Uma frente ampla é indispensável, quando uma ultradireita destrói o país.

Luiz Alberto Gomez de Souza é um conhecido cientista político, profundmente cristão, viveu anos no exílio e em organismos internacionais como na FAO. Tem ampla experiência política e autor de vários livros de grande peso teórico e prático. Esse artigo é esclarecedor e nos coloca diante de uma situação de urgência, face à total ausência de liderança do atual presidente que se esmera em destruir o que foi construido, por muitos anos, e com tanto esforço. Lboff
***************************

Quando vemos grupos fascistoides à solta, atacando artistas em Gramado, em atentados contra palestinos em um bar em São Paulo, interrompendo o show de um cantor, conseguindo, por pressões, vetar na Universidade Federal do Ceará uma palestra de Manfredo Oliveira sobre “Tolerância e democracia”, em sinais terríveis de real intolerância, podemos perguntar o que ocorre no mundo político para não ver esse “ovo da serpente”? Trata-se do título de um filme de Ingmar Bergman, que retrata a inconsciência, na Alemanha, diante do surgimento do nazismo. Escrevi dois textos a esse respeito. O próprio partido comunista, enfrascado em luta contra seus primos social-democratas, menosprezou o fato. Foi Trotsky quem denunciou a cegueira estalinista. Em 1933 Hitler, agora forte, chegou ao poder e destruiu todo sinal de oposição.

Essas posições autoritárias surgem no governo Bolsonaro, mas também com Salvini na Itália ou com Viktor Orban na Hungria. Elas se encontram na França, com a Frente Nacional ou na Espanha no surgimento de um partido de extrema direita, Vox, nostalgia franquista até então hibernando.

No Brasil, creio, a situação é mais grave do que em 1954 com o suicídio de Vargas ou, inclusive, com o golpe militar de 1964. No primeiro caso, Carlos Lacerda, ex-comunista, passando ruidosamente para o outro lado, denunciou um “mar de lama”, reduzido em parte a pequenos favores de Gregório Fortunato, nada diante de corrupção sistêmica que se desenvolveu do governo militar pra cá. O golpe de 1964, chamado enganosamente de revolução, festejado pelo presidente, apresentou-se, num primeiro momento, como um tempo provisório para superar o perigo esquerdista e “regenerar o país” (leia-se, defender o sistema tradicional de poder). Na realidade, permaneceu por mais de 20 anos. Entretanto, mesmo os momentos de repressão nos anos 70, não produziram uma ideologia consistente de ultradireita. Era mais bem o exercício de uma terrível força bruta (até mesmo com lampejos nacionalistas no governo Geisel).

Um economista conservador, inteligente e insuspeito, Armínio Fraga, acaba de dizer, no Blog de Noblat, que o retrocesso na democracia já ocorreu e o risco é que piore ainda mais.

A situação agora é a mais tenebrosa. De um lado um governo errático, com um presidente que primeiro fala para depois pensar, como lembrou alguém, mas com um plano neoliberal de desmonte da nação, nas mãos do ministro Guedes. E na sociedade, sentindo-se amparados pelo poder e por “pensadores” tipo Olavo de Carvalho, saem à rua grupelhos agressivos que inundam as redes sociais. Na verdade houve no passado, em 1932, algo semelhante com os integralistas, os chamados galinhas verdes, desfilando aos gritos de “anauê, mas logo foram postos a correr e se afogaram no ridículo. Hoje, grupos MBL e outros, indicam um terreno favorável a um retrocesso.

Uma posição agressiva e meramente reativa diante deles, é entrar na sua lógica e cair numa luta semelhante a eles, apenas com o sinal trocado. Eu sugeri, em texto anterior, não ficar na denúncia de fatos anedóticos e, inclusive, fazer uma greve de silêncio diante dos destemperos diários do ex-capitão que temos no Planalto. Mas, em vez de uma posição defensiva, faz-se urgente criar uma ampla frente, em primeiro lugar aglutinando forças democráticas para logo, num diálogo plural, chegar, aos poucos, a propostas e programas comuns para reerguer a nação e ser alternativa concreta de poder.

O notável linguista Noam Chomsky, casado com uma brasileira e sempre bem informado, em entrevista a Folha de São Paulo é pessimista, Afirmou:“a esquerda brasileira está completamente desordenada, há muita apatia, as pessoas estão apenas assistindo… “não podemos fazer nada, então vamos esperar passar”.

Porem tenho detectado vários sinais positivos. Luiza Erundina, lúcida com seus 84 anos, apontou como saída da crise a união de diferentes segmentos em prol da recuperação do Brasil.”Não é um partido, dois partidos, esquerda ou direita ou centro, isso já passou, é o momento de encontrar soluções parciais , todos os segmentos devem se unir para salvar o Brasil”. Vimos Haddad, Boulos e Flávio Dino de mãos dadas. Tarso Genro e outros testam com dificuldade mas com pertinácia, uma ampla aliança para as próximas eleições municipais em Porto Alegre.

E, num momento em que a reprovação do governo, segundo a Data Folha, subiu a 38% e pode crescer ainda mais, há indícios de que muitos que votaram Bolsonaro, talvez por antipetismo, estão revisando suas posições. Haddad acaba de dizer que há que dialogar com eles. Eu lembrei, em artigo, casos extremos como os de Teotônio Vilela que, de senador da Arena tornou-se a grande voz pela redemocratização, cantado por Milton Nascimento como “o menestrel das alagoas”. Penso na transformação de São Romero da América, até chegar ao martírio e nas primeiras comunidades cristãs com medo de Saulo que, de perseguidor, tornou-se logo o grande apóstolo dos gentios. Aqui as mudanças serão menos notórias, mas temos de estar preparados para acolher companheiros inesperados.

Um texto, meio sério meio jocoso, propunha encerrar numa sala pessoas como Haddad, Boulos, Marina Silva, Manuela d’Avila, Ciro Gomes, Flavio Dino… e deixá-los ali até que se pusessem de acordo. Isso levou a que uma companheira, Aurelina Cruz, propusesse uma articulação concreta, a partir de personalidades com legitimidade e prestígio, para construir uma grande aliança.

A tarefa não é fácil e vimos, pasmem, companheiros querer tirar dessa aliança, a priori, nomes como Ciro Gomes ou Marina Silva, por posições eleitorais no passado e por “não serem de esquerda”

E isso leva a discutir o que é ser de esquerda. Esta, às vezes, num marxismo mal interpretado, reuniria aí pessoas com uma ideologia esquerdista. Ora, o próprio Marx via a ideologias como falsa consciência abstrata. Norberto Bobbio considerou de esquerda aqueles que lutam pela justiça social e por mudanças estruturais. Para Boaventura de Sousa Santos, a esquerda teria de articular duas dimensões, uma de luta por uma política de reformas radicais concretas, porém aliada a uma visão que proporia uma transformação civilizacional mais ampla.

Mas sempre ficam dúvidas. Um campeão valente na defesa da nação como Brizola, patriotas como San Tiago Dantas e Celso Furtado às vésperas do golpe de 64 (atacados por uma esquerda rígida), seriam de esquerda ou simplesmente patriotas? Complicando mais o panorama, Lula num começo aparecia, para setores da chamada esquerda tradicional, como pequeno burguês reformista, como Salvador Allende o foi para o MIR, numa atitude absurda e suicida. E Lula, para vencer, com sua carta ao povo brasileiro apresentou um programa moderado, que para muitos seria no máximo de centro esquerda. Por que trago esses exemplos? Para obrigar-nos a sair de rótulos abstratos ideológicos, para posições concretas. “Subindo do abstrato para o concreto” (Marx). Vemos um Roberto Requião ou um Bresser Pereira certamente como companheiros, sem querer pespegar-lhes rótulos ideológicos.

A situação atual é grave, e há que enfrentá-la com uma união de forças plurais. Para isso, em lugar de falar de esquerda, tenho usado o termo mais amplo de frente de forças progressistas (ainda que a mesma idéia de progresso seja modernizante e discutível). Talvez devêssemos falar de postura contra o neoliberalismo. Mas deixemos de traçar fronteiras com trenas ideológicas, para pensar grande, onde se podem aglutinar diferenças que enriquecerão um debate na direção de construir um projeto alternativo.

Talvez tenhamos de pensar, como Boaventura, num programa político de médio prazo e numa opção civilizatória, a partir de uma nova sensibilidade ecológica e com códigos sensíveis para as novas gerações.

Sinto que, de muitos lados, se coagulam, aos poucos, propostas indicando que “um outro mundo é possível”. E caminharíamos para o desenho de “utopias concretas” e de propostas pontuais, unindo o curto prazo com um tempo de “longa duração”.

Immanuel Wallerstein acaba de partir. Ele, na linha de Braudel, apontava a crise de um sistema-mundo, o capitalismo ocidental, talvez a partir de 1968. Crise profunda. Não haveria, para ele, um processo futuro determinista. Poderíamos ter uma sociedade polarizada e ainda mais desigual, ou outra mais igualitária e democrática. “Quando um sistema está estável, é relativamente determinista”, lembrou Wallerstein. “Mas quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante… Podemos ter um tempo em que seja possível mudar o mundo”.

Voltando ao Brasil, diante de uma “barbárie em curso”, há que unir forças diversas, na criação de um diálogo plural. Aí se poderiam encontrar muitos movimentos da sociedade civil, a reflexão nas instituições culturais, educativas e religiosas, um sindicalismo em renovação e, claro está, setores de partidos em revisão, indispensáveis para fazer aprovar propostas legais.

O futuro está em aberto, sem receitas prefixadas e, muito possivelmente, algumas delas poderão ser surpreendentes. Será possível abrir-se, se houver ações eficazes, a um tempo mais humano. Poderíamos aplicar a este uma idéia de João XXIII, quando falou do Concílio Vaticano II: “uma flor de inesperada primavera”. Vale manter o “princípio esperança”, que para Ernst Bloch nos convoca à frente como um ímã. Com Maurice Blondel poderíamos dizer: “uma solução é sempre possível, uma ação é obrigatória”.

Luiz Alberto Gomez de Souza é cientista político, escritor e engajado nos movimentos sociais populares, com ampla experiência no exterior.

Lo que nos falta hoy: el amor universal e incondicional

Dedicado a la pensadora y maestra-astróloga Martha Pires Ferreira

Vivimos actualmente tiempos sombríos de mucho odio y de falta de finura. Precisamos rescatar lo más importante, que nos humaniza verdaderamente: el simple amor. Estimo que debemos siempre retomar el tema del amor universal y sin precondiciones.

Sobre él se han dicho las cosas más elevadas hasta llegar a designar el nombre propio de Dios. Para superar el discurso convencional conviene incorporar la contribución que nos viene de las distintas ciencias de la Tierra, de la biología y de los estudios sobre el proceso cosmogénico. Cada vez queda más claro que el amor es un dato objetivo de la realidad global y cósmica, un evento bienaventurado del propio ser de las cosas, en las cuales estamos incluidos nosotros también.

Dos movimientos, entre otros, presiden el proceso cosmogénico: la necesidad y la espontaneidad.

Por necesidad de supervivencia, todos los seres son interdependientes y se ayudan unos a otros. La sinergia y la cooperación de todos con todos, más que la selección natural, son las fuerzas fundamentales del universo, especialmente entre los seres orgánicos. La solidaridad es más que un imperativo ético. Es la dinámica objetiva del propio cosmos, y explica por qué y cómo hemos llegado hasta aquí.

Junto con esa fuerza de la necesidad se presenta también la espontaneidad.

Los seres se relacionan e interactúan espontánemente, por pura gratuidad y alegría de convivir. Tal relación no responde a una necesidad. Obedece a un impulso de crear lazos nuevos, por la afinidad que emerge espontáneamente y produce deleite. Es el universo de la novedad, de la irrupción de una virtualidad latente que hace surgir algo maravilloso y que vuelve al universo un sistema abierto. Es el adviento del amor.

Él se da entre todos los seres, desde los primeros topquarks que se relacionaron más allá de la necesidad de crear campos de fuerza que les garantizasen la supervivencia y el enriquecimiento en el intercambio de informaciones. Muchos se relacionaron por sentirse espontáneamente atraídos por otros y componer un mundo no necesario, gratuito, pero posible y real.

De esta forma, la fuerza del amor atraviesa todos los estadios de la evolución y enlaza a todos los seres dándoles irradiación y belleza. No hay razón que los lleve a componerse en eslabones de espontaneidad y libertad. Lo hacen por puro placer y por alegría de convivir. Hay cosmólogos que afirman que el universo está lleno de color y es, por lo tanto, extremadamente bello.

El amor cósmico realiza lo que la mística siempre ha intuido: “la rosa no tiene un porqué. Florece por florecer. No se cuida de sí misma ni se preocupa de si la admiran o no”. Así el amor, como la flor, ama por amar y florece como fruto de una relación libre, como entre los enamorados.

Por el hecho de que somos humanos y autoconscientes, podemos hacer del amor un proyecto personal y civilizatorio: vivirlo conscientemente, crear condiciones para que la amorización pueda darse entre los seres humanos y con todos los demás seres de la naturaleza. Podemos enamorarnos de una estrella distante y crear una historia de afecto con ella. Los poetas saben de eso.

El amor es urgente en Brasil y en el mundo. Millares de refugiados son excluídos y millares de nordestinos, ofendidos. Más que preguntar quién destila rabia e intolerancia habría que preguntar por qué las practican. Seguramente porque faltó el amor como relación que abriga a los seres humanos en la bella experiencia de abrirse cada uno y acoger jovialmente al otro y respetarse mutuamente.

Digámoslo con todas las palabras: el sistema mundial imperante no ama a las personas. Ama el dinero y los bienes materiales; ama la fuerza de trabajo del obrero, sus músculos, su saber, su producción y su capacidad de consumir. Pero no ama gratuitamente a las personas como personas, portadoras de dignidad y de valor.

Predicar el amor y decir: “amémonos unos a otros como nos amamos a nosotros mismos”, supone una revolución. Es ser anticultura dominante y estar contra el odio imperante.

Hay que hacer del amor aquello que el gran florentino, Dante Alighieri, escribió al final de cada cántico de la Divina Comedia: “el amor que mueve el cielo y todas las estrellas”; y yo añadiría, amor que mueve nuestras vidas, amor que es el nombre sacrosanto del Ser que hace ser todo lo que existe.

Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo, escritor y ha escrito La fuerza de la ternura, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2012.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Amazônia exige novo paradigma:Frei Betto

Frei Betto é conhecido principalmente como defensor e promotor dos movimentos sociais. É um grande pedagogo, apreciado aqui e fora do país, além de ser um exímio escritor e teólogo. Agora tem se ocupado com a questão ecológica, especialmente, em vista do Sínodo panamazônico a realizar-se em outubro em Roma. Exatamente em Roma, porque o Papa Francisco quer chamar a atenção de toda a Humanidade por esta região, a maior floresta úmida do mundo que cobre 9 países é é fundamental para a sobrevida dos fatores que garantem nossa existência na Terra. O Papa já afirmou que “a Terra se encontra numa emergência mundial” dadas as muitas e funestas agressões contra ela, contra seus solos, seu sub-solo, contra as águas, contra as florestas e a maioria dos ecossistemas. Esse artigo de Frei Betto serve de material de reflexão e soa como um alarme a despertar nossa responsabilidade para o futuro comum Terra-Humanidade: Lboff
amazonia_brasil.jpg

Deforestación de la selva amazónica en el estado brasileño de Rondônia
Foto: NASA
O papa Francisco, em janeiro de 2018, declarou em Puerto Maldonado, Peru: “A Amazônia é disputada por várias frentes: de um lado, o neoextrativismo e a forte pressão de grandes interesses econômicos ávidos por petróleo, gás, madeira, ouro e monocultivos industriais. Por outro, a ameaça procedente da perversão de certas políticas que promovem a ‘preservação’ da natureza sem levar em conta o ser humano.”

Francisco ressaltou que uma ecologia integral, que não separe ser humano e natureza, exige nova antropologia e novo conceito de desenvolvimento, nos quais a prioridade seja condições dignas de vida da população local.

Isso implica defender os direitos humanos e a Mãe Terra; resistir aos megaprojetos que causam morte; e adotar um modelo econômico sustentável, solidário, sintonizado com os ecossistemas e os saberes ancestrais dos amazônicos.

Em discurso aos participantes da conferência sobre “Transição energética e cuidado de nossa casa comum”, em 2018, no Vaticano, Francisco frisou que a busca de um crescimento econômico contínuo provocou graves efeitos ecológicos e sociais, porque “nosso atual sistema econômico prospera devido ao aumento de extrações, consumo e desperdício. A civilização requer energia, mas o uso da energia não deve destruir a civilização.”

Para o sínodo amazônico, a ecologia integral ou socioambiental exige mudança de paradigma, mas também uma espiritualidade da reciprocidade, de harmonia, que mantenha o equilíbrio do bioma capaz de refletir um sentido de convivência dentro dessa imensa maloca comum que é a Terra. Em suma, passar de uma cultura do descarte a uma cultura do cuidado.

Para tanto, é preciso promover uma educação ecológica que nos induza a outro estilo de vida, livre do consumismo obsessivo e do paradigma tecnoeconômico. Como propõe o papa Francisco na encíclica socioambiental “Louvado sejas” (Laudato Si), “dar o salto ao Mistério, onde a ética ecológica adquire seu sentido mais profundo”. Esta experiência espiritual, sagrada, ocorre quando se é capaz de solidariedade, responsabilidade e cuidado.

Pretende o sínodo que cada paróquia da Amazônia se torne uma ecoparóquia, e adote uma ecopedagogia. Isso significa aprender a conviver com a família de Deus que habita o território panamazônico, no qual há culturas ocultas, isoladas, sem contato com o mundo não indígena; outras que rejeitam convictamente a civilização ocidental; e ainda as que mantêm boas relações com a Igreja sem, contudo, assumir o Evangelho como referência de vida. Existe ainda uma Igreja autóctone, integrada por indígenas que relacionam seus saberes ancestrais com a palavra de Deus.

A proposta é que a Igreja presente na Amazônia, através de paróquias e congregações religiosas, se oponha aos projetos que ameaçam a floresta e os povos que a habitam, critique o paradigma tecnocrático, o antropocentrismo irresponsável, e o relativismo moral, e valorize a economia solidária, de valor de uso dos bens da natureza, e descarte a que prioriza o valor de troca.

Na visita à Amazônia, em janeiro de 2018, o papa Francisco, frisou que “a cultura de nossos povos é um sinal de vida. A Amazônia, além de ser uma reserva da biodiversidade, é também uma reserva cultural que deve ser preservada frente aos novos colonialismos.” E fez este apelo aos indígenas: “Ajudem seus bispos, ajudem seus missionários e missionárias a ser um com vocês e, no diálogo entre todos, possam formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena”.

 Frei Betto é escritor, autor de “Uala, o amor” (FTD), entre outros livros.

 

 

 

A falta que hoje nos faz: o amor universal e incondicional

        Dedicado para a pensadora e mestre-astróloga Martha Pires Ferreira

Vivemos atualmente tempos sombrios de muito ódio e falta de refinamento. Precisamos resgatar o mais importante e que verdadeiramente nos humaniza: o simples amor. Estimo que devemos sempre retomar o tema do amor universal e sem précondições.

Sobre ele se disseram as coisas mais elevadas até o de designar o nome próprio de Deus. Para superar o discurso, convencional, convém incorporar a contribuição que nos vem das várias ciências da Terra, da biologia e dos estudos sobre o processo cosmogênico. Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global e cósmica, um evento bem-aventurado do próprio ser das coisas, nas quais nós estamos incluídos.

Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico: a necessidade e a espontaneidade.

Por necessidade de sobrevivência todos os seres são interdepententes e se ajudam uns aos outros. A sinergia e a cooperação de todos com todos, mais que a seleção natural, constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. A solidariedade é mais que um imperativo ético. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos e que explica por que e como chegamos até aqui.

Junto com essa força da necessidade comparece também a espontaneidade.

Os seres se relacionam e interagem espontanemente, por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura por um impulso de criar laços novos, pela afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo da novidade, da irrupção de uma virtualidade latente que faz surgir algo maravilhoso e que torna o universo um sistema aberto. É o advento do amor.

Ele se dá entre todos os seres, desde os primeiros topquarks que se relacionaram para além da necessidade de criarem campos de força que lhes garantissem a sobrevivência e o enriquecimento na troca de informações. Muitos se relacionaram por se sentirem espontaneamente atraídos por outros e comporem um mundo não necessário, gratuito, mas possível e real.

Desta forma, a força do amor atravessa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes irradiação e beleza.. Não há razão que os leve a se comporem em elos de espontaneidade e liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de conviver. Cosmólogos há que afirmam ser o universo todo colorido e, portanto, extremamente belo.

O amor cósmico realiza o que a mística sempre intuiu: “a rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida dela mesma nem se preocupa se a admiram ou não”. Assim o amor, como a flor, ama por amar e floresce como fruto de uma relação livre, como entre os enamorados.

Pelo fato de sermos humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criar condições para que a amorização aconteça entre os seres humanos e com todos os demais seres da natureza. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.Os poetas sabem disso.

O amor é urgente no Brasil e no mundo. Milhares de refugiados são excluídos e nordestinos, ofendidos. Mais que perguntar quem destila raiva e intolerância é perguntar por que as praticam. Seguramente porque faltou o amor como relação que abriga os seres humanos na bela experiência de cada um se abrir e acolher jovialmente o outro e de se respeitarem mutuamente.

Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama o dinheiro e os bens materiais; ele ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção e sua capacidade de consumir. Mas ele não ama gratuitamente as pessoas como pessoas, portadoras de dignidade e de valor.

Pregar o amor e dizer: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos”, significa uma revolução. É ser anti-cultura dominante e contra o ódio imperante.

Há de se fazer do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, escreveu no final de cada cântico da Divina Comédia: “o amor que move o céu e todas as estrelas”; e eu acrescentaria, amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto do Ser que faz ser tudo o que é.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu A   força da ternura, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2012.