W.Novaes: Quando cuidaremos das nossas torres?

Washington Novaes é um dos melhores joranlistas brasileiros na área da ecologia. Semanalmente publica em O Estado de São Paulo um artigo sobre assuntos ligados ao tema. Este foi publicado no dia 9/9/2011 e merece ser meditado.lb

Na manhã de 11 de setembro de 2001, o autor destas linhas estava em Tefé, no Amazonas, preparando-se para embarcar no porto rumo à Reserva de Mamirauá, lá pelas bandas dos rios Japurá e Solimões, onde seriam gravadas cenas para um documentário da TV Cultura de São Paulo chamado “Biodiversidade: Primeiro Mundo É Aqui”. Sentado na calçada em frente a um hotel, olhava enquanto a equipe carregava numa van os equipamentos de gravação. Até que o porteiro do hotel, correndo e batendo uma mão na outra, veio dizer, esbaforido, que “um avião derrubou o maior prédio de Nova York; está lá, na televisão”. De fato, estava, deixando-nos todos perplexos. Mas era preciso partir. As “voadeiras” que nos levariam pararam, entretanto, num posto flutuante de combustíveis e lá havia uma televisão que mostrava um segundo avião derrubando uma segunda torre. Mas não tínhamos como esperar uma explicação, seguimos adiante. Nos cinco dias seguintes, como em Mamirauá não havia televisão nem telefone, ficamos, todos a circundar a reserva, a ver só água e florestas, sem nenhuma notícia, imaginando: será a terceira guerra mundial ? Só no fim do quinto dia, em um posto flutuante do Ibama, pudemos ver um noticiário de TV e entender o que acontecera.

Já se sabia, nesse 2011, que o Brasil detinha entre 15 e 20% da biodiversidade mundial e que essa é a maior riqueza real, concreta, do planeta (medicamentos, alimentos, materiais). Já se lutava, em várias frentes, por uma política de conservação efetiva para o bioma. Passados 10 anos, o cálculo que se faz é de que 18% da floresta já tenham desaparecido e que se chegar a 20% pode haver “uma inflexão”, como tem advertido o conceituado biólogo Thomas Lovejoy (Folha de S. Paulo, 14/8): poderá haver mudanças fortes no regime de chuvas, afetando também Mato Grosso, o Sul do país, até a Argentina. Experiente, Lovejoy diz que não devemos nos preocupar com ameaças do exterior, porque o mais grave já está aqui: “A pior forma de biopirataria é a destruição da floresta”.

Muitas vozes somam-se à dele. O prof. Paulo Moutinho, da Universidade Federal do Pará, lembra que “as florestas tropicais são o ar condicionado do planeta” (Eco 21, julho 2011). O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos alerta que “a miséria está transformando a Amazônia numa das principais rotas do tráfico internacional de armas e drogas” (ESTADO, 1/9). O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon se diz “muito preocupado” com o desmatamento, que “diz respeito a todos os países, é uma questão global”, até mesmo porque responde por 20% das emissões de gases que intensificam mudanças climáticas. E espera que esse seja um dos temas centrais da Rio +20 (ESTADO, 18/6). Só que o desmatamento voltou a crescer: 1.435 quilômetros quadrados de agosto de 2010 a maio de 2011 (mais 24%) e 6.081 km2 de florestas degradadas no mesmo período (mais 363%) – principalmente ao longo das principais rodovias, 65% em áreas privadas, 24% em assentamentos. Uma progressão que leva o prudente Financial Times (31/8) a dizer que “a Amazônia é um teste político para a presidente Dilma.

Resta saber em que termos. A própria presidente autorizou a redução da área de parques e reservas para permitir discutíveis obras de hidrelétricas na região – que sequer terão como principal mercado os Estados do bioma: só 3,2% da energia de Belo Monte será consumida pelos paraenses e 4,1% pela Amazônia; 70% ficará para concessionárias de São Paulo e Minas, 14% para a Bahia (Diário do Pará, 31/8) – isto é, irá para linhões de transmissão, uma rede que já perde 17% e, segundo o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, precisaria ser praticamente toda trocada; foi implantada para resistir a ventos de até 80 quilômetros por hora e hoje enfrenta o dobro (geodireito, 2/9).

E não é só. As pastagens respondem pela ocupação de 62% das áreas de desmatamento medidas pelo INPE (ESTADO, 3/9). Mas o novo relatório sobre o Código Florestal, em discussão no Congresso, continua a abrir o facilitário para desmatadores, inclusive de reservas legais obrigatórias e áreas de proteção permanente – além de transferir para governos estaduais poder para legislar na área, facilitando as pressões locais de agropecuaristas e políticos.

E tudo isso vai agravar a situação da Amazônia. Exatamente na hora em que um novo estudo sobre a biodiversidade mundial aponta que ela tem mais que o dobro das espécies até agora apontadas (8,7 milhões, pelo menos, quando se contabilizavam 3,1 milhões). Se a Amazônia tem um terço da biodiversidade brasileira e esta corresponde a pelo menos 15% da biodiversidade planetária, a Amazônia terá quase 500 mil espécies. Quanto vale isso, lembrando, segundo Lovejoy, que só o comércio mundial de medicamentos derivados de plantas movimenta pelo menos US$250 bilhões anuais – e o Brasil sequer participa dele, porque não destina verbas suficientes para pesquisas, como recomenda a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência ?

Não bastasse, num momento em que o mundo agoniza com a chamada crise da água, cientistas descobrem a 4 quilômetros de profundidade, sob o rio Amazonas, outro rio que corre de Oeste para Leste em 6 mil quilômetros e desemboca perto da foz do grande rio (ESTADO, 25/8). Seu fluxo, de 3 mil metros cúbicos por segundo, é maior que o do rio São Francisco. Em pouco mais de 20 minutos poderia abastecer com 350 litros (consumo diário) cada um dos 11,4 milhões de paulistanos. E isso num país que já tem quase 13% de toda a água superficial do planeta, fora a dos aqüíferos subterrâneos.Biodiversidade água, energia.

Quando passaremos a dar prioridade em nosso pensamento político e estratégia a fatores como esses, principalmente quando as sucessivas crises financeiras mundiais indicam que o mundo terá de valorizar recursos concretos, em lugar de papéis ?

Gaia se defende: faz diminuir o crescimento

Hoje é vastamente aceita e entrou já nos manuais de ecologia mais recentes (cf.R. Barbault, Ecologia Geral, Vozes 2011) a idéia de que a Terra é viva, chamada Gaia. Primeiramente, ela foi proposta pelo geoquímico russo W.Vernadsky – criador da palavra biosfera – na década de 1920 e retomada, nos anos de 1970, com mais profundidade por J. Lovelock e entre nós por J. Lutzenberger, chamando-a de Gaia. Com isso se quer significar que a Terra é um gigantesco superorganismo que se autoregula, fazendo com que todos os seres se interconectem e cooperem entre si. Nada está à parte, pois tudo é expressão da vida de Gaia, inclusive as sociedades humanas, seus projetos culturais e suas formas de produção e consumo. Ao gerar o ser humano, consciente e livre, a própria Gaia se pôs em risco. Ele é chamado a viver em harmonia com ela mas pode também o romper o laço de pertença. Ela é tolerante mas quando a ruptura se torna danosa para o todo, ela nos dá amargas lições como estamos assistindo atualmente com os eventos extremos.

Todos estão lamentando o baixo crescimento mundial, especialmente nos paises centrais. As razões aduzidas são múltiplas. Mas na perspectiva da da ecologia profunda (deep ecology), não se deveria excluir a interpretação de que tal fato resulte de uma reação da própria Terra face à excessiva exploração pelo sistema produtivista e consumista que tomou conta de todo o mundo. Ele levou tão longe a agressão ao sistema-Terra a ponto de, como afirmam alguns cientistas, inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno, o ser humano como uma força geológica destrutiva, acelerando a sexta extinção em massa que já há milênios está em curso. Gaia estaria se defendendo, debilitando as condições do arraigado mito de todas as sociedades atuais, inclusive a do Brasi:do crescimento, o maior possível, com consumo ilimitado.

Já em 1972 o Clube de Roma se dava conta dos limites do crescimento, este não sendo mais suportável pela Terra. Ela precisa de um ano e meio para repor o que extraimos dela num ano. Portanto, o crescimento é hostil à vida e fere a resiliência da Mãe Terra. Mas não sabemos nem queremos interpretar os sinais que ela nos dá. Queremos continuar a crescer mais e mais e, consequentemente, a consumir à tripa forra. O relatório “Perspectivas Econômicas Mundiais” do FMI, prevê para 2012 um crescimento mundial de 4,3%. Vale dizer, vamos tirar mais riquezas da Terra, desequilibrando-a como o demonstra o aquecimento global.

A “Avaliação Ecossistêmica do Milênio” realizada entre 2001 e 2005 pela ONU, ao constatar a degradação dos principais itens que sustentam a vida (água,solos, ar, energia, fibras etc) advertiu: ou mudamos de rota ou pomos em risco o futuro de nossa civilização.

A crise econômica-financeira de 2008 e retornada agora em 2011 refuta o mito do crescimento. Há uma cegueira generalizada que não poupa sequer os 17 Nobeis da economia, como se viu recentemente no seu encontro deles no lago Lindau no sul da Alemanha. À excessão de J. Stiglitz, todos eram concordes em sustentar a tese de que o marco teórico da atual economia não teve nenhuma responsabilidade pela crise atual (Jornal Página 12, B. Aires, 28/08/2011). Por isso, ingenuamente postularam seguir a mesma rota de crescimento, com correções, sem se dar conta de que estão sendo maus conselheiros.

Mas importa reconhecer um dilema de difícil solução: há regiões do planeta que precisam crescer para atender demandas de pobres, obviamente, cuidando da natureza e evitando a incorporação da cultura do consumismo; e outras regiões já super desenvolvidas precisam ser solidárias com as pobres, controlar seu crescimento, tomar apenas o que é natural e renovável, restaurar o que devastaram e devolver mais do que retiraram para que as futuras gerações também possam viver com dignidade, junto com a comunidade de vida.

A redução atual do crescimento representaria uma reação sábia da própria Terra que nos passa este recado: “parem com a idéia tresloucada de um crescimento ilimitado, pois ele é como um cancer que vai devorando todas as células sãs; busquem o desenvolvimento humano, dos bens intangíveis que, este sim, pode crescer sem limites como o amor, o cuidado, a solidariedade, a compaixão, a criação artística e espiritual”.

Penso em não incorrrer em erro na crença de que está havendo ouvidos atentos para essa mensagem e que faremos a travessia ansiada e bem sucedida.

En la actual crisis: gobernados por ciegos e irresponsables

Afinando los muchos análisis hechos acerca del conjunto de crisis que nos asolan, llegamos a algo que nos parece central y sobre lo que toca reflexionar seriamente. Las sociedades, la globalización, el proceso productivo, el sistema económico-financiero, los sueños predominantes y el objeto explícito del deseo de las grandes mayorías es consumir y consumir sin límites. Se ha creado una cultura del consumismo propalada por todos los medios. Hay que consumir el último modelo de celular, de zapatillas deportivas, de ordenador. El 66% del PIB norteamericano no viene de la producción sino del consumo generalizado.

Las autoridades inglesas se sorprendieron al constatar que, entre quienes promovían los disturbios en varias ciudades, no solamente estaban los habituales extranjeros en conflicto entre sí, sino muchos universitarios, ingleses desempleados, profesores y hasta reclutas. Era gente enfurecida porque no tenía acceso al tan propalado consumo. No cuestionaban el paradigma de consumo sino las formas de exclusión del mismo.

En el Reino Unido, después de M. Thatcher, y en USA después de R. Reagan, así como en el mundo en general, va creciendo una gran desigualdad social. En aquel país, los ingresos de los más ricos se incrementaron en los últimos años 273 veces más que las de los pobres, según informa Carta Maior el 12/08/2011. Por eso, no es de extrañar la decepción de los frustrados ante un «software social» que les niega el acceso al consumo y ante los recortes en el presupuesto social, del orden del 70%, que los castiga duramente. El 70% de los centros recreativos para jóvenes fueron simplemente cerrados.

Lo alarmante es que ni el primer ministro David Cameron ni los miembros de la Cámara de los Comunes se tomaron el trabajo de preguntar el por qué de los saqueos en las distintas ciudades. Respondieron con el peor remedio: más violencia institucional. El conservador Cameron dijo con todas las letras: «vamos a detener a los sospechosos y publicaremos sus caras en los medios de comunicación sin importarnos las preocupaciones ficticias con respecto a los derechos humanos».

He aquí una solución del despiadado capitalismo neo-liberal: si la orden que es desigual e injusta lo exige, se anula la democracia y se pasa por encima de los derechos humanos. Y esto sucede en el país donde nacieron las primeras declaraciones de los derechos de los ciudadanos.

Si miramos bien, estamos enredados en un círculo vicioso que puede destruirnos: necesitamos producir para permitir el tal consumo. Sin consumo las empresas van a la quiebra. Para producir, necesitan los recursos de la naturaleza. Estos son cada vez más escasos y ya hemos dilapidado un 30% más de lo que la tierra puede reponer. Si paramos de extraer, producir, vender y consumir no hay crecimiento económico. Sin crecimiento annual los países entran en recesión, generando altos índices de desempleo. Con el desempleo, irrumpen el caos social explosivo, depredaciones y todo tipo de conflictos. ¿Cómo salir de esta trampa que nos hemos preparado a nosotros mismos?

Lo contrario del consumo no es el no consumo, sino un nuevo «software social» en la feliz expresión del politólogo Luiz Gonzaga de Souza Lima. Es decir, urge un nuevo acuerdo entre un consumo solidario y frugal, accesible a todos, y los límites intraspasables de la naturaleza.

¿Cómo hacer? Existen varias sugerencias: el «modo sostenible de vida» de la Carta de la Tierra, el «vivir bien» de las culturas andinas, fundado en el equilibrio hombre/Tierra, la economía solidaria, la bio-socio-economía, el «capitalismo natural» (expresión desafortunada) que intenta integrar los ciclos biológicos en la vida económica y social, el ecosocialismo y otras.

Pero cuando los jefes de los Estados opulentos se reunen no hablan de estas cosas. Ahí se trata de salvar el sistema que está haciendo agua por todas partes. Saben que la naturaleza ya no puede pagar el alto precio que el modelo consumista cobra. Ya está a punto de poner en peligro la supervivencia de la vida y el futuro de las próximas generaciones. Estamos gobernados por ciegos e irresponsables, incapaces de darse cuenta de las consecuencias del sistema económico-político-cultural que defienden.

Es imperativo un nuevo rumbo global, si queremos garantizar nuestra vida y la de los demás seres vivos. La civilización científico-técnica que nos ha permitido niveles exagerados de consumo puede poner fin a si misma, destruir la vida y degradar la Tierra. Seguramente no es para esto para lo que hemos llegado a este punto en el proceso evolutivo.

Urge tener valor, osadía para cambios radicales, si es que todavía nos tenemos un poco de amor a nosotros mismos.

Actual Crisis: Ruled by the Blind and Irresponsible

Looking carefully at the many analyses of the crises that are destroying us, we see something that seems central, and about which we must think seriously. Societies, globalization, the process of production, the economic-financial system; the predominant dream and the explicit object of the desire of the great majority is to consume, and to consume without limits. A culture of consumerism has been created and is propagated by the media. We must have the latest models of cell phones, training shoes, and computers. 66% of the Northamerican GNP does not come from production, but from general consumption.

British authorities were surprised to learn that, among those who created the disturbances in many cities, were not only the usual foreigners in conflict with each other, but many college students, unemployed, teachers; and even soldiers. They were people enraged because did not have access to consumption. They did not question the consumption paradigm, but questioned the means of excluding them from that paradigm.

In the United Kingdom after Margaret Thatcher, and in the United States after Ronald Reagan, and in the world in general, great social inequality is growing. In the United Kingdom the income of the wealthiest has increased 273 times as much in recent years as that of the poor, according to Carta Maior, of 08/12/2011. Because of that, there is no surprise in the disappointment of the frustrated, who face a «social software» that denies them access to consumption and forces them to confront the cuts in the social budget, 70% of which falls punishingly hard on them: 70% of the youth recreation centers were simply closed.

What is alarming is that neither Prime Minister David Cameron nor the members of the House of Commons took the time to ask themselves the whys of the looting in so many cities. They responded with the worst remedy: more institutional violence. Conservative Cameron said, emphasizing every word: «we will detain the suspects and will publish their faces in the mass media and we could care less about the fictitious worries about human rights». This is the solution of pitiless neo-liberal capitalism: if an order that is unequal and unjust demands it, democracy is annulled, and human rights are ignored. And this happens in the country where the first declarations of the rights of the citizens were born.

If we look carefully, we can see that we are embroiled in a vicious cycle that can destroy us: we need to produce to allow such consumption. Without consumption, enterprises go broke. Resources of nature are needed to produce. These resources are ever more scarce and we have already disposed of 30% more than what the Earth can replace. If we stop extracting, producing, selling and consuming there will be no economic growth. Without annual growth countries fall into recession, generating high rates of unemployment. With unemployment, explosive social chaos erupts, degenerating into all types of conflicts. How can we get out of this trap that we have set for ourselves?

The opposite to consumerism is not non-consumption, but a new «social software» as expressed by political expert Luiz Gonzaga de Souza Lima. That is, we urgently need a new agreement, between a frugal and solidarian consumption, accessible to all, and the limits of nature that must be respected. How to do it? There are several suggestions: the «sustainable way of life» of the Earth Charter, the «good living» of the Andean cultures, founded on the equilibrium human being/Earth, the solidarian economy, the bio-socio-economy, the «natural capitalism» (unfortunate expression) that attempts to integrate the biological cycles in the socio-economic life, and others and the ecosocialism.

But when the heads of the wealthy States get together, they do not talk about these things. They try to save a system that is leaking everywhere. They know that nature can no longer pay the high price charged by the consumerist model. It is already endangering the survival of life and the future of generations to come. We are ruled by blind and irresponsible leaders, incapable of understanding the consequences of the economic-political-cultural system they defend.

A new global path is imperative, if we want to guarantee our lives and the lives of all other living beings. The scientific-technical civilization that has allowed us exaggerated levels of consumption can ruin that civilization itself, destroying life and degrading the Earth. It is certainly not to such an end that we have reached this point in the process of evolution.

We must have the courage and daring to create radical change, if we still have a little of love for ourselves.