Da utopia à distopia  

Frei Betto

No dia 4 de novembro deste ano de 2024 publiquei um artigo sobre a necessidade de uma utopia para conferir sentido aos seres humanos que não vivem sem esperança e sem a projeção de um futuro melhor. Elenquei as grandes do passado, inviáveis, porque não cumpriram o que prometiam. Entramos num mundo distópico, sem utopias. Enumerei algumas que apontam para um futuro de esperança como essa:”Minha pátria é a Terra”. Nos quadros do sistema capitalista financeirizado atual ela é só possível com a reinvenção do ser humano, pois este que está aí só nos leva à nossa destruição (possivelmente por guerra planetária com o risco de fazer desaparecer a espécie humana). Temos que nos reinventar para tornar a utopia de a Terra como única pátria de todos tornar-se viável. Só nos resta esperar e construir as condições histórico-sociais-ecológicos que sirvam de base real para a sustentabilidade desta utopia, realmente salvadora dos humanos e da vida sobre este planeta. A Terra continuará mas sem nós. Publicamos este artigo iluminador de Frei Betto que bem retrata a atual situação distópica de hoje: LBoff

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“Não se projeta mais uma alternativa pós-capitalista. Procura-se amenizar os desmandos do sistema, ampliar redes de benefícios sociais aos mais pobres sem, no entanto, combater as causas estruturais da desigualdade e do desequilíbrio ambiental. São raras as vozes de ressonância mundial, como a do papa Francisco, que ousam proclamar, ainda que em termos menos convencionais, que dentro do capitalismo a humanidade não tem salvação. Basta ler as encíclicas assinadas por ele”, escreve Frei Betto, escritor, autor do romance “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros.

Eis o artigo.

As recentes eleições no Brasil e no mundo comprovam o avanço das forças políticas de direita. Acuados, os raros governos progressistas fazem concessões que contrariam os princípios que regem os programas de seus partidos. Ou adotam posturas autocráticas. Chama a atenção o fato de muitos líderes de direita serem jovens apoiados por jovens.

Perplexa com a perda de espaços e de capacidade de promover mobilizações populares, a esquerda parece não se ter dado conta ainda do grave perigo que o avanço da direita representa para o futuro da humanidade. O clima me recorda Berlim no início da década de 1930, quando todos bailavam pelos cabarés da cidade e conviviam alegremente com aqueles homens uniformizados cujas braçadeiras exibiam a suástica!

Sou da geração de 1968 que promoveu a revolução sexual, se espelhou em Che Guevara, manifestou solidariedade à luta dos vietnamitas contra a invasão dos EUA, aplaudiu os barbudos de Sierra Maestra que libertaram Cuba da órbita da Casa Branca. Geração que se nutria de Sartre e Merleau-Ponty; Reich e Fanon; Marx e Althusser. Geração que enfrentava ditaduras militares, erguia barricadas em defesa da democracia, apoiava greves operárias. Após a redemocratização do Brasil, em 1985, minha geração governou o país por 18 anos!

“E agora, José?/ A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José?”, indagam os versos de Carlos Drummond de Andrade. Quais as causas dessa virada do mundo à direita? Como é possível entender o descaso dos países metropolitanos com a crise climática e o apoio ao genocídio promovido pelo governo sionista de Israel sobre as populações de Gaza e do Líbano? E a ONU, condenada a mero papel decorativo?

Uma das razões dessa virada ideológica se deve ao desaparecimento de paradigmas na cultura ocidental. Ninguém vive sem referências que alimentem a esperança. Minha geração se nutria do marxismo e tinha como referências reais os países socialistas que, apesar dos pesares, representavam um avanço civilizatório comparado aos países capitalistas, em especial quanto à redução das desigualdades sociais.

Tudo isso desabou. Pressionada pelo bloqueio imposto pelos EUA, Cuba enfrenta grave crise econômica, e a China se sustenta no paradoxo de adotar uma política socialista e uma economia capitalista.

Sem paradigmas não se fomentam utopias. E sem utopias não há esperança. O horizonte socialista se apagou do cenário político da esquerda. Líderes de esquerda temem inclusive pronunciar a palavra ‘socialismo’, estigmatizada pela direita. Receiam queimar a boca. Sabem que socialismo soa como sinônimo de comunismo e não atrai votos.

Não se projeta mais uma alternativa pós-capitalista. Procura-se amenizar os desmandos do sistema, ampliar redes de benefícios sociais aos mais pobres sem, no entanto, combater as causas estruturais da desigualdade e do desequilíbrio ambiental. São raras as vozes de ressonância mundial, como a do papa Francisco, que ousam proclamar, ainda que em termos menos convencionais, que dentro do capitalismo a humanidade não tem salvação. Basta ler as encíclicas assinadas por ele.

Sem teorias que iluminem, sem países que sirvam de exemplo, a esquerda fica à deriva no turbulento curso do rio da história sem saber onde haverá de desaguar. Hoje, Hitler e Mussolini se sentiriam à vontade no cenário internacional. Seriam aplaudidos como guias e exaltados como Trump, mormente se abrissem mão do antissemitismo.

Como o eleitor dará apoio e votos à esquerda se não há quem lhe apresente um antídoto à avassaladora deseducação política promovida pelas poderosas ferramentas midiáticas controladas pela direita? O povo não pensa no global, pensa no local; não foca o social, foca o pessoal. Quer segurança no bairro onde mora, acesso à internet, escola, moradia e emprego; prosperar e se livrar da humilhação de uma existência empobrecida e subalterna.

“Gente é pra brilhar”, proclama Caetano. As redes presenciais, que organizavam amplos setores populares (CEBs, sindicatos, movimentos sociais, núcleos partidários etc.) se esgarçaram. Ao lutar pelo fim do imposto sindical, a esquerda fragilizou toda a estrutura da organização e da mobilização operárias.

Agora, as redes virtuais imperam, destituem seus dependentes de cidadania e neles incutem o consumismo, o narcisismo e o individualismo. A ideologia do empreendedorismo leva multidões a abraçarem o “cada um por si e Deus por ninguém”. Incutido na cabeça do povo o sistema culpabiliza o indivíduo por não ser capaz de sair da pobreza e obter renda própria.

Como enfrentar tamanho eclipse da utopia que mobilizava multidões de jovens e aqueles que confiavam nas pautas da esquerda? O que temos a apresentar de melhor além de promessas?

Hoje, é incomensurável o número de jovens asfixiados pelo niilismo. Ignoram a ética, são indiferentes à religião, desprezam a política, têm ideias tão desalinhadas quanto os fios de seus cabelos. Sonham apenas em ter um bom emprego e uma vida confortável – um lugar ao sol nesse sistema cada vez mais afunilado e excludente.

Essa conjuntura obriga as forças progressistas a pôr as barbas de molho e reavaliar sua atuação política, sua linguagem, seu programa e seus objetivos.

O mundo retrocede. Da utopia para a distopia. E isso até os cegos enxergam.

Fonte: IHU 04/11/2024

Minha Pátria é a Terra: a promissora utopia

Leonardo Boff

Hoje vivemos tempos distópicos, carentes de inspirações utópicas. As grandes utopias do passado não cumpriram suas promessas: do iluminismo, dar instrução a todo mundo; do capitalismo, todos podem se tornar ricos; do socialismo, igualdade entre todos; do comunismo,uma sociedade sem classes; da pós-modernidade, não há narrativas universais, cada um escolhe a sua. O fato é que nenhuma sociedade, isso os antropólogos e sociólogos nos garantem, vive sem ter uma utopia, quer dizer, uma ideia forte, um sonho inspirador que dê sentido à vida das pessoas,  à sociedade e à história.

Bem dizia o escritor irlandês Oscar Wilde:”Um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno de ser espiado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo em seguida, para uma terra ainda melhor”.

Mas o sonho utópico nunca morre, pois é da essência do ser humano, o princípio esprança (Ernst Bloch) de estar sempre a caminho. É completo mas imperfeito, pois busca sempre melhorar sua humanidade. Tem muito de verdade a utopia de Pierre Teilhard de Chardin ainda nos idos de 1930, a irrupção lá na frente, da noosfera na qual coração e mente da humanidade chegariam a uma feliz convergência. Também a utopia que circula nas bases:”a alma não tem fronteira, nenhuma vida é estrangeira”. Ou aquela que até a TV fez circular:”minha pátria é a Terra”, utopia verdadeira.

Duas utopias viáveis foram propostas, a da Carta da Terra (2000) com sua ética do cuidado para com todos os seres e a do Papa Francisco com sua ecologia integral, “Como cuidar da Casa Comum”(2015) na qual afirma a relação de todos com todos,”com o sol e a lua, com o cedro e o o pardal”(n.86) e da “fraternidade universal” entre os humanos e com todos os seres da natureza (Fratelli tutti 2015) porquanto todos foram gerados pela Mãe Terra e possuem o mesmo código genético de base.

Quero apresentar a utopia radical de Robert Müller, por 40 anos alto funcionário da ONU e primeiro reitor Universidade da Paz fundada pela ONU em Costa Rica.Ela nos remete à utopia bíblica do “novo céu e da nova Terra”. Projetou um Novo Gênesis (cf. O nascimento de uma civilização global, Aquarius, São Paulo 1993 p,170-171):

“E Deus viu que todas as nações da Terra, negras e brancas, pobres e ricas, do Norte e do Sul, do Oriente e do Ocidente, de todos os credos, enviavam seus emissários a um grande edifício de cristal às margens do rio do Sol Nascente, na ilha de Manhattan, para juntos estudarem, juntos pensarem e juntos cuidarem do mundo e de todos os seus povos.E Deus disse:” Isso é bom”. E esse foi o primeiro dia da Nova Era da Terra.

       E Deus viu que os soldados da paz separavam os combatentes de nações em guerra, que as diferenças eram resolvidas pela negociação e pela razão e não pelas armas, e que os líderes das nações encontravam-se, trocavam ideias e uniam seus corações, suas mentes, suas almas e suas forças para o benefício de toda a humanidade.  E Deus disse:” Isso é bom.”E esse foi o segundo dia do Planeta da Paz.

E Deus viu que os seres humanos amavam a totalidade da Criação, as estrelas e o sol, o dia e a noite, o ar e os oceanos, a terra e as águas, os peixes e as aves, as flores e as plantas e todos os seus irmãos e irmãs humanos.E Deus disse:”Isso é bom.”E esse foi o terceiro dia do Planeta da Felicidade.

E Deus viu que os seres humanos eliminavam a fome, a doença, a ignorância e o sofrimento em todo o globo, proporcionando a cada pessoa humana uma vida decente, consciente e feliz, reduzindo a avidez, a força e a riqueza de uns poucos. E Deus disse:”Isto é bom.”E esse foi o quarto dia do Planeta da Justiça.

E Deus viu que os seres humanos viviam em harmonia com seu planeta e em paz com os outros, gerenciando seus recursos com sabedoria, evitando o desperdício, refreando os excessos, substituindo o ódio pelo amor, a avidez pelo contentamento, a arrogância pela humildade, a divisão pela cooperação e a suspeita pela compreensão. E Deus disse:” Isso é bom.”E esse foi o quinto dia do Planeta de Ouro.

E Deus viu que as nações destruíam  suas armas, suas bombas, seus mísseis, seus navios e aviões de guerra, desativando suas bases e desmobilizando seus exércitos, mantendo apenas policiais da paz para proteger os bons dos maus e os normais dos insanos.  E Deus disse:” Isso é bom”. E esse foi o sexto dia do Planeta da Razão.

E Deus viu que os seres humanos restauravam Deus e a pessoa humana como o Alfa e o Ômega, reduzindo instituições, crenças, políticas, governos e todas as entidades humanas a simples servidores de Deus e dos povos. E Deus os viu adotar como lei suprema:”Amarás ao Deus do Universo com todo o teu coração, com toda  tua alma, com toda atua mente e com todas as tuas forças. Amarás teu belo e miraculoso planeta e o tratarás com infinito cuidado. Amarás teus irmãos e irmãs humanos como amas a ti mesmo. Não há mandamentos maiores que estes. E Deus disse:”Isso é bom.”E esse foi o sétimo dia do Planeta de Deus“.

       Não estou seguro de que este sonho de Robert Muller seja, por ora, viável com o tipo de seres humanos que nos tornamos. Mas reinventando o ser humano – esse é o nosso desafio caso queiramos sobreviver – este sonho poderá tornar-se realidade.Pois,nunca nos cansamos de sonhar de que um dia poderemos vivenciar essa promissora utopia viável: A minha pátria é a Terra.

Leonardo Boff escreveu O doloroso parto da Mãe Terra, Vozes 2021.

MUERE GUSTAVO GUTIÉRREZ, PADRE DE LA TEOLOGÍA DE LA LIBERACIÓN

Leonardo Boff*

El 22 de octubre de este año murió en Lima, con 96 años cumplidos, el iniciador de la TEOLOGÍA DE LA LIBERACIÓN, Gustavo Gutiérrez (1928-2024).

Era un amigo entrañable, con el que colaboramos a partir de los años setenta para hacer una teología adecuada a la situación de América Latina, hecha de injusticias sociales y de pobreza humillante.

Como para todo teólogo, el centro de su indagación es Dios. En primer lugar Dios como experiencia de vida, en especial a partir el sufrimiento humano, y solo después como reflexión reverente.

El tema perturbador que le acompañó a lo largo de toda su vida era el sufrimiento. Él mismo sufrió de poliomelitis y estuvo durante años en una silla de ruedas. Después, operado, caminaba con dificultad. Era pequeño, cojo, fornido, cara de índio quechua y dotado de una inteligencia extraordinaria, creativa, llena de humor y de bellas “trouvailles” como esta: “los politicos sólo tienen en mente una intención, la segunda”. En suma, era fundamentalmente un hombre bueno, sencillo, humilde y espirituoso.

Su gran pregunta, de fondo biográfico, era: ¿cómo comprender a Dios ante el sufrimiento del inocente; cómo comprender a Jesús resucitado en un mundo donde las personas debido a la opresión mueren antes de tiempo; cómo encontrar a Dios liberador en un mundo donde falta fraternidad y solidaridad?

El mensaje cristiano no solo concierne a la vida eterna y al Reino de Dios, sino que ofrece estímulos para mejorar la vida presente, especialmente la de los pobres y oprimidos, en la convicción de que la vida eterna y el Reino de Dios ya comienzan aquí en la Tierra. Es más, el propio Jesús histórico fue un pobre y no tenía dónde reposar su cabeza. De aquí que Gustavo Gutiérrez entiende la teología como “una reflexión crítica de la práxis histórica a la luz de la Palabra de la revelación”.

El libro fundador en 1971 fue TEOLOGIA DE LA LIBERACIÓN, PERSPECTIVAS. Curiosamente, ese mismo año, sin conocernos, yo escribía JESUCRISTO EL LIBERADOR, Juan Luis Segundo en Uruguay y Segundo Galilea en Chile trabajaban también en una perspectiva de liberación. No nos conocíamos pero oíamos una llamada, creo, venida del Espíritu (Hegel diria del Weltgeist) y nosotros éramos solo meros micrófonos que realzaban el sonido de esa llamada.

El eje estructurador de este tipo de teología es la opción no excluyente por los pobres, contra la pobreza y a favor de la justicia social y de la liberación, apoyándose siempre en la tradición de los profetas y en la práctica del Jesús histórico. Bien afirmaba Gustavo: “Los pobres son los predilectos de Dios, no porque sean cristianos, religiosos o buenos, sino porque Dios, identificándose con ellos, es bueno y misericordioso”. Dios vivo opta por aquellos que menos vida tienen. Este es el fundamento teológico de la opción por los pobres, por su vida oprimida y por su liberación.

Hombre profundamente espiritual, vivió con los pobres en el barrio periférico Rimac de Lima. De esa inserción nacieron casi todas sus obras, especialmente BEBER EN SU PROPIO POZO; EL DIOS DE LA VIDA; LA FUERZA HISTÓRICA DE LOS POBRES; DÓNDE DORMIRÁN LOS POBRES; EN BUSCA DE LOS POBRES DE JESUCRISTO: EL PENSAMIENTO DE BARTOLMÉ DE LAS CASAS y otros.

Como otros teólogos de la liberación sufrió incomprensiones y persecuciones, especialmente del Cardeal de Lima, Cipriani, del Opus Dei, con la acusación de que sería una teología marxista. Esa idea era reforzada por el mayor opositor, diría que hasta perseguidor de la Teología de la Liberación, el Cardenal López Trujillo de Medellín (Colombia). Esa acusación no se sostiene, pero siempre se le ha hecho a todos los que, como Dom Helder Câmara, entienden la situación de los pobres como víctimas de una sociedad de injusticias y de explotación que demanda una transformación histórico-social.

En América Latina se extendió el concepto de pobre a los indígenas, los negros, las mujeres, pobres económicos, culturales y de otra opción sexual. Así surgieron las distintas vertientes de la Teología de la liberación. Para cada grupo específico, su método adecuado y su correspondiente liberación. El método es siempre: ver la realidad sufriente; juzgar con medios científicos y a la luz de la fe; actuar para transformar esa antirealidad, teniendo como protagonistas principales a los propios oprimidos.

De ahí la liberación a partir de la fe. Marx nunca fue padre ni padrino de la Teología de la Liberación como la acusan, sin fundamento, algunos todavía hoy. Su inspiración se encuentra en las fuentes de la fe cristiana, en las Escrituras y en la tradición de figuras como San Francisco de Asís, San Vicente de Paúl y otros que dieron centralidad a los pobres.

Por su seriedad recibió innumerables premios y títulos de doctor honoris causa. No daba importancia a estos reconocimientos, pues se situaba siempre en el lugar de origen, la pobreza y los pobres con los cuales compartía la vida.

El Papa Francisco lo recibió en Roma, en un gesto de reconocimiento de su reflexión como una riqueza para toda la Iglesia. En sus exequias, el Papa envió este breve mensaje:

Hoy pienso en Gustavo Gutiérrez, un grande, un hombre de Iglesia que supo estar callado cuando tenía que estar callado, supo sufrir cuando le tocó sufrir, supo llevar adelante tanto fruto apostólico y tanta teología rica. Que en paz descanse”.

Nosotros que lo conocimos en su trabajo y en su día-a-día damos testimonio de que vivió y murió con claras señales de santidad personal. Y le echaremos mucho de menos.

Traducción de Mªjosé Gavito Milano

GUSTAVO GUTIÉRREZ, VATER DER BEFREIUNGSTHEOLOGIE, IST GESTORBEN

Leonardo Boff

Am 22. Oktober dieses Jahres ist der Begründer der BEFREIUNGSTHEOLOGIE, Gustavo Gutiérrez (1928-2024), im Alter von 96 Jahren in Lima gestorben.

Er war ein enger Freund, mit dem wir seit den 1970er Jahren zusammenarbeiteten, um eine Theologie zu entwickeln, die der Situation in Lateinamerika, die von sozialer Ungerechtigkeit und erniedrigender Armut geprägt ist, angemessen ist.

Wie jeder Theologe steht Gott im Mittelpunkt seiner Betrachtung. Aber zuerst Gott als Lebenserfahrung, besonders unter dem Gesichtspunkt des menschlichen Leidens, und erst dann als ehrfürchtige Reflexion.

Das beunruhigende Thema, das ihn sein ganzes Leben lang begleitete, war das Leiden. Er selbst litt an Kinderlähmung und war jahrelang an den Rollstuhl gefesselt. Nach einer Operation konnte er nur noch mit Mühe gehen. Er war klein, lahm, stämmig, mit dem Gesicht eines Quechua-Indianers und ausgestattet mit einer außergewöhnlichen, kreativen Intelligenz, voller Humor und schöner „Trouvaillen“ wie dieser: „Die Politiker denken nur an eine Absicht, nämlich die zweite“, kurzum, er war im Grunde ein guter, einfacher, bescheidener und geistreicher Mensch.

Seine große Frage mit biografischem Hintergrund lautete: Wie kann man Gott angesichts des Leidens der Unschuldigen verstehen; wie kann man den auferstandenen Jesus in einer Welt verstehen, in der Menschen aufgrund von Unterdrückung vor ihrer Zeit sterben; wie kann man den befreienden Gott in einer Welt finden, in der es an Geschwisterlichkeit und Solidarität fehlt?

Die christliche Botschaft betrifft nicht nur das ewige Leben und das Reich Gottes, sondern bietet auch Anreize, das gegenwärtige Leben zu verbessern, insbesondere das der Armen und Unterdrückten, in der Überzeugung, dass das ewige Leben und das Reich Gottes bereits hier auf Erden beginnen. Darüber hinaus war der historische Jesus selbst arm und hatte kein Dach über dem Kopf. Daher versteht Gutiérrez die Theologie als „kritische Reflexion der historischen Praxis im Licht des Wortes der Offenbarung“.

Das Gründungsbuch von 1971 war THEOLOGIE DER BEFREIUNG, PERSPEKTIVEN. Kurioserweise schrieb ich im selben Jahr, ohne dass wir uns kannten, JESUS CHRISTUS DER BEFREIER, und Juan Luis Segundo in Uruguay und Segundo Galea in Chile arbeiteten ebenfalls aus einer Befreiungsperspektive. Wir kannten einander nicht, aber wir hörten einen Ruf, der, wie ich glaube, vom Geist kam (Hegel würde sagen, vom Weltgeist), und wir waren lediglich die Mikrofone, die den Klang dieses Rufs unterstrichen.

Die strukturierende Achse dieser Art von Theologie ist die nicht-exklusive Option für die Armen, gegen die Armut und für soziale Gerechtigkeit und Befreiung. Sie stützt sich immer auf die Tradition der Propheten und die Praxis des historischen Jesus. Gustavo hat es gut ausgedrückt: „Die Armen sind Gottes Lieblinge, nicht weil sie christlich, religiös oder gut sind, sondern weil Gott, der sich mit ihnen identifiziert, gut und barmherzig ist“. Der lebendige Gott wählt diejenigen aus, die das geringste Leben haben. Dies ist die theologische Grundlage der Option für die Armen, für ihr unterdrücktes Leben und für ihre Befreiung.

Als zutiefst spiritueller Mann lebte er mit den Armen im Randviertel Rimac von Lima. Fast alle seine Werke sind aus dieser Einfügung entstanden, insbesondere TRINKEN AUS DEM EIGENEN BRUNNEN; DER GOTT DES LEBENS; Die historische Stärke der Armen; WO DIE ARMEN SCHLAFEN WERDEN; AUF DER SUCHE NACH DEN ARMEN JESU CHRISTI: DER GEDANKE VON BARTOLMEU DE LAS CASAS u. a.

Wie andere Befreiungstheologen stieß er auf Unverständnis und Verfolgung, insbesondere durch den Kardinal von Lima, Cipriani, vom Opus Dei, mit der Anschuldigung, es handele sich um eine marxistische Theologie. Diese Vorstellung wurde durch den größten Gegner, ja Verfolger der Befreiungstheologie, Kardinal Lopez Trujillo de Medellin in Kolumbien, noch verstärkt. Dieser Vorwurf ist nicht haltbar und wurde immer gegen diejenigen erhoben, die wie Dom Helder Câmara die Situation der Armen als Opfer einer Gesellschaft der Ungerechtigkeit und Ausbeutung sehen, die eine historische und soziale Umgestaltung erfordert. In Lateinamerika wurde der Begriff der Armen auf Indigene, Schwarze, Frauen, wirtschaftlich Arme, kulturell Arme und Menschen mit anderer sexueller Orientierung ausgeweitet. So sind die verschiedenen Strömungen der Befreiungstheologie entstanden. Für jede spezifische Gruppe gibt es eine geeignete Methode und die entsprechende Befreiung. Die Methode ist immer die folgende: die leidende Realität sehen; mit wissenschaftlichen Mitteln und im Lichte des Glaubens urteilen; handeln, um diese Anti-Realität zu verändern, wobei die Unterdrückten selbst die Hauptakteure sind.

Daher Befreiung durch Glauben. Marx war nie der Vater oder Pate der Befreiungstheologie, wie manche ihr auch heute noch haltlos vorwerfen. Ihre Inspiration findet sich in den Quellen des christlichen Glaubens, in der Heiligen Schrift und in der Tradition von Persönlichkeiten wie dem Heiligen Franziskus von Assisi, dem Heiligen Vinzenz von Paul und anderen, die den Armen den Mittelpunkt einräumten.

Für seine Ernsthaftigkeit erhielt er zahlreiche Auszeichnungen und Ehrendoktorwürden. Er legte keinen Wert auf diese Anerkennungen, da er sich immer auf seinen Herkunftsort, die Armut und die Armen, mit denen er sein Leben teilte, besann.

Papst Franziskus empfing ihn in Rom als Geste der Anerkennung für seine Überlegungen, die für die ganze Kirche von großem Wert sind. Anlässlich der Beerdigung sandte der Papst diese kurze Botschaft: „Heute denke ich an Gustavo Gutiérrez, einen großen Mann, einen Mann der Kirche, der es verstand, still zu sein, wenn er still sein musste, der es verstand, zu leiden, wenn er an der Reihe war zu leiden, der es verstand, so viel apostolische Frucht und so viel reiche Theologie weiterzugeben. Möge er in Frieden ruhen“.

Wir, die wir ihn in seiner Arbeit und in seinem täglichen Leben kannten, bezeugen, dass er mit deutlichen Zeichen persönlicher Heiligkeit lebte und starb. Und wir werden ihn sehr vermissen.

Leonardo Boff


Übersetzung von Bettina Gldhartnack