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Amazônia exige novo paradigma:Frei Betto

Frei Betto é conhecido principalmente como defensor e promotor dos movimentos sociais. É um grande pedagogo, apreciado aqui e fora do país, além de ser um exímio escritor e teólogo. Agora tem se ocupado com a questão ecológica, especialmente, em vista do Sínodo panamazônico a realizar-se em outubro em Roma. Exatamente em Roma, porque o Papa Francisco quer chamar a atenção de toda a Humanidade por esta região, a maior floresta úmida do mundo que cobre 9 países é é fundamental para a sobrevida dos fatores que garantem nossa existência na Terra. O Papa já afirmou que “a Terra se encontra numa emergência mundial” dadas as muitas e funestas agressões contra ela, contra seus solos, seu sub-solo, contra as águas, contra as florestas e a maioria dos ecossistemas. Esse artigo de Frei Betto serve de material de reflexão e soa como um alarme a despertar nossa responsabilidade para o futuro comum Terra-Humanidade: Lboff
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Deforestación de la selva amazónica en el estado brasileño de Rondônia
Foto: NASA
O papa Francisco, em janeiro de 2018, declarou em Puerto Maldonado, Peru: “A Amazônia é disputada por várias frentes: de um lado, o neoextrativismo e a forte pressão de grandes interesses econômicos ávidos por petróleo, gás, madeira, ouro e monocultivos industriais. Por outro, a ameaça procedente da perversão de certas políticas que promovem a ‘preservação’ da natureza sem levar em conta o ser humano.”

Francisco ressaltou que uma ecologia integral, que não separe ser humano e natureza, exige nova antropologia e novo conceito de desenvolvimento, nos quais a prioridade seja condições dignas de vida da população local.

Isso implica defender os direitos humanos e a Mãe Terra; resistir aos megaprojetos que causam morte; e adotar um modelo econômico sustentável, solidário, sintonizado com os ecossistemas e os saberes ancestrais dos amazônicos.

Em discurso aos participantes da conferência sobre “Transição energética e cuidado de nossa casa comum”, em 2018, no Vaticano, Francisco frisou que a busca de um crescimento econômico contínuo provocou graves efeitos ecológicos e sociais, porque “nosso atual sistema econômico prospera devido ao aumento de extrações, consumo e desperdício. A civilização requer energia, mas o uso da energia não deve destruir a civilização.”

Para o sínodo amazônico, a ecologia integral ou socioambiental exige mudança de paradigma, mas também uma espiritualidade da reciprocidade, de harmonia, que mantenha o equilíbrio do bioma capaz de refletir um sentido de convivência dentro dessa imensa maloca comum que é a Terra. Em suma, passar de uma cultura do descarte a uma cultura do cuidado.

Para tanto, é preciso promover uma educação ecológica que nos induza a outro estilo de vida, livre do consumismo obsessivo e do paradigma tecnoeconômico. Como propõe o papa Francisco na encíclica socioambiental “Louvado sejas” (Laudato Si), “dar o salto ao Mistério, onde a ética ecológica adquire seu sentido mais profundo”. Esta experiência espiritual, sagrada, ocorre quando se é capaz de solidariedade, responsabilidade e cuidado.

Pretende o sínodo que cada paróquia da Amazônia se torne uma ecoparóquia, e adote uma ecopedagogia. Isso significa aprender a conviver com a família de Deus que habita o território panamazônico, no qual há culturas ocultas, isoladas, sem contato com o mundo não indígena; outras que rejeitam convictamente a civilização ocidental; e ainda as que mantêm boas relações com a Igreja sem, contudo, assumir o Evangelho como referência de vida. Existe ainda uma Igreja autóctone, integrada por indígenas que relacionam seus saberes ancestrais com a palavra de Deus.

A proposta é que a Igreja presente na Amazônia, através de paróquias e congregações religiosas, se oponha aos projetos que ameaçam a floresta e os povos que a habitam, critique o paradigma tecnocrático, o antropocentrismo irresponsável, e o relativismo moral, e valorize a economia solidária, de valor de uso dos bens da natureza, e descarte a que prioriza o valor de troca.

Na visita à Amazônia, em janeiro de 2018, o papa Francisco, frisou que “a cultura de nossos povos é um sinal de vida. A Amazônia, além de ser uma reserva da biodiversidade, é também uma reserva cultural que deve ser preservada frente aos novos colonialismos.” E fez este apelo aos indígenas: “Ajudem seus bispos, ajudem seus missionários e missionárias a ser um com vocês e, no diálogo entre todos, possam formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena”.

 Frei Betto é escritor, autor de “Uala, o amor” (FTD), entre outros livros.

 

 

 

Amazônia sob ataque: queimadas têm aumento de 145% em 2019

Sem Floresta Sem Vida: Segure a Linha do Desmatamento

Número de focos de calor é maior nas regiões com mais alertas de desmatamento

Esse ano, a temporada de fogo na Amazônia começou com força total © Daniel Beltrá / Greenpeace

Nos últimos dias a água dos Rios Voadores, que transportam pela atmosfera a umidade da Amazônia para todo o sul e centro-oeste do continente, foi substituída por fumaça, que chegou a ser notada nos estados de São Paulo e Paraná. A causa? A quantidade de focos de incêndio registrados na Amazônia em 2019 é uma das maiores dos últimos anos. De janeiro a 20 de agosto, o número de queimadas na região foi 145% superior ao registrado no mesmo período de 2018.

Na Amazônia brasileira, as taxas de alerta de desmatamento estão ligadas à incidência de fogo, que é uma das principais ferramentas usadas para desmatar. Dos dez municípios da região com maior número de alertas registrado pelo sistema Deter (Inpe), oito também estão no topo do ranking de queimadas.

Pontos em rosa escuro mostram focos de calor registrados no “Dia de Fogo” próximo à BR-163. © Greenpeace

Nos dias 10 e 11 deste mês, fazendeiros do entorno da BR-163 anunciaram que fariam um “dia de fogo”, segundo noticiaram jornais locais e a Folha de São Paulo. A ação coordenada fez o número de focos de calor aumentar 300% de um dia para o outro na principal cidade da região, Novo Progresso.

“Os que desmatam e destroem a Amazônia se sentem encorajados pelo discurso e pelas ações do governo Bolsonaro que, desde que tomou posse, tem praticado um verdadeiro desmonte da política ambiental do país”, declara Danicley Aguiar, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Apenas o recente ataque feito pelo governo contra o Fundo Amazônia já resultou no bloqueio de R$ 288 milhões em doações da Noruega e da Alemanha, trazendo consequências perversas para o combate ao desmatamento e ao fogo na Amazônia. No fim de 2018, as ações de monitoramento e controle, entre elas prevenção e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas, representavam 47% do valor destinado aos projetos apoiados pelo Fundo, totalizando R$ 891 milhões. Desse total, cerca de 90% foram destinados a projetos

implementados por entidades da administração pública brasileira (governos federal, estaduais e municipais), revelando a importância estratégica do Fundo para a conservação da Amazônia.

As queimadas e as mudanças climáticas operam em um ciclo vicioso: quanto mais queimadas, mais emissões de gases de efeito estufa e, quanto mais o planeta aquece, maior será a frequência de eventos extremos, tais como as grandes secas que passaram a ser recorrentes na Amazônia. Para além das emissões, o desmatamento colabora diretamente para uma mudança no padrão de  chuvas na região, que amplia a duração da estação seca, afetando ainda mais a floresta, a biodiversidade, a agricultura e a saúde humana.

 

 

 

A falta que hoje nos faz: o amor universal e incondicional

        Dedicado para a pensadora e mestre-astróloga Martha Pires Ferreira

Vivemos atualmente tempos sombrios de muito ódio e falta de refinamento. Precisamos resgatar o mais importante e que verdadeiramente nos humaniza: o simples amor. Estimo que devemos sempre retomar o tema do amor universal e sem précondições.

Sobre ele se disseram as coisas mais elevadas até o de designar o nome próprio de Deus. Para superar o discurso, convencional, convém incorporar a contribuição que nos vem das várias ciências da Terra, da biologia e dos estudos sobre o processo cosmogênico. Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global e cósmica, um evento bem-aventurado do próprio ser das coisas, nas quais nós estamos incluídos.

Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico: a necessidade e a espontaneidade.

Por necessidade de sobrevivência todos os seres são interdepententes e se ajudam uns aos outros. A sinergia e a cooperação de todos com todos, mais que a seleção natural, constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. A solidariedade é mais que um imperativo ético. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos e que explica por que e como chegamos até aqui.

Junto com essa força da necessidade comparece também a espontaneidade.

Os seres se relacionam e interagem espontanemente, por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura por um impulso de criar laços novos, pela afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo da novidade, da irrupção de uma virtualidade latente que faz surgir algo maravilhoso e que torna o universo um sistema aberto. É o advento do amor.

Ele se dá entre todos os seres, desde os primeiros topquarks que se relacionaram para além da necessidade de criarem campos de força que lhes garantissem a sobrevivência e o enriquecimento na troca de informações. Muitos se relacionaram por se sentirem espontaneamente atraídos por outros e comporem um mundo não necessário, gratuito, mas possível e real.

Desta forma, a força do amor atravessa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes irradiação e beleza.. Não há razão que os leve a se comporem em elos de espontaneidade e liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de conviver. Cosmólogos há que afirmam ser o universo todo colorido e, portanto, extremamente belo.

O amor cósmico realiza o que a mística sempre intuiu: “a rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida dela mesma nem se preocupa se a admiram ou não”. Assim o amor, como a flor, ama por amar e floresce como fruto de uma relação livre, como entre os enamorados.

Pelo fato de sermos humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criar condições para que a amorização aconteça entre os seres humanos e com todos os demais seres da natureza. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.Os poetas sabem disso.

O amor é urgente no Brasil e no mundo. Milhares de refugiados são excluídos e nordestinos, ofendidos. Mais que perguntar quem destila raiva e intolerância é perguntar por que as praticam. Seguramente porque faltou o amor como relação que abriga os seres humanos na bela experiência de cada um se abrir e acolher jovialmente o outro e de se respeitarem mutuamente.

Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama o dinheiro e os bens materiais; ele ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção e sua capacidade de consumir. Mas ele não ama gratuitamente as pessoas como pessoas, portadoras de dignidade e de valor.

Pregar o amor e dizer: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos”, significa uma revolução. É ser anti-cultura dominante e contra o ódio imperante.

Há de se fazer do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, escreveu no final de cada cântico da Divina Comédia: “o amor que move o céu e todas as estrelas”; e eu acrescentaria, amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto do Ser que faz ser tudo o que é.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu A   força da ternura, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2012.

 

 

 

The Amazon: neither savage, nor the World’s Lungs or Granary

The Pan-Amazon Synod that will take place in Rome this October, requires a better knowledge of the Amazon ecosystem. Myths must be ferreted out.

The first myth: the Indigenous people as wild, genuinely natural, and therefore, in perfect harmony with nature. The Indigenous are regulated not by cultural but by natural criteria. The Indigenous are in a sort of a biological siesta with nature, in a perfect, passive, adaptation to its rhythms and logic.

This ecologization of the Indigenous is a fantasy, resulting from the fatigue of urban life, with its excessive technology and artificiality.

What we can say is that the Amazon Indigenous are as human any other, and as such, they are in constant interaction with the environment. More and more, research reveals the interaction between the Indigenous and nature, and their mutual affects on each other. The relationships are not “natural,” but cultural, like ours, in an intricate web of reciprocity. Perhaps the Indigenous have something unique that sets them apart from modern man: they experience and understand nature as part of their society and culture, an extension of their personal and social body. For them, nature is not, as it is for the modern man, a mute and neutral object. Nature speaks and the Indigenous listen and understand her voice and her message. Nature is part of society and society is part of nature, in a constant process of reciprocal adaptation. For that reason the Indigenous are much better integrated than we are. We have much to learn from the relationship the Indigenous maintain with nature.

The second myth: The Amazon is the lungs of the world.Specialists affirm that the Amazon jungle is in a state of climax. That is, the Amazon is in an optimal state of life, a dynamic equilibrium in which everything is well utilized and therefore everything is in balance. The energy captured by plants is put to good use through the interactions of the food chain. The oxygen they liberate during the day through photosynthesis is utilized at night by the plants themselves, and other living organisms. Therefore, the Amazon is not the world’s lungs.

But the Amazon does function as a great fixer of carbon dioxide. In the process of photosynthesis great quantities of carbon are absorbed. And carbon dioxide is a principal cause of the greenhouse effect that warms the Earth (in the last 100 years it grew by 25%). If one day the Amazon were totally deforested, nearly 50 billion tons of carbon dioxide a year would be launched into the atmosphere. That would cause a massive extinction of living organisms.

The third myth: the Amazon as the world’s bread basket. That is what the first explorers thought, such as von Humboldt and Bonpland and the Brazilians planners while the military was in power (1964-1983). That is not true. Research has shown that “the jungle lives by herself” and in great part “for herself” (cf. Baum, V., Das Ökosystem der tropischen Regenswälder, Giessen 1986, 39). The jungle is luxuriant but the soil is poor in humus. This sounds paradoxical. Harald Sioli, the great specialist in the Amazon, put it clearly: “the jungle actually grows on the soil and not from the soil” (A Amazônia, Vozes 1985, 60). And he explains: the soil is only the physical support for an intricate web of roots. The trees’ roots are intertwined and mutually support each other at the base. An immense balance and rhythm is formed. All the jungle moves and dances. This is why, when one tree falls it drags several other trees down as well.

The jungle maintains her exuberant character because it is a closed chain of nutrients. Aided by the water that drips from the leaves and runs down the tree trunks, a bio-layer of leaves, fruits, small roots, and wild animal droppings decomposes into the soil. It is not the soil that nourishes the trees. It is the trees that nourish the soil. Those two sources of water wash down, carrying the excrement of tree dwelling animals and of the larger species, such as birds, coatis, macaques, sloths and others, as well as the myriad of insects that live in the tree tops. An enormous quantity of fungi and countless micro-organisms make these nutrients available to the roots. Through the roots, the plants absorb them, guaranteeing the captivating exuberance of the Amazon Hileia. But it is a closed system, with a complex and fragile equilibrium. Any small deviation can have disastrous consequences.

The humus commonly is not more than 30-40 centimeters deep, and can be washed away by torrential rains. In a short time, sand would appear. The Amazon without the jungle would be transformed into an immense sabana or even a desert. That is why the Amazon never can be the granary of the world, but will continue being the temple of the greatest biodiversity.

The specialist of the Amazon, Shelton H. Davis, noted in 1978 a truth that is still valid in 2019: “A silent war is presently being waged against the Aboriginal peoples, against innocent peasants and against the ecosystem of the jungle in the Amazon basin” (Victims of the miracle, Saar 1978, 202). Until 1968 the jungle was practically intact. Ever since, with the great hydroelectric projects and agribusiness; and now with the anti-ecologism of the Bolsonaro government, the brutalization and devastation of the Amazon continues.

Leonardo Boff  is Eco-Theologian-Philosopher and of theEarthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

 

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