Temos tempo e sabedoria suficiente para evitar a catástrofe?

                                    Leonardo Boff

No dia 8 de agosto de 2021 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)  publicou  o relatório, feito a cada dois anos, sobre a situação climática da Terra, fruto da pesquisa de mais de cem peritos de 52 países. Nunca o documento usou de tanta clareza, como agora, diferentemente dos relatórios anteriores. Antes se afirmava que havia 95% de certeza que o aquecimento global era antropogênico,vale dizer, de origem humana. Agora se sustenta sem restrições que ele é consequência dos seres humanos e de sua forma de habitar a Terra, especialmente, por causa do uso de energia fóssil (petróleo, carvão e gás) e de outros fatores negativos.

O cenário apresenta-se dramático.O  Acordo de Paris especifica que os países devem “limitar o aquecimento a bem abaixo de 2˚C, e perseguir esforços para limitar a 1,5˚C”. O relatório atual insinua que será difícil mas que   temos conhecimento científico, capacidade tecnológica e financeira para enfrentar as mudanças climáticas, desde que todo mundo, países, cidades, empresas e indivíduos, já agora se empenhem seriamente.

A situação atual é preocupante.Em 2016 as emissões globais de gases de efeito estufa somavam anualmente cerca de 52 gigatoneladas de CO2. Se não mudarmos de curso atual chegaremos em 2030 entre 52 a 58 gigatoneladas. Nesse nível haveria uma dizimação fantástica da biodiversidade e uma proliferação de bactérias e vírus como jamais havidos antes.

Para estabilizar o clima a 1,5 graus Celsius, afirmam os cientistas, as emissões precisariam cair pela metade (25-30 gigatoneladas). Caso contrário,com a Terra em chamas, conheceríamos eventos extremos aterradores.

Sou da opinião de que não bastam apenas  ciência e tecnologia para a diminuição dos gases de efeito estufa. É demasiada crença na onipotência da ciência que até hoje não sabe enfrentar totalmente o Covid-19. Faz-se urgente outro paradigma de relação para com a natureza e com a Terra, que não seja destrutivo mas amigável e em sutil sinergia com ritmos da natureza. Isso obrigaria uma transformação radical no modo de produção atual, capitalista, que ainda se move, em grande parte, na ilusão de que os recursos da Terra são ilimitados e que permitem,por isso,um projeto de crescimento/desenvolvimento também ilimitado. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì:sobre o cuidado da Casa Comum (2020)denuncia esta premissa como “mentira”(n.106):um planeta limitado,em grau avançado de degração e superpovoado não tolera um projeto ilimitado. O Covid-19 em seu significado mais profundo nos exige, pôr em ação,uma conversão paradigmática.

Na encíclica Fratelli tutti(2021) o Papa Francisco apreendeu este aviso do vírus. Contrapõe dois projetos: o vigente, da modernidade, cujo paradigma consiste em fazer o ser humano  dominus (senhor e dono) da natureza e o novo proposto por ele, o de frater (irmão e irmã), incluindo a todos, os humanos e os demais seres da natureza. Este novo paradigma do frater planetário fundaria uma fraternidade sem fronteiras e um amor social. Se não fizermos esta travessia,”todos se salvam o ninguém se salva”(n.32).

Eis a grande questão: o modo de produção capitalista mundializado mostra vontade política, tem a capacidade e a razoabilidade suficientes para se permitir esta mudança radical? Ele se fez o dominus (maître et possesseur de Descartes) da Terra e sobre  todos os seus recursos.Seu mantras são: o maior lucro possível,conseguido por uma concorrência feroz, acumulado individual ou corporarivamente, através de um exploração devastadora dos bens e serviços naturais. Desse modo de produção se originaram o descontrole climático e, o que é pior, uma cultura do capital, da qual, de alguma forma, todos somos reféns. Como para nos salvar de ambas?

Temos que mudar, senão, segundo  Sygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.

Logicamente,esta urgente conversão de paradigma,demanda tempo e implica um processo de transformação, pois todo o sistema está azeitado para produzir e consumir mais. Mas o tempo da mudança está  expirando. Daí o sentimento do mundo de grandes nomes,cuja credibilidade inquestionável não é de simples pessimismo,mas de um realismo bem fundado.Cito alguns deles:

O primeiro é o Papa Francisco de alertou na Fratelli tutti:”estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).

O segundo, o formulador da teoria da Terra como  super-organismo vivo, Gaia, James Lovelock, cujo último título diz tudo:”Gaia:alerta final”(Intrínseca, Rio 2010).

O terceiro é Martin Rees, Astrônomo Real do Reino Unido: Hora final:o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade (Companhia das Letras, SP 2005); dispensa comentário.

O quarto é Eric Hobsbawm, um mais renomados historiadores do século XX diz no final de seu A era dos extremos (Companhia das Letras, SP 1995):”Não sabemos para onde estamos indo.Contudo, uma coisa é clara:se a humanidade quer ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente.Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar.E o preço do fracasso, ou seja, a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562). Esta advertência vale para todos aqueles que pensam a pós-pandemia como uma volta à antiga e perversa   normalidade.

O quinto é o conhecido geneticista francês Albert Jacquard com o seu “A contagem regressiva já começou? (Le compte à retours a-t-il commence?  Stock, Paris 2009).Sustenta:”temos um tempo contado e à força de termos trabalhado contra nós mesmos, arriscamos de forjar uma Terra na qual ninguém de nós gostaria de morar. O pior não é certo, mas temos que nos apressar”(quarta capa).

Por fim, um dos últimos grandes naturalistas, Théodore Monod com o livro E se a aventura humana  vier a fracassar (Et si l’aventure humaine devait échouer,Grasset,Paris 2003) assevera: “O ser humano é perfeitamente capaz de uma conduta insensata e demencial; a partir de agora podemos temer tudo, tudo mesmo, até a aniquilação da espécie humana”(p.246).

O processo da cosmogênese e da antropogênse propiciaram também a emergência da fé e da esperança. Elas são parte da realidade total. Não invalidam as advertências citadas.Mas abrem outra janela que nos assegura que “o Criador criou tudo por amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Essa fé e esperança permitem ao Papa Francisco falar “para além do Sol” com estas palavras:”Caminhemos cantando,que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(Laudato Sì n.244).O princípio esperança supera todos os limites e mantém sempre aberto o futuro. Se não podemos evitar o descontrole climático, podemos nos precaver e minorar seus efeitos mais  danosos.É o que cremos e esperamos.

Leonardo Boff é filósofo e ecoteólogo e escreveu O doloroso parto da Mãe Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,Vozes 2020.

Theoretical frameworks for understanding the Covid-19 intrusion

                                    Leonardo Boff

Every social-historical reality, no matter how good it looks or how deep in chaos it is, demands a theoretical framework (set of concepts) in order to be understood, whether to face the threats it may represent or to celebrate a new order that may emerge with its promises.

The first theoretical framework follows science as it is commonly practiced, whose method was inaugurated in the 18th century by the founding fathers of the modern scientific paradigm, which has gained its clearest expression through the results of the IPCC that accompany current warming and the health of the Earth.

The facts it reflects on are, for example, the Covid-19 intrusion showing the Earth’s reaction against the aggressions made by humans in the geological era of the Anthropocene. The other fact is the growth of global warming whose C02, as we know, remains in the atmosphere for more than a hundred years. Given the industrialist voracity, it is reaching a dangerous limit. It must be drastically reduced by 2030, otherwise we will experience a dramatic transformation of the Earth’s balance, seriously threatening the biosphere and generating millions of immigrants worldwide. If the current level of consumption that requires one and a half Earth continues, it could lead us to great rates of social inequity, especially among the poor. There are also the “9 planetary bounderies for development” that must not be crossed (climate, water, soil, biodiversity, the diminishing oxon layer, ocean acidification, and others). Four are in a high degree of erosion. After the fifth, a domino effect may occur, because all factors are systemic and interrelated. This could lead to a collapse of our civilization. The final result: the scenario is dramatic for the life-system and the Earth-system, aggravated by the great absence of collective awareness of the real threats that weigh upon humanity, by most people and heads of state. This reading leads to pessimism and lack of interest of people in the ecological factor.

The second framework starts from the new cosmogenesis, from life and earth sciences. The central category is not order, but chaos. Here we use the achievements of chaos theory, which gives us a more positive and promising reading. Together with Einstein’s theory of relativity, Heisenberg/Bohr’s quantum mechanics, and Lorenz/Prigogine’s Chaos theory, a new scientific paradigm was founded that interprets social-historical reality in a different way. Everything in the universe comes from an immeasurable chaos (big-bang), its explosion 13.7 billion years ago projecting matter, energy and information in all directions. Evolution is done as a way to put order into this chaos. From their explosion, the materials formed inside them were launched into all spaces, creating galaxies, black holes, stars, our sun and the earth and everything in it.This chaos is unique: it has a destructive (chaotic) and a constructive (generative) dimension. As shown by Bohm, Lorenz and Prigorine, within this chaos a new order always forms, which emerges dominant as the destructiveness of chaos diminishes (without ever totally disappearing). Chaos erupts in all beings, also in us humans whenever a given order can no longer cope with the problems created. Thus we humans are chaotic and cosmetic, wise and demented, carriers of love and empathy and simultaneously of hate and exclusion.

At this moment with the dramatic presence of the coronavirus we are at the heart of a powerful chaos, affecting the whole planet and every single human. But it has made us discover the Earth as a whole, and that we are also Earth, a conscious part of it, and not its owners and masters. It made us discover that our human essence is made of collaboration/solidarity and the ethics of caring for each other and for nature. It showed us the urgency of building the Earth as a common motherland/homeland, as the Great House within which we live, nature included. The pandemic has raised the need for a planetary social pact so that we can live as a species in peace and with a minimum of tensions. The conclusion that we derive from this type of interpretation is that an old order has entered into irreversible chaos, but that within it a new order is being created (not without suffering), that is to say, a new way of inhabiting the Earth in synergy with nature, with fraternity and social love. This does not happen in the blink of an eye, for chaos has a long history and a slow agony. But it does not promise any hope, just more of the same, impossible to repeat, because the new order will have more power to convince and to assume hegemony in the conduction of history. Summary of the opera: we are not heading for our own grave but for a new kind of world. The dream of the World Social Forums will be realized not only as a new possible world, but as a new necessary world. Within it will be the various cultural worlds, Chinese, Indian, Andean, African and Brazilian, with their values and traditions, showing the diversity of ways of being human.

Where to start? Pope Francis in his encyclical Fratelli tutti says: we must start from below (because from above there is always more of the same or worse), with each person, with each locality, with each country, down to the last corner of the planet. Everything will begin in the territory (bioregionalism), not as it is artificially delimited by the political geography of the municipalities, but by the ways that nature has configured the territory with its mountains, its rivers, its forests, its soils, its landscapes, and especially with the population that for decades or centuries inhabited that place. Everything will be integrated into small and medium-sized production enterprises, starting with agroecology, with a new type of social-ecological democracy, recognizing the rights of nature and of Mother Earth, with the participation of all and with policies to reduce poverty to the maximum and the peaceful integration of all. The cultural traditions, the profane and religious festivals, the veneration of artists, of exemplary politicians, of their saints and sages, will conform the territory in which real sustainability can be realized.

We could represent the Earth as an immense tapestry woven of autonomous and interconnected territories constituting the new era of the Common House, of Mother Earth, the Mother of all struggles and all victories, cared for, loved, and inhabited by people who feel they are brothers and sisters because they are all sons and daughters of the Magna Mater, or better, they are the Earth herself, who feels, thinks, loves, cares, and venerates. We will be together in the joyful celebration of the Mystery of the world and of the miracle of our own existence, shared with the whole community of life. A utopia? Yes, but a necessary one, because the path of ascending evolution points there, represents the longing of all peoples, and also fulfills the Creator’s plan.

Leonardo Boff ecotheologist,text dedicated to the agroecology organizations CAATINGA, SABIÁ AND SASOP, in function of a 2022 calendar with the theme “Motherland of all struggles”.  

MARCOS TEÓRICOS PARA ENTENDER LA CRISIS ACTUAL

Leonardo Boff*

Toda la realidad histórico-social, por bien que se presente o por hundida en una situación de caos, demanda unmarco teórico (conjunto de conceptos) para poder ser entendida, sea para enfrentar las amenazas que puede representar sea para celebrar un nuevo orden que puede surgir con sus promesas.

El primemarco teórico sigue la ciencia tal como ha venido siendo comúnmente practicada y cuyo método se inauguró en el siglo XVIII con los padres fundadores del paradigma científico moderno. Adquirió su más clara expresión con los resultados del IPCC que hace el seguimiento del calentamiento actual y de la salud de la Tierra. Se orienta por el principio del orden.

Los hechos sobre los cuales reflexiona son, por ejemplo, la irrupción de la Covid-19 mostrando la reacción de la Tierra contra las agresiones hechas por los seres humanos en la era geológica del antropoceno. El otro dato es el crecimiento del calentamiento global cuyo C02, como sabemos, permanece en la atmósfera más de cien años. Dada la voracidad industrialista está llegando a un límite peligroso. Hasta 2030 debe ser reducido drásticamente, en caso contrario conoceremos una dramática transformación del equilibrio de la Tierra, que amenazaría gravemente la biosfera y generaría millones de emigrados en el mundo. Otro dato es la Sobrecarga de la Tierra (The Earth’s overshoot), es decir, el agotamiento de los bienes y servicios necesarios para el mantenimiento de la vida humana yterrestre. Se está volviendo cada vez más grave como revela el último análisis, verificado el 20 de septiembre de 2020. De continuar el nivel de consumo actual, que exige una Tierra y media, puede llevarnos a altos índices de iniquidad social, especialmente entre los pobres. Están también las “9 fronteras planetarias para el desarrollo” que no deben ser superadas (climas, agua, suelo, biodiversidad, disminución de la capa de ozono, acidificación de los océanos, entre otras). Cuatro se encuentran en alto grado de degradación. A partir de la quinta puede ocurrir unefecto dominó, pues todos los factores son sistémicos y se articulan entre sí. Ahí podría ocurrir el colapso de nuestracivilización.

Resultado final: el escenario es dramático para el sistema-vida y el sistema-Tierra, agravado por la gran ausencia de conciencia colectiva acerca de las amenazas reales que pesan sobre la humanidad en la mayoría de las personas y en los jefes de Estado. El peligro es que engrosemos el cortejo de aquellos que se dirigen hacia su propia sepultura (S.Bauman). Esa lectura lleva al pesimismo y desinterés de las personas por el factor ecológico.

El segundo marco parte de la nueva cosmogénesis, de las ciencias de vida y de la Tierra. La categoría central no es elorden sino el caos. Aquí se utilizan las conquistas provenientes de la teoría del caos que nos proporciona una lectura más positiva y promisoria. Junto con la teoría de la relatividad de Einstein, de la mecánica cuántica de Heisenberg/Bohr y de la teoría del Caos de Lorenz/Prigogine se ha fundado un nuevo paradigma científico que interpreta de otra forma la realidad histórico-social. Todo en el universo viene de un inconmensurable caos (big-bang). Su explosión hace 13,7 miles de millones de años proyectó materia, energía e informaciones en todas las direcciones. La evolución se hace como una forma de poner orden en este caos. Así surgieron las grandes estrellasrojas. De su explosión, los materiales formados dentro de ellas fueron lanzados por todos los espacios creando las galaxias, los agujeros negros, las estrellas, nuestro sol y la Tierra y todo lo que ella contiene. Ese caos es singular: posee una dimensión destructiva (caótica) y otra constructiva (generativa). Como ha sido mostrado por Bohm, Lorenz y Prigogine, en el interior de este casos se forma siempre un nuevo orden que emerge dominante en lamedida en que disminuye (sin nunca desaparecer totalmente) la destructividad del caos. Triunfa un nuevo orden, más alto y complejo que genera optimismo y esperanza de un futuro mejor para la humanidad y para la Tierra. Elcaos irrumpe en todos los seres, también en nosotros los humanos siempre que un orden dado ya no aborda los problemas creados. Así nosotros los humanos somos caóticos y cosméticos (ordenados), sapientes y dementes, portadores de amor y empatía y simultáneamente de odio y de exclusión. Somos la convivencia de estos contrarios.

En este momento con presencia dramática del coronavirus estamos en el corazón de un poderoso caos, que afecta a todo el planeta y a cada uno de los seres humanos. Pero él nos hace descubrir a la Tierra como un todo y que somos también Tierra, parte consciente de ella y no sus dueños y señores. El virus ha invalidado los soberanismos tradicionales, pues el virus no respeta los límites de las naciones, nos ha hecho descubrir que nuestra esencia humana está hecha de colaboración/solidaridad y de la ética del cuidado de unos hacia otros y para con lanaturaleza. Nos ha mostrado la urgencia de construir la Tierra como matria/patria común, como la Gran Casa dentro de la cual vivimos, la naturaleza incluida. La pandemia ha hecho surgir la necesidad de un pacto social planetario para que vivamos como especie en paz y con un mínimo de tensiones. Será una civilización centrada en el valor supremo de la vida, y la economía y la política deben ponerse al servicio de la perpetuación de todo tipo de vida, especialmente de la nuestra. La conclusión que derivamos de este tipo de interpretación es que un orden viejo ha entrado en caos irreversible pero que dentro de él se está gestando (no sin sufrimiento) un nuevo orden, podemosdecir, una forma nueva de habitar la Tierra en sinergia con la naturaleza, con fraternidad y amor social. Esto noocurre en un abrir y cerrar de ojos, pues el caos posee una larga historia y una lenta agonía. Pero él no prometeninguna esperanza, solo más de lo mismo, imposible de ser repetido, pues el nuevo orden tendrá más fuerza de convicción y de asumir la hegemonía en la conducción de la historia.

Resumen de la situación: no vamos en dirección a nuestra propia sepultura sino en dirección a un nuevo tipo de mundo. El sueño de los Foros Sociales Mundiales se realizará no solo como un nuevo mundo posible, sino como unnuevo mundo necesario. Dentro de él estarán los distintos mundos culturales, chino, indio, andino, africano ybrasilero con sus valores y tradiciones, mostrando la diversidad de formas de ser humano.

¿Por dónde empezar? El Papa Francisco en la encíclica Fratelli tutti dice: debemos empezar desde abajo (pues de arriba viene siempre más de lo mismo o peor), con cada uno, con cada localidad, con cada país hasta el último rincón del planeta. Todo empezará en el territorio (biorregionalismo), no como viene siendo delimitado artificialmente por la geografía política de los municipios, sino por las formas con que la naturaleza configuró elterritorio con sus montañas, sus ríos, sus selvas, sus suelos, sus paisajes y principalmente con la población que durante decenios o siglos ha habitado ese lugar. Todo será integrado en pequeñas y medianas empresas de producción, empezando con la agroecología, con un nuevo tipo de democracia socio-ecológica, reconociendo los derechos de la naturaleza y de la Madre Tierra, con la participación de todos, y con políticas de disminución almáximo de la pobreza y con la integración pacífica de todos. Las tradiciones culturales, las fiestas profanas yreligiosas, la veneración de los artistas, de los políticos ejemplares, de sus santos, santas y sabios formarán elterritorio en el cual, verdaderamente, se puede llevar a cabo una real sostenibilidad.

Podríamos representar a la Tierra como un inmenso tapete urdido de territorios autónomos e interligados constituyendo la nueva era de la Casa Común, de la Madre Tierra, Madre de todas las luchas y de todas las victorias, cuidada, amada y habitada por pueblos que se sienten hermanos y hermanas porque todos son hijos e hijas de la Magna Mater, o mejor, son la propia Tierra que siente, piensa, ama, cuida y venera. Estaremos juntos en la alegre celebración dl Misterio del mundo y del milagro de nuestra propia existencia, compartida con toda la comunidad de vida. ¿Una utopía? Sí, pero necesaria, pues hacia ahí apunta el camino de la evolución ascendente, es el anhelo de todos los pueblos y realiza también el designio del Creador.

*Leonardo Boff, ecoteólogo, texto dedicado a las organizaciones de agroecología CAATINGA, SABIÁ y SASOP, en función de un calendario para 2022 que tiene como tema “Tierra Madre de todas las luchas”.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Il caos della pandemia nasconde un nuovo ordine sulla Terra.Un testo di Leonardo Boff

Leonardo Boff (LaPresse)

Pubblichiamo, per gentile concessione, questo testo profondo, alla luce degli avvenimenti che stanno accadendo, del teologo brasiliano Leonardo BOFF. “La nostra missione è garantire la vita, la Madre Terra e noi stessi. Creare la Casa Comune dentro la quale tutti possano vivere in giustizia, pace e allegria. Questo modello dovrà uscire dalle viscere del caos attuale e fondare un nuovo inizio per l’umanità”. Un appello esigente quello di Boff. A questo riguardo ricordiamo che di Leonardo BOFF è stato appena pubblicato , dall’Editore Castelvecchi di Roma, il suo libro “Abitare la Terra. Quale via per la fraternità universale?”. Il saggio è una intensa riflessione, alla luce della Enciclica “Fratelli tutti” di Papa Francesco e dell’ ecologia integrale ,su una possibile via per realizzare la fraternità universale. Il libro ha ricevuto, nel giro di pochi giorni, diverse recensioni molto qualificate di importanti testate italiane.

Raramente nella lunga storia della vita, si è verificata una situazione di caos planetario come nei giorni attuali. Eravamo abituati a un sistema regolare e ordinato, nonostante negli ultimi decenni avessimo sperimentato irregolarità con una frequenza crescente, come tsunami, tifoni, terremoti ed eventi estremi di caldo torrido e freddo polare. Tali fenomeni hanno portato gli scienziati a pensare e tentare di comprendere come all’interno dell’ordine dato potevano verificarsi situazioni caotiche.

Da qui nacque una scienza, quella del caos, tanto importante come le altre, al punto che alcuni arrivarono a dire che il secolo XX sarà ricordato per la teoria della relatività di Einstein, per la meccanica quantistica di Heisenberg/Bohr e per la teoria del caos di Lorenz/Prigogine.

L’essenza della teoria del caos risiede nel fatto che un cambiamento molto piccolo nelle condizioni iniziali di una situazione porta a effetti imprevedibili. È il famoso esempio dell’«effetto farfalla». Piccoli cambiamenti iniziali, casuali, come il battere di ali di una farfalla in Brasile, possono provocare cambiamenti atmosferici fino a culminare in una tempesta a New York. Il presupposto teorico è che tutte le cose sono interconnesse e vanno assumendo nuovi elementi, creando complessità nel corso della propria esistenza (in questo caso: calore, umidità, venti, energie terrestri e cosmiche) in un modo che la situazione finale è totalmente diversa da quella iniziale.

Il caos sta da tutte le parti, nell’universo, nella società e in ciascuna persona. Significa che l’ordine delle cose non è lineare e statico. È dinamico e sempre alla ricerca di un equilibrio che lo fa andare avanti.

L’universo si è originato da un immenso caos iniziale (big bang). L’evoluzione è stata ed è la modalità per mettere ordine in questo caos millenario. Ma qui nasce una novità: il caos non è solo caotico, contiene dentro di se – in gestazione – un nuovo ordine. Logicamente possiede il suo momento distruttivo, caotico, senza il quale il nuovo ordine non potrebbe irrompere. Il caos è generativo di questo nuovo ordine.

Chi analizzò nel dettaglio questo fenomeno fu il grande scienziato russo/belga Ilya Prigogine (1917-2003), premio Nobel per la Chimica nel 1977. Studiò particolarmente le condizioni che permettono l’emergenza della vita. Secondo questo grande scienziato, sempre che esista un sistema aperto (pertanto, in permanente dialogo e scambio con l’esterno) e sempre che ci sia una situazione di caos (pertanto, fuori dall’ordine e lontano dall’equilibrio) in cui prevale una non linearità, è la connettività tra le parti che genera un nuovo ordine, che sarebbe la vita.  (cf. Order out of Chaos,1984).

Questo processo conosce biforcazioni e fluttuazioni. L’ordine, pertanto, mai è dato a priori. Dipende da vari fattori che lo portano in una direzione o in altra, da ciò un’immensa biodiversità.

Abbiamo fatto tutta questa riflessione sommaria per aiutarci a capire meglio l’attuale caos pandemico. Innegabilmente viviamo in una situazione di completo caos, un caos distruttivo di milioni di vite umane. Nessuno può dire quando termina né in che direzione andiamo. Il virus si manifesta con molteplici varianti, avendo successo sulle nostre cellule. È innegabilmente caotico e sta terrorizzando l’intera umanità. Ci pone questioni fondamentali: cosa abbiamo fatto con la natura per essere castigati con un virus cosi letale? Dove abbiamo sbagliato? Che cambiamenti dobbiamo intraprendere in relazione con la natura per impedire che ci invii una gamma di altri virus?

Sappiamo che nascosto al suo interno esiste un ordine migliore e più alto. La cosa peggiore che potrebbe accaderci sarebbe la continuità o il ritorno al passato che ha creato il caos. Dobbiamo usare la nostra fantasia creatrice e, soprattutto, forgiare – dall’esperienza storica – un ordine più amico della vita, affettuoso, fraterno e giusto. Sarebbe il caos generativo.

Dobbiamo capire il contesto da cui è venuto il coronavirus. È un’espressione dell’antropocene, cioè della sistematica aggressione, da parte dell’essere umano, della natura, di Gaia, della Madre Terra. È la conseguenza di aver trattato il pianeta come una riserva inerte di risorse a nostra disposizione e non come una realtà viva che merita attenzione e rispetto.

A partire dalla rivoluzione industriale l’abbiamo sfruttata al punto che non riesce più ad auto-rigenerarsi e offrirci tutti i beni e servizi vitali. Dobbiamo inaugurare una relazione di sinergia e sostenibilità per e con la natura, sentendoci parte di Lei, responsabili per la sua continuità e non i suoi padroni e signori. Se non operiamo questa conversione ecologica potremmo conoscere catastrofi inimmaginabili.

Nel caso brasiliano, la prima cosa che dobbiamo fare è preservare l’immensa ricchezza ecologica ereditata dalla natura, in termini di foresta pluviale, abbondanza di acqua, di suoli fertili e di vastissima biodiversità.

Di seguito dobbiamo superare la marginalizzazione, l’odio vigliacco che rivolgiamo ai poveri. Il disprezzo e le umiliazioni commesse crudelmente contro le persone schiavizzate si sono trasferite nei confronti dei poveri. Tale disumanità ha lasciato cicatrici profonde nella popolazione.

Infine dobbiamo liquidare l’eredità perversa del “latifondismo in epoca coloniale” trasferito nella rendita e nel potere di pochi miliardari che controllano gran parte della finanza. Fanno fortune con la pandemia, senza alcuna empatia con i familiari che hanno perso i loro cari (in Brasile i morti per Covid superano il mezzo milione). Loro sono i sostenitori dell’attuale Governo necrofilo, il cui presidente è alleato del virus. Costituiscono il maggiore ostacolo per il superamento del caos installato a Brasilia.

Abbiamo bisogno di costruire un fronte ampio di forze progressiste e nemiche della neo-colonizzazione del paese per portare alla luce un nuovo ordine, sommerso nel caos attuale ma che vuole nascere. Dobbiamo fare questo parto anche se doloroso. In caso contrario continueremo a essere ostaggi e vittime di coloro che sempre hanno pensato “corporativamente” solo per sé, voltando le spalle al popolo e devastando la natura con il loro agro-business. Finendo per rafforzare l’impatto tra noi del coronavirus.

Dobbiamo ispirarci nell’universo, nato dal caos primordiale, ma che evolvendo ha creato nuovi ordini sempre più complessi, fino a generare la specie umana. La nostra missione è garantire la vita, la Madre Terra e noi stessi. Creare la Casa Comune dentro la quale tutti possano vivere in giustizia, pace e allegria. Questo modello dovrà uscire dalle viscere del caos attuale e fondare un nuovo inizio per l’umanità.

(Traduzione dal portoghese di Gianni Alioti

Fonte;Rai News-Confini– Pierluigi Miele