La stupidità dell’Anti-Globalismo

Si sta gonfiando in giro per il mondo un’onda anti-globalista. Forse perché poche erano le stupidaggini altrettanto retrive sparate nel mondo attuale. C’era un certo anti-globalismo, frutto del protezionismo di vari paesi che non minacciava il processo generale e irreversibile della globalizzazione. Questa è stata assunta come piattaforma politica da Donald Trump il quale, secondo il premio Nobel in economia Paul Krugman, sarebbe uno dei presidenti più stupidi della storia nordamericana. Lo stesso vale per il presidente eletto recentemente, capitano Bolsonaro e i suoi ministri dell’educazione e degli affari esteri negazionisti di questo fenomeno che soltanto i disinformati e pieni di preconcetti non riescono a percepire.

Perché si tratta di una sparata delle più insensate? Perché va direttamente contro la logica del processo storico irrefrenabile. Abbiamo raggiunto un livello nuovo della storia della Terra e dell’Umanità. Vediamo: sono migliaia di anni, che gli esseri umani, sorti e nati in Africa (siamo tutti Africani), cominciarono a disperdersi in giro per tutta la Terra, a cominciare dall’Eurasia e terminando con l’Oceania. Alla fine del paleolitico superiore, circa quaranta mila anni fa, circa un milione di persone già occupava tutto il pianeta. A partire dal secolo XVI cominciò una nuova diaspora.

Nel 1521 Fernando Magellano fece il periplo del pianeta, comprovando che è rotondo. Ogni luogo può essere raggiunto a partire da qualsiasi luogo.

Il progetto colonialista europeo occidentalizzava il mondo. Grandi reti, specialmente commerciali allacciarono tutti con tutti. Questo processo è durato dal secolo XVII al secolo XIX quando l’imperialismo europeo, a ferro e fuoco, sottomise ai suoi interessi il mondo intero. Noi dall’estremo occidente siamo nati già globalizzati. Questo movimento si rinforzò nel secolo XX, dopo la seconda guerra mondiale. È arrivato al suo culmine ai giorni nostri quando le reti sociali avvicinano tutti alla velocità della luce, l’economia si è impadronita del processo, specialmente attraverso la “Grande Trasformazione” (K. Polanily) che ha significato il passaggio da un’economia di mercato a una società di mercato. Tutto e tutti, perfino le cose più sacre della verità e della religione diventarono merce. Karl Marx nella “Miseria della filosofia” (1847) chiamò questa cosa “corruzione generale” e “venalità universale”.

La globalizzazione che i francesi chiamano giustamente planetizzazione, è un fatto storico innegabile. Tutti si trovano in unico luogo: nel pianeta Terra. Stiamo nella fase tirannosaurica della globalizzazione che sta nascendo all’insegna di un’economia mondialmente integrata, vorace come il maggiore dei dinosauri, il tirannosauro, perchè è profondamente inumana sia per la povertà che crea che per la accumulazione assurda che permette.

Ormai stiamo entrando nella fase Umano-sociale della globalizzazione a causa di alcuni fattori universali, come ONU, OMC, FAO e altri, i diritti umani, lo spirito democratico, la percezione di un destino comune Terra-Umanità e di appartenere a una unica specie di Homo Sapiens e demens.

Notiamo già gli albori della fase ecozoico-spirituale della globalizzazione. La tecnologia integrale e la vita nella sua diversità avranno come centro non più l’economia, ma il rispetto reverente davanti a tutto il creato e un nuovo accordo con la Terra, vista come Madre e un super organismo vivo, che dobbiamo curare amorevolmente valore profondamente spirituale. Cresce la coscienza che noi siamo quella porzione di Terra viva che in un alto grado di complessità ha cominciato a sentire, a pensare ad amare e a venerare. Terra e Umanità formiamo una unica entità, come bene hanno testimoniato gli astronauti dalla loro nave spaziale.

È arrivato il momento, come profetizzava l’archeologo e scienziato Pierre Teilhard de Chardin già nel 1933: “il tempo delle nazioni è passato. Se non vogliamo morire è l’ora di scuotersi di dosso i vecchi preconcetti e costruire la Terra”. Essa è la nostra unica Casa Comune, che abbiamo come ha enfatizzato Papa Francesco nella sua enciclica “sulla cura della Casa Comune” (2015). Non ne abbiamo altre.

Stiamo sentendo i preconcetti bizzarri dei futuri governanti e dei ministri che la globalizzazione è un tranello dei comunisti per dominare il mondo. Questi sono coloro che, secondo Chardin non si preoccupano di costruire la Casa Comune, ma si fanno ostaggi del loro piccolo e meschino mondo grande come la loro zucca scarsa di luce.

Se loro non arrivano a vedere la nuova stella che ha fatto irruzione nel mondo, il problema non è della stella ma dei loro occhi cecati.

*Leonardo Boff ha scritto “Destino e Desatino da Globalização” in: Dal’Iceberg al arca di Noé, Mar de Idéias, Rio 2010, pp. 41-63.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato.

Cremos ainda na Declaração dos Direitos Humanos?Adela Cortina

Adela Cortina é a meu ver uma das mulheres que atualmente melhor pensa a situação dos direitos humanos no cenário mundial. É professora de ética na Universidade de Valência na Espanha. Temos participado juntos de congressos e temos grande afinidade de pensamento. Tanto ela quanto eu temos desenvolvido a urgência de resgatarmos a razão cordial ou sensível se quisermos incorporar o mundo dos valores especialmente se quisermos salvar a vida no planeta e a própria Terra, nossa Casa Comum, tida como viva e que nos fornece tudo o que precisamos para viver. Publico este texto no dia 10 de dezembro de 2018, dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Faz exatamente 70 que foi lançada pela ONU em 1948, subscrita por todos os países, então 54 e hoje cerca de 192. O contexto de clara ofensa destes direitos em nosso país, nos obriga a voltarmos a refletir sobre tais direitos e os deveres de respeitá-los por todos sem qualquer distinção.  O texto é longo mas vale a pena lê-lo e levá-lo à discussão particularmente com aqueles que em sua atividade sequer os conhecem e mais os violam:LBoff

Cremos ainda na Declaração dos Direitos Humanos?

Entrevista especial com Adela Cortina

Revista ihu on-line 03 Junho 2016

 

“O que seria importante em nossa sociedade neste momento é a capacidade de respeitar as opções e posições dos outros, embora não se compartilhe delas, porque estamos em sociedades bastante intolerantes, não estamos aceitando que o outro pense de maneira diferente, o que gera conflitos e isso é mal para construirmos algo juntos”, afirma a filósofa espanhola.

Apesar de a tese maquiavélica ter defendido a suspensão da ética em matéria de política, quando a política não é ética, ela “é ruim não como ética, mas como política; é má política. É importante que se diga isso porque, do contrário, se dá a sensação de que os políticos podem ser éticos ou não, que os empresários podem ser éticos ou não, e que isso depende de cada um deles; mas não”, diz Adela Cortina à IHU On-Line, quando esteve em Porto Alegre, RS, a convite do Grupo de Filosofia, Economia e Direito da UFRGS.

Defensora da ética do discurso, que tem raízes em Apel e Habermas, a filósofa espanhola propõe uma ética da razão cordial, fundamentada em clássicos da tradição filosófica, como Aristóteles e Kant, e uma ampliação da ética neocontratualista de John Rawls, ao incluir a dimensão da aliança, “o que significa dizer que entre os seres humanos há um vínculo que não contraímos voluntariamente, mas que nos une desde o momento que somos cada um como pessoa porque reconhecemos os outros como pessoas”.

Fundamentada nesses autores, Adela Cortina é categórica ao defender que todas as atividades humanas devem ser éticas e ao afirmar que “quando alguém ingressa na política, tem de saber que está atuando numa atividade que tem uma finalidade, a saber, o bem comum, e não pode desvincular-se dessa meta, porque fará uma péssima política”. Os casos de corrupção que vemos no Brasil, na Espanha e em diversos países do mundo, frisa, “estão relacionados a pessoas que estão buscando seu bem particular e estão fazendo péssima política, e isso tem de mudar”.

Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line no PPG de Economia da UFRGS, na última sexta-feira (27-05-2016), Adela também reflete sobre a situação dos imigrantes e refugiados que estão migrando para a Europa e adverte que esta não é uma questão a ser enfrentada apenas pela União Europeia, mas trata-se de “um problema global”, porque diz respeito à situação de outros seres humanos.

Além disso, alerta, “essa questão vai aumentar no futuro e não é possível que cada país feche as portas porque, do contrário, não podemos seguir dizendo que cremos que todos os homens têm direito à vida, como diz a Declaração dos Direitos Humanos”. E dispara: “Creio que o mais grave que tem acontecido na União Europeia é uma crise de identidade, porque nós não nos identificamos com o direito à vida, com o direito à livre circulação, com o direito de ter uma casa e um trabalho. Todos esses direitos fazem parte da nossa identidade, e o fato de estarmos fechando as portas para os imigrantes e refugiados, como está ocorrendo, significa que estamos traindo nossa própria identidade. Isso me parece bastante triste e já estamos lamentando muito”.

Adela Cortina também comenta o multiculturalismo, que está no centro de sua ética da razão cordial e defende que “temos de fazer multicultural a vida cotidiana, que as grandes soluções não vêm dos líderes, mas têm de vir da base, do povo, das pessoas que são de diferentes religiões e estão juntas nas escolas, nas universidades, vão juntas a festas. A sociedade civil é muito importante e sem ela não entraremos em diálogo”.

Adela Cortina é catedrática de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência, Espanha, onde coordena o curso de pós-graduação em Ética e Democracia. É doutora em Filosofia e foi professora visitante na Universidad de Louvain-la-Neuve, na Bélgica, na Vrije Universitet, em Amsterdam, na Universidade de Notre Dame, nos EUA, e na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Atualmente é diretora da Fundação para a Ética dos Negócios e das Organizações – ÉTNOR.

Entre seus livros, destacam-se Razón comunicativa y responsabilidad solidaria (Sígueme, 1985), Ética aplicada y democracia radical (Tecnos, 1993), Alianza y Contrato (Trotta, 2001), Razón pública y éticas aplicadas (Coed., Tecnos, 2003), Ética de la Razón cordial. Educar en la Ciudadanía en el Siglo XXI (Nobel, 2007), Pobreza y Libertad. Erradicar la pobreza desde el enfoque de Amartya Sen (Editores Adela Cortina y Gustavo Pereira, Tecnos, 2009), Neuroética y neuropolítica. Las bases cerebrales de la educación moral (Tecnos, 2011) e ¿Para qué sirve realmente la ética? (Paidós, 2013).

 

 

Confira a entrevista.

 

 

IHU On-Line – A palavra ética está no debate do dia, do futebol à economia e à política. Como vê a discussão sobre ética e o uso do termo nos dias atuais? As pessoas têm consciência do que a ética significa?

Adela Cortina – A palavra ética, como sabemos, procede do grego ethos, que quer dizer caráter e morada do homem, ou seja, onde se mora. Entendo que a ética é esse tipo de saber que nos ajuda a formar um caráter. Caráter quer dizer um conjunto de predisposições que nos levam a atuar melhor, e a essas chamamos de virtudes, ou nos levam a agir mal, e a essas chamamos de vícios.

A ética continua se ocupando dessa formação do caráter para nos ensinar a agir bem e evitar agir mal, como se dizia no mundo clássico. E nesse sentido penso que alcançar esse bem está relacionado com dois valores: a justiça e a felicidade. Se perguntarem do que trata a ética, diria que trata de muitas coisas, e uma delas muito importante é fazer a humanidade mais justa e mais feliz.

Quando se pergunta às pessoas o que entendem por ética, meus alunos, por exemplo, não sabem dizer o que é a ética ou em que ela consiste. Justamente por isso me parece que é muito importante em todos os cursos universitários haver uma matéria sobre ética, para que os profissionais saibam em que consiste a ética da sua profissão, de tal modo que um médico saiba o que é ser ético, como um economista também. Além disso, é importante que a ética seja uma disciplina ministrada nas escolas, porque é muito importante para um país que as pessoas sejam éticas e se defina que tipos de valores todos podem compartilhar, porque não há forma de construirmos juntos um país sem compartilharmos alguns valores.

Por isso, é importante, desde a infância, ensinar ética, o que não significa doutrinar, mas falar em voz alta quais são os valores que nos parecem mais fecundos para nossa vida: se preferimos a liberdade à escravidão, se preferimos a solidariedade ou não, e tudo isso tem de ser ensinado na infância, para que depois, quando se pergunta o que a pessoa entende por ética, se possa contestar e discutir.

IHU On-Line – A senhora já declarou, como o fez Amartya Sen [1], que a economia deveria ter como meta contribuir para formar boas sociedades. Que tipo de sociedade a economia está formando hoje? Que contribuições a ética pode oferecer para pensarmos um tipo de economia que ajude as sociedades a serem melhores?

Adela Cortina – É uma pergunta ampla e importante, porque a economia de um país é feita por distintos protagonistas, como os bancos, e é importante que eles assumam sua responsabilidade social, ou seja, eles deveriam trabalhar para o que têm de fazer, isto é, conservar as poupanças das pessoas e mantê-las com certo interesse. A economia também é feita pelas empresas e hoje há muitos discursos sobre a responsabilidade social das empresas.

Considerando todos os atores envolvidos, penso que os políticos têm que colocar as bases da justiça para que a economia possa funcionar bem e, portanto, não podem ser corruptos, porque a corrupção sempre ocorre entre políticos e empresários. Os cidadãos, por sua vez, têm de ser consumidores responsáveis que se deem conta de qual é a trajetória de um produto, como é produzido, a fim de ajudar as empresas a trabalharem bem. Creio que necessitamos dos esforços de todos esses protagonistas para termos uma economia que funcione bem.

 

“A ética é esse tipo de saber que nos ajuda a formar um caráter”

 

IHU On-Line – O bom funcionamento da economia, no sentido de garantir sociedades melhores, depende da intervenção do Estado ou não e como?

Adela Cortina – Há um modelo, o qual mais gosto, que é o da economia social de mercado, que se supõe que deveríamos estar aplicando na União Europeia e em outros países, o qual pressupõe que o mercado é um bom mecanismo para assegurar recursos, a oferta e a demanda, mas ele não pode estar sozinho; precisa estar dentro de um marco de intervenção estatal, e o Estado tem de tornar possível que não haja excluídos e que sejam defendidos os direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de todos. Nesse sentido o Estado tem de intervir e tem de ajudar na redistribuição da riqueza através de um sistema de impostos, redistribuindo bens. Tem de haver um marco estatal que impossibilite que alguém fique sem ter seus direitos protegidos e para que os bancos sejam analisados e auditados. É necessária a intervenção estatal e isso é a social-democracia e, segundo meu juízo, isso é o melhor que inventamos economicamente.

IHU On-Line – Existe uma crítica sobre a relação entre ética e política, sustentada por uma raiz maquiavélica, de que a política tem práticas e jogos que são alheios à ética, ou seja, que não dizem respeito à ética e que, portanto, ambas devem estar separadas. Como propor uma relação entre ética e política diante da evidência de tantos casos de corrupção envolvendo políticos? Essas duas dimensões devem estar relacionadas para diminuir os problemas políticos?

Adela Cortina – Não há nenhuma atividade humana que não tenha de ser ética. Todas as atividades humanas, como dizia Aristóteles, tendem a um fim, a uma meta, e como cada atividade tem uma finalidade, a ética tem a finalidade de conseguir essa meta da maneira mais justa e razoável possível. A atividade política é uma atividade humana e, portanto, tem como meta conseguir o bem comum, e os políticos têm de trabalhar para conseguir esse bem comum e não o bem particular, o bem do seu partido ou o bem da sua família. Agir segundo interesses particulares é ir contra a política e isso não só não é ético, como não é político também, porque a política tem uma finalidade e tem de cumpri-la.

Não gosto desse costume de distinguir entre ética e política, ética e economia, porque a ética está em cada uma das atividades, e quando essa atividade se faz segundo a finalidade pela qual existe, é ética. Como dizia muito bem José Ortega y Gasset [2]: “Me incomoda muito quando se entende a palavra moral como se fosse colocado algo mais”. Não é algo mais, é a atividade, como diz Ortega, quando está em sua plena eficácia vital.

Quando uma atividade é boa? Quando está se tentando criar o futuro, ajudar os que temos de ajudar. Por isso, quando uma política não é ética, é ruim não como ética, mas como política; é má política. É importante que se diga isso porque, do contrário, se dá a sensação de que os políticos podem ser éticos ou não, que os empresários podem ser éticos ou não, e que isso depende de cada um deles; mas não. Quando alguém ingressa na política, tem de saber que está atuando numa atividade que tem uma finalidade, a saber, o bem comum, e não pode desvincular-se dessa meta, porque fará uma péssima política. Os casos de corrupção que vemos no Brasil, na Espanha, estão relacionados a pessoas que estão buscando seu bem particular e estão fazendo péssima política, e isso tem de mudar.

IHU On-Line – A senhora fala da importância de as instituições estarem “altos de moral”. O que entende por essa expressão?

Adela Cortina – “Altos de moral” e desmoralizados é uma expressão de Ortega, que diz que não lhe parece bom fazer a distinção entre moral e imoral, como distinguindo o mundo entre bons e ruins, mas é preferível a distinção e o uso das expressões estar “altos de moral” ou estar desmoralizados. Estar desmoralizado é estar abaixo da moral e nesta situação não se tem vontade de fazer nada. Veja o caso dos imigrantes e dos refugiados: fechamos as portas a eles porque não temos vontade de nada. Quem está desmoralizado não é criativo, não é generoso, é alguém “fechado”. Quem está “alto de moral” são as pessoas, as instituições que têm gana de enfrentar as situações com altura humana. No caso dos refugiados, aqueles que estão “altos de moral” veem a situação deles e se dão conta de que este é também o seu problema e tratam de ver como se pode resolver isso. Neste caso se trata, portanto, de trabalhar com a Síria para que acabe a guerra da Síria, de acolher os imigrantes, porque a solidariedade é um dever.

IHU On-Line – Como está compreendendo a situação dos imigrantes na Europa a partir da sua vivência na Espanha? Qual é o problema central que divide os países acerca de como lidar com os imigrantes?

Adela Cortina – O problema central é que a União Europeia assinou uma carta de valores de direitos como uma chave da identidade europeia, e a crise dos refugiados e dos imigrantes tem posto em questão esses direitos e valores que havíamos reconhecido como nossas senhas de identidades. Creio que o mais grave que tem acontecido na União Europeia é uma crise de identidade, porque nós não nos identificamos com o direito à vida, com o direito à livre circulação, com o direito de ter uma casa e um trabalho. Todos esses direitos fazem parte da nossa identidade, e o fato de estarmos fechando as portas para os imigrantes e refugiados, como está ocorrendo, significa que estamos traindo nossa própria identidade. Isso me parece bastante triste e já estamos lamentando muito.

Quero dizer que não existe uma política comum na União Europeia; cada país resolve seus problemas por sua conta: na Áustria e na França, os populistas e os xenófobos estão ganhando terreno e esse é um problema de egoísmo social, de fechar portas, de não ter vontade de resolver os problemas que no fundo são problemas nossos porque são problemas humanos. Temos a obrigação de mudar essa situação, mas é difícil quando cada país pende para o seu lado.

“O problema central é que a União Europeia assinou uma carta de valores de direitos como uma chave da identidade europeia, e a crise dos refugiados e dos imigrantes tem posto em questão esses direitos e valores que havíamos reconhecido como nossas senhas de identidade”

IHU On-Line – A Europa tem condições de receber todos os refugiados? O que seria uma maneira de lidar com essa situação neste momento?

Adela Cortina – A Europa tem a condição de trabalhar, não só Europa, mas Europa com os EUA, o Brasil e quem quer que seja, porque tratar de resolver o conflito da Síria, que é muito mais forte hoje em dia, é uma obrigação de todas as forças diplomáticas. Mas, é claro, a dificuldade é que se a Rússia vai pelo seu lado, e a União Europeia pelo seu, então não há solução. Mas temos a obrigação de trabalhar diplomaticamente nesse sentido.

Com relação aos refugiados e imigrantes, talvez não seja possível socorrer a todos, mas a quantidade que estamos socorrendo é muito pequena. A Alemanha ajudou e acolheu a muitos – critica-se muito a Alemanha, mas não creio que se deva criticá-la, porque ela tem trabalhado muito bem. Além disso, Angela Merkel disse muito bem: “O que se passa é que há medo em todos os lugares, porque há muito mais gente e, então, se fecham as portas”. Mas creio que temos de enfrentar essas questões e dizer que, em primeiro lugar, não podemos permitir que as pessoas morram, porque a cada dia estão morrendo muitas pessoas na travessia para a Europa. Isso tem de ter uma solução, tem de se trabalhar nas fronteiras, com campos de acolhimento, e ver como é possível resolver os problemas das pessoas.

Creio que é preciso trabalhar duplamente: diplomaticamente para acabar com guerras como a da Síria, e organizar conjuntamente o acolhimento a pessoas que vêm de fora, porque se dissermos que é impossível fazer isso, muitas pessoas podem morrer. Mas, até agora, estamos fazendo pouco.

IHU On-Line – O que tem em mente quando se refere a tratar da situação da Síria? Como resolvê-la diplomaticamente?

Adela Cortina – Quando eu falo dos refugiados, refiro-me especificamente aos refugiados políticos, que vêm de conflitos, e neste momento o conflito mais forte é o da Síria. Além disso, no futuro a União Europeia será um local com muito mais gente, porque afinal de contas parece que é o lugar onde se pode viver, não? É verdade, porque do contrário as pessoas iriam para outros locais. Agora temos de pensar nesses conflitos existentes e também no futuro.

Pelo que dizem, vai aumentar o problema da escassez de água, e com o aquecimento da Terra haverá países, como já existem, que não terão água, e essas pessoas também migrarão para nossos países, para o Brasil e outros locais, porque precisarão viver. Então, o tema das imigrações é um tema que teremos de resolver enquanto seres humanos, porque as pessoas que não podem viver num determinado local, mudam para outro, e o que não pode acontecer é deixá-las pelo caminho depois de termos proclamado a Declaração dos Direitos Humanos de 1948.

Então, não é um problema da União Europeia, mas um problema global, no qual temos de pensar. A imigração para o Panamá e para a América Latina aumentou bastante, porque as pessoas migram para aqueles locais que imaginam estarem melhores. Há imigrações desde que nasceram os seres humanos; do contrário não teríamos habitado toda a Terra. Portanto, trata-se de um problema que temos de enfrentar já, visto que essa questão vai aumentar no futuro e não é possível que cada país feche as portas porque, do contrário, não podemos seguir dizendo que cremos que todos os homens têm direito à vida, como diz a Declaração dos Direitos Humanos.

IHU On-Line – Como está analisando, de outro lado, a situação do terrorismo islâmico na Europa? Como os países europeus estão tratando da questão?

Adela Cortina – Creio que a reação nos distintos países europeus está sendo muito diferente. A reação francesa de Marine Le Pen [3] vai ganhando força, na Inglaterra também há problemas, na Áustria cada vez mais e na Hungria nem se fala. Na Alemanha, Angela Merkel também tem feito uma contestação e as alternativas propostas pela Alemanha estão tendo uma ascensão muito forte. Isto quer dizer que se trata de situações diferentes em cada país e, portanto, não é possível falar da União Europeia como um todo.

Na Espanha, tenho de dizer que por enquanto, graças a Deus, não há partidos xenófobos, não há partidos islamofóbicos. Os partidos espanhóis não têm defendido em seus programas o desalojamento dos imigrantes e isso é uma boa notícia. Nesse sentido não há populismos, e se está articulando bem a convivência entre as pessoas de tradição cristã e tradição mulçumana. Por isso, pediria também aos muçulmanos que atuem com reciprocidade, o que quer dizer que nos países em que há mulçumanos e também cristãos, que os muçulmanos não ataquem os cristãos, que os deixem viver, e que os deixem ter suas igrejas, como também há mesquitas no Ocidente.

Na Espanha há cada vez mais mesquitas, sinagogas e, portanto, eu pediria que lá [Oriente] também atuem de igual maneira, porque não se pode reclamar que aqui haja uma sociedade multicultural, respeitosa com as diversas culturas, o que para mim parece algo de sentido comum e, de outro lado, em seu próprio país se impeça que haja igrejas e, além disso, se martirizem pessoas. Penso que as pessoas mais poderosas do Islã deveriam fazer um chamamento a seus irmãos dizendo que não se pode fazer isso.

  “Pediria também aos muçulmanos que atuem com reciprocidade, isto é, que nos países em que há mulçumanos e cristãos, que os muçulmanos não ataquem os cristãos”

IHU On-Line – A situação dos terroristas jihadistas na Europa é preocupante?

Adela Cortina – Claro que é preocupante, por Deus! Há uma quantidade de jovens que são terroristas, que estão vivendo em nossos países e se convertendo ao terrorismo jihadista. Eles necessitam dar um sentido às suas vidas, e uma ideologia forte lhes dá sentido, porque eles não têm trabalho, e a adesão ao jihadismo é vista como uma forma de vida. Há muitas razões pelas quais justificam essa adesão, e isso é preocupante porque está crescendo o número de pessoas que aderem ao jihadismo. Muitas pessoas estão sendo investigadas e as investigações mostram que elas estão ligadas a alguma célula jihadista e que vão a outros países muçulmanos para serem treinadas e depois retornam para cometer atentados na Europa.

Claro que se trata de uma situação muito preocupante e acho que deve haver missões policiais, e que é preciso tentar que as pessoas tenham trabalho, porque se diz que eles não têm trabalho, mas na Espanha, por exemplo, temos uma situação de 24% de greve. Temos que lidar com o tema do terrorismo com muito cuidado e também faço um chamado à comunidade muçulmana para que vigiem sua gente.

IHU On-Line – Filosoficamente, como devemos tratar esta questão de terrorismo que envolve os jihadistas e sua adesão à morte e compreensão acerca da vida? Na época do nazismo muitos intelectuais disseram que o movimento de Hitler era algo passageiro, e hoje a história nos mostra que muitos intelectuais, inclusive, apoiaram aquele tipo de prática. Nesse sentido, como os intelectuais devem se posicionar? Que questões são mais urgentes para pensarmos e refletirmos sobre esse tema hoje?

Adela Cortina – Penso que não é o mesmo que foi o nazismo, mas há uma preocupação com o aumento do terrorismo e dos jovens que se tornam terroristas e não sei se a nossa polícia está suficientemente preparada para investigar todos os casos. Mas há maneiras, junto com as medidas policiais – porque não há outro remédio nesses casos – de atuação que deveriam ser muito importantes por parte da sociedade civil.

Escrevi em alguma ocasião, e continuo pensando assim, que temos de fazer multicultural a vida cotidiana, que as grandes soluções não vêm dos líderes, mas têm de vir da base, do povo, das pessoas que são de diferentes religiões e estão juntas nas escolas, nas universidades, vão juntas a festas. A sociedade civil é muito importante e sem ela não entraremos em diálogo. Veremos que são muito mais as coisas que nos unem do que as que nos separam. Eu tenho tido experiências com muitos muçulmanos e temos tantas coisas em comum, que o que nos diferencia é o que diferencia qualquer pessoa. Temos de fazer com que a vida cotidiana seja a vida do diálogo, da partilha, e não se pode admitir, por exemplo, que as mulheres sejam tratadas de modo inferior aos homens por imposição.

IHU On-Line – Mas muitas vezes quando comparamos as mulheres do Ocidente com as do Oriente, somos acusados de não compreender o estilo de vida do Oriente. Como resolver esse impasse entre choques culturais? Como aproximar o ethos do Oriente com o do Ocidente?

Adela Cortina – O Islã entende que a mulher deve ter uma determinada posição em relação ao homem, mas eu penso que é de inferioridade. Pode-se dizer que não entendemos isso e, de fato, eu não entendo, porque acredito que temos chegado à conclusão de que homens e mulheres são iguais e, além disso, estamos demonstrando que é assim: há mulheres que podem exercer exatamente as mesmas funções que os homens, e homens que podem fazer o mesmo que as mulheres. E isso me parece uma excelente notícia.

Como fazer para que isso seja compartilhado? Com esse diálogo da vida cotidiana, conversando, por exemplo, com um muçulmano, que terá de entrar em contato comigo e, ao final, acabamos nos respeitando no sentido de aceitar que a pessoa pode pensar diferente. Se uma pessoa vive numa sociedade democrática, tem de saber que as mulheres e os homens são tratados de maneira igual e que, portanto, não podemos aceitar determinadas práticas.

IHU On-Line – Mas quando se trata de ações terroristas, como a dos jihadistas, há espaço para diálogo? Como possibilitar o diálogo nesses casos?

Adela Cortina – Os jihadistas ou terroristas de qualquer tipo requerem um tratamento especial que não é o de uma pessoa comum. Quando eu falo, refiro-me a pessoas da vida corrente, em que uns são cristãos, outros muçulmanos, outros ateus, e tentar o diálogo é fundamental, porque do contrário não é possível conviver.
Com relação ao fenômeno terrorista, trata-se de um fenômeno que precisa de um estudo psicológico e sociológico muito mais forte, porque pessoas que fazem ações terroristas são pessoas muito peculiares e requerem um tratamento à parte.

Não é igual ao jihadismo, mas na Espanha temos o fenômeno terrorista do ETA [4], e havia pessoas especializadas em estudar esse tipo de ação. Há pessoas que têm muita compreensão do fenômeno, porque são nacionalistas bascos, mas não é o mesmo se sentir nacionalista e optar por pegar em armas.

IHU On-Line – Como analisa as éticas neocontratualistas e utilitaristas? Que contribuições elas têm dado para pensarmos as relações éticas nas sociedades? Elas podem oferecer respostas para os nossos problemas atuais?

Adela Cortina – O utilitarismo é uma teoria ética, mas tem vários inconvenientes, entre eles o de que, segundo seu ponto de vista, a melhor opção ética é a que favorece o maior bem do maior número de pessoas e isso implica necessariamente em deixar excluídos. E isso me parece suficiente para entender que não é esse tipo de opção ética que deve ser aplicado em um país ou em uma sociedade. Nesse sentido, respeito a posição filosófica, mas não a compartilho.

Em relação às teorias neocontratualistas, como as de John Rawls [5], que tem sua origem em Hobbes [6], creio que são muito importantes para a vida política. Eu escrevi o livro Aliança e contrato, e o lado do contrato é o da comunidade política. Para mim, o discurso contratualista parece muito adequado para entender que Brasil e Espanha são comunidades nas quais estamos como se todos os cidadãos tivéssemos de chegar a um contrato, através do qual temos de cumprir com nossos deveres de tal modo que a comunidade política respeite nossos direitos.

Do ponto de vista político, o contratualismo é adequado e a neuroética apoia a visão cooperativa e contratualista das sociedades. Entendo que as teorias contratualistas e os contratos nas comunidades políticas podem ser mantidos porque por baixo do laço e do vínculo contratual há o vínculo dos seres humanos, que é mais profundo e anterior, que é o vínculo da aliança, o que significa dizer que entre os seres humanos há um vínculo que não contraímos voluntariamente, mas que nos une desde o momento que somos cada um como pessoa porque reconhecemos os outros como pessoas. Há um vínculo mais profundo e, além disso, há um sentimento reativo quando se reage contra alguém porque se esperava algo distinto; há uma expectativa em relação às demais pessoas, e mesmo quando não as conhecemos, temos uma esperança recíproca.

Há bastante tempo venho trabalhando na ética do discurso, teoria criada por Apel [7] e Habermas [8] nos anos 70, e venho tentando complementá-la com a ética de razão cordial. Nesse sentido, considero que a ética mais adequada para o nosso tempo é a do discurso, porque entre as pessoas vemos uma relação de reconhecimento e uma relação que pode ser a de cortar o vínculo, e isso é o pior, porque gera um mundo de excluídos. Desse modo, penso que a ética do discurso é inclusiva porque qualquer pessoa pode ser um interlocutor válido e sempre tem de ser levado em conta quando trata de questões que o envolvem.

IHU On-Line – Qual é a peculiaridade da ética da razão cordial?

Adela Cortina – O que proponho é que a ética da razão cordial vai um pouco além da ética do discurso. No meu novo livro comento distintas teorias éticas e como cada uma delas resulta insatisfatória até chegar à ética do discurso.

“A ética kantiana tem a vantagem da sua pretensão de universalidade e isso é importante”  

IHU On-Line – A senhora é kantiana, mas sempre que fala sobre ética recupera elementos da ética aristotélica. Essas duas teorias morais, deontológica e teleológica, se complementam?

Adela Cortina – Sim, claro, porque são as duas éticas de maior transcendência que foram construídas ao longo da história. A ética aristotélica acolheu o melhor da ética de Platão e das outras e preparou o que foi de melhor até o seu momento e, posteriormente, Kant fez o mesmo, juntou o melhor do racionalismo e do empirismo, até chegar aos nossos dias, na ética do discurso, que é uma ética fundamentalmente kantiana. Então, creio que não somente se pode, como se deve articular as duas, porque a ética kantiana tem a vantagem da sua pretensão de universalidade e isso é importante, embora alguns a acusem de etnocentrismo, mas não podemos acusá-la, essencialmente porque ela é formal, ou seja, não tem conteúdo e quando temos de universalizar os conteúdos, entendo que possa ser impositiva.

O que a ética kantiana diz é que quando temos consciência de determinadas normas, pretendemos que deveriam ser universais e penso que todos os seres humanos fazem isso quando alguém diz: não deveríamos matar, não se deve tratar as mulheres de modo inferior etc. Essas afirmações são claras ao pretenderem universalidade como o faz a ética kantiana ao dizer, de forma extraordinária, que a pessoa é um fim em si mesma e não pode ser tratada como um simples meio. Portanto, esse tem de ser o núcleo de qualquer uma das nossas éticas.

Creio que Aristóteles, ao tratar desse componente da felicidade e de que todas as atividades têm uma meta, uma finalidade, põe outro lado que não é o da norma, mas o do fim, da felicidade. E as duas são articulações sobre o caráter, e articulando as duas é preciso tê-las em conta para ter uma ética mais íntegra.

IHU On-Line – A ética kantiana foi mal compreendida no que se trata da sua proposta de universalidade?

Adela Cortina – Eu concordo que a ética kantiana não é bem compreendida e por isso se tem uma tentativa de aclará-la no que não é bem compreendida: se é uma ética que afirma que temos consciência das normas, que todos tenderíamos a cumprir os seus conteúdos, me parece que seria uma ética impositiva, mas é uma ética formal, ou seja, pretendemos que valha universalmente. Tenho me encontrado com muitas pessoas que estudam a ética kantiana e que são contrárias ao universalismo kantiano, porém elas dizem que não pode ter pena de morte, que não há razões para não acolher os imigrantes etc. – agora não estou olhando para os conteúdos, porque poderiam ser os contrários -, mas cada vez que uma pessoa diz “não se deveria fazer determinada ação”, está universalizando, ou seja, isso se chama universalidade. Ou seja, não são ações morais que pensamos serem boas para nós ou para nosso grupo, ao contrário, nós universalizamos essas normas. A vantagem da ética do diálogo é ver qual é o conteúdo dessas normas dialogicamente, mas é claro que há uma série de atitudes que pensamos que são desumanas.

IHU On-Line – Nessa linha, a senhora defende a tese de que todos temos uma estrutura moral, mas que os conteúdos morais são distintos. Segundo a sua compreensão da ética do diálogo, é possível falar de uma moralidade objetiva? Em contrapartida, quais são as consequências de a moral ser entendida como algo subjetivo? Ainda nesse sentido, como a estrutura moral se relaciona com os diversos conteúdos morais?

Adela Cortina – Entendo que a moral é objetiva porque é intersubjetiva, então, penso que a grande vantagem da ética do diálogo é que ela toma como ponto de partida não a consciência, mas a linguagem, as ações comunicativas, e nessas ações há uma relação entre sujeitos. Justamente essa relação entre sujeitos é a intersubjetividade. Quando falamos de normas morais, que é sobre o que fala a ética do discurso, para determinar se uma norma é justa, é preciso pôr em diálogo os afetados por elas, porque as normas se decidem intersubjetivamente.

Nesse sentido, não há uma moral subjetiva; o subjetivismo moral é falso. Quando alguém afirma que algo é uma norma moral ou um dever moral, está indo mais além da subjetividade, mas tampouco está indo a uma objetividade como se tivéssemos algo em frente com o que contrastar; é uma norma construída intersubjetivamente. Por isso é tão importante construir sujeitos morais capazes de trabalhar em intersubjetividade e por isso é importante cuidar das relações.

IHU On-Line – Então a senhora pensa que os valores intersubjetivos e os valores morais, em alguma medida, podem ser uma construção que se dá pela intersubjetividade? Se não, o que são?

Adela Cortina – Não. Creio que têm razão as éticas dos valores de Max Scheler [9] e Ortega, por exemplo. Creio que os valores valem por si e por isso nos atraem. Nós os valoramos não porque os valoramos, mas porque eles têm um valor e por isso nos atraem. A justiça nos atrai, a liberdade nos atrai, e elas efetivamente são valores. A questão é que conteúdo tem a justiça e a liberdade. A liberdade que nos faz livres não é a mesma da época de Aristóteles. Tivemos de experimentar muito para dotar de conteúdo a liberdade; não os decidimos de uma maneira arbitrária, mas vamos dotando-os de conteúdo ao longo da história, em um diálogo vital.

IHU On-Line – Através do diálogo intersubjetivo e do reconhecimento histórico dos valores, então, conseguimos reconhecer uma hierarquia de valores?

Adela Cortina – Acredito que sim, porque o mais importante na vida é saber priorizar. Há valores que são superiores a outros e acerca disso estou de acordo com a ética dos valores. Os valores da bebida, da comida, da utilidade, na hierarquia estariam abaixo dos valores culturais, do intelecto, da beleza etc. Nesse sentido a hierarquia dos valores depende do momento em que estamos.

  “Tivemos de experimentar muito para dotar de conteúdo a liberdade”

IHU On-Line – Mas toda vez que se fala em priorizar alguns valores, não lhe parece que algumas pessoas podem considerar que, ao fazer isso, se está “dogmatizando” ou impondo alguns valores em detrimento de outros?

Adela Cortina – Não. Na Espanha, por exemplo, neste momento há uma enorme preocupação com os valores e isso não está acontecendo somente no mundo da educação. Na educação tem havido uma enorme preocupação em educar segundo valores, precisamente porque nos damos conta de que educar para a liberdade não é o mesmo que educar para a escravidão, e justamente a ética cívica contém um conjunto de valores que são compartilhados, como o de que a liberdade é superior à escravidão, que a solidariedade é superior à não solidariedade, a igualdade à desigualdade. Pensa-se que esses valores devem educar as crianças nas escolas e efetivamente, de alguma maneira, há muita preocupação com o que está se fazendo com os valores no âmbito da política e da economia. O que ocorre é que não se está dizendo que os valores são objetivos, mas que ao longo da história experimentamos que a liberdade é superior à escravidão e a igualdade é superior à desigualdade.

Eu disse em alguma ocasião que os valores têm de ser degustados como são degustados os bons vinhos, porque para saber de vinho e de música, temos de degustá-los. Do mesmo modo, temos visto ao longo da história que as sociedades livres são sociedades mais gratificantes em relação àquelas totalitárias, e que a igualdade é melhor que a desigualdade, porque o desenvolvimento humano é maior nos países do norte da Europa, onde há maior igualdade.

IHU On-Line – A senhora sempre fala da importância de formarmos um bom caráter. Quais são os elementos que estão formando nosso caráter hoje?

Adela Cortina – De alguma maneira as virtudes da nossa época, e acredito que as clássicas continuam servindo: a prudência, a justiça, a temperança, não estão nada mal. São virtudes que precisamos manter e aplicar em diversos âmbitos. Depois, existem virtudes que dependem de contextos concretos, e para cada uma das atividades profissionais há que se desenvolver virtudes distintas. Tenho trabalhado esse aspecto ao tratar da ética das profissões, porque cada profissão tem de desenvolver a excelência para alcançar a meta da profissão, conforme dizia Aristóteles.

IHU On-Line – Quais as crenças fundamentais que nos fazem falta nos dias de hoje?

Adela Cortina – O que nos falta hoje em dia depende do âmbito. Não sou pessimista, porque acredito que há muitas pessoas que estão “altas de moral”. O que seria importante em nossa sociedade neste momento é a capacidade de respeitar as opções e posições dos outros, embora não se compartilhe delas, porque estamos em sociedades bastante intolerantes, não estamos aceitando que o outro pense de maneira diferente, o que gera conflitos e isso é mal para construirmos algo juntos.

IHU On-Line – A ética deve assumir compromissos metafísicos?

Adela Cortina – A metafísica é a filosofia primeira e segue sendo a chave de toda a filosofia. Desde o ponto de vista de entender a metafisica como ontologia, como estrutura, minha ética dialógica não tem princípios ontológicos.

IHU On-Line – Por que isso não lhe parece um problema?

Adela Cortina – Para mim não é um problema, absolutamente, porque assim tem de sê-lo, porque se vamos nos remeter a normas morais ou valores, ou às virtudes, podemos construí-los experencialmente a partir da intersubjetividade, e temos nossos critérios. Uma antropologia metafísica tem, hoje em dia, um inconveniente muito grande no sentido de que não pode servir de base para a ética de uma sociedade pluralista, porque numa sociedade pluralista há distintas antropologias metafísicas e filosóficas. E como fazer para que toda a sociedade mantenha uma mesma antropologia se não por imposição? Seria maravilhoso, mas não é assim; a realidade é pluralismo. Adotar uma antropologia para toda a sociedade é cair numa doutrina de bem que se impõe e com isso se acaba com o pluralismo.

“Uma antropologia metafísica tem, hoje em dia, um inconveniente muito grande no sentido de que não pode servir de base para a ética de uma sociedade pluralista”

IHU On-Line – As grandes perguntas da filosofia, pelo justo e pelo verdadeiro, por exemplo, ainda fazem sentido num mundo que afirma que não existem mais verdades? Qual é o sentido de aspirar à verdade se ela não existe?

Adela Cortina – Para mim parece diferente se perguntar pela justiça e pela verdade. A verdade está relacionada com as proposições, ou seja, as proposições podem ser verdadeiras ou falsas; a verdade não existe e a justiça tampouco. Elas são maneiras de substantivar; o que há são proposições verdadeiras ou falsas e formas justas ou injustas, ou instituições justas ou injustas, e isso é importante porque do contrário dá a sensação de que há a verdade, e quem não a tem está em erro, e isso não é verdade, porque o que pode ser verdadeiro ou falso são as proposições.

Por exemplo, dentro do cristianismo se utiliza a expressão “Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida”. Isso significa dizer que este pode ser um modelo na vida que se merece seguir, mas não significa dizer que isso é uma verdade ontológica e quem não está de acordo com essa verdade ontológica está errado. Em absoluto. Essa seria uma péssima interpretação. A questão é que há caminhos que são mais justos que outros, proposições que são mais justas que outras porque as podemos comprovar ou não, e normas justas ou injustas. É muito perigoso achar que existe a Justiça, porque muitas doutrinas estão convencidas de que estão com a Justiça, e consideram que todos os demais estão no erro.

Por Patricia Fachin

 Notas:

 [1] Amartya Sen (1933): Economista indiano autor do livro Desenvolvimento com liberdade (São Paulo: Cia das Letras, 2000). Em 1998, a Real Academia da Suécia conferiu o prêmio Nobel de Economia a Sen “por devolver uma dimensão ética ao debate dos problemas econômicos vitais”. Foi galardoado com o prêmio em memória de Alfred Nobel das Ciências Econômicas, pelas suas contribuições ao Welfare Economics. Confira a entrevista Amartya Sen e uma nova ética para a economia publicada na edição 175 da IHU On-Line, de 10-04-2006. (Nota da IHU On-Line)
[2] José Ortega y Gasset (1883-1955): filósofo espanhol, que atuou também como ativista político e jornalista. Sobre o autor, confira a entrevista concedida por José Maurício de Carvalho, Pampa. Um espaço humano de promessas e realizações, concedida à IHU On-Line nº 190, de 07-08-2006, disponível em http://bit.ly/ihuon190. (Nota da IHU On-Line)
[3] Marine Le Pen: é uma advogada e política de direita da França. Deputada do Parlamento Europeu desde 2004, foi eleita presidente da Frente Nacional em 16 de janeiro de 2011, em substituição a seu pai, Jean-Marie Le Pen. É também conselheira regional de Nord-Pas-de-Calais desde março de 2010 e conselheira municipal de Hénin-Beaumont desde março de 2008. (Nota da IHU On-Line)
[4] Euskadi Ta Askatasuna (basco para Pátria Basca e Liberdade, mais conhecida pela sigla ETA): organização nacionalista basca armada. É a principal organização do Movimento de Libertação Nacional Basco e o principal ator do chamado conflito basco. Foi fundada em 1959 como um grupo de promoção da cultura basca. No final dos anos 1960, evoluiu para uma organização, paramilitar separatista, lutando pela independência da região histórica do País Basco (Euskal Herria), cujo antigo território atualmente se distribui entre a Espanha e a França. Ao mesmo tempo, a ETA assumiu uma ideologia marxista-leninista revolucionária. É classificada como um organização terrorista pelos governos da Espanha, da França, do Reino Unido dos Estados Unidos e pela União Europeia em bloco. Em geral, a mídia doméstica e internacional também se refere aos integrantes do grupo como “terroristas”. A organização reivindica a zona do nordeste da Espanha e do sudoeste da França, na região montanhosa junto aos Pirenéus, virada para o Golfo de Biscaia, região denominada por Euskal Herria (País Basco). A ETA reivindica, em território espanhol, a região chamada Hegoalde ou País Basco do Sul, que é constituído por Álava, Biscaia, Guipúscoa e Navarra; também reivindica, em território francês, a região chamada Iparralde ou País Basco do Norte, que é constituído pelos territórios históricos de Labourd, Baixa Navarra e Soule. (Nota da IHU On-Line)
[5] John Rawls (1921 – 2002): foi um professor de filosofia política na Universidade de Harvard, autor de Uma Teoria da Justiça (A Theory of Justice, 1971), Liberalismo Político (Political Liberalism, 1993) e O Direito dos Povos (The Law of Peoples, 1999). Retomando a teoria do contrato social, Rawls propõe-se a responder de que modo podemos avaliar as instituições sociais: a virtude das instituições sociais consiste no fato de serem justas. Em outros termos, para o filósofo norte-americano, uma sociedade bem ordenada compartilha de uma concepção pública de justiça que regula a estrutura básica da sociedade. Com base nesta preocupação, Rawls formulou a teoria da justiça como equidade. (Nota da IHU On-Line).
[6] Thomas Hobbes (1588–1679): filósofo inglês. Sua obra mais famosa, O Leviatã (1651), trata de teoria política. Neste livro, Hobbes nega que o homem seja um ser naturalmente social. Afirma, ao contrário, que os homens são impulsionados apenas por considerações egoístas. Também escreveu sobre física e psicologia. Hobbes estudou na Universidade de Oxford e foi secretário de Sir Francis Bacon. A respeito desse filósofo, confira a entrevista O conflito é o motor da vida política, concedida pela Profa. Dra. Maria Isabel Limongi à edição 276 da revista IHU On-Line, de 06-10-2008. O material está disponível em http://bit.ly/ihuon276. (Nota da IHU On-Line)
[7] Karl-Otto Apel (1922): filósofo alemão que combina as tradições filosóficas analítica e continental. Professor emérito da Universidade de Frankfurt am Main. (Nota da IHU On-Line)
[8] Jürgen Habermas (1929): filósofo alemão, principal estudioso da segunda geração da Escola de Frankfurt. Herdando as discussões da Escola de Frankfurt, Habermas aponta a ação comunicativa como superação da razão iluminista transformada num novo mito que encobre a dominação burguesa (razão instrumental). Para ele, o logos deve contruir-se pela troca de idéias, opiniões e informações entre os sujeitos históricos estabelecendo o diálogo. (Nota da IHU On-Line)
[9] Max Scheler (1874-1928): conhecido como o filósofo dos valores. Nasceu em uma família judaica. Na sua juventude converteu-se ao catolicismo, do qual se foi gradualmente distanciando depois de 1923, aproximando-se de um panteísmo inspirado em Spinoza e Hegel. Ensinou nas Universidades de Iena, Munique e Colônia. De suas obras destacamos O lugar do homem no Mundo. (Nota da IHU On-Line)

A tolice do Anti-globalismo

Está ocorrendo pelo mundo afora uma onda anti-globalista. Talvez haja poucas coisas mais regressivas e disparatadas no mundo atual do que esta. Havia um certo anti-globalismo, fruto do protecionismo de vários países mas que não ameaçava o processo geral e irreversível da globalização. Ela foi assumida como plataforma política por Donald Trump que, segundo o prêmio Nobel em economia Paul Krugman, seria um dos presidentes mais tolos da história norte-americana. O mesmo vale para o recém eleito presidente, o ex-capitão Bolsonaro e seus ministros da educação e das relações exteriores, negacionistas deste fenômeno que só desinformados e preconceituosos não o percebem.

Por que se trata de um disparate dos mais insensatos? Porque vai diretamente contra a lógica do processo histórico irrefreável. Alcançamos um patamar novo da história da Terra e da Humanidade. Senão vejamos:há milhares de anos, os seres humanos, surgidos na África (somos todos africanos), começaram a se dispersar pelo vasto mundo, começando pela Eurásia e terminando na Oceania. No final do paleolítico superior, há quarenta mil anos, já ocupavam todo o planeta com cerca de um milhão de pessoas.

A partir do século XVI começou a volta da diáspora. Em 1521 Fernão de Magalhães fez o périplo do planeta, comprovando que é redondo. Cada lugar pode ser alcançado a partir de qualquer lugar. O projeto colonialista europeu ocidentalizou o mundo. Grandes redes, especialmente comerciais, ligaram todos com todos. Este processo se prolongou dos séculos XVII ao XIX quando o imperialismo europeu, a ferro e fogo, submeteu a seus interesses o mundo inteiro. Nós do Extremo Ocidente nascemos já globalizados. Esse movimento se reforçou no século XX, depois da segunda guerra mundial. Chegou à sua culminância nos dias atuais quando as redes sociais nos fizeram vizinhos uns dos outros, à velocidade da luz, e a economia tomou conta do processo, especialmente através da “Grande Transformação”(K.Polaniy) que significou a passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Tudo e tudo até o mais sagrado da verdade e da religião viraram mercadoria. Karl Marx na Miséria da Filosofia” (1847) chamou isso de “a corrupção geral” e da “venalidade universal”.

A globalização que os franceses preferem chamar, com melhor razão, de planetização, é um fato histórico inegável. Todos estão se encontrando num único lugar: no planeta Terra. Estamos na fase tiranossáurica da globalização que vem sendo feita sob o signo da economia mundialmente integrada, voraz como o maior dos dinos, o tiranossauro, por ser profundamente inumana pela pobreza que causa e pela acumulação absurda que permite.

Já entramos na fase humano-social da globalização por alguns fatores tornados universais, como a ONU, a OMC, a FAO e outros, os direitos humanos, o espírito democrático, a percepção de um destino comum Terra-Humanidade e de sermos uma única espécie do homo sapiens sapiens e demens.

Notamos já os albores da fase ecozóico-espiritual da globalização. A ecologia integral e a vida em sua diversidade terão a centralidade, não mais a economia, a reverência face a todo criado e o novo acordo com a Terra, vista como Mãe e um super Organismo vivo, que devemos cuidar e amar, valores profundamente espirituais. Cresce a noção de que somos aquela porção da Terra viva que num alto grau de complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Terra e Humanidade formamos uma única entidade, como bem testemunharam os astronautas de suas naves espaciais.

Chegou o momento, como profetizava o arqueólogo e cientista Pierre Teilhard de Chardin ainda em 1933:”A idade das nações já passou. Se não quisermos morrer é a hora de sacudir velhos preconceitos e construir a Terra”. Ela é a nossa única Casa Comum que temos como enfatizou o Papa Francisco em sua encíclica “Sobre o cuidado da Casa Comum”(2015). Não temos outra.

Estamos ouvindo preconceitos bizarros dos futuros governantes e de ministros de que a globalização é uma trama dos comunistas para dominar o mundo. Estes são aqueles que, segundo Chardin, não cuidam em construir a Casa Comum, mas se fazem reféns de seu pequeno e mesquinho mundo, do tamanho de suas cabeças parcas de luz.
Se eles não conseguem ver a nova estrela que irrompeu, o problema não é da estrela mas de seus olhos cegos.

Leonardo Boff escreveu “Destino e Desatino da Globalização” em: Do iceberg à Arca de Noé, Mar de Ideias,Rio 2010 pp. 41-63.

ESPERANZA: INDIGNACIÓN Y CORAJE

En Brasil hemos vivido en los dos últimos años dos grandes golpes: primero fue el juicio y la deposición de la presidenta Dilma Rousseff y este año de 2018 el ascenso de la extrema derecha con la elección de Jair Bolsonaro como presidente de Brasil.

Bolsonaro no ganó. Perdió el PT y, con él, Brasil.

1. Vivimos tiempos sombríos e inciertos

Vivimos tiempos sombríos e inciertos. Internacionalmente somos motivo de vergüenza y de escarnio. No sabemos siquiera qué futuro nos espera. La estructura de gobierno que se ha montado hasta ahora, particularmente en el Ministerio de Relaciones Exteriores y en el de Educación, nos dibujan un cuadro perturbador. En lugar de la asignación a partidos de los cargos del Estado está ocurriendo una militarización de sus principales puestos.

Los militares no han tenido que dar un golpe. El ex capitán Bolsonaro los llamó para el Gobierno. Como estamos sin horizonte, nos hemos quedado perplejos y muchos llenos de desesperanza.

2. Rescate de la utopía y de las utopías minimalistas

En un contexto así, antes de hablar de esperanza, tenemos que rescatar la dimensión de la utopía. La utopía no se opone a la realidad, sino que pertenece a ella, porque ésta no se hace sólo por lo queestá hecho y dado, por lo que está ahí palpable, sino por lo que todavía puede ser hecho y dado, por lo que es potencial y viable, aunque no sea todavía visible.

La utopía nace de este trasfondo de potencialidades presentes en la historia, en cada pueblo y en cada persona. El renombrado filósofo alemán Ernst Bloch introdujo la expresión principio-esperanza. Es más que la virtud de la esperanza; emerge como una fuente generadora de sueños y de acciones. El principio esperanza representa el inagotable potencial de la existencia humana y de la historia que permite decir no a cualquier realidad concreta, a las limitaciones de nuestra condición humana, a los modelos políticos y a las barreras que cercenan el vivir, el saber, el querer y el amar. Y decir sí a formas nuevas o alternativas de organización social o de plasmación de cualquier proyecto. El no es fruto de un sí previo y anterior.

Hoy podemos afirmar que las grandes utopías, las utopías maximalistas, del iluminismo (dar cultura letrada a todos), del socialismo (hacer que el nosotros prevalezca sobre el yo) y también del capitalismo (que el yo prevalezca sobre el nosotros) han entrado en una profunda crisis. Nunca realizaron lo que prometían: no todos participan de la cultura letrada, la mayoría no presenció la distribución equitativa y justa de los bienes, y la riqueza fue sólo de pequeños grupos y no de las mayorías. Más aún: todas estas utopías han degradado la Casa Común por la superexplotación, y han producido un mar de pobreza, de injusticia social y de sufrimiento evitable, en lugar de beneficios para todos.

Nos vemos obligados a volvernos hacia las utopías minimalistas, aquellas que no pudiendo cambiar el mundo, pueden sin embargo mejorarlo.

Las utopías minimalistas son aquellas que fueron implementadas por los gobiernos Lula-Dilma y sus aliados con base popular que ahora seguramente serán desmontadas por el gobierno de ultraderecha.

A nivel de las grandes mayorías son verdaderas utopías mínimas viables: recibir un salario que atienda las necesidades de la familia, tener acceso a la salud, llevar a los hijos a la escuela, conseguir un transporte colectivo que no quite tanto tiempo de vida, contar con servicios sanitarios básicos, disponer de lugares de ocio y de cultura y de una jubilación suficiente para enfrentar los achaques de la vejez.

La consecución de estas utopías minimalistas crea la base para utopías más altas: aspirar a que la nación supere relaciones de odio y de exclusión, que los pueblos se abracen en la fraternidad, que no guerreen entre ellos, que todos se unan para preservar este pequeño y hermoso planeta Tierra, sin el cual ninguna otra utopía sería posible.

3. Recuperar la fuerza política de la esperanza

La victoria de Bolsonaro es fruto de un inmenso y bien tramado fraude: suscitando el anti-petismo, presentando la corrupción endémica en el país como si fuera cosa del PT, defendiendo algunos valores de nuestra cultura tradicionalista y atrasada, ligada a un tipo de familia moralista y a una comprensión distorsionada de la cuestión de género, alimentando prejuicios contra los indígenas, los quilombolas, los homoafectivos, los LGTB y divulgando millones y millones de fake news calumniando y difamando al candidato Fernando Haddad. Informaciones segurasconstataron que cerca del 80% de las personas que recibieron tales noticiasfalsas creyeron en ellas

Detrás del triunfo de la extrema derecha actuaron fuerzas del Imperio, particularmente de la CIA, como lo han mostrado variosanalistas del área internacional, la clase de los adinerados, herederos de la Casa Grande, con vistas a preservar sus privilegios, parte del Ministerio Público, del grupo ligado al Lava-Jato, parte del STF y con fuerza expresiva la prensa empresarial conservadora que siempre ha apoyado los golpes y se siente mal con la democracia.

La consecuencia es el descalabro político, jurídico e institucional. Es falaz decir que las instituciones funcionan. Funcionan selectivamente para algunos. Todas ellas están contaminadas por la corrupción y la voluntad de apartar a Lula y al PT de la escena política. La justicia fue vergonzosamente parcial, especialmente lo fue el justiciero juez federal deprimera instancia Sérgio Moro, que hizo todo lo posible para meter a Lula en la cárcel, incluso sin materialidad criminal para tanto. Él siempre se movió no por el sentido del derecho, sino por el law fare (distorsión del derecho para condenar al acusado), por un impulso de rabia y por convicción subjetiva. Se dice que estudió en Harvard. Allí estuvo solo cuatro semanas, en el fondo para encubrir el entrenamiento que recibió en los órganos de seguridad de los EEUU sobre el uso del law fare.

Consiguió impedir que Lula fuera candidato a la presidencia ya que contaba con la intención de voto de la mayoría y hasta le secuestraron el derecho de votar. La victoria fraudulenta de Bolsonaro (a causa de los millones de fake news) legitimó una cultura de la violencia. Ella ya existía en el país en nivelesinsoportables (más de 62 mil asesinatos anuales), pero ahora se siente legitimada por el discurso de odio que el candidato y ahora presidente Bolsonaro supo alimentar durante la campaña. Tal realidad siniestra ha traído como consecuencia un fuerte desamparo y un sufrido vacío de esperanza.

Este escenario, contrario al derecho y a todo lo que es justo y recto, ha afectado a nuestras mentes y corazones de forma profunda. Vivimos en un régimen de excepción, en un tiempo de post-democracia (juez de Río, Rubens Casara). Ahora importa rescatar el carácter político-transformador de la esperanza y de la resiliencia, las únicas que nos podrán sostener en el marco de una crisis sin precedentes en nuestra historia. Tenemos que dar lavuelta por encima, no considerar la actual situación como una tragedia sin remedio, sino como una crisis fundamental que nos obliga a resistir, a aprender de las contradicciones y a salir más maduros, experimentados y seguros paratrazar un nuevo camino más justo, democrático, popular e incluyente para Brasil.

Nos referimos al principio esperanza, ya citado antes, que es aquel impulso que nos lleva a movernos siempre, a proyectar sueños y utopías y nos permite sacar sabias lecciones de los fracasos y hacernos más fuertes en la resiliencia, en la resistencia y en la lucha.

4. Las dos hermosas hijas de la esperanza

De San Agustín (353-450 de la era cristiana), tal vez el mayor genio cristiano y africano de Hipona, hoy Argelia, gran formulador de sentencias, nos viene esta máxima: la esperanza tiene dos bellas y queridas hijas: la indignación y el coraje. La indignación para rechazar las cosas tal como están; y el coraje, para cambiarlas.

En esta fase de nuestra historia, debemos evocar, en primer lugar, a la hija-indignación contra lo que el futuro gobierno de Bolsonaro está y aún va a perpetrar criminalmente contra el pueblo, contra los indígenas, contra los negros, contra los quilombolas, contra la población del campo, contra las mujeres, contra los sin techo, y los sin tierra (MST) criminalizándolos como terroristas, contra los trabajadores y los ancianos, quitándoles derechos y rebajando a millones de personas, que de la pobreza están pasando a la miseria.

No escapa la autonomía nacional, pues el gobierno, ofendiendo nuestra soberanía, está permitiendo vender tierras nacionales a extranjeros y muestra un humillante alineamiento con la estrategia derechista y militarista del gobierno norteamericano de Trump.

Si el gobierno ofende al pueblo, éste tiene derecho de evocar a la hija indignación y no darle paz. Debe denunciar, resistir y presionar lo más que pueda para cambiar los rumbos de la política.

La hija-coraje se muestra en la voluntad de cambio, a pesar de los enfrentamientos que pueden ser intensos. Es ella la que nos mantendrá animados, nos sustentará en la lucha y podrá llevarnos a cambios sustantivos. Es imperativo volver a las bases populares, donde nació el PT,crear escuelas de formación política, pasar de beneficiarios de proyectos gubernamentales de inclusión a ciudadanos activos que se organizan, ejercenpresiones, salen a las calles y presentan proyectos alternativos a los oficiales que den centralidad a los más pobres y vulnerables y se decidan por otro tipo de democracia participativa y ecológica.

Recordemos el consejo de Don Quijote: “no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”.

Hay un dato que debemos siempre tener en cuenta y es evocar el primer artículo de la constitución que reza: “todo el poder emana del pueblo”. Gobernantes, diputados y senadores son sólo delegados del pueblo. Cuando éstos traicionan y ya no representan los intereses generales, sino los del mercado voraz, y de grandes grupos corporativos nacionales e internacionales que sólo conocen la competencia ydesconocen lo que es más humano en nosotros, como es la colaboración y la solidaridad, el pueblo tiene derecho de reclamar un impeachment y buscar formas legales de alejarlos del poder.

Las dos bellas hijas de la esperanza podrán hacer suya la frase del escritor argelino-francés Albert Camus, autor de la famosa novela La Peste: “En medio del invierno, aprendí que dentro de mí vivía un verano invencible”.

El pueblo brasileño, en su momento, así esperamos, hará sentir dentro de sí este verano invencible, fruto de una rebelde esperanza. Será el rescate de la democracia contra la impostura del gobierno Bolsonaro y de sus seguidores y un pilar para refundación de nuestro país sobre otros valores y sobre bases más humanitarias y participativas

La esperanza no es sólo un principio, es decir, un dato de la esencia humana. Es también una virtud cristiana, junto con la fe y el amor. La esperanza, en cierto modo, está en la base de la vida. Podemos perder la fe y continuamos viviendo. Podemos perder el amor de nuestra vida y realizarnos en otro. Pero cuando perdemos la esperanza estamos a un paso del suicidio porque la vida ha perdido sentido y el futuro no tiene ningún horizonte con una luz orientadora. Dominan las tinieblas.

5. La esperanza en el Nuevo Testamento

Curiosamente los Evangelios nunca hablan de esperanza. Lógicamente en el pueblo elegido existía la esperanza de la venida del Mesías liberador. Se encuentra una vez en la epístola de San Juan (1 Jn, 3,3), 4 veces en la epístola a los Hebreos y 3 veces en la primera epístola de San Pedro.Pero es una virtud muy presente en los Hechos de los Apóstoles (7 veces) y frecuentemente en las cartas de San Pablo. Bien escribe en la Epístola a los Romanos que Abraham tuvo “una esperanza contra toda esperanza, de ser padre de muchas naciones” (4,18). En otro pasaje dice que “la esperanza nunca engaña, pues el amor está en nuestros corazones” (5,5).

Cristo nos salvó, pero peregrinamos en el mundo lejos de Dios. Por eso afirma San Pablo: “es en la esperanza que somos salvados” (Rom 8,24). A los Efesios les dice que en un cierto tiempo “vivíamos sin esperanza y sin Dios” (2,12) y ahora por la sangre de Cristo pertenecemos al Mesías.

Aunque no se use a menudo la palabra esperanza, la realidad de la esperanza para los cristianos fue, es y será Jesucristo vivo, muerto y resucitado. Por él Dios mostró que la promesa de salvación y de liberación de la creación y de la humanidad nunca se desvaneció. En él, por la resurrección, estamos seguros de que la esperanza jamás nos defraudará y que por ella se ha adelantado el fin bueno de la creación, del destino humano y del universo.

Debemos sumar las energías de la esperanza, de la que está siempre presente en nuestro ser, con aquella que es una virtud cristiana. Ambas se dan las manos. Ellas nos enriquecen dándonos energía para soportar las aflicciones del tiempo presente pero mucho más nos dan el coraje para enfrentarlas e inaugurar un nuevo camino.

Tal vez nunca en nuestra historia hayamos necesitado tanto de las dos formas de esperanza como ahora, pues los tiempos son malos y estamos gobernados por fuerzas poderosas del odio, de la exclusión, de la falsedad, de la violencia y de la mentira.

Que el Espíritu que es esperanza de los pobres no nos deje desanimarnos sino que nos acompañe con su Energía divina para ser fieles al sueño de Jesús. Él vino para enseñarnos a vivir los bienes del Reino: elamor, la justicia, la compasión con los pobres, el perdón y la total confianza en el poder de Dios, “apasionado amante de la vida” (Sb 11,26).

(Conferencia dada el día 2 de diciembre de 2018 en Belo Horizonte a un numeroso grupo de políticos que asumen la fe cristiana como fuente de ética y de inspiración para los ideales democráticos, grupo este organizado por el ex-diputado Durval Angelo de Andrade, actualmente miembro del Tribunal de Cuentas del Gobierno de Minas Gerais).

Leonardo Boff, teólogo y asesor de movimientos sociales.

Traducción de Mª José Gavito Milano