What may come after the coronavirus?

Many see it clearly now: after the coronavirus, it no longer will be possible to continue capitalism as the mode of production, nor neo-liberalism as its political expression. Capitalism only serves the rich, for everyone else it is purgatory, or hell, and for nature, capitalism is an endless war.

What is saving us now is not competition –the principal motor of capitalism– but cooperation. Not individualism –the cultural expression of capitalism– but the inter dependency of everyone and everything.

But getting to the central point: we have discovered that life is the supreme value, not the accumulation of material goods. The military apparatus, capable of destroying several times over all life on Earth has proven to be ridiculous when faced with a microscopic invisible enemy that threatens the whole of humanity. Could this be the Next Big One (NBO) the biologists fear?, “the next great virus” that will destroy the future of life? We do not believe so. We hope that the Earth will continue having compassion for us and that she is only giving us a kind of ultimatum.

The threatening virus comes from nature, so social isolation offers us the opportunity to question:what our relationship with nature, and, more generally, with the Earth as Common Home, have been and how they should be. Medicine and technology, while very necessary, are not enough. Their function is to attack the virus – to exterminate it. But if we continue attacking the living Earth, “our home with a unique community of life”, as the Earthcharter says (Preamble), she will counter attack again with even more lethal pandemics, until one will exterminate us.

As it happens, the majority of humanity and heads of state do not realize that we already are in the sixth massive extinction. Until now we neither felt ourselves as part of nature, or even as its conscious part. Our relationship is not like the relationship one has with a living being, Gaia, that has value in itself and must be respected, but merely one of use, for our comfort and well being. We are violently exploiting the Earth to the point that 60% of the land has been eroded, and the same percentage of the tropical jungles. We are causing an amazing devastation of species, between 70-100 thousand extinctions a year. This is the current reality of the anthropocene and the necrocene. If we continue on this path we will come face to face with our own extinction.

We have no alternative than to perform, in the words of the papal Encyclical Letter “On he caring of the Common Home”, a “radical ecological conversion”. In this sense, coronavirus is not a crisis as other crises, but the friendly and caring demand of our relationship with nature. How can we implement it in a world dedicated to the exploitation of all the ecosystems? There are not ready available projects yet. Everyone in the world is engaged in the search. The worst that could happen to us would be, after the pandemic, to go back to what there was before the pandemic: factories producing at full speed, if with minimal ecological care. We know that the huge corporations are coordinating with each other to recuperate the time and profits lost.

But we must recognize that this conversion cannot be swift, but gradual. When Emmanuel Macron, President of France, said, “the lesson of the pandemic was that there are goods and services that must not depend on market forces”, it provoked a rush of tens of great ecologist organizations such as Oxfam, Attac and others, asking that the 750.000 millions of euros that the European Central Bank earmarked to remedy the corporate losses be destined instead to social and ecological conversion of the productive apparatus towards a better caring of nature, more justice and social equality. Logically, this only will be accomplished by widening the debate, involving all types of groups, from popular participation up to scientific knowledge, until conviction and a collective responsibility arise.

We must be fully conscious of one thing: as global warming rises and the world population increasingly devastates natural habitats, thus bringing human beings closer to wild animals, they will transmit more viruses, to which we humans will not be immune, that will find in us new hosts. Thus will be born the devastating pandemic.

The essential point that cannot be set aside is the new conception of the Earth, no longer as a market of businesses that put us as her masters (dominus), apart from and above her, but as a living super entity, a self regulating and self creating system, of which we are the conscious and responsible part, together with the other beings as brothers and sisters. The transition from dominus (owner) to brother and sister will require a new mindset and a new heart, capable of seeing the Earth through new eyes, and feeling in our hearts that we belong to her and to the Great Whole. Along with that, the feeling of inter-retro-relationship of all with all and a collective responsibility in facing the common future. Only that way will we reach, as the Earthcharter prognosticates, “a sustainable way of life” and a guarantee for the future of life and of Mother Earth.

The present phase of social seclusion may be a sort of reflexive and humanist retreat to think about such things and our responsibility towards them. It is urgent and time is short. We must not get there too late.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher of  the Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Leneide Duarte-Plon: Que mundo a pandemia vai gerar?

Leneide Duarte-Plon é uma jornalista brasileira vivendo na França. Conhecida analista social e crítica do sistema imperante. Já publicamos textos dela neste blog. Este é particularmente importante. De forma realista nos pinta eventuais cenários que poderão seguir no pós-pandemia. Eles nos preocupam. Eu alimento a esperança de que os bilhardários e dos donos do poder econômico e militar terão que aprender as lições que a própria Terra vai lhes dar para pô-los,como agora, novamentede joelhos e tirar-lhes a arrogância. Eles não podem comer dólares, euros ou ouro. Terão que comer daquilo que a Terra dá e ela, parece,não querer mais dar possibilidades aos super-ricos e ultra-consumistas aqulo que eles pretendem controlar para seu desfrute egoista. Ele também têm os pés de barro e, o que é pior, as cabeças vazias de humanidade, solidariedade, cuidado da Casa Comum. A cabeça deles estã cheia de cifrões de $,EU,em fim, de riquezas materiais que a Terra um dia vai comer. Leiamos este texto de Leneide para estarmos atentos ao que poderá vir e como podemos já agora resistir e confiar que ninguém e nada é mais forte do que a Vida e Aquele que rege os destinos do universo e da Terra e da humanidade Lboff

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                      Que mundo a pandemia vai gerar?

 A construção de uma nova mundialização, mais solidária, mais ecológica, menos voltada para o lucro, é uma decisão de todos.

O mundo que vai nascer dos escombros dos Estados atuais será mais justo ?

Para o linguista e filósofo americano Noam Chomsky, temos escolha. Mas quem vai decidir é o poder político.

Chomsky desenvolveu de forma brilhante uma análise da crise atual em recente entrevista, publicada no site Opera Mundi.

« Em que tipo de mundo nós queremos viver? De qualquer forma, haverá opções. Desde a instalação de Estados autoritários por toda parte até a reconstrução da sociedade em termos mais humanos, para atender às necessidades humanas ao invés do lucro privado. »

Mas a esperança de ver um novo mundo mais solidário, mais preocupado com a preservação da natureza e com a justiça social emergir da atual pandemia – crise sanitária que paralisou o planeta, originando a maior crise econômica e social depois de 1929 – pode ser apenas um sonho de utopistas do mundo inteiro.

“Meu receio é que o mundo que vai surgir se assemelhe demais ao mundo que conhecíamos, mas em versão piorada ».

A frase não é de um filósofo. É de Jean-Yves Le Drian, atual ministro das relações exteriores da França e ex-ministro da Defesa do presidente François Hollande. Um homem que vem do Partido Socialista francês e não é um noviço em relações internacionais.

Para quem não lembra, foi ele quem recebeu de Bolsonaro um bolo inédito. Na hora do encontro previamente agendado do ministro francês com o presidente do Brasil, o capitão foi cortar o cabelo e deixou Le Drian a ver navios. E, para ficar bem claro que estava ocupado em coisas mais importantes que política internacional, o inacreditável personagem fez questão de divulgar as cenas do corte de cabelo em redes sociais.

Como Le Drian, alguns filósofos jogam uma ducha de água fria na esperança do ser humano sair mais maduro e menos egoísta dessa pandemia.

Não é o caso do filósofo alemão Hartmut Rosa, que ressalta que o poder político, e somente ele, tem em suas mãos condições de mudar drasticamente uma realidade nacional fechando escolas, paralisando os transportes, fechando comércio e confinando a totalidade da população. Em entrevita ao jornal « Libération », ele desenvolveu a idéia que deixa uma porta entreaberta :

« Temos hoje 85% do tráfego aéreo bloqueado, aviões no solo. Isso parece um milagre impensável em tão pouco tempo. Essa interrupção de voos não foi provocada por uma guerra, por uma tragédia econômica nem por uma catástrofe natural. Não foi o vírus que derrubou aviões e fechou nossas escolas, cinemas e universidades e interrompeu campeonatos de futebol. Foi uma decisão política. A desaceleração espetacular que estamos vivendo é o resultado de uma ação política. No entanto, a política parecia impotente diante da crise climática, dos mercados financeiros e do aumento das desigualdades sociais. De repente, vemos que uma ação política eficaz é possível ! »

Com a volta a uma normalidade que não será jamais a mesma de antes pois o vírus não vai desaparecer, possivelmente voltará a busca pelo crescimento e pela acumulação de capital. Mas os Estados-nação, como a França já anunciou, vão decidir se fortalecer buscando relocalizar indústrias estratégicas – de medicamentos e componentes de saúde, por exemplo – que tinham partido maciçamente para a China, em busca de mão de obra barata.

« Nenhum modelo econômico ou sociológico, nenhuma ciência futura pode predizer como iremos continuar, se iremos voltar ao antigo modelo ou encontrar novas idéias e soluções, sobretudo para a crise climática. Tudo é uma questão de ação política », diz Hartmut Rosa.

O mundo pós-Covid19, no entanto, pode agravar as desigualdades e os problemas ecológicos. Segundo uma matéria publicada no jornal Le Monde, “Le monde d’après, selon Wall Street », o mundo de amanhã será o de ontem mais cartelizado, mais globalizado, mais tecnológico e mais virtual. Enquanto a crise fez cair em 25% o índice da Bolsa francesa (CAC 40), o índice de Wall Street só diminuiu 12% desde o início do ano. As ações da Amazon, por sua vez, tiveram um crescimento espetacular de 23,7% de janeiro a 1° de maio. E muitos bilionários estão ganhando com a pandemia.

Philip Mirowski, filósofo do pensamento econômico, diz, em entrevista ao jornal « Libération » que o atual aumento da solidariedade que vemos em diversos países é apenas um progresso enganoso e passageiro.

« Nos Estados Unidos, enquanto há mais de 30 milhões de novos desempregados, a fortuna acumulada pelos bilionários aumentou de mais de 300 bilhões de dólares na crise atual. Se olharmos no retrovisor, vamos ver que não há motivo para otimismo : depois da crise das subprimes de 2008, os financiamentos foram dirigidos para as empresas e a austeridade foi para os particulares. »

Uma ducha de água fria na nossa esperança de que « um outro mundo é possível » …

Mirowski continua : « O pós-coronavírus não será favorável ao modelo de sociedade que a esquerda defende, veremos uma aceleração das medidas neoliberais. Penso que nos dirigimos a um momento de estabilização da plutocracia, isto é, um pequeno grupo de ricos vai se apoderar de um imenso poder ».

Para Mirowski, o que vai surgir depois da pandemia é um mercado ainda menos regulado, uma indústria farmacêutica cada vez mais forte e um fortalecimento do discurso populista.

Quem esperava de Philip Mirowski palavras otimistas, um pouco de entusiasmo pelas novas oportunidades de construção de um mundo de mais justiça social, tem duas opções : discordar de tudo o que ele diz e manter sua utopia. Ou jogar a toalha e desistir da luta política. Para não se jogar pela janela.

Alemanha e França : crescimento negativo

A Alemanha e a França, as maiores economias européias, tiveram a mais baixa atividade econômica depois da guerra. O crescimento econômico das duas potências será negativo este ano e setores como o turismo, a cultura, a construção aeronáutica e o luxo – carros-chefes da economia francesa, juntamente com a indústria de armamentos – terão perdas fenomenais.

Chomsky não é otimista quanto ao futuro e lembra que nunca estivemos tão perto de catástrofes planetárias como a guerra nuclear e o agravamento do aquecimento global :

« O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. Há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos condenados. »

Ele lembra que todo ano, o relógio do juízo final é ajustado em janeiro com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim. Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já alcançado. Esse ano, os analistas retiraram os “minutos” e movem agora o ponteiro em segundos. Estamos a 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos.

« Temos três questões: a ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia. A democracia não está sendo debatida nos Estados Unidos, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino. Se isso não acontecer, estamos condenados se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê esse declínio quando os EUA impõem sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão da Europa estar subordinada ao mestre em Washington. Outros países não têm nem tem mesmo como escolher. »

O Brasil já teve escolha.

Desenvolveu uma política externa “ativa e altiva”, como a nomeou o chanceler Celso Amorim. Mas, em 2016, resolveu hipotecar sua soberania a Washington, com um golpe de Estado que marca a destruição de todo o projeto de nação construído nos últimos 30 anos.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meirele, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.

Volver a la “normalidad” es autocondenarse

Cuando pase la pandemia del coronavirus no nos estará permitido volver a la “normalidad” anterior. Sería, en primer lugar, un desprecio a los miles de personas que han muerto asfixiadas por el virus y una falta de solidaridad con sus familiares y amigos. En segundo lugar, sería la demostración de que no hemos aprendido nada de lo que, más que una crisis, es una llamada urgente a cambiar nuestra forma de vivir en nuestra única Casa Común. Se trata de un llamamiento de la propia Tierra viva, ese superorganismo autorregulado del que somos su parte inteligente y consciente.

El sistema actual pone en peligro las bases de la vida

Volver a la anterior configuración del mundo, hegemonizado por el capitalismo neoliberal, incapaz de resolver sus contradicciones internas y cuyo ADN es su voracidad por un crecimiento ilimitado a costa de la sobreexplotación de la naturaleza y la indiferencia ante la pobreza y la miseria de la gran mayoría de la humanidad producida por ella, es olvidar que dicha configuración está sacudiendo los cimientos ecológicos que sostienen toda la vida en el planeta. Volver a la “normalidad” anterior (business as usual) es prolongar una situación que podría significar nuestra propia autodestrucción.

Si no hacemos una “conversión ecológica radical”, en palabras del Papa Francisco, la Tierra viva podrá reaccionar y contraatacar con virus aún más violentos capaces de hacer desaparecer a la especie humana. Esta no es una opinión meramente personal, sino la opinión de muchos biólogos, cosmólogos y ecologistas que están siguiendo sistemáticamente la creciente degradación de los sistemas-vida y del sistema-Tierra. Hace diez años (2010), como resultado de mis investigaciones en cosmología y en el nuevo paradigma ecológico, escribí el libro Cuidar la Tierra-proteger la vida: cómo evitar el fin del mundo (Record). Los pronósticos que adelantaba han sido confirmados plenamente por la situación actual.

El proyecto capitalista y neoliberal ha sido rechazado

Una de las lecciones que hemos aprendido de la pandemia es la siguiente: si se hubieran seguido los ideales del capitalismo neoliberal –competencia, acumulación privada, individualismo, primacía del mercado sobre la vida y minimización del Estado– la mayoría de la humanidad estaría perdida. Lo que nos ha salvado ha sido la cooperación, la interdependencia de todos con todos, la solidaridad y un Estado suficientemente equipado para ofrecer la posibilidad universal de tratamiento del coronavirus, en el caso del Brasil, el Sistema Único de Salud (SUS).

Hemos hecho algunos descubrimientos: necesitamos un contrato social mundial, porque seguimos siendo rehenes del obsoleto soberanismo de cada país. Los problemas mundiales requieren una solución mundial, acordada entre todos los países. Hemos visto el desastre en la Comunidad Europea, en la que cada país tenía su plan sin considerar la necesaria cooperación con otros países. Fue una devastación generalizada en Italia, en España y últimamente en Estados Unidos, donde la medicina está totalmente privatizada.

Otro descubrimiento ha sido la urgencia de un centro plural de gobierno mundial para asegurar a toda la comunidad de vida (no sólo la humana sino la de todos los seres vivos) lo suficiente y decente para vivir. Los bienes y servicios naturales son escasos y muchos de ellos no son renovables. Con ellos debemos satisfacer las demandas básicas del sistema-vida, pensando también en las generaciones futuras. Es el momento oportuno para crear una renta mínima universal para todos, la persistente prédica del valiente y digno político Eduardo Suplicy.

Una comunidad de destino compartido

Los chinos han visto claramente esta exigencia al promover “una comunidad de destino compartido para toda la humanidad”, texto incorporado en el renovado artículo 35 de la Constitución china. Esta vez, o nos salvamos todos, o engrosaremos la procesión de los que se dirigen a la tumba colectiva. Por eso debemos cambiar urgentemente nuestra forma de relacionarnos con la naturaleza y con la Tierra, no como señores, montados sobre ella, dilapidándola, sino como partes conscientes y responsables, poniéndonos junto a ella y a sus pies, cuidadores de toda la vida.

A la famosa TINA (There Is No Alternative), “no hay (otra) alternativa” de la cultura del capital, debemos confrontar otra TINA (There Is a New Alternative), “hay una nueva alternativa”. Si en la primera alternativa la centralidad estaba ocupada por el beneficio, el mercado y la dominación de la naturaleza y de los otros (imperialismo), en esta segunda será la vida en su gran diversidad, también la humana con sus muchas culturas y tradiciones la que organizará la nueva forma de habitar la Casa Común. Eso es imperativo y está dentro de las posibilidades humanas: tenemos la ciencia y la tecnología, tenemos una acumulación fantástica de riqueza monetaria, pero falta a la gran mayoría de la humanidad y, lo que es peor, a los Jefes de Estado la conciencia de esta necesidad y la voluntad política de implementarla. Tal vez, ante el riesgo real de nuestra desaparición como especie, por haber llegado a los límites insoportables para la Tierra, el instinto de supervivencia nos haga sociables, fraternos y todos colaboradores y solidarios unos con otros. El tiempo de la competencia ha pasado. Ahora es el tiempo de la cooperación.

La inauguración de una civilización biocentrada

Creo que inauguraremos una civilización biocentrada, cuidadosa y amiga de la vida, como algunos dicen, “la tierra de la buena esperanza”. Se podrá realizar el “bien vivir y convivir” de los pueblos andinos: la armonía de todos con todos, en la familia, en la sociedad, con los demás seres de la naturaleza, con las aguas, con las montañas y hasta con las estrellas del firmamento.

Como el premio Nobel de economía Joseph Stiglitz ha dicho con razón: “tendremos una ciencia no al servicio del mercado, sino el mercado al servicio de la ciencia”, y yo añadiría, y la ciencia al servicio de la vida.

No saldremos de la pandemia de coronavirus como entramos. Seguramente habrá cambios significativos, tal vez incluso estructurales. El conocido líder indígena, Ailton Krenak, del valle del Río Doce, ha dicho acertadamente: “No sé si saldremos de esta experiencia de la misma manera que entramos. Es como una sacudida para ver lo que realmente importa; el futuro es aquí y ahora, puede que mañana no estemos vivos; ojalá que no volvamos a la normalidad” (O Globo, 01/05/2020, B 6).

Lógicamente, no podemos imaginar que las transformaciones se produzcan de un día a otro. Es comprensible que las fábricas y las cadenas de producción quieran volver a la lógica anterior. Pero ya no serán aceptables. Deberán someterse a un proceso de reconversión en el que todo el aparato de producción industrial y agroindustrial deberá incorporar el factor ecológico como elemento esencial. La responsabilidad social de las empresas no es suficiente. Se impondrá la responsabilidad socio-ecológica.

Se buscarán energías alternativas a las fósiles, menos impactantes para los ecosistemas. Se tendrá más cuidado con la atmósfera, las aguas y los bosques. La protección de la biodiversidad será fundamental para el futuro de la vida y de la alimentación, humana y de toda la comunidad de la vida.

¿Qué tipo de Tierra queremos para el futuro?

Seguramente habrá una gran discusión de ideas sobre qué futuro queremos y qué tipo de Tierra queremos habitar. Cuál será la configuración más adecuada a la fase actual de la Tierra y de la propia humanidad, la fase de planetización y de la percepción cada vez más clara de que no tenemos otra casa común para habitar que ésta. Y que tenemos un destino común, feliz o trágico. Para que sea feliz, debemos cuidarla para que todos podamos caber dentro, incluida la naturaleza.

Existe el riesgo real de polarización de modelos binarios: por un lado los movimientos de integración, de cooperación general y, por otro, la reafirmación de las soberanías nacionales con su proteccionismo. Por un lado el capitalismo “natural” y verde y por otro lado el comunismo reinventado de tercera generación como pronostican Alain Badiou y Slavoy Zizek.

Otros temen un proceso de brutalización radical por parte de los “dueños del poder económico y militar” para asegurar sus privilegios y sus capitales. Sería un despotismo de forma diferente porque se basaría en los medios cibernéticos y en la inteligencia artificial con sus complejos algoritmos, un sistema de vigilancia sobre todas las personas del planeta. La vida social y las libertades estarían permanentemente amenazadas. Pero a todo poder le surgirá siempre un contrapoder. Habría grandes enfrentamientos y conflictos a causa de la exclusión y la miseria de millones de personas que, a pesar de la vigilancia, no se conformarán con las migajas que caen de las mesas de los ricos epulones.

No pocos proponen una glocalización, es decir que el acento se ponga en lo local, en la región con su especificidad geológica, física, ecológica y cultural pero abierta a lo global que involucra a todos. En este biorregionalismo se podría lograr un verdadero desarrollo sostenible, aprovechando los bienes y servicios locales. Prácticamente todo se realizará en la región, con empresas más pequeñas, con una producción agroecológica, sin necesidad de largos transportes que consumen energía y contaminan. La cultura, las artes y las tradiciones serán revividas como una parte importante de la vida social. La gobernanza será participativa, reduciendo las desigualdades y haciendo que la pobreza sea menor, siempre posible, en las sociedades complejas. Es la tesis que el cosmólogo Mark Hathaway y yo defendemos en nuestro libro común El Tao de la Liberación (2010) que fue bien acogida en el ambiente científico y entre los ecologistas hasta el punto de que Fritjof Capra se ofreció a hacer un interesante prefacio.

Otros ven la posibilidad de un ecosocialismo planetario, capaz de lograr lo que el capitalismo, por su esencia competitiva y excluyente, es incapaz de hacer: un contrato social mundial, igualitario e inclusivo, respetuoso de la naturaleza en el que el nosotros (lo comunitario y societario) y no el yo (individualismo) será el eje estructurador de las sociedades y de la comunidad mundial. El ecosocialismo planetario encontró en el franco-brasileño Michael Löwy su más brillante formulador. Tendremos, como reafirma la Carta de la Tierra así como la encíclica del Papa Francisco “sobre el cuidado de la Casa Común”, un modo de vida verdaderamente sostenible y no sólo un desarrollo sostenible.

Al final, pasaremos de una sociedad industrial/consumista a una sociedad de sustentación de toda la vida con un consumo sobrio y solidario; de una cultura de acumulación de bienes materiales a una cultura humanístico-espiritual en la que los bienes intangibles como la solidaridad, la justicia social, la cooperación, los lazos afectivos y no en última instancia la amorosidad y la logique du coeur estarán en sus cimientos.

No sabemos qué tendencia predominará. El ser humano es complejo e indescifrable, se mueve por la benevolencia pero también por la brutalidad. Está completo pero aún no está totalmente (terminado). Aprenderá, a través de errores y aciertos, que la mejor configuración para la coexistencia humana con todos los demás seres de la Madre Tierra debe estar guiada por la lógica del propio universo: este está estructurado, como nos dicen notables cosmólogos y físicos cuánticos, según complejas redes de inter-retro-relaciones. Todo es relación. No existe nada fuera de la relación. Todos se ayudan mutuamente para seguir existiendo y poder co-evolucionar. El propio ser humano es un rizoma (bulbo de raíces) de relaciones en todas las direcciones.

Si se me permite decirlo en términos teológicos: es la imagen y semejanza de la Divinidad que surge como la relación íntima de tres Infinitos, cada uno singular (las singularidades no se suman), Padre, Hijo y Espíritu Santo, que existen eternamente el uno para el otro, con el otro, en el otro y a través del otro, constituyendo un Dios-comunión de amor, de bondad y de belleza infinita.

Tiempos de crisis como el nuestro, de paso de un tipo de mundo a otro, son también tiempos de grandes sueños y utopías. Ellas son las que nos mueven hacia el futuro, incorporando el pasado pero dejando nuestra propia huella en el suelo de la vida. Es fácil pisar la huella dejada por otros, pero ella no nos lleva a ningún camino esperanzador. Debemos hacer nuestra propia huella, marcada por la inagotable esperanza de la victoria de la vida, porque el camino se hace caminando y soñando. Así pues, caminemos.

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito: Cuidar la Tierra-proteger la vida: cómo escapar del fi del mundo, Record, Rio 2010 y Trotta 2011.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Celso Japiassu:O novo velho continente e suas contradições:O outro nome da infâmia

 O novo velho continente e suas contradições: O outro nome da infâmia

Celso Japiassu é um paraibano vivendo no Rio de Janeiro, jornalista, colunista e poeta.Transcrevemos este suscinto e denunciatório artigo, pois nos esclarece o drama dos refugiados,vindos em África, para o Continente europeu.Sofrem terrivelmente e são e foram as principais vítimas do coronavírus nos vários países europeus. Por que emigram para a Europa? O Papa Francisco respondeu aos jornalistas:”eles estão aqui porque antes,nós europeus, estivemos lá e os submetemos, exploramos e roubamos suas riquezas”. A maioria dos europeus os rejeitam e até fecham as fronteiras como a “cristianíssima Polônia”. Esquecem a tragédia humana e ecológica que esses europeus provocaram com sua colonização, com carcterísticas de barbárie. Queremos entender a situação deles, para não engolirmos a versão de certa mídia dominante e xenófoba que os estigmatiza e sermos solidários em sua paixão. Lboff

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Essas migrações forçadas que amedrontam a burguesia do continente são a herança histórica deixada pela ocupação e da infame exploração da África na história moderna pelas potências europeias

Antes da pandemia, era comum ver nas ruas das principais capitais da Europa – e vai voltar a ser vista depois dela – a presença de refugiados africanos a procurar fugir da miséria vendendo bugigangas e produtos falsificados das grandes marcas comerciais preferidas da burguesia internacional. A correr da polícia, servindo a máfias organizadas, alvos de preconceitos e desprezo, são a face mais visível do drama dos imigrantes e refugiados legais ou, na maioria, ilegais. Na sua miséria denunciam outra tragédia maior e mais antiga, a do colonialismo europeu no continente africano. Cruel e desumana, marcada pela ganância e pela violência, a ocupação nos tempos modernos de noventa por cento do território africano pelas potências europeias responde hoje pelas migrações das populações que o colonialismo deixou ao abandono em países devastados.

Essa presença da miséria destoante em países ricos amedronta as classes médias e são pretexto sob medida para a plataforma xenófoba e ultranacionalista dos partidos de direita declaradamente fascistas. Eles têm atingido votação crescente por seus programas que pregam o fechamento de fronteiras e a pretensa defesa de seus países contra o que chamam de invasão estrangeira. Já chegaram ao poder ou estiveram muito perto de consegui-lo, a exemplo da França, Itália, Reino Unido, sem contar com os regimes ultra reacionários já instalados como os da Hungria e da Polônia.

Essas migrações forçadas que amedrontam a burguesia do continente são a herança histórica deixada pela ocupação e da infame exploração da África na história moderna pelas potências europeias.

O Congo

Talvez o melhor exemplo do que foi a colonização da África seja o do Congo Belga. O historiador Tim Stanley, da Universidade de Oxford, resumiu bem:

“Como muitas atividades imperialistas, a colonização belga começou como um mero exercício de pirataria. Mas os níveis atingidos pelo terror nas populações locais, a contribuição da burocracia estatal e as estimativas de mortes fazem com que os eventos do Congo sejam comparáveis às atrocidades do Nazismo e à Grande Fome da Ucrânia, arquitetada por Stalin, por exemplo.”

Foi um genocídio. O vasto território congolês era propriedade pessoal do rei Leopoldo II, que acumulou enorme fortuna explorando a população, vendendo escravos, marfim e borracha. Se não fossem cumpridas as cotas de produção, a punição era assassinato, mutilação e estupros. Não foi atoa que Joseph Conrad usou o Congo de Leopoldo II como cenário do seu romance “O Coração das Trevas”.

Leopoldo II, em quase 50 anos de reinado, nunca visitou o Congo e não era amado pelo seu próprio povo. Quando morreu, em 1909, foi vaiado na passagem do cortejo do seu enterro, embora a história oficial da Bélgica o homenageie como um dirigente empreendedor.

Hoje em dia, a capital Bruxelas conta com cem mil imigrantes africanos morando no bairro de Matonge, a grande maioria vinda da República Democrática do Congo. Correspondem a 10 por cento da população da cidade e procuram fazer algum dinheiro numa rica capital europeia para transferir uma parte para a família na África. Uma realidade que se repete em outros países europeus colonialistas como se fosse uma memória permanente, por vezes incômoda, dos abusos cometidos na África.

Somente de janeiro a maio do ano passado, chegaram à Itália e à Grécia 60 mil refugiados africanos, a maioria vinda através da Nigéria. Enfrentaram a travessia do Mediterrâneo e espalharam-se pelos diversos países europeus. Mais de mil pessoas morreram na travessia, contados apenas os corpos que foram encontrados.

 A exploração da África

Antes dos países modernos da Europa, a África foi território colonizado e explorado por fenícios, gregos, romanos, vândalos, Império Bizantino e pelos árabes. A partir do século XV, com os descobrimentos inaugurados pelos portugueses, foi ocupado numa corrida que durou até meados do século XX pela Bélgica, França, Holanda, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha.

No século XIX a África estava toda fatiada entre aqueles países. Apenas a Libéria e a Etiópia permaneceram independentes. A Etiópia foi ocupada por uns tempos pela Itália, num dos sonhos de grandeza de Benito Mussolini. A partilha do território africano foi feita sem qualquer respeito pelas características étnicas e culturais de cada povo, o que veio a gerar conflitos internos que duram até os dias atuais.

Os movimentos de independência começaram depois da Segunda Guerra, nos anos 1950. Alguns com o uso de violência e guerras declaradas, como foi o caso das colônias portuguesas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique e da guerra de libertação da Argélia contra o domínio francês.

Mas a independência não significou a libertação da África das amarras do capitalismo. Hoje como ontem este vasto continente continua a ser alvo dos predadores das riquezas do seu território. Se antes eram os exércitos dos colonizadores que o subjugavam e exploravam, agora são as grandes empresas multinacionais que corrompem seus governos e se apoderam do que ele tem de petróleo, gás natural, metais preciosos como ouro e diamante, ferro, titânio, platina, madeira e o bem que será motivo de grandes conflitos no futuro próximo: água. Enquanto isto suas populações empreendem uma desesperada fuga da miséria e da fome. São o fantasma que não deixa a Europa esquecer a extrema violência que usou e continua a usar na ocupação e exploração da África.

Fonte: Carta Maior 05/05/2020