amadureceremos até chegar à nossa plenitude. É o juízo purificador. Outros chamam de purgatório.
Em todos os casos não vivemos para morrer, como diziam os existencialistas. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.
IHU On-Line – Como podemos relacionar morte e juízo final? Em que medida esse temor ao juízo se transforma no medo da morte, limitando uma compreensão mais ampla?
Leonardo Boff – Para a pessoa que morre, o mundo se acabou. Deixou-o para trás. Começa outro tipo de mundo. Depois do tempo vem a eternidade. Mas entre um e outro há o juízo, não medido pelo tempo do relógio, sempre igual, mas pelo tempo existencial, próprio de cada pessoa. Por esse juízo nos é concedida a oportunidade de uma visão global de nossa vida, dentro da corrente da vida universal e de nosso lugar dentro do universo. E também dentro do plano de Deus.
Nessa cisão entre o tempo e a eternidade se cria a oportunidade de uma “de-cisão” derradeira, uma adesão ao projeto de Deus sobre nossa existência. Creio que será sempre positiva, tal é a intensidade da visão de amor e de atração da divina realidade.
A pessoa pode custar em desfazer-se de laços desordenados que não o alinhavam à lógica global do universo e de Deus. Mas o fará, pois fomos criados para sermos companheiros do infinito Amor. Morrer é voltar à casa a qual sempre pertencemos e que, depois de um penoso caminhar, purificados, chegaremos felizes a ela.
IHU On-Line – Como o conceito de morte pode nos evocar co- munhão? E como compreender o conceito de ressurreição a partir da morte?
Leonardo Boff – Morrer é penetrar no coração do universo, onde todas as coisas são um, quer dizer, onde todas as teias de relação, que constituem a realidade universal, encontram o seu nó de origem e de sustentação. É a possibilidade de comunhão de tudo com tudo e a iden- tificação de nosso lugar e de nossa importância para o todo e no todo. Nós mesmos nos tornamos cósmicos.
Esse é o conceito teológico de res-surreição. Não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro1 que, no final, acabou novamente morrendo. Trata-se da superação da morte e do ter que morrer.
Ressurreição comporta a realização de todas as potencialidades escondidas dentro de cada pessoa. Somos um projeto infinito, somos seres feitos de utopias e de sonhos. Agora eles podem vir à tona e conhecer uma ridente e plena concretização. Aí surge aquilo que São Paulo2 diz ao se referir, na Epístola aos Coríntios3, à ressurreição de Jesus: é irrupção do “novissimus Adam”, do ser novo, que recém acabou de nascer. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Conosco acontecerá o mesmo,

1 O entrevistado se refere ao texto de João 11, 38-57. (Nota da IHU On-Line)
2 Paulo de Tarso (3–66 d.C.): nascido em Tarso, na Cilícia, hoje Turquia, era origina- riamente chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros, Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Antes de sua conversão, se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada após três dias por Ananias, que o batizou como cristão. A partir deste encon-tro, Paulo começou a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto, frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era educado em duas culturas: a grega e a judaica. Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma seção fundamental do Novo Tes- tamento. Afirma-se que ele foi quem verdadeiramente transformou o cristianismo numa nova religião, superando a anterior condição de seita do Judaísmo. A IHU On-Line 175, de 10-04-2006, dedicou sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contemporaneidade, disponível em http://bit.ly/ihuon175, assim como a edi- ção 286, de 22-12-2008, Paulo de Tarso: a sua relevância atual, disponível em http:// bit.ly/1o5Sq3R. Também são dedicadas ao religioso a edição 32 dos Cadernos IHU em formação, Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo sentido de realidade, dis- ponível em http://bit.ly/ihuem32, e a edição 55 dos Cadernos Teologia Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação e de- clínio da mulher cristã no século I, disponí- vel em http://bit.ly/ihuteo55. (Nota da IHU On-Line)

3 Primeira Carta aos Coríntios, 15, 1-57. (Nota da IHU On-Line)

cada um conforme a sua identidade que é singular e única. Mas todos res- suscitaremos, pois essa é a mensagem derradeira da ressurreição de Jesus. Não é apenas algo que ocorreu somente com ele. É o Messias que ressuscita. E segundo a tradição judaica ele não ressuscita sozinho mas com a sua comunidade. E a comunidade é a humana e também a cósmica.
IHU On-Line – O que a história do Cristo ensina e inspira a pensar sobre a morte?
Leonardo Boff – Jesus morreu
não porque todos morrem. Ele foi
sentenciado e condenado à morte.
A morte lhe foi imposta. A forma
como ele acolheu a morte nos é
inspiradora.
Como todos os humanos, ele temeu a morte porque
amava esta vida e seus amigos e
amigas com quem compartilhava
uma comunidade de destino. Mas
como diz a Epístola aos Hebreus,
“Jesus dirigiu preces e súplicas entre clamores e lágrimas àquele que
o podia salvar da morte” (5,8). O
texto continua dizendo “e foi atendido por sua piedade”. Exegetas 59 de renome como Bultmann4 e Har-nack5 afirmam que aqui havia um “não” (ouk): “e não foi atendido embora fosse Filho de Deus” (5, 8). Isso é coerente com a sequência do texto e com a história real de Jesus. Ele não foi libertado, ao contrário, sofreu a execução. A mesma angústia face à morte mostrou no jardim das Oliveiras:

4 Rudolf Karl Bultmann (1884-1976): foi um teólogo alemão. Em 1912 começou a tra- balhar como docente na área de Bíblia – Novo Testamento em Marburg; em 1916, tornou-se professor em Breslau; em 1920 foi para Gies- sen e, em 1921, transferiu-se para Marburg, onde criou um seminário seminal com Martin Heidegger, Friedrich Gogarten onde aplicavam as categorias de sua filosofia da existência à mensgem crista e à igreja. Lá viveu e trabalhou até o final de sua vida. Ocupou-se com muitos temas da teologia, filologia e arqueologia. Levantou questões importantes que dominaram a discussão te- ológica do século passado e são relevantes até hoje, como, por exemplo, o problema da de- mitologização. (Nota da IHU On-Line)

5 Adolf von Harnack (1851-1930): teólogo alemão, além de historiador do cristianismo. Suas duas obras mais conhecidas são o Lehr- buch der Dogmengeschichte (“Manual de his- tória do dogma”, em três volumes) e a série de palestras Das Wesen des Christentums (“A essência do cristianismo”), texto clássico da teologia liberal. Harnack recebeu diver- sas condecorações, entre outros, em 1902 a Ordem Pour le Mérite para as Ciências e as Artes, da qual foi chanceler de 1920 até a sua morte em 1930. (Nota da IHU On-Line)

“Pai, afasta de mim este cálice”. O texto diz que suou sangue. Médicos afirmam que condenados à morte, diante do pavor, suam sangue. Mas a maior expressão, de quase desespero, manifestou no alto da cruz, clamando em sua língua materna conservada na versão de São Marcos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste (Mc 15, 34)?6” E o texto termina de uma forma aterradora: “Dando um imenso grito, Jesus expirou” (Mc 15,37).
Superação da desesperança
Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome, embora sempre o chamasse na linguagem da ternura infantil de Abba, “meu querido paizinho”: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A resposta desta entrega confiante, para além de toda a tentação da desesperança, foi a sua ressurreição. O Pai o ressuscitou inaugurando uma nova humanidade, finalmente, redimida.
Qual a lição? Temeu a morte como todos a temem. Bebeu o cálice do temor e do pavor até ao fundo. Gritou ao céu. Mas, por fim, resignado e livre, acolheu o desígnio misterioso- do Pai, aceitando a morte. Bem diz no evangelho de João. “Ninguém me tira a vida, eu a dou por mim mesmo”.
Essa doação e entrega pode nos inspirar. A morte per- tence à vida e devemos integrá-la. Nós não sucumbimos à morte, mas nos transfiguramos através da morte, como foi o caso de Jesus. Em outras palavras: a palavra derradeira pronunciada por Deus sobre o nosso destino não é a morte, mas a vida em plenitude, a vida ressuscitada.
IHU On-Line – Como a experiência de São Francisco7 pode nos inspirar a pensar sobre a morte? Em que medida é possível afirmar que essa experiência atualiza a do próprio Cristo?

6 Sobre esse tema, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU possui diversos textos publicados disponíveis seu sítio. Destacamos, O grito de Jesus na cruz e o silêncio de Deus, artigo de Francine Bigaouette, Alexander Nava e Carlos Arthur Dreher, publicado em Cadernos de Teologia Pública, número 89, disponível em http://bit.ly/2dUWJBN. (Nota da IHU On-Line)

7 São Francisco de Assis (1181-1226): frade católico e leigo, fundador da “Ordem dos Frades Menores”, mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Ca- tólica. Por seu apreço à natureza, é mundial- mente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente. Sobre Francisco de Assis confira a edição 238 da IHU On-Li- ne, de 01-10-2007, intitulada Francisco. O santo, disponível para download em http:// bit.ly/1NLAtl7 e a entrevista com a medieva- lista italiana Chiara Frugoni, intitulada Uma outra face de São Francisco de Assis, na re- vista IHU On-Line número 469, de 03-08- 2015, disponível em http://bit.ly/2erAzUq. (Nota da IHU On-Line)

Leonardo Boff – São Francisco viveu uma experiência singular da morte. Como se havia reconciliado com todas as coisas, chamando- as com o doce nome de irmãos e irmãs, o mesmo fez com a morte. Ela é irmã que nos leva para a Casa do Pai. Não é uma figura sinistra que nos vem arrebatar a vida. Mas uma irmã que nos conduz ao nosso destino derradeiro. Morrer é ir ao encontro do Pai, sem medo, pois Ele é pura bondade, misericórdia e amor. Morrer é cair em seus braços para o abraço infinito da paz e do amor.
Em São Francisco não há angústia como notamos em Jesus, pois seguramente tinha diante dos olhos o fato da ressurreição. Há acolhida e total entrega. Morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra. Pediu que o desnudassem e o colocassem, nu, sobre a terra. Isso é arquetípico e de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra que ele cantou no “Cântico ao Irmão Sol”8. Somos Terra, dela viemos e para ela vamos, entregando o cor- po que ela nos deu.
8 Cântico das Criaturas (em italiano: Cantico delle creature; em latim: Laudes Creaturarum), também conhecido como Cântico do Irmão Sol, é uma canção religiosa cristã composta por Francisco de Assis. Escrita no dialeto úmbrio do italiano, acredita-se que esteja entre as primeiras obras escritas no idioma. Ao contrário de outras canções re- ligiosas da época, o Cântico das Criaturas é quase infantil na maneira em que louva Deus agradecendo-o por criações como o “Irmão Fogo” e a “Irmã Água”. A letra é uma afir- mação da teologia pessoal de Francisco de Assis. Ele frequentemente se referia aos ani- mais como irmãos e irmãs da Humanidade, rejeitava qualquer tipo de acúmulo material e confortos sensuais, em troca da “Senhora Pobreza”. Francisco teria composto a maior parte do cântico no fim de 1224, enquanto se recuperava de uma doença em San Da- miano, em uma pequena cabana construída para ele por Clara de Assis e outras mulheres pertencentes à sua ordem. De acordo com a tradição, ela teria sido cantada pela primeira vez por São Francisco e pelos irmãos Angelo e Leo, dois de seus companheiros originais, no leito de morte de Francisco, com o verso final que louva a “Irmã Morte” tendo sido acres- centado apenas alguns minutos anteriormen- te. (Nota da IHU On-Line)
Talvez, a única semelhança seja a total e serena entrega ao Pai, no supremo momento, como final- mente e depois de muita luta, o fez Jesus. Por isso que os franciscanos, guardando a tradição de São Fran- cisco, sempre que um frade falece, fazem festa na comunidade, com comes e bebes, pois celebram a entrada do confrade no Reino da Trindade.
IHU On-Line – No livro Vida para além da morte (Petrópolis: Vozes, 1973), apresenta uma perspectiva de que o purgatório pode se constituir na terra, em vida, a partir das dores e sofrimentos a que se é submetido. Gostaria que recuperasse essa ideia e refletis- se como essa perspectiva pode contribuir para dissociar a ideia de morte e dor.
Leonardo Boff – A categoria “purgatório” é tardia na reflexão teológica. Como Jacques Le Goff9 o mostrou, ela surgiu no mundo medieval no contexto das hierarquias da nobreza e das correspondents ofensas que podem ocorrer con- tra elas. Para cada ofensa, o seu merecido castigo. O purgatório foi incorporado à teologia, a partir de algumas referências de Santo Agos- tinho10, que insinuava o fato de que não se pode chegar a Deus imper- feitos. Temos que nos aperfeiçoar para sermos adequados ao mundo da absoluta perfeição divina na eternidade. O purgatório cumpriria essa função de purgação.
A tendência da moderna teologia ecumênica é dispensar o purgatório como construção teológica e não mais como doutrina oficial. A vida, vivida com virtudes, superando di- ficuldades e padecimentos, mas principalmente, vivendo amor e a compaixão fazem com que vamos nos purificando. A grande purifi- cação viria no momento do juízo quesedáentreofimdotempoe o começo da eternidade. No juízo nos damos conta de nossos benfei- tos e malfeitos, de qual foi o nosso projeto fundamental. Somos colo- cados diante de Deus-amor e bon- dade e de nossa missão no desígnio do Mistério dentro da história e do próprio universo. É o momento de fazermos um ato de amor e de total entrega a Deus. Alguns o farão com dificuldades, dada a sua adesão a um tipo de vida que não se alinhava ao propósito do Criador. Mas face a tanta bondade, amor e misericórdia do Deus-Trindade, nos rendemos em arrependimento e ação de graças. Sairemos purificados.
E então participaremos do mun- do para o qual fomos destinados desde toda a eternidade. Bem dis- se o Papa Francisco: para Deus não há condenação eterna. Há miseri- córdia. Seguramente se revelará a justiça no juízo. Mas passamos pelo juízo e, transfigurados, goza- remos e cantaremos, cantaremos e celebraremos, celebraremos e co- mungaremos a vida infinita, terna e eterna do Deus-comunhão-de- -divinas Pessoas.

9 Jacques Le Goff (1924): medievalista francês, formado em história e membro da Escola dos Annales. Presidente, de 1972 a 1977, da VI Seção da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), foi diretor de pesquisa no grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval dessa mesma institui- ção. Entre outras altas distinções, Le Goff re- cebeu a medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), pela primeira vez atribuída a um historiador. Boa parte de sua obra está ao alcance do leitor brasileiro, como por exemplo, Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente (Lisboa: Estampa, 1980); Mercadores e banqueiros da Idade Média (Lisboa: Gradiva, 1982); e A civiliza- ção no Ocidente Medieval (Lisboa: Estampa, 1984). Le Goff concedeu a entrevista Roma, alimento e paralisia da Idade Média à edi- ção 198 da revista IHU On-Line, de 02-10- 2006, disponível em http://bit.ly/ihuon198. Entre seus livros, destacamos O nascimento do purgatorio (Lisboa: Estampa, 1995) (Nota da IHU On-Line)

10 Santo Agostinho (Aurélio Agostinho, 354-430): bispo, escritor, teólogo, filósofo, foi uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente. Ele foi influenciado pelo neoplatonismo de Plo- tino e criou em diálogo com São Jerônimo, os conceitos de pecado original e guerra justa. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Muitas pessoas que se anunciam católicos – e por vezes até professam sua fé no ca- tolicismo – acabam buscando refe- rência em outras religiões quando confrontadas pela experiência da morte. Como compreender esses movimentos? Em que medida isso revela os limites do catolicismo na construção que faz da morte?
Leonardo Boff – A teologia oficial que entrou nos catecismos é mais devedora da cosmovisão grega do que da leitura cristã da vida e da morte. Ainda se manejam os con- ceitos antropologicamente pobres de corpo e alma ao invés de captar o ser humano como o faz a visão originária e bíblica: o ser humano em suas várias situações existenciais. Um dos maiores reducionismos da encarnação da fé cristã na cultura greco- -latina foi praticamente o abandono da mensagem revolucionária da ressurreição. Ela ficou como uma espécie apologetic, de milagre para mostrar que Jesus era Deus, quando na verdade, mostrava a verdadeira leitu- ra cristã sobre o destino humano, chamado à transfiguração.
Em seu lugar entrou o tema fácil de origem platônica, da imortalidade da alma, entregando o corpo ao pó da terra. A ressurreição ficou algo para o fim do mundo. Como não sabemos quando ele acontecerá, o tema ressurreição perdeu relevância existencial.
Graças a Deus que a moderna teologia ecumênica resgatou a centralidade da ressurreição e permitiu uma nova leitu- ra do destino final do ser humano. Ressuscitaremos no fim do mundo, vale dizer, no momento em que para cada um o mundo acabou e se inicia a eternidade. Quer dizer, ressuscitaremos na morte. Vamos inteiros com toda nossa realidade, purificada pelo juízo, ao seio do Pai e Mãe de infinita bondade.
Entretanto, essa ressurreição não é completa. Nem a de Jesus é complete. Apenas o núcleo pessoal ressuscitou. Enquanto nossa Casa Comum, o inteiro universo também não participa da ressurreição, vivemos uma ressurreição ainda por completar. No final, tudo será transfigurado. Será como o corpo da Trindade.
IHU On-Line – Em que medida a morte, numa perspectiva escatológica11, pode suscitar uma reflexão sobre a esperança cristã?
Leonardo Boff – Se entendermos a escatologia não como algo que acontece no termo da história, mas como a presença antecipada dos bens do Reino, como o perdão, a graça e, especialmente, a ressurreição na morte, podemos nos encher de alegria e de desafogo existencial. Morrer é atender a um chamado de Deus. E vamos felizes ao encontro dele. Na passagem se dá a nossa transfiguração. Não morremos, nos transfiguramos. Nietzsche12 comentava
11 Escatologia (do grego antigo εσχατος, “último”, mais o sufixo -logia): parte da teo- logia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim do mundo. Em muitas religiões, o fim do mundo é um evento futuro profetiza- do no texto sagrado ou no folclore. De forma ampla, escatologia costuma relacionar-se com conceitos tais como Messias ou Era Mes- siânica, a pós-vida, e a alma. (Nota da IHU On-Line)

12 Friedrich Nietzsche (1844-1900): fi- lósofo alemão, conhecido por seus concei- tos além-do-homem, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras figuram como as mais importantes Assim falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5. ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo do martelo e do crepúsculo, disponível para do- wnload em http://bit.ly/Hl7xwP. A edição 15 dos Cadernos IHU em formação é intitu- lada O pensamento de Friedrich Nietzsche, e pode ser acessada em http://bit.ly/HdcqOB. Confira, também, a entrevista concedida por Ernildo Stein à edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-05-2010, disponível em http://bit.ly/162F4rH, intitulada O biologis- mo radical de Nietzsche não pode ser mini- mizado, na qual discute ideias de sua confe- rência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença – Pré-evento do XI Simpósio Inter- nacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Na edição 330 da revista IHU On-Line, de 24-05-2010, leia a entrevista Nietzsche, o pensamento trágico e a afirma- ção da totalidade da existência, concedida pelo Prof. Dr. Oswaldo Giacoia e disponível para download em http://bit.ly/nqUxGO. Na edição 388, de 09-04-2012, leia a entrevista O amor fati como resposta à tirania do sen- tido, com Danilo Bilate, disponível em http:// bit.ly/HzaJpJ. (Nota da IHU On-Line

que os cristãos andam tão tristes como se não tivesse havido redenção nem tivesse eclodido a ressurreição. Temos mil razões para vi- vermos felizes e serenos, mesmo dentro das maiores dificuldades, pois o fim é bom e significa a plenificação de todos os nossos sonhos e desejos, a irradiação total da vida.
IHU On-Line – Quais caminhos são necessários percorrer para dissociar a ideia de morte da ideia de perda – de alguém – e associar a ideia de integração com o todo da criação, quase que como uma perspectiva cosmológica de povos originais?
Leonardo Boff – O que precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a companheira que nos conduz à Casa Paterna. Ela significa uma espécie de passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida. Os mortos não são ausentes. São apenas invisíveis. E podem ser invocados e senti-los como compa nheiros em nossa caminhada.
É o conteúdo concreto do que está no Credo13: “creio na comunhão dos santos”. Isso não tem nada a ver com os santos e santas que estão nos altares. Mas tem a ver com todos e todas que estão em Deus, onde cremos que estarão nossos entes queridos. Ficamos tristes com a partida. Mas podemos ficar alegres com a chegada deles na suprema felicidade.

13 Credo também chamado de Símbolo é a profissão de fé cristã expressa no Símbolo Apostólico e no Símbolo Niceno-Constanti- nopolitano. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Em que medida a lógica desses nossos tempos nos levam a falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos? Quais as implicações dessa perspectiva?
Leonardo Boff – Para os modernos, vítimas da cultura materialista e consumista do capital, a morte significa a maior desgraça. Pois para a maioria tudo acaba no pó cósmico. Então não vale a pena fazer qualquer sacrifício em função de uma vida que vai para além da morte. Tudo se realiza aqui. Esta visão é pequena e equivocada e não corresponde aos impulsos do coração, aos sonhos que nos habitam, de querer vida e mais vida, e a eternidade da vida.
Por isso existe nos países ricos como nos Estados Unidos todo um disfarce da morte, uma indústria de preparação dos cadáveres para que pareçam vivos e sejam colocados até de pé. Estimo que esta visão é pobre demais para se adequar com aquilo que de fato ocorre em nossa interioridade, em nossos anelos mais profundos. Ela é contra vida, pois a vida comporta a morte.O futuro é da vida que chama à vida e não da morte. Por isso de-vemos sempre defender a vida em sua dignidade, a partir daqueles condenados a ter menos vida. Estes serão os primeiros a herdar a vida no Reino da Trindade.■

Outras referências a textos de Leonardo Boff

—  Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si’. “Nem a ONU produziu um texto desta natureza’’. Entrevista especial com Leonardo Boff, publicada nas Notícias do Dia de 18-7- 2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eq6Hwb.

  • —  O amor e a misericórdia são categorias centrais da teologia e prática de Francisco. Entre- vista com Leonardo Boff, publica na revista IHU On-Line número 465, de 18-5-2015, dispo- nível em http://bit.ly/2eqOV9l.
  • —  Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 16-10-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eZz17B.
  • —  “Com Francisco, diálogo contínuo embora a distância”. Entrevista com Leonardo Boff, pu- blicada em Notícias do Dia de 17-9-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2dtYRAB.
  • —  Ser mais com menos: eis o futuro da humanidade. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 24-6-2009, no sítio do Instituto Humanitas Unisnos – IHU, disponível em http://bit.ly/2e80cdZ.
  • —  Apoio ao Papa Francisco contra um escritor nostálgico. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 07-1-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eTJoXy.
  • —  Realmente não existem verdades absolutas a não ser Deus. Artigo de Leonardo Boff, Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 28-7-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2f4xWcg.
  • —  Como reproduzimos a cultura do capital. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 20-4-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http:// bit.ly/2eMbAhe.

 

Der kosmische Christus: eine Spiritualität des Kosmos

Eine der beharrlichsten Forschungsrichtungen unter den Wissenschaftlern, die mit den Wissenschaften der Erde und des Lebens zu tun haben, ist die nach der Einheit des Ganzen. Sie sagen: “Wir müssen die Formel finden, die alles erklärt. Dann können wir den Geist Gottes entdecken.” Diese Forschung nennt sich “Die Theorie der Großen Vereinigung” oder “Quantenfeldtheorie” oder noch pompöser “Die Theorie des Ganzen”. Trotz intensivster Bemühungen schlossen sie frustriert damit ab oder, wie der große Mathematiker Steven Hawking, gaben diesen Anspruch wegen seiner Unmöglichkeit auf. Das Universum ist viel zu komplex, um einfach durch eine einzige Formel erklärt zu werden.

Dennoch kam man durch die Forschung der mehr als hundert subatomaren Teilchen und der Ur-Energien zur Erkenntnis, dass sie alle zum sogenannten “Quanten-Vakuum” führen, das weniger ein Vakuum ist als die Fülle aller Möglichkeiten. Dieser bodenlosen Tiefe entstammen alle Wesen und das gesamte Universum. Es wird dargestellt als ein riesiger Ozean an Energien und grenzenloser Potenzialen. Andere nennen es die “Quelle alles Seins” oder den “nährenden Abgrund von allem”.

Interessanterweise bezeichnet es Brian Swimme, einer der bekanntesten Kosmologen, als das Unaussprechliche und das Mysteriöse (The Hidden Heart of the Cosmos, 1996). Dies sind Eigenschaften, die die Religionen der Ersten Wirklichkeit zuordnen, die tausend verschiedene Namen trägt: Tao, JHWH, Allah, Olorum, Gott … Ein mit Energie geschwängertes Vakuum. Wenn das nicht Gott ist (Gott kommt immer zuerst), so ist es seine beste Metapher und Darstellung.

Nicht die Materie ist die Basis, sondern das geschwängerte Vakuum ist es. Es ist die Ur-Quelle. Der berühmte nordamerikanische Ökologe/Kosmologe, Thomas Berry, schrieb: “Wir müssen spüren, dass wir mit derselben Energie angefüllt sind, die das Entstehen der Erde, der Sterne und der Galaxien verursachte. Dieselbe Energie schuf alle Formen von Leben sowie das reflektierende Bewusstsein der Menschen. Es ist das, was die Poeten inspiriert, die Denker und Künstler aller Zeiten. Wir sind in einen Ozean von Energie eingetaucht, der unseren Verstand bei weitem überschreitet. Doch letztlich ist diese Energie nicht durch Beherrschung, sondern durch Erflehung die unsere” (The Great work, 1999, S. 175), d. h. indem wir uns ihr öffnen.

Wem dem so ist, dann entsprang alles Existierende dieser Energiequelle: Kulturen, Religionen, das Christentum selbst und sogar solche Persönlichkeiten wie Buddha, Moses, Jesus und jede/r Einzelne von uns. Alles wurde innerhalb des kosmogenen Prozesses geschaffen als noch komplexere Ordnungen entstanden, die noch stärker internalisiert und mit allen Wesen eng verbunden sind. Ist ein gewisses Maß dieser Ur-Energie akkumuliert, dann kommt es zu historischen Ereignissen und zur Erstehung jeder individuellen Person.

Wer die Schöpfung des Christus in diesem Kosmos sah, war der Jesuit, Paläonthologe und Mystiker, Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), der den christlichen Glauben mit dem Gedanken einer weiteren Evolution und der neuen Kosmologie versöhnte. Teilhard unterscheidet zwischen “christsisch” und “christlich”. Das Christische zeigt sich in einem objektiven Datum inmitten des Evolutionsprozesses. Es wäre die Verbindung, die alles miteinander vereint. Da es sich bereits hierin befand, konnte eines Tages in der Geschichte die Person des Jesus von Nazareth auftauchen, derjenige, “durch den alles ist und auf den hin alles geschaffen ist”, wie der Hl. Paulus sagt.

Also wird das Christische, wenn es subjektiv erkannt und innerhalb des Bewusstseins einer Gruppe transformiert wird, zum Christlichen. Dann entsteht historische Christenheit, begründet in Jesus, dem Christus, der Inkarnation des Christischen. Daraus folgt, dass sich seine letzten Wurzeln nicht im ersten Jahrhundert Palästinas befinden, sondern inmitten des eigentlichen Prozesses der kosmischen Evolution.

Der heilige Augustinus erfasste in seinem Brief an einen heidnischen Philosophen (Epistel 102) intuitiv: “Das, was nun den Namen einer christlichen Religion trägt, existierte bereits zuvor und war im Ursprung der Menschheit nicht abwesend bis Christus im Fleisch erschien; eher war es so, dass die wahre Religion, die bereits existiert hatte, begann “christlich” genannt zu werden.”

Eine ähnliche Überlegung findet sichi m Buddhismus. Dort gibt es die Buddha-Natur (die Fähigkeit zur Erleuchtung), die zu erreichen man sich während des Evolutionsprozesses bemühte, bis Siddharta Gautama erschien und der Buddha wurde. Dies konnte sich nur in der Person des Gautama manifestieren, denn die Buddha-Natur gab es bereits zuvor in der Geschichte. So wurde er der Buddha wie Jesus der Christus wurde.

Wird dieses Verständnis so weit verinnerlicht, dass es unsere Wahrnehmung der Dinge, der Natur, der Erde und des Universums verändert, so öffnet sich der Weg für eine kosmische spirituelle Erfahrung, für die Kommunion mit allen und mit jeder/m. Durch diesen spirituellen Weg wird uns das bewusst, wonach die Wissenschaftler durch die Wissenschaft streben: eine Verbindung, die alles vereint und voran bringt.

Leonardo Boff  Theologe und Philosoph von der Erdcharta Kommission   und hat das Buch In Ihm hat alles Bestand: der kosmische Christus und die modernen Naturwissenschaften Butzond&Bercker, Kevelaer 2013.

Übersetzt von Bettina Gold-Hartnack