O fracasso da COP26: a usência da  razão cordial e sensível

É lugar comum dizer-se como em tantos cartazes de manifestantes na rua, de fora da grande Assembleia das várias COPs:”o que deve mudar não é o clima mas o sistema” ou também de forma mais direta:”o problema não são as mudanças climáticas mas o capitalismo”. Nesses referidoslogans há muito de verdade. Mas temos que ir além: o sistema e o capitalismo são expressões de algo mais profundo esse sim, o verdadeiro deslanchador das mudanças climáticas que ganham corpo dentro do referido sistema e do capitalismo.

Por detrás do referudi sistema e do capitalismo está um tipo de racionalidade que ganhou feições monopolísticas e, por vezes, tirânicas, pois, se impôs a todas as demais formas como a única válida. Temos a ver com a razão instrumental-analítica e  burocrática sem sensibilidade e cordialidade. Por ela se realizou o mantra dos pais fundadores da modernidade do século XVII-XVIII Descartes, Francis Bacon e outros.  Estabeleceu-se a vontade de poder como eixo estruturador do mundo a construir, poder entendido com dominação impiedosa da natureza, da vida, de continentes, de povos, de classes e de pessoas. Max Weber, em seu texto de 1919 “O métier e a vocação do “savant” (pesquisador e erudito) afirmou: “O destino de nossa época, caracterizada pela racionalização, intelectualização e, sobretudo, desencantamento do mundo, conduziu os seres humanos a banir os valores supremos mais sublimes da vida pública”. Com efeito, hoje, o que conta, é o PIB calculado friamente pelos valores materiais produzidos. Nele tudo que é valioso e confere sentido à vida humana como o amor, a amizade, a solidariedade a compaixão, expressões da razão cordial, não vem computado. Esse mesmo Max Weber no Espírito do Capitalismo mostrou que o espírito de cálculo, a racionalidade instrumental-analítica e a dominação burocrática são co-naturais ao capitalismo. Ele não considera na natureza  qualidades, o seu esplendor e sua rica complexidade mas apenas as quantidades a serem exploradas para o desfrute humano. A Terra é considerada um baú de recursos que, explorados, produzem riqueza material. O ser humano se entende  como “dominus”,”mestre e dono” da natureza e não parte dela. Esquece que veio também do pó da terra como todos os seres que o faz irmão e irmã universal, sonho maior da Fratelli tutti (2020) do Papa Francisco: o frater como alternativa ao dominus. O mundo contemporâneo e cibernético levou às últimas consequências esse destino, duramente criticado na terceira parte da encíclica papal Laudato Si (2015): ”A raiz humana da crise ecológica” (n.101-114). Critica a indiferença e falta de sensibilidade para com os demais humanos e com os seres da natureza.

Ocorre que o ser humano não possui apenas este exercício da razão, a forma dominante de organizar e dominar o mundo. Há nele algo  mais ancestral que é a razão sensível e cordial. Ela alberga o sentimento de pertença, o universo dos valores éticos, o amor, a empatia, o cuidado e a espiritualidade. Acima dela, irrompe a razão como inteligência que capta o sentido do todo e nos abre  ao infinito de nosso desejo que busca o seu objeto infinito adequado: Aquele ser que faz ser todos os seres. Nestas duas expressões da razão – a cordial e a intelectual – se encontram os valores que nos permitem simultaneamente ouvir e sofrer com o grito da Terra e com o grito do pobre, que nos fazem perceber a rede de relações e interdependências estabelecidas entre todos os seres da natureza e da humanidade.

Exatamente a razão cordial e a razão intelectual (que lê dentro: intus legere) estão e estavam absolutamente ausentes em todas as COPs. Ai predominou a razão utilitarista, econômica e os interesses ferozes das grandes corporações, cujo exército de lobistas pressiona os representantes de todos os povos para não acolherem medidas que prejudicam seus negócios e seus capitais como a eliminação do carvão e a gradual superação das energias fósseis em direção de fontes de energia limpa. Chegou-se ao vergonhoso ato, de no momento mesmo do encerramento oficial dos trabalhos da assembleia, o representante da Índia, apoiado pela China, obrigou  in extremis a mudar o texto consensualizado, caso contrário a COP26 acabaria sem nenhuma resolução: ao invés de “abolir” o uso do carvão colocou-se por “gradual superação”, o que permite a continuidade de seu uso e assim fazer aumentar o CO2. O presidente da COP26, consciente das consequências, deixou vir à tona a razão sensível e chorou.

Como seria eficaz e transformador se as COPs começassem mostrando imagens belíssimas do frágil planeta Terra dependurado no fundo escuro do universo. Em seguida exibir a devastação que fazemos de florestas e de inteiros ecossistemas em terra e no mar, no sentido de uma ecologia ambiental. Por fim fazer ver a abissal injustiça social com milhões e milhões de pobres e famintos na linha de uma ecologia política e social. Tudo isso criaria as condições de uma ecologia ética e espiritual: comprometer-se para preservar o jardim herdado e impedir de entregá-lo a nossos filhos e netos como uma savana. Aí surgiria, estou seguro, a necessidade de um laço afetivo para com a natureza, pois esse laço, fundado na  razão cordial e sensível, nos levaria a tomar medidas salvadoras da vida e de nossa própria civilização.Sem coração não há solução para os climas e para a vida sobre esse pequeno e amável planeta Terra.

Urge enriquecer a razão instrumental-analítica, necessária face à complexidade de nossas sociedades, com a razão cordial e a inteligência intelectual. Teríamos então a base de um novo paradigma de convivência, melhor, de convivialidade entre todos, da técnica com a poesia, da produção com a amorosidade, do ser humano com sua Casa Comum, a natureza incluída.

Leonardo Boff escreveu Os direitos do coração, Paulus 2018 e Saber cuidar ética do humano-compaixão pela Terra, Vozes 1999/2021.

La COP26 no ha respondido a la emergencia climática

Este artigo fué escrito antes del cierre de la COP26. Há confirmado em gran parte mi presuposión. Le faltó a los representes de la Tierra osadia para, efectivamente, evitar los cambios climaticos tragicos hasta el 2030. La propuesta de “la eliminación gradual” de uso del carbón, bajo la presión especialmente de India se puso “diminiución gradual”, es decir, sigue su utilización con fuerte emisión de CO2.   Fué una cobardía de los paises ricos de protelar la creación de um fondo para reparar los daños en los paises pobres, amenazados por los climas cambiados. Además ninguna decisión es vinculante, lo que permite que paises como Brasil entre otros poco o nada hacen para minorar la emisión de gases de efecto invernadero. Todo se quedó muy vago en función de se conseguir un consenso minimo entre los 197 paises  ahi representados. El problema es global y grave y demanda urgencia y un consenso adecuado  al rededor de situaciones-limite frente a las cuales no nos es concedio esperar.

Con el deshielo de los cascos polares y del permafrost, el metano liberado, 80 vezes más dañino que el CO2, ha agravado fuertemente los trastornos climáticos al sumarse a los otros gases de efecto invernadero: el CO2, el ozono (O3) y el óxido nitroso (N2O). Por tanto, no estamos yendo al encuentro del calentamiento climático. Estamos inmersos en él. El Acuerdo de París de 2015 sobre la reducción de los gases de efecto invernadero que daba alguna esperanza, no fue cumplido. Al contrario, la emisión creció un 60%. China es el mayor emisor con un 30,3%, seguida de Estados Unidos con 14,4, y los europeos con un 6,8%. El deterioro fue generalizado.

Científicos y estudiosos del clima ya han declarado una emergencia climática. En las duras palabras de Patricia Espinosa, Secretaria Ejecutiva de la ONU sobre Cambio Climático en la apertura de la COP26: “Estamos a camino de un aumento de la temperatura global de 2,7 grados centígrados cuando deberíamos alcanzar la meta de 1,5 grados”. Sabemos que, con este nivel de calentamiento, gran parte de las especies no conseguirán adaptarse y desparecerán. Millones de seres humanos pobres y vulnerables estarán en grave peligro. De cara a todo este el Papa Francisco en un mensaje final a la COP26 dijo aciertadamente:”Hemos recibido um jardin y estamos entregando a nuestros hijos y nietos un desierto”.

¿Cuál es la causa? Datos de la comunidad científica enviados a la COP26 para ayudar en las decisiones acertadas, dan una respuesta: “el cambio climático está causado por el carácter del desarrollo social y económico, producido por la naturaleza de la sociedad capitalista, que se muestra insostenible”. Por tanto, el problema no es el clima sino el capitalismo que no reconoce una ecología ambiental ni político-social.

Ante la gravedad de la alarma ecológica, los resultados de la COP26 han sido insuficientes hasta frustrantes. Sólo se han hecho recomendaciones en el sentido de reducir gradualmente los gases y el uso del carbón hasta 2030. Debería ser a la mitad, pero nadie asumió esa meta. Muchos, vagamente, presionados por las críticas en sus países, como Brasil, hicieron promesas, pero sin ninguna vinculación. China y la India, decisivos para la mitigación y adaptación, guardaron silencio.Solamente en el último momento se hice un acuerdo entre China y USA para tener una politica más beniga frente al uso del carbón.

Podemos entenderlo: en las Conferencias de las Partes (COP) están los representantes de gobiernos, prácticamente todos de régimen capitalista. Este, por su dinámica interna, no está nada interesado en los cambios, pues sería contradictorio. Ellos están apoyados por las megacorporaciones del carbón, del petróleo, del gas, que se han opuesto siempre a los cambios para no perder sus ganancias. Han estado presentes siempre en todas las COPs presionando fuertemente a los participantes en un sentido negacionista. Se ha discutido ampliamente sobre el carbón y el paso a una energía limpia, pero solamente trece países pequeños asumieron un compromiso. Como referi arriba, China y  Estados Unidos acordaran trabajar para minorar gradualmente el uso del carbón.

Otro escenario es la COP26 paralela que se realiza en la calle con miles de representantes de todos los pueblos del mundo. Allí se dice la verdad que los gobernantes no quieren oír: tenemos poco tiempo, tenemos que cambiar de rumbo si queremos salvar la vida y nuestra civilización. Muchos carteles decían: “nos están robando el futuro, queremos una Tierra viva”. De ahí se entienden las palabras del Papa Francisco, y otros religiosos, en un mensaje enviado a la COP26: “Hemos recibido un jardín y no podemos dejar a nuestros hijos un desierto”.

En este contexto, fue importante el quinto Tribunal Internacional de los Derechos de la Naturaleza y de la Amazonia. Estaban presentes los representantes de los nueve países que componen la Amazonia, entre otros defensores. Se reafirmó el hecho de que la naturaleza y la Tierra son sujetos de derechos, como aparece ya en las constituciones de Ecuador y de Bolivia y es cada vez más un nuevo dato de la conciencia colectiva. 

La Amazonia con cerca de 6 millones de km cuadrados y habitada por cerca de 500 pueblos diferentes recibió una atención especial. El lema básico era: “La Amazonia: una entidad viva amenazada”. Vinieron indígenas con sus distintas organizaciones, dando testimonio de su resistencia, de los asesinatos de sus líderes, de la invasión de sus territorios, trajeron vídeos de sus culturas, danzas, expresiones de su remota ancestralidad.

De lo profundo de la selva se oyó un grito de otra forma de vivir y de confraternizar con la naturaleza, probando que se puede vivir bien sin destruir. Los pueblos originarios son nuestros maestros, pues sienten la naturaleza como prolongación de su cuerpo, razón por la que la cuidan y la aman como a sí mismos. 

Después de una minuciosa fundamentación científica que sirvió de sustrato para las discusiones, bien presenciales o virtuales, se llegó a este veredicto: 

“El Tribunal condena por los crímenes de ecocodio, etnocidio y genocidio de la Amazonia y de sus pueblos, a los directamente responsables, a saber: bancos, financiadores de los megaproyectos; empresas internacionales: empresas mineras y privadas, empresas de agronegocios. Y finalmente, a los Estados por permitir las acciones criminales contra la Amazonia… por la violencia estructural, avalando las acciones de organizaciones criminales que invaden los territorios de los pueblos tradicionales y son actores impunes de asesinatos, secuestros de líderes indígenas, y de defensores de los derechos humanos y de los derechos de la naturaleza”.

El veredicto detalla varias medidas a tomar principalmente en favor de los pueblos indígenas, como defensores naturales de la Amazonia, el reconocimiento de la Amazonia como sujeto de derechos, la reparación y restauración de su integridad y la desmercantilización de la naturaleza. Se creó la expresión: tenemos que amazonizarnos para regular los climas y garantizar el futuro de la biodiversidad.

Se decidió hacer en julio de 2022 un Foro Social Panamazónico, en Belém do Pará, en la Amazonia brasilera. Tratará sobre las alianzas entre todos los pueblos originarios,com presencia masiva de mujeres, en la convicción de que la floresta panamazónica es fundamental para regular los climas de la Tierra y para garantizar la perpetuidad de la vida en el planeta. La vida humana podrá eventualmente desaparecer y la Tierra seguirá girando alrededor del Sol, pero sin nosotros. Esto puede ser evitado si hay una alianza global de los humanos en favor de la vida en toda su diversidad. Tenemos medios, ciencia y técnica. Nos falta solo la voluntad política y el lazo afectivo con la naturaleza y con la grande y generosa Madre Tierra. 

*Leonardo Boff es miembro de la Iniciativa Internacional de la Carta de la Tierra y ha sido participante del Quinto Tribunal Internacional del Derecho de la Naturaleza y de la Amazonia, realizado híbridamente, presencial y virtual, en Glasgow durante la COP26.

Leonardo Boff: «El problema es el capitalismo» pero los líderes evitan decirlo

Entrevista al teólogo de la Liberación. ¿Bolsonaro? «Seguirá adelante con la deforestación mintiendo a Brasil y al mundo, de esto no hay duda». Cómo el sistema actual condena a muerte al «gran pobre» que es el planeta devastado.

Claudia Fanti

EDICIÓN DEL 04.11.2021-Il Manifesto

El grito de la indígena brasilera Txai Suruí, hija de uno de los líderes más respetados de su país, Almir Suruí, ha resonado en la apertura de la COP 26: «Mi padre me ha enseñado que debemos escuchar a las estrellas, la luna, los animales, los árboles. Hoy el clima está cambiando, los animales están desapareciendo, los ríos mueren, nuestras plantas no florecen como antes. La Tierra nos está diciendo que no tenemos más tiempo».

¿Pero es demasiado tarde para cambiar?  Se lo hemos preguntado a Leonardo Boff, uno de los padres de la Teología de la Liberación, la de los pobres y del «gran pobre» que es nuestro planeta devastado y herido,  cuyo doble – y conjunto – grito ha ocupado el centro de toda su reflexión. 

Bolsonaro está entre los firmantes del acuerdo sobre la deforestación alcanzado en la Cop 26. ¿El triunfo de la hipocresía?

Nada mínimamente creíble puede venir del gobierno Bolsonaro: con él las mentiras han pasado a ser política de estado. Solo ha dicho la verdad en un punto: «Mi gobierno ha venido para destruir todo y volver a empezar de cero». Es una pena que este reinicio sea en nombre del oscurantismo y del negacionismo científico, ya sea sobre la Covid o sobre la Amazonia. Su opción económica va exactamente en dirección opuesta a la de la preservación ecológica: Bolsonaro ha favorecido la extracción de madera, la minería dentro de las zonas indígenas y la destrucción de la selva para dar paso al monocultivo de soja y a la ganadería. Sólo de enero a septiembre, la Amazonia perdió 8.939 km² de bosque, un 39% más que en el mismo periodo de 2020 y el peor índice de los últimos 10 años. Su adhesión al plan de reducción de las emisiones de metano en un 30% para 2030 es pura retórica. De hecho, no hay duda de que continuará el camino de la deforestación, y seguirá mintiendo a Brasil y al mundo.

¿La Amazonia podrá sobrevivir a otros 10 años de deforestación?

 Antônio Nobre, gran especialista en la Amazonia, afirma que al ritmo actual de destrucción, y con una tasa de deforestación cercana ya al 20%, en 10 años podría alcanzarse el punto de no retorno, con el inicio de un proceso de transformación de la selva en una sabana apenas interrumpida por algunos bosques. El bosque es exuberante pero con un suelo pobre en humus: no es el suelo el que alimenta a los árboles, sino al contrario. El suelo es sólo el soporte físico de una complicada red de raíces. Las plantas se entrelazan a través de las raíces y se apoyan mutuamente en la base, formando un inmenso equilibrio rítmico. Todo el bosque se mueve y danza. Por esta razón, cuando una planta es derribada, arrastra a muchas otras con ella.


¿Todavía estamos a tiempo de intervenir?

Los líderes mundiales han evitado cuidadosamente tocar el verdadero problema: el capitalismo. Si no cambiamos nuestro modelo de producción y consumo, no detendremos el calentamiento global, y llegaremos  a 2030 con un aumento de la temperatura de más de un grado y medio. Las consecuencias son bien conocidas: muchas especies no podrán adaptarse y se extinguirán, habrá grandes catástrofes medioambientales y millones de refugiados climáticos, huyendo de las tierras que ya no se pueden cultivar, cruzarán desesperadamente las fronteras de los Estados, desencadenando conflictos políticos. Y con el calentamiento vendrán otros virus más peligrosos, con la posible desaparición de millones de seres humanos. Incluso ahora, los científicos del clima dicen que ya no hay tiempo. Con el dióxido de carbono ya acumulado en la atmósfera, que permanecerá allí durante 100-120 años, más el metano, que es 80 veces más dañino que el CO2, los eventos extremos serán inevitables. Y la ciencia y la tecnología podrán mitigar los efectos catastróficos, pero no evitarlos.

¿Usted siempre ha afirmado que sin un cambio real en nuestra relación con la naturaleza no tendremos ninguna posibilidad. ¿Está la humanidad preparada para este paso?

El sistema capitalista no ofrece las condiciones para hacer cambios estructurales, es decir para desarrollar otro paradigma de producción más amigable con la naturaleza y capaz de superar la desigualdad social. Su lógica interna es siempre asegurar primero el beneficio, sacrificando la naturaleza y las vidas humanas. De este sistema no podemos esperar nada. Las experiencias que vienen de abajo son las que nos ofrecen la esperanza de una alternativa: desde el buen vivir de los pueblos indígenas hasta el ecosocialismo de base y el biorregionalismo, que pretende satisfacer las necesidades materiales respetando las posibilidades y los límites de cada ecosistema local, creando al mismo tiempo las condiciones para la generación de bienes espirituales, como el sentido de la justicia, la solidaridad, la compasión, el amor y el cuidado de todo lo que vive.

Fuente: Il Manifesto del 4.11.202

   Destruindo o futuro de nossos jovens?

                                            

A parte mais decisiva da COP26 em Glasgow referente a diminuição dos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, terminou melancolicamente. O Acordo de Paris de 2015 comprometendo as potências economicamente mais fortes para alcançar a meta de mitigação do aquecimento para em 2030 não chegar a 1,5 graus C não surtiram efeito. Agora em Glasgow se tentou o mesmo propósito.O maior emissor, a China, com 27% e outro grande emissor, a Índia, recusaram metas e apenas afirmaram que até 2030 iriam mitigar o aquecimento. As mudanças não se fazem da noite para o dia, mas num processo duro e consequente. Olhando o passado, podemos com relativa certeza afirmar que até 2030 vamos chegar a 1,5  graus C. A própria ONU com seus consultores especializados advertiu que com a entrada do metano, 80 vezes mais danoso que o CO2,e a seguir os planos atuais vamos chegar a 2,7 graus Celsius.

Isso representa a tribulação da desolação: aumentarão sensivelmente os eventos extremos com tufões, secas severas, inundações por todas as partes, especialmente nas cidades costeiras, erosão da biodiversidade, aumento desesperador da pobreza, da miséria com  milhões de emigrados climáticos,desestabilizando muitos países especialmente no Oriente Médio e África.Não bastou o alerta feito por António Guterrez, Secretário Geral da ONU por ocasião da abertura dos trabalhos da COP26 de que esta é a “última oportunidade” de mudanças radicais caso não quisermos “cavar a nossa própria sepultura”. Aqui ressoam as palavras do Papa  Francisco da Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.30.34.)

Ficou claro para os analistas mais sérios: o problema não é o clima mas o sistema capitalista que produz as perturbações do clima. Os vários projetos para o tempo pós-pandemia como o Great Reset (a grande reinicialização), o Capitalismo Verde, O futuro que nos espera e a Responsabilidade social corporativa das empresas representam os interesses dos países opulentos e não os gerais da humanidade. As soluções são intra-sistêmicas, sem jamais questionarem a verdadeira causa das atuais ameaças. Pelo contrário, radicalizam o sistema de acumulação imperante com a cultura consumista que gerou. Sua preocupação ecológica é superficial e são negacionistas das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Gaia, super ente vivo.E assim vamos gaiamente ao encontro de uma tragédia ecologico-social de proporções inimagináveis. Cabe ainda enfatizar que o avanço sobre as florestas e o aumento da urbanização mundial, associado ao aumento da temperatura, poderão liberar – esta é a advertência dos maiores epidemiologistas – uma gama incalculável de vírus mais perigosos que o Covid-19. Que não seja o next big one,(o próximo grande) já advertido, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e  poderia levar grande parte da humanidade. Et tunc erit finis.

Neste contexto, queremos nos  referir ao Quinto Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. À base de minuciosa investigação científica e jurídica, elaborou dois vereditos, um sobre a violação dos direitos da natureza e outro sobre a Amazônia. Restrinjo-me à Amazônia, por ser a mais dolorosamente afetada. Já o título é significativo:”a Amazônia, uma entidade viva ameaçada”. O detalhado relatório, sustentado pelos mais seguros dados científicos e jurídicos, acrescido pelos testemunhos vivos dos representantes dos 9 países amazônicos, seja de indígenas e de outros habitantes da área, feitos no dia 4 de novembro presencialmente ou virtualmente (o meu caso, do corpo de jurados) são de meter medo.

No veredito, de forma contundente, se afirma “a Amazônia como sujeito de direitos”. Estes são sistematicamente violados. Faz-se a denúncia de que na Amazônia “está em curso um ecocídio, tal é a magnitude das cifras de desmatamento, perda da biodiversidade, contaminação e o secamento das fontes de água, desertificação entre outros que  afetam gravemente a capacidade de restauração natral dos ecossitema da vida e vulnera o drieito de existir da natureza..É um crime de lesa natureza e de lesa humanidade e não prescreve”.

A exposição do especialista em estudos amazônicos Antônio Nobre deixou claro que na Amazônia brasileira (67% do total) estamos próximos ao ponto de inflexão. Um pouco mais, os danos serão irreversíveis e caminharemos para uma espécie de savanização. Tal fato desestabiliza os climas do país,  dos países vizinhos e do próprio sistema mundial. Só incorporando a sabedoria dos povos originários que naturalmente cuidam da floresta, pois, se sentem parte dela, assumindo uma bioeconomia adequada àquela ecossistema e o extrativismo, respeitador da floresta, à la Chico Mendes, poderemos sustar o processo de degradação. No longo e minucioso relatório se constata que na vasta região amazônica,  está ocorrendo um ecocídio, um etnocídio e um genocídio. A situação é desastrosa.

Voltando à COP26, verifica-se por parte dos “decisions makers”, dos governantes das diversas nações, uma falta clamorosa de consciência das ameaças que pesam sobre a Terra viva e sobre a humanidade. Nunca, em nenhum momento, os países que mais representam risco, reconheceram que o sistema sócio-econômico-político, promovido por eles, numa palavra, o capitalismo como modo de produção e o neoliberalismo como sua expressão política é o principal causador do eventual Armagedom ecológico.

Não podemos ficar reféns da bolha capitalista. Urge rompe-la. Como? O Papa Francisco nos aponta uma direção:”Não se pode sair dessa crise sem evoluir para as periferias”. De cima só vem mais do mesmo ou pior. Das periferias, de baixo, a partir dos inúmeros movimentos sociais populares e nos experimentos alternativos, trabalhando o território com outro  tipo de economia solidária, preservando os commons, com uma democracia cotidiana e participativa, com outros valores humano-espirituais (amorosidade, solidariedade, cuidado, compaixão etc) se está gestando uma nova forma de habitar a Casa Comum.

Sem essa viragem necessária, estamos destruindo o futuro de nossos jovens e até o futuro de nossa civilização. Temos pouco tempo e parca sabedoria. Mas com o sofrimento atual, a amorisação pela Mãe Terra e o resgate da inteligência cordial, cada vez mais emergentes, poderemos forjar um futuro de esperança. Que assim o queira Deus.

Leonardo Boff escreveu junto com J.Moltmann,Há esperança para a criação ameaçada? Vozes, Petrópolis 2014; Cuidar da terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.