We Westerners, the Most Responsible of the actual Crisis

The number of crises overwhelming humanity forces us to stop and take stock. It is a time for all critical observers who wish go beyond the conventional and intra-systemic speeches to philosophize.

Why have we come to the present situation, that objectively threatens the future of human life and of our civilizing work? Our response lacks serious justification: those principally responsible for putting us on this path are those who in recent centuries have held the power, the knowledge, and who owned everything. They wanted to dominate nature, conquer the whole world, subjugate its peoples and put everything at the service of their interests.

To this end they employed a powerful weapon: techno-science. Through science, they determined how nature functions, and through technology they created interventions for human benefit, with no thought for their consequences.

The men who did this were the Western Europeans. They incorporated us Latin Americans, by force, as an appendix: the Far Westerners.

These Westerners, however, are now enormously perplexed. Stunned, they ask themselves: how can we be at the center of the crisis, when we have the best knowledge, the best democracy, the best technology, the best movies, the biggest military and the best religion, Christianity?

Now these “conquests” are in question, because in spite of their value, they undeniably fail to offer us a vision of hope. We sense that the time of the West has been used up, and is already past. This is why it has lost its legitimacy and convincing strength.

Arnold Toynbee, analyzing the great civilizations, noted the following historical constant: when the answers to the challenges no longer suffice, civilizations always enter into crisis. They start to decay, until they either collapse or are assimilated by another. The new one brings renewed vigor, new dreams and new meaning for personal and collective life. What will come? Who knows. That is the crucial question.

What makes the crisis more serious is the persistent Western arrogance. Even in decay, Westerners imagine themselves to be the obligatory point of reference for everyone else.

For the Bible and the Greeks, such behavior constituted supreme deception, because it puts oneself on the same pedestal as the divinity, considered to be the supreme reference and the Last Reality. This attitude was called hybris, this is, arrogance, and extreme egotism.

It was this arrogance that led the United States intervene under false pretenses in Iraq, then in Afghanistan, and previously, in Latin America, for many years supporting military dictatorships and the shameful Operation Condor, in which hundreds of leaders of several Latin American countries were kidnapped and murdered.

With the new president, Barak Obama, a new path seemed promising, a more multipolar one, respectful of cultural differences and compassion for the vulnerable. It was a huge mistake. Obama is carrying out the imperialist trajectory, in the same line as fundamentalist Bush. He has not substantially changed anything, in this strategy of arrogance. To the contrary, Obama inaugurated something outrageous and perverse: un-declared war, using “drones”, un-manned planes. Electronically directed from cold rooms in military bases in Texas ,they attack, killing individual leaders and entire groups whom they suspect to be terrorists.

Christianity itself, in its different forms, has distanced itself from ecumenism and is taking on fundamentalist traits. There is a competition in the religious market, to see which denomination acquires more of the faithful.

We have witnessed in Rio+20 the same arrogance of the powerful, who refused to participate and to find even minimal points of convergence, that could alleviate the crisis of the Earth.

And to think that, deep down, we only seek a simple utopia, well expressed by Pablo Milanes and Chico Buarque: “history could be a happy bus, filled with contented people”.

O impossível pacto entre o lobo e o cordeiro

Post Festum, podemos dizer: o documento final da Rio+20 apresenta um cardápio generoso de sugestões e de propostas, sem nenhuma obrigatoriedade, com uma dose de boa vontade comovedora mas com uma ingenuidade analítica espantosa, diria até, lastimável. Não é uma bússula que aponta para o “futuro que queremos” mas para a direção de um abismo. Tal resultado pífio se tributa à crença quase religiosa de que a solução da atual crise sistêmica se encontra no veneno que a produziu: na economia.

Não se trata da economia num sentido transcendental, como aquela instância, pouco importam os modos, que garante as bases materiais da vida. Mas da economia categorial, aquela realmente existente que, nos últimos tempos, deu um golpe a todas as demais instâncias (à política, à cultura e à ética) e se instalou, soberana, como o único motor que faz andar a sociedade. É a “Grande Transformação” que já em 1944 o economista húngaro-norteamericano Karl Polanyi denunciava vigorosamente. Este tipo de economia cobre todos os espaços da vida, se propõe acumular riqueza a mais não poder, tirando de todos os ecossistemas, até à sua exaustão, tudo o que seja comercializável e consumível, se regendo pela mais feroz competição. Esta lógica desequilibrou todas as relações para com a Terra e entre os seres humanos.

Face a este caos Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, não se cansa de repetir na abertura das Conferências: estamos diante das últimas chances que temos de nos salvar. Enfaticamente em 2011 em Davos diante dos “senhores do dinheiro e da guerra econômica”declarou:”O atual modelo econômico mundial é um pacto de suicídio global”. Albert Jacquard, conhecido geneticista francês, intitulou assim um de seus últimos livros:”A contagem regressiva já começou?”(2009).

Os que decidem não dão a mínima atenção aos alertas da comunidade científica mundial. Nunca se viu tamanha descolagem entre ciência e política e também entre ética e economia como atualmente. Isso me reporta ao comentário cínico de Napoleão depois da batalha de Eylau ao ver milhares de soldados mortos sobre a neve:” Uma noite de Paris compensará tudo isso”. Eles continuam recitando o credo: um pouco mais do mesmo, de economia  e já sairemos da crise. É possível o pacto entre o cordeiro(ecologia) e o lobo(economia)? Tudo indica que é impossível pois o lobo sempre devorará o cordeiro.

Podem agregar quantos adjetivos quiserem a este tipo vigente de economia, sustentável, verde e outros, que não lhe mudarão a natureza. Imaginam que limar os dentes do lobo lhe tira a ferocidade, quando esta reside não nos dentes mas em sua natureza. A natureza desta economia é querer  crescer sempre, a despeito  da devastação do  sitema-natureza e do sistema-vida. Não crescer é prescrever a própria morte. Ocorre que a Terra não aquenta mais esse assalto sistemático a seus bens e serviços. Acresce a isso a injustiça social, tão grave quanto a injustiça ecológica. Um rico médio consome 16 vezes mais que um pobre médio. Um africano tem trinta anos a menos de expectativa de vida que um europeu (Jaquard, 28).

Face a tais crimes como não se indignar e não exigir uma mudança de rumo?  A  Carta da Terra nos oferece uma direção segura :”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal…para alcançarmos um modo sustentável de vida nos níveis local, nacional, regional e global”(final). Mudar a mente implica um novo olhar sobre a Terra não como o “mundo-máquina” mas como  um organismo vivo, a Terra-mãe a quem cabe respeito e cuidado.

Mudar o coração significa superar a ditadura da razão técnico-científica e resgatar a razão sensível onde reside o sentimento profundo, a paixão pela mudança e o amor e o respeito a tudo o que existe e vive. No lugar da concorrência, viver a interdependência global, outro nome para a cooperação e no lugar da indiferença, a responsabilidade universal, quer dizer,  decidir enfrentar juntos o risco global.

Valem as palavras do Nazareno:”Se não vos converterdes, todos perecereis”(Lc 13,5).

Pode a espécie humana desaparecer?

 

A vida na Terra transformou-se atualmente no grande e obscuro objeto do cuidado humano. Damo-nos conta de que nos podemos autodestruir. Não por alguma meteoro rasante, nem por algum cataclismo natural de proporções fantásticas. Mas por causa da irresponsável atividade humana. Segundo o prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, criamos uma nova era geológica, o antropoceno. Por ela o ser humano comparece como a grande ameaça à vida.

Segundo Carl Sagan inventamos o princípio de autodestruição pelas armas de destruição em massa. Agora nos demos conta de que a guerra total conduzida contra Gaia, pode fazer com que ela não nos queira mais sobre a sua superfície. Seríamos expulsos como expulsamos uma célula cancerígena. Devido ao estresse de todos os serviços ecossistêmicos, a Terra vai irrefreavelmente subindo de temperatura que oscilará entre 1,8 e 5 graus Celsius. Com a entrada do metano na atmosfera que é 23 vezes mais agressivo que o dióxido de carbono, pode ocorrer nos próximos decênios, uma “mudança abrupta do clima”(Abrupt Climate Change), da ordem de 4-5 graus Celsius, como o vem advertindo o Comité da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Os efeitos seriam devastadores. Grande parte da biodiversidade poderá desparecer bem como  e milhões e milhões de pessoas que não teriam como encontrar refúgios salvadores.

Em razão destes alarmes, despertamos de um ancestral torpor. Somos responsáveis pela vida ou pela morte em nosso planeta vivo e pelo “futuro que queremos” como o formulou a Rio+20, futuro nosso e de nossa  Casa Comum.

Cabe perguntar :poderia o ser humano desaparecer por ter se tornado uma força geofísica destruidora e por  falta culposa  de sabedoria?

                   Possibilidade real do fim da espécie humana

Nomes notáveis das ciências não excluem esta eventualidade. Stephen Hawking em seu livro O universo  numa casca de noz (Mandarim, São Paulo 2001) reconhece que num futuro ainda distante a população mundial ficará ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. Ela poderá se destruir a si mesma enquanto portadora de vida (p.159).

O prêmio Nobel de Química, Christian de Duve,  em seu conhecido Poeira Vital: a vida como imperativo cósmico (Campus, Rio de Janeiro 1997) atesta que “a evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grande instabilidade; de certa forma nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”(p.355). Antigamenente eram os meteoros rasantes que ameaçavam a Terra; hoje o meteoro rasante se chama ser humano.

Théodore Monod, talvez o último grande naturalista, deixou como testamento um texto de reflexão com esse título: E se a aventura humana vier a fracassar? (Et si l’aventure humaine devait échouer?, Grasset, Paris 2000). Assevera: “somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da espécie humana”(p. 246). E acrescenta:”seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldades”(p. 248)

Se olharmos a crise social mundial e o crescente alarme ecológico – os negadores são cada vez menos – esse cenário de horror não é impensável.

Edward Wilson atesta em seu alarmante livro O futuro da vida (Campus, Rio de Janeiro 2002): “O homem até hoje tem desempenhado o papel de  assassino planetário…a ética da conservação, na forma de tabu, totemismo ou ciência, quase sempre chegou tarde demais; talvez ainda haja tempo para agir”(p.121). E em seu último livro A Criação: como salvar a vida na Terra (Companhia das Letras, SP, 2008) propõe uma sagrada aliança entre religião e ciência como forma evitar a aniquilação da vida.

Anotemos a opinião de outros dois grandes historiadores Arnold Toynbe em sua auto-biografia:”vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade real que pode ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do homem”(Experiências, Vozes, Petrópolis 1970, p. 422). E Eric J. Hobsbawn, em sua conhecida Era dos extremos, concluindo seu livro:”Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro discernível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(Objetiva 1944, p. 562).

Nem preciso citar as previsões sombrias já notórias de James Lovelock (A vingança de Gaia Editora Intrínseca, RJ 2006; Gaia: alerta final, RJ, Intrínseca 2009 cf. Revista Veja, Páginas Amarelas de 25 de outubro de 2006) ou do astrofísico Martin Rees (Hora final, Companhia das Letras, SP 2005) que prevêem o fim da espécie  antes do fim do século. Lovelock é contundente:”até o fim do século 80% da população humana desaparecerá. Os 20% restantes vão viver no Artico e em alguns poucos oasis em outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva….Quase todo o território brasileiro será demasiadamente quente e seco para ser habitado”(Veja op. cit. p. 20). Ultimamente não retratou a tese apenas o tempo de sua realização que não seria tão iminente.

Lógico,  precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico  possui menos de um minuto de existência. Mas com ele, a evolução deu um salto, de inconsciente passou a ser consciente. E com a consciência pode decidir que destino quer para si mesmo. Nesta perspectiva, a situação atual representa antes um desafio que um desastre possível, a travessia para um patamar mais alto e não fatalmente um mergulho na autodestruição. Estaríamos portanto num cenário de crise e não de tragédia.

Mas haverá tempo para tal aprendizado? Tudo parece indicar que o tempo do relógio corre contra nós. Não são poucos os que afirmam que estarímos chegando tarde demais, pois teríamos passado já o ponto de não retorno. Sabemos que a evolução não é linear e conhece frequentes rupturas e saltos para cima como fruto de uma complexidade maior; sabemos também que vigora no universo o caráter indeterminado e flutuante de todas as energias e de  toda a matéria consoante a física quântica de W. Heisenberg e de N. Bohr. Tais fatos nos concedem pensar a emergência de um outro patamar de consciência e de vida humana que pode salvaguardar a biosfera e a vida humana.

Consequências do desaparecimento da espécie humana.

Na hipótese de um eventual desaparecimento de nossa espécie que consequências se derivariam para nós e para o processo da evolução?

Antes de qualquer outra consideração, seria uma catástrofe biológica de incomensurável magnitude. Ter-se-ia perdido o trabalho de pelo menos 3,8 bilhões de anos, data provável do surgimento da vida, e dos últimos 5-7 milhões de anos, data do aparecimento da espécie homo e dos últimos cem mil anos, da irrupção do homo sapiens, trabalho esse, feito pelo inteiro universo com suas energias, informações e  diferentes formas de matéria.

O ser humano, na medida em que podemos constatar sua evolução e observar o universo, é o ser da natureza mais complexo por nós conhecido. Complexo em seu corpo com trinta bilhões de células, continuamente renovadas pelo sistema genético, complexo em seu cérebro de cem bilhões de neurônios em contínua sinapse, complexo em sua  psiqué e em sua consciência, carregadas de informações recolhidas desde o irromper do cosmos com o big bang e enriquecidas com emoções, sonhos, arquétipos, símbolos oriundos das interações da consciênicia consigo mesma e com o ambiente à sua volta,  complexo em seu espírito, capaz de captar o Todo e sentir-se parte dele e de identificar aquele Elo que une e re-une, liga e re-liga todas as coisas fazendo que não sejam caóticas mas ordenadas. Esse Elo confere sentido e significado à existência neste mundo e nos faz suscitar sentimentos  de profunda veneração e respeito face à grandeur do cosmos.

Até hoje não foram identificadas cientificamente e de forma irrefutável outras inteligências no universo. Por enquanto somos como especie homo uma singularidade sem comparação no cosmos. Somos um habitante de uma galáxia média, a Via Láctea, uma entre outras duzentas bilhões, dependemos de uma estrela, o Sol, de quinta grandeza, uma entre outras trezentas bilhões, situado a 27 mil anos luz do centro de nossa galáxia, no braço interior da espiral de Orion, moramos no terceiro planeta do sistema solar, a Terra e agora estamos aqui frente ao computador, refletindo sobre as consequências de nosso provável fim.

Com o nosso desaparecimento, o universo, a história da vida e a história da vida humana perderiam algo inestimável.

Toda a criatividade produzida por esse ser, criado criador, que fez coisas que a evolução por ela mesma jamais faria, como nos pintar uma tela de Portinari ou nos fazer ouvir uma canção de Chico Buarque ou construir um canal de televisão, as construções da cultura seja daquela material, simbólica e espiritual: tudo isso teria desparecido para sempre.

Para sempre ter-se-iam extinguido as grandes produções poéticas, literárias, científicas, sociais, políticas éticas e religiosas da humanidade.

Para sempre ter-se-iam apagado as referências de figuras paradigmáticas de seres humanos entregues ao amor, ao cuidado, à compaixão e à proteção da vida em todas as suas formas como Buda, Chuang-tzu, Moisés, Jesus, Maria de Nazaré, Maomé, Francisco de Assis, Gandhi, Chico Mendes entre tantos e tantas outras. Para sempre teriam sumido também as anti-figuras que macularam o humano e violaram a dignidade da vida em incontáveis guerras e extermínios cujos nomes sequer queremos mencionar.

Para sempre ter-se-ia apagado a decifração da Fonte Originária de todo Ser que permeia toda a realidade e que irrompe em nossa consciência permitindo-nos profunda comunhão com ela, fazendo-nos sentir como um projeto infinito que somente descansa quando mergulhar nesta Fonte feita de ternura e de amor.

             Quem nos substituiria na evolução da vida?

Na hipótese de que o ser humano venha a desparecer como espécie, mesmo assim o princípio de  inteligibilidade e de amorização ficaria preservado. Ele está primeiro no universo e depois em nós, seres humanos. Esse princípio é tão ancestral quanto o universo. Quando, nos primeiríssimos momentos após a grande explosão, quando se formou o campo Higgs e as primeiras partículas elementares, como os quarks e os prótons, então tais partículas começaram a interagir entre si. Fizeram surgir redes de relações e unidades de informação e ordens complexas. Ai se manifestava aquilo que depois se chamará de espírito, aquela capacidade de criar unidades e quadros de ordem e de sentido global. Ao desaparecer de dentro da espécie humana, o espírito  emergiria, um dia, quem sabe em milhões de anos de evolução, em algum ser mais complexo e ordenado.

Théodore Monod, falecido no ano 2000, sugere até um sucessor nosso, já presente na evolução atual: os cefalópodes, isto é, os moluscos como os polvos e as lulas. Alguns deles, possuem um aperfeiçoamento anatômico notável; sua cabeça é dotada de  cápsula cartiginosa, funcionando como crânio; e possuem olhos como os vertebrados. Detém ainda um psiquismo  altamente desenvolvido, até com dupla memória, quando nós possuimos apenas uma (op. cit. p. 247-248).

Evidentemente, eles não sairiam amanhã do mar e entrariam continente adentro ocupando nossas instituições. Precisariam de milhões de anos de evolução. Mas já possuem a base biológica para um salto rumo à consciência e para suportar o espírito.

De todas as formas, urge escolher: ou o ser humano e seu futuro ou os polvos e as lulas vindouras. Somos otimistas: vamos criar juízo, aprender a ser sábios e escolher o ser humano com seus projetos.

Mas importa já agora mostrar amor à vida em sua majestática diversidade, ter com-paixão com todos os que sofrem, realizar rapidamente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incentivam-nos as Escrituras judaico-cristãs: “Escolha a vida e viverás”. Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.

              Como vê a teologia cristã o eventual fim da espécie?

Antes situemos a pergunta em sua tradição histórica, pois não é a primeira vez que os seres humanos se colocam seriamente esta questão.                  Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, faz suscitar mitos de fim do mundo e de destruição da espécie. Usa-se, então, um recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos ou de seres extraterrestres que se comunicam conosco para anunciar mudanças iminentes e para preparar a humanidade. No Novo Testamento esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.

Hoje prolifera vasta literatura esotérica que usa códigos diferentes como passagem a outra onda de vibração e a comunicação com extraterrestres. Mas a mensagem  é idêntica: a viragem é iminente e há que  estar preparado.

Importante é procurar entender esse tipo de linguagem. É linguagem de tempos  de crise, portanto um gênero literário, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer.

Mas há uma diferença entre os antigos e nós hoje. Para os antigos, o fim do mundo estava no seu imaginário e não no processo realmente existente. Para nós está no processo real, pois criamos de fato o  desequilíbrio da Terra e o princípio de autodestruição

E se desaparecermos, como se há de interpretar? Chegou a nossa vez no processo de evolução já que há sempre espécies, desparecendo naturalamente? Que poderá  dizer a reflexão teológica cristã?

Brevemente diria: se o ser humano frustar sua aventura planetária significa, sem dúvida, uma tragédia inominável. Mas não seria uma tragédia absoluta. Essa, ele já a perpetrou um dia. Quando o Filho de Deus assumiu a nossa humanidade, nós  o assassinamos, pregando-o na cruz. Só então se formalizou o pecado original que é um processo histórico de negação da vida e do amor. Maior perversidade que matar a criatura (a espécie humana) é matar o Criador que se fez humano.

Mesmo que a espécie humana se mate a si mesma, ela não consegue matar tudo dela. Só mata o que é. Não pode matar aquilo que ainda não é: as virtualidades escondidas nela e que querem se realizar. E aqui entra a morte em sua  função libertadora. Mais que separar o corpo do espírito, ela separa o tempo da eternidade. Ao morrer, o ser humano deixa o tempo e penetra na eternidade. Caindo as barreiras espácio-temporais, as virtualidades agrilhoadas em sua existência podem desabrochar em sua plenitude. A morte seria uma invenção da vida para que esta pudesse se libertar e  desabrochar plenamente. Só então acabaremos de nascer como seres humanos plenos. Portanto, mesmo com a liquidação criminosa da espécie, o triunfo da espécie não é frustrado. A espécie sái tragicamente do tempo pela morte, morte esta que a liberta de todas as amarras e lhe concede penetrar, plenamente realizado, na eternidade.

Alimentamos otimismo. Assim como o ser humano domesticou outros meios de destruição como o primeiro deles, o fogo, (que originou os mitos de fim do mundo) assim agora domesticará, assim  creio,  os meios que podem destrui-lo. Aqui caberia uma análise das possibilidades dadas pela nanotecnologia (que trabalha com átomos, genes e moléculas) que pode, eventualmente, oferecer meios técnicos para diminuir o aquecimento global e purificar a biosfera dos gases de efeito estufa.

De todas as formas, devemos pensar esta questões, não nos termos da física clássica, mas no quadro da física quântica e da nova cosmologia. Estas partem do fato de que evolução não é linear. Ela acumula energia e dá saltos. Assim tambem nos sugere a visão elaborada por Niels Bohr e por Werner Heisenberg: virtualidades escondidas, vindas do Vácuo Quântico, daqule Oceano indecifrável de Energia que subjaz e pervade o universo, podem irromper e modificar a seta  da evolução.

Pessoalmente recuso-me a pensar que o nosso destino, depois de milhões de anos de evolução, termine assim miseravelmente nas próximas gerações. Haverá uma salto, quem sabe, na direção daquilo que já em 1933 Pierre Teilhard de Chardin anunciava: a irrupção da noosfera, vale dizer, daquele estado de consciência e de relação com a natureza e com os seres humanos entre si que inaugurará uma nova convergência de mentes e corações. Dar-se-ia assim um novo patamar da evolução humana e da história da Terra. O filósofo Ernst Bloch diria: “o verdadeiro gênesis não está no começo mas no fim”.

Nesta perspectiva o cenário atual se apresentaria não  de tragédia mas de crise. A crise acrisola, purifica e faz amadurecer. Ela anuncia um novo começo, uma dor de um parto promissor e não as penas  de um abortamento da aventura  humana. Ainda vamos irradiar.

O que importa dizer é que não acaba o mundo, mas pode  acabar este tipo de mundo insensato que ama a guerra e a devasta a natureza. Vamos inaugurar um mundo humano que ama a vida, desacraliza a violência, tem cuidado e piedade para com todos os seres, realiza a justiça verdadeira, enfim, um mundo que nos permite estarmos no monte das benaventuranças e não no vale de lágrimas. Ou simplesmente: teremos todos aprendido a tratar humanamente a todos os seres humanos e com cuidado, respeito  e compaixão a todos os demais seres. Tudo  que existe, merece existir. Tudo o que vive merece viver. Especialmente nós seres humanos. Destarte nosso fim não seria autodestruição mas um passo a mais rumo a uma autorrealização mais alta.

  Leonardo Boff

Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor, membro da Comissão Inaternacional da Carta da Terra e autor de Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record, RJ 2010.

 

Qual é o próximo passo depois da Rio+20?

Há dois anos dei uma palestra na Universidade suiça de Lausanne por ocasião de um título que me foi conferido. Resumo aqui o essencial de um pensamento mais detalhado e longo exposto naquela ocasião. Ele vem a propósito da conclusão da Rio+20.

 

O grande tema da Rio+20 era “Que futuro queremos”. O documento final, entretanto, não nos fornece a rota nem os meios de percorrê-la. Ele é medroso, sem ambições e sem sentido ético e espiritual da história humana. Refém de uma visão reducionista e até materialista da economia não forjou um novo e necessário software social e civilizacional que nos desse esperança de um futuro que não fosse simplesmente o prolongamento do passado e do presente. Este deu tudo o que tinha que dar. Levá-lo teimosamente avante é empurrar-nos para o abismo que se abre lá na frente, num tempo não muito distante.

Depois das crises que afligem toda a humanidade, particularmente  a do aquecimento global, da insustentabilidade do planeta Terra e ultimamente da econômico-financeira, atingindo o coração dos países opulentos, o crescimento do fundamentalismo e a permanente ameaça do terrorismo, os cenários dramáticos que muitos analistas sérios desenham para o próximo futuro da Terra, da Humanidade, da vida e as poucas chances para uma  paz duradoura, uma angustiante pergunta nos assalta: qual será o próximo passo agora depois da Rio+20?

Façamos algumas constatações: consolidou-se a aldeia global; ocupamos praticamente todo o espaço terrestre e exploramos o capital natural até os confins da matéria e da vida, com a utilização da razão instrumental-analítica; provocamos uma imensa crise civilizatória que se revela nas várias crises enunciadas acima.

Perguntamo-nos: E agora o que virá?  Mais do mesmo? Mas isso é muito arriscado, pois o paradigma atual está assentado sobre o poder como dominação da natureza e dos seres humanos. Não devemos esquecer que ele criou a máquina de morte que pode destruir a todos nós e a vida de Gaia. Esse caminho parece ter-se esgotado, embora ainda dominante.

Do capital material somos forçados  passar ao capital espiritual. O capital material tem limites e se exaure. O espiritual, é infinito e inexaurível. O capital espiritual   feito de o amor, de compaixão, de cuidado, de criatividade, realidades intangíveis e valores infinitos que  não há limites.

Este foi parcamente aproveitado por nós. Mas ele pode representar a grande alternativa que supera a crise atual e inaugura um novo patamar civilizatório.

A centralidade do capital espiritual reside na vida, na autonomia dos cidadãos, na relação inclusiva, no amor incondicional, na compaixão, no cuidado de nossa Casa Comum, na alegria de viver e na capacidade de transcendência.

Não significa que tenhamos que dispensar a tecnociência. Sem ela não atenderíamos as demandas humanas. Mas ela não seria mais destrutiva da natureza e da vida. Se no capital material a razão instrumental era seu motor, no capital espiritual é a razão cordial e sensível que organizará a vida social e a produção consoante os ciclos da natureza e dentro dos limites de cada ecossistema. Na razão cordial estão radicados os valores; dela se alimenta a vida espiritual pois produz as obras do espírito que referimos acima: o amor, a solidariedade e a transcendência.

Usando uma metáfora do grande escritor irlandês C.S. Lewis diria: se no tempo dos dinossauros houvesse um observador hipotético que se perguntasse pelo próximo passo da evolução, provavelmente diria: o aparecimento de espécies de dinos ainda maiores e mais vorazes. Mas ele estaria enganado. Sequer imaginaria que de um pequeno mamífero que vivia na copa das árvores mais altas, alimentando-se de flores e de brotos e tremendo de medo de ser devorado pelos dinossauros, iria irromper, milhões de anos depois,  algo absolutamente impensado: um ser de consciência e de inteligência – o ser humano – com uma qualidade totalmente diferente daquela dos dinossauros. Não foi mais do mesmo. Foi uma ruptura. Foi um passo diferente.

Cremos que agora poderá surgir um ser humano com outro passo, pois será marcado pelo inexaurível capital espiritual. Agora é o mundo do ser mais que o mundo do ter.

O próximo passo, então, seria exatamente este:  descobrir o capital espiritual inesgotável e começar a organizar a vida, a produção, a sociedade e o cotidiano a partir dele. Então a economia estará a serviço da  vida e a vida se imbuirá dos valores das relações abertas e inclusivas, da mutualidade ser humano-Terra, da auto-realização e da alegria. uma verdadeira alternativa ao paradigma vigente.

Mas este passo não é mecânico. É resultado de uma coligação de forças ao redor de valores e princípios assumidos por todos, biocentrados e ecoamigáveis. Quer dizer, ele é oferecido à nossa liberdade. Podemos acolhê-lo como podemos também recusa-lo. Mas mesmo recusado, ele permanece como uma possibilidade sempre presente e pronta a irromper.  Ele não se identifica com nenhuma religião. É algo anterior, que emerge das virtualidades daquela Energia de fundo, poderosa e amorosa, que sustenta todo o universo, a cada um de nós e que penetra em toda a evolução consciente. Quem o acolhe, viverá outro sentido de vida,  vivenciará também um novo futuro, diferente daquele imaginado pela Rio+20. Os outros continuarão sofrendo os impasses do atual modo de ser e se perguntarão, angustiados, pelo seu futuro e até sobre o eventual desaparecimento da espécie humana.

Foi Pierre Teilhard de Chardin que ainda nos anos 30 do século XX teve o sonho da irrupção da noosfera. Noos  em grego significa a mente e o espírito totalmente abertos. A noosfera  seria a irrupção da humanidade como espécie, da mente e do coração sincronizados e batendo em uníssono. Seria a etapa nova da antropogênese, a superação do antropoceno, a inauguração da era ecozóica  e uma idade também nova de Gaia.

Estimo que  o legado positivo da atual crise mundial seja nos abrir a possibilidade de realização da noosfera. Dizem por aí que Jesus,  Buda, Francisco de Assis, Rumi,  Gandhi, Irmã Dorothy e tantos outros mestres e testemunhas do passado e do presente teriam, antecipadamente, dado já esse passo.

Eles são nossas estrelas-guia, os alimentadores de nosso princípio-esperança e a garantia de que ainda temos futuro. As dores atuais não seriam estertores de uma civilização moribunda mas os sinais de um parto  de um novo modo sustentável de viver e de habitar o nosso planeta Terra. Seremos humanos, reconciliados conosco mesmos, com Mãe Terra e com a Última Realidade.

Como disse sugestivamente uma de nossas melhoras pensadoras dos novos paradigmas Rose Marie Muraro:” Quando desistirmos de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é mas que já o tínhamos intuído desde sempre”.