Destruindo o futuro de nossos jovens?

                                            

A parte mais decisiva da COP26 em Glasgow referente a diminuição dos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, terminou melancolicamente. O Acordo de Paris de 2015 comprometendo as potências economicamente mais fortes para alcançar a meta de mitigação do aquecimento para em 2030 não chegar a 1,5 graus C não surtiram efeito. Agora em Glasgow se tentou o mesmo propósito.O maior emissor, a China, com 27% e outro grande emissor, a Índia, recusaram metas e apenas afirmaram que até 2030 iriam mitigar o aquecimento. As mudanças não se fazem da noite para o dia, mas num processo duro e consequente. Olhando o passado, podemos com relativa certeza afirmar que até 2030 vamos chegar a 1,5  graus C. A própria ONU com seus consultores especializados advertiu que com a entrada do metano, 80 vezes mais danoso que o CO2,e a seguir os planos atuais vamos chegar a 2,7 graus Celsius.

Isso representa a tribulação da desolação: aumentarão sensivelmente os eventos extremos com tufões, secas severas, inundações por todas as partes, especialmente nas cidades costeiras, erosão da biodiversidade, aumento desesperador da pobreza, da miséria com  milhões de emigrados climáticos,desestabilizando muitos países especialmente no Oriente Médio e África.Não bastou o alerta feito por António Guterrez, Secretário Geral da ONU por ocasião da abertura dos trabalhos da COP26 de que esta é a “última oportunidade” de mudanças radicais caso não quisermos “cavar a nossa própria sepultura”. Aqui ressoam as palavras do Papa  Francisco da Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.30.34.)

Ficou claro para os analistas mais sérios: o problema não é o clima mas o sistema capitalista que produz as perturbações do clima. Os vários projetos para o tempo pós-pandemia como o Great Reset (a grande reinicialização), o Capitalismo Verde, O futuro que nos espera e a Responsabilidade social corporativa das empresas representam os interesses dos países opulentos e não os gerais da humanidade. As soluções são intra-sistêmicas, sem jamais questionarem a verdadeira causa das atuais ameaças. Pelo contrário, radicalizam o sistema de acumulação imperante com a cultura consumista que gerou. Sua preocupação ecológica é superficial e são negacionistas das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Gaia, super ente vivo.E assim vamos gaiamente ao encontro de uma tragédia ecologico-social de proporções inimagináveis. Cabe ainda enfatizar que o avanço sobre as florestas e o aumento da urbanização mundial, associado ao aumento da temperatura, poderão liberar – esta é a advertência dos maiores epidemiologistas – uma gama incalculável de vírus mais perigosos que o Covid-19. Que não seja o next big one,(o próximo grande) já advertido, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e  poderia levar grande parte da humanidade. Et tunc erit finis.

Neste contexto, queremos nos  referir ao Quinto Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. À base de minuciosa investigação científica e jurídica, elaborou dois vereditos, um sobre a violação dos direitos da natureza e outro sobre a Amazônia. Restrinjo-me à Amazônia, por ser a mais dolorosamente afetada. Já o título é significativo:”a Amazônia, uma entidade viva ameaçada”. O detalhado relatório, sustentado pelos mais seguros dados científicos e jurídicos, acrescido pelos testemunhos vivos dos representantes dos 9 países amazônicos, seja de indígenas e de outros habitantes da área, feitos no dia 4 de novembro presencialmente ou virtualmente (o meu caso, do corpo de jurados) são de meter medo.

No veredito, de forma contundente, se afirma “a Amazônia como sujeito de direitos”. Estes são sistematicamente violados. Faz-se a denúncia de que na Amazônia “está em curso um ecocídio, tal é a magnitude das cifras de desmatamento, perda da biodiversidade, contaminação e o secamento das fontes de água, desertificação entre outros que  afetam gravemente a capacidade de restauração natral dos ecossitema da vida e vulnera o drieito de existir da natureza..É um crime de lesa natureza e de lesa humanidade e não prescreve”.

A exposição do especialista em estudos amazônicos Antônio Nobre deixou claro que na Amazônia brasileira (67% do total) estamos próximos ao ponto de inflexão. Um pouco mais, os danos serão irreversíveis e caminharemos para uma espécie de savanização. Tal fato desestabiliza os climas do país,  dos países vizinhos e do próprio sistema mundial. Só incorporando a sabedoria dos povos originários que naturalmente cuidam da floresta, pois, se sentem parte dela, assumindo uma bioeconomia adequada àquela ecossistema e o extrativismo, respeitador da floresta, à la Chico Mendes, poderemos sustar o processo de degradação. No longo e minucioso relatório se constata que na vasta região amazônica,  está ocorrendo um ecocídio, um etnocídio e um genocídio. A situação é desastrosa.

Voltando à COP26, verifica-se por parte dos “decisions makers”, dos governantes das diversas nações, uma falta clamorosa de consciência das ameaças que pesam sobre a Terra viva e sobre a humanidade. Nunca, em nenhum momento, os países que mais representam risco, reconheceram que o sistema sócio-econômico-político, promovido por eles, numa palavra, o capitalismo como modo de produção e o neoliberalismo como sua expressão política é o principal causador do eventual Armagedom ecológico.

Não podemos ficar reféns da bolha capitalista. Urge rompe-la. Como? O Papa Francisco nos aponta uma direção:”Não se pode sair dessa crise sem evoluir para as periferias”. De cima só vem mais do mesmo ou pior. Das periferias, de baixo, a partir dos inúmeros movimentos sociais populares e nos experimentos alternativos, trabalhando o território com outro  tipo de economia solidária, preservando os commons, com uma democracia cotidiana e participativa, com outros valores humano-espirituais (amorosidade, solidariedade, cuidado, compaixão etc) se está gestando uma nova forma de habitar a Casa Comum.

Sem essa viragem necessária, estamos destruindo o futuro de nossos jovens e até o futuro de nossa civilização. Temos pouco tempo e parca sabedoria. Mas com o sofrimento atual, a amorisação pela Mãe Terra e o resgate da inteligência cordial, cada vez mais emergentes, poderemos forjar um futuro de esperança. Que assim o queira Deus.

Leonardo Boff escreveu junto com J.Moltmann,Há esperança para a criação ameaçada? Vozes, Petrópolis 2014; Cuidar da terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.

Pedidos em tempos de pandemia                                       

Publicamos este inspirador poema da educadora e poeta IRIS BOFF que é adequado aos tempos que estamos vivendo e sofrendo.

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Perdão meu Deus, mas hoje o meu pedido não vai pra Você.

Quero que o meu pedido seja ouvido e  escrito no teu primeiro livro  VIVO que Você, com Amor e Arte,  editou e endereçou para cada um de nós. 

Que lástima!  Nós, os destinatários da 1ª e única edição dessa OBRA PRIMA,  parecemos  ratos ensandecidos, roendo com sofreguidão, página por página desse primeiro livro vivo, a NATUREZA.

A maioria da Humanidade cega, surda e muda  ainda não se deu conta do alarme que esse invisível ser, o chamado  Covid19 está gritando.  

Então, como um suave  sussuro, o meu pedido seja endereçado  à  NATUREZA , à  Grande Mãe, generosa e boa.

Que os VENTOS , como teu Sopro,  nos levem para outra direção.

Que as CHUVAS  lavem a  anossa imundície e toda nossas mágoas.

Que o FOGO incinere a ganga acumulada e liberte o Ouro que somos.

Que o  AVÔ SOL, ao contar nossa história, anuncie uma nova Aliança.  

Que a AVÓ LUA transforme os pesadelos em  sonhos de um futuro melhor.

Que o PAI CÉU, depois da  escuridão, nos traga a ILUMINAÇÃO .

Que a MÃE TERRA, depois do parto doloroso, dê  a luz a novos VIVENTES.

Que cada um de nós, faça silêncio no seu interior e ouça o  GRANDE ESPIRITO, de tudo e de todos, que nos fala por todas  estas vozes.

Vozes essas que são linguagens vivas e são fontes de  Inspiração, para que cada um de nós,  com sua  história, seu próprio dialeto, sua única letra  vire essa página roida  do  livro Natureza.

Oxalá que assim, iluminados pelo CRIADOR, a nova filha HUMANIDADE, em parceria com todos  os seus IRMÃOS e IRMÃS viventes, re-escreva, com Elegância  Cósmica,  outro capítulo da História, esperançadora e numa edição melhorada,  para a saúde e  sobrevivência da humanidade, de cada um de nós e do  nosso belo esplendoroso  Planeta, a Mãe-Terra.

*Iris Boff é educadora e poeta e mora em Curitiba- PR.

El confronto de dos tipos de poder en la Iglesia

El Centro de Estudios Bíblicos (CEBI) de Sergipe organizó del 25 al 28 de octubre una serie de charlas sobre el libro Iglesia: carisma y poder, que celebra 40 años desde su publicación en 1981. El CEBI es una organización nacional de grupos populares y ecuménicos que estudian la Biblia en profundidad, como inspiración de prácticas innovadoras dentro de la Iglesia y también libertarias en la sociedad. El propósito era mostrar la actualidad de los temas tratados en el libro, que articulan la Iglesia con la sociedad y los modelos de Iglesia vigentes.

Este libro fue enjuiciado en 1984 por la Congregación para la Doctrina de la Fe, llevando a su autor, a mí en este caso, a un verdadero proceso judicial. Este culminó en 1985 con una “notificación” y no un decreto condenatorio, prohibiendo la reedición del libro y la imposición al autor de un tiempo de “silencio obsequioso”. En ella no se hace ninguna condenación doctrinal, solo se dice como conclusión:

Esta Congregación se siente en la obligación de declarar que las opciones aquí analizadas de Fray Leonardo Boff son de tal naturaleza que ponen en peligro la sana doctrina de la fe, que esta Congregación tiene el deber de promover y tutelar”.

Obsérvese que no se trata de doctrinas (campo de los dogmas) sino de “opciones” (campo de la moral) que pueden significar un “peligro”. Evitado ese peligro, no hay por qué no seguir adelante con las opciones que eran y siguen siendo: la centralidad de los pobres y de su liberación, el poder como servicio y no como centralización, y la constitución legítima de comunidades eclesiales de base, como una reinvención de la Iglesia en los medios populares (eclesiogénesis).

Al leer todo el texto del Card. Joseph Ratzinger exponiendo los tales “peligros” se nota un error de lectura. Se leyó no Iglesia: carisma y poder, sino Iglesia: carisma o poder. Esta alternativa no se encuentra en ninguna página del libro, que afirma la legitimidad de un poder en la Iglesia junto con el carisma evidentemente el poder como servicio y no como acumulación em pocas manos.

Seguramente el punto central que la Congregación vio como “peligro” fue la confrontación entre un modelo de Iglesia, sociedad jerarquizada de poder sagrado y otro modelo de Iglesia, comunidad fraterna de iguales con funciones diferentes. El primer modelo, dominante, es el de la Iglesia-gran-institución compuesta de clérigos, portadores del poder sagrado, y de laicos y laicas sin ningún poder de decisión. Aquí surgen las desigualdades, especialmente cerrando las puertas del ministerio sacerdotal a las mujeres e imponiendo la ley del celibato obligatorio a todo el cuerpo clerical. El otro modelo es el de la Iglesia-red-de-comunidades, todos sujetos de poder sagrado, ejercido mediante funciones (carismas) diferentes.

Ambos modelos se remiten al pasado de la Iglesia; el primero especialmente al evangelio de San Mateo, que confiere gran importancia a Pedro (Mt 16,18;18,16) que originará la centralización, llamada “cefalización” (todo se concentra en la cabeza). El segundo se refiere a las cartas de San Pablo, que hablan de una Iglesia comunidad de hermanos y hermanas, dotada de muchos carismas (funciones y servicios), especialmente en sus Cartas a los Corintios, a los Romanos y a los Efesios. Para San Pablo el carisma pertenece a la cotidianidad y significa simplemente funciones o servicios, todos animados por el Espíritu Santo y por Cristo resucitado, cabeza en la Iglesia y en el cosmos, lo que implica una descentralización del poder, presente en todos y todas.

De manera resumida, el hecho histórico es el siguiente: Hasta el siglo IV la Iglesia era fundamentalmente una comunidad fraternal. Desde el momento en que el cristianismo fue declarado por el emperador Constantino (325) “religión lícita”, por Teodosio (391) “religión obligatoria” para todos, prohibiendo el paganismo, hasta culminar con el emperador Justiniano (529) transformando los preceptos cristianos en leyes civiles, se gestó entonces la Iglesia-gran-institución. De religión perseguida pasó a religión perseguidora de los paganos. Siendo “religión obligatoria”, todos tuvieron que asumir la fe cristiana, creando una Iglesia de masas, no por conversión sino por obligatoriedad bajo el miedo y la amenaza de muerte.

Con la decadencia del imperio romano, el obispo de Roma León Magno (440-461) asumió el poder y el título de Papa (abreviación de pater patrum, padre de los padres), reservado hasta entonces a los emperadores. Junto al estilo imperial se asumieron también los palacios, el báculo, la estola, el manto (muceta) símbolo del poder monárquico, la púrpura y otros símbolos imperiales y paganos que perduran hasta el día de hoy. 

La Iglesia-gran-institución no pasó la prueba del poder. En ella se realizó lo que afirma Thomas Hobbes en el Leviatán (1615): “Señalo, como tendencia general de todos los hombres, un perpetuo e impaciente deseo de poder y más poder que solo cesa con la muerte; la razón de eso reside en el hecho de que no se puede garantizar el poder sino buscando más poder todavía” (cap.X). Los Papas empiezan a acumular poder hasta llegar al Papa Gregorio VII con su Dictatus Papae (la dictadura del Papa), que proclama al Papa como señor absoluto sobre la Iglesia y sobre los emperadores o reyes. Ya no bastaba ser sucesor de Pedro. El Papa Inocencio III(+1216) se anunció como vicario de Cristo y finalmente Inocencio IV(+1254) se estableció como representante de Dios. Todavía hoy se atribuye al Papa, según el derecho canónico, un poder que parece pertenecer solamente a Dios. El Papa es portador de un poder sagrado “supremo, ordinario, pleno, inmediato y universal” (canon 331). A esto se añadió en 1869 la infalibilidad en asuntos de fe y moral. A más no se podría llegar.

La consecuencia ha sido el surgimiento de una Iglesia-sociedad piramidal, monárquica, rígida y rigurosa, que en términos doctrinales de sus inquiridos, fue mi experiencia, no olvida nada, no perdona nada y exige todo. En este modelo de Iglesia se verifica lo que el psicoanalista C.G.Jung afirmaba: «Donde prevalece el poder no hay lugar para la ternura ni para el amor».

Los únicos Papas que rompieron con esta tradición, celosa de su poder sagrado y monárquico, fue el Papa bueno Juan XXIII y explícitamente el Papa Francisco que, en sus primeras palabras, dijo gobernar la Iglesia en la caridad y no en el poder sagrado. Por eso pide a los pastores la “revolución de la ternura”. 

Frente a ese modelo, hoy en profunda crisis estructural, surgió otro modelo de Iglesia red-de-comunidades fraternas. En la historia de la Iglesia siempre ha existido, especialmente en las órdenes y congregaciones religiosas, aunque nunca consiguió ser hegemónico. Pero adquirió densidad en la amplia red de comunidades eclesiales de base, extendidas actualmente por todo el universo cristiano y ecuménico. En ellas el poder es servicio real, cotidiano y participado por todas las personas en la medida en que cada una tiene su lugar en la comunidad. Hay muchos servicios y funciones (carismas): quien reza, quien enseña, quien organiza la liturgia, quien visita a los enfermos, quien trabaja con los jóvenes, todos en pie de igualdad, según dice San Pablo (1Cor 7,7;12,29). Hay una función (carisma) singular que es la de crear unidad y cohesión en la comunidad haciendo que todos los servicios (carismas) confluyan al bien común: es el servicio de presidir la comunidad. Como tal, preside también la eucaristía, no como función exclusiva, sino simultánea con las demás. Su función no es concentrar sino coordinar.

Este modelo traduce mejor el mensaje y el ejemplo del Jesús histórico que no quiso ningún poder y que estableció todo el poder como servicio y no como dominación (Mt 23,11). Este modelo se presenta como otra forma de organizar la herencia de Jesús, de gestar una Iglesia más conforme con su sueño de todos hermanos y hermanas (Mt 23,8).

Este modelo comunional se presenta más adecuado a la verdadera evangelización, que significa encarnar  mensaje cristiano en las diferentes culturas, asimilando sus modos de ser. La Iglesia sería como un inmenso tapete de colores, hecho con un tejido inmenso de comunidades cristianas, diferentes en sus cuerpos, pero todas unidas en el mismo testimonio de la vida nueva traída por Jesús muerto y resucitado. Caminaría junto con el proceso de mundialización que lentamente construye la Casa Común, el mundo necesario, dentro del cual están los varios mundos culturales (asiático, africano, latino, indígena etc). Ahí estará la Iglesia-gran-institución, que seguramente pervivirá pero sin la hegemonía actual, y principalmente la red inmensa de comunidades cristianas diversas y unidas en el mismo testimonio del Resucitado y de su Espíritu, junto con otras iglesias y caminos espirituales al servicio unos de otros y de la única Casa Común que tenemos, la Madre Tierra.

*Leonardo Boff ha escrito Iglesia: carisma y poder, Record, Rio de Janeiro 2005; Eclesiogénesis: la reinvención de la Iglesia, Record, Rio de Janeiro 2008; Francisco de Asís y Francisco de Roma: una nueva primavera en la Iglesia, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2015.

Traducción de Mª José Gavito Milano

    Igreja: carisma e poder: 40 anos

 O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) do Sergipe organizou entre 25-28 de outubro uma série de palestras sobre o livro Igreja: carisma e poder que celebra 40 anos de sua publicação em 1981. O CEBI é uma articulação nacional de grupos populares e ecumênicos que estudam a Bíblia de forma aprofundada, como inspiração de práticas inovadoras para dentro da Igreja e também libertárias na sociedade. O propósito era mostrar a atualidade dos temas nele tratados que articulam a Igreja com a sociedade e os modelos de Igreja vigentes.

Foi este livro que foi ajuizado em 1984 pela Congregação da Doutrina da Fé levando seu autor, no caso eu, a um verdadeiro processo judicial. Culminou em 1985 com uma “notificação” e não um decreto condenatório, proibindo a reedição do livro e a imposição ao autor de um tempo de “silêncio obsequioso”. Não se faz nenhuma condenação doutrinária, apenas se diz como conclusão:”Esta Congregação sente-se na obrigação de declarar que as opções aqui analisadas de Frei Leonardo Boff  são de tal natureza que põe em perigo a sã doutrina da da fé, que esta Congregação tem o dever de promover e tutelar”

Observa-se que não se trata de doutrinas (campo dos dogmas) mas de “opções”(campo da moral) que podem significar um “perigo”. Evitado este perigo, não há porquê não seguir adiante nas opções que eram e continuam sendo: a centralidade do pobres e de sua libertação, o poder como serviço e não como centralização e a constituição legítima de comunidades eclesiais de base, como uma reinvenção da Igreja nos meios populares (eclesiogênese).

Lendo-se todo o texto do Card.Joseph Ratzinger expondo os tais “perigos” nota-se um equívoco de leitura. Leu-se não Igreja:carisma e poder, mas Igreja: carisma ou poder.Esta alternativa não se encontra em nenhuma página do livro. Afirma-se a legitimidade de um poder na Igreja junto com o carisma.

Seguramente o ponto central que a Congregação viu como “perigo”foi o confronto entre um modelo de Igreja, sociedade hierarquizada de poder sagrado e outro modelo de Igreja, comunidade fraterna de iguais com funções diferentes. O primeiro modelo dominante é o da Igreja-grande-instituição composta de clérigos, portadores do poder sagrado e de leigos sem poder de decisão nenhum.Aqui surgem as desigualdades, especialmente fechando as portas ao ministério sacerdotal às mulheres e impondo a lei do celibato obrigatório a todo o corpo clerical. O outro modelo é o da Igreja-rede-de-comunidades, todos sujeito de poder sagrado, exercido em funções(carismas) diferentes.

Ambos os modelos se  reportam ao passado da Igreja, o primeiro especialmente ao evangelho de São Mateus que confere grande importância a Pedro(Mt 16,18;18,16) que originará a centralização, chamada de “cefalização”(tudo se concentra na cabeça); o segundo às cartas de São Paulo que referem uma Igreja, comunidade de irmãos e irmãs, dotada de muitos carismas (funções e serviços), especialmente, em suas Cartas aos Coríntios, aos Romanos e aos Efésios. Para São Paulo o carisma pertence à cotidianidade e significa simplesmente funções ou serviços, todos animados pelo Espírito Santo e pelo Cristo ressuscitado, cabeça Igreja e no cosmos,implicando uma descentralização do poder, presente em todos e todas.

O fato histórico é, resumidamente, o seguinte: até o  século IV a Igreja, fundamentalmente, era uma comunidade fraternal. Do momento em que o cristianismo foi declarado pelo imperador Constantino (325) “religião lícita”, por Teodósio (391) “religião obrigatória” para todos, proibindo o paganismo até culminar com o imperador Justiniano (529) transformando os preceitos cristãos em leis civis, gestou-se, então, a Igreja-grande-instituição. De religião perseguida, passou a religião perseguidora dos pagãos. Sendo “religião obrigatória”, todos tiveram que assumir a fé cristã, criando uma Igreja de massa, não por conversão mas por obrigatoriedade sob medo e ameaça de morte.

Com a decadência do império romano, o bispo de Roma Leão Magno (440-461) assume o poder e o título de Papa (abreviação de pater patrum, pai dos pais), até então reservado aos imperadores. Assume-se junto o estilo imperial, os palácios, o báculo, a estola, o manto (mozeta) símbolo do poder monárquico, a púrpura e outros símbolos imperiais e pagãos que perduram até os dias de hoje.

A Igreja-grande-instituição não passou pela prova do poder. Nela se realizou o que afirma Thomas Hobbes no Levitã (1615):”Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”(cap.X). Começa a acumulação do poder dos Papas até chegar com o Papa Gregório VII com o seu Dictatus Papae (a ditadura do Papa) a proclamar o Papa com senhor absoluto sobre Igreja e sobre os imperadores ou reis. Já não bastava ser sucessor de Pedro. O Papa Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário de Cristo e, por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou representante de Deus. Hoje ainda se atribui ao Papa, consoante do direito canônico, um poder  que, parece, pertencer somente a Deus. O Papa  é portador de um poder sagrado”supremo, ordinário,pleno, imediato e universal”(cânon 331). A isso, desde de 1869, se acrescentou a infalibilidade em assuntos de fé e moral. Mais não se poderia ir.

A consequência é o surgimento de uma Igreja-sociedade piramidal,monárquica, rígida e rigorosa, que em termos doutrinários, de seus inquiridos, foi a minha experiência, nada esquece,nada perdoa e tudo cobra. Nesse modelo de Igreja se verifica o que o psicanalista C.G.Jung afirmava:”Onde prevalece o poder não há mais lugar para a ternura nem para o amor”.

Os únicos Papas que romperam com esta tradição, ciosa de seu poder sagrado e monárquico, foi o bom Papa João XXIII e explicitamente o Papa Francisco que, em suas primeiras palavras,disse governar a Igreja na caridade e não no poder sagrado. Por isso cobra dos pastores uma “revolução da ternura”.

Face a esse modelo, hoje em profunda crise estrutural, surgiu o outro modelo da igreja, rede-de-comunidades fraternais. Ela sempre existiu na história da Igreja, particularmente, nas ordens e congregações religiosas, mas nunca conseguiu ser hegemônica. Mas ganhou densidade na vasta rede de comunidades eclesiais de base, atualmente, espalhadas em todo o universo cristão e ecumênico. Nelas o poder é serviço real, cotidiano e por todos participado na medida em que cada um tem o seu lugar na comunidade. São muitos serviços e funções  (carismas), quem prega, quem ensina,quem organiza a liturgia, quem visita os enfermos, quem trabalha com os jovens, todos em pé de igualdade, consoante São Paulo (1Cor 7,7;12,29).Há uma função (carisma) singular que é o de criar a unidade e a coesão na comunidade fazendo com que todos os serviços (carismas) confluam para o bem comum: é o serviço da presidência da comunidade. Como tal, preside também a eucaristia, não como função exclusiva, mas simultânea com as demais. Sua função não é concentrar mas coordenar.

Este modelo traduz melhor a mensagem e o exemplo do Jesus histórico que não quis nenhum poder e que estabeleceu todo o poder como serviço e não como dominação (Mt 23,11). Esse modelo apresenta-se como uma outra forma de organizar a herança de Jesus, de gestar uma Igreja mais conforme com o seu sonho, de todos irmãos e irmãs (Mt 23,8).

Este modelo comunional se apresenta mais adequado à verdadeira evangelização que significa encarnar a mensagem cristã nas mais diferentes culturas e assimilando seus modos de ser. A igreja emergiria como um imenso tapete colorido, feita uma teia imensa de comunidades cristãs, diferentes em seus corpos, mas todas unidas no mesmo testemunho da vida nova trazida por Jesus morto e ressuscitado. Caminharia junto com o processo de mundialização que lentamente constrói a Casa Comum, o mundo necessário, dentro do qual estão os vários mundos culturais (asiático, africano, latino, indígena etc). Aí estará a Igreja-grande-instituição que seguramente persistirá mas sem a hegemonia atual e principalmente a rede imensa de comunidades cristãs diversas e unidas no mesmo testemunho do Ressuscitado e de seu Espírito, junto com outras igrejas e  caminhos espirituais a serviço de uns e de outros e da única Casa Comum que temos, a Mãe Terra.

Leonardo Boff escreveu Igreja: carisma e poder, Record, Rio de Janeiro 2005;Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja,Record,Rio de Janeiro 2008; Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2015.