Um Brasil em fazimento

                              Leonardo Boff

“Que Brasil queremos” nunca sai da pauta de nossas discussões, especialmente na bases que sofrem o peso de um tipo de Brasil marcado por imensas desigualdades e sangrado pelo perverso governnante de nossa história:Jair Bolsonaro.

Para dar consistência ao projeto-Brasil importa trabalhar  sobre três eixos dialeticamente imbricados: a educação libertadora, a democracia integral e o desenvolvimento socio-ecológico. Resumidamente, mister se faz  desenvolver  uma educação libertadora que nos abra para uma democracia integral, capaz de produzir um tipo de desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentado.

Partimos do pressuposto de que a Terra não tem mais condições de aguentar a depredação produzida pela voracidade produtivista e consumista do ethos do capital. Esta ordem na desordem somente perdura porque se utiliza a força dura e doce  para manter as grandes maiorias  em estado de penúria crônica. 18% da população mundial consome irresponsavelmente 80% dos recursos não-renováveis com nenhum  sentido de solidariedade generacional e de respeito ao patrimônio natural de toda a vida.

       Com acerto assinalava Celso Furtado: “O  desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de  tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos” (Brasil, A construção interrompida, Paz e Terra 1993. p.76).

Novo paradigma de desenvolvimento

O que se aqui se postula é uma mudança no paradigma do desenvolvimento, indispensável para resguardar a natureza, salvar a humanidade e possibilitar um projeto-Brasil alternativo. A Declaração sobre o Direito dos Povos ao Desenvolvimento da ONU de 18 de outubro de 1993 assimilava já esta necessidade ao definir que o desenvolvimento é “um processo econômico, social, cultural e político abrangente, que visa o constante melhoramento do bem-estar de toda a população e de cada indivíduo na base de sua participação ativa, livre e significtiva e na justa distribuição dos benefícios resultantes dele”(Declaration on the Right to Development, ECOSOC  18.10.1993). Nos acrescentaríamos ainda, no sentido da integralidade, a dimensão psicológica e espiritual.

Portanto, postula-se que a economia, como produção dos bens materiais é meio para a possibilitar o desenvolvimento cultural, social e espiritual do ser humano. Errônea e com funestas consequências  é a visão que entende o ser humano apenas como um ser de necessidades e de desejo de acumulação ilimitada e por isso da economia como crescimento ilimitado, como se ele fosse meramente um animal faminto e não um ser criativo, com fome de beleza, de comunhão e de espiritualidade. O Papa Francisco na encíclica Laudato Si,chama este pressuposição de “mentira”(n.106).

Faz-se mister produzir e consumir o que é necessário e decente e não produzir e consumir o que é supérfluo, excessivo e abusivo. Precisamos passar de um economia da produção ilimitada para uma economia multidimensional da produção do suficiente generoso, para todos os humanos  e também para os demais seres da comunidade de vida à qual pertencemos.

O sujeito central do desenvolvimento, portanto, não  é a mercadoria, o mercado, o capital, o setor privado e o estado, mas o ser humano e os demais seres vivos como os principais documentos sobre a ecologia o enfatiazam

Construção da democracia integral

É dentro deste  contexto que se planteia a questão da democracia integral. Primeiro como valor universal a ser vivido em todos os âmbitos onde o ser humano se encontra com outro ser humano, nas relações familiares, comunitárias, produtivas e sociais. Em seguida como forma de organização política. Seria o sistema  que garante a cada um e a todos os cidadãos a participação  ativa e criativa em todas as esferas de poder e de saber da sociedade. Essa democracia seria por definição popular (mais ampia que a democracia burguesa e liberal), solidária (não excluiria ninguém, em razão de gênero, de  raça e ideologia), respeitadora das diferenças (pluralista e ecumênica), sócio-ecológica porque incluiria como cidadãos e sujeitos de direitos também o meio-ambiente, as paisagens, os rios, as plantas e os animais,  numa palavra, uma democracia verdadeiramente integral. 

Para ser cidadão-sujeito são exigidos três processos: o primeiro, o empoderamento, isto  é, a conquista de poder  para ser sujeito pessoal e coletivo de todos os processos relacionados com o seu desenvolvimento pessoal e coletivo; o segundo  é  a cooperação para além da competição  e da concorrência, motor da cultura do capital, que faz dos cidadãos protagonistas do bem comum. O terceiro, a auto-educação continua para exercer sua cidadania e con-cidadania junto com outros sujeitos. Como asseverava Hannah Arendt: alguem pode  conhecer a vida inteira sem se auto-educar.

 Educação da práxis

É nesse ponto que o desenvolvimento centrado no ser humano e na democracia integral   se articula com  a educação integral. A educação integral é um processo pedagógico permanente que abrange a todos os cidadãos em suas várias dimensões e que visa educá-los no exercício sempre mais pleno do poder, tanto na esfera de sua subjetividade quanto na de suas relações sociais.  Sem esse exercício de poder solidário e cooperativo não surgirá uma democracia integral nem um desenvolvimento centrado na pessoa e na natureza e por isso  o único verdadeiramte sustentado.

A prática, portanto, é a fonte originária do aprendizado e do conhecimento humano, pois o ser humano é por natureza constitutiva, um ser prático. Ele não tem a existência como um dado, mas como um feito, como uma tarefa que exige uma prática de permanente construção. Não tendo nenhum órgão especialiado, ele tem que continuamente se construir a si mesmo e o seu habitat pela prática cultural, social, técnica e espiritual. Isso o sublinhou com profundidade o economista e educador popular Marcos Arruda,discípulo de Paulo  Freire, em seu  livro Tornar o real possível (Vozes 2003). 

Cabe reconhecer que  cohecimento sozinho não transforma a realidade; transforma a realidade somente  a conversão do conhecimento em ação.     Entendemos por práxis exatamente esse movimento dialético entre  a conversão do conhecimento em ação transformadora e a conversão da ação transformadora em conhecimento. Essa conversão não apenas muda a realidade, mas muda também o sujeito.

Práxis, portanto, é o caminho de todos na construção da consciência humana e universal. É acessível a todos os humanos que têm uma prática. O trabalhador manual, portanto, não precisa,  para aprender,  memorizar uma quantidade ilimitadada de conteúdos. O essencial é que aprenda a pensar a sua prática individual e social, articulando o local com o global e vice-versa.

A educação da práxis visa atingir esses três objetivos principais:

A  apropriação dos instrumentos adequados para pensar a sua prática individual.

Apropriação do conhecimento científico, político, cultural e espiritual acumulado pela humanidade ao longo da história para garantir-lhe a satisfação de suas necessidades e realizar suas aspirações.

       Apropriação dos instrumentos de avaliação crítica do conhecimento acumulado, reciclá-lo e acrescentar-lhe novos conhecimentos que incluam a afetividade, a intuição, a memória biológica e histórica contida no próprio corpo e na psiqué, os sentidos espirituais como da ética, o da unidade do Todo, da beleza, da transcendência e do amor.

       Educação: a maior revolução

Investir em educação, como sempre repetia Darcy Ribeiro, é inaugurar a maior revolução que se poderá realizar na história, a revolução da consciência que se abre ao mundo, à sua complexidade e aos desafios de ordenação que apresenta. Investir na educação é fundar a autonomia de um povo e garantir-lhe as bases permanentes de seu refazimento face a crises que o podem abalar  ou desestruturar como atualmente ocorreu após a devastação do ignóbil governo Bolsonaro. Investir em educação é investir na qualidade de vida social e espiritual do povo. Investir em educação é investir em mão de obra qualificada. Investir em educação é garantir uma produtividade maior.

O estado brasileiro nunca promoveu a revolução educacional. É refém histórico das elites proprietárias que pecisam manter o povo na ignorância e na incultura para ocultar a perversidade de seu projeto social que é reproduzir seus privilégios e perpetuar-se no poder.

O projeto-Brasil, do Brasil em fazimento, fará da revolução educacional sua alavanca maior, criando o espaço para o povo poder expressar sua alta capacidade de criação artística e inventividade prática, finalmente, para plasmar-se a si mesmo como gostaria de se plasmar.

Arruda, M., e Boff, L.,Globalização: desafios socioeconômicos, éticos e educativos, Vozes 2000; L.Boff, Brasil: concluir a refundação ou prologar a dependência, Vozes 2018.

A crise do Brasil e do mundo: tragédia ou drama?

                                      Leonardo Boff

Finalmente no Brasil estamos saindo de uma profunda crise que quase abalou os fundamentos não só de nossa democracia mas de nossa civilização em fazimento. Fomos tomados por uma barbárie cujos atores, em sua maioria, eram verdadeiros criminosos. Estamos respirando politicamente ares de decência, de vontade firme de garantir a democracia e o Estado de direito democrático. Que nunca mais aconteça a trágica e bizarra depredação dos três palácios sagrados que fazem funcionar o nosso governo.

Não menor e com viés de tragédia é a situação geral do mundo com a crescente degradação do planeta, o aumento já incontrolável do aquecimento global que inaugurou um novo regime climático para pior a ponto de o Secretário Geral da ONU, António Guterrez ter advertido na COP sobre o clima no Egito em janeiro deste ano:”Ou fechamos um pacto de solidariedade climática ou um pacto de suicídio coletivo”. Sérias palavras de um homem sério.

A crise planetária. não é apenas conjuntural mas estrutural, pois abala  nosso sentido de viver juntos. Ela pode representar uma tragédia cujo desfecho pode ser devastador, como no teatro grego ou um drama cujo termo pode ser bem-aventurado como na liturgia cristã. Depende de nós e de nossa capacidade de decidir, se ela será uma coisa ou outra. Mas cresce a consciência de que nos acercamos do momento em que temos que decidir, caso contrário, a crise deixará de ser drama para virar tragédia coletiva, como advertia sabiamente o Secretário Geral da ONU.

Desde o advento do existencialismo, especialmente com Sören Kierkegaard, a vida é entendida como processo permanente de crises e de superação de crises. Ortega y Gaset mostrou, num famoso ensaio de 1942, que a história,  por causa de suas rupturas e  retomadas, possui a estrutura da crise. Esta obedece à seguinte lógica:(1)a ordem dominante deixa de realizar um sentido evidente; (2) começa a crítica e a percepção de que um muro se levanta à nossa frente, por isso reinam dúvida e ceticismo; (3) urge uma decisão que cria novas certezas e um outro sentido; mas como decidir se não se vê claro? mas sem decisão não haverá saida para a crise;(4)tomada a decisão, mesmo sob risco, abre-se, então, novo caminho e outro espaço para a liberdade. Superou-se a crise. Nova  ordem começa.

A crise representa purificação e oportunidade de crescimento. Não precisamos recorrer ao diagrama chinês de crise para saber desta significação. Basta recordar sua origem mais ancestral  no sânscrito, matriz de nossa lingua. Em sânscrito, crise vem de kir ou kri que significa purificar e limpar. De kri vem crisol, elemento  com o qual limpamos ouro das gangas e acrisolar que quer dizer depurar. Então, a crise representa um processo critico, de depuração do cerne: só o verdadeiro e substancial fica, o acidental e agregado desaparece. A partir do cerne se constrói uma outra ordem.

Mas todo processo de purificação não se faz sem cortes e rupturas. Dai a necessidade da decisão. A de-cisão opera uma cisão com o anterior e inaugura o novo. Aqui nos pode ajudar o sentido grego de crise. Em grego krisis, crise, significa a decisão tomada por um juiz ou um médico.  O juiz pesa e sopesa os prós e os contras e o médico conjuga os vários sintomas; então, ambos tomam a decisão pelo tipo de sentença ou pelo tipo de tratamento para a doença. Esse processo decisório é chamado crise. Tomada a decisão, desaparece a crise. O evangelho de São João usa 30 vezes a palavra crise no sentido de decisão. Jesus comparece como “a crise do mundo”, pois obriga as pessoas a se decidirem.

No Brasil sempre protelamos as crises que nos obrigarim a dar um salto de qualidade face às profundas injustiças sociais para com os pobres, a população negra, os quilombolas. os indígenas,como testemunhamos, há dias, tristemente o verdadeiro genocídio do povo yanomami.

Sempre se fazem conciliações a pretexto da governabilidade e assim se preservam os privilégios das elites. A crise do capitalismo é notória.É um sistema perverso que conseguiu tomar todo o planeta com seu industrialismo e o sonho ilusório de um crescimento ilimitado. Ele, não simplesmente a humanidade, é o fator principal da crise do sistema-vida e do sistema-Terra. Suas grandes corporações com seus CEOs e técnicos estão mais preocupadas em garantir seus ganhos do que tomar medidas para equilibrar o emissão de gases de efeito estufa e tirar o planeta de uma tragédia anunciada.

É um sistema tão azeitado que funciona por si mesmo como um robot, pondo em risco o  equilíbrio so planeta que deve garantir a base de sustentação de nossas vidas. Ou superamos este sistema de um industrialismo voraz ou ele tornará o planeta inabitável para eles e para todos.

Bem disse Platão em meio à crise da cultura grega: “as coisas grandes só acontecem no turbilhão”. Com a de-cisão, o turbilhão e a crise desaparecem e nasce uma nova esperança. Podemos esperar isso para a nossa geração submetida a tantas ameaças?

O esperançar de Paulo Freire nos pode inspirar: não apenas esperar que as coisas aconteçam para o bem por si mesmas, mas criar a condições objetivas para que a esperança se transforma numa nova ordem, na qual, ainda nas palavras do Mestre,”a sociedade não seja tão malvada e não seja tão difícil o amor”.

Leonardo Boff é filósofo e ecoteólogo ecreveu: A busca da justa medida: o pescador ambicioso e o pexie encantado,Vozes 2022.

Il rischio di distruggere il nostro futuro

Nel luglio 2021 il grande pensatore della complessità Edgard Morin ha compiuto 100 anni. Attento osservatore del corso del mondo, ci ha consegnato un libro Réveillons-nous! – Risvegliamoci! pieno di saggi e severi avvertimenti. Ha riassunto il suo pensiero in un’intervista a Jules de Kiss, pubblicata il 26 marzo 2022 su Franceinfo e riprodotta in portoghese dall’IHU il 4 aprile 2022. Lettore abituale dei suoi scritti, questa intervista ha ispirato il presente articolo.

Morin avverte quello che ripeto da tempo: dobbiamo stare attenti, cercare di vedere e capire cosa sta succedendo. La stragrande maggioranza, compresi i capi di stato, sono incoscienti delle gravi minacce che gravano sul pianeta Terra, sulla vita e il nostro futuro. Sembrano sonnambuli o zombi, ossessionati dall’idea di una crescita economica sempre in aumento, oltre che dalla sicurezza e dalla maggiore costruzione di armi di distruzione di massa.

Viviamo sotto diverse crisi, tutte gravi: la più immediata è la pandemia che ha colpito l’intero pianeta, il cui significato ultimo non è stato ancora individuato. Per me è un segno che la Terra viva ha mandato ai suoi figli e figlie: «non potete continuare con il saccheggio sistematico della comunità di vita in cui s’incontrano gli habitat dei vari virus che negli ultimi anni hanno devastato regioni del pianeta». Con il Covid-19 è stato colpito l’intero pianeta, non altri esseri viventi e domestici. È un segno che non viene letto dalla maggioranza dell’umanità, né dagli analisti, concentrati sui vaccini e sulle cure necessarie. Chi si interroga sul contesto in cui è apparso il virus? È una conseguenza dell’assalto degli esseri umani alla natura, soprattutto con il disboscamento di vaste regioni, distruggendo la casetta dove abitano i virus che sono passati ad altri animali e da loro a noi.

La crisi climatica è grave, perché se non ce ne occupiamo entro il 2030, il riscaldamento può raggiungere 1,5 gradi Celsius o più, compromettendo la maggior parte degli organismi viventi e gran parte dell’umanità. Insieme a questo arriva il Sovraccarico della Terra (Earth Oveshoot) che si è verificato il 29 luglio 2021: i beni e servizi importanti per la vita stanno finendo. Già ora, abbiamo bisogno di 1,7 Terra per soddisfare il tipo di consumo, principalmente, delle classi abbienti. Si sottrae alla Terra ciò che essa non può più dare. Essa reagisce aumentando il riscaldamento, gli eventi estremi, l’erosione della biodiversità e più conflitti sociali.

Ciò che funziona come una spada di Damocle è la possibilità di una guerra nucleare che può distruggere tutta la vita e gran parte dell’umanità. Morin scrive: “Penso che siamo entrati in un nuovo periodo. Per la prima volta nella storia, l’umanità corre il rischio di annientamento, forse non totale – ci saranno alcuni sopravvissuti, come in Mad Max – ma una sorta di “ripartenza” da zero in condizioni sanitarie senza dubbio terribili. La guerra in Ucraina ha risuscitato questo spettro, poiché la Russia, come già diceva Gorbachov, può distruggere tutta la vita con solo la metà delle sue testate nucleari. Ma fiducioso che la storia non sia ancora conclusa, Morin afferma speranzoso: “Abbiamo bisogno di sperare l’insperato per sapere come navigare nellincertezza

Tutti conoscono l’erosione delle idee democratiche nel mondo intero. In molti paesi, come il Brasile, si sta imponendo uno spirito autoritario e fascistoide, che fa della violenza fisica e simbolica e della menzogna diretta una forma per governare. La democrazia ha finito di essere un valore universale e una forma per vivere civilmente in comunità. Questo spirito può innescare uno tsunami di guerre regionali di grande distruzione.

Non dimentichiamo il monito di papa Francesco nella Fratelli tutti (2020): «stiamo sulla stessa barca, o ci salviamo tutti o nessuno si salva». Siamo responsabili del nostro futuro e della vita sul pianeta.

Abbiamo la stessa fiducia di Morin che, come la storia ha dimostrato, l’insperato e l’improbabile possano accadere. Già un pre-socratico ci insegnava: “se non speriamo l’insperato, quando arriverà, non ce ne accorgeremo”. E così lo perderemo.

Questa è la nostra fiducia e speranza: siamo nel mezzo di crisi che non devono sfociare in tragedie fatali. Ma possono essere il risveglio di una nuova coscienza e allora, l’occasione per un salto di qualità verso una sorta di pacifica convivenza all’interno dell’unica Casa Comune. Sarà questo il prossimo passo per l’umanità? La grande felicità!

(Traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

CRISE CLIMATIQUE ET ALIÉNATION

                                  Michel Löwy

Michel Löwy é um pensador, sociólogo, franco-brasileiro, professor na Sorbonne e autor de inúmeros livros de linha marxiana e um dos melhores conhecedores da teologia da libertação sobre a qual escreveu vários livros. É um dos fundadores do ecosocialismo e preocupado com o alarme ecológico que, a seguir a lógica do sistema de produção depredador e desenfreado, pode tornar a Terra inabitável. É este sistema que já dura cercaq de 300 anos e implantado no mundo inteiro e sem qualquer compaixão para com a vida terrestre natural e humana, o causador principal da atual crise sisrêmica. Se não cuidarmos ela poderá ser fatal. Transcrevemos este artigo por ser didático e esclarecedor do atual drama climático e ecológico da Terra. LBoff

Nous sommes tous des passagers d’un nouveau Titanic. Toutefois, contrairement à celui de 1912, les officiers et la plupart des passagers de ce superbe transatlantique sont au courant. Ils savent que si le nouveau Titanic continue son cours actuel, il va immanquablement heurter un iceberg et couler. L’iceberg s’appelle «Changement climatique ».

Certains des officiers ont posé la question d’un changement de cours. «Trop cher» leur a-t-on répondu: il faudrait indemniser les passagers, etc., bref, de grosses dépenses. On a cependant pris la résolution de réduire l’allure, mais elle n’a guère été appliquée. Pendant ce temps, dans la luxueuse Classe affaires, l’orchestre joue et les passagers dansent. En Classe économique les gens suivent avec passion, à la télévision, le championnat de football. Un groupe de jeunes indignés protestent, et exi- gent une autre route, mais leur voix est couverte par le bruit de l‘orchestre et de la télévision.

Certains passagers, aussi bien en Classe affaires qu’économique, sont inquiets. Très inquiets même. Ils savent qu’un certain nombre de passagers clandestins ont réussi à monter sur le transatlantique. Ils se mobilisent activement pour les pourchasser et les jeter à la mer. Une minorité philanthropique pro-pose qu’on leur donne un gilet de sauvetage avant de les abandonner dans l’océan. C’est encore en discussion.

Pendant ce temps, le nouveau Titanic avance, inexorablement, vers son iceberg.

Cette allégorie tragicomique peut servir à illustrer la situation de notre civilisation (capitaliste industrielle moderne) face à la menace, de plus en plus évidente, de la catastrophe écologique, à savoir d’un changement climatique irréversible et incontrôlable, mettant en péril les fondements même de la vie en général, et de la vie humaine en particulier. N’y aurait-il pas là une aliénation de l’humanité tout entière, incapable de parer au danger imminent ?

L’iceberg approche

 Qu’est-ce que donc l’aliénation ? Le dictionnaire Robert en donne deux définitions :

 1) Trouble mental, passager ou permanent, qui rend l’individu incapable de se conduire normalement.

  2) État de l’individu qui devient esclave des choses et  des conquêtes de l’humanité, qui se retournent contre lui.

Sommes-nous dans le premier cas ? Peut-on parler d’une sorte de « trouble mental » collectif, qui rend les individus incapables de se conduire normalement ? Peut- être. Mais plutôt que de « trouble mental », il faudrait parler d’aveuglement volontaire ou de myopie aggravée ou encore de comportement d’autruche (face au danger, la tête dans le sable).

Je penche plutôt pour la deuxième définition du dictionnaire, à condition de l’étendre de l’individu à la collectivité.

L’analyse classique de l’aliénation (Entfremdung) se trouve chez Marx, en particulier dans les Manuscrits de 1844. Pour le jeune Marx l’aliénation est le processus par lequel les produits de l’activité humaine, du travail, de la production, deviennent indépendants de leurs créateurs et prennent la forme d’une puissance autonome, qui échappe à leur contrôle et s’oppose à eux comme hostile et étrangère.

Tel est le cas des marchandises, du marché mondial, des énergies fossiles, de l’agriculture industrielle, du productivisme, du consumérisme. En fait, c’est toute la civilisation industrielle qui est devenue une puissance incontrôlable, qui se retourne contre ses créateurs,  et menace de les détruire. ll est une sorte de système «automate», impersonnel,  qui fonctionne selon ses propres règles parfaitement fondées sur des calculs mathématiques (de pertes et de profits) impéccables. Le Nouveau Titanic navigue  en conduite automatique, dont le fonctionnement est âprement défendu par ceux qui jouissent des privilèges de ce bateau de grand luxe.

Le pire peut encore être évité. On peut encore sortir du cercle infernal de l’aliénation et reprendre le contrôle de la navigation. On peut encore changer de route. Mais le temps presse…

Changeons de route

Qui sont ces jeunes qui tentent, avec une énergie inépuisable, de réveiller les passagers du Nouveau Titanic et rompre le charme mortifère de l’aliénation marchande ? La nouvelle génération est de plus en plus consciente que ce sera à elle de «payer l’addition», dans quelques dizaines d’années, pour l’aveuglement de ceux qui détiennent aujourd’hui le pouvoir, fusse-t-il économique ou politique. Elle comprend très bien que le problème ne se situe pas seulement au niveau des gouvernants – dont l’inertie est évidente, et se traduit dans le spectaculaire échec des dizaines de réunions de la COP, y compris la dernière sur le climat à Charm el-Cheikh, mais dans le système économique en place (i. e. le capitalisme industriel moderne). Cette conscience se traduit dans le mot d’ordre d’innombrables manifestations depuis la Confé- rence de Copenhague en 2009 : « Changeons le système, pas le climat!» Car, comme le résume parfaitement Greta Thunberg : « Il est mathématiquement impossible de résoudre la crise climatique dans le cadre de l’actuel système politique et économique ».

Greta Thunberg – traité de « sorcière » par les fascistes, néo-fascistes et réactionnaires de tout poil – a indéniablement joué un rôle catalyseur dans la mobilisation de la jeunesse pour le climat. Son appel de 2019 à une grève mondiale pour le climat a été suivi par 1,6 million de jeunes dans 125 pays du monde et celui du 20 septembre 2019 par 7 millions! La crise de covid-19 a sans doute ralenti cette mobilisation, mais elle reprend à nouveau, sous mille formes différentes : Friday for Future, Global Climate Strike, Extinction Rebellion, Youth for Climate, etc.

Résumant l’état d’esprit de cette génération, Greta Thunberg déclarait récemment: «Nous ne capitulerons pas sans lutter.» Cette combativité de la jeunesse est notre principal espoir pour éviter le naufrage collectif.

(Paru dans  Ecorev n° 53,  dec. 2022)