O criminoso rompimento da barragem da Vale em Brumadinho e o o trauma das crianças

Publico este texto comovente de uma universitária Marina Paula Oliveira, atingida pelo criminoso rompimento da barragem da mineradora VALE S.A.Largou seus estudos para junto com o bispo Dom Vicente Ferreira e outras colaboradoras acompanhar o drama dos atingidos da barragem, suscitando esperança, organização e coragem para cobrar os direitos diminuídos ou até alguns negados aos atingidos pela tragédia. O mundo inteiro acompanhou a extensão do drama ocorrido em Brumadinho, não longe de Belo Horizonte, no qual 172 pessoas ficaram soterradas sob montanhas de lava. Poucos ouviram o choro e o clamor das crianças que perderam seus pais, suas mães, seus parentes. Toda região foi danificada com materiais pesados e tóxicos, a natureza foi devastada e os rios contaminados. Aqui temos o relato direto da universitária Marina, inteligente, cheia de ideais em sua vida e na sua carreira universitária. Ouviu o clamor dos desamparados e desesparados que subia ao céu. Largou tudo e se associou ao trabalho do bispo Dom Vicente, grande pastor,poeta e cantador, além de destemido crítico dos abusos ocorridos e da displicência da VALE em atender aos reclamos dos atingidos por seus direitos, por suas casas, por suas terras,por sua dignidade. É uma jovem e brilhante mas totalmente entregue a esse trabalho humanitário,não sem uma carga de espiritualidade, diria de mística que enxuga lágrimas,consola as pessoas e lhes mantém viva a esperança de que a justiça  se fará e o direito triunfará. Eu lá estive e dou meu testemunho com a inesquecível imagem dos 172 balões em memória dos 172 desaparecidos,  balões nos quais estava escrito:”Dói demais o jeito que vocês foram embora”.  LBoff

 

O criminoso rompimento da barragem da Vale em Brumadinho e o o trauma das crianças.

Marina Paula Oliveira

Já transcorreu um ano e seis meses do rompimento criminoso da barragem da mineradora VALE S.A. em Brumadinho-MG.

Como não  falar dos traumas das crianças atingidas? Contam-se mais de 100 órfãos de pai ou de mãe ou de ambos. São filhos e sobrinhos de agricultores que costumavam brincar no aspersor que irrigava as plantações que hoje estão debaixo da lama.

São crianças que antes jogavam bola, descalças, na rua e que hoje não o podem  mais fazê-lo devido ao fluxo de caminhões, envolvidos nas obras de contenção de danos, carregando rejeitos tóxicos em suas rodas e levando a lama para ambientes, antes considerados seguros.

São crianças traumatizadas que tiveram que correr com toda a pressa da lama. Crianças com medo de ficar em suas casas, mas que também têm medo de sair delas.

“Tia, aqui tem barragem?” “Na Bahia tem barragem? A minha vó mora lá”, “Tia, quando a lama chegar aqui, vai destruir tudo, não vai?”.

Essas são algumas das perguntas que se escutam por aqui. As palavras morrem na garganta porque não tenho como responder.

Ainda sem mencionar crianças, filhas e filhos de lideranças que tiveram suas vidas completamente impactadas, através de infindáveis reuniões que seus pais tiveram que participar e, por fim, dar sua adesão para trilhar a longa e infindável caminhada pela luta por justiça, dignidade, memória das vítimas e reparação integral das perdas e dos danos. Não sobra muito tempo pra as crianças brincarem quando o pai e a mãe estão sempre ocupados, tentando resgatar direitos que lhes foram  violentamente sequestrados.

Nunca consigo esquecer e sempre me vêm lágrimas aos olhos quando lembro da celebração, em janeiro, por ocasião da memória de um ano do desastre criminoso, com a presença de parentes de desaparecidos e de seus filhos e filhas pequenos, lançando ao ar 172 balões em memória dos 172 desaparecidos, com a inscrição: “dói demais o jeito que vocês foram embora”. Alguém precisa ser muito insensível e desumano para não conter as lágrimas e também mostrar

 

 

indignação.

São já 14 crianças que tentaram suicídio. Crianças de 10 anos tomam medicamentos anti-depressivos. E são apenas crianças. Quantas crianças não podem mais brincar na rua de suas casas porque suas pequenas comunidades foram ocupadas por centenas de pessoas estranhas, trabalhadores, voluntários, entre outros. O ambiente que antes era familiar, hoje se caracteriza por um sentimento de insegurança e de estranhamento, sem nada entender.

Há crianças indígenas que antes brincavam livremente no rio Paraopeba e que hoje não têm permissão de entrar nas suas águas, sequer tocá-las em razão do alto grau de contaminação de metais pesados ainda desconhecidos pelas comunidades.

“Tia, o rio já curou?”, “Hoje  se pode nadar?”.

Muitas mães reclamam do crescimento das doenças e problemas respiratórios de seus filhos, em consequência do aumento da poeira tóxica em suas comunidades.

Crianças que se sentem culpadas por brincar pois comentam entre si: “a cidade toda está triste, né tia?”.

É inimaginável o sofrimento das mães quando suas filhas perguntam: “em que dia o papai vai voltar”? Quem pode lhes responder? A avós receiam ter que explicar para seus netos que seu pai ou sua mãe estão entre os “desaparecidos”.

Muitas crianças até hoje desenham helicópteros sobrevoando seus bairros que carregavam corpos ou parte deles. Um dia desses, uma criança comentou: “meu pai, pobrezinho, morreu na lama”. O que isso significa para a cabeça dessa criança? Há alguma explicação para isso?

Será que as crianças esquecem? Por aqui, o caminho mais óbvio parece ser o de criar bolhas para essas crianças, bolhas como se sua infância não tivesse sido arrancada por vis interesses econômicos. Talvez elas nunca irão compreender essa maldade.

O sofrimento infantil, por sua vez, parece estar escancarado: “Bombeiro, obrigada por encontrar o corpo de meu pai; ele nunca mais voltara”.

Uma geração inteira está por toda vida marcada pelas consequências da mineração predatória, que continua colocando o lucro acima da vida.

Quem se propõe a  falar com estas crianças atingidas  cujas almas foram destroçadas por essa mineração cruel que sacrifica vidas no altar da ganância por lucro?

Ai me lembrei de uma frase de Dostoiewsky que ouvi certa vez:”todos os avanços da ciência não valem o choro de uma criança.”

Sinto-me impotente mas profundamente solidária com elas. Por isso as abraço e as beijo para que se sintam acolhidas. E se deem conta de que o dom mais precioso que existe, foi poupado, a vida delas, que deve continuar e ser feliz.

Marina Paula Oliveira é universitária, atingida pela barragem e coordenadora de Projetos da Arquidiocese de Belo Horizonte

 

 

 

 

 

 

 

A mãe que virou beija-flor para libertar a filhinha

São muitos irmãos e irmãs nossos indígenas que estão morrendo por causa do Covid-19 e o descaso das políticas genocidas e etnocidas do atual Governo.

Dedico-lhes este belo mito-estória dos povos amazônicos sobre o sentido da morte e da entrada na suprema Felicidade. Ela vale também para os familiares dos milhares de falecidos por causa do Coronavírus. Eles merecem a nossa solidariedade e também nossas palavras de cosolo.

Sempre nos perguntamos: como as pessoas falecidas chegam ao céu? Há uma convicção entre os povos de que todos devem fazer uma viagem. Nessa viagem há provas a passar. Segundo este relato dos povos amazônicos, cada um deve se purificar, tornar-se leve para poder mergulhar para dentro daquele mundo de alegria e de festa onde estão todos os antepassados e os parentes falecidos.

A nossa tristeza é que, por causa do descaso das atuais autoridades que desprezam e até odeiam os povos originários, muitos pajés estão morrendo, vítimas do Covid-19. Com eles desaparece uma inteira biblioteca de conhecimentos que eles herdaram, enriqueceram e sempre passam às novas gerações. Com sua morte há uma ruptura dolorosa dessa tradição. Eles e nós sofremos e ficamos mais pobres. A todos eles nossa profunda solidariedade e com-paixão, participando também da paixão  que eles sofrem: LBoff

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Em muitas tribos da Amazônia acredita-se que os mortos se transformam em borboletas. Durante o tempo necessário para a purificação, cada qual ganha uma forma adequada. As que se purificam logo, são alvíssimas, com poucas horas de vida e com cores brancas. Penetram diretamente no mundo da felicidade.

As que precisam de mais tempo, são menores, leves e multicores. E as que precisam de muito tempo são maiores, pesadas e com cores escuras.

Todas elas voam de flor em flor, sugando nectar e fortalecendo-se para carregar o próprio peso ao se alçarem ao céu, onde viverão felizes com todos os antepassados e parentes que estão apenas no outro lado da vida.

Conta-se naquela floresta a seguinte estória:

Coaciaba, era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi.

Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os colibris e outros insetos.

De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença, por velhice ou por causa de um vírus maligno da natureza. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la a passear. Mesmo pequena, só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia a ela e aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse a sua mãe.

De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia após dia até que também ela morreu. Os parentes ficaram muito penalizados, com tanta desgraça sobrevindo sobre a mesma família.

Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como a dos demais indios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

A mãe Coaciaba, cujo espírito fora, sim, trasformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor sugando nectar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás. Ao sugar o nectar, ouviu um chorinho triste e doce. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro dela   a vozinha da filha querida Guanambi. Como poderia estar aprisionada ai? Refez-se da emoção e disse:

-Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranquila que vou libertá-la para juntos voarmos para o céu.

Mas deu-se logo conta de que ela era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida. Recolheu-se, então, a um canto e, em lágrimas, suplicou ao Espírito criador e a todos os ancestrais da tribo:

-Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa de todos os parentes, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração da flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e a vós todos, anciãos de nossa tribo: transformem-me num pássarinho veloz e ágil, dotado de um bico ponteagudo para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

Tanta foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criador e os anciãos da tribo atenderam, sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediantamente sobre a flor lilás. Sussurrou com voz carregada de enternecimento:

-Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

Com o bico ponteagudo, foi tirando com cuidado pétala por pétala até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe.

Purificadas e abraçadas voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

Desde então se introduziu entre indígenas amazônicos, o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilás, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe, na forma de um beija-flor, venha buscá-a para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes com todos os antepassados e com todos os demais parentes.

Leonardo Boff reescreveu mitos-estórias de nossos povos indígenas:”O casamento entre o céu e a Terra”, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

    

 

 

 

El coronavirus: un ataque de la Tierra contra nosotros

Hasta el día de hoy la preocupación sobre la Covid-19 se centra en la medicina, la técnica y todos los insumos que eviten la contaminación de los trabajadores de la salud. Se busca urgentemente una vacuna eficaz. En la sociedad, el aislamiento social y evitar la aglomeración de personas. Todo esto es fundamental. Sin embargo, no podemos considerar el coronavirus como un dato aislado. Debe ser visto dentro del contexto que permitió su irrupción.

El virus vino de la naturaleza. Pues bien, como dice el Papa Francisco en su encíclica “sobre el cuidado de la Casa Común”: «Nunca hemos maltratado y herido a nuestra Casa Común como en los dos últimos siglos» (n. 53). Quien la hirió fue el proceso industrial: el socialismo real (mientras existió) y sobre todo el sistema capitalista hoy globalizado. Este es el Satán de la Tierra que la está devastando y la está llevando a todo tipo de desequilibrios.

Es el principal (no el único) responsable de las diversas amenazas que se ciernen sobre el sistema-vida y el sistema-Tierra: desde el posible holocausto nuclear, el calentamiento global, la escasez de agua potable hasta la erosión de la biodiversidad. Me hago eco de las palabras del conocido geógrafo estadounidense David Harley: «COVID-19 es la venganza de la naturaleza por más de cuarenta años de maltrato y abuso a manos de un extractivismo neoliberal violento y no regulado».

Isabelle Stengers, química y filósofa de la ciencia que ha trabajado mucho en asociación con el Premio Nobel Ilya Prigogine, sostiene la tesis que yo también subscribo: «el coronavirus sería una intrusión de la Tierra-Gaia en nuestras sociedades, una respuesta al antropoceno».

Sabíamos de otras intrusiones: la peste negra (la peste bubónica) que venida de Eurasia diezmó a un total estimado en 75-200 millones de personas. En Europa, entre 1346 y 1353, causó la muerte de gran parte de su población, que pasó de 475 a 350 millones de habitantes. Necesitó 200 años para recuperarse. Fue la más devastadora que se haya conocido en la historia. También fue notable la gripe española. Oriunda posiblemente de Estados Unidos, entre 1918-1920 infectó a 500 millones de personas y causó 50 millones de muertes, incluyendo al presidente electo Rodrigues Alves en 1919.

Ahora, por primera vez, un virus ha atacado a todo el planeta, causando miles de muertes sin poder detenerlo debido a su rápida propagación, ya que vivimos en una cultura globalizada con un gran desplazamiento de personas que viajan a través de todos los continentes y pueden ser portadores de la epidemia.

La Tierra ya ha perdido su equilibrio y está buscando uno nuevo. Y este nuevo podría significar la devastación de importantes porciones de la biosfera y de una parte significativa de la especie humana.

Esto sucederá, aunque no sabemos ni cuándo ni cómo, dicen biólogos notables. Si llegase el temido NBO (The Next Big One), el próximo gran virus devastador, podría, según el investigador de la USP Prof. Eduardo Massad, llevar a la muerte a alrededor de 2.000 millones de personas, reduciendo la esperanza de vida general de 72 a 58 años. Otros temen incluso el fin de la especie humana.

El hecho es que ya estamos dentro de la sexta extinción en masa. Según algunos científicos, hemos inaugurado una nueva era geológica, la del antropoceno y su más dañina expresión, el necroceno. La actividad humana (antropoceno) es responsable de la producción masiva de muerte (necroceno) de seres vivos.

Los diferentes centros científicos que vigilan sistemáticamente el estado de la Tierra confirman que, año tras año, los principales elementos que perpetúan la vida (agua, suelos, aire limpio, semillas, fertilidad, climas y otros) se están deteriorando cada día más. ¿Cuándo va a parar esto?

El día de la Sobrecarga de la Tierra (The Earth Overshoot day) ocurrió el día 29 de julio de 2019. Esto significa que en esa fecha se habían consumido todos los recursos naturales disponibles y renovables para ese año. La Tierra entró en números rojos, tenía un cheque sin fondos.

¿Cómo detener este agotamiento? Si insistimos en mantener el consumo actual, especialmente el consumo suntuoso, tenemos que aplicar más violencia contra la Tierra obligándola a darnos lo que ya no tiene o ya no puede reemplazar. Su reacción se expresa por eventos extremos, como el vendaval bomba de Santa Catarina a fines de junio y por los ataques de varios tipos de virus conocidos: zika, chicungunya, ébola, Sars, el coronavirus actual y otros. Hay que incluir el crecimiento de la violencia social, ya que la Tierra y la Humanidad constituyen una sola entidad relacional.

O cambiamos nuestra relación con la Tierra viva y con la naturaleza o tendremos que contar con virus nuevos y más potentes que podrían aniquilar millones de vidas humanas. Nuestro amor a la vida, la sabiduría humana de los pueblos y la necesidad del cuidado nunca han sido tan urgentes.

*Leonardo Boff es ecoteólogo y escritor. Acaba de escribir este libro “O Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade”, que saldrá publicado por la Editora Vozes este año.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

 

 

 

Post-covid-19: what cosmology and ethics to incorporate (II)

Many analysts predict that the post-pandemic could usher in an extreme radicalization of the previous situation, a return to the system of capital and neo-liberalism, which seeks to dominate the world through electronic surveillance (big data) of every person in the planet, which is already being done in China and the United States. We then would enter an era of darkness, risking our own destruction, as suggested by Rachel Carson in her famous book, “Silent Spring”. Hence the demand for a radical ecological conversion, whose centrality must consist of the Earth, life and human civilization: a bio-civilization.

               The possible risks in the post-covid-19 period:

We must not, however, underestimate the power of systemic violence. Sigmund Freud, replying to a 1932 letter by Albert Einstein in which Einstein asked if it was possible to overcome violence and war, left an aporia. Freud replied that he could not say which tendency would prevail: the instinct of death (Thanatos) or the instinct of life (Eros). They are always in tension and we cannot be sure which will triumph in the end. And he concluded, resigned: “Starving, we think of the windmill that grinds so slowly that we can die of hunger before we get the flour”.

There is the non optimistic opinion of Noam Chomsky, one of the greatest Northamerican intellectuals and a severe critic of the imperialist system, who says: «The coronavirus is very grave indeed, but it is worth remembering that something even more terrible is near. We are headed towards disaster, something worse than anything that has ever happened in human history, and Trump and his lackeys are leading us towards the abyss. We are facing two immense threats. One is the ever growing threat of nuclear war, exacerbated by the tension of the military regimes; and the other, of course, is global warming. The two threats could be resolved, but there is not enough time; the coronavirus is terrible and can have terrible consequences, but it will be overcome, while the others will not. If we do not resolve them, we are condemned».

Chomsky has affirmed that President Trump is insane enough as to unleash a nuclear war, without caring what would happen to all of humanity.

Notwithstanding this dramatic vision of the prestigious linguist and thinker, our hope is that if humanity were to run a truly grave danger of self destruction, the life instinct would prevail. But that presumes that we had constructed a new form of inhabiting the Common Home, on bases that are neither those of the past, nor of the present.

         Some good lessons from the Covid-19 pandemic

In any event, the coronavirus has shown us that we are not the “little gods” who claim to be able to do anything; it has shown us that we are fragile and limited; that the accumulation of material goods does not save life; that financial globalization alone, in the competitive mold of capitalism, precludes the creation, as the Chinese propose, of “a community of common destiny for the whole humanity”; that we must create a global a pluralistic center to discuss world problems; that cooperation and solidarity of one an all rather than individualism are the central values of a geosociety.

The limits of the Earth-System which does not tolerate a project of unlimited growth must be recognized and respected; we must take as good care of nature as of ourselves, because we are part of nature and she gives us all the goods and services needed for life. We must seek a circular economy that fulfills the famous “3-Rs”; reduce, reuse, and recycle everything that has entered into the process of production.

The economy must be one of dignified and universal subsistence and not of accumulation by some at the expense of everyone else and of nature. An economy of subsistence reduces our needs and leads to sobriety, and thus in great measure reduces social inequalities. The new economic order will not be ruled by profit but by economic rationality with ecological and social sensitivity.

It would be highly rational and humanitarian to create a minimum universal income; for medical attention to be a universal human right (One World-One Health) that should not be left unattended. It is important to ensure that the state regulates the market, to promote the necessary development and satisfy collective demands, be they of health or natural disasters.

We must encourage human-spiritual capital, always unlimited, based on love, solidarity, the search for the just measure, fraternity, compassion, feeling the enchantment of the world and the tireless search for peace.

              A road map to rescue life: The Earthcharter

These are, among others, some of the lessons we can draw from the coronavirus. Quoting the Earthcharter, (UNESCO), one of the most inspiring official documents for the transformation of our form of being on planet Earth, «fundamental changes are needed in our values, institutions and forms of life… Our environmental, economic, political, social and spiritual challenges are interconnected and together we can forge inclusive solutions» (Preamble c).

What world vision and which values should be included?

To know and have knowledge of information about reality is not yet to act. What moves us to act? What world vision (cosmology) and which values (ethics) we should include? An important text in the final part of the Earthcharter, in whose editing I also took part, can guide us.

“As never before in history, the common destiny calls us to search for a new beginning. This requires a change of mind and heart. It demands a new sense of global interdependence and universal responsibility. We must develop and apply with imagination the vision of a mode of sustainable life at a local, national, regional and world levels” (The path ahead).

Let us note that it is not just about improving the path we have taken. This would lead us to the cyclical crises that we already know, and eventually to disaster. It is about “searching for a new beginning”. We are called to rebuild the “Earth, our home, that is alive with a unique community of life” (Earthcharter, Preamble a). It would be deceitful to cover the wounds of the Earth with bandages, thinking that we could cure her that way. We must revive her and remake her so that she may be our Common Home.

“This requires a change of mind”. A change of mind means a new way of looking at the Earth, according to the new cosmology and biology. She is at a moment of the process of evolution that is 13.7 billion years old, and for the Earth, 4.3 billion years. After the big bang, all the physical-chemical elements were forged over more than three billion years, in the heart of the big red stars. On exploding, they launched in every direction the elements that formed the galaxies, the stars like the Sun, the planets and the Earth.

The Earth is teeming with life that began some 3.8 billion years ago, a continuously self creating and self organizing systemic super-organism. In an advanced moment of her complexity, some 8-10 million years ago, a part of the Earth began to feel, to think, to love and to worship. The human being emerged, man and woman. They are Earth, conscious and intelligent, that’s why they are called homo, made of humus.

This cosmovision changes our conception of the Earth. The UN, on April 22, 2009, officially recognized her as Mother Earth, because she creates and gives us everything. This is why the Earthcharter calls us: “To respect the Earth and life in all its diversity and to take care of the community of life with understanding, compassion and love” (Earthcharter 1 and 2). We can buy and sell the Earth as land. However, as Suquamish-Duwamish Grandfather Sealth, a.k.a., Seattle, stated, “we neither buy nor sell our Mother; we love and venerate her”. This attitude must be restored to the Earth, our Mother. This is the new mindset that we must make our own.

“It requires a change of heart”. The heart is the dimension of profound feelings (pathos), of sensibility, love, compassion and the values that guide our life. Especially in the heart is found caring, the friendly and affectionate form of relating with nature and her beings. It has to do with the sensible or cordial reason, with the limbic brain, that arose some 220 million years ago when mammals emerged in evolution. All of them, like the human being, have feelings, they love and care for their offspring. That is pathos, the capacity of affecting and of being affected, the human beings’ most profound dimension.

Reason (logos), the mind we have referred before, appeared only some 8-10 million years ago, with the neo-cortical brain, and in an advanced form as homo sapiens (present day humans) about a hundred thousand years ago. In modern times, it has developed exponentially, dominating our societies and creating techno-science, the great instruments of domination and the transformation of the face of the Earth, including a death machine in the form of nuclear weapons and other things that can end human life and the life of nature

The elevation of reason, rationalism, has created a kind of lobotomy: the human being has difficulty feeling the other and its suffering. We need to complete the rational intelligence, necessary to solve the needs of survival of our life, but we must to complement it with emotional and sensible intelligence. so that we may be more complete and we undertake with passion the defense of the Earth and of life.

We need the heart to make us hear both the cry of the Earth and the cry of the poor, and to forge, as the Prime Minister of China, Xi Jinping, says: “a society moderately supplied” or as we say: a society with sober, frugal and solidarian consumption. (to be continued).

*Leonardo Boff is an ecotheologian and philosopher that has written: The Human Being, Satan or the Good Angel. Record,Rio 2008.