A transição ecológica para uma sociedade biocentrada

O ataque do coronavírus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no vírus, no hospital, no paciente, no poder da ciência e da técnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social Tudo isso é indispensável.

Mas para apreendermos o significado do coronavírus, precisamos enquadrá-lo em seu devido contexto e     não vê-lo isoladamente. Ele expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.

             O capitalismo neoliberal gravemente ferido

O capitalismo se caracteriza pela exacerbada exploração da força de trabalho, pela utilização dos saberes produzidos pela tecnociência, pela pilhagem dos bens e serviços da natureza, pela colonização e ocupação de todos os territórios acessíveis. Por fim, pela mercantilização de todas as coisas. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado.

Nela, as coisas inalienáveis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua Miséria da Filosofia de 1874 profetizou: “Tudo o que os homens considerável inalienável, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas….tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência… tudo foi  levado ao mercado e ganhou seu preço”. A isso ele denominou o “tempo da corrupção geral e da venalidade universal”(ed.Vozes 2019,p.54-55).É o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.

O capitalismo quebrou todos os laços com natureza, a transformou num baú de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em função de uma crescimento também tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta já velho e limitado não suporta um crescimento ilimitado.

Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado mínimo, às privatizações de bens públicos e uma exacerbação da concorrência e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade não existe, apenas indivíduos.

A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, começou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela erosão da biodiversidade, pela desertificação crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que são os vírus e bactérias (gripe suína, aviária, H1N1, zika, chikungunya, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invisível e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as potências militaristas cujas armas de destruição em massa (que poderiam destruir toda a vida, várias vezes) se mostraram totalmente supérfluas e ridículas. Agora passamos do capitalismo do desastre para o capitalismo do caos,como diz a crítica do sistema capitalista Naomi Klein.

Uma coisa ficou clara a propósito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ideário: o lucro, a acumulação privada, a concorrência, o individualismo, o consumismo, o estado mínimo e a privatização da coisa pública e dos commons. Ele foi gravemente ferido. O fato é que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecológica, a ponto de pôr em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.

Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?

Pelo ideário do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que é o que nos está salvando é aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a cooperação, a interdependência entre todos, a generosidade e o cuidado mútuo pela vida de uns e de outros.

Alternativas para o pós-coronavírus

O grande desafio colocado a todos, a grande interrogação especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais é: Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?

Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suicídio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com vírus mais violentos e mortais. Cientistas já advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso não tenhamos aprendido a lição de cuidar da natureza e de desenvolver uma relação amigável para com a Mãe Terra.

Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finanças estão numa furiosa articulação entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de pressão política.

A primeira seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhardários, que utilizariam a inteligência artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida íntima, privada e pública. Seria um despotismo de outra ordem, cibernético, sob a égide do total controle/dominação da vida das populações.

Este não aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecológico. Pela pressão geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-ecológica para não perder lucros e frequezes. Mas seguramente haverá grande resistência e até rebeliões provocadas pela fome e pelo desespero.

A segunda alternativa seria o capitalismo verde que tirou as lições do coronavírus e incorporou o fator ecológico: reflorestar o devastado e conservar ao máximo a natureza. Mas não mudaria o modo de produção e a busca do lucro. O capitalismo verde não discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasião de ganho. Exemplo: não apenas ganhar com o mel das abelhas, mas também sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A relação para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e não lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intrínseco, independente do ser humano.

A terceira seria o comunismo de terceira geração que nada teria com as anteriores, colocando os bens e serviços do planeta sob a administração plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser possível, mas supõe uma nova consciência ecológica, além de  dar centralidade à vida em todas as suas formas. Seria ainda antropocêntrico. É pouco representado, pelos filósofox Zizek e Badiou além da carga negativa das experiências anteriores e mal sucedidas.

A quarta, seria o eco-socialismo com maiores possibilidades. Supõe um contrato social mundial com um centro plural de governança para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e serviços naturais seriam equitativamente distribuídos a todos, num consumo decente e sóbrio que incluiria também toda a comunidade de vida. Ela também precisa de meios de vida e de reprodução como água, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmogênico,biogênico e antropogênico.

A quinta alternativa seria o bem viver e conviver ensaiada por séculos pelos andinos. Ela é profundamente ecológica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador é a harmonia que começa com a família, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia, Talvez, quando a humanidade se descobrir como espécie, habitando numa única Casa Comum, teria condições de realizar o bem-viver e o bem conviver.

Conclusão desta parte: ficou evidente que o centro de tudo é a vida, a saúde e os meios de vida e não o lucro e o desenvolvimento (in)sustentável. Vai se exigir mais Estado com mais segurança sanitária para todos, um Estado que satisfaça as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obedeça os ritmos e os limites da natureza. Não será a austeridade que vai resolver os problemas sociais que têm beneficiados ao já ricos, e penalizado os mais pobres. A solução se deriva da justiça social e distributiva, onde todos participam do ônus e do bônus da ordem social.

Como o problema do coronavírus foi global, torna-se necessário um contrato social global para implementar soluções globais. Tal transformação demandará uma descolonização de visões de muno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O pós-coronavírus nos obrigará conferir centralidade à natureza e à Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.

Como buscar uma transição ecológica, exigida pela ação mortífera do covid-19? Por onde começar?

Não podemos subestimar o poder do “gênio” do capitalismo neoliberal: ele é capaz de incorporar os dados novos, transformá-los em seu benefício privado e para isso usar todos os meios modernos da robotização, da inteligência artificial com seus bilhões de algoritmos e eventualmente as guerras híbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milhões e milhões de esfaimados e lançados na miséria.

Por outra parte os que buscam uma transição paradigmática, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma convivência respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro nível de consciência e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descolonização de visões de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.

           Pressupostos para uma transição bem sucedida

Primeiro pressuposto: a vulnerabilidade da condição humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bactérias e vírus. dos ecossistemas e a alimentação humana.

Fundamentalmente dois outros fatores estão na origem da invasão de micro-organismos letais: a excessiva urbanização humana que avançou sobre os espaços da natureza, destruindo os habitats naturais dos vírus e bactérias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.

O segundo fator é a desflorestação sistemática devida à voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasol ou com a mineração e a produção de proteínas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regiões como é o caso da Amazônia.

Segundo pressuposto: a interdependência entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um nó de relação, voltado para todas as direções. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que é da essência específica do ser humano a cooperação e a relação de todos com todos. Não existe o gene egoísta, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das células. Todos os seres estão inter-retro-relacionados e ninguém está fora da relação. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é anti-natural e não possui nenhuma base biológica.

Terceiro pressuposto: a solidariedade como opção consciente. A solidariedade está na base de nossa humanidade. Os bio-antropólogos nos revelaram que este dado é essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, não os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos começando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Daí surgiu a comensalidade e o sentido de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale também para hoje.

A sociedade vive e subsiste porque seus cidadãos comparecem como seres cooperativos e solidários, superando conflito de interesses para ter uma convivência minimamente humana e pacífica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade não vigora apenas entre os humanos. É uma constante cosmológica: todos os seres convivem, estão envolvidos em redes de de relações de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Também o mais fraco, com a colaboração dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes em função de uma maior acumulação e, se possível, estabelecer o monopólio de um produto ou de uma fórmula científica.

Hoje o maior problema da humanidade não é nem o econômico, nem o político nem o cultural, nem o religioso, mas é a falta de solidariedade para com outros seres humanos que estão ao nosso lado. No capitalismo ele é visto como um eventual consumidor, não como uma pessoa humana com suas preocupações, suas alegrias e padecimentos.

Foi a solidariedade que nos está salvando face ao ataque do coronavírus, a começar pelos operadores da saúde que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas não têm condições de fazerem o isolamento social e não possuem reservas de alimentação. Muitas famílias que recebiam as cestas básicas, as repartiam entre outros mais necessitados.

Referência especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimentação orgânica para os mais vulneráveis.Não dão o que lhes sobra, mas o que têm. Outras ONGs organizaram ações de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milhões que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.

Não basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma atitude básica, porque é  um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma opção consciente para sermos solidários a partir dos últimos e invisíveis, para aqueles que não contam para o sistema imperante e são considerados prescindíveis e zeros econômicos. Só assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem  laços objetivos de fraternidade.

Quarto pressuposto: o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence à essência do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. Nós estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas mães. Deixados no berço, não saberíamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morreríamos.

Ademais cuidado é além disso uma constante cosmológica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro forças que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre estas coisas.

O cuidado representa uma relação amiga da vida, protetora de todos os seres pois os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os vírus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando  nossas células. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribuição à preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado é de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres

            A transição para a uma civilização biocentrada

Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O coronavírus nos deu esta lição: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdependência, a cooperação e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civilização, se não quisermos ser mais atacados por vírus letais.

Parto da seguinte interpretação: não só nós agredimos por séculos a natureza e a Mãe Terra. Agora é a Terra ferida e a natureza devastada que estão nos contra-atacando e fazendo sua represália. São entes vivos e como vivos sentem e reagem às agressões.

A multiplicação de sinais que a Terra nos enviou, a começar pelo aquecimento global, a erosão da biodiversidade na ordem de 70-100 mil espécies por ano (estamos dentro da sexta extinção em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a sério e interpretados. Ou nós mudamos nossa relação para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode não nos mais querer sobre sua superfície. Desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua própria sepultura.

Quase todas as análises do covid-19 focaram a técnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de máscaras para nos proteger e não contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o vírus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a nós? Já o tentamos explicar anteriormente.

A transição de uma sociedade capitalista de superprodução bens materiais para uma sociedade   de sustentação de toda a vida com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaixão, a interdependência, a justa medida, o respeito e o cuidado e, não em último lugar, o o amor, não se fará de um dia para o outro.

Será um processo difícil que exige, nas palavras do Papa Francisco na encíclica “sobre o Cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Vale dizer, devemos introduzir relações de cuidado, de proteção e de cooperação. Um desenvolvimento feito com a naturezas e não contra a natureza.

O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas não terá futuro. Há uma grande acumulação de crítica e de práticas humanas que sempre resistiram à exploração capitalista. Segundo minha opinião, quem o vencerá definitivamente nem seremos só nós, mas a própria Terra, negando-lhe as condições de sua reprodução pelos limites dos bens e serviços da Terra superpovoada.

              O novo paradigma cosmológico e biológico

Para uma sociedade pós-Covid-19 impõe-se a assunção das contribuições do novo paradigma cosmológico que já possui um século de existência. Lamentavelmente até agora não conseguiu conquistar a consciência coletiva nem a inteligência acadêmica, muito menos a cabeça dos “decisons makers” políticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido há 13,7 bihões de anos. De sua explosão surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explosão destas, as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e e nós mesmos. Somos todos feitos do pó cósmico.

A Terra que já tem 4,3 bilhões de anos e a vida cerca de 3,8 bilhões de anos são vivos. A Terra, isso é um dado de ciência já aceito pela comunidade científica, não só possui viva sobre ela mas é viva e produz toda sorte de vidas.

O ser humano que surgiu já há uns 10 milhões de anos há 100 mil ano como sapiens sapiens é a porção da Terra que num momento de alta complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de húmus, terra boa.

Inicialmente possuía uma relação de convivência com a natureza, depois passou de intervenção mediante a agricultura de irrigação e nos últimos séculos de agressão sistemática mediante a tecnociência. Essa agressão foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equilíbrio da Terra e até uma ameaça de auto-destruição da espécie humana com armas nucleares, químicas e biológicas.

Essa relação de agressão subjaz à atual crise sanitária. Levada avante, a agressão poderá nos trazer crises mais agudas até aquilo que os biólogos temem The Next Big One: aquele próximo e grande vírus, inatacável e fatal que poderá levar a espécie humana a desaparecer da face da Terra.

Para obviar este possível armagedom ecológico, urge renovar o contrato natural violado com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos,  contratualmente, teríamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem é) que explora os bens e serviços, desfloresta, contamina as águas e os mares.

É decisivo renovar o contrato natural e articulá-lo com o contrato social: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preservação de toda vida, mantém em pé suas florestas que garante a água necessária para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que já é preservado.

A importância da região: o bioregionalismo

A ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecológica.

A vida será o farol orientador e a política e a economia estarão a serviço, não da acumulação e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, será sóbrio, frugal e solidário. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida.

O acento não se dará à planetização econômico-financeira que seguirá o seu curso, mas à região. A ponta mais avançada da reflexão ecológica atualmente se realiza em torno do bio-regionalismo.

Tomar a região, não como vem definida arbitrariamente pela administração geográfica mas com a configuração que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, planícies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que aí moram.Na bioregião poder-se-á verdadeiramente criar um desevolvimento sustentável que não seja meramente retórico. As empresas serão preferentemente médias e pequenas, dar-se-á preferência à agroecologia, evitar-se-ão os transportes para regiões distantes, a cultura será o cimento de coesão: as festas, as tradições, a memória das pessoas notáveis, a presença das igrejas ou das religiões, os vários tipos de escolas e outros meios modernos de difusão de conhecimento e de encontros entre as pessoas.

A Terra será como um mosaico feito de distintas peças cm cores diferentes: são as distintas regiões e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um só mosaico, a Terra.

A transição se fará por processos que vão crescendo e se articulando a nível nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consciência de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.

A acumulação de nova consciência permitirá um salto para um outro nível em que seremos amigos da vida, abraçaremos cada ser pois todos possuímos o mesmo código genético de base, desde a bactéria originária, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e nós mesmo.  Somos construídos por 20 aminoácidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal.

Será a civilização “da felicidade possível” e da “alegre celebração da vida”.

Brasil, nosso sonho bom: a sua refundação

O Brasil, por suas riquezas ecológicas, geográficas e populacionais, tem todas as condições de começar a colocar os fundamentos de uma civilização biocentrada.

Até hoje vivemos na dependências de outros centros hegemônicos. Está madurando, especialmente nas bases, a ideia da refundação de um outro Brasil.

Três pilastras podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”(Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:

A natureza, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas úmidas e em água. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

A cultura que configura a relação do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na música, na arquitetura,nas danças e em certos ramos da ciência, não obstante o racismo visceral e as ameaças às culturas originárias e outras exclusões sociais, reforçadas pela atual política de ultra-direita e de viés fascitóide.

O povo brasileiro ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 países diferentes. A cultura multiétnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso lúdico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade são características entre outras de nosso povo.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civilização dos trópicos. Para essa utopia viável, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnocídio indígena, da colonização, da escravidão e da dominação das oligarquias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com traços claros de despotismo que pretende conduzir o país a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizatórios que são já bens comuns das sociedades mundiais.

Para terminar, tomo como referência a proposta do Papa Francisco, quiçá o maior líder ético-político da humanidade. Na reunião com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bolívia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse:

Vocês têm que garantir os três Ts :Terra para morar nela e trabalhar. Teto para morar porque não são animais que vivem ao relento. Trabalho com o qual vocês se autorealizam e conquistam tudo o que precisam.

Em seguida continuou: “Não esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam vocês mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solidária, com uma agroecologia com produtos sãos e livres de transgênicos. Sejam os poetas da nova sociedade.

Lutem para que a ciência sirva à vida e não ao mercado. Empenhem-se pela justiça social sem a qual não há paz. Por fim, cuidem da Mãe Terra sem a qual nenhum projeto será possível.

Aqui estamos diante de um programa mínimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade.

O futuro nos assinala que não iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se impôr. Ele não deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas mãos à custa do sacrifício de milhões e milhões vivendo em condições sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emergência ecológica.

A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma política e economia compatíveis é a grande utopia viável da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.

Cremos e esperamos que esse sonho não seja uma fantasmagoria, mas uma realidade possível que se adequa à lógica do universo, feito não pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas relações dentro das quais nós também estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual não seja tão difícil o amor.

O Brasil, libertado de suas sombras históricas, pode ser um embrião da nova sociedade, una, diversa dentro da única Casa Comum, a Mãe Terra.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu:Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; esm espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996.

 

 

 

 

 

 

 

Dom Erwin Kräutler:“Odio el término pueblos indígenas”: una blasfemia en dos actos

Publicamos aquí la indignación de mons. Erwin Kräutler, gran obispo de la diócesis de Xingú, la más grande del mundo con 365 mil km cuadrados. El motivo son las declaraciones infames en la famosa reunión del presidente con todos los ministros el 22 de abril de 2020. Austriaco, naturalizado brasileño, ha trabajado 54 años en el Amazonas. Toda su vida y actividad como pastor se ha dedicado a la gente de la selva, a los indígenas y a todos los excluidos “del banquete de la vida”. Ha hablado en el Parlamento brasileño en defensa de los derechos de los pueblos indígenas, sus reservas y su cultura. En 1983 fue humillado por la policía militar y arrestado por defender a los corteros de caña de azúcar sin salario. Durante 30 años fue amenazado de muerte. Sufrió un accidente sospechoso que se cobró la vida del sacerdote que lo acompañaba, Salvador Deian, y dejó a don Erwin en el hospital durante 6 meses. Recibió a la hermana Doroty Stang en 1982 y la enterró el 12 de febrero de 2005, víctima de un bárbaro asesinato. Es conocido en todo el mundo por su defensa del Amazonas, de los indígenas y de los campesinos pobres. El Papa Francisco le tiene un afecto y un respeto especial. A él le pidió ayudas para los temas de “Querida Amazonia”. Habla tanto el griego clásico como el idioma de los kayapó. Ahora jubilado y con 80 años continúa su lucha por los derechos de los más humillados y ofendidos y los verdaderos guardianes de la selva: los pueblos originarios.

Vale la pena leer este texto, nacido de la iracundia sagrada de alguien que se ha hecho “pariente de los indios” y que ahora sale en su defensa contra la ofensa vergonzosa de un ministro de Estado. Lboff

“Odio el término pueblos indígenas”, una blasfemia en dos actos

¿Quién va a olvidar la reunión ministerial del 22 de abril? Gracias a la liberación de un vídeo que cubre toda la reunión pudimos asistir a una sesión del gobierno que actualmente administra la res publica (la cosa publica, de ahí la palabra ‘República’) de nuestro país. Si los niños o adolescentes pronunciasen una palabrota cualquiera de las 29 que se pronunciaron allí serían castigados en casa o en la escuela. Falta completa de educación y civismo en el más alto nivel del ejecutivo brasileño. El presidente y los ministros han perdido vergonzosamente la compostura que se espera de las personas que ocupan tan altos cargos.

Pero lo que más me indignó, además de la descarada propuesta del Ministro de Medio Ambiente Ricardo Salles de aprovechar el momento de la pandemia para “pasar la boyada” (sic) al Amazonas, fue el espantoso aporte del Ministro de Educación Abraham Weintraub: “Este país no es [una colonia]. Odio el término ‘pueblos indígenas’, odio ese término”. No puedo entender cómo Weintraub, que es de origen judío, utiliza expresiones que recuerdan el odio de Hitler y sus ministros hacia el pueblo judío. La consecuencia de ese odio fue la “shoah”, el holocausto que se cobró la vida de seis millones de judíos.

Escuchar estas palabras de la boca de un ministro de educación prueba una vez más el curso anti indígena de este gobierno que está perfectamente en línea con la tristemente célebre expresión del general americano Philip Sheridan (1831-1888) “El único indio bueno es un indio muerto”. Dado que todo lo que Donald Trump piensa y habla inspira al gobierno de Bolsonaro en sus actitudes y posiciones, no es de extrañar que un ministro de este gobierno siga esta frase que en la segunda mitad del siglo XIX se convirtió en un proverbio en los Estados Unidos y tiene como telón de fondo el genocidio de millones de indios durante la conquista del Oeste norteamericano.

En la colección de descarrilamientos del Ministro de Educación, cuya falta de educación ya ha creado incidentes diplomáticos con los presidentes de Francia y China, este desliz contra los pueblos indígenas del Brasil sólo habría enriquecido la biografía de un agente político despreciable si no hubiera tenido otra escena abominable y blasfema que ahora ensucia el rostro de nuestra Iglesia Católica.

La revista Veja publicó en su Columna de Radar del 7 de junio una foto que retrata la visita, el 5 de junio, de un grupo que se llama a sí mismo católico, dirigido por el cura polaco Pedro Stepien. Los miembros de este grupo ya son famosos por su frecuente aparición junto al mismo sacerdote frente al Palacio de la Alvorada para dar culto al “mesías”. Esta vez, sin embargo, fueron al despacho del Ministro de Educación Abraham Weintraub para “consolarlo” después de “una semana tan estresante” para él. “Rezaron por el momento delicado del ministro”, comenta la revista. De esta iniciativa sólo se puede extraer la conclusión de que los visitantes consoladores apoyan las tesis del ministro y, por lo tanto, adoptan una posición diametralmente opuesta al Papa Francisco y a la Conferencia Nacional de los Obispos Brasileños. Y aquellos que se oponen al Papa ya han perdido su catolicidad.

Pero la historia no termina aquí. El cura lleva una estatua de Nuestra Señora de Fátima al despacho del ministro y con ella posa sonriendo junto a un Weintraub aparentemente conmovido y también sonriente. ¿Qué quería este sacerdote con esta puesta en escena? ¿Qué relación tendría este ministro con Nuestra Señora de Fátima y su mensaje a los pastorcitos de la Cova de Iría en Portugal en 1917?

El cura demuestra no conocer la historia de la América indígena ni el papel de Nuestra Señora entre los pueblos originales. Seguramente nunca ha oído hablar de su aparición en 1531 a un indígena llamado Juan Diego, canonizado incluso por el papa polaco, al que le dijo: “Soy vuestra Madre bondadosa, tuya y de todos vosotros que vivís unidos en esta tierra y también de todos los que me amen, los que me llamen, los que me busquen y confien en mí; escucharé su llanto, sus tristezas, para remediar y curar todas sus penas, miserias y dolores. No se perturbe tu corazón. ¿No estás bajo mi protección y mi apoyo? ¿No estás en mi regazo y entre mis brazos?”

Nuestra Señora se puso al lado y en medio de los pueblos indígenas y esto no sólo a través de palabras amorosas. La imagen milagrosa habla por sí misma. Ella muestra a la Virgen María con una túnica usada por las mujeres aztecas para decir que es la Madre de los aztecas y de todos los pueblos indígenas. Pertenece a este pueblo que tanto ha sufrido y está tan herido, y se solidariza asumiendo rasgos indígenas. En la cintura tiene el lazo que las indígenas usaban para indicar que estaban embarazadas. ¡Y el hijo de madre indígena es indígena! Los rayos de sol que rodean a la madre indígena simbolizan que está embarazada de un Hijo Divino.

¿Por qué este sacerdote no llevó la imagen de Nuestra Señora de Guadalupe al despacho del ministro para enseñarle a quien ama Dios con un cariño muy especial hasta el punto de que la Madre de su Hijo asume rasgos indígenas? ¡Quizás el ministro y junto con él el sacerdote y sus correligionarios se hubieran dado cuenta de que odiar a los pueblos indígenas es odiar a la Madre de Dios y a su Hijo Jesús, nuestro Señor!

Altamira, 12 de junio de 2020

Erwin Kräutler, obispo emérito dr Xingú

Coordinador de la REPAM-Brasil

 

 

 

Post-covid-19: Welche Kosmologie und Ethik sind einzubeziehen (II)

Viele Analysten prognostizieren, dass die Postpandemie eine extreme Radikalisierung der vorherigen Situation einleiten könnte, eine Rückkehr zum System des Kapitals und des Neoliberalismus, das versucht, die Welt durch elektronische Überwachung (Big Data) jeder Person weltweit zu dominieren, wie es bereits in China und den Vereinigten Staaten geschieht. Wir würden dann in eine Ära der Dunkelheit eintreten und unsere eigene Zerstörung riskieren, wie Rachel Carson in ihrem berühmten Buch “Silent Spring” vermutete. Daher die Forderung nach einer radikalen ökologischen Umkehr, deren Mittelpunkt aus der Erde, dem Leben und der menschlichen Zivilisation bestehen muss: einer Biozivilisation.

                 Die möglichen Risiken in der Post-Covid-19-Periode:

Wir dürfen jedoch die Macht systemischer Gewalt nicht unterschätzen. Sigmund Freud antwortete auf einen Brief von Albert Einstein aus dem Jahr 1932, in dem Einstein fragte, ob es möglich sei, Gewalt und Krieg zu überwinden, und hinterließ eine Aporie. Freud antwortete, er könne nicht sagen, welche Tendenz vorherrschen würde: der Instinkt des Todes (Thanatos) oder der Instinkt des Lebens (Eros). Sie stehen immer in Spannung zueinander, und wir können nicht sicher sein, wer am Ende triumphieren wird. Und er schloss resigniert: “Verhungernd denken wir an die Windmühle, die so langsam mahlt, dass wir verhungern könnten, bevor wir das Mehl bekommen”.

Es gibt die nicht-optimistische Meinung von Noam Chomsky, einem der größten nordamerikanischen Intellektuellen und scharfem Kritiker des imperialistischen Systems, der sagt: “Das Coronavirus ist in der Tat sehr ernst, aber es lohnt sich, daran zu erinnern, dass etwas noch Schrecklicheres nahe ist. Wir steuern auf eine Katastrophe zu, etwas Schlimmeres als alles, was jemals in der Geschichte der Menschheit geschehen ist, und Trump und seine Lakaien führen uns in den Abgrund. Wir stehen vor zwei immensen Bedrohungen. Die eine ist die ständig wachsende Bedrohung durch einen Atomkrieg, der durch die Spannungen der Militärregime noch verschärft wird; und das andere ist natürlich die globale Erwärmung. Die beiden Bedrohungen könnten gelöst werden, aber es ist nicht genug Zeit; das Coronavirus ist schrecklich und kann schreckliche Folgen haben, aber es wird überwunden werden, die anderen Bedrohungen jedoch nicht. Wenn wir sie nicht lösen, sind wir verdammt.”

Chomsky hat bestätigt, dass Präsident Trump wahnsinnig genug ist, einen Atomkrieg zu entfesseln, ohne sich darum zu kümmern, was mit der ganzen Menschheit geschehen würde.

Ungeachtet dieser dramatischen Vision des angesehenen Linguisten und Denkers hoffen wir, dass, wenn die Menschheit eine wirklich ernste Gefahr der Selbstzerstörung laufen würde, der Lebensinstinkt siegen würde. Aber das setzt voraus, dass wir eine neue Form des Bewohnens des Gemeinsamen Hauses errichtet hätten, auf Grundlagen, die weder die der Vergangenheit noch der Gegenwart sind.

              Einige gute Lehren aus der Covid-19-Pandemie

Zumindest hat das Coronavirus uns gezeigt, dass wir nicht die “kleinen Götter” sind, die behaupten, irgendetwas tun zu können; es hat uns gezeigt, dass wir zerbrechlich und begrenzt sind; dass die Anhäufung materieller Güter kein Leben rettet; dass die finanzielle Globalisierung allein in der kompetitiven Form des Kapitalismus die Schaffung einer von den Chinesen vorgeschlagenen “Gemeinschaft des gemeinsamen Schicksals für die ganze Menschheit” ausschließt; dass wir ein globales pluralistisches Zentrum schaffen müssen, um über Weltprobleme zu diskutieren; dass Zusammenarbeit und Solidarität aller und nicht Individualismus die zentralen Werte einer Weltgesellschaft sind.

Die Grenzen des Erdsystems, das ein Projekt unbegrenzten Wachstums nicht toleriert, müssen erkannt und respektiert werden; wir müssen uns genauso gut um die Natur kümmern wie um uns selbst, denn wir sind Teil der Natur und sie gibt uns alle Güter und Dienstleistungen, die wir für das Leben brauchen. Wir müssen eine Kreislaufwirtschaft anstreben, die die berühmten “3-Rs” erfüllt; reduzieren, wiederverwenden (re-use) und alles recyceln, was in den Produktionsprozess eingetreten ist.

Die Wirtschaft muss von würdevoller und universeller Existenz sein und nicht auf Akkumulation Einiger auf Kosten aller anderen und der Natur beruhen. Eine Subsistenzwirtschaft reduziert unsere Bedürfnisse und führt zu Bescheidenheit und reduziert damit in hohem Maße die sozialen Ungleichheiten. Die neue Wirtschaftsordnung wird nicht vom Profit beherrscht, sondern von wirtschaftlicher Rationalität mit ökologischer und sozialer Vernunft.

Es wäre höchst rational und humanitär, ein allgemeines Mindesteinkommen einzuführen, damit die medizinische Versorgung ein universelles Menschenrecht (One World-One Health) würde, das nicht unbeachtet sein sollte. Es ist wichtig sicherzustellen, dass der Staat den Markt reguliert, die notwendige Entwicklung fördert und die Bedürfnisse der Allgemeinheit stillt, sei es bei Gesundheits- oder Naturkatastrophen.

Wir müssen das stets unbegrenzte human-spirituelle Kapital fördern, das auf Liebe basiert, auf Solidarität, der Suche nach dem rechten Maß, der Geschwisterlichkeit, dem Mitgefühl, dem Gefühl der Verzauberung der Welt und der unermüdlichen Suche nach Frieden.

             Ein Fahrplan zur Rettung von Leben: Die Erdcharta

Dies sind unter anderem einige der Lehren, die wir aus dem Coronavirus ziehen können. Unter Berufung auf die Erdcharta (UNESCO), eines der inspirierendsten offiziellen Dokumente für die Transformation unserer Lebensform auf dem Planeten Erde, “sind grundlegende Veränderungen unserer Werte, Institutionen und Lebensformen erforderlich… Unsere ökologischen, wirtschaftlichen, politischen, sozialen und spirituellen Herausforderungen sind miteinander verbunden, und gemeinsam können wir inklusive Lösungen finden» (Präambel c).

Welche Weltsicht und welche Veränderungen sollten einbezogen werden?

Wissen und Kenntnis der Informationen über die Realität zu haben, heißt noch nicht zu handeln. Was bewegt uns zum Handeln? Welche Weltsicht (Kosmologie) und welche Werte (Ethik) sollten wir einbeziehen? Ein wichtiger Text im letzten Teil der Erdcharta, an dessen Verfassung ich ebenfalls mitgewirkt habe, kann uns anleiten.

“Wie nie zuvor in der Geschichte ruft uns das gemeinsame Schicksal dazu auf, nach einem Neuanfang zu suchen. Dies erfordert einen Sinnes- und Herzenswandel. Es verlangt nach einem neuen Gefühl globaler Interdependenz und universeller Verantwortung. Wir müssen die Vision eines nachhaltigen Lebens auf lokaler, nationaler, regionaler und weltumspannender Ebene entwickeln und mit Fantasie anwenden” (Der Weg, der vor uns liegt)

Lasst uns feststellen, dass es nicht nur darum geht, den bereits eingeschlagenen Weg zu verbessern. Dies würde uns zu den zyklischen Krisen führen, die wir bereits kennen, und schließlich in eine Katastrophe. Es geht um die “Suche nach einem Neuanfang”. Wir sind berufen, die “Erde, unser Zuhause, das lebendig ist mit einer einzigartigen Lebensgemeinschaft” wieder aufzubauen (Erdcharta, Präambel a). Es wäre trügerisch, die Wunden der Erde mit Bandagen zu bedecken, in der Annahme, wir könnten sie auf diese Weise heilen. Wir müssen sie wiederbeleben und neugestalten, damit sie unser gemeinsames Zuhause sein kann.

“Das erfordert einen Sinneswandel.” Ein Sinneswandel bedeutet eine neue Blickweise auf die Erde gemäß der neuen Kosmologie und Biologie. Sie befindet sich in einem Moment des Evolutionsprozesses, der 13,7 Milliarden Jahre alt ist, und für die Erde, 4,3 Milliarden Jahre. Nach dem Urknall wurden alle physikalisch-chemischen Elemente über mehr als drei Milliarden Jahre im Herzen der großen roten Sterne geschmiedet. Bei der Explosion wurden die Elemente in alle Richtungen geschleudert, die die Galaxien, die Sterne wie die Sonne, die Planeten und die Erde bildeten.

Die Erde wimmelt von Leben, das vor etwa 3,8 Milliarden Jahren begann, ein sich beständig selbst schaffender und selbst organisierender systemischer Superorganismus. In einem fortgeschrittenen Moment ihrer Komplexität, vor etwa 8-10 Millionen Jahren, begann ein Teil der Erde zu fühlen, zu denken, zu lieben und anzubeten. Der Mensch tauchte auf, Mann und Frau. Sie sind Erde, bewusst und intelligent, deshalb werden sie Homo genannt, aus Humus gemacht.

Diese Weltsicht verändert unsere Vorstellung von der Erde. Die UNO hat sie am 22. April 2009 offiziell als Mutter Erde anerkannt, weil sie alles schafft und uns gibt. Deshalb ruft uns die Erdcharta auf: “Die Erde und das Leben in all ihrer Vielfalt zu respektieren und sich mit Verständnis, Mitgefühl und Liebe um die Gemeinschaft des Lebens zu kümmern” (Erdcharta 1 und 2). Wir können die Erde als Land kaufen und verkaufen. Wie jedoch Suquamish-Duwamish Grandfather Sealth, alias Seattle, feststellte: “Weder kaufen noch verkaufen wir unsere Mutter; wir lieben und verehren sie.” Diese Haltung zur Erde, unserer Mutter, muss wiederhergestellt werden. Das ist die neue Denkweise, die wir uns zu eigen machen müssen.

“Es erfordert einen Sinneswandel des Herzens.” Das Herz ist die Dimension tiefer Gefühle (Pathos), der Sensibilität, der Liebe, des Mitgefühls und der Werte, die unser Leben leiten. Besonders im Herzen findet man Fürsorge, die freundliche und liebevolle Form der Beziehung mit der Natur und ihren Lebewesen. Es hat mit der vernünftigen oder herzlichen Vernunft zu tun, mit dem limbischen Gehirn, das vor etwa 220 Millionen Jahren entstand, als Säugetiere in der Evolution auftauchten. Sie alle, ebenso wie der Mensch, haben Gefühle, sie lieben und kümmern sich um ihre Nachkommen. Das ist Pathos, die Fähigkeit zu lieben und geliebt zu werden, die tiefste Dimension des Menschen.

Die Vernunft (Logos), der Geist, den wir zuvor erwähnt haben, erschien erst vor etwa 8-10 Millionen Jahren, mit dem neokortikalen Gehirn, und in fortgeschrittener Form als Homo sapiens (heutige Menschen) vor etwa hunderttausend Jahren. In der Neuzeit hat sie sich exponentiell entwickelt, beherrscht unsere Gesellschaften und schafft die Techno-Wissenschaft, die großen Herrschaftsinstrumente und die Transformation des Antlitzes der Erde, einschließlich einer Todesmaschine in Form von Atomwaffen und anderen Dingen, die das menschliche Leben und das Leben der Natur beenden können.

Die Inflazion der Vernunft, der Rationalismus, hat eine Art Lobotomie geschaffen: Der Mensch hat Schwierigkeiten, den Anderen und sein Leiden zu fühlen. Wir müssen die rationale Intelligenz ergänzen, die notwendig ist, um die Überlebensbedürfnisse unseres Lebens zu stillen. Wir müssen sie mit emotionaler und vernünftiger Intelligenz ergänzen. damit wir vollständiger werden und mit Leidenschaft für die Verteidigung der Erde und des Lebens eintreten.

Wir brauchen das Herz, um sowohl den Schrei der Erde als auch den Schrei der Armen hören zu können und um, wie der chinesische Ministerpräsident Xi Jinping sagt: “eine Gesellschaft zu schmieden, die moderat versorgt ist” oder wie wir sagen: eine Gesellschaft mit nüchternem, sparsamem und solidarischem Konsum.

(Fortsetzung folgt)

Übersetzung von Bettina Goldharnack

*Leonardo Boff ist ein Ökologe, Theologe und Philosoph, von dem u. a. stammt: Mark Hathaway/Leonardo Boff,Befreite Schöpfung:Kosmologie-*Okologie-Spiritualität, Butzon&Bercker, Kevelaer 2016.

 

Post-Covid-19: Wie sollten Kosmologie und Ethik integriert werden (I)

Es gibt etwas Schreckliches, den systemischen Angriff der Natur auf die Menschheit, durch ein mikroskopisches und unsichtbares Virus, das große Besorgnis hervorruft und Tausende von Menschen tötet.

Angesichts dieser wahren menschlichen Tragödie müssen wir unsere Reaktion auf die Pandemie verstehen. Wie wirkt sich die Pandemie auf uns aus? Welche Lektion lehrt sie uns? Welche Kosmologie (Weltsicht) und welche Art von Ethik (Werte und Prinzipien) fordert sie uns auf zu entwickeln? Sicherlich müssen wir jetzt alles lernen, was wir hätten lernen sollen, aber vorher nicht gelernt haben. Wir hätten lernen müssen, dass wir Teil der Natur sind und nicht ihre “Herren und Besitzer” (Descartes). Es besteht eine Nabelschnurverbindung zwischen Mensch und Natur. Wir stammen vom selben kosmischen Staub wie alle anderen Wesen. Wir sind das bewusste Glied der Lebenskette.

            Die Aushöhlung des Bildes, “kleiner Gott der Erde

Der moderne Mythos wurde zerstört, dass wir “der kleine Gott” der Erde seien und dass wir sie nach Lust und Laune über sie verfügen könnten, weil sie ein inertes Objekt ohne Zweck sei. Einer der Väter der modernen wissenschaftlichen Methode, Francis Bacon, sagte, dass wir die Natur so behandeln müssten, wie die Handlanger der Inquisition ihre Opfer behandelten und sie quälten, bis sie alle ihre Geheimnisse preisgaben.

Durch die Techno-Wissenschaft haben wir diese Methode auf die Spitze getrieben und den Kern der Materie und des Lebens erreicht. Dies geschah mit beispiellosem Furor, bis hin zur Zerstörung der Nachhaltigkeit der Natur und damit des Planeten und des Lebens. Wir haben den natürlichen Vertrag, der mit der lebendigen Erde besteht, gebrochen: Sie gibt alles, was wir zum Leben brauchen, und im Gegenzug müssen wir uns um sie kümmern, ihre Güter und Dienstleistungen bewahren und ihr die Ruhe gönnen, um das aufzufüllen, was wir für unser Leben und unseren Fortschritt genommen haben. Nichts davon haben wir getan.

 

Wegen Nichtbeachtung des biblischen Gebots des “Schutzes und der Fürsorge für den Garten Eden, die Erde (Genesis 2,15)” und der Bedrohung der ökologischen Grundlagen, die alles Leben erhalten, hat sie mit einer mächtigen Waffe, dem Coronavirus 19, zurückgeschlagen. Angesichts dessen sind wir zur Methodik des Mittelalters zurückgekehrt, die ihre Pandemien mit strikter sozialer Isolation überwand. Damit die verängstigten Menschen die Straßen verlassen, wurde im Münchner Rathaus (Marienplatz) eine geniale Uhr mit Tänzern und Kuckucken gebaut, damit alle sie bewundern kommen, was auch heute noch der Fall ist.

Die Pandemie, die nicht nur eine Krise ist, sondern Forderung nach einem Wandel der Kosmologie (Weltsicht) und der Einbeziehung einer Ethik mit neuen Werten, stellt uns diese Frage: Wollen wir wirklich vermeiden, dass die Natur uns noch mehr tödliche Viren schickt, welche sogar die menschliche Spezies dezimieren könnten? Wir wären eine der zehn Arten, die jeden Tag für immer verschwinden. Wollen wir dieses Risiko eingehen?

 

         Allgemeiner Mangel an Bewusstsein für den ökologischen Aspekt


Bereits im Jahr 1962 warnte die nordamerikanische Biologin und Schriftstellerin Rachel Carson, Autorin von The Silent Spring: “Es ist unwahrscheinlich, dass zukünftige Generationen uns verzeihen werden, dass wir uns nicht um die Integrität der Natur-Welt kümmern, die das ganze Leben aufrecht erhält … Die Frage ist, ob irgendeine Zivilisation einen unerbittlichen Krieg gegen das Leben fortsetzen kann, ohne sich selbst zu zerstören und ohne das Recht zu verlieren, als Zivilisation bezeichnet zu werden.”

Es scheint eine Prophezeiung der Situation zu sein, die wir gerade weltweit erleben. Es sieht so aus als zeigte die Mehrheit der Menschheit, einschließlich ihrer politischen Führer, nicht genug Bewusstsein für die Gefahren, denen wir durch die globale Erwärmung ausgesetzt sind, einschließlich der übermäßigen Dichte unserer Städte und vor allem des massiven Agro-Business, das über die jungfräulichen Ländereien im Urwald vorrückt, die abgeholzt werden. Wir zerstören die Lebensräume von Millionen von Viren und Bakterien, die sich schließlich auf den Menschen übertragen. Seriösen Wissenschaftlern zufolge brauchte das Corona-Virus gar nicht durch eine Fledermaus von einem chinesischen Markt zu kommen, sondern einfach aus der Natur.

Im besten Fall wird uns das Coronavirus zwingen, uns als Menschheit neu zu erfinden und das einzigartige Gemeinsame Zuhause, das wir teilen, in einer nachhaltigen und integrativen Form umzugestalten. Wenn das, was zuvor dominiert hat, zum Äußersten getrieben wird und vorherrscht, dann müssen wir uns auf das Schlimmste gefasst machen.

Viele sagen eine neue, destruktive Sparpolitik in der Post-Corona-Ära voraus. Die Geier der Vergangenheit sammeln sich bereits, um zur gleichen Sichtweise der Vergangenheit zurückzukehren und bedeutende Veränderungen zu verhindern. Die Interessen des Finanzkapitals und das mangelnde Bewusstsein der Machthaber und selbst in weiten Teilen der Wissenschaft über den Schweregrad der Schädigung der Natur erlauben es ihnen nicht, etwas von den Tausenden und Abertausenden von Todesopfern weltweit zu lernen, die durch die Corona gestorben sind.

 

Sie wollen zu der Sparpolitik zurückkehren, die die Politik der Opportunisten ist, die von Opportunisten zum Nutzen der Opportunisten betrieben wird. CEPAL hat errechnet, dass wegen Covid-19 die Politik der Austerität, die schlimmer ist als zuvor, zu weiteren 215 Millionen Armen in Lateinamerika führen wird (vgl. Carta Maior 13/05/2020). Es ist jedoch erwähnenswert, dass das Lebenssystem durch mehrere Massensterben gegangen ist (wir befinden uns im sechsten), aber es hat immer überlebt.

Das Leben scheint – erlaubt mir diese sonderbare Metapher – eine “Plage”, die bisher niemand ausrotten konnte. Denn das Leben ist eine gesegnete “Plage”, verbunden mit dem Geheimnis der Kosmogenese und jener geheimnisvollen und liebevollen Grundenergie, die über allen kosmischen Prozessen und auch über unserem steht.

Es ist zwingend notwendig, dass wir das alte Paradigma des Willens zur Macht und zur Herrschaft über alles (die geschlossene Faust) aufgeben zugunsten eines Paradigmas der Fürsorge für alles, was existiert und lebt (die ausgestreckte Hand), und der kollektiven Mitverantwortung.

Eric Hobsbawn schrieb im letzten Absatz seines 1995 erschienenen Buches „The Era of the Extremes“: “Eines ist klar: Wenn die Menschheit eine erkennbare Zukunft haben will, kann sie nicht die Vergangenheit oder die Gegenwart verlängern. Wir werden scheitern, wenn wir versuchen, das dritte Jahrtausend auf dieser Grundlage aufzubauen. Mit anderen Worten, der Preis des Scheiterns, die Alternative zum gesellschaftlichen Wandel, ist Obskurität.” (S.506).

Das bedeutet, dass wir nicht einfach zur Situation von vor dem Coronavirus zurückkehren können. Es ist auch nicht möglich, zur Vergangenheit vor der Aufklärung zurückzukehren, wie es die gegenwärtige brasilianische Regierung und andere der extremen Rechten wollen.

(Fortsetzung folgt)

Leonardo Boff ist ein Ökologe, Theologe und Philosoph, Autor von u. a.: „Tugenden für eine bessere Welt, Butzon&Berker, Kevelaer 2008.