Un umanesimo radicale

Uno dei problemi, oggigiorno, più strazianti della cultura mondiale è la mancanza di umanità. Non ci guardiamo intorno per vedere l’altro nel suo dolore, nelle sue ricerche e nei suoi bisogni. Consideriamo come sono trattati gli immigrati dal Medio Oriente e dall’Africa che cercano l’Europa a causa di guerre e carestie. Sono respinti e hanno trasformato il Mediterraneo in un vero e proprio cimitero. Lo stesso tragico destino tocca alle migliaia di centroamericani e messicani che tentano di attraversare le frontiere degli Stati Uniti. La maggior parte è respinta e alcuni addirittura morti e i bambini messi in gabbia come se fossero piccoli animali affamati. Né ci riferiremo all’Africa che vive da secoli saccheggiata e crocifissa dagli europei. Loro stanno andando in Europa perché gli europei sono stati là e hanno occupato e depredato la loro terra. Gli europei sono stati accolti e ora non vogliono accogliere loro.

Tali anti-fenomeni mostrano quanto possiamo essere crudeli e spietati verso i nostri vicini che, in realtà, sono nostri fratelli e sorelle. Forse non possiamo fare molto. Ma a volte basta uno sguardo compassionevole, una parola di conforto, un sorriso genuino, un tocco sulla pelle dell’altro per comunicargli che siamo fratelli e sorelle, espressioni della stessa umanità.

Noi non trattiamo umanamente. Allo stesso modo stiamo aggredendo la nostra Madre Terra al punto che il nuovo regime climatico, ultra-passando 1,5 gradi centigradi, intorno al 2025-2027, potrebbe mettere a grave rischio la biodiversità e, se il riscaldamento globale dovesse aumentare ulteriormente, condizionare il destino della nostra vita su questo pianeta.

È in questo contesto che riscattiamo il meglio che il mondo abbia mai gestito: il Figlio dell’Uomo che si è rivelato come presenza umana di Dio tra gli uomini: Gesù di Nazareth.

Più che donarci verità, Lui ci ha insegnato a vivere i valori che incarnavano il suo grande sogno, il Regno di Dio. Questo Regno non è come i regni di questo mondo, circondati da sfarzo e gloria, come abbiamo visto di recente con l’incoronazione del Re d’Inghilterra. È un Regno di amore incondizionato, di solidarietà illimitata, di compassione, di servizio ai più umiliati e offesi e di totale apertura a Dio-Abba (come lo chiamava, “mio caro papà”).

Lui stava sempre dalla parte di chi aveva meno vita, i lebbrosi, i ciechi, i malati psichici (nel linguaggio del tempo, gli indemoniati), i malati e persino i morti che risuscitò. Lui stesso ha detto: “sono venuto a portare la vita e la vita in abbondanza” (Gv 10,10). Per essersi opposto al tipo di religione del tempo, rituale e farisaica e per aver rivelato un volto nuovo di Dio, di infinita misericordia e perdono, amando tutti, “anche gli ingrati e i malvagi” (Lc 6,36) lo crocifissero fuori dalla città, simbolo del rifiuto assoluto.

Se ne andò dicendo una cosa estremamente consolante “se qualcuno viene a me, non lo manderò via” (Gv 6,37), poteva essere un’adultera, un eretico e gente di cattiva fama: tutti accoglieva e uscivano consolati.

Lui ha mostrato un’umanità radicale, al punto che gli apostoli e i discepoli, considerando che egli «ha attraversato la vita facendo del bene» (Mc 7,37) e avendo vinto la morte con la sua risurrezione, non sapendo come definirlo, hanno finito per dire: umano proprio come Gesù solo Dio stesso. E cominciarono a chiamarlo Figlio di Dio e Dio nella nostra carne calda e mortale.

Questo umanesimo radicale ha messo radici profonde nell’umanità. Questo umanesimo universale e senza alcuna discriminazione potrà restituirci la nostra umanità, incenerita dall’individualismo, dall’egoismo, dall’insensibilità, dalla mancanza di compassione e per l’assenza della cura degli uni per gli altri, per e con la nostra Madre Terra e per e con gli esseri che in essa vivono.

Concludo con due testimonianze. Una di Franz Kafka, il grande scrittore ceco, che disse: “quando sento parlare di Gesù e del suo amore, chiudo gli occhi per non cadere in un abismo”. E un altro di Fëdor Dostoevskij che, uscendo dalla Casa dei Morti (titolo del suo libro) dopo il carcere con i lavori forzati in Siberia, scrive commovente:

“A volte Dio mi manda momenti di pace; in questi istanti amo e mi sento amato. È stato in uno di questi momenti che ho composto un credo per me stesso, dove tutto è chiaro e sacro. Questo credo è molto semplice. Eccolo: credo che non ci sia cosa più bella, più profonda, più simpatica, più umana e più perfetta di Cristo; me lo dico a me stesso con un amore geloso che non esiste e non può esistere. Più di questo: se qualcuno mi dimostra che Cristo è fuori della verità e che la verità non si trova in lui, preferirei stare con Cristo piuttosto che stare con la verità”.

Dopo questa professione di radicale umanità e fede non abbiamo più nulla da dire.

Se Lula rifar o meio ambiente, seu governo acaba, por Eliane Brum

Publicamos este artigo que é um grito de alarme sobre as funestas consequências da aprovação da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. Não se trata de vantagens e lucros, mas de colocar a vida do planeta em risco e também, em consequência, da própria humanidade. Eliane Brum é um jornalista especializada em questões ecológicas e internacionalmente reconhecida. Vive agora na região amazônica e vê o desastre que pode significar se este projeto de exploração prosperar. Precisamos junto com 700 organizações nacionais reagir e nos opor renhidamente contra este ataque à vida e contra a negação da melhor ciência. LBoff

26 Maio 2023-IHU

“Entre o fogo cerrado de um Congresso predatório e o fogo amigo de figuras como o líder do governo, Marina Silva e o ministério que comanda sofrem o primeiro grande ataque. Mas não é sobre Marina. É sobre as crianças e nossa vida na casa-planeta“, escreve Eliane Brum, jornalista, escritora, em artigo publicado por SUMAÚMA, 25-05-2023. 

Eis o artigo.

A decisão do Ibama de negar a licença para abrir uma nova frente de exploração de petróleo na Amazônia foi uma vitória. Não uma vitória de Rodrigo Agostinho, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, que assinou o documento no dia 17 de maio. Não uma vitória de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Não uma vitória dos povos indígenas e das comunidades tradicionais que seriam impactadas se o projeto fosse adiante. Não uma vitória de populações de cidades e regiões que poderiam ser atingidas em caso de um vazamento. Não. Foi uma vitória da melhor ciência e da melhor política. Foi uma vitória da inteligência. Foi uma vitória da vida.

Se essa vitória for apagada pelo ataque feito pelo Congresso a Marina Silva e ao Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, ao tirar da pasta áreas vitais, acabou. Não acabou para Marina nem para o ministério. Acabou para o governo Lula, que será rearranjado ao modo da extrema direita, com a boiada passando sobre a Amazônia. “O povo brasileiro elegeu o presidente Lula, mas parece que o Congresso quer reeditar o governo Bolsonaro”, disse a ministra. 

Se o ataque do Congresso ao futuro das crianças for bem-sucedido, acabou para todas as pessoas, porque a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pampa não sobreviverão a um segundo governo predatório. Se a floresta não sobreviver, acabou até mesmo para os grandes operadores do agronegócio, porque sem chuva não tem produção, não tem exportação, não tem lucro. Não é exagero. É o que mostra a melhor ciência. Entendam: estamos no limite e não será possível esticá-lo.

A decisão sobre o petróleo ajuda a desenhar o que está acontecendo em outras áreas. SUMAÚMA mostrou em fevereiro, em reportagem especial da jornalista Claudia Antunes, que, apesar da troca de governo, a Petrobras estava levando adiante o projeto de explorar petróleo na foz do Amazonas. Desde então, nossa plataforma de jornalismo tem documentado todos os passos desse processo crucial para o meio ambiente. Entre as várias matérias, publicamos com exclusividade que a área técnica do Ibama tinha negado a licença.

É tão óbvio que para quem escreve é constrangedor repetir, mas a obviedade é algo apagado junto com a verdade nas fake news que circulam no Brasil. Aí vai a obviedade: os combustíveis fósseis são – comprovadamente, com 100% de certeza – os principais causadores do aquecimento global, que por sua vez causa a mudança do clima, altera a morfologia do planeta e, por consequência, compromete o futuro próximo da nossa e de outras espécies. A crise climática se manifesta em várias regiões do planeta, tanto por inundações quanto por secas, e já provoca migrações em massa. Mesmo no Brasil, convivemos com eventos extremos que se tornam cada vez mais frequentes, como as catástrofes no litoral norte de São Paulo e no estado do Acre mostraram apenas neste ano.

A segunda obviedade comprovada com 100% de certeza: a floresta amazônica, grande reguladora do clima e o bioma mais biodiverso do planeta, é essencial para enfrentar o aquecimento global, mas a floresta já está muito perto do ponto sem retorno, momento em que perderá sua capacidade de atuar como floresta. Somam-se essas duas obviedades e temos a terceira: abrir uma nova frente de exploração do grande vilão climático na Amazônia é a pior ideia que um governo poderia ter, independentemente se de esquerda ou de direita, porque o colapso climático não vai afetar menos os de direita do que os de esquerda – e vice-versa. É uma ideia tão absurda que fica difícil acreditar que o lucro imediato – ou a próxima eleição – mova as pessoas a destruir o futuro de suas próprias crianças.

E aí temos a quarta obviedade: o governo Lula só terá respeito e, portanto, investimento internacional se proteger a Amazônia. Se o Bolsa Família e a ascensão social de milhões de brasileiros conferiram reconhecimento internacional a Lula no segundo mandato (2007-2010), agora as preocupações do mundo mudaram. E a principal delas é o clima, que já é um dos principais fatores de fome no planeta. A relevância do Brasil – um país com uma democracia esburacada e uma elite política e econômica ao mesmo tempo sinistra na ação e miserável intelectualmente – é ter em seu território 60% da maior floresta tropical do planeta, da qual depende o controle do aquecimento global.

Vale repetir o que SUMAÚMA – Jornalismo do Centro do Mundo contém em seu próprio nome: o Brasil, hoje, é a periferia da Amazônia. “O problema do Brasil é a falta de elite. Elite é quem tem pensamento estratégico. Chico Mendes foi elite deste país. O cacique Raoni é elite deste país. O Guilherme Leal [fundador da Natura], como empresário, é elite deste país”, desabafou Marina Silva, nesta quarta-feira, em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em meio ao furacão ruralista que, segundo ela mesma, faz com que o Ministério do Meio Ambiente esteja “sendo amputado”.

Quando o Ibama tomou a decisão de negar a licença à Petrobras, aqueles que acompanham a política em Brasília comemoraram, mas com uma apreensão: o que vão pedir em troca? Porque, infelizmente, são raros os políticos que pensam no bem do país – e apenas no bem do país. Mais raros ainda em um dos piores parlamentos da história do Brasil, caso do atual, dominado por predadores profissionais. Não demorou. Nesta semana, parlamentares de vários partidos se uniram para desmatar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e, por consequência, neutralizar Marina Silva, vista como o principal obstáculo entre os predadores e seus objetos de predação, em especial a Amazônia.

O deputado Isnaldo Bulhões, do MDB alagoano, partido que compôs a frente ampla que levou Lula ao poder, foi o relator da medida provisória que “reorganizou” a Esplanada dos Ministérios. Segundo o texto, a Agência Nacional de Águas é transferida para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, hoje comandado pelo PDT. A pasta também assume o controle da política nacional sobre recursos hídricos. O Cadastro Ambiental Rural é incorporado ao Ministério da Gestão, comandado por Esther Dweck. A gestão dos resíduos sólidos fica com o Ministério das Cidades, outro nas mãos do MDB. E o golpe mais violento: as demarcações são tiradas do Ministério dos Povos Indígenas.

O governo Lula, fragilizado no Congresso, está sem maioria para aprovar seus projetos. Fragilizado, está sujeito às piores chantagens e tudo indica que está se submetendo a elas com menos de cinco meses de mandato. Fragilizado, entre todas as negociações possíveis, parece ter decidido sacrificar o meio ambiente, historicamente o primeiro objeto de troca de vários governos. Só assim para explicar que o ministro Alexandre Padilha (PT) tenha sido capaz de classificar de “positivo” e “equilibrado” um relatório que destrói o Ministério do Meio Ambiente num planeta em colapso climático e com a Amazônia alcançando o ponto sem retorno. Sobre a foz do Amazonas, Padilha afirmou que “a discussão continua” e “o Congresso pode contribuir”. Em resumo: o governo Lula desrespeita a decisão do Ibama, uma reprise do que o Brasil testemunhou no processo de Belo Monte. O mundo sabe no que deu.

Como a história mostra, a esquerda brasileira é, com frequência, sua pior inimiga. Foi o que aconteceu na semana passada quando o senador Randolfe Rodrigues anunciou que estava deixando a Rede Sustentabilidade por discordar da decisão do Ibama de negar a licença à Petrobras para abrir uma nova frente de exploração de petróleo na Amazônia. Antigo desafeto de Marina Silva dentro da Rede, Randolfe aproveitou a ocasião para enfraquecer a ministra num momento crucial, quando ela e o ministério precisavam de todo o apoio possível. No cálculo da decisão está a intenção do senador de disputar o governo do Amapá, o principal impactado pelo projeto da Petrobras. Ao fazer isso, Randolfe se alinhou ao senador Davi Alcolumbre (União Brasil) e àqueles que, no estado, pregam o discurso de que o petróleo vai trazer “prosperidade”. 

Era esperado que, vencido o “mal maior” representado por Jair Bolsonaro, os gatos ficassem menos pardos e as diferenças se tornassem mais evidentes. A ação de Randolfe foi tão abjeta, porém, que surpreendeu até mesmo aqueles que esperavam muito pouco dele. Líder do governo Lula, Randolfe não se satisfez apenas em ampliar a crise de governabilidade. Ele se tornou uma metralhadora giratória de fake news. Disse, por exemplo: “Não tem nenhuma ameaça ambiental. O mesmo risco ambiental que tem nesse lugar tem na exploração da costa fluminense, tem na costa de Sergipe ou na costa do Rio Grande do Norte”.

É assombroso que alguém que um dia tenha se colocado na linha de defesa do meio ambiente fale uma mentira dessas. Descarada – e perigosa. O senador, vale lembrá-lo, tem responsabilidade pública. O risco de acidentes na região, e o desafio de conter um eventual derramamento de petróleo, seria maior do que no litoral do Sudeste, por exemplo, porque as correntes marítimas são três vezes mais fortes e sua dinâmica é pouco estudada. Em 2011, uma sonda da Petrobras que tentava perfurar um poço a 110 quilômetros do Oiapoque foi arrastada e a empresa desistiu do projeto. Além disso, os riscos vão muito além. A bacia da foz do Amazonas é uma região muito rica em peixes por causa da combinação dos sedimentos do rio com o chamado “grande sistema de recifes amazônicos”, que fica a 200 quilômetros da costa. A biodiversidade marinha inclui espécies ameaçadas de extinção, como boto-cinza, boto-vermelho, cachalote, baleia-fin, peixe-boi-marinho, peixe-boi-da-amazônia e tracajá. Sobre o impacto na atmosfera, os cientistas têm estudos que mostram que esse ecossistema atua na captura de carbono, o principal gás causador do efeito estufa. Daí a contradição de explorar um combustível que é hoje o maior responsável pelo superaquecimento do planeta.

Randolfe também disse que o Ibama deveria ter consultado a bancada do Amapá. Mas isso não faz parte do processo de licenciamento, porque a decisão do órgão ambiental deve ser fundamentalmente técnica, baseada na melhor ciência. É essa a atribuição do Ibama no processo de licenciamento, e não pode haver interferência política em decisões técnicas tomadas por quadros especializados. Randolfe Rodrigues sabe de tudo isso, mas preferiu mentir. E ele é o líder do governo, convidado pelo PT para se alojar no partido agora que deixou a Rede de Marina Silva. “É difícil defender o meio ambiente no ambiente da gente. E é isso que eu sempre fiz. Houve um tempo em que não podia andar na metade do meu estado para não ser linchada. Não é ética de conveniência, de circunstância. [E, referindo-se a Randolfe:]‘Aqui eu defendo a sustentabilidade, lá no meu estado não vou defender.’ Essa mancha eu não tenho no meu currículo”, disparou Marina, em sua fala na Câmara de Deputados nesta quarta-feira.

No festival de fake news promovido por políticos do Amapá, até a existência do recife de corais na região foi questionada. Diante desse ataque à opinião pública, que enche de mentiras um debate crucial, perguntamos no Instagram o que os leitores queriam saber sobre o tema. Entre as principais dúvidas estão os impactos da perfuração, se ela vai mesmo gerar riqueza para o povo do Amapá e qual o papel de Randolfe nessa história – aliás, nosso post sobre o senador rifar o meio ambiente despertou 259 comentários, muitos deles de amapaenses decepcionados com sua postura.

Como SUMAÚMA repete insistentemente, estamos numa guerra movida contra a natureza, cujas consequências são o colapso climático e a extinção em massa de espécies. No Brasil, a linha de frente está na Amazônia, no Cerrado e nos demais biomas. O país tem um dos piores congressos da história, que se pauta por decisões baseadas em lucros pessoais ou privados imediatos – e não pelo bem comum. O governo Lula está fragilizado e pode rifar o meio ambiente, mesmo que isso signifique perder o prestígio internacional. É hora de fazer toda a pressão possível para barrar esse ataque contra o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Não apenas porque é o certo, mas porque é nossa principal chance de manter a natureza em pé e garantir um amanhã – que já é hoje. Lutar não é uma opção, mas o único gesto ético possível.

*Com a colaboração de Claudia Antunes e Rafael Moro Martins

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Os Sem Terrinha, obra prima do MST!

Roberto Malvezzi (Gogó)

Publicamos o presente texto de alguém que conhece o MST, Roberto Malvezzi, agora submetido a uma CPI da Câmara dos Deputados. Aqueles que apenas fazem não apenas críticas, mas verdadeiras acusações e condenações sem antes de ir in loco ver a realidade dos Assentamentos, suas escolas, a produção agroecológica e constatar as dezenas de toneladas de alimentos sadios doados aos necessitados durante a pandemia além de milhares e milhares de quentinhas, teriam uma visão diferente mais objetiva desses milhares de membros do MST. E se visitarem a Escola Florestan Fernandes, verdadeira universidade a qual acorre gente do Brasil inteiro e de outros países para fazerem sua formação mais qualificada e estudarem métodos de produção agroecológica e como funciona o sistema que mundialmente e no Brasil cria acumulação em poucas mãos e imensa pobreza e miséria pelo mundo afora, ficarão maravilhados pelas construções feitas pelos próprios membros do MST e pela grande disciplina que aí é vivida. Já foi dito por outros que é seguramente um dos movimentos sociais populares mais importantes do mundo, pois une estudo com trabalho, produção com arte, poesia e mística.

A CPI não é tanto sobre os ditos “crimes” do MST mas contra o MST, pois os poderosos especialmente alguns do agronegócio, temem a sua mensagem de outro Brasil com menos iniquidade social, mais participativo e democrático e as lutas que, de forma organizada e com meios pacíficos, procuram realizar. Cremos que esta CPI mostrará a verdadeira transformação que está ocorrendo no campo, com ocupação de terras baldias ou sem responsabilidade social, uma verdadeira reforma agrária popular para produzir alimentos sadios para eles mesmos e para o povo brasileiro. Damos testemunho desta realidade pelas tantas visitas que fiz a Assentamentos e confirmamos as afirmações de Roberto Malvezzi. LBoff

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Há décadas a Comissão Pastoral da Terra (CPT) acompanha o Movimento dos Sem Terra. Como pessoa da CPT por muitos anos, também acompanho a evolução do Movimento, ora mais próximo, ora mais distante, como agora. Quero dar meu testemunho sobre o Movimento.

Um dos aspectos mais belos foi passar do “ocupar, resistir, produzir” para o “ocupar, resistir, produzir e cuidar”. A ocupação se faz em propriedades improdutivas conforme reza a lei. Resistir para existir. Produzir para sobreviver e alimentar os outros. E agora cuidar, para estar à altura do século XXI, onde a lógica do raciocínio complexo exige que se produza (economia) mas de uma forma que o ambiente seja preservado (ecologia). Daí a preocupação com a agroecologia, a biodiversidade, o plantio de 100 milhões de árvores, o cuidado com a água, com os solos, a supressão dos venenos, os alimentos sadios, além da justiça social básica, assim por diante.

Se quero um alimento sadio aqui em Juazeiro da Bahia, preciso comprar produtos da agricultura familiar. Na quinta e na sexta-feira compramos na feira de orgânicos na orla nova da cidade, onde está a feira agroecológica e lá estão também as barracas do MST junto com outras bancas da agricultura familiar. Evitamos quase que totalmente os produtos da agricultura irrigada, altamente consumidora de venenos, além da água e dos solos.

O MST é uma cunha atravessada no modelo agrícola brasileiro, mas é por ele e tantos outros agricultores agroecológicos que ainda podemos ter um alimento qualitativamente diferenciado.

Porém, o trabalho que mais me encanta é com as crianças. Elas poderiam estar por aí engrossando a fila do crime organizado, no desespero de não ver uma saída para a vida numa sociedade cruel como a brasileira. Com toda certeza, muita gente de bem nesse país preferiria que elas estivessem com o crime, ficaria mais fácil de matá-las e justificar a eliminação desses bandidos pobres que são um peso para o país. Porém, ao contrário, as crianças são cuidadas, educadas e uma legião de filhos e filhas dos Sem Terra vão se tornando profissionais competentes em vários ramos do saber e das profissões, inclusive médicos e médicas, uma casta quase que impenetrável nesse país chamado Brasil.

Chamados de “poetas sociais” pelo Papa Francisco, o MST, e outros movimentos, fazem parte do melhor que esse país ainda tem.

Como Deus surge dentro da nova visão do universo

                                        Leonardo Boff

Esta questão de Deus dentro da moderna visão do mundo (cosmogênese) surge quando nos interrogamos: o que havia antes do antes e antes  do big-bang? Quem deu o impulso inicial para a aparição daquele pontozinho, menor que a cabeça de um alfinete que depois explodiu? Quem sustenta o universo como um todo para continuar a existir e a se expandir, bem como cada um dos seres nele existentes, o ser humano incluído?

O nada? Mas do nada nunca vem  nada. Se apesar disso apareceram seres é sinal de que Alguém ou Algo os chamou à existência e os sustenta permanentemente.

O que podemos sensatamente dizer sem logo formular uma resposta teológica, é: antes do big bang existia o Incognoscível e vigorava o Mistério. Sobre o Mistério e o Incognoscível, por definição, não se pode dizer literalmente nada. Por sua natureza, o Mistério e o Incognoscível são antes das palavras, antes da energia, da matéria, do espaço, do tempo e do pensamento.

Ora, ocorre que o Mistério e o Incognoscível são precisamente os nomes pelos quais as religiões, também o judaico-cristão, significam Deus. Deus é sempre Mistério e Incognoscível. Diante dele mais vale o silêncio que a palavra. Apesar disso, Ele pode ser  intuído pela razão reverente e sentido pelo coração inflamado. Seguindo Pascal diria: crer em Deus não é pensar Deus, mas senti-lo a partir da totalidade de nosso ser. Ele emerge como uma Presença que enche o universo, se mostra como entusiasmo dentro de nós (em grego: ter um Deus dentro) e faz surgir em nós o sentimento de grandeza, de majestade, de respeito e de veneração. Essa percepção é típica dos seres humanos. Ela é inegável, pouco importa se alguém é religioso ou não.

Colocados entre o céu e a terra, vendo as miríades de estrelas, retemos a respiração e nos enchemos de reverência. Naturalmente nos surgem as perguntas:

Quem fez tudo isso? Quem se esconde atrás da Via-Lactea e comanda a expansão do universo ainda em curso? Em nossos escritórios refrigerados ou entre quatro paredes brancas de uma sala de aula ou numa roda de conversa solta, podemos dizer qualquer coisa e duvidar de tudo. Mas inseridos na complexidade da natureza e imbuídos de sua beleza, não podemos calar. É impossível desprezar o irromper da aurora, ficar indiferentes diante do desabrochar de uma flor ou não quedar-se pasmados ao contemplar uma criança recém-nascida. Ela nos convence de que, sempre que nasce uma criança, Deus ainda acredita na humanidade. Quase que espontaneamente dizemos: foi Deus  quem colocou tudo em marcha e é Deus quem tudo sustenta. Ele é a Fonte originária e o Abismo alimentador de tudo, como dizem alguns cosmólogos.Eu diria: Ele é aquele Ser que faz ser todos os seres.

Outra questão importante vem simultaneamente suscitada: por que exatamente existe este universo e não outro e nós somos colocados nele? O que Deus quis expressar com a criação? Responder a isso não é preocupação apenas da consciência religiosa, mas da própria ciência.

Sirva de ilustração Stephen Hawking, um dos maiores físicos e matemáticos, em seu conhecido livro Breve história do tempo (1992): “Se encontrarmos a resposta de por que nós e o universo existimos, teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus” (p. 238). Ocorre que até hoje os cientistas e sábios estão ainda se interrogando e buscando o desígnio escondido de Deus.

As religiões e o judaico-cristão ousaram uma resposta, dando,com reverência, um nome ao Mistério chamando-o por mil nomes, todos insuficientes: Javé, Alá, Tao, Olorum e principalmente Deus.

O universo e toda a criação constituem um como que espelho no qual Deus mesmo se vê a si mesmo. São expansão de seu amor, pois quis companheiros e companheiras junto de si.Ele não é solidão, mas comunhão dos divinos Três – Pai, Filho, Espírito Santo – e quer incluir nesta comunhão toda natureza e o homem e a mulher, criados à sua imagem e semelhança.

Dizendo isso, descansa o nosso cansado perguntar; mas face ao Mistério de Deus e de todas as coisas, continua o nosso perguntar, sempre aberto a novas respostas.

Leonardo Boff escreveu junto com o cosmólogo canadense Mark Hathaway, O Tao da libertação:explorando a ecologia da transformação, Vozes 2012; A nova visão do universo, Petrópolis 2022.