Fechar

There is always somebody waiting for Godot

I knew a man who did everything in life. They say he had been an atheist and a Marxist, that he became a mercenary in the French Foreign Legion and had shot many people.

Suddenly he converted. He became a monk, without withdrawing from the world. He began working as a stevedore, but he devoted all his free time to prayer and meditation. During the day he recited mantras: “Help me Jesus”, “Forgive my sins, Jesus”, “Sanctify me Jesus”, “Make me a friend of the poor, Jesus”, “Make me as poor as the poor, Jesus”.

Curiously, he had his own style of prayer. He thought: if God became a person in Jesus, then He was like us: He peed, cried like a baby asking to be nursed, threw temper tantrums when something bothered Him, as when His diaper was wet.

At the beginning He would have liked Mary more, then He would have liked Joseph more, matters that psychologists explain. And He grew up just like our children, playing with the ants, chasing the dogs, throwing stones at the donkeys and, the rascal, lifting the skirts of the girls to infuriate them, as Fernando Pessoa imagined irreverently.

He prayed to Mary, the mother of the Child Jesus, imagining how she rocked Jesus to sleep, how she washed His diapers in the tank, how she prepared baby food for the Child and a substantial meal for her husband, the good Joseph. And he would be innerly happy with such ruminations because he felt and lived them as matters of his heart. And he frequently cried from spiritual happiness.

When he became a monk, he opted to join those who make the world their cell, and radically live poverty, together with the poor: the Little Brothers of Foucauld. He created a small community in the poorest favela of the city. He had few disciples. Life was very hard: to work with the poor and to meditate. They were only three, who wound up leaving. Such a life, so demanding, was not for them.

He lived in several countries, always threatened with death by the military regimes; he had to hide and to flee to another country. There, soon after, the same thing would happen to him. But he felt safely in the palm of God’s hand. That is why he lived unconcerned.

He was uncomfortable with the institutional Church, the devotional Christianity without commitment to justice for the poor, but finally he worked with a parish that worked with the people. He worked with the landless, the homeless and a group of women. He welcomed the prostitutes who would come to cry their sorrows to him. And leave consoled.

Courageous, he organized public demonstrations in front of city hall and encouraged the occupation of uncultivated land. And when the landless and the homeless managed to establish themselves, he would arrange beautiful ecumenical celebrations, with many symbols, the so-called “mystics”.

Every day, after the afternoon mass, he would retreat into the dark church for a long time. Only the night lamp would send hesitant glimmers of light, transforming the dead statues into living phantoms and the erect columns, into strange witches. And there he would remain, impassible, his eyes fixed on the tabernacle, until the sacristan would come to close the church.

One day I went to the church looking for him. I asked him, on the spot: “Little Brother, (I will not reveal his name because it would make him sad), do you feel God when you come here, after work, to the church to meditate? Does God say something to you?”

With all tranquility, as someone who wakes up from a profound dream, he looked at me sideways and said:

“I feel nothing. For a long time I have not heard the voice of the Friend (that is the how he referred to God). I felt it once. It was fascinating. It filled my days with music. Now I hear nothing. Perhaps the Friend will not talk to me anymore”.

I answered him: “Then, why you continue there in the sacred darkness of the church?”

“I continue -he answered- because I want to be available. If the Friend should want to come, to leave His silence behind and talk, I am here to listen to Him. Can you imagine if He wanted to talk to me, and I would not be here? Because, in every opportunity He comes only once… What would happen to me, unfaithful friend of the Friend?”

Yes, he always continues “Waiting for Godot”. “And he does not move”, as in the play of Samuel Beckett.

I left him in his total availability. I left marveling, and meditating. Thanks to these persons the world is safe and God continues bestowing His mercy on those who forgot Him or who considered Him dead, as a philosopher who went mad said. But there are those who stand vigil and wait, they wait for Godot, filled with hope. And this waiting will make every day new and joyful.

One day the sacristan found him bent on a pew of the church. He thought he was sleeping, but he noticed that his body was cold and rigid.

As the Friend would not come, he went to find Him. Now he does not need to wait for the arrival of Godot. He will be with the Friend, celebrating a friendship, the finest imaginable joy, for time without end.
Leonardo Boff Theologian-Philosopher,Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

A nova Constituição de 2017: desta vez, antiCidadã:Ivo Lesbaupin

Em momentos obscuros como os nossos é sempre bom ler textos que nos podem despertar o senso crítico e orientar como o atual de Ivo Lesbaupin, conhecido cientista social. Escreveu recentemente nosso melhor analista da cena internacional e nacional Moniz Bandeira:”É um estado de exceção o que foi implantado com o impeachment de Dilma e o Congresso atual não foi eleito com poderes constituintes, como está a fazer sob a batuta de Temer… É triste o quadro político no Brasil: uma ditadura disfarçada, exercida por um bando de gente envolvida na corrupção”. Eis o texto de Lesbaupin:  Lboff

A nova Constituição de 2017: desta vez, antiCidadã

O que o Congresso está votando hoje não são apenas algumas emendas constitucionais: ele está votando às pressas, sem debate com a sociedade, sob pressão de uma massiva campanha de propaganda e com apoio da grande mídia, uma nova Constituição. A maioria dos parlamentares está votando não com a sua consciência, mas com “incentivos” oferecidos pelo governo: isto é o que explica que o governo tenha uma maioria tranquila para aprovar seus projetos“.

Ivo Lesbaupin, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e coordenador da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro.

Segundo ele, “para enfrentar a crise, exige-se, supostamente, a contribuição de todos: “cada um tem de fazer a sua parte”. Mas não: só se está cobrando da parte mais pobre da sociedade, da maioria. Dos mais ricos, dos 5% mais ricos da população, não se pede nada, não se cobra nada: nem imposto sobre lucros e dividendos, nem taxação de grandes fortunas, nem contribuição sobre transações financeiras. Ao contrário, eles ficarão mais ricos”.

Eis o artigo.

O processo a que estamos assistindo é a elaboração, sob as nossas barbas, de uma nova constituição, que joga a Constituição Cidadã no lixo. A Constituição de 1988, que tinha a missão de eliminar de vez o entulho autoritário e estabelecer bases democráticas para a nação, foi elaborada com intensa participação de cidadãos e cidadãs, durante mais de dois anos. Foi elaborada em amplo processo de negociação em que tomaram parte todos os setores da sociedade, parlamentares, partidos políticos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, indivíduos. Foram apresentadas 120 propostas de emendas populares, reunindo 12 milhões de assinaturas e, não custa lembrar, não havia internet nem celular.

A nova constituição está sendo elaborada por encomenda de um governo ilegítimo e eivado de corruptos, inaugurado a partir do impedimento de uma presidente eleita pelo voto popular, impedimento, diga-se com todas as letras, sem crime de responsabilidade. Um governo ilegítimo que é aprovado por menos de 10% da população. Está sendo aprovada a toque de caixa por um Congresso onde mais da metade dos parlamentares está sob suspeita de corrupção, improbidade administrativa, recebimento de propinas ou caixa 2. Mais da metade dos parlamentares foi eleita com recursos de empresas (bancos, empreiteiras ou outras empresas, inclusive do agronegócio): tais políticos não representam os interesses de seus eleitores e, sim, os interesses de seus “compradores” (os financiadores de suas campanhas).

O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação.

Veja-se o artigo 1º da Constituição de 1988:

“A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos:
I –a soberania;
II –a cidadania;
III –a dignidade da pessoa humana;
IV–os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V–o pluralismo político.
Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

E o artigo 6º:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. (EC no 26/2000 e EC no 64/2010)

Não se trata apenas dos direitos que constam da nossa Constituição, trata-se dos direitos humanos fundamentais, aqueles que fazem parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 1948!).

Veja-se o artigo 23, parágrafo 1º, por exemplo:

“Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego”.

Ou o artigo 25:

“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade”.

Nenhum destes direitos ficará de pé com a entrada em vigor da PEC 55, a PEC do Teto dos Gastos (também conhecida como “PEC do Fim do Mundo” ou de “PEC da Morte”) ou com a lei da “terceirização universal” recentemente aprovada, com a reforma trabalhista ou com a reforma da Previdência que o governo pretende fazer votar. Os direitos sociais promulgados em 1988 estão sendo simplesmente descartados, supostamente para enfrentar a grave crise econômica por que estamos passando. Mas esta retirada de direitos não resolverá a crise econômica, apenas transferirá uma boa parte dos salários, aposentadorias e pensões da maioria da sociedade, dos trabalhadores, da classe média e dos mais pobres, para os mais ricos, para a elite. Para a maioria, a crise só vai aumentar.

O que o Congresso está votando hoje não são apenas algumas emendas constitucionais: ele está votando às pressas, sem debate com a sociedade, sob pressão de uma massiva campanha de propaganda e com apoio da grande mídia, uma nova Constituição. A maioria dos parlamentares está votando não com a sua consciência, mas com “incentivos” oferecidos pelo governo: isto é o que explica que o governo tenha uma maioria tranquila para aprovar seus projetos. Como diz a imprensa em sua linguagem rebuscada: o Congresso se tornou um “balcão de negócios” (com recursos públicos). Quando não se consegue o número suficiente de votos favoráveis, oferece-se um pouco mais e os votos mudam.

É este o país livre da corrupção que se queria? Com os parlamentares sendo corrompidos à luz do dia (ou melhor, à luz da noite)? Como é que um grupo de parlamentares vota uma matéria com uma posição e, no dia seguinte, sobre a mesma matéria, toma a posição contrária? O que se passou nesta noite para que o voto mudasse? E aquilo que aprovaram vai virar parte da nossa nova Constituição?

Para enfrentar a crise, exige-se, supostamente, a contribuição de todos: “cada um tem de fazer a sua parte”. Mas não: só se está cobrando da parte mais pobre da sociedade, da maioria. Dos mais ricos, dos 5% mais ricos da população, não se pede nada, não se cobra nada: nem imposto sobre lucros e dividendos, nem taxação de grandes fortunas, nem contribuição sobre transações financeiras. Ao contrário, eles ficarão mais ricos.

Os brasileiros não vão ser consultados sobre as leis que seus “representantes” estão aprovando? É legítimo mudar a Constituição, a Lei Maior do país, sem um referendo? Sem debate público?

Que democracia é esta, em que o soberano – o povo – não é chamado a decidir nem a opinar sobre o que estão decidindo em seu nome?

22 de abril: Dia da Mãe Terra

No dia 22 de abril de 2009 realizou-se a 63ºAssembleia da Onu, cujo objeto de discussão era se convinha chamar a Terra de Mãe Terra. Caso fosse aprovada a ideia, o dia 22 de abril não seria mais simplesmente o Dia da Terra, como a patir de vários anos se havia introduzido, mas o Dia da Mãe Terra. O Presidente da Bolívia Evo Morales Ayma, em nome das nações indígenas, fez o  discurso mais de ordem política, provocando grande aplauso da platéia. A mim coube a tarefa de fazer a fundamentação filosófica-ecológica desta proposta. O discurso recebeu ampla acolhida de forma que, por unanimidade, se tomou a resolução de celebrar sempre o dia 22 de abril como o Dia da Mâe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: como cuidar da Casa Comum assumiu esta expressão Mãe Terra. Publico aqui o discurso proferido nesta 63º Assembleia Geral da Onu de  22/04/2009 para reforçar esta compreensão verdadeiramente revolucionária, pois transforma nossa visão da Terra, como mãe e correspondenteemente os comportamentos face a ela. Eis o texto do discurso feito aos 192 representantes dos povos que compõem a Assembleia da ONU. É excusado dizer que os dados correspondem àquela data, pois hoje são outros com uma natueza muito mais grave.

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No de 2000 a Carta da Terra nos fazia esta severa advertência:: «Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro…A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Teerra e cuidarnos uns dos outros ou arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

Se a crise econômico-financeira é preocupante, a crise da insustentabilidade da Terra se apresenta ameaçadora. Os cientistas que acompanham o estado da Terra, especialmente a Global Foot Print Network têm falado do Earth Overshoot Day, do dia em que foram ultrapassados os limites da Terra. E isso ocorreu exatamente no dia 23 de setembro de de 2008, uma semana após o estouro da crise econômico-financeira nos EUA. A Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento necessitamos mais de uma Terra para atender a nossa subsistência.

Como garantir a sustentabilidade da Terra já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentária, a energética e a climática? Agora já não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos devemos nos salvar juntos.

Como asseverou recentemente com muita propriedade o Secretário Geral desta Casa, Ban Ki-Moon: ”não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial”. O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade do planeta Terra. É decisivo superar a crise financeira, porém o imprescindível e essencial é: como vamos salvar a Casa Comum e a Humanidade que é parte dela? Esta é a razão para termos adotado a resolução sobre o Dia Internacional da Mãe Terra que, a partir de agora, se celebrará no dia 22 de abril de cada ano.

Dado o agravamento da situação ambiental, especialmente do aquecimento global, temos que atuar juntos e rápido. Não temos tempo a perder nem nos é permitido errar. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar mas sem nós.

Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e dos demais membros da comunidade de vida, quero agradecer a esta 63º Assembleia Geral da ONU por haver sabiamente aprovado esta resolução.

Neste contexto, me permito fazer uma breve apresentação do fundamento que sustenta a ideia da Terra como nossa Mãe.

Desde da mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama.

Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal.

Durante séculos e séculos prevaleceu esta visão até a emergência recente do espírito científico no século XVI. A partir de então, a Terra já não é mais considerada como Mãe, senão como uma realidade sem espírito, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. A mãe-natureza que devia ser respeitada se transformou em natureza-selvagem que deve ser dominada. A Terra se viu convertida num baú cheio de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano.

Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suporte do sistema-Terra nem dos bens e serviços naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão.

A preocupação principal era e é: como ganhar mais no tempo mais rápido possível e com um investimento menor? A realização histórica deste propósito fez surgir um arquipélago de riqueza rodeado por um mar de miséria.

O PNUD de 2007-2008 o confirma: os 20% mais ricos do mundo absorvem 82,4% de todas as riquezas da Terra enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Estes dados provam que uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam pilhagem da natureza e grande injustiça social.

Entretanto, a partir dos tardios anos 70 do século passado se tem imposto a constatação de que um planeta pequeno, velho e limitado como a Terra já não pode suportar um projeto ilimitado. Faz-se urgente outro modelo que tenha como eixo a Terra, a vida e o bem viver planetário no quadro de um espírito de colaboração, de responsabilidade coletiva e de cuidado.

Agora a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com a Terra, com os seres humanos, como o universo e com a Última Realidade, distribuindo equitativamente os benefícios entre todos e alimentando solidariedade para com as gerações presentes e futuras? Como viver mais com menos?

Foi neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não é mais a percepção dos antigos mas uma constatação empírica e científica. Foi mérito dos cientistas e sábios como Vladimir Vernadsky, James Lovelock, Lynn Margulis e José Lutzenberger nos anos 70 do século passado, ter demostrado que a Terra é um superorganismo vivo que se autoregula. Ela articula permanentemente o físico, o químico e o biológico de forma tão sutil e equilibrada que, sob a luz do sol, propicia a produção e a manutenção de todas as formas de vida. Por milhões de anos o nível do oxigênio, essencial para a vida, se mantem em 21%, o nitrogênio, decisivo para o crescimento, em 79% e o nível de sal dos oceanos em 3,4%. E assim todos os elementos necessários para a vida. Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra mesma é viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva.

Que toda a Terra está cheia de vida no-lo comprova o conhecido biólogo Edward O. Wilson. Escreve ele: ”Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes”. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda.

A Terra existe já há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Com razão nas línguas ocidentais homo/homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de adamah, terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui.

A visão dos astronautas confirma a simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais testemunhavam de forma comovedora: ”daqui, contemplando este resplandecente planeta azul-branco, não se percebe nenhuma diferença entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade”. Mais que como povos, nações e etnias devemos nos entender como criaturas da Terra, como filho e filhas da Mãe comum.

Entretanto, olhando a Terra mais de perto, nos damos conta de que ela se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vive sistematicamente agredida. Quase a metade de seus filhos e filhas padecem fome e sede e são condenados a morrer antes do tempo. A cada quatro segundos, consoante dados da própria ONU, morre uma pessoa estritamente de fome.

Por isso, são expressões de amor à Mãe Terra, as políticas sociais de muitos países, como por exemplo, de meu pais, o Brasil, sob o governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, particularmente o programa Fome Zero e Bolsa Família Em seis anos se devolveu vida e dignidade a 50 milhões de pessoas que antes viviam na pobreza e na fome.

Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la. Para esta tarefa gigantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO a apresentou “como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável”. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong e Steven Rockfeller e eu mesmo entre otros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra, possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembleia Geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra junto com a declaração sobre a dignidade da pessoa humana.

Mas cabe fazer uma advertência. Para sentir a Terra como Mãe não é suficiente a razão dominante que é funcional e instrumental. Necessitamos enriquecê-la com a razão sensível, emocional e cordial, pois ai se enraíza o sentimento profundo, se elaboram os valores, se cultivam o cuidado essencial, a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiães e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe.

Para terminar permito-me fazer uma sugestão: que se coloque na cúpula interna da Assembleia uma destas imagens belíssimas e plásticas da Terra vista a partir de fora da Terra. Suspensa no transfundo negro do universo, ela evoca em nós sentimentos de reverência e de mútua pertença. Ao contemplá-la, tomamos consciência de que ai está o nosso Lar Comum.

Pediria ainda que fosse aprovada uma recomendação de que no dia 22 de abril, dia Internacional da Mãe Terra, se fizesse um momento de silêncio em todos os lugares públicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos parlamentos para que nossos corações entrem em sintonia com o coração de nossa Mãe Terra.

Concluo. Tal como está, a Terra não pode continuar. É urgente que mudemos nossas mentes e nossos corações, nosso modo de produção e nosso padrão de consumo, caso quisermos ter um futuro de esperança. A solução para a Terra não cai do céu. Ela será o resultado de uma coalizão de forças em torno a uma consciência ecológica integral, uns valores éticos multiculturais, uns fins humanísticos e um novo sentido de ser. Só assim honraremos nossa Casa Comum, a Terra, nossa grande generosa Mãe.

Muito obrigado.

Prof. Dr.Dr.Leonardo Boff

Representante do Brasil na Assembleia da ONU  e  membro da Comissão da Carta da Terra.

Discurso proferido no dia 22 de Abril de 2009 na 63º Assembleia Geral da ONU.

 

 

A perda de capilaridade social e a desafeição dos católicos:Pedro Ribeiro de Oliveira

A perda de capilariddade social e a desafeição dos católicos. Desafios da Igreja no Brasil em tempos de Papa Francisco. Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira

Pedro Ribeiro de Oliveira é um de nossos melhores sociólogos da religião, formado na conhecida escola de pensamento do eminente cientista social e sociólogo da religião da universidade de Louvain, na Bélgica. Este mestre formou dezenas de especialistas na área, vindos da Africa, da Ásia e da América Latina. Ele mesmo trabalhou por longos períodos nesses continentes. Vários cientistas sociais e sociólogos da religião brasileiros foram seus alunos. Pedro Ribeiro de Oliveira é leigo, engajando na articulação Fé e Política e um arguto analista da situação da Igreja e do cristianismo em geral no Brasil. E o faz como cabe a um cientista fazê-lo: com objetividade, serenidade e equilíbrio nos juízos. Não é sem razão que  Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) requisita com frequência sua assessoria. Publicamos este texto pois ajudará a muitos interessados no caminho da Igreja no Brasil sob o pontificado do bispo de Roma, o Papa Francisco a terem uma avaliação bem fundada e equilibrada. Publicamos a entrevista dada à e  Patricia Fachin em 21 Abril 2017 e publicada pela IHU-on line:Lboff

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 “Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos”, diz o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Contudo, pontua, depois da publicação de três documentos pontifícios de “grande impacto”, “é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil”.

Um exemplo dessa modificação, segundo o sociólogo, pode ser visto “na posição política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pedro Ribeiro de Oliveira sugere uma “refundação” das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs para alavancar o projeto de uma Igreja em saída e comenta a atuação do laicato na instituição. “O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus”, avalia. Para ele, “muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres)” e, portanto, “movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele”.


Pedro Oliveira na Unisinos, em 2012 (Foto: Acervo IHU)

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por quais razões o senhor afirma que a Igreja perdeu a “capilaridade social” que teve à época da ditadura?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Para explicar a capilaridade social, uso a comparação com as raízes da árvore: elas penetram no solo, absorvem a umidade e a fazem chegar até o alto da copa. Nas raízes reside o segredo do vigor da planta: à medida que elas perdem a capilaridade, a árvore seca. A Igreja católica teve grande capilaridade social até meados do século passado, quando as associações piedosas – Apostolado da Oração, Congregação Mariana, Liga Católica, Vicentinos, Irmandades etc. – congregavam grande quantidade de fiéis. A modernização esvaziou aquelas associações, mas a Igreja recuperou a capilaridade social por meio das dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base – CEBs presentes nas zonas rurais e periferias urbanas. Dinamizadas pelas Pastorais Sociais – como a Pastoral da Terra, Operária, Indigenista, da Juventude e outras – elas penetravam o tecido social brasileiro e funcionavam como artérias de ligação entre as bases populares e os dirigentes eclesiásticos. Se uma liderança de CEB sofria ameaças por sua luta em defesa dos Direitos Humanos, logo essa informação chegava ao conhecimento da CNBB, que se mobilizava em sua defesa. No sentido inverso, quando a CNBB propunha uma campanha em favor dos pobres ou da ordem democrática, podia contar com a mobilização de toda a rede de comunidades espalhadas pelo País para pressionar o governo militar, o Congresso e a sociedade.

A perda dessa capilaridade social deveu-se à orientação imprimida à Igreja pelos pontificados de S. João Paulo II e de Bento XVI, no sentido de conter o avanço das reformas decorrentes do Concílio Vaticano II. Eles implementaram o projeto de restauração identitária, que fez a Igreja refluir para o campo propriamente religioso e perder muito da sua incidência nas lutas de transformação social.

IHU On-Line – Como o senhor caracteriza esse projeto de restauração identitária? Ele ainda se mantém na Igreja, direcionada pela CNBB, diante da atual conjuntura nacional?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Esse conceito refere-se a um conjunto de medidas que reforçam a centralidade romana em detrimento da presença diversificada no mundo. As medidas mais importantes foram: (i) nomeação de bispos alinhados a essa orientação centralizadora para as dioceses mais importantes, (ii) a adoção do Código de Direito Canônico, reformado pela Cúria, como norma pastoral para todas as dioceses, (iii) a adoção do Catecismo da Igreja como norma doutrinal, (iv) o retorno do modelo de seminário exclusivo para a formação do clero, (v) normas litúrgicas para coibir inovações posteriores ao Concílio e (vi) apoio a Movimentos Religiosos de santificação pessoal.

Essas medidas são verdadeiramente estratégicas, porque configuram uma instituição eclesiástica monolítica: centralizada no Papa e nos padres (paróquias), retira a autonomia do bispo (tanto na sua diocese quanto nas Conferências episcopais) e privilegia leigas e leigos interessados apenas em sua salvação. É certo que a renúncia de Bento XVI tirou a força do projeto de restauração identitária, mas aquelas medidas enrijeceram de tal forma a Igreja católica, que acabaram por impedir não só a renovação iniciada durante o Concílio Vaticano II como também as propostas pastorais de Francisco.

IHU On-Line – O papa Francisco tem insistido no discurso de que a Igreja deve ser pastoral e uma “Igreja em saída”. Na prática, o que isso significa?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sua proposta é clara como um cristal bem lapidado: se a missão da Igreja é levar ao mundo todo a Boa-notícia do Reinado de Deus, seu movimento deve ser para fora dos templos e sacristias. O espaço principal de atuação do Povo de Deus é o lugar onde vivem as pessoas, independentemente de sua confissão religiosa. Os cristãos e cristãs devem anunciar com alegria o Evangelho e colaborar com o projeto de construção do Reino de Deus na história. Francisco é enfático: antes correr o risco de se sujar por ter ido às praças e ruas, do que definhar por não sair da sacristia. Em suma, trata-se de juntar-se aos movimentos sociais, respeitando sua laicidade, para que “não haja família sem casa, camponês sem terra, trabalhador sem direitos”. É o que ensina e faz o Papa.

Infelizmente, o projeto de colocar a Igreja em saída tem sido interpretado de maneira a perder seu caráter inovador. Tomo como exemplos dessa deturpação os eventos religiosos de massa destinados a encher as ruas e praças de católicos, ou o padre que leva o confessionário para a praia alegando que assim a Igreja vai onde estão os turistas. É um pouco ridículo, mas assim é…

IHU On-Line – Como essas propostas de Francisco têm repercutido na Igreja brasileira? Quais são as estruturas sociais e eclesiais que potencializam ou inibem uma Igreja em movimento?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O setor eclesial mais afinado com a proposta de Igreja em saída é o de quem se identifica com as CEBs e Pastorais Sociais. Nele estão bispos, padres, religiosas, leigos e leigas. Esse setor tem certa influência na Igreja devido a sua capilaridade social, embora seja numericamente pequeno. Mas está havendo mudança. Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos. Passados dois anos e três documentos pontifícios de grande impacto, é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil. Constato, por exemplo, a mudança na posição política da CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada.

Tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato

Não sei avaliar exatamente a correlação de forças entre os setores identificados com o projeto de Igreja em saída e os setores identificados com a restauração identitária, mas tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato. Ainda não vejo igual avanço entre os padres, que parecem se contentar ao ver igrejas cheias, ainda que seja para “missas de cura e libertação”. É claro que na sociedade a figura e a mensagem de Francisco têm grande aceitação, mas isso pouco representa em termos de força transformadora na Igreja católica. Nessa conjuntura, ainda não são muitos os bispos e padres que ousam seguir o exemplo de Francisco na construção de uma “Igreja pobre para os pobres”. É preciso mais criatividade de quem apoia o projeto de Francisco para desempatar esse jogo…

IHU On-Line – Quais são os potenciais de ressurgimento das CEBs no atual contexto?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Prefiro falar de refundação das CEBs, porque em sua maioria elas perderam o antigo vigor, mas não morreram. Prova disso é a preparação do 14º Encontro Intereclesial, previsto para janeiro de 2018, em todas as regiões do país. Realisticamente, temos que considerar o nítido envelhecimento de seus membros e a sua perda de prestígio na Igreja, porque as celebrações das CEBs não enchem igreja como os cultos de louvor, cura e libertação.

Refundar as CEBs significa retomar e atualizar a intuição teológica que lhes deu origem, ou seja: (i) celebração dominical na comunidade local conduzida por seus animadores e animadoras, (ii) incentivo à leitura bíblica na ótica do oprimido (como faz o CEBI, por exemplo), (iii) coordenação pastoral colegiada, desde as bases comunitárias até os organismos paroquiais e diocesanos, e (iv) articulação com Pastorais sociais que façam a mediação entre o campo eclesial e o sócio-político. Uma refundação assim está em total sintonia com o projeto de Francisco, mas requer ousadia do bispo para governar a diocese segundo o Evangelho, sem deixar-se prender pelas proibições do Direito Canônico.

IHU On-Line – O papa tem estimulado a participação dos leigos na Igreja e tem chamado atenção para que eles não sejam clericais. Como os leigos têm atuado no Brasil? Que avaliação faz do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB? Eles são muito clericais? Qual é a origem desse clericalismo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus. Parecem ainda acreditar que são os representantes de Cristo, como se Ele não tivesse ressuscitado e precisasse de mediadores para se fazer presente na história humana. Daí o clericalismo, tão criticado por Francisco. Lembro que ser contra o clericalismo não é negar a importância do presbítero e do bispo como agentes da unidade eclesial, mas sim opor-se aos privilégios que cercam os clérigos como se fossem dotados de poderes divinos.

É claro que muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres). Clericalismo e conservadorismo caminham de braços dados. Movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele.

A Igreja católica do Brasil somente retomará o rumo libertador depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos

Se a Igreja quer mesmo ser Povo de Deus atuante na história humana, tem que suprimir o clericalismo. Francisco tem dito isso, mas sabe que não é fácil passar do ideal à prática. Penso que uma medida eficiente para promover essa mudança é fechar os seminários e colocar os vocacionados na pastoral, oferecendo-lhes a formação na ação. Esse modelo foi implementado por D. Helder Câmara, quando arcebispo de Olinda e Recife. Os vocacionados viviam como qualquer jovem leigo, sendo acompanhados por professores e professoras que ensinavam a Teologia a partir da reflexão sobre sua experiência de vida, utilizando para isso os sábados e os períodos de férias. Com um custo muito inferior ao dos atuais seminários – que são viveiros do clericalismo – a Igreja poderá formar presbíteros, diáconos e diaconisas seguindo o método “ver, julgar, agir e celebrar”. E assim formar agentes da unidade eclesial para as necessidades do mundo atual.

IHU On-Line – Como avalia os quatro anos do pontificado de Francisco? Quais diria que são as três questões mais positivas do pontificado e os seus três desafios?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Ele retomou a proposta de aggiornamento de João XXIII atualizando-a e fundamentando-a com a Teologia do Concílio Vaticano II. A isso chama de projeto de Igreja em saída. Mas a oposição clerical adotou a estratégia da inércia: fazer de conta que as normas dadas por João Paulo II e Bento XVI ainda estão em vigor.

Penso que o projeto de Francisco só conseguirá avançar sob duas condições. A primeira é fazer seu sucessor na mesma linha pastoral. Por isso está dando formato mais universalista ao colégio de cardeais. A segunda condição é conquistar o apoio efetivo das bases da Igreja. Esta condição é mais complicada, porque depende de bispos com ousadia para substituir as velhas estruturas curiais e paroquiais por estruturas participativas, padres que abandonem o clericalismo e leigos e leigas com coragem e competência para assumir sua missão na Igreja e no Mundo. Francisco dá exemplo de liberdade e criatividade, mas ainda tem sido pouco seguido.

Não sei definir quais seriam as questões mais e menos positivas de seu pontificado. Mas com certeza seu maior desafio é o de convencer a Igreja católica que o mundo está em estado de guerra: guerras localizadas, étnicas, contra a droga ou o terrorismo, mas todas mortíferas, dentro do quadro maior da guerra da espécie humana contra a Terra, nossa casa comum. Francisco já abordou esse tema por várias vezes, mas ainda não conseguiu convencer as bases da Igreja que não basta falar de paz nos corações enquanto a violência está solta pelo mundo, produzindo miséria, refugiados, mutilações e mortes. De Roma ele percebe a realidade global, mas as Igrejas locais continuam olhando para dentro delas mesmas e, no máximo, o que ocorre na sua vizinhança. Imagino o grau de angústia do Papa!

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sim. Não creio que de um momento para o outro a Igreja católica do Brasil retome o rumo libertador que a caracterizou nas décadas de 1970 e 80. Acredito que isso só acontecerá depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos.

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