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A nova Constituição de 2017: desta vez, antiCidadã:Ivo Lesbaupin

Em momentos obscuros como os nossos é sempre bom ler textos que nos podem despertar o senso crítico e orientar como o atual de Ivo Lesbaupin, conhecido cientista social. Escreveu recentemente nosso melhor analista da cena internacional e nacional Moniz Bandeira:”É um estado de exceção o que foi implantado com o impeachment de Dilma e o Congresso atual não foi eleito com poderes constituintes, como está a fazer sob a batuta de Temer… É triste o quadro político no Brasil: uma ditadura disfarçada, exercida por um bando de gente envolvida na corrupção”. Eis o texto de Lesbaupin:  Lboff

A nova Constituição de 2017: desta vez, antiCidadã

O que o Congresso está votando hoje não são apenas algumas emendas constitucionais: ele está votando às pressas, sem debate com a sociedade, sob pressão de uma massiva campanha de propaganda e com apoio da grande mídia, uma nova Constituição. A maioria dos parlamentares está votando não com a sua consciência, mas com “incentivos” oferecidos pelo governo: isto é o que explica que o governo tenha uma maioria tranquila para aprovar seus projetos“.

Ivo Lesbaupin, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e coordenador da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro.

Segundo ele, “para enfrentar a crise, exige-se, supostamente, a contribuição de todos: “cada um tem de fazer a sua parte”. Mas não: só se está cobrando da parte mais pobre da sociedade, da maioria. Dos mais ricos, dos 5% mais ricos da população, não se pede nada, não se cobra nada: nem imposto sobre lucros e dividendos, nem taxação de grandes fortunas, nem contribuição sobre transações financeiras. Ao contrário, eles ficarão mais ricos”.

Eis o artigo.

O processo a que estamos assistindo é a elaboração, sob as nossas barbas, de uma nova constituição, que joga a Constituição Cidadã no lixo. A Constituição de 1988, que tinha a missão de eliminar de vez o entulho autoritário e estabelecer bases democráticas para a nação, foi elaborada com intensa participação de cidadãos e cidadãs, durante mais de dois anos. Foi elaborada em amplo processo de negociação em que tomaram parte todos os setores da sociedade, parlamentares, partidos políticos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, indivíduos. Foram apresentadas 120 propostas de emendas populares, reunindo 12 milhões de assinaturas e, não custa lembrar, não havia internet nem celular.

A nova constituição está sendo elaborada por encomenda de um governo ilegítimo e eivado de corruptos, inaugurado a partir do impedimento de uma presidente eleita pelo voto popular, impedimento, diga-se com todas as letras, sem crime de responsabilidade. Um governo ilegítimo que é aprovado por menos de 10% da população. Está sendo aprovada a toque de caixa por um Congresso onde mais da metade dos parlamentares está sob suspeita de corrupção, improbidade administrativa, recebimento de propinas ou caixa 2. Mais da metade dos parlamentares foi eleita com recursos de empresas (bancos, empreiteiras ou outras empresas, inclusive do agronegócio): tais políticos não representam os interesses de seus eleitores e, sim, os interesses de seus “compradores” (os financiadores de suas campanhas).

O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação.

Veja-se o artigo 1º da Constituição de 1988:

“A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos:
I –a soberania;
II –a cidadania;
III –a dignidade da pessoa humana;
IV–os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V–o pluralismo político.
Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

E o artigo 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. (EC no 26/2000 e EC no 64/2010)

Não se trata apenas dos direitos que constam da nossa Constituição, trata-se dos direitos humanos fundamentais, aqueles que fazem parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 1948!).

Veja-se o artigo 23, parágrafo 1º, por exemplo:

“Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego”.

Ou o artigo 25:

“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade”.

Nenhum destes direitos ficará de pé com a entrada em vigor da PEC 55, a PEC do Teto dos Gastos (também conhecida como “PEC do Fim do Mundo” ou de “PEC da Morte”) ou com a lei da “terceirização universal” recentemente aprovada, com a reforma trabalhista ou com a reforma da Previdência que o governo pretende fazer votar. Os direitos sociais promulgados em 1988 estão sendo simplesmente descartados, supostamente para enfrentar a grave crise econômica por que estamos passando. Mas esta retirada de direitos não resolverá a crise econômica, apenas transferirá uma boa parte dos salários, aposentadorias e pensões da maioria da sociedade, dos trabalhadores, da classe média e dos mais pobres, para os mais ricos, para a elite. Para a maioria, a crise só vai aumentar.

O que o Congresso está votando hoje não são apenas algumas emendas constitucionais: ele está votando às pressas, sem debate com a sociedade, sob pressão de uma massiva campanha de propaganda e com apoio da grande mídia, uma nova Constituição. A maioria dos parlamentares está votando não com a sua consciência, mas com “incentivos” oferecidos pelo governo: isto é o que explica que o governo tenha uma maioria tranquila para aprovar seus projetos. Como diz a imprensa em sua linguagem rebuscada: o Congresso se tornou um “balcão de negócios” (com recursos públicos). Quando não se consegue o número suficiente de votos favoráveis, oferece-se um pouco mais e os votos mudam.

É este o país livre da corrupção que se queria? Com os parlamentares sendo corrompidos à luz do dia (ou melhor, à luz da noite)? Como é que um grupo de parlamentares vota uma matéria com uma posição e, no dia seguinte, sobre a mesma matéria, toma a posição contrária? O que se passou nesta noite para que o voto mudasse? E aquilo que aprovaram vai virar parte da nossa nova Constituição?

Para enfrentar a crise, exige-se, supostamente, a contribuição de todos: “cada um tem de fazer a sua parte”. Mas não: só se está cobrando da parte mais pobre da sociedade, da maioria. Dos mais ricos, dos 5% mais ricos da população, não se pede nada, não se cobra nada: nem imposto sobre lucros e dividendos, nem taxação de grandes fortunas, nem contribuição sobre transações financeiras. Ao contrário, eles ficarão mais ricos.

Os brasileiros não vão ser consultados sobre as leis que seus “representantes” estão aprovando? É legítimo mudar a Constituição, a Lei Maior do país, sem um referendo? Sem debate público?

Que democracia é esta, em que o soberano – o povo – não é chamado a decidir nem a opinar sobre o que estão decidindo em seu nome?

The crucified of today and the Crucified of yesterda

The great majority of humanity lives today crucified by misery, hunger, the scarcity of water, and unemployment. Nature is also crucified, devastated by the industrialist greed that refuses to accept any limits. Mother Earth is crucified, exhausted to the point of having lost her internal equilibrium, which is evident from global warming.

The religious and Christian understanding sees Christ Himself present in all these crucified beings. By having assumed our human and cosmic reality, He suffers with all who suffer. The roaring chain saws bringing down the jungles are blows to His body. He continues bleeding in our decimated ecosystems and polluted waters. The incarnation of the Son of God established a mysterious solidarity of life and destiny with all that He assumed, with all of humanity and all the shadows and lights that our humanity presupposes.

The oldest Gospel, the Gospel of Saint Mark, records the terrible words at the death of Jesus. Abandoned by all, in the height of the cross, He also feels abandoned by the Father of goodness and mercy. Jesus cries:

«”My God, my God, why hast thou forsaken me?” “And Jesus cried with a loud voice , and gave up the ghost ”» (Mark 15,34.37).

Jesus did not die as all of us die. He died murdered in the most humiliating form of that time: nailed on a cross. Hanging between heaven and Earth, He agonized for three hours on the cross.

The human rejection that could decree the crucifixion of Jesus, cannot define the meaning that Jesus gave to the crucifixion imposed on Him. The One crucified defined the meaning of His crucifixion as solidarity with all the crucified of history who, as Himself, were, are, and will be victims of violence, of unjust social relations, of hatred, of the humiliation of the lesser and of the rejection of the proposal of a Kingdom of justice, fraternity, compassion and of unconditional love.

In spite of His solidarian surrender to the others and to His Father, a terrible and last temptation invades His spirit. The great conflict of Jesus, now agonizing, is with His Father.

The Father He had experienced with profound filial intimacy, the Father He had announced as merciful and full of goodness, a Father with traits of a tender and caring Mother, the Father whose Kingdom He had proclaimed and brought forward in His liberating praxis, that Father now appears to have abandoned Him.

Jesus goes through the hell of the absence of God.

Around three in the afternoon, minutes before the tragic ending, Jesus cried with loud voice: “Eloi, Eloi, lama sabachtani: my God, my God, why hast thou forsaken me?”. Jesus is almost without hope. From the most abysmal emptiness of His spirit, arise dreadful questionings that create the most startling temptation suffered by human beings, and now by Jesus, the temptation of desperation. Jesus asks himself:

“Could it be that my faithfulness was absurd? Is the struggle carried out by the oppressed and by God senseless? Was it all in vain: the risks I went through, the persecutions I endured, the humiliating judicial-religious process in which I was condemned with the capital sentence: the crucifixion that I suffer now?”

Jesus finds himself naked, impotent, totally empty before the Father who is silent and with that silence reveals all His Mystery. He has no one to hold on to.

According to human criteria, Jesus totally failed. His interior certainty disappears. But even though there is a sunset on the horizon, Jesus continues trusting in the Father. Because of that He cries in loud voice: “My Father… My Father”. In the apex of His despair, Jesus gives Himself up to the truly nameless Mystery. That will be His only hope beyond of any security. He no longer has any support by Himself, only through God, that is now in hiding. The absolute hope of Jesus can only be understood in the assumption of His absolute desperation. Where hopelessness abounded, hope was over abundant.

The greatness of Jesus consisted of enduring and overcoming this frightful temptation. This temptation brought Him to a total surrender to God, an unconditional solidarity with His brothers and sisters, also desperate and crucified throughout history, a total divestiture of Himself, an absolute de-centering of Himself in function of the others. Only that way death is death and can be complete: the perfect surrender to God and to the suffering sons and daughters of God, the smallest of His brothers and sisters.

The last words of Jesus show His surrender, neither resigned nor fatal, but free: Father. into thy hands I commend my spirit (Luke 23,46). It is finished (John 19,30).

The Good Friday continues, but does not have the last word. The resurrection as the emergence of the new being is the great reply of the Father and the promise to us all.

Leonardo Boff Theologian-Philosopher of the Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Não fiz as críticas a Lula que falsamente me atribuem

Correm pelas redes sociais críticas que teria feito a Lula. Elas são falsas. Pessoalmente não fiz nenhuma crítica. O que fiz foi publicar no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) um artigo de Carla Jiménez no jornal espanhol El Pais que leva como o título:”Uma elite amoral e mesquinha se revela nas delações da Odebrecht”.

Considerei o artigo bem informado sobre a corrupção que tomou conta das empreiteiras. Estas  corromperam e beneficiaram a quase todos os grandes partidos com caixa 2 ou com propinas. Um olhar de fora é sempre instrutivo, pois quando alguém escreve algo semelhante, aqui dentro do país, frequentemente é desqualificado como partidista, oportunista e mesmo falso.

No referido artigo Carla Jiménez, no final, faz críticas ao Lula o que considero, dentro da democracia, legítimo, embora não concorde.

Fiz um introdução bastante longa ao artigo e depois o transcrevi.

Pessoas mal intencionadas tomaram aquele tópico critico a Lula e o atribuiram a mim como se eu tivesse escrito tal coisa. E assim foi distribuido nas redes sociais. Repito: tal crítica não é minha, mas da jornalista do El Pais. Repudio a má fé de quem tirou do texto aquele tópico e falsamente afirma que a crítica foi feita por mim.

Corrupção se realiza não apenas nos negócios, mas corrupção existe também nas mentes de pessoas interessadas em desfazer a imagem do outro atribuindo-lhe coisas que não disse e não fez.

Fica aqui o meu esclarecimento em função da verdade e como denúncia de uma atrbiução feita malevolamente.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e articulista do JB on line.

 

 

 

Em Mato Grosso o campo jorra sangue

Queremos mostrar nossa solidariedade aos familiares dos assassinados da Gleba Taquaruçu, Município de Colniza-MT no dia 20 de abril do corrente ano de 2017. Nos unimos às palavras dos bispos Dom Adriano Ciocca Vasino e de Dom Pedro Casaldáliga,denunciando a violência no campo e a impunidade reinante. Não deixamos de nos solidarizar também com os familiares do soldado francês morto em Paris. Todos somos iguais em dignidade e em humanidade e merecemos o mesmo reconhecimento por maiores que sejam as distâncias: Lboff

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A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia – MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril.

Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.
Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam.

As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.

Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.

Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência.

Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro.

Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo.  E jamais calará a voz das comunidades que lutam.

O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!
São Félix do Araguaia, 21 de abril de 2017.
Obs: Segundo informe da CUT, entre os mortos estão idosos e crianças. Há ainda 20 desaparecidos.

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