“Em seu país a vida não vale nada: se mata por um celular”

Leonardo Boff

       Essa frase não é minha. É de um dos maiores humanistas de nosso Continente, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica.Depois de um largo diálogo sobre o destino de nossos países, do mundo,do capitalismo, transformado numa cultura que a todos envolve, em certo momento confessou:”No Brasil a vida parece não valer nada:se mata por um celular. No Uruguai quando há um crime semelhante, país “chiquitito”, todos chegam a saber”. Em seu  país fica por isso mesmo, sem averiguação, pois se trata de um negro.

No final nos abraçamos e tal foi a sintonia em nossas falas que me disse:”somos almas irmãs”. Eu surpreso calei para não chorar e com voz embargada apenas lhe disse:”Há duas pessoas que eu admiro no mundo:o Papa Francisco e Usted, Pepe Mujica”. Ele me abraçou fortemente e vi que uma lágrima furtiva escorria de seus cansados olhos.

       Ele dizia a verdade. Uma conhecida de uma comunidade periférica do Grande Rio me contou: “conversei com um policial militar que ia e vinha na nossa pracinha e me disse: “puxa,estou aqui  há duas horas e ainda não matei nenhum jovem negro”. Muitos jovens negros entre 15-18 anos são mortos com um tiro na cabeça com esta alegação: ou pertencem ao tráfico ou irão entrar nele. E então  se faz o abate (expressão de um ex-governador preso).

No mundo atual parece mesmo que a vida não vale nada.Veja-se o morticínio e o genocídio cometidos sob mando de Netanyahu na Faixa de Gaza. Os assassinatos de crianças no Sudão sem falar dos milhares de mortos na Ucrânia e no Irã sob os bombardeios,de um lado dos russos e do outro, dos norte-americanos e dos israelenses usando até a Inteligência Artificial.

O chefe do Escritório da ONU para Assuntos Humanitários afirma:”Gastos de 14 de dias de guerra salvariam 87 milhões de vidas”(O Globo 22/4/26 p.19). Por que não decidimos pela vida e preferimos a morte? Esse é o mistério de nossa condition humaine que se mostra cruel e sem piedade.

       Leio algo apavorante que está já está funcionando e irá se completar até 2027: uma Super-inteligência Artificial que maneja trilhões de algoritmos, acumulados do mundo inteiro. Já não depende das decisões humanas. Ela pode, eventualmente, tomar a decisão de eliminar toda a vida humana. Prof. HOC, um de nossos mais sérios geopolíticos, descreveu em detalhes seu funcionamento em seu YouTube:”A briga que pode decidir o futuro da humanidade: a Anthropic e o governo americano”.(basta entrar no Google e escrever este título).

       Neste contexto ameaçador convém refletirmos, ainda em tempo, sobre a excelência da vida. As respostas consagradas são que ela provém de Deus ou de algo misterioso, por nós inacessível.

Mas nossa visão mudou radicalmente quando em 1953 Crick e Watson decifraram a estrutura de uma molécula do ácido desoxirribonucléico (DNA) que contém o manual de instruções da criação humana. A molécula DNA consiste em múltiplas cópias de uma única unidade básica, o nucleotídeo, que se realiza em quatro formas: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina(C).

Esse alfabeto de quatro letras se desdobrava num outro alfabeto de vinte letras que são as proteínas. Formam o código genético que se apresenta numa estrutura de dupla hélice ou de duas cadeias moleculares. Ele é o mesmo em todos os seres vivos. Por isso somos todos parentes.Para os cientistas Watson e Crick:”a vida nada mais é que uma vasta gama de reações químicas coordenadas; o  “segredo” desta coordenação é um complexo e arrebatador conjunto de instruções inscritas quimicamente em nosso DNA” (Cf. DNA: o segredo da vida, Companhia das Letras 2005, 424).Mas ela é muito mais: para outros cosmólogos, a Energia de Fundo  amorosa e  poderosa fez convergir todos os elementos para formar este conjunto das instruções:Alguém que comparece como a Fonte de toda a Vida.Quem é Ele?

       Com isso a vida foi inserida no processo global da evolução. Após a grande explosão do big-bang há 13,7 bilhões de anos, a energia e a matéria liberadas foram se expandindo, se densificando, se complexificando e criando novas ordens à medida em que avançavam. Alcançado um nível alto de complexidade da matéria, irrompeu a vida como um imperativo cósmico (cf. Joël de Rosnay,A aventura da vida,Vozes 1992).

A vida representa, pois, uma possibilidade presente nas energias originárias e na matéria primordial. A matéria não é “material” mas um campo altamente interativo de energias condensadas. É o que afirmam notáveis da física quântica, biólogos cosmólogos.

A vida já existe há 3,8 bilhões de anos. Ela é a Eva originária e originante de todos os seres vivos. Nós, humanos, somos o sub-capítulo do capítulo fontal que a própria vida. Somos aquela porção da Terra que um dia, sob extrema complexidade, começou a sentir, a pensar,a amar e a venerar. Eis que surgiu o ser humano.

Por fim, ouso repetir o que escrevi num artigo anterior. Segundo vários biólogos e cosmólogos o“Universo seria incompleto sem a vida”. Sempre que se atingir certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo. É a tese de Christian de Duve,Nobel em biologia e do físico quântico indiano Amit Goswami.

Portanto, temos      que enriquecer nossa visão do universo, não como algo morto, mas cheio de vida em trilhões de  planetas  dentro de vários  bilhões de galáxias. A nossa Via-Láctea, média, é a portadora dessa joia preciosa que é a vida. Em nós ela se fez reflexa e consciente com a capacidade de dar rumo à história.

Mas nesse momento, dada a nossa ousadia irresponsável, criamos uma Super inteligência Artificial que pode nos  destruir.Nutrimos a esperança de que a vida sempre triunfará como pôde sobreviver em todas as quinze grandes extinções do passado. E a esperança não nos defraudará.

Leonardo Boff  escreve para a revista do ICL LIBERTA (https:// http://www.revistaliberta.com.br);escreveu com o cosmólogo M.Hathaway O Tao da Libertação premiado em 2010 nos USA com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia; cf. também Etica da vida, Record 2006. (https://www.leonardoboff.org).

Non abbiamo assunto la nuova coscienza planetaria: Artemis II

        Leonardo Boff

I numerosi viaggi spaziali, sei con equipaggio sulla Luna e altri che hanno addirittura lasciato il nostro sistema solare e attraversato lo spazio illimitato dell’universo, non hanno creato, nell’umanità in generale e tanto meno nei leader dei popoli, la nuova coscienza planetaria che ne deriva. Viviamo ancora sotto il regime degli stati-nazione, ciascuno con i propri limiti, definiti dal Trattato di Vestfalia del 1648. Il Covid-19 non ha rispettato i limiti delle nazioni. Ha colpito tutti. Non se ne sono ancora tratte le dovute conseguenze. Lo stile di vita predatorio e consumistico è tornato con ancora più furia. Le lezioni che Madre Terra ci ha dato non sono state ascoltate.

A ciò si aggiunge il fatto che ai giorni nostri abbiamo guerre per territori (Ucraina, Striscia di Gaza, Groenlandia e altri). Vista dalla prospettiva degli astronauti, come ha giustamente osservato uno dei quattro della navicella Artemis II: “da quassù siamo un solo popolo“. Questa affermazione rende ridicole queste controversie territoriali. Sono sostenute da figure crudeli e genocidiarie come Netanyahu e Trump, che ancora non hanno compreso che siamo un’unica specie umana e che la Terra è la nostra unica Casa Comune, in cui trovano posto ebrei, palestinesi e tutti gli altri.

Indimenticabili sono le parole di Neil Armstrong, il primo uomo a mettere piede sulla Luna il 20 luglio 1969: “Questo è un piccolo passo per un uomo, un gigantesco balzo per l’umanità”. E continuò: “Improvvisamente mi accorsi che quel piccolo, bellissimo pisello blu era la Terra… Con il pollice coprii completamente la Terra”.

Abbiamo incluso altre testimonianze di astronauti, raccolte nel libro di Frank White, The Overview Effect (Boston 1987, ne possiedo una copia autografata): dall’astronauta Russell Scheweickhart: “La Terra vista dall’esterno, ti fa capire che tutto ciò che è significativo per te, tutta la storia, l’arte, la nascita, la morte, l’amore, la gioia e le lacrime, tutto questo è racchiuso in quel piccolo puntino blu e bianco che puoi coprire con un pollice. E da quella prospettiva capisci che tutto in noi è cambiato, che qualcosa di nuovo comincia ad esistere, che la relazione non è più la stessa di prima” (The Overview Effect, 38).

Dall’astronauta Gene Cernan: “Sono stato l’ultimo uomo a camminare sulla Luna, nel dicembre del 1972. Dalla superficie lunare ho contemplato con reverenziale stupore la Terra sullo sfondo di un blu scurissimo. Ciò che ho visto era troppo bello per essere compreso, troppo logico, troppo ricco di significato per essere il risultato di un semplice incidente cosmico. Interiormente, si sentiva il bisogno di lodare Dio. Dio deve esistere per aver creato ciò che ho avuto il privilegio di contemplare” (Op.cit., 39).

Sigmund Jähn: “I confini politici sono già stati superati. Anche i confini nazionali sono stati superati. Siamo un unico popolo e ognuno di noi è responsabile del mantenimento del fragile equilibrio della Terra. Ne siamo i custodi e dobbiamo prenderci cura del futuro comune” (Op.cit., 43).

Queste opinioni, apparentemente ovvie, non sono mai state prese sul serio dalla geopolitica e dai capi di Stato. Anche senza aver mai visto la Terra dall’esterno (non lasciò mai la sua città di Königsberg), Immanuel Kant (1724-1804), nella sua ultima opera “La pace perpetua” (1795), sottolineò che la Terra appartiene a tutta l’Umanità e costituisce un bene comune per tutti. Non c’è quindi motivo di combatterci per le terre, se tutto è nostro. Possiamo vivere in pace perpetua.

Ma chi, ai nostri tempi, ha compreso il cambiamento di coscienza derivante dalla consapevolezza di vedere la Terra dall’esterno, è stato il prolifico scrittore russo, autore di centinaia di libri divulgativi, ma anche scientifici, Isaac Asimov. In occasione del 25° anniversario del primo volo spaziale dello Sputnik, il 4 ottobre 1957, che inaugurò l’era spaziale, fu invitato dal New York Times Magazine a scrivere un articolo sull’eredità di quei 25 anni. Scrisse un breve articolo intitolato Sputniks Legacy: globalism” (L’eredità dello Sputnik: il globalismo).

Seguo alcuni di questi temi, poiché sono attuali, sebbene trascurati.

«La prima parola da dire è globalismo. Anche contro la nostra volontà» afferma Asimov, «dobbiamo considerare la Terra e l’Umanità come un’unica entità» (single Entity). «I satelliti» continua, «mostrano questo essere unico (unit), che lo accettiamo o no. Per la prima volta nella storia, possiamo identificare uragani e perturbazioni climatiche dall’inizio alla fine. I media ci connettono globalmente, dimostrando il globalismo (per noi globalizzazione)». Questo è il lato materiale.

Ma c’è anche il lato psicologico: «La visione della Terra come un tutto, come sfera planetaria, ci costringe a percepirla come piccola e fragile. È arbitraria la divisione della sua superficie in porzioni (nazioni), considerate sacre, da preservare a tutti i costi anche a costo della distruzione del pianeta». È importante vedere il tutto, il Pianeta.

Infine, c’è il lato delle potenzialità. L’era spaziale ha aperto lo spazio a nuovi viaggi e alla scoperta di come sono composti i pianeti e di come funzionano. «Tutto ciò sarà impossibile senza la cooperazione globale. Lo sviluppo dello spazio è il progetto dell’umanità nel suo insieme, e in questo si mostrerà il valore del globalismo».

Tuttavia, dobbiamo scegliere tra il locale e il globale. «Il localismo (le nazioni considerate in sé) può accelerare la nostra deriva verso l’eventuale distruzione, compresa quella dell’umanità. Il globalismo ci offre la speranza di una civiltà maggiore, più vasta e migliore, con più versatilità e flessibilità, liberandoci dalla prigionia del locale. Se consideriamo le alternative – il localismo come morte contro il globalismo come vita – sceglieremo sicuramente la vita. Questa è l’eredità dell’era spaziale».

Oggi stiamo vivendo il contrario di tutto ciò che è stato espresso sopra. Predomina l’affermazione della nazione (il nazionalismo), che si contrappone a un’altra nazione, con l’ideologia del fascismo che generalmente accompagna questo movimento, a livello nazionale e mondiale. Invece di approfondire la globalizzazione (al di là della sua riduzione al solo ambito economico) come nuova fase della Terra e dell’Umanità (stiamo tutti ritornando dalla grande dispersione) e ritrovarci nello stesso luogo, sul pianeta Terra, stiamo regredendo a un passato di divisioni, opposizioni e guerre nella smania di conquistare territori.

Ma credo che ciò che è vero abbia forza e alla fine prevalga. Supererà la regressione nazionalista/fascista e rafforzerà la nuova direzione della Terra e dell’Umanità come un’unica, grande e complessa realtà, la nostra Casa Comune.

Leonardo Boff scrive per la rivista ICL LIBERTA (https://www.revistaliberta.com.br); è anche autore del libro “A Terra na palma da mão“, Vozes 2016. (https://www.leonardoboff.org).

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

Der Traum eines lächerlichen Mannes

Leonardo Boff

Sicherlich werden manche Leser diesen Titel seltsam finden. Doch er bleibt gerade wegen der darin verborgenen Wahrheit relevant, die von keinem Geringeren als Fjodor Dostojewski selbst ausgedrückt wird. Es ist der Titel seines fantastischen Romans „Der Traum eines lächerlichen Menschen“ aus dem Jahr 1877. Was ist dieser Traum? Er gibt die Antwort: „Wenn alle es wollten, würde sich von einem Augenblick zum anderen alles auf der Erde verändern.

Genau das fehlt unserer Welt: dieser Traum eines Mannes, der keineswegs lächerlich ist und uns retten könnte – wenn alle dasselbe wollten. Doch die große Mehrheit will es nicht. Dennoch wurde dieser Traum am 11. Dezember 2015 während der COP21 in Paris geträumt. Es ist das berühmte Pariser Abkommen, das von praktisch allen Ländern der UNO (195) unterzeichnet wurde. Alle haben sich verpflichtet, die Treibhausgase zu reduzieren und so die Erderwärmung zu bremsen.

Alle wollten es. Doch fast niemand hat diesen Traum verwirklicht. Hätten alle tatsächlich den Traum des Pariser Abkommens verwirklichen wollen, den Anstieg der globalen Durchschnittstemperatur auf 1,5 °C über dem vorindustriellen Niveau (1850–1900) zu begrenzen, hätten wir die Erde verändert. Wir hätten die katastrophalen Überschwemmungen, die schweren Dürren, die gewaltigen Schneestürme, die Hurrikane und die Tornados vermieden, die in den Jahren nach 2015 auftraten. Das Ziel war es, die Erwärmung unter 2 °C zu halten und sie bis etwa 2030 bei 1,5 °C zu stabilisieren.

Weil nicht alle dazu bereit waren, hat sich die Erde nicht verändert. In den Jahren 2024/2025 haben wir die 1,5-Grad-Grenze überschritten und sind auf 1,6 Grad gestiegen. Da einige große Länder wie die USA, Indien und China sich für die Nutzung von Kohle und Erdöl entschieden haben – beides Treibhausgasverursacher – und die Treibhausgasemissionen weiter anstiegen, ist der Traum vom Pariser Abkommen geplatzt. Sie wollten es nicht. Sie wurden zu Leugnern, allen voran Donald Trump.

Wenn sich dieser Trend fortsetzt, so sagen Experten, werden wir in den Jahren 2030–2035 einen Temperaturanstieg von fast 2 °C oder mehr erreichen. Viele Menschen, insbesondere ältere Menschen und Kinder, werden Schwierigkeiten haben, sich anzupassen, und werden nicht überleben. Noch schlimmer könnte es für die Natur werden, da Wasserknappheit und der Verlust der Artenvielfalt durch das Aussterben Tausender Arten schwerwiegende Folgen haben werden.
            Fazit: Hätten sich alle das Pariser Abkommen gewünscht, hätte sich Dostojewskis Prophezeiung erfüllt: Alles auf der Erde hätte sich in einem Augenblick verändert. Doch statt besser zu werden, ist alles nur noch schlimmer geworden.

 Warum nehmen wir den Traum vom Pariser Abkommen mit seinen 195 Unterzeichnern nicht ernst? Weil wir keinen guten Willen zeigen – die einzige Tugend, die uns hätte retten können und uns noch immer retten könnte. Das sage nicht ich. Das sagt Immanuel Kant, der anspruchsvollste Denker der Ethik im modernen Westen.

In seiner „Grundlegung zur Metaphysik der Sitten“ (1785) stellt er fest: „Es ist nicht möglich, sich etwas vorzustellen, das irgendwo auf der Welt und sogar außerhalb derselben uneingeschränkt als gut angesehen werden könnte, außer dem guten Willen.“ Um seine schwierige Sprache zu übersetzen: Der gute Wille ist das einzige Gut, das uneingeschränkt gut ist und dem keinerlei Einschränkung auferlegt werden kann. Der gute Wille ist entweder nur gut oder er ist es nicht. Für Kant ist der gute Wille die höchste Tugend und das einzige in der Welt, das an sich gut ist.

Jede Tugend hat ihren Mangel oder ihr Übermaß: So ist übermäßiger Mut Leichtsinn, zu große Großzügigkeit ist Verschwendung; übertriebene Bescheidenheit ist Hemmung. Alle Tugenden, ohne Ausnahme, haben ihr Gegenstück, sei es im Übermaß oder im Mangel.

Nur der gute Wille ist völlig makellos. Hätte er irgendeinen Makel oder eine Einschränkung, wäre er nicht gut. Im Grunde beziehen sich alle Tugenden (das richtige Leben) auf den guten Willen, wie Kant übrigens betonte.

Hierin liegt eine Wahrheit mit erheblichen praktischen Konsequenzen. Zum Beispiel wird es bei Friedensverhandlungen zwischen Russland und der Ukraine, zwischen Israel und Palästina oder zwischen den USA und dem Iran niemals zu einem Friedensabkommen kommen, wenn nicht auf beiden Seiten guter Wille vorhanden ist. Das heißt, ich darf nicht alles böswillig auslegen, alles unter Verdacht stellen und allem misstrauen. Guter Wille und gegenseitiges Vertrauen müssen die gemeinsame Grundlage bilden. Ohne guten Willen lässt sich nichts Nachhaltiges, nichts Solides aufbauen – nichts, was nicht in Luft aufgeht.

Wir befinden uns in einer kritischen und gefährlichen Lage, wie nie zuvor in unserer Geschichte. Wir könnten uns selbst zerstören. Die militaristischen Mächte streiten um die Vorherrschaft in der Welt. Und sie tun dies in einem erbitterten Wettstreit, ohne den geringsten Anflug von Zusammenarbeit und Rücksichtnahme auf den Planeten Erde und unsere gemeinsame Zukunft. Es ist nicht ausgeschlossen, dass es zu einer „garantierten gegenseitigen Zerstörung“ kommt, die das menschliche Leben mit sich reißt.

In solchen Situationen müssen wir aus unserem Innersten das hervorholen, was zu unserem Menschsein gehört: die Fähigkeit, guten Willen zu wecken und ihn in die Tat umzusetzen. Entweder tun wir dies, oder wir setzen die Zukunft unserer Existenz auf diesem kleinen, herrlichen Planeten Erde, unserem einzigen gemeinsamen Zuhause, aufs Spiel.

Leonardo Boff schreibt für die Zeitschrift LIBERTA des ICL (https:// http://www.revistaliberta.com.br); er verfasste außerdem das Buch „Der Mensch: Satan oder guter Engel“, Record 2008 (Website: leonardoboff.org)

O sonho de um homem ridículo

    Leonardo Boff

         Seguramente algum leitor ou leitora estranhará este título. Mas ele conserva atualidade exatamente pela verdade oculta que contém, expressa por ninguém outro que por Fiódor Dostoiévski. É o título de sua narrativa fantástica de 1877 O sonho de um homem ridículo.Qual é esse sonho? Ele responde:

“Se todos quisessem,num instante,tudo mudaria na terra”.

         É exatamente o que falta no nosso mundo: esse sonho de um homem nada ridículo que poderia nos salvar: se todos quisessem a mesma coisa. Mas a grande maioria não quer. Não obstante, um dia ele foi sonhado em 11 de dezembro de 2015 durante a COP21 em Paris. É o famoso Acordo de Paris, assinado por praticamente  por todos os países que compõem a ONU (195).  Todos se comprometeram em reduzir os gases de efeito estufa e assim frear o aquecimento do planeta.

         Todos quiseram. No entanto quase ninguém tornou esse sonho realidade.Se todos de fato  quisessem cumprir sonho  do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) teríamos mudado a Terra. Teríamos evitado as catastróficas enchentes, as severas estiagens, as tremendas nevascas, os furacões e os tornados que ocorreram nos anos após 2015.A meta era manter o aquecimento abaixo de 2ºC, se estabilizando em 1,5ºC por volta de 2030.

         Por que nem todos quiseram,a Terra não mudou. Em 2024/2025 superamos o limite de 1,5ºC, chegando a 1,6ºC. A continuar a emissão de gases de efeito estufa pelo fato de alguns grandes países como os EUA, a Índia e a China optaram pelo uso do carvão junto com o petróleo, produtores de efeito estufa, se frustrou o sonho do Acordo de Paris. Eles não quiseram. Fizeram-se negacionistas, como principal deles Donald Trump.

A seguir esta tendência, dizem especialistas, chegaremos nos anos 2030-2035 próximos a 2ºC ou mais. Muitos seres humanos, idosos e crianças, terão dificuldade de se adaptar e não subsistirão. Pior ainda pode ocorrer com  a natureza, afetando pesadamente a falta de água e da biodiversidade com a dizimação de milhares de espécies.

         Conclusão: Se todos tivessem querido o Acordo de Paris, se cumpriria a profecia de Dostoiévski: tudo teria mudado, num momento, na Terra. Ao invés de melhorar, tudo piorou.

         Por que não não tomamos a sério o sonho  do Acordo de Paris com195 signatários? Porque não mostramos boa vontade, a única virtude que nos teria salvo e ainda poderá nos salvar. Não sou eu quem o afirma. É Immanuel Kant,o mais exigente pensador da ética no Ocidente moderno.

         Em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes(1785) assevera: “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é irrestritamente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é. Para Kant a boa vontade é a virtude suprema, sendo a única coisa no mundo boa por si mesma.

         Todas as virtudes têm a sua falta ou o seu excesso: assim a coragem excessiva é ousadia, ter generosidade demais é a prodigalidade;a modéstia demasiada é inibição. Todas as virtudes, sem exceção, possuem seu contraponto, seja em excesso seja em carência.

         Somente a boa vontade não tem defeito nenhum. Se tivesse alguma sombra ou restrição não seria boa. No fundo, todas as virtudes (o viver corretamente) estão referidas à boa vontade, como aliás  enfatizava Kant.

Há aqui uma verdade com consideráveis consequências práticas.Por exemplo, nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia ou entre Israel e a Palestina, ou entre EUA e Irã, se não huver boa-vontade de ambos os lados, jamais se chegará a um acordo de paz. Quer dizer, não posso maliciar tudo, colocar tudo sob suspeita e desconfiar de tudo. A boa vontade e a mútua confiança devem se constituir como base comum. Sem a boa vontade nada se construirá de sustentável, de sólido, aquilo que não se evapora no ar.

Encontramo-nos em momentos críticos e perigosos, como nunca em nossa história anterior. Podemos nos autodestruir. As potências militaristas disputam a  hegemonia do mundo. E o fazem numa feroz competição sem qualquer laivo de cooperação  e cuidado para com o planeta Terra e nosso futuro comum. Não é impossível  “a mútua destruição assegurada”, levando junto a vida humana.

Em situações assim devemos desentranhar de dentro de nós o que pertence ao nosso ser humano: a capacidade de ativar a boa vontade e pô-la em prática Ou o fazemos ou arriscacamos o futuro de nossa existência nesse pequeno e esplêndico planeta Terra, nossa única Casa Comum.

Leonardo Boff escreve para a revista do ICL LIBERTA (https:// www.revistaliberta.com.br; escreveu também Homem:satã ou anjo bom,Record 2008 (site:leonardoboff.org)