O genocídio israelense: suprema expressão do paradigma moderno? 

Vamos direto ao assunto. A retaliação do estado de Israel ao ato de terror de sete de outubro perpetrado pelo Hamas, da Faixa de Gaza, foi profundamente desproporcional. Tinha o direito de autodefesa garantido legalmente. Mas a pretexto de caçar e matar terroristas acionaram seu sofisticado arsenal bélico. Foram destruídos centenas de edifícios, assassinados milhares de inocentes: crianças, mulheres e um sem número de civis. Não se trata de uma guerra, mas de um verdadeiro genocídio e limpeza étnica como foi denunciado pelo secretário da ONU António Guterres. Ele afirmou “que a Faixa de Gaza se transformou num cemitério de crianças”. Hoje já é consenso entre os melhores analistas e notáveis humanistas. 

Nenhum órgão internacional e nenhum país saíram em defesa dos desesperados palestinos, revelando a completa insensibilidade, particularmente da União Europeia, aliada e súcuba dos Estados Unidos da América. Imbuída do espírito do poder/dominação, nada faz, como se pertencesse à guerra, todo tipo de crimes, inclusive o genocídio, como durante séculos o fizeram mundo afora. O presidente Joe Biden declarou apoio incondicional a Israel, o que equivale a dar carta branca para este fazer uma guerra de  autodefesa ilimitada, usando todos os meios. A humanidade está aterrorizada face ao quadro de extermínio e de morte na Faixa de Gaza. 

Estamos face à total irracionalidade e assustadora desumanidade. Por mais que nos custe aceitar, devemos suspeitar, especialmente nós que vivemos do Grande Sul, outrora colonizado e hoje submetido à  uma recolonização, que o presente genocídio estaria inscrito no DNA ocidental moderno e mundializado.
Este perdura já há séculos e é ainda vigente. Por que este questionamento tão duro? 

Sigam o seguinte raciocínio: qual é o sonho maior e a grande utopia que davam e dá ainda sentido ao mundo moderno já há mais de três séculos? Era e continua sendo o desenvolvimento ilimitado, a vontade de poder como dominação sobre os outros, as classes, as terras a conquistar, sobre outras nações, sobre a natureza, a matéria até o último topquark e a própria vida no seu derradeiro gene e sobre toda a natureza nos seus biomas e em sua biodiversidade. A centralidade é ocupada exclusivamente pela razão. Só é aceito o que passar por seus critérios. Mais que o “cogito, ergo sum” (penso, logo sou) de Descartes é o “conquero, ergo sum”(conquisto, logo sou) de Hernan Cortez, conquistador e destruidor do México que expressa a dinâmica da modernidade.  

Os Papas da época: Nicolau V (1447-1455) e Alexandre VI (1492-1503) conferiram legitimação divina ao espírito de dominação dos europeus. Em nome de Deus, concederam às potências coloniais da época, aos reis de Espanha e de Portugal “a faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vender e submeter os pagãos e se apropriar e aplicar para uso e utilidade sua, a reinos, domínios, possessões e bens deles descobertos e a descobrir… pois é obra bem aceita pela divina Majestade que se abatam as nações bárbaras e sejam reduzidas à fé crista” (Paulo Suess, A conquista espiritual da América Espanhola, documentos, Petrópolis: Vozes, 1992, p.227). 

Francis Bacon e René Descartes, entre outros fundadores do paradigma da modernidade, não pensavam outra coisa que os Papas: o ser humano deve ser “mestre e dono da natureza” que não possui propósito nenhum, pois, é apenas uma mera coisa extensa (“res extensa” de Descartes) colocada à nossa disponibilidade. Deve-se “meter a natureza numa cama de força, pressioná-la para que entregue seus segredos; devemos colocá-la a nosso serviço como uma escrava” (Francis Bacon).  

Para que tudo isso? Para nos desenvolvermos e sermos felizes, pretendiam! A ciência e a técnica, a tecnocracia, foram e ainda são os grandes instrumentos do projeto de dominação. Para submeter à dominação, tinham que desqualificar os submetidos e colonizados: estão mais do lado dos animais do que dos humanos, são sub-humanos. Recordemos a famosa discussão do grande Bartolomeu de Las Casas com Sepúlveda, o educador dos  reis espanhóis. Este último sustentava que os povos originários da América Latina não eram humanos e duvidava que possuíssem razão. Algo parecido afirmou o ministro da Defesa israelense, Y. Gallant acerca dos terroristas de Gaza: são “animais-humanos e como tais devem ser tratados”. Os nazistas comparavam os judeus a ratos a serem erradicados. 

O homem ocidental europeu, filho do paradigma do poder/dominação, possui imensa dificuldade de conviver com o diferente. A estratégia costumeira é marginaliza-lo ou incorporá-lo ou eventualmente, eliminá-lo. Nesta visão de mundo deve-se sempre definir quem é amigo e quem é inimigo. A este cabe difamar, combater e liquidar (o jurista de Hitler, Carl Schmitt). Não admira que os europeus cristianizados produzissem as principais guerras no continente ou nas colônias, causando mais de 200 milhões de mortos. Seu cristianismo foi apenas um ornato cultural, nunca uma inspiração do Nazareno para uma relação fraterna e para uma ética humanitária. 

Todos, com razão, se horrorizam com o Holocausto que levou seis milhões de judeus às câmaras de gás dos nazistas. Mas vejamos o pavoroso Holocausto ocorrido na América Latina (Abya-Yala na linguagem dos povos centro-americanos). No espírito de conquista-dominação da América Latina, entre os anos de 1492-1532 e nos USA a partir de 1607, os  colonizadores europeus cometeram o  maior extermínio jamais feito: os mortos por doenças dos brancos ou mortos em guerras, algumas de extermínio total como em Haiti, foram cerca de 61 milhões de representantes dos povos originários: do Caribe (4 milhões), do México (23 milhões), dos Andes (14 milhões), do Brasil (4  milhões) e dos Estados Unidos (16 milhões). É o que comprova a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer,Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas” (Rio de Janeiro: Ed. Bambual, 2021). Este nosso Holocausto, segundo o historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), deslegitima qualquer credibilidade aos europeus e à Igreja  associada ao projeto colonial, de falar em dignidade humana e em seus direitos.  Matou-se com a espada e com a cruz. 

À base deste tipo de dominação surgiu o capitalismo anglo-ssxão hoje mundializado, como modo de produção excludente, sua financeirização atual e sua cultura. É crime contra a natureza e contra a humanidade que 8 pessoas individualmente, segundo relatório da Oxfam Internacional de 2022, possuam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial. Essa absurda acumulação tolera que se deixem anualmente morrer de fome ou de doenças derivadas da fome, milhares e milhares de crianças. 

É neste contexto, penso, que deve se entender o atual genocídio perpetrado pelo Estado sionista de Benjamin Netanyahu. Estaria inscrito no DNA do paradigma ocidental? Depois da última guerra (1939-1945), construíram-se armas de destruição em massa, a ponto de ter-se criado o princípio de autodestruição. A razão tornou-se totalmente irracional. A marcha da irracionalidade está tomando conta do curso do mundo para além do que está ocorrendo entre Israel e a Faixa de Gaza. Com lucidez o Papa Francisco em sua encíclica Como cuidar da Casa Comum (Laudato Si’ de 2015) viu no paradigma tecnocrático dominante, a raiz da atual e ameaçadora crise ecológica mundial (n.101s). 

Qual foi a grande errância do paradigma da vontade de poder-dominação? Foi a de colocar exclusivamente todo o peso e todo o valor na razão instrumental-analítica. Recalcou as demais formas de conhecimento, exercidas pela humanidade: a sensibilidade, o amor, a razão simbólica entre outras. Essa exclusão gestou a ditadura da razão. Irrompeu o racionalismo e a demência da razão. Pois, somente uma razão demente pode devastar a Terra, irmã e Mãe que tudo nos dá, a ponto de ela mostrar seus limites intransponíveis. Pior ainda, a razão enlouquecida criou para si os meios de seu completo extermínio. 

Mas qual foi a errância maior? Foi ter recalcado e eliminado a parte mais ancestral e essencial de nossa realidade. Em nome da objetividade do olhar da razão, eliminou a emoção e o coração. Com isso, deslegitimou a nossa dimensão de sensibilidade, nossa capacidade de afetos. É o coração que sente, ama e estabelece laços de cuidado para com os outros e para com a natureza. Não se ouve o pulsar do coração que identifica valores e funda uma ética cordial e humanitária.  

Bem dizia o Papa Francisco em sua primeira viagem à Lampedusa, para onde chegavam os fugitivos da guerra do Oriente Médio ou de África: “o homem moderno perdeu a capacidade de chorar e de sentir o outro como seu semelhante”. Pelo fato de Netanyahu e seu governo não reconhecerem humanidade nos  terroristas do Hamas, decidiu, praticamente, exterminar estes últimos com os meios letais mais modernos. Não chegamos assim ao extremo do paradigma da modernidade? Ela está propensa a deslanchar uma guerra global na qual a humanidade pode desaparecer e grande parte da natureza. 

Como sair desse impasse? Antes de mais nada, precisamos resgatar os direitos do coração. Não basta o logos (a razão)  precisamos também do pathos (o sentimento). Devemos nos encher de veneração face à grandeur do universo e de respeito diante do mistério de cada ser humano, feito irmão e irmã e companheiro/a de aventura terrenal. Não negamos a razão, necessária para dar conta da complexidade das sociedades contemporâneas. Mas recusamos o despotismo da razão.  Esta deve ser enriquecida pela razão sensível e cordial. Mente e coração unidos podem mutuamente se equilibrar e, destarte, evitar as tragédias das guerras e os genocídios de nossa sangrenta história, particularmente, este que, estarrecidos, estamos vivenciando seja na Terra Santa e, em especial, o genocídio cometido na Faixa de Gaza. Que o céu ouça o choro das crianças que sob os escombros perderam pai, mãe, irmãos e irmãs. Fizeram-se sobreviventes da grande tribulação (cf. Apocalipse 7,14) e nos enchem de compaixão. 

Leonardo Boff escreveu Direitos do coração, São Paulo: Paulus, 2015. 

Irrumpieron los jinetes del Apocalipsis: la guerra Hamas-Israel

Leonardo Boff*

En estos días de octubre hemos visto  espantados la guerra que ha estallado entre el grupo terrorista Hamas de Palestina y el estado de Israel, atacado por sorpresa, y la fuerte reacción de este último. Dada la violencia empleada,  con cientos de víctimas en ambos lados, especialmente población inocente, parecería que irrumpió el jinete del Apocalipsis, el de la guerra destructora (Apoc 9,13-19).

Los cohetes, los misiles, los drones, los tanques, los bombarderos, los cazas, las bombas inteligentes y los  propios soldados, hechos pequeñas máquinas de matar, se parecen a figuras salidas de las páginas del libro del Apocalipsis.

Todos los que venimos de una visión pacifista del mundo, de la ecología, de la integración armónica de las oposiciones, del proceso evolutivo, concebido como abierto para formas cada vez más complejas, altas y ordenadas de relaciones e incluso las advertencias del Papa Francisco sobre la alarma ecológica, nos preguntamos angustiados: ¿cómo es posible que hayamos llegado a tales niveles de destrucción? ¿Cómo entender los fenómenos que acompañan el escenario de esta guerra, como la invasión de Israel por terroristas de Hamas, matando indiscriminadamente civiles, secuestrando personas, niños, personas mayores y militares, las fake news, la distorsión planeada de los hechos y la manipulación de las creencias religiosas? Es importante no olvidar los muchos años de durisima y violenta dominación de Israel sobre la región de Gaza y  los palestinos en general. Esto ha provocado resentimiento y mucho odio que está en la base de los permanentes conflictos en la región. Pero todo esto no acalla la pregunta: ¿ qué es lo somos nosotros, seres humanos, capaces de tanta barbarie?

Y  las guerras se han transformado cada vez más en guerras totales, causando más víctimas entre las poblaciones civiles que entre los combatientes. Max Born, premio Nobel de física (1954) denunció la prevalencia de la matanza de civiles en la guerra moderna. En la primera guerra mundial murieron sólo un 5% de civiles, en la segunda guerra, el 50%, en la guerra de Corea y Vietnam el 85%. Y datos recientes muestran que contra Irak y la ex-Yugoslavia, en Ucrania el 98% de las víctimas son civiles. En la presente guerra, entre el grupo Hamas e Israel los datos deberán ser de proporciones semejantes, por lo que se deduce de las palabras amenazantes del primer ministro de Israel, Benjamín Netanyahu.

Según el historiador Alfred Weber, hermano de Max Weber, de los 3.400 años de historia  de la humanidad que podemos datar con documentos, 3.166 han sido de guerra. Los restantes 234 no han sido ciertamente de paz sino de tregua y de preparación para otra guerra.

Frente a este drama que da miedo irrumpe una pregunta radical: ¿Cuál es el sentido del ser, de la vida y de la historia? ¿Cómo  iluminar ese anti-fenómeno?

No tenemos otra categoría para iluminar ese enigma sino reconocer que es la explosión y la implosión de la demencia, inscrita en el ser  humano, tal como lo conocemos. Somos también seres de demencia, de exceso, de voluntad de dominar, estrangular y asesinar. Esto fue ampliamente ilustrado en las guerras del siglo XX que causaron la muerte de 200 millones de personas y en los actos espectaculares perpetrados por el terrorismo y fundamentalismo islámico como la destrucción de las Torres Gemelas en Estados Unidos y actualmente por el sorprendente y terrible ataque de las milicias de Hamas (parte rechazada por los palestinos) al estado de Israel.

Lo enigmático es que esa demencia viene siempre junto con la sapiencia. La sapiencia  es nuestra capacidad de amar, de cuidar, de  extasiarse y de abrirse al Infinito. Somos, simultáneamente, todos sin excepción, sapiens y demens, es decir, seres humanos sapientes y  dementes.

El paradigma dominante de nuestra cultura, asentado sobre la voluntad de poder y de dominación, creó las condiciones para que nuestra demencia colectiva se manifestase poderosamente y predominase. Ese espíritu de guerra está presente en la economía de mercado financierizada, en la guerra del trigo, del maíz, de los automóviles, de las computadoras, de los móviles, de los grupos religiosos y hasta de los centros de investigación.

Por otro lado, nunca dejó de aparecer, en ningún  tiempo, también nuestra dimensión sapiente. Plazas de todo el mundo se llenan de multitudes clamando por paz y nunca más la guerra, siempre que aparece la amenaza de conflicto  como forma de resolver problemas. Líderes políticos, intelectuales y religiosos, alzan su  voz y alimentan el lado luminoso y pacífico de los seres humanos y no nos dejan desesperar. Jesús, San Francisco de Asís, M. Gandhi, Luther King Jr, Dom Helder Câmara, entre otros se transformaron en referencias de la anti-violencia y en paladines de la paz.

¿Qué salida encontraremos para este  problema con dimensiones metafísicas? Hasta hoy no sabemos exactamente.

La salida más realista y más sabia parece ser la expresada en la oración de la Paz de San Francisco de Asís, el hermano universal, de la naturaleza, de los animales, de las montañas y de las estrellas. En esa oración, ampliamente divulgada y hecha  credo común por el macroecumenismo, es decir, por el ecumenismo entre las religiones y las iglesias, encontramos una clave iluminadora.

Los términos de la oración dejan clara la conciencia  del carácter contradictorio de la condición humana, hecha de amor y de odio, de sapiencia y de demencia. Se parte de esta contradicción, pero se afirma confiadamente el polo positivo con la certeza de que él limitará e integrará el polo negativo.

La lección, subyacente a la oración de San Francisco, es esta: no se cura la demencia sino reforzando la sapiencia. Por eso, en sus palabras: “donde haya odio, que yo lleve amor; donde haya discordia, que yo lleve unión; donde haya desesperación, que yo lleve esperanza; donde haya oscuridad,  que yo lleve la luz”. Porque es más importante “amar que ser amado,  comprender  que ser comprendido, perdonar que ser perdonado, pues es dando como recibiremos y muriendo  como se vive para la vida eterna”.

En esta sabiduría de los sencillos quizá se encuentre el secreto de la superación de las voluntades que quieren la violencia y la guerra como forma de resolver conflictos o de hacer valer los intereses de unos contra los otros, como está ocurriendo en la actual guerra Hamas-Israel.

El camino de la paz, enseñaba Gandhi, es la propia paz. Sólo medios pacíficos producen la paz. La paz es, a un tiempo, meta y método, fin y medio. Ojalá ese espíritu acabe triunfando sobre la violencia brutal en la presente guerra, profundamente asimétrica, entre el pequeño y violento grupo de Hamas y el también pequeño pero poderoso   estado de Israel.

Leonardo Boff ha escrito: La búsqueda de la justa medida (I y II), Vozes  2023; La oración de San Francisco: un mensaje de paz para el mundo de hoy Vozes y Sal Terrae 2014; Fundamentalismo, terrorismo, religión y paz

L’esplosione dei cavalli dell’Apocalisse: la guerra Hamas-Israele

Leonardo Boff

In questi giorni di ottobre abbiamo assistito, con stupore, alla guerra scoppiata tra il gruppo terroristico Hamas, originario della Palestina, e lo Stato di Israele, attaccato di sorpresa la forte ritorsione di quest’ultimo. Considerata la violenza utilizzata, che ha colpito centinaia di persone da entrambe le parti, soprattutto la popolazione innocente, sembrerebbe che sia esploso il cavallo dell’Apocalisse, quello della guerra distruttiva (Ap 9,13-19).

I razzi, i missili, i droni, i carri armati, i bombardieri, i caccia, le bombe intelligenti e gli stessi soldati, trasformati in piccole macchine per uccidere, sembrano figure uscite direttamente dalle pagine del libro dell’Apocalisse.

Tutti noi che proveniamo da una visione pacifista del mondo, dall’ecologia dell’integrazione armonica delle opposizioni, del processo evolutivo, concepito come aperto a forme di relazione sempre più complesse, elevate e ordinate e anche dai moniti di Papa Francesco sull’allarme ecologico, ci chiediamo angosciati: come è possibile che siamo arrivati a tali livelli di distruzione? Come comprendere i fenomeni che accompagnano lo scenario di questa guerra, come l’invasione di Israele da parte dei terroristi di Hamas, l’uccisione indiscriminata di civili, il rapimento di persone, bambini, anziani e soldati, le fake news, la distorsione pianificata dei fatti e la manipolazione delle credenze religiose? È importante non dimenticare i molti anni di dura dominazione israeliana sulla regione di Gaza e sui palestinesi in generale. Ciò ha provocato risentimento e molto odio, che sono alla base dei conflitti in corso nella regione. Ma tutto ciò non nasconde la domanda: cosa siamo noi, esseri umani, capaci di tanta barbarie?

E le guerre si sono sempre più trasformate in guerre totali, mietendo più vittime tra le popolazioni civili che tra i combattenti. Max Born, premio Nobel per la fisica (1954) denunciò la prevalenza dell’uccisione di civili nella guerra moderna. Nella prima guerra mondiale morì solo il 5% dei civili, nella seconda guerra mondiale il 50%, nelle guerre di Corea e Vietnam l’85%. E i dati recenti mostrano che contro l’Iraq e la ex-Jugoslavia, in Ucraina il 98% delle vittime sono civili. Nell’attuale guerra tra il gruppo di Hamas e Israele i dati dovrebbero essere di proporzioni simili, come si evince dalle parole minacciose del premier israeliano Binyamin Netanyahu.

Secondo lo storico Alfred Weber, fratello di Max Weber, dei 3.400 anni di storia umana che possiamo datare con i documenti, 3.166 sono stati di guerra. I restanti 234 non sono stati certamente di pace, ma di tregua e di preparazione per un’altra guerra.

Di fronte a questo dramma spaventoso si pone una domanda radicale: qual è il senso dell’essere, della vita e della storia? Come illuminare questo anti-fenomeno?

Non abbiamo altra categoria per illuminare questo enigma se non quella di riconoscere: è l’esplosione e l’implosione della demenza, inscritta nell’essere umano, cosi come lo conosciamo. Siamo anche esseri di demenza, di eccesso, di volontà di dominio, di soffocamento e omicidio. Ciò è stato ampiamente illustrato nelle guerre del XX secolo che hanno provocato il massacro di 200 milioni di persone e negli atti spettacolari perpetrati dal terrorismo e dal fondamentalismo islamico come la distruzione delle Torri Gemelli negli USA e attualmente dal sorprendente e terribile attacco del gruppo terroristico Hamas (in parte rifiutato dai palestinesi) allo Stato di Israele.

La cosa enigmatica è che questa demenza si accompagna sempre alla sapienza. La sapienza è la nostra capacità di amare, di prenderci cura, di estasiarci e aprirci all’Infinito. Siamo, allo stesso tempo, tutti senza eccezione, sapiens e demens, cioè esseri umani sapienti e dementi.

Il paradigma dominante della nostra cultura, basato sulla volontà di potere e di dominio, ha creato le condizioni affinché la nostra demenza collettiva si manifestasse con forza e predominasse. Questo spirito di guerra è presente nell’economia di mercato finanziarizzata, nella guerra del grano, del mais, delle auto, dei computer, dei telefoni cellulari, dei gruppi religiosi e persino dei centri di ricerca.

D’altra parte, la nostra dimensione sapiente non ha mai smesso di apparire in nessun momento. Le piazze di tutto il mondo sono piene di moltitudini che chiedono la pace e mai più la guerra, ogni volta che si solleva la minaccia di un conflitto, come modo per risolvere i problemi. Leader politici, intellettuali e religiosi, hanno alzato la loro voce e hanno alzato il lato luminoso e pacifico degli esseri umani, non lasciandoci nella disperazione. Gesù, San Francesco d’Assisi, M. Gandhi, Luther King Jr, Dom Helder Câmara, tra gli altri, si sono trasformati in riferimenti dell’antiviolenza e paladini della pace.

Quale soluzione troveremo per questo problema con dimensioni metafisiche? Ad oggi non lo sappiamo esattamente.

La soluzione più realistica e saggia sembra essere quella espressa nella preghiera di Pace di San Francesco d’Assisi, il fratello universale, della natura, degli animali, delle montagne e delle stelle. In questa preghiera, ampiamente diffusa e diventata credo comune dal macro-ecumenismo, cioè dall’ecumenismo tra le religioni e le chiese, troviamo una chiave illuminante.

I termini della preghiera rendono chiara la consapevolezza della natura contraddittoria della condizione umana, fatta di amore e odio, di saggezza e di follia. Partiamo da questa contraddizione, ma affermiamo fiduciosi il polo positivo con la certezza che limiterà e integrerà il polo negativo.

La lezione che sta alla base della preghiera di San Francesco è questa: la demenza non si cura se non rafforzando la sapienza. Perciò, secondo le sue parole: “dove c’è odio, che io porti l’amore; dove c’è discordia, che io porti l’unità; dove c’è disperazione, che io porti la speranza; dove c’è oscurità, che io porti la luce“. Ed è più importante «amare che essere amati, comprendere più che essere compresi, perdonare più che essere perdonati, perché è donando che riceviamo ed è morendo che viviamo per la vita eterna».

In questa saggezza dei semplici s’incontra, chissà, il segreto per superare la volontà di coloro che vogliono la violenza e la guerra come la modalità per risolvere i conflitti o affermare gli interessi degli uni contro gli altri, come sta accadendo nell’attuale guerra tra Hamas e Israele.

La via verso la pace, insegnava Gandhi, è la pace stessa. Solo mezzi pacifici producono la pace. La pace è, allo stesso tempo, una meta e un metodo, un fine e un mezzo. Spero che questo spirito finisca per trionfare sulla violenza brutale nell’attuale guerra, profondamente asimmetrica tra il piccolo e violento gruppo di Hamas e l’altrettanto piccolo ma potente Stato di Israele.

Leonardo Boff ha scritto: ‘A busca da justa medida (I e II)’, Vozes  2023; A oração de São Francisco:uma mensagem de paz para o mundo atual’, Vozes 2014; ‘Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz, Vozes 2009.

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

Die Apokalyptischen Reiter sind ausgebrochen: der Hamas-Israel-Krieg

In diesen Oktobertagen haben wir mit Erstaunen den Ausbruch des Krieges zwischen der Terrorgruppe Hamas in Palästina und dem Staat Israel, der überraschend angegriffen wurde, sowie die heftige Vergeltung des Staates Israel beobachtet. Angesichts der Gewalt, der auf beiden Seiten Hunderte von Menschen zum Opfer fielen, vor allem Unschuldige, scheint es, als sei das Pferd der Apokalypse, das Pferd des Vernichtungskrieges (Offb 9,13-19), ausgebrochen.

Die Raketen, die Raketen, die Drohnen, die Panzer, die Bomber, die Kampfflugzeuge, die intelligenten Bomben und die Soldaten selbst, die zu kleinen Tötungsmaschinen gemacht wurden, sehen aus wie Figuren direkt aus dem Buch der Offenbarung.

Wir alle, die wir von einer pazifistischen Weltanschauung, von der Ökologie der harmonischen Integration von Gegensätzen, vom evolutionären Prozess, der als offen für immer komplexere, höhere und geordnetere Formen von Beziehungen konzipiert ist, und sogar von den Warnungen von Papst Franziskus vor ökologischem Alarm ausgehen, fragen uns voller Sorge: Wie ist es möglich, dass wir ein solches Ausmaß an Zerstörung erreicht haben? Wie können wir die Phänomene verstehen, die diesen Krieg begleiten, wie den Einmarsch der Hamas-Terroristen in Israel, das wahllose Töten von Zivilisten, die Entführung von Menschen, Kindern, älteren Menschen und Militärangehörigen, die Fake News, die gezielte Verdrehung von Tatsachen und die Manipulation von religiösen Überzeugungen? Es ist wichtig, die vielen Jahre der harten israelischen Herrschaft über die Gaza-Region und die Palästinenser im Allgemeinen nicht zu vergessen. Dies hat zu Ressentiments und viel Hass geführt, was die Ursache für die anhaltenden Konflikte in der Region ist. Doch all dies lässt die Frage nicht verstummen: Wie sind wir Menschen zu einer solchen Barbarei fähig?

Und Kriege sind zunehmend zu totalen Kriegen geworden, die mehr Opfer unter der Zivilbevölkerung als unter den Kämpfern fordern. Max Born, Nobelpreisträger für Physik (1954), prangerte die hohe Zahl der zivilen Todesopfer in der modernen Kriegsführung an. Im Ersten Weltkrieg starben nur 5 % der Zivilisten, im Zweiten Weltkrieg 50 % und im Korea- und Vietnamkrieg 85 %. Und die jüngsten Zahlen zeigen, dass im Gegensatz zum Irak und dem ehemaligen Jugoslawien in der Ukraine 98 Prozent der Opfer Zivilisten sind. Im aktuellen Krieg zwischen der Hamas-Gruppe und Israel dürften die Zahlen ähnlich ausfallen, wie der israelische Premierminister Benjamin Netanjahu drohend erklärte.

Laut dem Historiker Alfred Weber, dem Bruder von Max Weber, waren von den 3.400 Jahren der Menschheitsgeschichte, die wir mit Dokumenten belegen können, 3.166 Jahre Krieg. Die restlichen 234 Jahre waren mit Sicherheit kein Frieden, sondern ein Waffenstillstand und die Vorbereitung auf einen weiteren Krieg.

Angesichts dieses erschreckenden Dramas stellt sich eine radikale Frage: Was ist der Sinn des Seins, des Lebens und der Geschichte? Wie kann dieses Antiphänomen erhellt werden?

Wir haben keine andere Kategorie, um dieses Rätsel zu erhellen, als es zu erkennen: Es ist die Explosion und Implosion der Demenz, die dem Menschen, wie wir ihn kennen, eingeschrieben ist. Wir sind auch Wesen des Wahnsinns, des Exzesses, des Willens zu dominieren, zu erwürgen und zu morden. Das haben die Kriege des 20. Jahrhunderts mit 200 Millionen Toten, die spektakulären Taten des Terrorismus und des islamischen Fundamentalismus wie die Zerstörung der Zwillingstürme in den USA im Jahr 2001 und aktuell der überraschende und schreckliche Angriff der von den Palästinensern abgelehnten Terrorgruppe Hamas auf den Staat Israel deutlich gemacht.

Das Rätselhafte daran ist, dass diese Demenz immer mit Weisheit einhergeht. Weisheit ist unsere Fähigkeit zu lieben, sich zu kümmern, sich zu verzaubern und sich dem Unendlichen zu öffnen. Wir alle sind ausnahmslos sapiens und demens zugleich, also kluge und demente Menschen.

Das vorherrschende Paradigma unserer Kultur, das auf dem Willen zur Macht und zur Beherrschung beruht, hat die Voraussetzungen dafür geschaffen, dass sich unser kollektiver Wahn kraftvoll manifestieren und durchsetzen kann. Dieser Geist des Krieges ist in der finanzgesteuerten Marktwirtschaft, im Krieg um Weizen, Mais, Autos, Computer, Mobiltelefone, religiöse Gruppen und sogar Forschungszentren präsent.

Auf der anderen Seite hat unsere weise Dimension nie aufgehört, zu jeder Zeit zu erscheinen. Überall auf der Welt füllen sich die Plätze mit Menschenmengen, die nach Frieden und nicht mehr nach Krieg rufen, wann immer die Gefahr eines Konflikts als Mittel zur Lösung von Problemen angesprochen wird. Politische, intellektuelle und religiöse Führer erheben ihre Stimme und fördern die helle und friedliche Seite des Menschen und lassen uns nicht verzweifeln. Jesus, der Heilige Franz von Assisi, M. Gandhi, Luther King Jr., Dom Helder Câmara und andere sind zu Vorbildern für die Bekämpfung von Gewalt und die Förderung des Friedens geworden.

Welche Lösung werden wir für dieses Problem mit den metaphysischen Dimensionen finden? Das wissen wir noch nicht genau.

Der realistischste und weiseste Ausweg scheint derjenige zu sein, der im Friedensgebet des Heiligen Franz von Assisi, des universellen Bruders der Natur, der Tiere, der Berge und der Sterne, zum Ausdruck kommt. In diesem Gebet, das durch die Makro-Ökumene, d.h. durch die Ökumene zwischen den Religionen und Kirchen, weithin bekannt gemacht und zu einem gemeinsamen Glaubensbekenntnis gemacht wurde, finden wir einen erhellenden Schlüssel.

Die Worte des Gebetes verdeutlichen das Bewusstsein der Widersprüchlichkeit des menschlichen Daseins, das aus Liebe und Hass, Weisheit und Dummheit besteht. Es geht von diesem Widerspruch aus, bejaht aber zuversichtlich den positiven Pol mit der Gewissheit, dass er den negativen Pol begrenzen und integrieren wird.

Die Lektion, die hinter dem Gebet des heiligen Franziskus steht, ist folgende: Demenz kann nur durch die Stärkung der Weisheit geheilt werden. Deshalb, mit seinen Worten: “Wo Hass ist, bringe ich Liebe; wo Zwietracht ist, bringe ich Einheit; wo Verzweiflung ist, bringe ich Hoffnung; wo Dunkelheit ist, bringe ich Licht”. Und es ist wichtig, “mehr zu lieben als geliebt zu werden, mehr zu verstehen als verstanden zu werden, mehr zu vergeben als vergeben zu werden, denn im Geben empfängt man, und im Sterben lebt man für das ewige Leben”.

In dieser Weisheit des Einfachen liegt vielleicht das Geheimnis der Überwindung des Willens, der Gewalt und Krieg als Mittel zur Lösung von Konflikten oder zur Durchsetzung der Interessen des einen gegen den anderen will, wie es im aktuellen Krieg zwischen Hamas und Israel geschieht.

Der Weg zum Frieden, so lehrte Gandhi, ist der Frieden selbst.  Nur friedliche Mittel schaffen Frieden. Frieden ist sowohl Ziel als auch Methode, Zweck und Mittel. Hoffen wir, dass dieser Geist am Ende über die brutale Gewalt im aktuellen, zutiefst asymmetrischen Krieg zwischen der kleinen und gewalttätigen Hamas-Gruppe und dem ebenfalls kleinen, aber mächtigen Staat Israel triumphiert.

Leonardo Boff, ist Ökotheologe, Philosoph und Schritsteller. Autor von: A busca da justa medida (I e II), Vozes  2023; A oração de São Francisco:uma mensagem de paz para o mundo atual,Vozes 2014; Fundamentalismo,terrorismo, religião e paz, Vozes 2009.