Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV: nova visão e novo estilo pontifício

Leonardo Boff

         Ao acabar a leitura da primeira encíclica do Papa Leão XIV notamos, com surpresa, a introdução de um novo estilo de argumentação: não é mais aquele eclesiástico clássico, com muitas referências aos pensadores cristãos dos primeiros séculos. Mas um novo, contemporâneo, que dialoga com os vários saberes e autores, homens e mulheres, para além de sua origem confessional. Parece-nos estar lendo um texto de algum teólogo contemporâneo.

Mas ao abordar diretamente o desafio das IA, positivamente, logo afirma que ela continua sempre ser artificial e jamais substitui a natural (MH,97). No entanto “ela pode representar “uma forma de participação do ato divino da criação”(MH,111). Esse dado implica que ela deve assumir “uma responsabilidade ética e espiritual especial, pois cada eleição do desenho, expressa uma visão de humanidade”(MH,111;117;129). Aliás, este ponto é decisivo,na compreensão do Papa:não basta considerar se a técnica e  IA são  boas ou más e seus fins bons, mas tirar a limpo “a visão subjacente, se elas tratam o ser humano como material a ser aperfeiçoado ou a superar…ou o seu progresso moral e social”(MH,117). A IA “não é moralmente neutra, pois todo artefato técnico implica decisões e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica as pessoas e as situações…Deve-se perguntar “como é o desenho, que ideia de pessoa e de sociedade se inscreve nos dados e nos modelos que a guiam”(MH,104). Ela é “intrinsecamente ambígua, pode defender como atacar ou a fronteira entre a proteção e a agressão  tende a se esfumar”(MH,183).

É nesse ponto que o Papa Leão faz uma crítica contundente a duas ideologias, o transhumanismo e o poshumanismo. Estes “dão centralidade total  à técnica e ao sonho de superar os limites da condição humana”(MH,116). O transhumanismo quer exponencialmente exacerbar as capacidades humanas (pela biomedicina,engenharia corporal, algoritmos) para ser mais eficiente e assim alcançar vantagens lucrativas. O poshumanismo “visa ir além do ser humano e conectá-lo de tal forma à máquina e ao meio ambiente que inauguraria  uma nova etapa da evolução” (MH,116). Aqui se menosprezam os limites naturais do ser humano e se promete uma “salvação” puramente técnica”(MH 117). Podemos dizer que hoje, como vários analistas tem apontado, vigora uma idolatria da técnica, uma verdadeira religião. Entre nós o tem denunciado publicamente, nosso neurocientista, mundialmente conhecido Migual Nicolelis.

Seria longo comentar os diversos pontos abordados pela encíclica Magnifica Humanitas. Praticamente seu leque se estende das filosofias da vida, passando pela política (os vários radicalismos) pela economia (financeirização e as criptomoedas),pelo resgate do coração, pela educação, pela importância do imaginário social, pela questão do trabalho e da ecologia, desembocando nas utopias com base na cultura digital, tecnológica e cibernética e finalmente  na civilização amor. Esta “não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente”(MH 186).

Esquematizando, é visível o background intelectual, teológico e espiritual do atual Papa. Ele se funda em Santo Agostinho (354-430), inspirador de sua Ordem Religiosa (agostinianos). Como é sabido, o bispo de Hipona, um dos gênios do pensamento ocidental, articula sua visão da história no jogo dialético entre as duas cidades e os dois amores (129-130): a cidade terrenal e a cidade celeste, o amor a Deus e ao próximo e o amor a si mesmo. Biblicamente significa: construir a Babel, protótipo do ser humano que soberbamente só pensa em si, olvidando Deus, e reconstruir Jerusalém, exemplo do ser humano que faz a história pensando em Deus e a partir dele em si mesmo (MH,130).

Leão XIV atualiza esta dialética com aquilo que está ocorrendo atualmente: um sistema de vigilância e controle sobre as populações, proposto por algumas plataformas digitais, especialmente a mais perversa de todas, a Palantir (controlar todas pessoas de um país e usar a IA para a guerra) e  o sistema do cuidado do ser humano, de sua relação respeitosa para com a natureza e a confraternização universal entre os humanos e estes com o Todo.Toda sua reflexão pressupõe este enfrentamento atual. Toma partido claramente pelo cuidado, pelo amor desinteressado, pelo olhar das vítimas, dos pobres e oprimidos.

Apresenta-nos um texto contemporâneo, atualíssimo, com a linguagem de nosso tempo e por isso acessível a todos, sem sacrificar a gravidade e a profundidade das questões a serem pensadas, assumidas e encaminhadas de forma a gerarem esperança na possibilidade de um mundo diferente, afetuoso, amigo da natureza e aberto ao Infinito.

Concluindo podemos afirmar que o atual Papa, na esteira de Santo Agostinho e da grande tradição doutrinária da Igreja sobre as questões sociais (resumidas na encíclica MH nn.28-44), repropõe o tema da civilização do amor (termo cunhado pelo Papa Paulo VI). Ele assim a define:”consiste traduzir a caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e considerar o outro – seja pessoa ou povo – como um aliado necessário para a construção do bem comum…Só este amor pode gerar uma ordem internacional estável, transformando a convivência de uma simples coexistênia armada, numa comunidade de destino”(MH,186).

Leonardo Boff escreve para a revista digial LIBERTA do ICL (https://www.revistaliberta.com.br); escreveu também O cuidado necessário:na vida, na saúde,na educação, na ecologia, na ética e na espiritualidade, Vozes 2012 ((https://www.leonardoboff.org).

Le migrazioni globali attuali: una tragedia umana

Leonardo Boff

Attualmente, milioni di migranti viaggiano via terra e via mare alla ricerca di migliori condizioni di vita. Secondo i dati delle Nazioni Unite, nel 2025 c’erano 304 milioni di migranti nel mondo. Oggi, con oltre cento zone di conflitto, come appena riportato dal coordinatore della Croce Rossa, ce ne saranno molti di più, poiché l’umanità vive in un’ininterrotta guerra civile. La maggior parte fugge da guerre che mietono innumerevoli vittime. Altri perché le loro terre non sono più fertili a causa del caldo eccessivo. Altri ancora cercano rifugio in altri paesi a causa di persecuzioni religiose o politiche.

Il maggior numero proviene dall’Africa sub-sahariana e dal Medio Oriente, entrambi diretti verso l’Europa. Ci sono migliaia di latino-americani che immigrano illegalmente negli Stati Uniti.

Tutti gli immigrati senza documenti, sotto la presidenza di Donald Trump, stanno essendo banditi dal paese. Ciò è stato fatto con una speciale forza di polizia l’ICE che ha usato la violenza, persino la forza bruta, per costringerli a rei-migrare.

Indimenticabili sono le scene codarde degli agenti dell’ICE che danno la caccia agli immigrati clandestini per le strade, nelle scuole, nelle fabbriche, nelle fattorie agricole e persino nelle chiese. Il presidente Donald Trump considera ingiustamente e con pregiudizio questi immigrati come persone cattive, ladri e assassini, quando la stragrande maggioranza di loro contribuisce al funzionamento di hotel, ristoranti, fabbriche, alla produzione agricola e a molti altri servizi, assicurando gli affari dei nord-americani.

Scioccante è la violenza inflitta agli immigrati arrestati e deportati, gettati su grandi aerei, incatenati come fossero bestiame, senza alcun rispetto per la loro dignità. Rivoltante è stato l’arresto di un bambino di 5 anni, ammanettato come un adulto, un modo per attirare il padre e arrestarlo. L’indignazione è stata nazionale e internazionale, costringendo le autorità competenti a rilasciare il bambino e il padre.

In Europa, i migranti sono generalmente mal accolti, che provengano dall’Africa o dal Medio Oriente. Molti sono morti durante la traversata in barche senza alcuna sicurezza. Il Mediterraneo si è trasformato in un cimitero per centinaia e centinaia di persone che lì sono annegate. L’indifferenza e la mancanza di sensibilità hanno suscitato l’indignazione di Papa Francesco durante la sua visita a Lampedusa, punto di arrivo di molti immigrati. Duramente ha criticato il fatto che gli europei abbiano perso la sensibilità e la capacità di piangere per la sofferenza dei propri simili.

In alcuni paesi sono stati totalmente respinti, come in Ungheria sotto l’ex presidente Orbán, esponente violento dell’estrema destra. Nella cristianissima Polonia, si ammettono selettivamente solo i cristiani, negando l’ospitalità ai musulmani o a coloro che professano altre religioni.

Si teme che il cambiamento climatico, in continua accelerazione e responsabile della distruzione di vaste regioni con inondazioni, siccità e incendi di proporzioni enormi, finisca per generare ondate di migliaia e migliaia di migranti in cerca di salvezza. I loro luoghi d’origine sono diventati praticamente inabitabili. Le Nazioni Unite hanno avvertito i paesi centrali e sviluppati di preparare le proprie infrastrutture per accogliere e offrire ospitalità a questi flagellati.

L’ospitalità si configura come un valore fondamentale per affrontare questo fenomeno globalizzato. Le migrazioni di massa potrebbero destabilizzare intere nazioni e le politiche sociali, data la gravità della situazione creata dai cambiamenti geopolitici (la lotta per l’egemonia mondiale tra Stati Uniti, Russia e Cina), dagli sconvolgimenti climatici causati dalla crisi ecologica e dalla corrente oceanica El Niño.

Oggi, ciò che conta è la capacità di dimostrare ospitalità, da sempre considerata da tutte le tradizioni culturali uno dei valori più alti nelle relazioni umane, a dimostrazione di quanta sensibilità e umanità siano ancora presenti in noi come individui e come società complesse. Mantenere le attuali scandalose disuguaglianze, frutto di un’inimmaginabile accumulazione di ricchezza nelle mani dei pochi che sfruttano i molti e devastano i beni e i servizi naturali, non ci offre alcuna speranza che prevalgano la sensibilità e l’umanità, base dell’ospitalità, di fronte a milioni di migranti in tutto il mondo.

Ciononostante, sconfitti e vinti, non desisteremo mai al nostro impegno nei confronti dei migranti e dei rifugiati, disprezzati e rifiutati, perché questa causa, essendo vera, è invincibile. In essa si mostra il meglio che esiste negli esseri umani: la compassione per i pellegrini forzati, per i migranti, la solidarietà concreta di fronte alla loro fragile situazione e l’amore incondizionato per queste persone umiliate e offese. Secondo i racconti biblici e il significato di uno dei miti greci più commoventi sull’ospitalità, quello dei buoni vecchietti Bauci e Felemone, chi ospita il pellegrino e lo straniero, sta ospitando anonimamente Dio stesso.

La famiglia del Figlio dell’Uomo fu immigrante in Egitto e rese sacro tutto l’impegno a favore di coloro che vivono dolorosamente in una situazione simile. Pertanto, una situazione simile rappresenta per la coscienza un appello etico permanente anche in mezzo a difficoltà, pregiudizi e rifiuti. Alla fine, siamo tutti migranti e ospiti su questa Terra che appartiene a tutti i presenti e a quelli futuri. Tutti passiamo. Solo essa, la Casa Comune, rimarrà ancora per milioni di anni, ruotando attorno al sole e nutrendo la vita, per la natura e per l’umanità.

Leonardo Boff scrive per la rivista LIBERTA dell’ICL (https://www.revistaliberta.com.br) e ha pubblicato anche il libro “Hospitalidade: direito e dever de todos“, Vozes 2005; Queriniana,2010. (https://www.leonardoboff.org).

(Traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

Una tragedia humana: las actuales migraciones mundiales

Leonardo Boff

            En nuestros días hay millones de migrantes por tierra y mar en busca de mejores condiciones de vida. Según datos de la ONU, en 2025 había en el mundo 304 millones de migrantes. Hoy, con más de cien zonas de conflicto, como acaba de informar el coordinador de la Cruz Roja, serán muchos más, pues la humanidad está viviendo una ininterrumpida guerra civil. La mayoría huye de guerras que causan innumerables víctimas. Otros emigran porque sus tierras se han vuelto infértiles debido al exceso de calor. También están quienes buscan otros países debido a persecuciones religiosas o políticas.

            El mayor número proviene del África subsahariana y de Oriente Medio, ambos en dirección a Europa. Hay además muchos miles de latinoamericanos que emigran ilegalmente a Estados Unidos.

            Todos los inmigrantes indocumentados, bajo la presidencia de Donald Trump, están siendo expulsados del país. Esto fue realizado por una policía especial, el ICE, que utilizó la violencia e incluso la fuerza bruta para obligarlos a emigrar.

            Son inolvidables las escenas cobardes de aquellos agentes del ICE cazando inmigrantes indocumentados en las calles, en las escuelas, en las fábricas, en las explotaciones agrícolas e incluso en las iglesias. El presidente Donald Trump considera injusta y prejuiciosamente a esos inmigrantes como gente mala, ladrones y asesinos, cuando en su gran mayoría hacen funcionar los servicios en hoteles, restaurantes, fábricas, producción agrícola y muchos otros sectores, perjudicando con su expulsión los negocios de los propios estadounidenses.

            Resulta chocante la violencia aplicada a los inmigrantes detenidos y deportados, arrojados en grandes aeronaves, encadenados como si fueran ganado, sin ningún respeto por su dignidad. Revolucionó especialmente el arresto de un niño de 5 años, esposado como si fuera un adulto, como forma de atraer al padre y detenerlo. La indignación fue nacional e internacional, obligando a las autoridades responsables a liberar al niño y a su padre.

            En Europa, los migrantes son generalmente mal recibidos, tanto los provenientes de África como los de Oriente Medio. Muchos murieron en la travesía en embarcaciones sin ninguna seguridad. El Mediterráneo se transformó en una sepultura de cientos y cientos de personas que allí se ahogaron. La indiferencia y la falta de sensibilidad indignaron al Papa Francisco cuando estuvo en Lampedusa, lugar de llegada de muchos inmigrantes. Criticó duramente el hecho de que los europeos hubieran perdido la sensibilidad y la capacidad de llorar por el sufrimiento de sus semejantes.

            En algunos países fueron totalmente rechazados, como en Hungría bajo el hoy ex presidente Orbán, de extrema derecha y violento. En la muy cristiana Polonia se admite selectivamente solo a cristianos, negando hospitalidad a musulmanes o personas de otras denominaciones religiosas.

            Se teme que el cambio climático, acelerándose cada vez más y destruyendo vastas regiones con grandes inundaciones, severas sequías e inmensos incendios, termine creando oleadas de miles y miles de migrantes que buscan salvar sus vidas. Sus lugares de origen se han vuelto prácticamente inhabitables. La ONU ha advertido a los países centrales y desarrollados que preparen sus infraestructuras para acoger y dar hospitalidad a estos damnificados.

            La hospitalidad aparece como un valor de referencia para enfrentar este fenómeno mundializado. Las migraciones masivas podrán desestabilizar naciones enteras y las políticas sociales, dada la gravedad de la situación creada por los cambios en la geopolítica (la disputa por la hegemonía mundial entre Estados Unidos, Rusia y China), por los trastornos climáticos provocados por la crisis ecológica y por la corriente marítima de El Niño.

            Hoy, la capacidad de mostrar hospitalidad —considerada por todas las tradiciones culturales como uno de los más altos valores en las relaciones humanas— revela cuánto de sensibilidad y humanidad subsiste todavía entre nosotros, tanto como personas individuales y  como sociedades complejas. Las actuales desigualdades escandalosas, fruto de una acumulación inimaginable de riqueza por parte de unos pocos que explotan a muchos y devastan los bienes y servicios naturales, no ofrecen señales de esperanza de que prevalezcan la sensibilidad y la humanidad, base de la hospitalidad, frente a los millones de migrantes a nivel mundial.

            Aun así, vencidos y derrotados, jamás desistiremos del empeño en favor de los migrantes y refugiados, despreciados y rechazados, pues esa causa, por ser verdadera, es invencible. En ella se muestra lo mejor que existe en los seres humanos: compadecerse de los peregrinos forzados, de los migrantes; vivir la solidaridad concreta frente a su frágil situación; y el amor incondicional hacia esos humillados y ofendidos. Según los relatos bíblicos y el sentido de uno de los más conmovedores mitos griegos sobre la hospitalidad —el de los ancianos Báucis y Filemón— quien hospeda al peregrino y al desconocido está hospedando anónimamente al propio Dios.

            La familia del Hijo del Hombre fue inmigrante en Egipto y volvió sagrado todo empeño en favor de quienes viven penosamente una situación semejante. Por eso, una realidad parecida representa para la conciencia un llamado ético permanente, incluso en medio de dificultades, prejuicios y rechazos. Al fin y al cabo, todos somos migrantes y huéspedes en esta Tierra que pertenece tanto a los presentes como a las futuras generaciones. Todos pasamos. Solo ella, la Casa Común, permanece todavía por millones de años, girando alrededor del sol y gestando vida para la naturaleza y para la humanidad.

Leonardo Boff escribe para la revista LIBERTA del ICL y publicó también el libro Hospitalidad: derecho y deber de todos, Vozes, 2005.

Uma tragédia humana:as atuais migrações mundiais

Leonardo Boff

Nos dias atuais há milhões de migrantes por terra e por mar em busca de condições de vida melhores.Segundo dados da ONU em 2025 havia no mundo 304 milhões de migrantes. Hoje com mais de cem  zonas de conflito como acaba de informar o coordenador da Cruz Vermelha, serão muito mais, pois a humanidade está vivendo em ininterrupta guerra civil.A maioria foge de guerras que vitimam um sem número de vidas. Outros porque suas terras se tornaram inférteis pelo excesso de calor. Ainda há os que buscam outros países devido a perseguição religiosa ou política.

O maior número vem de África subsaariana e do Oriente Médio,ambos em direção da Europa.Há muitos milhares de latino-americanos  que imigram ilegalmente para os EUA.

Todos os imigrantes indocumentados, sob a presidência de Donald Trump, estão sendo banidos do país. Isso foi feito com uma polícia especial ICE que usou a violência até a força bruta para fazê-los emigrar.

Inesquecíveis são as cenas covardes daqueles policiais da ICE caçando imigrantes indocumentados nas ruas, nas escolas,nas fábricas, nas fazendas agrícolas e até nas igrejas. O Presidente Donald Trump de forma injusta e preconceituosa  considera tais imigrantes  gente má, ladrões e assassinos, quando em sua grande maioria fazem funcionar os serviços em hotéis, restaurantes, em fábricas, na produção agrícola e em muitos outros serviços, prejudicando os negócios de norte-americanos.

Chocante é a violência aplicada aos imigrantes presos e deportados,  jogados nos grandes aeronaves, acorrentados como se fossem gado, sem qualquer respeito à sua dignidade. Revoltante foi a prisão de uma criança de 5 anos, algemada como se fosse um adulto, forma para atrair o pai e prendê-lo. A indignação foi nacional e internacional, obrigando as autoridades responsáveis a liberar a criança e o pai.

Na Europa os migrantes são geralmente mal recebidos, seja os vindos de África ou do Oriente Médio. Muitos morreram na travessia em barcos sem nenhuma segurança. O Mediterrâneo se transformou numa sepultura de centenas e centenas que aí se afogaram. A indiferença e a falta de sensibilidade causaram indignação ao Papa Francisco quando esteve em Lapedusa, chegada de muitos imigrantes. Duramente criticou o fato de que os europeus perderam a sensibilidade e a capacidade de chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Em alguns países foram totalmente rejeitados como na Hungria sob o hoje ex-presidente Orbán, de extrema direita e violento. Na cristianíssima Polônia se admitem, seletivamente, somente cristãos, negando hospitalidade a muçulmanos ou de outra denominação religiosa.

Teme-se que as mudanças climáticas, acelerando-se cada vez mais e destruindo vastas regiões com grandes inundações, severas secas e imensas queimadas, acabam criando levas de milhares e milhares de migrantes procurando salvar suas vidas. Seus lugares se fizeram praticamente inabitáveis. A ONU tem alertado os países centrais e desenvolvidos que preparem suas infra-estruturas para acolher e dar hospitalidade a estes flagelados.

A hospitalidade comparece como valor referencial para fazer frente a este fenômeno mundializado. As migrações em massa poderão desestabilizar inteiras nações e as  políticas sociais, dada a gravidade da situação criada pela mudanças na geopolítica (a disputa pela hegemonia mundial entre USA, Rússia e China), pelos transtornos climáticos provocados pela crise ecológica e pela corrente marítima do El Niño.

Hoje é a capacidade de mostrar a hospitalidade, sempre tida por todas as tradições culturais como um dos mais altos valores no relacionamento humano, o quanto de sensibilidade e de humanidade subsistem ainda entre nós como pessoas individuais e como sociedades complexas. Mantidas as atuais desigualdades escandalosas, fruto de uma acumulação inimaginável de riqueza dos poucos que exploram os muitos e devastam os bens e serviços naturais, não nos oferecem sinais de esperança de que prevaleçam a sensibilidade e a humanidade, base da hospitalidade, face aos milhões de migrantes a nível mundial.

Mesmo assim, vencidos e derrotados, jamais desistiremos no empenho em favor dos migrantes e refugiados, desprezados e rechaçados, pois essa causa, por ser verdadeira, é invencível. Nela se mostra o melhor que existe nos seres humanos: compadecer-se com os peregrinos forçados, com os migrantes, viver a solidariedade concreta face à sua frágil situação, e o amor incondicional para com esses humilhados e ofendidos. Segundo os relatos bíblicos e o sentido de um dos mais comovedores mitos gregos sobre  hospitalidade, a dos bons velhinhos Báucis e Felêmon, quem hospeda o peregrino e o desconhecido, está hospedando anonimamente o próprio Deus.

A família do Filho do Homem foi imigrante no Egito e tornou sagrado todo empenho em favor daqueles que vivem penosamente semelhante situação. Por isso, uma situação parecida representa à consciência um apelo ético permanente mesmo no meio das dificuldades, dos  preconceitos e das rejeições. Afinal, todos somos migrantes e hóspedes nesta Terra que é de todos os presentes e dos futuros. Todos passamos. Somente ela, a Casa Comum, permanece ainda por milhões de anos, girando ao redor do sol e gestando vida,  para a natureza e para a humanidade.

Leonardo Boff escreve para a revista LIBERTA do ICL (https://www.revistaliberta.com.br) e publicou também o livro Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes 2005 ((https://www.leonardoboff.org).